Seroes Revista Mensal Ilustrada 1903-1904 N18-14
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* DE ARGIS=A ARCHITECTURA:DA RE- ministração: abra do: di El kisboa Ns SUMMARIO Ca A ACTRIZ VIRGINIA-VINTEDIAS NA RUSSIA=O IMPERADOR FRUS TINO/-A. ORIENTAL—O MOS EEIRO: NASGENÇA EM PORTUGARE-UMA CA- BRA E OS SEUS CABI S— VELHA HISTORIA-VARIEDADES. x
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SUMMARIO TER TRES Pag. A ACTRIZ VIRGINIA — Zor Braz Burury — Com 7 ilustrações... ..cecsiseos 308 VINTE DIAS NA RUSSIA. — 7npressões de uma primeira viagem — Por Z. Const- GLIERI PEDROZO — (Continuação) — Com r4 ilustrações ....rewva 319 FAUSTINO | — 7mperador de Haiti — Por AntTONIO FERREIRA DE SERPA — Com 1 ilustração . EE SUAR RETA Ro DO TT RS E EI 343 A ORIENTAL — Zu/roducção: musica para piano por FURTADO COELHO.... . + UU ga O MOSTEIRO DE ARGIS — (Balada da Valaquia) — Com 1 illustração... 348 A ARCHITECTURA DA RENASCENÇA EM PORTUGAL — 79 ArprecHr Haupr. — (Continuação) — Com 16 illustrações .....ruvesterararaseress Djair e AR UMA CABRA E OS SEUS CABRITOS — Narativa japoneza — Por WENCESLAU OMI ORA ES Ee im 06,9% io po afáo o SUA to 2 e ata 5 364 VELHA HISTORIA — Com 4 ilustrações... . cc ccccsesercrirererereo PR RA jr VARIEDADES. — MEMENTO ENCYCLOPEDICO — NECROLOGIA ........... DOE UNE 47 AS ILLUSTRAÇÕES CONDIÇÕES D'ASSIGNATURA Os senhores assignantes de Lisboa e do Porto podem satisfazer o preço do numero no acto da entrega ou pagar adiantadamente uma serie de 12 numeros, tendo n'este caso a reducção do preço a 2$200 réis, o que «equivale a receber gratuitamente um nu- mero da serie. Os senhores assignantes de qualquer outra terra do paiz, ilhas e possessões portuguezas poderão inscrever-se (pagamento adiantado) por : 3 numeros ........... - .. 500 Series de SG numeros ...... o. sr »— 14200 12 numeros .....eero.. BÍZ0OO Para os paizes da União Postal, por serie de 12 numeros (pagamento adianta- do), 38000 réis, moeda portugueza. Para o Brazil (moeda brazileira), 188000 réis por serie de 12 numeros, pagamento adiantado. — Numero avulso 18500 réis (moeda brazileira). Assigna-se em todas as livrarias do paiz, e em todas as estações postaes; vende-se avulso em todos os lugares do costume e na Administração dos SERÕES, em Lisbôa, Calçada do Cabra, 7 Typ. € impressão dos Serões, C. do Cabra, 7 Editor, Thomaz Rodrigues Mathias.
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| | Com a publicação d'este numero 24 completa-se o IV volume dos SERÕES, e ultimo da série que a actual empreza iniciou. A publicação da segunda série terá por editor a Livraria Ferreira. A impossibilidade: de manter, a sahida dos numeros da Revista, aquella periodicidade, que foi promettida e a nosso pesar quasi nunca cumprida, obriga-nos a en- tregar o encargo. Não faltou a animar-nos no emprehendimento — justo e necessario é dizel-o —o favor e o carinhoso acolhimento do publico. Lançada no mercado, sem recommendação de nomes que abonassem a direcção, posta, á venda com a simples indicação do domicilio, a revista SERÕES foi re- cebida com largueza desusada, do que dão incontestavel attestado os: nossos registos de compradores que se elevaram a alguns milhares dentro do paiz. A experiencia foi concludente. Feita com o mais escrupuloso cui- dado que nos foi possivel realisar, cumprindo o seu simples programma. de fornecer leitura variada e amena, conservando sempre o mais stricto recato na prosa e na illustração para que podesse ser recebida na fami- lia com confiança, a revista SERÕES iniciou O genero magazzine que o publico de todos os paizes tão calorosamente prefere na épocha presente, e approximam-se, quanto soube, d'essas publicações extrangeiras, não só no texto, como na feitura material. Quem percorrer os indices dos qua- tro volumes publicados poderá confirmar este asserto. A todos leitores e collaboradores que generosamente animaram, honraram e illustraram a revista, agradece reconhecida A EMPREZA
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Gavota, por Aucusto MacHaDo. — Nu- mero 1. — A Resurreição de Christo, Oravoria, por - D. Lorenzo Prost. — Num. 2. Rachel, Valsa, por Laura EscricH. — Num. 3. “Folha d'Album, por Oscar DA SiLvA. — Num. 4. » “Feiticeira, Valsa, por EDUARDO BoEYÉÊ DE Pasca. — Num. 5. O que dizem as ondas, Valsa, por Iza- BEL DE Camros ProwELL .— Num. 6. Meditação, Mazurka, por VISCONDESSA DE Faria PrxHo. — Num. 7. Romanza, por A. Brinira, (D. Maria Bravo). -- Num. 8. O Tição Negro, Serenada do 1.º acto, por Augusto MacHADO. — Mum. to. Dansons! Zas-de-quatre, por M. JuLIA Loureiro DE MaceDO. — Num. 11. Rapsodia d'Agueda, (Musica popular). — Num. 12. Os SERÕES teem publicado as seguintes ' MUSICAS PARA PIANO Le Ballet du Roy, Gavota, por LuLLY. —Num. 13. Gipsy, Vaisa, por C. L. — Num. 14. Maria da Gloria, Vaisa, por CARLOS Prs- TO CogLHO: — Num. I5. Minuete, por J. P. Rameau — Num. 16. Luisette, Valsa, por F. DE BORJA ARAUJO. — Num. 17. Minuete, por J. B. LoLiy — Num. 18. Descantes, por Augusto MAcHADO. — Versos de J. de Souza Monteiro. — Num. 19 Absorta, versos por Jos nE Souza Mon- TEIRO, musica de M. GRISALDE— Num. 20. Ballada Portugueza por Josi D'Acur- DA-— Composta para piano e canto, por D. Franco;— Num. 21. Recuerdo, Valsa por G. S.— Núm. 23. A Oriental, Zutroducção para piano por FurraDo CogLHO. — Num. 24
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A ACTRIZ VIRGINIA (4 Maria Emma para ella mais tarde lér aos filhitos e elles saberem como era grande e boa, Santa Virginia, sua avó). Ão é bem um estudo critico, e menos N nda um retrato biographico, esta cer- cadura banal de parola com que a des- medida e amavel confiança de um camarada me incumbe de emoldurar, no pinho tosco e bisonho da minha prosa, as gravuras que os Serões consagram a Virginia Dias da Silva— o mais delicado e radioso, mais sereno e do- minador, mais completo e espontanco, mais pesscal e emotivo temperamento artistico de Mulher que, em suaves polychromias de talento, tem esmaltado, de ha trint'annos, os pannos esborratados e as tabuas desconjun- ctadas dos palcos portuguezes. Na minha cultual admiração pela Arte affavel e clara, toda sentimento e simplici- dade, toda doçura e intuição de Virginia, eu que a adoro como comediante e que, como Senhora, a venero, eu que, no Palco, fascinado pela magia feiticeira da sua voz, captivo das carícias brandas e irresistiveis do seu olhar, com o coração a amo, como mulher, no amor santo que aos cabellos brancos de minha mãe consagro e que, no convivio generoso do seu lar, ao vel-a, no enlevo terno da alacria chalrante da filha e no hallo de conforto e Vaffecto em que o marido a envolve, me curvo, com o espirito subjugado pela bon- dade infinita da artista que mais alto e mais fundo, na nossa terra sentimental e amorosa, tem riscado na alma das platéas a emoção divina do sentimento e do amor, dos choros que alliviam e das dores que purificam, eu, como biographo, sinto tel-a conhecido de- masiado tarde, e, como critico, reconheço tel-a visto demasiado cedo para poder, com animo frio e copia de factos, traçar.lhe um retrato que se lhe assemelhe ou esboçar-lhe um estudo que a defina. Mas, não sendo nem estudo nem retrato, não é — Deus me defenda! — o artigo cor- rente, louvaminheiro e bombastico, com ad- jectivos em folha e agua no bico, que, em dias de beneficio ou vesperas de peça, a rhe- torica lusitana, sempre fertil e videira, pes- pega à cola dos cometas apagados do nosso firmamento artistico e que no papel ficam pyrilampando como soes chisparreantes de talento e creadores uberrimos de prodiígios — maravilhas do mundo com porta p'r'á escada e trez repenicadas .. glorias nacionaes com a immortalidade a prazo fixo e jazigo de fa- milia no esquecimento do A'manhã. Virginia, no Palco e na Vida, como come- diante impulsiva e mulher affectuosa, como artista que sente e vive a sua Arte em radia- ções prodigiosas de sensibilidade e theatra- lismo e como donna que cultiva e enflora o seu Eu em canduras de bondosa dignidade e senhoril delicadeza, é uma grande actriz e uma grande dama, um grandissimo talento e um desmesurado coração. No Palco, nunca teve uma rival, um inimi- go; nunca a abocanhou a baba reptilica da calumnia, nunca a aferroou a peçonha enve- nenada da intriga—na Vida, semeando en- cantos, colhendo affectos, na linha inflexivel d'uma Alma Eleita, despilfarrando thesouros de abnegação e enxugando lagrimas de de- sespero, eu sei de affeições que a deificam,
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310 de peitos que a estremecem como o seu Anjo Bom e a sua Sombra tutelar — Santa Virgi- nia, Senhora Nossa, Rainha dos Palcos e dos Corações. o Virginia, que, no theatro portuguez, sem diplomas e sem preparatorios conservatoriaes, é, com o velho Taborda, o mais extranhoeco- lossal especimen da improvisação e da espon- taneidade latinas, Virginia, que dentro do re- pertorio cosmopolita dos seus 38 annos de proscenio, dês do chinesismo enrabichado da Hlor de Chá té aos zelos tigrinos da slava Fedo- ra, sem falsear as rubricas, sem deturpar os ca- racteres, nacionalizou todos os seus persona- gens em rasgos assombrosos de ensimesmação e de personalismo, Virginia, que foi sempre grande nas heroinas romanticas e affectivas da dramaturgia extrangeira, dês da Fernanda do Sardou à Desdemona do Shakspeare, mas que foi colossal e estupenda nas duas unicas almas femininas do theatro portuguez, Vir- ginia, a Maria ideal do Frei Luis de Sousa e a divina Magdaiena da obra prima de Garrett, é mais do que uma artista de infinitos recur- sos e de suprema intuição, Virginia é a en- carnação artistica da mulher da nossa raça, synthese theatral da feminilidade lusitana, symbolo, a que se rende culto como imagem scenica das nossas mães e cias nossas eleitas, de tudo o que ha de casto e eterno na nossa historia, de santo e indestructivel no sangue das nossas veias. Mas não é simplesmente a maior organiza- ção artistica de Portugal: neste dessoramento ethnico de internacionalismos e bastardias de temperamentos, que nos veem de Fran- ça, como os bibelots e osl meninos e come- çam, pelo visto, a vir-nos da Russia, como o caviar e os coiros das carteiras, Virginia é a unica organização artistica genuinamente portugueza que tem nascido em Portugal e mestes tempos de aviltações e lamaçaes em que tudo se pollue e se subverte, em que o Presente é, na sua infamia, uma encruzilhada eo Futuro, na sua incerteza, se promette um monturo, Virginia é, dês do seu physico pe- ninsular de morena, de grandes olhos rasga- dos, luminosos e expressivos como as noites estrelladas do nosso ceu, cabellos fortes e ondeados como as aguas revoltas da nossa costa, té ao som crystalino da sua voz feita do calor vivificante do nosso sol e do murmu- rio cadencioso das nossas fontes, do gorgeio estridulo das nossas aves e das toadas plan- gentes das nossas rapsodias, um pedaço vivo da Alma-mater do nosso Passado, uma scentelha fulgurante d'aquelle fogo indomito, que através dos mares e das pelejas, nas aventuras do Oriente e nos combates da Fé, Serões cantavam a saudade da mulher portugueza» os seus amores e as suas lagrimas, os seus anceios e as suas angustias, nas paginas das Epopeas e nos marmores dos monumentos, nos roteiros dos navegantes e nas espadas dos heroes. E) Virginia nasceu a 19 de março de 1850 em Torres Novas, no coração da Extrema- dura, n'esse recanto typico e genuinamente nacional da nossa linda paysagem lusitana, e, filha de gente pobre, humilde e laboriosa, de lá veiu pequenina, com 6 mezes, para Lis- boa —a verdadeira patria dos seus triumphos e dos seus encantos, torrão amado do seu berço e do seu lar, onde a infancia lhe sor- riu, onde lhe sonhou a mocidade, onde mu- lher as primeiras dores a feriram, onde artis- ta a Gloria a beijou. Nasceu em Torres, mas é de Lisboa; mui- to alfacinha, muito nossa, porque entregue a uns tios que, modestos, viviam na lucta obscura pelo pão quotidiano, Virginia foi crescendo, inquieta e precoce, entre as qua- tro paredes dum soturno predio lisboeta, n'uma dessas viellas esconças e tristes que hoje mal se advinham nos estuques catitas e pintalgados da Avenida. Vizinha do ve- lho pardieiro da Rua dos Condes, lazardento e glorioso ninho do nosso theatro contempo- raneo e: dos nossos grandes artistas do Re- nascimento Garrettino, como seu tio, accio- nista ou amigo da Empreza, houvesse entrada franca nos ensaios e, de quando em vez, o seu camarote de favor, Virginia começou, novita, a frequentar o theatro, a conhecer os artistas, a fremir de enthusiasmo pelos grandes lances do reportorio, a decorar-lhe as tiradas sono- ras, a mimal-os n'uma obsecção nevrotica, e, n'uma hypnose estiolante, a dizel-os de fio a pavio, com inflexões e tremulos, ges- tos e visagens, de estarrecer em extasis devo- tos a familia que se benzia e se babava com a queda da pequerrucha p'rás exteriorisa- ções passionaes do sentimento e da dôr, la- grimas pungentes que lhe deslizavam pelas faces, gritos angustiados que se lhe afogavam na garganta. Em noites de theatro, estarrecida, extati- ca, n'uma tensão galvanica do seu organismo- sito apenas nubil, toda ella era nervos, toda olhos, toda ouvidos: n'uma intensidade fe- bril de comprehensão, n'um espasmo offe- gante de assimilagem, chorava os infortunios da dama, sentia a paixão do galã, sofíria os tormentos da ingenua, odiava, em arripios de pavor, as coleras vindicativas do tyranno. E, assim, os primeiros problemas da vida, as primeiras illusões, os primeiros sonhos, mor- diam-lhe o cerebello na farraparia luciolan-
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A actriz te dos dramas de capa e espada, pagens e castelãs, guerreiros e trovadores que a ini- ciavam na Existencia, no convencionalismo sentimentalico e fruste da dramaturgia da epocha; e, na sua candura immaculada de virgem, nos seus planos de pobresinha que precisaria vir a ganhar o pão, o theatro appa- recia-lhe, dominador e avassalante, em radia- ções de Paraiso e de Fortuna, de Felicidade e de Gloria. Na sua religiosidade infantil, arraigada e profunda, o Ceu era para ella uma grande salla de espectaculo, apinhada de gente a applaudir frenetica os Bemaventurados e as Santas:— uma caixa de theatro descomunal e brilhante em que a Anjaria cantava, no urdimento celeste das nuvens, as modinhas em voga nos finaes d'acto da Rua dos Condes e em que Deus Pa- dre, Todo Poderoso, de longas barbas auriluzentes, tinha a mas- cara pouco olympica do Theodo- rico e o mesmo vozeirão, caver- noso e profundo, como o ribom- bar dos trovões em noite de tem- pestade. Na edade em que as outras pequerruchitas sonham com a monaria e a bonecagem, Virgi- nia sonhava já com as ovações duma salla de espectaculos e, antes de se lhe esboçar pelo ra- ciocinio a vida, já por instincto vivia, febril e passional, da fe- bre, da paixão e da vida do thea- tro. Era a attracção do abysmo, o iman ciclopeo, mysterioso e in- definido, que arrasta ao crime o criminoso, que impelle ao mar- tyrio o asceta, que ergue ao he- roismo o apostolo, que grilheta cada atomo da humanidade ao seu destino irrefragavel e fatal: º pintor à téla, o navegador às ondas, o artista à sua arte, o desgraçado ao seu infortunio e o comediante ao palco, como o lychen aos ro- chedos, o musgo às ruinas, os ramiculos pa- rasitarios das orchydeas aos troncos adustos que lhe dão a seiva e o perfume, a floração bizarra das corolas e as polychromias sangui- nolentas das petalas. A queda, a bossa da pequerrucha, ia dando que fallar: da admiração da familia passou ao enlevo dos amigos, do cochichar pasmado dos vizinhos, ao espanto incredulo dos indif- ferentes. Encheu a casa, alastrou o predio Na Fror ve Cuá (aos 16 annos) Virginia 311 dominou a rua, interessou o bairro e, quando, um dia, os parentes se resolveram a fazer-lhe a vontade, a deixal-a tentar as taboas e a le- varam ao Principe Real a vêr se o Cezar Li- ma, — actor e societario com o velho Ruas da empreza do theatro—a aceitava e lhe confirmava a vocação, —a não ser a pro- pria Virginia, com mêdo de tanta feli dade junta, temerosa de vêr ruir na reali- dade d'uma recusa tantos sonhos e tanta es- perança, — ninguem duvidava que o Principe Real ia escripturar uma bella e verdadeira actriz n'aquella rapariguelha franzina e ti- mida, morenuda e quasi feia, com 16 annos de edade e quasi outros tantos d'amor entranhado, irresistivel e ingenito, à arte de representar. Feitas as apresentações, cor- tadas as arestas da frieza com O gume acerado da consabida carta de empenho — que, dês que o mundo é mundo, é a potente alavanca da Vida e dês que a Egreja sanctificou os sufragios é a commoda gazua da quietação da Morte — Cezar de Lima, a braços com a falta d'uma inge- nua, por haver renunciado no casamento a irmã de Anna Pe- reira que se dizia continuar a tradição da Manoela Rey, pon- tapeada para o cemiterio em ple- na exuberancia de talento e fres- cura, mandou-a lêr um papel. E, ou porque, de facto, Virginia o lêsse bem — o que é talvez pre- sumir demasiado da tensão ex- pectante dos seus nervos — ou porque, por habito, elle estivesse affeito a ouvir lêr muito mal — o que ainda hoje é acontece- deiro entre as nossas actrizes— a entrevista fechou dando-lhe o Cezar o papel de ingenua da comedia-drama Mocidade e Hon- za e dizendo-lhe que, quando o tivesse de- corado, apparecesse outra vez p'ra começar a valer... — Nunca tive alegria tamanha... N'aquel- la mesma tarde já eu sabia o papel na ponta da lingua... mas não me deixaram lá voltar logo. Fui d'ahi a dias... Disse-o todo. O Ce- zar, coitado! já meu amigo como ainda hoje é, gostou. Começaram os ensaios. Foi a peça... O que eu chorei!... Tive um ataque de ner- vos. Estava um valle de lagrimas... Como era assim negrusca, o pobre Cezar, no camarim, assodado, esfalfou-se, p'ra me fazer palida, a caiar-meacara com ogesso-mate... Mas... isso sim!?... Negra sempre... E depois as lagrimas,
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312 abrindo sulcos no gesso, riscavam-me, a negro, as faces e o queixo... Devia estar linda, vis- ta da platea .. . Tocoua campainha... N'uma convulsão, abracei-me aos que me rodeia- vam... Chorei...chorei...não queriair para a scena... Tinha mêdo, parecia-me que ia morrer. Toda eutremia ... Mas empurraram- me e lá fui... Na mão levava um ramo. Com o braço hirto, muito esticado andei todo o acto de ramo em punho... Dos bastidores a Anna Pereira, —sempre boa! —dizia-me que me- xesse os braços, que largasse o ramo, que ges- ticulasse. .. Mas nada! Sabia lá fazer gestos... com o ramo espetado... papagueci o meu pa- pelsinho .. . como Deus foi servido... mas o publico começou a amimar-me logo... Té me deram palmas... A Anna Pereira, no intervalo, tirou-lhe o ramo, esboçou-lhe dois ou tres accionados: — deu-lhe a primeira lição... D'ahi a dois dias o Diario de Noticias, de 17 de abril de 1866, dizia assim: «Estreou-se ante-hontem no theatro do Prin- cipe Real, e na comedia-drama em 2 actos Mo- CIDADE E HONRA, a actriz Virginia, uma inge- nua que revelou bastos dotes para ascenaea quem o publico applaudin freneticamente, ani- mando-a a proseguir em tão bella quanto difji- cil carreira.» º Começou assim. Ganhava 128009 réis por mez e ora fazia, no repertorio da casa, os pa- peis de ingenua, que deixara vagos o casamen- to de Margarida Pereira, e a que a morte vie- ra a roubar, n'aquelle mesmo anno, a inter- pretação luminosa da Manocla Rey, ora fazia travestis e pastorinhas nas operetas que inter- meiavam, em manchas facetas de musiquias, os cartazes pesados e lugubres dos melodra- mas e matas-gente. Na opereta, no Principe Cornelio Gil da Gran-Duqueza, com Faria no General Boum e Antonio Pedro no Barão Grog, como no final d'acto, todas as noites, os dois acto- res,—que intervallavam nos camarins em or- gias baratas de carrascão, iscas € peixe frito e vinham p'r á scena com as mandibulas engor- duradas, — tivessem de lhe agarrar, um, pela bota alta, amarella e afiambrada, outro, pela mãosinha enluvada em pellica branca, mal cahia o panno, sem uma queixa, sem uma reclamação, mordendo os labios de desespe- ro, reprimindo lagrimas de infortunio, Virgi- nia, que com os seus doze mil réis fazia equi- librios imprevistos de economia e privações, com o gesso-mate da maquilhagem caiava a luva que a mãozada do Antonio Pedro trans- formava em esfregão e com a oca das pare- des do camarim, amarelecia a vitella da bota em que o Faria deixava, em dedadas negras Serões o fartum e os residuos das ceiasmastigadas, à pressa, na lufa-lufa dos entre-actos, com de- cilittagens e empansinadelas de chegarem ao fim da peça abarrotades de comezaina e de gloria, bebcdos de vinhaça e de applausos, com arrotos pantagiuelicos de indigestão e rasgos geniaes d'Arte — por que artistas am- bos o eram, o Antonio Pedro mail-o Faria, ainda mais que beberrões. E embora trouxesse a todos os persona- gens de comedia ou de opereta, à chinezinha da Flor do chá ou a» garotelho da Ponte dos suspiros, um cunho pessoal de graciosidade e leveza, um esforço intelligente de acertar e fazer verdade, era, nas ingenuas dramaticas, que Virginia ia marcando, em graduações de progresso e de talento, a sua individualidade eo seu feitio, todo o fogo intensivo da sua paixão, toda a sensibeleria delicada da sua alma. Já antes de ir às mãos do grande mes- tre Santos Pitorra — que por si só valia a di- rigir um ensaio os longos annos de aprendi- zagem dos Conservatorios e Academias — Virginia destacava ao lado da Luiza Fialho, da Emilia Letroublond, da Anna Pereira, as maiores esperanças da epocha. A esse tem- po, ao vel-a, cheia de naturalidade e sentimen- to, de intuição e de verdade, a arrumar uma mala, n'uma scena muda do Abysmo, Pae Rosa, o outro mestre, sublinhou a sua ad- miração da platéa, n'uma salva de palmas e como os schius! rompessem de todas as bandas: Applaudam tambem, caramba ! que esta rapariga tem futuro e não se faz aquillo sem ter muita coisa dentro da cabeça! Depois, nas mãos de José Carlos dos Santos, dês do João Carteiro, que deu brado, té ao seu inicio no theatro deSardou, com a Antonia dos Solteirões, dando a replica e deixando na pe- numbra o proprio Santos, o Antonio Pedro, o Maggiolly — substituido algumas noites pelo Brazão—a Emilia Adelaide e a Amelia Viei- ra, cada novo papel era um triumpho, cada per- sonagem uma creação. Ia ganhando terreno, vencendo obstaculos, creando recursos, adqui- rindo aptidões, pulindo qualidades, conquis- tando o seu publico e, quando Santos — em 1870, tomou o leme do Theatro de D. Maria e olevou, em maré de rosas, a aguas nunca de- pois navegadas de brilhantismo scenico e pro- bidade artistica, — pilotando através dos ori- ginaes de Garrett, Cascaes, Mendes Leal, Pi- nheiro Chagas e das traducções de Castilho, Rebello da Silva, Latino Coelho e Ramalho Ortigão, uma companha de que eram matelo- tes Emilia Adelaide, Theodorico, Gertrudes, Antonio Pedro, Emilia Candida, Cezar de Li- ma, Pinto de Campos, Amelia Vieira, Mag- giolly, Alvaro, Barbara, Brazão, Falco, Cezar de Lacerda, João Gil e Moniz, —- Virginia to-
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A actriz mou posse do logar e dos papeis da Manoela Rey, extremando-a o Santos Pitorra, entre todos e acima de todas, como a actriz mais correcta e primorosa do theatro portuguez. s Foi n'essa phase da sua carreira, que a modelar ingenua dos Solteirões, da Fernanda, dos Nobres e Plebens, da Caridade, da Oração da tarde, da Magdalena e dos Mysterios de Paris, se aureolou, depois das victoriosas noi- tes do Drama do povo, Cura dºalmas e Pedra de escandalo, com a corda fulgentissima da mais colossal e divina, da mais maravilhosa e estupenda Ma- ria que tem vin- culado de gloria a obra mestra de Garrett... E compre- hende-se... Vir- ginia que fez por impulsos irresis- tiveisda sua vo- / cação, por in- | tuições faiscan- | tes de talento a |+ sua marcha as cencional p'r” ó zenith astralico da grande Arte, da Arte imma- culaveldasgran- des eleitas e das raras triumpha- dóras, ella que nunca passou por uma escola e que pisou o palco sem ter aprendido uma regra, sendo uma artista de sentimento, uma amorosa e uma candida, ao topar com a Maria do Frei Luis, sen- tiu o personagem, amou-o e viveu-o com a candura e a sentimentalidade da sua al- ma lilial de ingenua e boa rapariga, sem se prender aos rebotalhos convencionaes das Escolas, sem se enredar nos torvelinhos di- daticos dos figurinos, sem se amoldar aos des- temperos theoricos dos mestrados, com toda a lisura do seu caracter recto, com toda a limpidez da sua alma crystallina, com toda a serenidade da sua consciencia tranquilla e com todos os arrebatos do seu talento por- tentoso e fascinador. Por instincto, advinhando o naturalismo, do seu primeiro papel na Mocidade e honra à sua ultima rabula no Casamento e Mortalha, o processo artistico de Virginia, o seu segredo e a sua technica, consistiam em lêr um papel, em Va Fepora de Sardou Virginia 313 metter-se-lhe dentro e, começando por acre- ditar que tudo aquillo era verdade e era real, que tudo lhe tinha acontecido ou estava p'ra acontecer, mal lhe distribuiam um persona- gem a Virginia deixava de ser a Virginia e era, em casa e no palco, de dia e de noite, no camarim e na rua, O personagem vivo, material, que o dramaturgo idealizara na es- piritualização scenica da sua Arte. A Maria do Frei Luis de Sousa, com to- dos os seus anceios e todas as suas precoci- dades, toda a candura angelical da sua alma e todas as presciencias morbidas da sua inno- cencia, sentimental e pura, intelligente e tris- te, com o espiri- to mergulhado no contemplar heroico do pas- sado e o cora- çãosito a arfar na affectividade carinhosa da sua sensibeleria, alma de passa- rito em cerebro dc vidente, en- carnação espiri- ta, auroral e et- hnica, de toda uma epoca e de toda uma raça, com oscrepes de Alcacer Kibir a enlutarem-lh e as grinaldas ly- riaes de virgem e os sonhos de nubil a irisarem- lhe as tristuras de prematura viuvita da Chimera, a Maria do Garrett, syn- these em espuma d'uma nacionalidade em cinza, comoveu té às lagrimas, esfarrapou té ao sangue, na prosa ductil e emotiva, na re- constituição dramatica do Poeta amoroso da Joanninha e da Dona Auzenda, o tempera- mento artistico de Virginia, creatura similar na Vida à estatueta romantica da obra gar- rettiana e tão fundo a picou, na sua alma e nos seus nervos, tão rijo a mordeu, na sua sensibilidade e na sua medulla, que as la- grimas brotavam-lhe irriprimiveis e sinceras, espontancas e amarissimas na exteriorisação scenica da orphãosita a que não morreram os paes e os vê mortos no sepulchro eterno, pesado e frio, dos habitos religiosos que os faz cadaveres. Virginia chorava, hemoptisava-se, morria: o sangue geleva-se-lhe nas veias, paresiavam- se-lhe os musculos, a rigidez algida da tumba
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314 beijava-lhe as carnes e cadaverisava-lhe os membros. Mais d'uma vez, ao cahir o panno, no calido redemoinho das ovações vibrantes, freneticas, das platéas peninsulares, Santos Pitorra — o Manuel Coutinho — levava-a em braços ao câmarim hirta, cataleptica, esvahi- da e exausta de angustia e commoção. Porque a Virginia no palco, na hypnose da sua Arte, sente e vive em emotividades cruas de realidade os seus personagens e os seus papeis. Artista de sentimento e de emoção, sem escola nem. aprendizado, tendo-se feito a si mesma e tendo-se completado no palco, ainda, outro, dia, ao vêr a Bartet, toda Arte, toda convencionalismo, toda Conservatorio e sabedorias, eu redobrei na minha adoração pela Virginia que por intuição, em esponta- neidades e advinhações, presentindo regras, prevendo theorias, em autosuprimentos de naturalidade, em achados maravilhosos de ignorancia, feria as mesmas notas, tapetava os mesmos caminhos com as petalas frescas, viçosas e perfumadas da mesma Arte-—metho- dica, reflexiva, postiça na Bartet — a Divina! impulsiva, espontanea, natural na Virgi- nia— a nossa Bartet, a nossa Divindade! Ambas Eleitas, ambas Divinas, a Bartet, nascida em França, educada no Conservato- rio, cultivada na Comedie, discutida e anno- tada pelos principes da Critica, paga a peso douro, cercada de conforto, de civilização e de gloria, tuteando os grandes nomes da Arte, privando com os grandes cerebros do Pensamento, dictando leis, impondo vonta- des, realizando caprichos, com a erudição vasta d'uma bibliotheca e a educação classi- ca dos maiores museus, e a Virginia, nascida em Torres, creada ali ao pé do Passeio Pu- blico, estreada no Principe Real, adestrada em gestos pela Anna Pereira, caracterisada a gesso pelo Cesar de Lima, com os seus doze milreisinhos de ordenado, fazendo por suas mãos os vestidos de cassa dos seus persona- gens, caiando as botinas dos seus Zravestis, sofrendo as baforadas vinhosas do Antonio Pedro e as mandibulas enfarruscadas da com- parsaria, içada por cordas nas apotheoses das magicas e pagando a prestações as con- tas da loja de modas e da mercearia, com o lêr e escrever da educação modesta do seu tempo e do seu meio e a cultura intellectual dos romances d'Arlincourt e das peças de Ennery, — ambas Eleitas, ambas Divinas—a Arte da Bartet tem o perfume enebriante das florações bizarras das estufas, requintados productos das culturas artificiaes e hyper- civilizadas que envenenam o cerebro e dão Serões hallucinações e o talento da Virginia tem o aroma delicado das violetas modestas das campinas, florzitas agrestes que irrompem espontaneas da terra e doiram de suavidade as almas e matisam de poesia os corações. Bartet é o espirito, a travessura, a futilida- de, a leveza do solo alacre da França—civili- zada e risonha, com uma revolução no bolso e um masso de figurinos no cerebro. Virginia é a bondade, a ternura, o senti- mentalismo e a tristeza da terra bemdita do Portugal, —bisonho e inculto, com uma gui- tarra na mão e uma matilha de credores à perna... Uma é a Arte nos seus refinamentos, outra, a Natureza nas suas maravilhas Bartet, admira-se; Virginia ama-se. Bartet como mu- lher é a artista; Virginia como artista é sem- pre a mulher. e Mulher, em pleno desarrolo do seu orga- nismo e do seu caracter, em plena maturação do seu talento e das suas faculdades, um horizonte novo se rasga, largo como o Infi- nito, vasto como o Soffrimento na carreira sempre brilhante e progressora, sempre trium- phalica cascensiva de Virginia, comasua tran- sição das ingenuas — a infancia que ri nos treze annos saltitantes do O que fazem as 10- sas,—a peça da estreia do Alvaro, em versos piegas do Eduardo Vidal —e a puberdade que se estiola nas neblinas de Flandres, da Patria deSardou—às primeirasactrizes dramaticasdo Acobrata e da Sphynge, iniciaes estalões p'r'o reportorio em que, de 1880 até à D. Magda- lena do Frei Luis, ella feriu, como nenhuma, a corda do sentimento e da emoção, almas que soffrem, consciencias que se revoltam, dignidades que se offendem, abnegações que se entregam, victimas que se resignam, amo- rosas que se sacrificam, mães que choram, esposas que são trahidas, amantes que são abandonadas: Dionisia, Fedora, Princeza de Bagdad, Duqueza de Septmonts, Ernani, Des- demona, Martyr, Principe Zilah, Casamento Civil, Córa, Grande Industrial, João Baudry, Grande Homem, Duque de Vizeu, Velhos, Um drama novo, Irmã, Santa Umbelina, Morta, Estatua, Marido, Henrique III e a sua côrte, Alcacer Kibir, Marquez de Villemer, Musotte, Catharina, todo o theatro do Marcellino de Mesquita, dês da Rainha da Leonor Telles à Julia da Dôr Suprema, todos os grandes car- tazes do reportorio Rosas & Brazão e todos os espectaculos viaveis das gerencias Posser, Ferreira da Silva e da aventura ephemera do theatro da Trindade. Até 1880 ella fôra a herdeira avantajada, a successora directa e perfeita do infortunado
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A actriz Virginia 315 temperamento artistico, arrebatado e fogoso, coadunaria hoje com as violencias descabel- romanesco e brusco de Manoela Rey e ao en- ladas da grande Emilia e é de louvar o Des- veredar no drama, no embate forte das puixões, nas grandes monographias femi- ninas que o Dumas paradoxava p'rá Croizette e p'r'á Bar- ERA, AA tete o Sardou car- pinteirava p'rá Sa- rah, Virginia rece- beu nas suas mãos patricias o sceptro que a Morte arran- cára à maior impul- siva da Arte por- tugueza, Emilia das Neves, a extranha e descompassada tra- gica, que a Ristori uma noite coroou em scena e que per- passou pelos nossos palcos n'um turbi- lhão vertiginoso de Genio e de Impre- visto, de sublimida- des extasiadoras de talento edescuncha - vos tremebundos de vulgaridade. Ao invez, porém, do que soe aconte- cer na successão dy- nastica dos reis, em que, por via de re- gra, tráz de mim virá quem bom me fará e está sempre uma pessoa a rogar ao Altissimo os haja em sua santa guar- da, não os levco dia- bo e venham outros peores, na successão scenica da Emilia das Neves — como na herança de Peza- ni em Italia recolhi- da pela Duse — de- purados os traços grosseiros, acarvoa- dos e rigidos da tragica, nas linhas delicadas e affaveis da subtil nervosidade da Virginia, amaciadas as arestas do passionalismo cru da Escola ultra-romantica nos contornos pulidos das meias tintas humanas do theatro moder- no, a pechosa sensibeleria dos nossos espiri- tos de derrancadinhos e impotentes, não se Na Vazia de Fernando Caldeira tino, em mysticas genuflexões de agradeci- mento, que em demasia nos favoreceu com os thesouros inexhauriveis e despilfarrantes do talento comedido e seguro, da arte paci- ficadora e inexcedivel da mais equilibrada e sensivel, da mais comovente e fascinante ac- triz moderna do theatro contemporaneo.
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316 Herdeira de Emilia das Neves, que na tragedia dava o assombro e o arripio da Zu- crecia Borgia e da Maria Stuart, e na come- dia deu a gracilidade rendilhada das Aventu- ras de Richeiieu, Virginia sublimando-se na morte pavida da Fedora, ou estylizando hu- morismos de Fernando Caldeira na Mantilha de renda, na Varina e na Sarah — se não ti- Serões communicabilidade contagiosa do riso, as gargalhadas do publico. A mulher quando chora seduz, quando ri enlouquece; as lagrimas são a logica dos ca- prichos, os sorrisos os acicates da paixão. O seu pranto e o gargalhar bussulam os dois polos magneticos em que o bicho-ho- mem se debate, a vida inteira, nos tenta- Nos jardins de sua casa em Bemfica: a actriz VIRGINIA, SUA FILHA, Seu MARIDO O actor FERREIRA DA SILVA nha os vôos condoricos, arrebatados e vio- lentos, destrambelhados e epicos da creado- ra da Joanna a doida e o esfusiar brincão e petulante, hilare e coceguento do Retrato vivo, no drama e na comedia, nunca ninguem como Virginia chorou no Palco, nunca nin- guem como ella riu em scena; — ninguem como Virginia, na immensidade da Angustia, dominou, magestosa e soffredora, as lagrimas dº uma platéa, ninguem como ella, sacudiu, na culos veludineos e tenalhantes da escravidão mysogina, da fatalidade atavica que o pren- de, dês Adão, às maçãs e aos fructos prohi- bidos das Evas despidas pelas tesoiras de Redfern e vestidas pelos mantos luxuriosos do Desejo e do Amor. Isto é da natureza humana e da Sabedo- ria dos Povos, e, em palavras mais bonitas, já . vem nos livros santos de todas as seitas e de todas as religiões, mas eu só o comprehendi,
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A actriz Virginia numa iniciação e n'um aviso do ceu —de me fazer pôr as barbas de molho no refugio tem- porão do matri- monio—ao ver a Virginia chorar, na Dôr Suprema e ao vel-a rir na Socie- dade onde a gente se aborrece... e A mocidade in- genua e casta, sen- timental e triste da nossa terra, a can- tar os seus sonhos, já altivos e efeme- ros, e a carpir as suas desillusões, ainda immacula- das e infantis, en- carnara-a Virgi- nia, quando moça, a Maria do Frei Luis, fechando, na sua festa artistica de 1880, a serie vastissima, glorio- sa e triunfal da sua primeira fei- ção artistica, alva como a candura, crystallica como a innocencia, perfu- mada e simples como a alma que lhe ria no peito — alma singela de criança n'um cor- po anguloso e os- sudo a que o ta- lento punha scin- tilancias pertur- bantes de Magia e de Belleza. Mulher, mordi- da já pelos emba- tes da vida, ferida nas batalhas do mundo, a cupular o edificio polyformico de corações que san- gram nos queimadeiros da Angustia e da Dôr, de espiritos que se evolam nas luctas da Paixão e da Ternura, ella que sublima- ra, n'uma estatueta delicada de Sévres, a fi- gura espiritualizada das filhas por tuguezas, que no symbolo magnificente de Garrett sagram, em traços maravilhosos de prodi- gio, as primaveras virginaes da nossa gen- te moça, divinizou no marmore impecca- ct tu J E a 317 vel e austero, rigido e forte da D. Magda- lena do Frei Luis, as mães e as esposas d'uma O camarim em D. Maria nanoitede festa em que ViraisIA recebeu o oflicialato de S. Thiago raça antiga e nobre, que tendo sido atavica mente a nossa, parece hoje perdida na gafa- ria podre e desvergonhada, surrelfa e suja dos pantomimeiros e serigaitas do nosso tempo. D. Magdalena de Vilhena é a personificação theatral da nossa grande dama, da nobre se- nhora dos nossossalões solarengos donde sa- hiam os heroes, os navegadores e os santos. Honesta e intelligente, resoluta e compassiva,
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318 extremosa e delicada, crente e soffrida, infe- liz e resignada, supersticiosa e santa, D. Ma- gdalena, toda candura e bondade, toda in- fortunio e nobreza, teve em Virginia, natu- ralmente intellectiva e digna, audaciosa e terna, dedicada e gentil, piedosa e concen- trada, triste e generosa, credula e boa, toda alma e sentimento, toda arte e pundonor, a mais fiel e perfeita, a mais verdadeira e scin- tillante interpretação que em fulgurancias de talento e benedictismos de detalhe, pode ar- co-irisar em scena os marmores serenos e eternos da grande estatua feminina em que Garrett moldou, com o sangue quente das nossas arterias e com o sentimentalismo ro- mantico dos nossos espiritos, a synthese ra- diosa e immortal da Mulher portugueza. A D. Magdalena da Virginia não foi a creação de um personagem: foi a corpo- risação de uma alma. Não foi a reconstitui- ção scenica de um typo: foi a exteriorização theatral de uma patria. Na ampliação generalizadora do persona- gem, que tem em si a symbologia da femini- lidade lusitana, Virginia deu à D. Magdalena a grandeza e a vastidão d'uma synthese de psycologia collectiva, tão luminosa e larga, tão caracteristica e ethnica, que ao vel-a em scena, ululante e desgrenhada, pundonorosa e vencida, dir-se-ia a encarnação miraculosa da Patria portugueza, infortunada e augusta, cavalheirosa e opprimida, a despedir-se do mundo de felicidades e victorias das navega- ções e conquistas da sua renascença manue- lina, p'ra entrar, como a esposa casta de Ma- nuel de Souza e a viuva saudosa de D. João de Portugal, no sepulchro esmagador e sotur- no da dynastia bringantina, na fatalidarte irre- paravel do jesuitismo, com o seu inicio de sangue nos areaes de Alcacer e a sua cupula de lama nas provações do presente. Artista insigne, mulher impeccavel, que no palco se diviniza e no lar se santifica, que pela sua arte arranca admirações e pela sua dignidade concita respeitos, agora. que a doença a affastou da scena, onde raro ella vem fulgir, na candura dos seus cabellos bran- cos e na maviosidade da sua dicção, os ver- sos sonoros da Historia antiga ou a prosa en- luvada do Casamento e mortalha, a sua car- reira artistica pode dizer-se terminada com a festa enthusiastica, inolvidavel e captivante com que, a 14 de junho de 1902, se comme- morou em D. Maria 11, n'uma florida apo- Bussaco — maio de 1904. Serões theose de affectos e carinhos, a mais bem cabida graça regia que das alturas do Mode- rador — conferindo-lhe o unico officialato de S. Thiago que decora uma actriz portugueza — tem cahido sobre o merito e o talento, a dignidade e a candura d'uma organização excepcional de Mulher e de Artista, de es- posa e de mãe... O palco juncou-se-lhe de flores; o cama- rim, colgado de sedas e tropheus, de luzes e verduras, assemelhava: se à um templo festivo e sagrado, em que as preces dos crentes, su- biam, em nuvens de felicitações e parabens, ao altar engalanado d'uma Madona milagren- tae bondosa, com um sorriso para cada de- voto, uma ligrima de agradecimento para cada officiante, Cã fóra na sala, dês da rainha D. Maria Pia té aos cachos de anonymos que se de- penduravam nas torrinhas, Lisboa em peso vibrava na mesma galvanisação de sympathia e de enthusiasmo e olhos resplendentes de ternura marcjaram-se de commoção, quando, ao fim dos Peraltas e Secias, artistas de todos os Lheatros, Taborda o bom velhote, Emilia Candida a santa velhinha, Cesar de Lima o faceto velhôrro—fizeram roda e versos dos maiores poetas da nossa Terra, começaram de desfiar, em rimas sonoras, rosirios de lou- vores à Rainha do Palco e dos Corações— Santa Virginia Senhora Nossa—que o decre- to de 24 de maio de 1902 agraciara com o habito de S. Thiago ea quem as mulheres por- tuguezas,—n'uma pasta pinturilada pelo de- dicado affecto de Antonio Ramalho—offer- tavam as insignias da Ordem c a homenagem do seu respeito, do seu amor e da sua admi- ração... «Foi a ultima vez que a vi chorar em scena. Nunca ninguem chorou no theatro como a Virginia, mas nunca Virginia havia chorado como n'aquella noite lagrimas bemditas e dulcissimas de felicidade, de alegria e de triumpho... Lagrimas victoriosas, lagrimas triumphaes que nunca n'um palco foram choradas com maior dignidade e maior talento, com mais espontanea Arte e Alma mais sublime... Lagrimas santissimas, lagrimas abençoadas que diziam na sua eloquencia toda a grande- za de um talento, toda a bondade de um cora- ção que eu quizera ter-lhes ensinado a amar n'estas Iythanias barbaras, oração fervorosa e rude a Santa Virginia, Senhora Nossa, Rai- nha dos Palcos e dos Corações... Braz Buniry.
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S. PereRSBURGO — À CATHEDRAL DE SANTO ISAAC Vinte dias na Russia (IMPRESSÕES DE UMA PRIMEIRA VIAGEM) Por Z. CONSIGLIERI PEDROZO CAPITULO V A CAPITAL (continuação) As ilhas. — A cathedral de Santo Isaac. — As egrejas. — A minha vista á Sociedade de Geographia. — O theatro na Russia. — Os allemães em S. Petersburgo. r É criptivamente, a que em mim produzi- ram as «ilhas» (ostrová),onde se acham alguns dos bairros mais pitorescos da cidade. Conforme se sabe, a parte principal de S. Petersburgo está situada na margem es- querda da Nevá. Foi ali que primitivamente começou a construil-a Pedro o Grande, quan - uma impressão difficil de traduzir des- do modificou o seu plano primitivo, no qual a Vassily Ostrov (ilha de Vassili) havia sido escolhida para centro da nova capital. À medida, porém, que a população foi cres- cendo, e que consequentemente se foi neces- sitando cada vez de mais largo espaço para a sua accomodação, principiaram as outras ilhas a povoar-se e a cobrir-se de edificações tambem. Actualmente quasi todas ellas são habitadas. Sómente o não são as chamadas ilhas livres na embocadura da Malaia Nevá e algumas das situadas ao sul da embocadura da Nevá, propriamente dita, ou Bolchaia Ne- vá, como a de Krugli, a de Trukhtanas etc. Das povoadas são as mais dignas de men- ção: a já citada Vassily ostróv; a Peterburgsky ostróv, onde se levanta o bairro de S. Peters-
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320 burgo; a Petróvsky ostróv, a ilha favorita de Pedro o Grande, que ali construiu o parque Petróvsky e o Castello de Pedro 1, casa que ainda hoje lá se vê; a Aplersky ostróv, notavel pelo jardim botanico, que nºella existe;a A'a- menny ostróv, onde se encontram os mais ri- cos chalets dos habitantes de S. Petersburgo, e que conta entre os seus edificios o pala- cio de Paulo I, a egreja de S. João Baptista — antigo cemiterio dos cavalleiros da ordem de S. João—, o palacio dos invalidos da marinha, e o theatro de verão, onde no mez de julho ha representações em francez, em allemão e em russo; a Avestovsky ostróv celebre pelo seu Castello, pelo soberbo parque Biclozersky, que em grande parte a occupa, e pela magnifica avenida Alexandrovsky, que a atravessa em todo o seu comprimento e de cuja extremi- dade oeste se descobre o vasto panorama do golpho da Finlandia; finalmente a Zelaghin ostróv,a mais septentrional de todas ellas, onde o tsar Alexandre 1 construiu para a impera- triz o palacio Ze/aghinsky, notavel sobretudo pelo formoso parque que o rodeia. Estas ilhas, quarenta ao todo, apenas se funde o gelo, que de inverno as cobre com o seu alvo lençol, transformam-se como por encanto, aos primeiros afagos da primavera, em risonhos jardins, atravessados em todas as direcções por alamedas encantadoras e pitorescos canacs. E ao longo d'essas ala- medas cheias de perfumadas sombras, que ninguem diria compativeis com tão alta lati- tude, e espelhando-se garridamente n'esses canaes parece que arrancados a alguma pai- sagem italiana e transportados para as frias regiões do norte pelo mysterioso poder de desconhecida fada, que se vêem as afama- das dútchas, pequenos mas originalissimos chalets, onde o hab tante de S. Petersburgo, que não possue uma 2miénie no campo, vae passar apenas a temperatura se suaviza, e se torna tepido o curto mas delicioso verão se- ptentrional, entre as suas flores favoritas, a respirar o ar puro, saudavel do mar e das ar- vores... Dátcha,nome por que são conhecidas estas pequenas casas, significa propriamen- te dadiva, do verbo dat: «dar», por isso que Catharina 11 fez doação das ilhas, onde estas villas estavam construidas, a diversos perso- nagens da sua côrte. Hoje em dia, muitas dºellas pertencem a particulares. Outras, po- rém, são para rendimento e alugam-se mo- biladas a quem deseja arrendal-as. Descrever o que sejam estas dátchas, que se contam por muitos centenares nas ilhas principaes, é tarefa que mais tem que aux liar-se da imaginação do escriptor do que recorrer aos apontamentos colligidos na car- teira do viajante. Serões Eu tambem as vi, essas formosas vivendas, unicas no seu genero, a um tempo opulentas de decoração e adoraveis de singeleza, e não posso descrevel-as, sobretudo se tento repro- duzir o singular espectaculo do conjuncto de todas ellas. A evocação de semelhante sce- nario, sem par entre quantas maravilhas a Europa mostra desvanecida, ao fouriste que a percorre, desafia o poder descriptivo do mais consummado artista. Imagine-se ao longo de parques verdejantes, verdadeiros jardins em que a contar de abril as 7/has se conver- tem, um sem numero de chalets de madeira, rendilhados a capricho, das mais variadas cô- res, e esgotando todos os estylos architecto- nicos possiveis, desde a severa casa norue- gueza, com o seu telhado do feitio de um chapeo de sol para a proteger contra a neve até ao gracioso pagode oriental, enfeitado de allegoricos arabescos, recamado de ouro, e de fórmas tão esbeltas, que se pergunta com es- panto como teem podido ellas resistir inte- meratas aos rigores desses longos invernos, que durante seis mezes consecutivos annual- mente as açoutam. Cada um d'estes rhalets, ou d'estas dátchas, para lhes darmos o nome appropriado, consta invariavelmente de um rez-do-chão e de um primeiro andar, de janellas rasgadas e envi- draçadas com elegancia, por detraz das quaes entre cortinados de seda branca ou de linho alvo debruado a cores vistosas, se vêem ar- tisticamente dispostos os vasos de flôres, que constituem o indispensavel adorno de toda a casa de campo n'esta parte da Russia por onde viajei. O rez-do-chão, quasi sempre em forma de atrio rodeado de taboleiros de relva e de maciços de arbustos, em plena floração tam- bem no momento em que ali estão, dá por via de regra para um pequeno square, culti- vado com esmero, junto do qual ora passa o caminho assombreado por arvores frondosas, ora se espreguiça com indolencia um canal- sinho perturbado apenas no seu remansoso socego pelo grasnar melancolico das banda- das de patos gansos ou pelo deslisar imper- ceptivel de alguma barquinha tripulada por alegres remadoras.. . Esta é em geral a feição commum das dá- tchas, que povoam as 2/has de S. Petersburgo. Não se imagine porém, que o espectaculo parece monotono pela repetição continuada da mesma nota. Ao contrario, podemos di- zer, que em todo elle domina a mais ac- centuada polychromia. Dentro do tom uni forme do conjuncto cabem innumeros mati- zes, que são o bastante para caracterisar a individualidade artistica de cada unidade. E” a fórma, é o estylo, são as dimensões, é a
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Vinte dias na Russia côr, são os accidentes do terreno, é a expo- sição mais ou menos pittoresca, emfim as mil particularidades que fazem cada uma destas construcções diflerente das demais, e a totalidade de todas ellas alguma cousa completamente distincta de tudo quanto eu até ahi tinha visto. A perspectiva, que às vezes ante mim se patenteava ao defrontar subitamente ao fun- do d'alguma alameda com uma nova dálcha meia coberta de verdura. como ninho amora- velmente escondido a occultar os seus amo- 321 dado algum lastimavel equivoco de calenda- rio, pois mal podia acreditar que o verão official da Russia se apresentasse com tão desprimoroso aspecto para nos fazer as hon- ras da casa, n'um paiz onde é tradicional o uso da mais fidalga hospitalidade. Mais tarde soube que às vezes, não sem- pre, o mez de agosto nas proximidades do golpho da Finlandia é assim. Como se vê não tinha tido sorte... Foi ao voltar da ultima das minhas excur- sões às zihas, que no hotel encontrei um te. S. Pererssurco — A Nevá res, fazia-me sem eu querer pensar n'outras terras, n'outros céos E” que, com efleito, as ilhas da Nevá, são, permitta-se-nos a ou- sadia da phrase, um anachronismo geogra phico. Tudo se póde esperar em S. Pe- tersburgo menos esta tão imprevista sur- preza. Pena foi que o tempo, como que a accentuar bem o contraste, persistisse em se mostrar de tão feia catadura. Por vezes o frio e a chuva, verdadeira- mente invernaes, faziam-me pensar se: nas regiões onde nos achavamos, não se teria legramma, que me obrigou a abreviar a es- tada na capital. Era da familia Slaviansky, velho conhecimento de Lisboa. O telegram- ma vinha datado de Koltsóvo, pequena al- deia do governo de Tver, e n'elle era convi- dado a ir passar alguns dias na propriedade, que n'aquelle governo e proximo ao Volga possue o afamado maestro. Inutil será dizer que respondi immediata- mente acceitando presuroso este amavel con- vite, que me ia proporcionar ensejo para eu realisar uma das minhas melhores aspira-
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322 ções, acalentada com persistencia havia muito tempo, é certo, mas singularmente alvora- çada depois que passara a fronteira russa — viver algum tempo n'esse campo, que eu apenas tivera occasião de vislumbrar de re- lance pelas janellas do meu wagon, e vêr de perto esses mujiks, a que durante tantos an- nos tinha dado proporções quasi phantasti- cas a minha imaginação meridional, excitada pela leitura das skizkas de Afanasiev e das commoventes descripções de Turguénev... E a aldeia, onde eu ia passar a alguns dias era pouco mais ou menos na região onde o grande romancista russo collocou o scenario da maior parte dos seus contos. Por ali perto se haviam composto as Memorias de um ca- gador. Do governo de Túla ao governo de Tver a distancia não é grande, com effeito, visto como estes dois governos são limitro- phes. Por minha vontade, —tão grande era a impaciencia de chegar a Koltsóvo —teria partido sem perder um momento. Não podia, porém, deixar assim S. Peters- burgo. Embora a minha estada nesta capi- tal tivesse de ser, pela estreiteza do tempo de que dispunha, muito curta, uma vista d'olhos pelo menos á cathedral de Santo Isaac-o-Dalmata era de rigor, além de di- versas visitas que não podia deixar de fazer, entre outras à Sociedade de Geographia, para onde tinha um encargo da commissão central do centenario da India, e ao nosso ministro em S. Petersburgo, o ex.mº sr. con- selheiro Agostinho de Ornellas, que n'essa occasião se achava veraneando em Peterhof, e ao qual tinha que ir agradecer o delicado convite que recebera para um jantar na sua residencia. No dia seguinte, domingo, havia festa na Cathedral. Era preciso, pois, aproveitar a op- portunidade. A's dez horas da manhã saí do hotel e preferindo fazer o caminho a pé, dirigi-me para o sitio onde me tinham dito que ficava a egreja, contando lá chegar sem maior inci- dente, apesar de apenas me poder ir orien- tando com o auxilio das repetidas informa- ções, que a torto e a direito pedia a todos que encontrava. Ao cabo de algumas voltas e contravoltas lá fui dar, com effeito. A cathedral de Santo Isaac, ou como ella se appellida com o seu nome russo completo: Sobór Sviátavo Tehúdotvórnavo Isaakiia Dal- matinskavo, o que quer dizer: Cathedral do Santo e Milagreiro Isaac o Dalmata & a mais vasta, a mais rica e a mais grandiosa egreja de S. Petersburgo. Serões A sua construcção apparece-nos quasi como uma lenda, tão prolongada no tempo e tão cortada de incidentes nol-a pintam. No local onde hoje a cathedral se levanta, come- çou Pedro-o Grande em 1710 a edificar uma egreja de madeira, que só foi acabada ainda assim em 1727. Em 1735, porém, foi ella incendiada por um raio. Catharina II quiz levantar outra em seu logar, mas dei- xou-a incompleta. Paulo I acabou-a em 1801. Em 1819 collocou Alexandre I a primeira pedra da cathedral actual. Continuou-a Ni- colau T. Quem a concluiu, no entretanto, só foi Alexandre II em 1858. E' inacreditavel o que n'esta construcção se dispendeu. As sommas ali gastas ascen- dem à fabulosa quantia de vinte e tres mi- lhões de rublos, ou pouco mais ou menos dezoito mil contos da nossa moeda! . (!) Tambem não é de admirar semelhante despeza, se se attender às difficuldades da construcção e à riqueza da decoração inte- rior. Os alicerces, principalmente, foram um sorvedouro. Como o chão de S. Petersburgo, ganho ha pouco tempo ainda relativamente às aguas da Nevá e do golpho da Finlandia, não apresentava a sufficiente consistencia para aguentar uma tal móle, foi necessario enterrar florestas inteiras, sob fórma de esta- caria, para se alcançar uma tal ou qual esta- bilidade, e dizemos «tal ou qual» porque an- nos mais tarde, já depois de construida a egreja tornou-se preciso reforçar os antigos alicerces por meio de trabalhos dispendiosis- simos, sobretudo para segurar o terreno do lado do rio. O edificio é todo construido de marmore e granito. Tem a fórma de uma immensa Cruz grega e remata-o soberbo e alteroso zimborio. Em cada uma das quatro faces abre-se uma entrada, ao cimo da soberba escadaria feita de degrãos de pedra inteiriços, que circumda a magestosa construcção. As duas entradas principaes formam riquissimos porticos, imi- tando o Pantheon de Roma, cada um dºelles com dezeseis enormes columnas monolithas de granito vermelho da Finlandia, de dezesete metros de altura e a espessura corresponden- te, com os pedestaes e os capiteis de bronze cinzelado. Estas columnas sustentam uns frontões, que nas duas faces principaes che- gam a attingir trinta e seis metros de compri- mento e cujos tympanos são decorados de baixos relevos tambem de bronze, represen- tando diversas scenas da historia do Chris- tianismo por Vitali, Klodt e Lemaire. Accrescente-se ainda a esta magnificencia, (!) Este calculo foi feito pelo cambio existente á epocha d'esta viagem. a |
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Vinte dias para se ter uma idéa do extraordinario ocu- juncto e calcular embora muito imperfeita- mente a impressão de grandeza esmagadora, que em nós produz quando d'elle nos appro- ximamos, o zimborio principal, que corôa o na Russia BVS, concentrada observação, com que durante a hora que ali estive procurei fixar na me- moria o quadro, que diante de mim se pa- tenteava. Estava a começar o officio, quando entrei edificio inteiro, de perto de trinta metros de na Cathedral. Apesar, porém, desta circums- diametro, rodeado de vinte e quatro colum- tancia, de serem apenas dez horas da manhã nas de granito de nove metros de altura cada e de estar caindo uma chuva miudinha, mas uma, encimado tudo isto por um lanternim, tão gelada, que parecia querer dar-nos em igualmente circumdado de outras vinte e pleno verão um ante-gosto do inverno russo, quatro columnas e terminado por uma gigan- já a egreja se achava apinhada de gente, e tesca cruz dourada, assim como dourado todo foi só a muito custo e distribuindo com pro- é o zimborio, que de longe quando em cheio fusão os mais implorativos pajáluista (ex- lhe batem os ultimos raios avermelhados dc pressão de cortezia empregada constante- S Pererssurgo — O MONUMENTO DE NICOLAU | £,0 PALACIO MARIA sol poente se assemelha a uma pyra collos- sal, accendida lá em cima em homenagem ao deus, que habita o templo... O interior é em tudo digno da grandiosi- dade do exterior. Descrevel-o mesmo em todos os seus pormenores, e sobretudo dar vida por uma descripção a todos os seus des- lumbramentos, ser-me-hia absolutamente im- possivel, não obstante a minuciosidade das notas da minha carteira e sem embargo da Serões — N.º 24— Vol. IV mente, e que equivale pouco mais ou menos ao bitte allemão e ao nosso perdão em portuguez,) que consegui obter um logar rasoavel donde podesse dominar toda a vasta amplidão, que diante de mim se estendia. Fiquei mesmo em frente do iconostasio, divisão que, como se sa- be, separa nas egrejas gréco-russas o sanctua- rio, propriamente dito, da nave e onde estão colocadas as imagens ou zcónes, provindo-lhe d'ahi o nome porque é conhecida. 22
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324 Pude então vêr pela primeira vez na sua indescriptivel pompa uma egreja orthodoxa, e a impressão recebida por este espectaculo para mim tão novo é d'aquellas, que jámais se me apagará da memoria por muito que viva. Primeiramente, a riqueza material das decorações e das alfayas é assombrosa. Por toda a parte ouro, marmore, velludo, pedras preciosas a scintillarem na meia penumbra em mil phantasticas reverberações. Logo à entrada deparam-se-nos as quatro portas co- lossaes de bronze, artisticamente ornadas de esculpturas por Vitali. Dentro todas as paredes são forradas de esplendidos marmores, offerta do principe Demidov ao imperador Nicolau, além da quantidade de notabilissimos quadros da es- cola nacional, que as guarnecem. O iconosta- sio é de marmore dourado, e são de precio- sos mosaicos algumas das grandes icónes nºelle engastadas. A porta principal do sanctuario considera-se uma das melhores obras de Vi- tali, Tambem de bronze, tem aos lados dez meias columnas, duas de lapis-lazuli e oito de malachite, com os pedestaes e os capiteis dourados. No sanctuario, onde como no re- cinto consagrado ao velho Zeus de Olympia é vedada a entrada às mulheres, eleva-se um riquissimo altar de marmore branco e o ta- bernaculo ou sacrario, todo feito de prata maciça, representa em ponto pequeno a fa- brica da cathedral inteira. Finalmente domi- nando todo este conjuncto de magnificencia e riqueza levanta-se a cupula principal, co- berta de pinturas de Brullov e em cuja par- te inferior uns anjos gigantescos de bronze dourado adejam, como divindades protecto- ras, sobre a multidão ajoelhada em baixo. Depois são os candelabros de prata, e de bronze cinzelado, os evangeliarios de ouro, os relicarios esmaltados, um Santo Sepulchro de prata dourada, e todos os demais objec- tos do culto, feitos de ouro artisticamente la- vrado, reluzentes de pedrarias, a dar-nos a visão de uma opulencia desconhecida no nos- so Occidente... Se a sensação, porém, produzida pelo as- pecto de toda esta sumptuosidade material, é grande, não póde ella ainda assim compa- rar-se à profunda e solemne impressão, que a magestade do acto religioso produz no nos- so espirito. Essa é intraduzivel, não ha meio de dar uma idéa d'ella. Sente-se, mas não se reproduz; e pareceria verdadeiro sacrilegio querer mesquinhamente apoucal-a, isto é pre- tender descrevel-a com os limitados recursos da nossa pobre linguagem humana. Seria pre- ciso a uncção mystica de um Haendel, de um Bach ou de um Palestrina, auxiliada na sua inspiração genial pela mais sublime de Serões todas as artes, para fixar n'uma d'essas obras primas immoredouras, que são como que a revelação de outros mundos, as phases gran- diosas e o tom extranhamente commovedor d'esta lithurgia sem igual... Eu por mim posso dizel-o, ao recordar o que n'esse instante senti. Quando o côro principiou a entoar a lita- nia cadenciosa e rythmada de uma especie de Zedeum laudamos, a que pareciam respon- der repassadas de tristeza as notas dolente- mente arrastadas dos tenores e dos baixos; quando de repente como uma explosão de dôr dilacerante echoou por todo o recinto da cathedral, proferido por mil vozes, o grito a um tempo formidavel e compungido : hóspod ! pomilui!... hóspod! pomilui! pomiluit.. (Senhor! tende misericordia de nós!... Se- uhor! tende misericordia de nós !), confesso que, tomado de indizivel commoção, senti desejos de ajoelhar tambem, e que por mo- mentos, sem dar conta de mim proprio, me quedei identificado com o espectaculo subli- me, que no meu espirito, não sei bem se por idiosyncrasia ouatavismo, acorduva extranhas sensações e suavissimas harmonias... E depois, ali tudo insensivelmente nos pre- para para o cffeito produzido. A? decoração grandiosa do templo e á opu- lencia semi-asiatica « o ritual vem juntar-se o grave recolhimento da massa dos fieis, onde todas as classes sociaes e todas as gerarchias se confundem na mesma homenagem de en- tranhada devoção à gloriosa egreja orthodo- xa, sob cuja egide a Santa Russia conseguiu atravez dos seculos ganhar para si o primado do mundo. Na nossa Europa do occidente, septica nas classes ilustradas e eivada de fanatismo nas camadas populares, não se comprehenderia um espectaculo destes, dado o caso mesmo que entre nós elle se podesse produzir. O serviço divino, com effeito, nas egrejas russas impressiona mais que as ceremonias do catholicismo romano. E as razões d'este facto embora complexas, não são difficeis de explicar. Umas dependem da propria natureza da celebração. Outras relacionam-se com o meio social e religioso, que na Russia é muito differente do meio occidental contem- poraneo. As primeiras, que chamaremos in- trinsecas, reduzem-se á maior «plasticidade», seja-nos relevada a expressão, do culto, by- zantino por excellencia ainda hoje, quer di- zer oriental, e por tanto fallando mais aos sentidos, à imaginação. O papel preponderante, que o canto tem actualmente na egreja slava, é a melhor pro- va d'esta feição caracteristica.
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Vinte dias As segundas, as razões extrinsecas, são as que derivam do meio. ese Houve tempo, nos seculos piedosos da Edade-Media, quando o christianismo repre- sentava a suprema aspiração de todas as al- mas crentes e o maior esforço intellectual dos espiritos superiores ; quando o papado era a primeira das instituições sociaes, e a cathe- dral symbolisava o refugio mais certo e mais consoladôr , ara todas as grandes dêres hu- na Russia 525 tente e poderoso do racionalismo philosopai- co, a Egreja catholica deixou de ser a tutora dos povos occidentaes, e perdeu entre nós essa unanimidade de adhesão que lhe valeu a missão superior e unica, que durante alguns seculos desempenhou com brilho tão singu- lar. E” um mal? E” um bem? Não o sabe- mos, ou antes não o queremos n'este mo- mento inquirir. Basta accentuar que é um facto consummado, contra o qual nem as mais legitimas saudades do passado podem prevalecer. A alma russa, porém, na singele- S. Pereassurco — O monuMENTO DE PeDrO O GRANDE manas, — em que tambem os templos catho- licos elevavam as multidões, nos anceios e no extasis da fé, até essas regiões supremas onde os homens se transfiguram pela contem- plação do que elles julgam ser a verdade di- vina. Esse tempo, porém, passou para não mais voltar. Batida por mil revoluções, enfraque- cida por mil discordias intestinas, dividida por scismas, desacreditada por heresias, ar- ruinada em grande parte pelo ariete persis- za virginal da sua infancia, cheia de audacio- sos sonhos e presentimentos, é certo, mas perfumada ainda por todas as crenças, que de ha muito o resto da Europa perdeu na prosaica aridez do labutar hodierno, não che- gou por ora a este estado de mentalidade, em que as poeticas illusões da primeira quadra da vida se trocam pela duvida e pelas de- monstrações tão desconsoladoras por vezes do scepticismo da edade provecta. Na Russia, entre as massas populares, a fé
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226 continua a existir vivida e fervorosa. Tive d'isso bastantes provas nas cidades e nas al- deias, que visitei. E caso singular, que mais de uma vez me surprehendeu, tive ensejo de certificar-me que ao contrario de certas len- das que no Occidente correm, ha ali talvez en- tre o povo, mais religiosidade (1) propriamen- te dita que fanatismo. O sentimento que pre- domina, é o de vago reconhecimento do po- der incontestavel de um Deus, a que resigna- damente, sem queixas, sem lamentações, sem revoltas inuteis, o homem tem que submet- ter-se. E' um reflexo esbatido do fatalismo oriental, attenuado, porém, pelo poder re- demptor da oração e da prece. Por isso nada mais solemne entre os slavos orthodoxos do que esses cantos religiosos, que simultanca- mente nos commovem e nos arrebatam. “Quando Tetomei novamente posse de mim, arrancando-me á irresistivel fascinação de quanto me rodeava, era tempo de partir por- que a hora estava muito adiantada. O côro continuava a soluçar a sua sentida melopeia, cortada apenas de vez em quando pela invo- ção: hóspod ! pomílui! hóspod! pomélui, po- mílui !... que, a amortecer-se pouco a pou- co, por ultimo apenas um fraco gemido a perder-se na distancia, eu fui ouvindo até aos ultimos lanços da escadaria exterior da Egreja. Cá fóra, a chuva miudinha e fria conti- nuava teimosamente a cair, obrigando-me a procurar um izvóchtchik para voltar ao hotel. Ainda visitei mais duas egrejas em S. Pe- tersburgo, — a de S, Vladimiro (Tserkov Vla- dimirskoi Bójiêi Múteri) e a cathedral de S. Pedro e S. Paulo (Petropavlóvskii sobor), que não deve confundir-se com a egreja luthera- na de S. Pedro e S. Paulo (Tserkov Liuterans- kaia Petra é Pavla) situada junto à Bolchaia Koniuchennaia (rua grande das cavallariças). A egreja de S. Vladimiro nada tem de notavel, a não ser os seus cinco zimborios dourados. A cathedral de S. Pedro e S. Pau- lo, porém, sem lograr excitar a minha admi- ração, depois do que eu vira na cathedral de S. Isaac, é ainda assim importante, sobretudo pelas tradições que lhe andam ligadas, e pelo fim principal a que se destina. Construi- da na cidadella, (Petropavloskaia kriepost), que fica do outro lado da Nevá, exactamente em frente do Palacio d'Inverno, no sitio on- de o rio é mais largo, serve hoje em dia de Pantheon da familia real, e ali se encontra a (!) E' preciso notar que a parte da Russia que visitei é a mais civilisada, e que seria absurdo querer generalisar a toda ella o que póde apenas ser verdadeiro n'uma região de mais a mais tratando-se de paiz tão vasto e heterogeneo. Serões crypta dos Imperadores da Russia da casa dos Romanov. Pódem, com effeito, vêr-se dos dois lados da nave, alinhados e mudos os sarcophagos de marmore branco, — tendo por unico dis- tinctivo uma simples cruz — de todos os tsa- res, Jesde Pedro-o-Grande e Catharina II até ao ultimo monarcha fallecido. Apesar no entanto da riqueza desta ca- thedral, e da de muitas outras que ainda se encontram na capital, como a de Kazan, a da Trindade, a do Salvador, a de Ismailov, a de Spasso-Preobajensky, póde dizer-se que S. Petersburgo não se torna notavel nem pelo numero nem pela qualidade das suas egrejas. Nem tem mais do que qualquer outra das grandes capitaes da Europa, relativamente, nem as tem mais ricas, a não ser a de Santo Isaac. Para nºeste genero encontrar a nota original é preciso visitar Moscou. Só indo lá se póde saber o que as egrejas são no impe- rio moscovita, o seu numero, a sua apparen- cia, e a riqueza que as caracterisa. Mas a vi- sita que eu projectava à capital sagrada da Russia, ainda devia tardar algum tempo, e por isso tênha paciencia o leitor de esperar um pouco, se por ventura o cansaço desta descripção não o fizer desistir de ir na minha companhia. Como compensação, porém, no caso de me acceitar por guia, affanço-lhe desde já que não perderá com a demora, sobretudo se me quizer acompanhar, em espirito, já se vê, na minha excursão ás aldeias do interior do governo de Tver, excursão que eu considero como o clou de toda a minha viagem. As ultimas vinte e quatro horas da nossa estada em S, Petersburgo reservei-as para a Sociedade Imperial de Geographia, — e à noite para o theatro. A Sociedade de Geographia está installada no edificio do Ministerio da Iustrucção Pu- blica, proximo da praça Tchernichev e da Fontanka, onde tambem se encontra o mi- nisterio do Interior. As suas collecções e a bibliotheca, que com toda a minucia visitei, estão provisoriamente arrumadas nºumas sa- las de emprestimo, diga-se a verdade, mais do que modestas para hospedar a illustre e afamada associação, que n'este mesmo mo- mento acaba de publicar em tres formosos volumes o balanço dos seus trabalhos de meio seculo (1845-1895). Na ausencia do presidente, que se encontrava veraneando em Nijni-Novgorod, e do secretario perpetuo o sr. Semenov, n'essa occasião occupado na Nova Zembla em interessantes observações astronomicas, fui recebido pelo sr. Eugenio Osipovitch Romanovsky, o qual com uma captivante amabilidade tomou conta do con-
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Vinte dias na Russia vite que officialmente lhe transmitti em nomo da commissão executiva do centenario da India, para que a Sociedade Imperial Russa de Geographia, se fizesse representar na nos- sa celebração promettendo-me elle desde logo toda a sua influencia e a dos seus colle- gas, para que a participação da Sociedade fosse a mais adequada á commemoração da grande data, de que se tratava. A impressão d'esta visita foi duplamente grata ao meu coração de portuguez. Em pri- meiro logar pude observar como as nossas velhas glorias maritimas e tudo quanto com ellas se relaciona teem o condão de interes- sar, mesmo os paizes que pela sua historia e pela esphera da sua acção menos influencia- dos foram pelos descobrimentos, reflectindo- se esse interesse ainda hoje na Instituição, que lá para fóra symbolisa, a tradição do Por- tugal navegador e aventureiro — a nossa So- ciedade de Geographia. Em segundo logar pude convencer-me, ao percorrer as salas da Sociedade russa, —a qual é aliás uma das pri- meiras do mundo, —e ao comparal-as com as da nossa Sociedade de Geographia, de que o confronto nada tinha que nos fosse desfavo- ravel. Pelo contrario. E foi talvez por notar o imperceptivel signal de desapontamento, a que mão grado meu não pude eximir-me, que o sr. Romanovsky se apressou a decla- rar-me que era muito provisoria a installação da sua sociedade, apesar de que, accrescen- tou sorrindo o meu interlocutor, não é sempre facil prevêr quando termina o provisorio na Russia. Nºeste ponto tal e qual como cá. Conforme destinára, a ultima noite em S. Petersburgo queria passal-a no theatro. Em- bora as principaes casas de espectaculo esti- vessem fechadas n'esta epocha, funccionavam ainda assim duas ou tres. Foi a uma d'estas que resolvi ir. Percorrendo os differentes jor - naes do dia para me orientar sobre o genero que devia escolher, decidi-me pelo theatro Alexandrova «Akvarium» onde nessa noite subia á scena, precedida por enorme reclame, a peça de grande apparato intitulada Prin- tsessa reza (La princesse lointaine)... Infelizmente não era um original, como eu haveria preferido. Traducção do conhecido drama francez de Rostand, apenas lhe encon- trava o merito de ter sido posta em verso russo por Fedorof. Sob esse ponto de vista a traducção possuia a sua originalidade. De resto o valor intriseco da producção podia considerar-se bastante mediocre. As situa- ções dramaticas não faltam, é certo. Talvez abundem mesmo. Mas francamente ir a S. Petersburgo ouvir requebros de dengosas Melissandas, e amorosas endechas de piegas Bertrans; vêr a sr.* Nekrasova-Koltchinskaia 327 transformada em condessa de Tripoli e o actor Antcharov-Elston disfarçado em trova- dor provençal, não constituia o meu ideal do theatro moscovita e sobretudo não era com- pensação bastante para o incommodo certo de arrostar com a noite chuvosa a que tivera de expôr-me com a perspectiva mais do que pro- vavel de apanhar uma bronchite ou pelo me- nos uma rasoavel constipação. Verdade seja que, o que principalmente me decidira a as- sistir à representação, fôra o ter visto no car- taz o nome de Davydov, justamente afamado como um dos mais gloriosos da scena russa. Devia entrar este artista na pequena compo- sição « Otoidi» (vai-te); mas infelizmente, por passar já da uma hora da madrugada e por eu ter de retirar-me, forçado pelos preparati- vos da viagem do dia seguinte, não o pude ouvir. De resto a impressão, que me deixou o theatro russo, pelo que delle já um pouco co- nhecia e pelo que pude apreciar em S. Pe- tersburgo e depois em Moscou, foi bem mais favoravel aos actores do que aos auctores. Os primeiros pareceram-me cheios de talento, in- teiramente meridionaes pelo colorido da phra- se e pelo calor da dicção, magnificos no ge- nero comico, d'uma aptidão singular para o genero lyrico, e elevando-se no genero dra- matico, propriamente dito, a um alto grão de tensão pathetica. O mesmo não posso dizer dos auctores. O thbeatro nacional na Russia atravessa actual- mente um periodo de accentuada decaden- cia. Nada ali existe que possa, nem de lon- ge, comparar-se à pujança d'um Ibsen e d'um Bjórnson, de um Suderman ou d'um Gerhard Hauptmann. A scena, que produziu creações de primeira grandeza, como a Desgraça de ter espirito de Griboiedov, o Revisor de Go- gol, a Tempestade de Ostrowsky, e A morte de Joan o terrivel do conde Alexis Tols- toi, arrasta hoje vida ingloria e obscura, ali- mentando-se quasi exclusivamente de traduc- ções. A menosque sobrevenha um renascimento, que por ora symptoma algum faz prever, (!) a arte dramatica na Russia está condemnada a viver dos emprestimos que lhe faz o thea- tro do Occidente, principalmente o francez. Nºeste ponto os slavos estão evidentemente inferiores aos latinos e sobretudo aos germa- nos, representados na transformação do thea- tro contemporaneo pela Noruega e pela Al- lemanha ou antes, para sermos mais exactos, pela ala esquerda da moderna litteratura al- lemã — pelos novos berlinezes. Será este definhamento da arte dramatica (!) Foi isto escripto antes das ultimas producções de Gorki e Tchekhov.
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328 na Russia apenas temporario, ou pelo contra- rio terá definitivamente abdicado entre os russos o genero scenico na novella, que pa- rece ser a fórma litteraria predilecta dos mos- covitas? Não é facil no momento actual pre- vel-o. Elementos para o theatro existem de sobejo na sociedade russa, quer do passado quer contemporanea. Surgirá, porém, e em breve, n'essa socie- dade o espirito superior, que os ha-de reunir n'uma grande synthese dramatica, e não se- rão elles aproveitados de preferencia para a feitura de novas obras primas no romance, como as espera e já hoje as annuncia a litte- ratura, depois que a morte quebrou a penna aos grandes mestres fallecidos — Gógol, Dos- toiévsky, Turguéney ? É este um ponto de interrogação, a que só o futuro poderá cabal- mente responder. Mas não é só no theatro que a Russia pede ás nações do Occidente um auxilio, que por vezes lhe desnacionalisa a physionomia sla- va. O mesmo acontece ainda infelizmente em outras manifestações da actividade d'esta im- mensa nação. Uma das cousas, que mais me surprehen- deu em S. Petersburgo, foi o predomínio dos allemães. Encontram-se por toda a parte, no commercio, na industria, nas ruas, nas offici- Serões nas, nas redacções. Misturam-se com a popu- lação indigena, envolvendo-a n'uma rede de mil malhas, embora elles constituam uma co- lonia á parte, coma sua individualidade ethni- ca distincta e até com um dialecto especial — o chamado allemão da capital. E esta pre- ponderancia dos germanos percebe-se logo á primeira vista. Nas classes mais elevadas assim como nas camadas mais baixas mani- festa-se por variadas fórmas. Nos circulos officiaes só muito modernamente começou o elemento allemão a decair e a perder o pres- tigio, sendo substituido pelo elemento pura- mente russo. Deve-se esta transformação à politica slavophila do fallecido tsar Alexan- dre III, que pouco a pouco foi russificando a sua côrte e o estado. Mas na burguesia, no pequeno commercio e na industria, ainda os allemães dominam pela actividade que os caracterisa, e que qua- si chegou a converter a Russia n'uma verda- deira colonia de exploração para elles. Assim, recordo-me do meu desapontamento, quan- do ao percorrer as diferentes installações do Gostinny Dvor, o grande bazar de S. Peters- burgo, eu procurava, para trazer como petits cadeaux, alguns objectos característicos da industria nacional. Noventa por cento das bijuterias e das producções de luxo, que nas vntrines via em exposição, eram artigos de Berlin, dispostos como se estivesesm nas montras da Unter den Linden ou da Fre- deriechsstrasse. Fazendo mais tarde notar esta circumstan- cia a alguns russos, e não podendo conter o meu espanto diante de semelhante invasão da industria exotica n'um paiz, que tão ac- centuadas aptidões industriaes possue, res- pondia-me tristemente um grande negocian- te de Moscou, que entre elles se achava: Russki lenivy. Os russos são preguiçosos. Possuindo a terra mais rica do mundo dei- xam-se explorar pelos extrangeiros. My le- nivy... otchen lenivy ! gospodin ! Somos pre- guiçosos, muito preguiçosos, senhor! O que vale é que o governo moscovita, inspirando-se nos grandes interesses do Im- perio, procura por todos os modos obviar ás consequencias d'este imperdoavel desleixo, já favorecendo com medidas especiaes o ele- mento nacional e procurando robustecel-o na luta de competencia com o extrangeiro, já impedindo por meio de prohibições legaes, que este mesmo extrangeiro se assenhoreie do solo, comprando-o por qualquer con- tracto.
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Vinte dias CAPITULO VI A CAPITAL (continuação) A arte russa. — Os museus de S. P.tersburgo. — O museu imperial do Ermitage. — A lut- teratura e a vida nacional. — À literatura russa e a evolução da sociedade moscovita. — A Guerra da Crimêr e a sua influencia na formação da nova escola litteraria. — O ro- mance russo. — A litteratura scientifica. Deixar S. Petersburgo sem nada dizer dos seus museus e da vida artistica de que a ca- pital da Russia é o centro, seria falta imper- doavel mesmo para o mais superficial via- jante. Não tem decerto esta cidade os the- souros artísticos de Florença, de Londres ou de Munich. Um dos seus museus no entre- tanto, o do «Ermitage» Imperatorskii Ermi- taje goza de fama universal e merecida pelas preciosidades de toda a ordem, que encerra. Foi Catharina 17 quem mandou construir não longe da sua resi- dencia o primitivo edificio, que devia ser o ponto de partida do sumptuoso palacio, que é hoje or- gulho de S Petersburgo. Chamou- se ao principio «pequeno palacio de Inverno» e depois « Ermitage» ou melhor «pequeno Ermitage» logo que com o decorrer do tem- po e por motivo da acquisição de novas collecções se reconheceu ser insufliciente a primeira ins- tallação e se edificou o «Grande Ermitage». Foi sómente, porém, nos meiados, do seculo passado que o tzar Nicolau 1 ordenou a reconstrucção completa do Ermi- tage. Este novo e soberbo palacio, que é o actual museu, distingue- se exteriormente pelo puro estylo grego da sua architectura, e inte- riormente pela riqueza e sobretu- do pelo bom gosto, que presidiu à installação das suas collecções, Dentro do vastissimo edificio, que centralisa o que melhor em arte na Russia sc encontra, existe um verdadeiro mundo. Ha ali re- presentação de todas as manifes- tações estheticas tanto nacionaes, como extrangeiras, tanto antigas como modernas, e não apenas de uma determinada arte em parti- cular, mas da arte em geral no conjuncto das suas variadas manifestações. Assim, ao lado das antiguidades egypcias e assyricas, constituidas principalmente pelas na Russia 329 magnificas collecções do conde Castiglione e de Khalil-Bey, ha as antiguidades scyticas e sibiriannas, desenterradas dos tumulos dos velhos reis scythas, encontrados no governo de Tekaterinoslav. Entre as esculpturas gre- gas e romanas, que só por si occupam sete salas, e cuja collecção iniciada por Pedro o Grande com a compra da Venus Taurica se tem successivamente enriquecido com as collecções Chuvalov, Lyde Brown, Demidov e Galitzin, figuram os thesouros da celebre «sala de Kertch» constituidos pelas obras d'arte e pelas antiguidades do Bosphoro Cimmério. No dizer unanime de todos os entendidos não sómente esta secção pelo seu valor artistico é das primeiras do Ermitage, senão que não tem rival em museu algum do mundo. Conforme é sabido Kertch, que deu o nome á collecção inteita, fica situada na Crimêa, e os objectos que as excavações puzeram a descoberto, pertencem todos ao Hecesa Fouryent—Quadro de Rubens melhor periodo da arte grega, especialmente attica. Além do producto das excavações ce Kertch ha ainda n'esta sala numerosos obje- ctos provenientes das antigas cidades do
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330 Chersoneso e de Tanais : diademas, collares, braceletes, corôas, sinetes, anneis, espelhos, jarras, estatuetas, placas, brincos, taças, am- phoras, capacetes, moedas e mil outras pre- ciosidades archeologicas de ouro, prata, bronze, marfim, agatha, onyx e mais sub- stancias de valor. E com esta simples e secca enumeração de catalogo, que outra cousa não consente a riqueza exuberante da parte do museu que estamos agora visitando, temos que passar desde já a outra secção menos importante de certo do que a que deixamos, se bem que bastante interessante e curiosa pela epocha a que se refere. Queremos fallar da «collecção Basilevsky» composta inteiramente de objectos relativos à Edade-Media e à Renascença !. No vesti- bulo e nas diversas salas de que se compõe esta divisão, e sem excluir mesmo os corre- dores, porque apesar da vastidão o espaço não sobra no Ermitage, amontoam-se arma- duras allemãs e velhos canhões polacos ; faianças italianas de Gubbio, Fabriano, Ur- bino, Castel- Durante e triptycos byzantinos, tkones russas, diptycos do Iv seculo da nossa era; estofos do Levante e tapeçarias do occidente ; um punhal de Benevenuto Cellini e o sabre de Mazeppa; macios tapetes do Oriente e opulentos paramentos religiosos. Ao lado de uma rica armadura dourada do duque d'Alba vê-se a corda e o cinturão de um emir de Bukhara. Taças de ouro e prata dos antigos reis da Russia e da Polonia, fazem pendant a uma collecção de velhas espingardas pertencentes a Catharina II e Alexandre 1. Os esmaltes, as miniaturas, os mosaicos, os relicarios, as imagens de santos, não teem conto e em tal profusão nos per- passam pelos olhos, que acabamos por não poder já distinguil-as no interior das vztrines. Aointeresse verdadeiramente europeu d'es- ta collecção, que de tudo contem, e onde es- tão representadas por numerosos exemplares todos os periodos da arte medieval, sagrada e profana do nosso occidente, vem juntar-se ainda um interesse em especial russo, pela serie de objectos encontrados em Smolensk, Kajan, Perm, Saratov, Tchernigov, Terekhov e que se compõem de adornos e joias de ouro e de prata, de collares de perolas e pedrarias, de espadas de copos cinzelados, de taças de inestimavel valor archeologico e até de um tropheu d'armas do historico campo de ba- talha de Kulikovo. Estará n'esta enumeração, apesar de ra- pida e incompleta, ainda assim sufficiente para se advinharem as riquezas do Ermitage, ! Galeria sredntkh viekov i vremion vozrojdeniia (Gal- leria da Edade Media e dos tempos do renascimento) é o titulo official d'esta secção. Serões esgotada a lista do que neste museu se en- contra digno de menção? De modo ne- nhum. Cumpre-nos prevenir o leitor de que até agora não passámos das salas do rez-do-chão, que constituem a collecção archeologica pro- priamente dita. E” no primeiro andar, onde se encontra instalada a famosa galeria de pintura, uma das mais bellas do mundo in- teiro, que se accumulam os thesouros artis- ticos, os quaes dão ao Ermitage a alta cotação que mantem nos grandes centros civilizados. E' sabido que esta galeria foi fundada por Pedro o Grande, cuja assombrosa iniciativa se nos depara por toda a parte na Russia, quer se trate de politica e de administração, quer de sciencias, lettras e até da arte a cuja fascinação parece devia ter sido inaccessivel o severo espirito do terrivel reformador. Pois não obstante as graves preoccupações da sua herculea tarefa teve Pedro o Grande meio de encontrar o tempo necessario, não só para delinear o plano geral da collecção, mas ainda de a enriquecer elle proprio com as acquisições, que durante as suas viagens fez pessoalmente nos diversos paizes, que visitou. Simplesmente assombroso ! Quem, porém, mais contribuiu para enri- quecer o Ermitage foi Catharina Ir, n'este ponto como em tantos outros, digna conti- nuadora da obra do seu grande predecessor. Comprou a celebre collecção Gotzkowski que além de outros auctores continha alguns Rembrandts, van Ostade, van Dyck e Ru- bens. A este primeiro nucleo vieram d'ahi a pouco juntar-se as galerias do conde Briúhl, do marquez de Crozat, de Robert Walpole, justamente afamada pela serie de van Dycks, que a compõem, e muitas outras ainda. Viu-se então, — suggestivo espectaculo para aquella epocha! — os embaixadores da Russia acredi- tados nas differentes côrtes occupados em escolherem, comprarem e catalogarem por ordem da sua soberana o melhor que encon- travam nas galerias particulares e nos sim- ples ateliers dos pintores de mais nomeada em toda a Europa. Com mais gosto, mais sentimento esthetico e sobretudo mais pro- funda intuição civilizadora estava Catharina II em pleno seculo xvr!t precedendo os actuaes bilionarios americanos,os Vanderbilt, os Pier- pont Morgan e tutti quanti, no saque que estão actualmente fazendo ás preciosidades artísticas do velho mundo para satisfação das suas vaidades de parvenus. O certo é que o impulso dado por Pedro o Grande e Catha- rina continuou a animar o zelo dos seus suc- cessores, que pouco a pouco foram comple- tando as collecções começadas. Assim, Paulo 1 comprou o Zigre, um dos mais bellos quadros
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Vinte dias na Russia de Rubens, alem de diversos Vernets. Ale- xandre 1 comprou à imperatriz Josephina algumas das melhores telas da Malmaison, italianas, flamengas e hollandezas sobretudo. Nicolao 1 adquiriu as collecções do conde Miloradovitch, da rainha Hortense, de Ma- noel Godoi, e ainda outras entre cujos qua- dros se encontra a celebre Madona d'Alba de Raphael. Depois fez-se acquisição da ga- leria Barbarigo, de parte da galeria do rei dos Paizes Baixos, e da opulenta galeria Galitzin que deu ao Ermitage, alem de ou- tros quadros mais ou menos valiosos, uma Annunciação de Cima da Conegliano e um triptyco de Raphael. Pouco tempo antes e com outras preciosi- dades tinha o museu comprado a Madonna Litta de Leonardo de Vinciea Madonna Co- nestabile de Raphael. E tudo isto a peso de ouro, sem olhar a preço ném a despe- sas .. Deve convir-se que para um paiz, que tan- tos no Occidente ain- da alcunham de «bar- baro», tão pesado tri- buto pago à arte ad- quire um especial re- levo. a E » Por isso não admi- cds 331 Santa familia de Andrea del Sarto ; a Santa Magdalena do Tiziano; a Descida da Cruz de Paulo Veronese; a Natividade de Jesus Christo do Tintoreto; a Descida da Cruz de Sebastião del Piombo ; a Magdalena de Do- miniquino; o Apollo e Marsyas de Correggio ; a Santa Familia de Ghirlandajo; a Annun- ciação de Cima da Conegliano; e dezenas mais de quadros de primeira grandeza, que são outros tantos capitulos da historia da arte na Italia, não fal- lando já das innume- ras telas de pintores de segunda ordem que formam como que o fundo à obra dos gran- des mestres. Depois da escola italiana, a mais rica de mais numerosa re- presentação é a «es- cola hollandeza», in- cluindo sob esta deno- minação não só a hol- landeza propriamente dita, mas tambem a flamenga. Esta secção é indubitavelmente pela qualidade a primeira do Ermitage, e ne- nhum outro museupó- de apresentar no ge- nero collecção, que ri- valise com arussa. Os grandes mestres estão todos representados por algumas das suas telas mais afamadas; e nenhum his'oriador da qe ra que, engrandecido successivamente por estas contribuições, o museu de pintura do Ermitage seja hoje em dia um dos mais notaveis da Europa. E” uma collecção de collecções escolhidas com ta- lento e gosto para não fallar da liberalidade com que foram pagas. Todas as escolas estão ali representadas — italiana, espanhola, al- lemã, hollandeza, flamenga, franceza e russa — e representadas pelos melhores mestres. Seria de todo o ponto impossivel dar aos lei- tores portuguezes, que vivem n'um meio ar- tístico tão pobre como o nosso, uma idéa sequer approximada de todas as maravilhas que nas vinte e tantas salas e innumeros ga- binetes attraem a attenção do visitante. A «escola italiana», uma das melhor re- presentadas, mostra a Adoração dos magos de Botticelli; a Madonna d'Alba, a Madonna Conestabile, a Santa Familia de Raphael; a Madonna Litta de Leonardo de Vinci; a arte ou critico, que queira estudar a evolução da pintura nos Pai- zes-Baixos póde deixar de ir ao Ermitage sur- prehender em flagrante delicto da sua exu- berante producção esta escola tão original. Rembrandt sobretudo e Rubens teem, como é natural, a parte do leão. Pertencem ao pri- meiro entre outros: Abrahão á mesa com os anjos, a Santa familia, a Descida da Cruz, Pedro renegando o Christo, Danaé; do segun- do pódem admirar-se, alem dos esquissos, que teem uma sala especial, o Rapto das Sabinas, Perseu libertando Andromeda, S. Pe- dro, Adoração dos Pastores, Jesus em caza de Simão. Mas alem dos dois grandes mestres tem a escola hollandeza outros representantes no Ermitage. Assim Lucas de Leyde figura com a grande téla Jesus e o Cego de Jerichó; vam Eyck com a Annunciação; Mostaert com o Casamento
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332 de Santa Catharina; van Orley com a Des- cida da Cruz ; Quinten Massys com a Virgem Triumphante; etc., ete., porque seria impos- sivel continuar n'esta enumeração, embora tenhamos de passar em silencio obras como as dos dois Holbeins, van Valkenborch, Gol- tzius e outros pintores não menos afamados. A escola espanhola está representada por alguns quadros magnificos entre os quaes destacaremos os seguintes: de Murillo a Assumpção, a Immaculada Conceição, a Ado- ração dos Pastores, a Familia Sagrada ; de Velazquez Jnnocencio X, Philippe IV e o Duque dºOlivares, esplendidos retratos, dos melhores que o celebre pintor nos deixou; de Ribera o Martyrio de S. Sebastião ; de Zur- baran S. Lourenço. A escola allemã, que é uma das peor re- presentadas, mostra assim mesmo algumas telas de valor de Dietrich, Roos, Kaufmann, Lingelbach e outros. Segue-se a esta secção uma galeria espe- cialmente destinada ainda aos pintores hol- landezes de segunda ordem e que completa a grande secção hollandeza-flamenga a que já nos referimos. N'esta galeria encontram-se quadros de van Ostade, Mirevelt, van der Helst, van Ruisdal, van de Velde, Ochtenvelt, Deik van Delen, van Loo, e muitos mais, que adornam as paredes de nada menos do que cinco gabinetes. A escóla franceza, se não é das que tem mais numerosa representação, ostenta algu- mas télas de grande valor, como por exem- plo: a Morte do Paralvtico de Greuze, a La- vadeira de Chardin, o Concerto de Lancret, o Satyro e a Nympha, c o Trmpho de Amphi- trite de Poussin, as Quatro Horas do Dia e Apollo e Marsyas de Claudio Lorrain. Para nós, porém, a mais interessante sec- ção do museu de pintura é a constituida pela escóla russa, onde se vêem algumas das me- lhores creações da moderna arte moscovita. Apesar de relativamente recente, pois não vae alem do seculo x1x, esta escóla tem sa- bido conquistar um logar de honra entre to- das as congeneres, pela perfeição impeccavel das suas composições e sobretudo, e é esta a maior originalidade d'ella, pelo caracter ab- solutamente nacional das suas obras. Entre os milhares de quadros que tem produzido, desde os de Brulov — o fundador da escóla até aos de Repin, de Siemiradz e Verecha- guine— os mais illustres representantes da pintura contemporanea na Russia — raros são aquelles que não tenham por assumpto um facto ou um aspecto da vida nacional. Os ar- tistas russos não vão como os artistas das ou- tras nações buscar inspiração extranha para as suas télas. O sólo da patria e a historia da Serões Santa Russia foram para elles a suggestão unica, que lhes fecundou o poder creador. Torna-se por isso muito mais raro encontrar nesta escóla motivos que não sejam genui- namente russos. Mesmo quando parece ser cosmopolita é no fundo nacional, como nas composições sobre a guerra de Verechaguin, as quaes muito embora tenham uma signifi- cação universal, são no entretanto inspiradas por episodios da guerra turco-russa de 1877 e como taes conservam um cunho completa- mente moscovita. E não só os modernos pintores russos são sempre artistas nacionaes senão que tambem quasi sempre põem a sua arte ao serviço de uma idéa. Do mesmo modo que na littera- tura, o slavo não acceita na pintura o lemma do decadentismo — a arte pela arte. Os seus quadros são livros escriptos às ve- zes com uma eloquencia bem pungente, as- sim como os seus romances são télas onde a vida palpita e a realidade se nos patenteia não raro nas côres mais sombrias... Os Burlaki da Volgá de Repin valem bem pela intenção suggestiva os mais amargos ca- pitulos da obra de Gorki. O Abandonado ou a Guerra de Verechaguin reproduzem tão exacta a visão dos horrores d'essas batalhas impias, em que os homens se assassinam quaes feras, como a mais indignada das pa- ginas de Tolstoi. Esta superioridade da pintura moscovita deve-a ella à circumstancia de ser a mais moderna das suas rivaes. Assim como em lit- teratura os russos, ultimos chegados ao ban- quete da civilização, debutaram desde logo por onde os outros povos sómente chegaram ao cabo de longuissimos esforços, evitando por consequencia a falsa oricr o de uma aprendizagem de seculos, assim tambem na pintura clles poderam começar pelo realismo, sem se perderem nas estereis c incaractcris cas divagações do convencionalismo acade- mico, que tão implacavelmente afogam a es pontaneidade das outras escólas. Na littera- tura, só verdadeiramente digna d'este nome no seculo x1x, quasi nada sofreram da in- fluencia do classicismo, entrando quasi de um salto com Gogol e com Puskin no romance na- turalista, e produzindo obras primas da mais rigorosa observação, muito antes que com Zola aEuropa occidental se tivesse podido li- bertar das tradições litterarias do passado. O mesmo lhes aconteceu na arte, com ex- cepção da architectura. Até ao seculo xIX quasi que não houve uma escóla russa de pintura. Os boyardos de Moscou e Novgorod se queriam quadros vinham compral-os à Eu- ropa ou encommendavam-n'os a pintores ita- lianos e flamengos.
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Vinte dias O proprio Pedro o Grande viu-se obrigado a assim proceder para fundar o museu do Ermitage. Algum pintor nacional que por esta epocha existia limitava-se a copiar ou a imitar servil- mente os grandes mestres estrangeiros. A verdadeira escóla russa, embora inspira- da na escóla franceza, em Delaroche sobre- tudo, sómente começa com Brulov na pri- meira metade do seculo passado. Por este motivo escapou à influencia avas- saladora da Renascença, e à imposição do classicismo antigo a que na Europa occiden- tal nenhum artista poude fugir. E a razão porque a escóla russa nos apresenta tão poucos quadros de motivos mythologicos ou de assumptos aca- Gemicos. Perdeu tal- vez em correcção e em limpidez de esty- lo não ha duvida. Sob este ponto de vista a arte classica é modelo insubstituivel. Mas ga- nhou em calor, em vi- da, em realismo. Es- tes tres predicados são, com effeito,os que distinguem a obra já hoje importantissima da brilhante pleiade dos modernos pinto- rés russos. Na vasta complexidade d'elles não ha um unico qua- dro que não seja sen- tido, que não palpite com vida intensa. Nem vestígios d'es- se convencionalismo frio e pautado que na Italia tantos primo- res, infelizmente pallidos, de fina execução produziu. Não são da Russia os Leonardo de Vinci, mas sim os Caravaggio ' Mencionaremos apenas de memoria e sem pretenção a enumeração completa alguns dos principaes quadros d'esta secção, existentes na galeria do Ermitage. Dec Brulov a sua obra capital: O ultimo dia de Pompéi; de Alexéiev, a Vista de Moscou ; de Venczianov, Um camponez russo ; de Iva- nov, Marfa Possadnitsa !; de Sazonov, Dmi- * Marta Possadnitsa ou antes Martha Boretska é 1 he- roina de republ ca de Novgorod, que lutou contra o tsar Ivan 111, sendo afinal vencida e morréndo na prisão. na Russia E BR) try-Donskoi em Kulikovo !; de Stchedrin, Uma paisagem; de Aivazovsky, O Mar Negro; de Lossenko, 4 Pesca Milagrosa; de Ugriumov, A tomada de Kazan ; etc. etc. Alem deste Ermitage, a que pertencem as obras de arte a que nos temos estado refe- rindo, ha ainda dois outros Ermitage, — o «pequeno» ou o velho, e o «grande» ou o novo Ermitage de Catharina 11. Qualquer d'elles encerra numerosas preciosidades ar- tisticas, tanto em pintura como em antiguida- des, sobretudo o primeiro. Não nos referiremos a elles mais circums- tanciadamente para não fatigar o leitor, sen- do nosso proposito além disso, não dar uma descripção com- pleta dos thesouros artisticos de S. Peters- burgo, para o que nos faltaria competencia e auctoridade, mas ape- nas reproduzir a nos- sa impressão pessoal, fragmentaria e incom- pleta pela rapidez da visita, mesmo que não enfermasse de outras debilidades. CA) , Ea litteratura, con- forme repetidas vezes se tem aflirmado, o producto que melhor caracterisa a civili ção de um povo. Po- demos ter, com effei- to, de uma nação a maior somma de da- dos necessarios para lhe reconstituir a in- tensidade da vida his torica ou avaliar-lhe as tendencias, que em germen n'ella se ma- nifestam. Se entre esses dados faltar o que se refere ao movimento litterario, espelho onde fiel- mente se reflectem as diversas phases c os differentes cambiantes do progresso intellec- tual, o verdadeiro espirito d'esse povo esca- par-nos-ha sempre como incomprehensivel mysterio. Pelo contrario, o conhecimento da evolu- ção litteraria realisada no seio de uma nacio- * Kulikovo é o celebre campo de batalha onde o Gráo- duque Dmitrio Ivanovitch Donskoi desbaratou no anno de 1360 os mongões capitancados por Mamai.
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334 nalidade qualquer, ainda mesmo quando desacompanhado da analyse dos demais ele- mentos, que com essa evolução coexistem, é uma preciosa acquisição, que por si só nos permitte suspeitar bastantes factos, advinhar bastantes enigmas, desvendar bastantes segre- dos, apenas denunciados pelo rasto às vezes A verrora — Quadro de Rembrandt imperceptivel, mas sempre de capital impor- tancia mesmo attenuado, que deixam no cam- po das idé Homero diz-nos mais, até da propria civilisação material da Grecia primi- tiva, do que todos os vestigios reaes e effecti- vos, que essa civilisação nos legou. A condemnação de Socrates seria para nós absolutamente incomprehensivel sem as pa- ginas de Aristophanes, que lhe servem de commentario. O estudo critico da literatura hebraica tem-nos permittido pôr a claro um certo numero de factos na vida nacional de Israel (por exemplo a influencia das doutri- nas religiosas e philosophicas extrangeiras sobre a elaboração do mosaismo) cuidadosa- mente omittidos pelos ultimos redactores do Velho Testamento. O movimento revolucionario, que em 1848 Serões afogou a segunda republica. franceza n'um mar de sangue, ficaria sempre para a historia um acontecimento sem explicação cabal, se não fosse approximado do movimento das idéas socialistas e communistas, que o pre- cedeu e acompanhou. Da mesma fórma a fundação do novo imperio allemão, sobre os escombros produzidos pela guerra franco-prussiana, pare- cerá prodigio quasi miraculo- so, devido exclusivamente ao genio politico de um grande ministro, se a não estudarmos nos seus antecedentes, nas suas causas, i. e. nas obras d'es- sa litteratura que desde Iena e Leipzig, a partir do memoravel! dia da «batalha das nações», não cessou um momento só de acalentar como um sonho iria- do de mil esperanças de futura grandeza, como um anhelo de patriotismo, ancioso de des- forra, o ideal querido da «pa- tria allemã» de toda essa terra, onde, na vigorosa reivindica- ção do poeta, die deulsche Zun- ge klingt, — resoa a lingua alle- mã. O mesmo deve aflirmar-se da unidade da Italia prepara- da e póde dizer-se levada a cabo mais do que pela espada de Carlos Alberto e de Garibal- di, pela penna de Manzoni, de Silvio Pellico, e de toda a le- gião sagrada de escriptores, que pozeram o seu talento ao servi- ço da patria 7rredenta, esmaga- da pelo oppressor jugo extran- geiro. Ora se semelhantes asserções são em geral verdadeiras appli- cadas a qualquer povo e a qualquer periodo historico, em nenhum caso o são tanto, como quando se trata do povo russo, sobretudo na epoca moderna. Não fallando da litteratura moscovita (a palavra «moscovita» para nós é synonima de «grande-russo» — velikorusskt) anterior ao se- culo actual, e deixando de parte portanto o movimento litterario, creado pela conversão dos slavcs ao christianismo, movimento a que andam ligados os dois grandes nomes de Cy- rillo e Methodio, assim como a revolução lit- teraria promovida pela influencia das refor- mas de Pedro o Grande e Catharina 11, é no presente seculo onde com mais facilidade nós podemos estudar os diversos conflictos da opinião no imperio dos tsars, tazs como fo- ram ficando stenographados nas paginas dos
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Vinte dias principaes escriptores, desde Griboiedov,— o fundador da comedia satyrica, — e Puchkin — o maior poeta que a Russia tem produzi- do — até aos modernos representantes da escóla naturalista e realista, como Turguénev, Gontchárov, Uspéênski, Pomialovski, Rechet- nikov, Tchekov, Gorki, etc., etc. Verdade é que em poucos povos a elabo- ração litteraria foi mais sincera, seja-nos per- mittida a expressão, do que no povo russo. Ao contrario do que se deu entre as nações de origem latina, nas quacs a renascença do seculo xvi foi o signal da perda da origina- lidade creadora d'ellas durante mais de tres seculos, na Russia o classicismo, já de si planta exotica e quasi sem raizes n'aquelle sólo tão diferente, começou a ser atacado em fórma e combatido sem quartel logo desde o tempo de Karamzin; e não obstante o talento dos seus principaes corypheos — Derjávin e Chi- chkóy —- teve de ceder diante das arremetidas da escóla con- traria, capitaneada por Jukó ki, Dachkov e acima de todas pelo immortal Puchkin. Póde mesmo dizer-se que depois de Lermontov e de Gogol o clas sicismo desappareceu da arena, deixando de ter uma represen- tação seria ao lado das diver tendencias, que já começavam a agitar a escóla vencedora. Desde este momento a litte- ratura russa emancipando-se completamente do convencio- nalismo classico, que até às lon- ginquas regiões da Nevá che- gára com as suas anachronicas formulas e preceitos, não ces- sou um unico instante de ins- pirarse no genio nacional e de reproduzir, mais ou menos fiel- mente, nas suas paginas as gran- des palpitações da alma popu- lar, agitada por vagos mas ar- dentissimos anceios de um des- tino, que principiava a presen- tir, mas que tão dificil lhe se- ria realisar. Quem seguir os diversos mo- vimentos da sociedade russa desde o começo deste seculo; quem escutar a voz d'esse povo, triste e re- signado, como um longo threno dolorido, mas ao mesmo tempo animada por infinitas espe- ranças de um mystico futuro de felicidade e predominio, não póde deixar de sympathisar profundamenre com a nação !, que em meio * * Nação e não estado entenda-se bem. na Russia 599 das instantes preoccupações da vida pratica tem ensejo de encontrar um instante de reco- lhimento intimo, que lhe permitte lançar-se, avida de ideal, pelos espaços sem limites dos sublimes devaneios, dos quaes tantas vezes acordou para tomar melancolicamente o ca- minho do exilio, como esse pobre Dostoievs- ki, um dos mais geniaes dos seus filhos ! Nºesta evolução transformadora a nação é representada pelas classes ilustradas no seio das quaes se teem elaborado todas as idéas que, na ordem politica, na ordem social, na ordem religiosa, e na ordem scientifica não cessaram ainda de agitar a Russia ha um se- culo. Mas n'estas classes ou n'esta classe quantas revoluções intellectuaes se não teem , passado, desde o tempo em que Puchkin es- creveu o seu primeiro poema e em que Gogol Rerearo D'um veLHO — Quadro de Danner colligiu as lendas nacionaes da Ukrania? E no entretanto Puchkin e Gogol são apenas de hontem, apesar de já sobre elles haverem passado umas poucas de gerações litterarias ! Tão certo é que n'este paiz sulcado por tan- tas e tão poderosas correntes intellectuaes, não obstante a pressão do elemento official,
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336 a vida se gasta rapida e se evapora como o ephemero perfume da flôr nas suas estep- pas... Até à guerra da Crimêa, em que uma crise profunda commove o mundo russo, a littera- tura depois de abandonar o byronismo de Lermontov e até certo ponto o romantismo de Puchkin, e de ter-se lançado na nova di- recção, que lhe indicava o grande cr tico Po- levoi, começou a esboçar o novo genero em que tantos triumphos havia de alcançar no periodo seguinte. A «escóla natural» apre- senta as suas primeiras producções e mos- tra os seus extraordinarios recursos nas afa- madas Memorias de um caçador de Turgué- nev, e nos romances de Grigorovitch, de Dostoieoski e de Pisemski. Ao mesmo tempo o theatro começa com Ostrovski a transportar para a scena os typos da sociedade real, embora com uma certa in- ferioridade, deve confessar-se. Com a guerra da Crimêa a Russia, ferida por um grande desastre militar e humilhada pelo espectaculo da monstruosa desorganisa- ção interna, que a corroia, entra num perio- do de regeneração fecunda, que em parte inspira e em parte é inspirado por uma forte elaboração litteraria. Mas este periodo bri- lhante, que chegou até ao derradeiro quartel do seculo xrx, ainda atravessa por seu turno um novo momento de crise — a emancipa- ção dos servos, que o divide em duas epo- cas distinctas pelo caracter e mais ainda pe- las tendencias, se bem que haja entre ellas numerosos pontos de contacto. Para provar esta ultima asserção bastará notar-se, que grande numero de representantes da primei- ra epoca, alguns dos quaes já o eram mesmo da phase anterior à guerra da Crimêa, são ainda os vultos mais eminentes do periodo, que decorre desde a promulgação do ukáze de Alexandre 11. O meio social anterior à grande reforma levada a cabo pelo filho de Nicolau 1 não era evidentemente propicio para o florescimento de uma literatura, que tivesse por base qual- quer movimento da opinião. Opinião publica mesmo, — sentimento de intima solidarie- dade entre as differentes classes do povo rus- so— era cousa que não existia. O romantis- mo estava morto, e a inspiração, onde Puch- kin e Gogol haviam ido buscar motivo para as suas creações, achava-se exhausta depois das obras primas que produzira. O estimulo da revolução litteraria occasionada pela lei emancipadora, e que em parte tambem fôra causa della, tornando-a inevitavel, devia pois procurar-se noutra direcção, e em vez de se pedir ás tradições do passado o assumpto para as composições dos poetas e dos prosa- Serões dores iria de ahi em diante esse assumpto buscar-se á sociedade contemporanea, agita- da ao principio por simples presentimentos de renovação, mas convulsionada a pouco trecho por revoluções successivas, não só no dominio theorico, mas tambem no campo pratico dos factos. E” esta, com effeito, a tendencia da litte- ratura russa da segunda metade do seculo x1x. O romance historico embora nos ultimos an- nos d'esse periodo se ache brilhantemente representado no Principe Serebrianny do con- de Alexis Tolstoi, na Guerra e Paz do conde Leão Tolstoi, e nos Partidarios de Pugatchev do conde Salhias, constitue uma excepção, como mais ou menos ainda hoje a consti- tuem o genero dramatico e o lyrico. Emquanto a este ultimo genero, e mesmo emquanto a poesia em geral, a moderna lit- teratura russa, ao contrario das outras litte- raturas europeas, suas irmas, é relativamente muito pobre. Produziu, não ha duvida a Rus- sia na primeira phase do seu romantismo um poeta tão grande como Byron, como Goethe ou como Oehlenshlaerger — Puchkin —: mas R 5 . se abstrairmos d'este nome c ainda de alguns poucos mais — Lermontov, Koltsov, Nekra- sov Iazykóv — nada mais encontramos digno de verdadeira menção n'este dominio. Se- melhante escassez contrasta de um modo fri- sante com o florescimento exhuberante da poesia nas outras nações slavas, sobretudo entre os polacos, onde este genero litterario é representado com grande brilho por uma phalange numerosa de escriptores tão gran- des como elle. No que respeita ao genero dramatico tão pouco a Russia tem nomes para oppôr, por exemplo, ao de Fredro apesar de possuir as celebres tragedias historicas: O falso Dimitr de Ostrowski, e a Morte de Tvan, o terrivel do conde Alexis Tolstoi. O genero predilecto da literatura russa é o romance. Sob este ponto de vista nem a propria literatura ingleza lhe póde disputar primazias. E a tal ponto o publico na Russia é exigente para com o romancista, em tudo quanto se refere ao assumpto propriamente dito da obra, que nem as mais emoventes qualidades de artista bastam para pôr o es- criptor no abrigo da critica, se porventura elle não soube apresentar e discutir alguma das questões mais palpitantes da actualidade, ou se pela sua parte não concorreu para adiantar a solução de algum dos complica- dos problemas, que agitam a consciencia pu- blica. O velho lemma da arte pela arte & di- visa que todas as escólas litterarias russas re-. pudiam com egual desdem. O caso succedido com Turguénev, algum
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Vinte dias na Russia tempo antes da sua morte, mostra bem o ne- nhum valor relativo da «fórma» para o pu- blico em geral, uma vez que a essa fórma não corresponda «fundo» adequado. Depois de se ter occupado nos seus livros com um ta- lento superior de observador e de propagan- dista das mais momentosas questões que in- teressavam o seu paiz — entre outras a da emancipação dos servos — o celebre roman- cista, querendo repousar o espirito, afastan- do-o por um momento dos assumptos que eram objecto a sua cons- tante preoccu- pação, publi- cou na revista e S. Peters- burgo, — o Viestnik Evro- py—um ado- ravel conto, que no dizer e juizes com- petentes é pri- morosa joia lit-| teraria, ador- nada com to- das as galas do mais admira- vel dos estylos. Pois não va- leram ao au- ctor nem a justa fama de uma longa e gloriosa carrei- ra, nem as ex- cellenciasreaes da sua nova producção. Foi severamente increpado, foi censurado acremente por ter ousado, em meio das tristes preoccupações dos seus compatriotas, deixar de parte, embora por um momento, os graves problemas da actualidade, para ir buscar o assumpto do livro a outra ordem de sugges- tões. À critica tornou-se mesmo de tal ma- neira acerba, que chegou a accusar o velho escriptor de mau cidadão, por assim se mos- trar indifferente às questões, que então con- citavam a attenção de todo o russo, que pen- sava no futuro do seu paiz e seinteressava pelas prosperidades da patria. Semelhante facto é caracteristico, e define bem a orientação da litteratura moscovita da ultima metade do seculo xrx. E” em virtude A maz DO PINTOR — Quadro de Rembrandt 337 de tal tendencia que esta literatura chegou antes das suas irmãs mais velhas ao realismo. A observação cuidadosa da sociedade, a at- tenção sollicita para todas as mudanças que n'ella se manifestam, e a convicção de que o escriptor tem por principal missão trabalhar pela realisação das aspirações nacionaes, dão um caracter especial, quasi unico, à littera- tura contemporanea da Russia, a qual se por um lado perde talvez em perfeição artistica, ganha porém pelo outro, co- mo documen- to de estudo e como precioso instrumento de investigação da evolução historica d'a- quelle grande povo. O culti- vo da arte pe- la arte, a preoc- cupação exclu- siva e futil da yórma, qual- quer que seja o assumpto a tra- tar, não existe, repetimol-o, na a. Nº'um onde a discussão livre não póde ain- da à vontade exercer o di- reito de critica, alitteratura converte-se n'um verdadei- ro sacerdocio e é o unico expe- diente para tra- zer à tela do debateas ques- tões, que sómente sob este disfarce pódem ser apresentadas ao publico. Por isso, no momento actual e emquanto a sociedade russa não conquista com a liber- dade politica todos os direitos, que a esta li- berdade andam inherentes, o romancista é e continuará a ser alli um elemento indispen- savel de progresso, a que prestarão homena- gem até os proprios tsares. E por isso tambem o estudo da litteratura russa, no periodo de transição, que a nação está atravessando, tem para nós um interesse muito superior ao estudo das outras litteraturas europeas, (sem excluir a escandinava tão rica e tão original) onde por via de regra se reflecte apenas parte
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338 da vida. das respectivas sociedades. O povo russo, pelo contrario, foi deixando nas pagi- nas dos seus escriptores um echo fiel de to- das as dores que o teem torturado, um ves- tigio de todas as lutas em que se tem en- volvido, uma vibração, emfim, de todas as grandes esperanças, que ha um seculo o teem allucinado. Duas grandes escólas, conforme o fizemos notar, dividem a litteratura russa contempo- ranea: a chamada «escóla natural» e a «es- cola nova», conforme os seus proprios ade- ptos a appellidam. A differença entre estas duas escólas, ou antes entre estes dois mati- zes do realismo, consiste mais na escolha do assumpto do que na diversidade de proces- sos, que em ambas são sensivelmente os mes- mos, apenas mais exaggerados na escóla nova. Com efeito, emquanto a «escóla natural» RETRATO D'UM ALMIRANTE — Quadro de Franz Hals estuda hoje de preferencia as classes civilisa- das, a classe média sobretudo, a «escola no- va» dirije a sua attenção para as ultimas ca- madas sociaes, inspirando-se principalmente nos horrores e nas monstruosidades, que n'essas miseraveis classes são quasi o viver Serões normal. O que as Memorias de um caçador representaram com relação á triste existencia do camponez russo ainda curvado sob o jugo da servidão, pretendem represental-o com re- lação ao mais infimo proletariado actual as obras de Uspenski e dos demais chefes da extrema esquerda do «realismo» até Gorki, o «amargo» dos bossiaki (descalços). ! E' uma literatura da escória, que à força de querer photographar a realidade em toda a sua nudez, acaba por se transformar n'um idealismo sui generis, falso e artificial, porque systematicamente deixa na sombra uma parte d'essa mesma realidade. Felizmente a «es- cóla nova», apesar de Gorki e de Tchekhov não conseguiu ainda apresentar um nome se- quer, que possa pôr-se a par dos grandes no- mes da escóla natural, — Turguénev, Gont- chárov, Dostoievski, Pisemski, a qual até ao ultimo quartel do seculo x1x continuou produzindo obras importantes, não tendo dei- xado um momento só, desde a guerra da Crimêa, de accom- panhar todos os grandes mo- vimentos da oplnião publica, discutindo e interessando-se pelas questões mais importan- tes. Assim, primeiramente teve a gloria de protestar contra a servidão. Depois, quando o ubáze da emancipação veiu acabar com essa grande chaga do mundo russo, começou à apreciar o valor das duas ge- rações que se achavam em presença — a que continuava a mostrar as suas sympathias pelo antigo estado de cousas, e a que enthus mada pela conquista importante, que acabava de se realisar,não dis- simulava as esperanças que nutria em futuras vitorias. Mais tarde finalmente, quan- do o nihilismo fez a sua appa- rição, e entreveiu no combate das escólas com o seu pro- gramma negativo, hasteando ao mesmo tempo a bandeira das novas reivindicações, a escóla natural discutiu-o vi- gorosamente, empenhando-se em pôr-lhe a nu as utopias e as perigosas illu- sões. E” esta luta que dá o assumpto às obras de Turguénev: Paes e filhos, Punin e Barbu. * Gorki em russo significa amargo.
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Vinte dias rin, Fumo; às de Pisemski: Os homens de 1840, O mar agitado, No turbilhão ; à de Dos- toicoski: Crime e punição, etc. Esta escóla, pois, dadas as tendencias da litteratura russa, é a que mais fielmente tra- duz as aspirações e a que melhor correspon- de ao ideal do povo moscovita. Ao lado, po- rém, d'este movimento litte- rario, propriamente dito, que apenas muito imperfeitamente aqui fica esboçado nos seus traços principaes, existe na Russia contemporanea um movimento scientifico impor- tantissimo, que todos os dias vae adquirindo maior intensi- dade, e que ao mesmo tempo começa a exercer já acção muito notavel na orientação das classes cultas. Apesar da Russia ser a re- cemchegada ao banquete da civilisação, nem por isso a im- portancia do seu labor scien- tífico é menor. Pelo contra- rio, o trabalho intellectual e o movimento das idéas avan- tajam-se ali ao que n'este sen- tido se realisa em algumas na- ções occidentaes, tendo-o em certos casos não só igualado mas até excedido. Para este facto contribue em grande parte a tendencia inna- ta ao espirito russo, que o tem libertado da preponderancia metaphysica, a qual por tanto tempo no nosso Occidente tor- nou impossivel com os seus absurdos systemas à priori o advento da sciencia positiva. O moscovita, não obstante a feição às vezes mystica do seu devanear, é essencialmente claro e pratico em philosophia. Nas theorias scientificas assim como nas hypotheses philosophicas sempre se mostrou avesso às grandes cons- trucções syntheticas tão predilectas dos alle- mães. Inimigo declarado da metaphysica, pelo menos tal como a comprehenderam Fichte, Schelling, Hegel e tantos outros na patria de Goethe (o qual foi igualmente um metaphysico como o demonstrou no seu se- gundo Fausto) é o russo inclinado, pelo contrario, e naturalmente propenso a certo positivismo, que constitue a nota dominan- te de todos os seus trabalhos de especula- ção. Eis aqui a razão, que explica os progres- sos scientificos, realisados pela Russia em Serões— N.º 24 — Vol. IV na Russia 339 menos de meio seculo. ! Não tem este paiz tido a necessidade de gastar o vigor intelle- ctual em combater o exclusivismo das esco- las e a intolerancia dos systemas, que na Al- lemanha, por exemplo, tantos esforços des- perdiçaram sem a menor utilidade para o adiantamento da nação. Loro Pmripre 1 Wartos — Quadro de Van Dyck Póde até dizer-se, que na Russia não existe uma philosophia propriamente dita, no sen- tido restricto em que semelhante expressão é tomada no occidente, A Russia inaugurou o seu moderno movi- mento scientifico, sob a influencia da Europa, e portanto esta iniciação que representava um ponto de partida para o mundo slavo era realmente já para a maior parte dos iniciado- res termo e bastante adiantado de chegada. Por isso de posse logo na primeira hora dos novos methodos de investigação e de critica, a sciencia russa, poupando para si as conse- quencias das indispensaveis tentativas e das * E" quasi inntil fazer notar que, o que acima se lê foi escripto naito antes de estalar a actual guerra russo-japo- neza 23
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340 experiencias infructuosas, caminhou n'alguns dos seus ramos com passo seguro, evitando a aprendizagem, que ás outras tanto custou e tanto tempo precioso absorveu. E senão vejamos. Quasi que sem escóla historica levanta desde logo com as obras de Karamzin e de Soloviev dois monumentos, que nada teem a invejar aos trabalhos iden- ticos produzidos pela erudição do Occidente. Sem uma tradição de estudos orientaes, co- mo a França, a Inglaterra e a Allemanha que de Bumouf, Colebrooke e Schlegel haviam recebido o poderoso impulso e o valioso es- timulo das grandes investigações nºeste domi- nio, a Russia com a publicação do grande «diccionario de S. Petersburgo» dá à philolo- gia sanskrita a verdadeira base scientifica por que ella esperava levando a cabo ao mesmo tempo uma das mais collossaes emprezas con- cebidas pela largueza de vistas da erudição philologica contemporanea. E assim em mui- tos outros ramos da historiographia, da lin- guistica, da ethnographia e da archeologia. São, com effeito, estas sciencias, d'entreascha- madas sciencias moraes, as mais cultivadas na Russia, as que melhores e mais sazonados fructos teem produzido. A historia nas suas principaes divisões de — historia propriamen- te dita, historia da literatura, historia do di- reito etc. — conta numerosas publicações, al- gumas d'ellas de um valor real. Da historia propriamente dita foi fundador o celebre Ka- ramzin. O seu livro apesar de estar hoje an- tiquado e de na propria Russia ter sido exce- dido, distingue-se ainda pela pureza do estylo e sobretudo pela erudição de que dá prova e que mesmo actualmente o tornam fonte in- dispensavel de consulta. A publicação d'esta obra constituiu no seu tempo um verdadeiro acontecimento, e póde d'ella datar-se o vigoroso impulso, que Os es- tudos historicos receberam na Russia, im- pulso que se tornou effectivo e permanente pela creação das sociedades historicas de Vil- na, de Odessa, de Kiev, e pela fundação das revistas especiaes como o Russkii Arkliv (Ar- chivo russo), e a Russkaia starina (Antigui- dade russa). Não menos contribuiram para este movimento a importante publicação em- prehendida pela Academia das Sciencias de S. Petersburgo, conhecida pelo nome de Russkaia istoritcheskaia bibliographia (Biblio- graphia historica russa) assim como a famosa descripção dos manuscriptos da opulenta bi- bliotheca synodal de Moscou. Depois de Karamzin a historia é represen- tada na Russia por: Pogodin, que escreveu entre outras obras os Esboços critico-historicos ea Historia da Russia até à invasão mongo- tica; Kostomarov auctor de diversos traba- Serões lhos, entre os quaes uns Lstudos sobre as na- cionalidades do norte da Russia; Soloviev, a quem se deve a mais completa e a mais au- ctorisada historia da Russia, infelizmente in- terrompida pela morte deste illustre escrip- tor; Ustrialov, que deixa a //istoria do falso Dimitri e a Historia de Pedro o Grande; Pe- karski redactor da Historia da Academia Im- perial das Sciencias de S. Petersburgo e da A sciencia e a literatura na Russia sob o reinado de Pedro 1; Brúckner, morto recentemente, auctor das historias de Pedro o Grande e Catharina 11 que gozam de notariedade eu- ropea; e muitos outros que seria fastidioso enumerar, mas cujas paginas consideradas no seu conjuncto são um vasto monumento de erudição e paciencia. A historica jurídica é representada pelas Historias do direito russo de Leontovitch e de Mikhailov, e pela Historia do direito de Ka- pustin. Á historia religiosa pertencem, entre outros, os celebres trabalhos do professor Ka- zanski e as obras dos arcebispos Philarete, Macario e Muraviev. A historia da civilisação conta numerosos trabalhos dos quaes se des- taca a afamada obra de Zabielin intitulada : Vida intima dos tzares russos nos seculos XVI e XVII A historia militar apresenta nomes como os de Fadeiev, Obrutchev e principe Galitzin, auctor da importante //istoria wuni- versal militar, traduzida não só em allemão, mas nas linguas escandinavas. Finalmente a historia litteraria, de todos os generos histo- ricos o que mais cultivado tem sido na Rus- sia, continua a produzir sobre a litteratura nacional, tal quantidade de livros que consti- tuem já hoje uma verdadeira bibliotheca. As- sim, sem fallar nas monographias especiaes sobre as diversas epocas e os differentes es- criptores, de nada menos de nove historias da literatura russa (e não são todas) me re- cordo n'este momento; as de Galakhov, Por- firiev, Petrov, Sosnetski, Pypin, Orlov, Vodo- vozov, Polevoi, Skabitchevski, e Evstafiev; alem da grande Jistoria das litteraturas slavas de Pypin e Ipasovitch, e da Jisto- ria universal das literaturas publicada em S. Petersburgo sob a direcção do professor Korch. ; Se da historia passamos à philologia en- contramos os mesmos progressos. A lingua russa, o velho slavão ecclesiastico e as demais linguas esclavonicas teem sido na Russia objecto de constantes estudos, e servido de pretexto a trabalhos de subido valor scienti- fico. Sem contar com os jornaes e revistas que actualmente, nas principaes cidades, se dedicam ao exame das questões concernen- tes à philologia slava, como por exemplo as Filologitcheskiia zapiski (Memorias philologi-
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Vinte dias cas), as Zapiski imperatorskor academii naúk (Memorias da Academia imperial das scien- cias); sem contar com as grandes revistas de um caracter mais geral — especie de Revistas dos dois mundos do norte — mas que ainda assim consagram de vez em quando algum artigo a esta especialidade, como o Viestnik Hwropy (O mensageiro da Europa), o Mir Bojii (O mundo de Deus), o Russkir Viestnik O mensageiro russo), o Russkoe Bogatistvo » Thesouro russo) a Russkaia Mys/ (o Pen- samento russo) eo /urnal ministerstva naro- dnago prosviechtcheniia (O Jornal do minis terio da Ins- trucção publi- ca); sem con- tar com o Archiv fir Slavische Phi- lologie, por ser escripto em allemão e pu- blicado em Berlim, ape- sar de edita do por um slavo, o dou- tor Tagic, e collaborado quasi que in- teiramente por eruditos slavos tam- bem, grande numero de obras espe- ciaes e inde- pendentes conta a scien- bre este ra- mo de estu- de E' claro que sta bre sima noticia o movimen- to intellectual da Russia contemporanea, não temos a pre- tensão nem o espaço nol-o permittiria, de fa- er uma enumeração, não dizemos já comple- ta, mas sequer satisfactoria das obras especial- mente escriptas em S. Petersburgo, em Mos- cou e em Kugan a a proposito de philologia e e linguistica. O nosso intento é apenas citar algumas das principaes. Por isso nos limita- mos a apontar as seguintes, que a ninguem, que se occupe destes assumptos, é licito ig- norar: Tchudinov — Otcherk istorii iazykoz- nanie (Esboço de uma historia da linguisti- N MAGDALENA ARREPENDIDA — Quadro de Ticiano na Russia 3a ca); Perevlieskii — S/avidenskaia grammatika (Grammatica slava); Buslaev—Zstoritcheskaia grammatika russkago iazyka (Grammatica his- torica da lingua russa); Kolosov— Otcherk is- torii zuu kov à form russkago iazyha s XI do XVI stolietie ; Chertal — Sravnitelnaia gram- ano slavianskikh à drugikh rodstvennykh E, 7 (Grammatica comparada das lingoas E e UGaa afins). As collecções de docu- mentos originaes da velha litteratura russa acham-se representadas nas publicações de Jakovlev e de Buslaev, respectivamente inti- tuladas: Pamiatniki russkor literatury XIV i XIII viekov (Monumentos da litteratura russa dos se- culos xII € xIrm) e Ahris- tomaliia po drevnerusshoi literaturie à narodni sloves- nosti (Chres- tomathia da antiga littera- tura russa e da litteratura popular). Resta-nos por ultimo fallar da litte- ratura ethno- graphica, pro- priamente di- ta, o ramo scientifico talvez mais largamente e com melhor exito cultiva- do na Russia. Conforme é bem sabido foi a Allema- nha, que no começo do presente se- culo revelou ao mundo crudito a importancia da litteratura oral conservada tradicionalmen- tefóra de todos os moldes convencionaes, mas com um sabor proprio e originalissimo, na boc- ca do povo. À publicação das Ainder und Hausmáirchen dos irmãos Grimm, foi o pon- to de partida d'esta importante revolução, prenhe das mais extraordinarias e imprevis tas consequencias. De então para cá o movi- mento propagou-se a todos os povos da Eu- ropa e da America, e não ha nenhum, póde dizer-se, actualmente que mais ou menos
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342 não tenha colligido esses thesouros inapre- ciaveis para o estudo da ethnographia e da demopsychologia, ao mesmo tempo que constituem interessantissimos documentos da vida historica da nação em cuja tradição viva elles foram surprehendidos. Pela sua organisação scientifica especial e por ter sido ella o ponto de onde o movi- mento irradiou para os demais povos, é a Allemanha ainda hoje, sem contestação al- guma, o paiz que n'esta ordem de estudos a todos os outros leva a primazia. Os trabalhos dos Grimm, de Liebknecht, de Kuhn, de Kohler, de Mannhardt, de Laistner, de Hertz, de Wolf, de Wutke, de Grohmann, etc., serão sempre outros tantos marcos mil- liarios na evolução da sciencia da novellis- tica popular e da mythographia. A Russia, porém, apesar de só mais tarde se ter entregado a estas indagações, de nada tem de que se envergonhar não só relativa- mente ao resto da Europa, à qual n'este ponto está muito superior, mas mesmo em comparação com a propria Allemanha, a quem quasi que eguala. E senão vejamos : a mythologia popular póde mostrar com ufania a obra collosal de Afanasiev — Poetitcheskiia vozsriêntia slavian na priródu (Idéas poeticas dos slavos sobre a natureza), alem das de Kotliarevski— O pogrebálnykh obytchaiakh iazytcheskikh slavian (Sobre os usos funerarios dos slavos pagãos), de Vladimiro Dal — O Serões povieriiakh, suevieritakh à predrazsudkakh rus- skago naroda (Sobre as crenças, superstições e prejuizos do povo russo), de Zabylin — Russkii narod, ego obytchai, obriady, predaniia, suevteria à poeziia (O povo russo, seus usos, ceremonias, tradições, superstições e poesia) e de outros como Maikov, que escreveu so- bre esconjuros; Chepping que se ocupou dos mythos do paganismo slavo ; Chepkin que publicou um importante livro sobre as fontes e as formas da mythologia russa ; Snegirev, que colleccionou tudo quanto se referia às festas e ceremonias supersticiosas do povo; Terechenko, que investigou os an- tigos usos populares etc. Os contos tradic- cionaes foram colligidos por Afanasiev, Khu- diakov, Chudinski, Erlenvein, Hildebrandt, Rudtchenko e Dragomanov. Finalmente os cantos populares, as bellas e doces melodias russas de uma tonalidade tão original e en- cantadora, foram conservadas nas esplendi- das collecções de Kirievski, Maikov, Miller, Rybnikov, Sakharov, Chein, Sobolsvskim e Olga Agrenev. E para não alongar demasiado esta enu- meração deixamos de mencionar os nume- rosos e importantissimos trabalhos da secção ethnographica da Sociedade Imperial de Geographia de S. Petersburgo, a qual n'uma publicação monumental acaba mesmo agora de apresentar o balanço da sua actividade nºeste ultimo meio seculo. (Continia.)
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oBsEssÃO de Colombo déra à Hespa- pr nha um mundo que recusáram Genova, França e Portugal. Ali, ao sol dos tropicos, contempláram os descendentes do Cid uma flora opulenta e gigantea; uma fauna estranha e rara; rios, tão grandes que similham mares ; montanhas portentosas, erguendo-se acima da região das nuvens, de tão altos vértices que o raio os deixa immunes, parecendo sondar e prescrutar os arcanos do espaço infinito em que se vis- lumbra eespelha a magestade augusta, incom- mensuravel e mysteriosa do Omnipotente, d'esse ceu, que, na expressão biblica, por si só certifica a gloria de Deus — Celi enarrant gloriam dei; imperios e ci- vilisações singulares, como nunca previram: — Mayas, Aztecas, Seyris, Incas; — cidades, como o Mexico, Quito e Cuzco ; ouro, prata e pedrarias, em tal copia que os olhos avidos dos aven- tureiros recusavam admittir como realidade, porque em Cuzco — o umbigo do mun- do — traducção litteral do nome d'esta cidade—, o jar- dim do Imperador, do Inca, do Filho do Sol, ostentava arbustos, flôres e fructos de ouro, como de ouro maciço eram as estatuas do Templo do Sol e o enorme disco deste astro, a que os quichua- aymarás prestavam culto divino, e do mesmo metal era o andor-throno, a cadeira gestato- ria em que o Inca se fazia conduzir ; o sobe- rano azteca, coroado de pennas, envolto em riquezas que valiam provincias europeas, ten- do o seu povo attingido o maximo grau de cultura; o Filho do Sol que realisára o desi- FausrINO 1 Imperador do Haiti deratum de reunir sob o seu sceptro, as na- ções rivaes: Cuzco e Quito, ostentando no gorro de seda a borla purpurea do Inca e a grande esmeralda dos Scyris, emblemas das duas monarchias. O autor das Mil e uma noites entrevira a America e os companheiros e successores de Colombo deveriam ter deslumbramentos es- tonteadores ao pisar essas novas terras. Talvez se julgassem delirando. Mas cousa estranha ! As virtudes cavalheirescas dos filhos da no- bre Hespanha, ao passar a linha equinoxial, transfor- mavam-se em ruindades, em latrocinios, em chacinas. Anniquilláram os impe- rios, arrasáram as cidades, immoláram reis e sacerdo- tes, e o fogo por elles atiça- do consumiu os livros e os monumentos escriptos das civilisações que encontra- vam. O indigena foi reduzi- do à condição de cousa, a escravatura imperava des- aforadamente, apesar dos protestos de Las Casas e das ordens do rei, e até os cães foram amestrados na caça ao pobre autoctono, porque de carne de indio se alimentavam os lebreus! Em uma das grandes An- tilhas, Santo Domingo, Hispaniola ou Haiti, estableceu-se a primeira séde do governo hespanhol, para os paizes que Colombo aca- bára de patentear à Europa absorta e estu- pefacta, e em Santo Domingo devia o grande almirante, victima de inveja e de calumnias, ser preso e carregado de ferros, como crimi- noso da ultima especie! Na primada antilhana fôra tambem extermi-
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344 nada a raça aborigene, em que as mulheres eram formosissimas. Quem sabe se ella descendia dos povoa- dores da lendaria Atlantida, crusados com os caraibas ? Então importáram-se negros para os tra- balhos agricolas, pilhadosnas costas da Africa. Proliferáram, a ponto de só elles constituirem a grande massa da população de quasi metade da ilha, sendo actualmente uns goo:000 a a 1.200:000. O sceptro de Carlos V passou a mãos ine- ptas de principes degenerados, confiantes em validos, que raramente se revelavam esta- distas. O poderio da Hespanha desafiára in- vejas, e combatido pela França de Richelieu e de Mazarin, pela Inglaterra e Hollanda, en- fraquecido pela revolta da Catalunha é pela independencia de Portugal, cairia como caiu, porque estava na logica dos factos. Os piratas ingleses que, a principio, iam pa- ra os mares açoreanos esperar os navios hes- panhoes e apresal-os, arrojáram-sc a avançar mais alem: foram até á America Central e as ilhas de Santo Domingo, Jam: Roatán serviram-lhes de base de operações. Tomam então o nome de bucaniers e são celebres pelas suas aventuras e roubos. Santo Domingo é como que o seu quartel general, principalmente na parte em que os negros são mais numerosos. Sendo alli muito precario o dominio hes- panhol, essa parte da ilha é cedida à França. Com a revolução, decretados os direitos do homem, os negros tivéram inteira liberdade. Uim anno antes (1789), nascera de uma escrava, Faustino Soulouque, negro como a mãe, mas de feições finas, caucasicas: labios delgados, nariz regular, olhos meigos, avel- ludados. Quando os negros se subleváram contra a França, tinha Soulouque 14 annos, e era creado do general Lamarre, que morreu de- fendendo Mole contra Christovam, futuro rei "Haiti, sendo encarregado de levar o coração de Lamarre a Pétion, que foi Presidente da Republica. Recebeu d'este, como premio, a nomeação de tenente da sua guarda a cavallo, e quando Boyer succedeu a Pétion, Soulou- que continuou no palacio presidencial como um movel, uma cousa inoffensiva. Boyer promove-o a capitão ao serviço de uma sua amasia, Mademoiselle Joute. Ficou esquecido até 1833, mas desta data em diante avança rapidamente em promo- ções: coronel, general de brigada, general de divisão, commandante superior do palacio, no tempo de Riché. Ficando sempre no Pa- lacio Nacional, obtinha uma promoção de cada novo presidente. Serões Corria o anno de 1847 e as camaras le- gislativas de Haiti, reunidas em assembléa nacional, tratavam de cleger o chefe d'es- tado. Ha dois candidatos, gencraes velhissimos e tontos: um é o dos deputados, dos communs, outro dos senadores, do grande corpo, porque é de saber que os parlamentares haitianos seguem a tradição de escolher valetudinarios para as funcções presidenciaes, com o fim prudente e innocente de serem elles, os par- lamentares, quem governem tutellem o presi- dente. O accordo foi impossivel entre os dois gru- pos de eleitores e alguem lembrou, como meio conciliatorio, eleger Soulouque. Não tinha elle quasi 60 annos ? Sabia apenas assignar o nome ? Era o bastante : reunia todas as circums- tancias desejadas pelos parlamentares. Depois, não tinha inimigos. Seria o presidente ideal. Foi eleito. Algum tempo depois o pr fallar de si: manda massacrar os mulatos, os inimigos dos negros, da sua raça. Observáram-lhe que cra pouco humano tal procedimento, mas Soulouque replicou que assim seria, mas que não pedira para ser presi- dente, e agora que o aturassem. Disséram-lhe que em França houveum im- perador, chamado Napoleão, que antes de cingir a coroa fôra general, ganhára muitas batalhas eoccupára, como primeiro consul, a chefatura da Republica, e Soulouque quiz copiar tal figurino. Como lhe era preciso uma Arcole, Py des ou Marengo, declara a guerra à visinha Republica Dominicana, mas é vencido. Entrando em Port-du-Prince, manda cele- brar um Ze-Deum pela victoria que não alcançou. Creaturas suas fazem propaganda para a mudança: de instituições c as representaç ões populi: chegam ao recinto di É O assumpto é tomado em consideraç discute- -se muito e vota- se—que a Republica é abolida, que Soulouque é proc lamado Im- Rendo e que a dignidade imperial é heredi- taria na sua familia. Logo que se vota, os senadores, esque- cem-se que são tropegos e achacosos, mon- tam a cavallo e levam a Soulouque a lei que o declara Imperador d'Haiti, e com a lei uma coroa . de papelão dourado, por não haver tempo de confeccionar uma de ouro, a valer. E' sagrado solemnemente em 1852,com. Adelina, sua mulher, negra como elle. Cria uma aristocracia : principes, duques, “a dente dá que
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O imperador Faustino marquezes, condes, viscondes e barões, uns 400 titulares e ha então titulos como de La Limonade, des Trois Trous, etc. Eram duques os ministros, mas apesar de tanta grandeza, fez passar pelas armas alguns destes secrctarios d'estado. Estabeleceu ordens: Legião d'Honra d'Hai- ti; S. Faustino, Sant'Anna, e Santa Maria Magdalena, sendo curioso que cada uma destas ordens correspondia a alguma derrota infligida às suas tropas pelos dominicanos, sempre em guerra com o imperio. Mas isto é pouco: as cidades haitianas são contempladas com brasões e decreta unifor- mes de cores phantasticas para aristocratas e militares. Os menos berrantes eram verdes bordados a ouro. Este reinado, mixto de zarzuela, de opera bufa e de tragedia, não podia acabar pacifi- camente: ao ridiculo e ao burlesco associá- ram-se as hecatombes —massacres dos mu- latos,—incendios de cidades e povoações sus- peitas de deslealdade para com o Imperador, fusilamentos sem processo, suspensão de todos os-direitos, leis e garantias, funccionando ape- 345 nas os conselhos de guerra, cujas sentenças o Imperador alterava, emfim uma orgia e loucura similares à de Caligula. Veiu a reacção. Parte do exercito proclama a republica e o Imperador, à frente das suas tropas, sae a combatero inimigo. Logo que o avista, retira-se do excrcito, que deixa sem commando e entra na capital, Port-du-Prince. As forças imperiaes entregam-sesem com- bate e os republicanos marcham sobre Port- au-Prince, desguarnecida. O Imperador ou insconciente ou cheio de bom humor, escreve a Geffrard, comman- dante em chefe do exercito republicano e futuro presidente, pedindo que lhe mandas- se uma escolta para o proteger, porque es- tava só! Embarca então em um navio de guerra inglez, com a mulher e duas filhas, para o exilio, Jamaica, o desterro de todos os politicos haitianos. Não poude levar comsigo as risuezas que accumulára,e em 1867, contando 78 annos, e na maior miseria, fallece em terra estranha Faustino 1.º, Imperador d'Haiti. Sic transit gloria mundi. ANTONIO FERREIRA DE SERPA,
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ae o / Ojpreietito. AY ) por Purido ei Sh Introducção Estas
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Este trecho de musica simples, dolente, expressivo, romantico, define uma das multi- plas feições do espirito do grande artista que foi Furtado Coelho. Quando elle a compoz, a sua alma vibrava no pleno enthusiasmo da juventude, em unisson com o poetico roman- ticismo da epocha, repassando de suaves e indefinidas tristezas os sentimentos e as idéas. Havia n'aquelle tempo, na convenção litteraria e artistica, o exaggero das paixões, toca- das de dolencias sensuaes, que puzeram nesta musica a macieza de saudades, como mais tarde houve, em semelhante formula convencional, o exaggero de rudezas, amimadas ape- nas pela ironia sorridente, e que desnudam na expressão de arte a cruel dominação dos instinctos.
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a o Ó M osteiro de Argis BALADA DA VALAQUIA IL or uma linda encosta das margens do Argis, segue seu caminho o principe Voda com seus companheiros: nove mestres pedreiros, e Manol, o decimo, supe- rior aos mais. Vão escolher juntos, no fundo do vale, terreno apropriado para um mosteiro. Eis que no caminho com elles se cruza um moço pastor, tocador de flauta, cantor de solaus, e ao avistál-o o principe lhe diz : — «Gentil pastorsinho, cantor de solaus, tu já tens subido com o teu rebanho as margens do Argis; tu já tens descido as margens do Argis com os teus carneiros. Não terás tu visto por onde has passado al- gum muro em ruinas, muro abandonado, entre a verde rama das aveleiras 2» — — «Sim, principe, vi por onde hei passado um muro em ruinas, muro abandonado. Os meus cães, ao vêl-o, investiram logo, n'um ladrar de morte, como n'um deserto.» Quando tal ouviu, o principe Voda exul- tou de alegre, e logo partiu em direito ao muro com os seus pedreiros, seus nove pe- dreiros, e Manol,o decimo, superior aos mais. — «Eis o velho muro. E” este o local em que ha de em breve erguer-se o mosteiro. Vós, meus pedreiros, meus mestres pedrei- ros, durante dia e noite metei mãos à obra para construir, para erguer aqui, um bello mosteiro sem egual no mundo. Dar-vos-ei riquezas, e altas posições, ou, se não, por Deus, far-vos-ei murar, emparedar vivos. nos seus alicerces !» nt Sem perda de tempo, os mestres pedrei- ros tomam as medidas, escavam o solo. Em breve levantam, levantam um muro. Mas o trabalho do dia esmorona-se de noite, e isto se repete no segundo dia, no terceiro dia, o tambem no quarto. Baldados esforços. O trabalho do dia esmorona-se de noite. O principe, surprêso, dá-lhes reprimendas, e, depois, colerico, de novo os ameaça de os emparedar vivos nos alicerces. Os pobres pedreiros de novo recomeçam, trabalhando a tremer, e a tremer trabalhan- do, por um longo dia de estio, desde o amanhecer até noite cerrada. Mas n'isto, Manol, largando as ferramen- tas, deita-se e adormece, e sonha um estra- nho sonho. De repente, levanta-se, e estas palavras diz : «Vós, meus companheiros, nove mestres pedreiros, quereis saber que sonho eu sonhei a dormir?! Uma voz celeste, que ouvi cla- ramente, veiu avisar-me de que o nosso tra- balho se irá derrocando até que nós todos juremos aqui emparedar viva a primeira mu- lher, esposa ou irman, que amanhã vier a» romper do dia trazer a comida para algum de nós. Por isso, querendo levar a cabo este santo mosteiro, paurão glorioso, juremos aqui guardar o segredo ; juremos tambem empare- dar no muro a primeira mulher, esposa ou irman, que amanhã avistemos ao romper do dia.» HI Ao raiar da aurora, eis Manol desperto. E logo se levanta, subindo aos andaimes, para ver ao longe os campos e a estrada. — Mas que avista elle?! Quem vê elle ao longe ? E' a sua esposa, a sua linda Aninhas, vindó-lhe trazer a comida e o vinho para o seu almoço. Turba-se a vista de Manol, ao vêl-a; e cheio de terror de joelhos cae, er-
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O Mosteiro de Argis Bue as mãos e diz: «O' senhor meu Deus! Soltae sobre a terra uma grande chuva, uma chuva tal que as aguas do rio saiam do seu leito e alaguem os caminhos, forçando mi- nha esposa a voltar para traz.» Deus tem compaixão da maguada suplica, e lança sobre a terra as nuvens do Ceu, n'uma grande chuva que alaga os caminhos, mas que não consegue fazer com que a es- posa volte para traz. Atravessando as aguas, ella avança sempre, e já perto vem... E Manol, ao vêl-a, geme angustiado, de joelhos cae, e ergue as mãos, e diz : «O? senhor meu Deus! Lançae sobre a terra ventania tal que torça os platanos, des- poge os pinheiros, derrube as montanhas, forçando minha esposa a voltar para traz.» 349 Deus tem compaixão da maguada suplica, e lança sobre a terra uma ventania de uma força tal que torce os platanos, despoja os pinheiros, derruba as montanhas, mas que não consegue impedir que a esposa se apro- xime sempre, sempre a mais e mais, do termo fatal! IV Os outros pedreiros, os nove pedreiros, experimentam, vendo-a, uma grande alegria, ao passo que Manol. o desespero na alma, a toma em seus braços, e subindo ao muro ali a deposita, falando-lhe assim: — «Não tenhas receio, minha boa amiga. Queremos divertir-nos, fingindo emparedar- te, sem te fazer mal.»
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350 Anninhas, confiante nas suas palavras, ri da brincadeira, enquanto Manol, fiel ao sonho tido, suspira, e começa a levantar o muro. O muro vae subindo, e cobrindo a esposa até aos tornozelos, até aos joelhos, mas a po- bresinha deixou de sorrir, e, cheia de susto, se lamenta assim : — «Manoli, Manol, ó mestre Manol, basta de brincar, que essa brincadeira póde ser fa- tal! Manoli, Manol, ó mestre Manol, o muro vae subindo, vae-se cimentando, e o meu po- bre corpo sinto comprimir!» Manoli não ouve os lamentos da esposa, e o muro vae subindo, cobrindo a pobre Anni- nhas até aos tornozelos, até aos joelhos, até 4s ancas, até aos seios, e a desgraçadinha chora amargamente, e, chorando, diz: — «Manoli, Manol, ó mestre Manol, basta de brincar, porque vou ser mãe. Manoli, Ma- nol, ó mestre Manol, o muro pouco a pouco mata-me a creança, e o meu peito chora la- grimas de leite!» Manoli não ouve os lamentos de Anninhas, e o muro vae subindo, e cobrindo a esposa até aos tornozelos, até aos joelhos, até às ancas, até aos seios, e até aos olhos, e à ca- beça... Até que em breve a pobre Anninhas deixa de ser vista, e apenas se ouve a sua voz no muro: — «Manoli, Manol, ó mestre Manol, ci- menta-se o muro, e extingue-se-me a vida!» v Por uma linda encosta das margens do Argis, segue seu caminho o principe Voda para ir rezar ao Santo mosteiro, padrão glo- rioso, sem egual no mundo. Ao ver o mosteiro sumptuoso e bello, exulta de alegria, e aos pedreiros diz: Serões — «Vós, os architectos, os mestres pe- dreiros, declarae aqui, sob juramento, se o vosso engenho poderá construir um ou- tro mosteiro, padrão glorioso, maior e mais bello?» Os mestres pedreiros, os dez architectos, trabalhando na abobada do edificio, quando ouvem tal, ficam muito ufanos, muito satis- feitos, e respondem assim: — «Não existem, não, sobre toda a terra, eguaes a nós dez, dez mestres pedreiros. Sa- bei que o nosso engenho poderá construir um outro mosteiro, padrão glorioso, ainda mais bello !» O principe, ao ouvil-os, ficou pensativo Depois, com um mau riso, ordenou que que- brassem as escadas e os altos andaimes, e que despenhassem do alto da abobada os mestres pedreiros. Mas elles, n'um pronto, sem perderem a cabeça, com taboado constroem voadoras asas Por momentos conseguem esvoaçar no espaço; mas, ai d'elles! caem no sólo, e em pedras se transformam... Quanto a Manoli, ao mestre Manoli, no proprio momento em que desfere o vôo, eis que ouve sair das muralhas uma voz queri- da, debil e apagada, que geme e chora, e se lamenta assim: «Manoli, Manol, ó mestre Manol! O muro esmaga-me; lacera-me o corpo... Esgotam- se-me os seios, extingue-se-me a vida!» Ao ouvir taes lamentos, Manol empalide- ce; turba-se-lhe o espirito, a vista lhe foge... Vê tudo andar à roda: ceu, terra e nuvens, e da alta abobada sobre o solo cae. No logar da queda, nasceu uma fonte, fonte de agua clara, amarga e salgada, — agua misturada com lagrimas, com lagrimas amarguradas ! Versão de DeLrim GUIMARÃES,
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“e A Architectapa « & ss o ssa Oda Renascença « em P optagal ror ALBRECHT HAUPT UEM segue a estrada que vai a Colla- res encontra o portão de uma quinta, a Pe- nha Verde, ao lado de um arco que pas- sa sobre a parte mais alta da estrada. E” um dos mais lindos lugares de toda aquella região, e n'ella veiu repousar dos seus memo- raveis trabalhos de homem de estado e demi- litar o grande D. João de Castro, quarto vi- ce-rei da India. E” por assim dizer a modes- ta quinta de um philosopho de gosto apura- do que quizesse gosar alli em paz dos resul- tados de toda uma vida trabalhosa. Estende- se a quinta pela admiravel encosta da serra, ora descendo, ora subindo. A casa baixa, a qual é talvez do anno de 1535 como todo o annexo, contem apenas simples divisões em parte abobadadas.- Uma decoração de bustos antigos, de esplendidas armas da India e ou- MONUMENTOS DE CINTRA E DE COLLARES A Penha Verde—O Castello da Pena— A Penha Longa— Em Collares — As Caldas da Rainha—LEgrejas de Torres Vedras. tros similhantes objectos de recordação, que ainda hoje alli existem, revela-nos o conhe- cedor e o amador. Detráz desta casa, par- tindo de um terraço ajardinado e adornado com fontes de repuxo, a quinta sobe em so- calcos, occultando no parque grutas e capel- las da renascença, No extremo ponto mais alto, o qual simi- lhante a um promontorio domina rochedos cobertos de matto n'este esplendido lugar, está a capella de Nossa senhora do Monte. Chega-se lá caminhando entre bosques até, uma especie de porta, cujos pilares se nos mostram, quando observados de perto, reco- bertos de inscripções sanskritas, uma osten- tação scientifica da primitiva residencia de D. João de Castro na India. Alguns passos mais adiante e vê-se à es- querda, occulta a meio nos rochedos, a pe- quena cupula da ermida; em frente, uma ar-
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352 Cintra. Penha verde Sa. Morei da NonTé A Penha Verde (Capella)
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Da Renascença 353 em Portugal Contra. Penha vendo Ta. Ma. cta monitor Capitel da Capella caria em ruinas ao longo da serra, ao centro sob frondosas arvores um tumulo turco cu- ja inscripção diz que alli descança o coração de D. João, no sitio que elle amára mais em sua vida. A capella de tão simples apparen- Azulejos de Capella cia é principalmente no interior de um gran- de valor artistico. O madeiramento da cupul- la semi-espherica, cujo vertice é marcado por uma cabeça de anjo, repousa sobre seis co- lumnas com finos capiteis; entre aquellas e até meia altura levanta-se um revesti- mento de azulêjos de riquissima pintu- ra. O nicho do altar, fronteiro à entra- da, é rectangular e tem por cima da me- za do altar um alto relevo encantador em marmore branco seprezentando a Santa Familia, n'uma moldura preta, sustentada por anjos pintados nos azu- lêjos. A luz entra principalmente pela porta, sustida por duas meias colum- nas. O todo tem uma graciosidade tão simplesmente apurada que do seu mag- nifico ambito recahe sobre o visitador uma impressão inolvidavel. ! Voltando da capella e subindo à es- querda váe-se entre soberbas arvores * A inscripção sobre a porta diz: Joannes Castrensis cum XX annos in durissimis bellis in utrsque Mauritania por Christi Religi ne corsumpsisset et in illa clarissima Funet s expugna- tione interfuisset atque tandem sinus arabici litora et omnis Indiae oras non modo lustrasset sed litera- rum etiam monumentis m ndavisset et Christi nu- mine salvos domum rediens virgin matri fanum ex voto dedicavit.
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354 Serões 2 YSj Z MEGA GRE PNPERIA) Ez 7 SA Es A 7 a EE GS biz ga S = VTEC o E TA e je É A A = a É /p AS q AESA JOANNES DE CASTR A E MOU Rm eo: UU eia ZA (é | : AA || 4 INPAB de 2. Mo - || A aRARMome 1 1 x A AA a mr VW Tiemeao ot = se nus jres im senao que E cus WS 1 Me rito N SN N Ny N Y AN e SS NS = NÃ EN SS SN $ NEN HAN Wo Ny da ERES CAM A q NE” ' qn DZ Ev E RAS) TAS Portal da Capella
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Da Renascença em Portugal e terraços de feitios differentes até uma serie de capcllas redondas que não possuem, po- rêém, as mesmas formas nem a mesma arte “esta, São em parte de uma época mais re- DDD chida por desenhos em mosaico feito pela fixação na argamassa de pequenas pedras e de cacos azues de porcelana chinezu e outras louças, ! | | LE LA tl A AL ALA, BANANA O SRA ag A Dr UE Embrexaios na Penha Verde cente, por que diversas inscripções affirmam O interesse que os descendentes de D. João de Castro sempre tiveram por esta linda pro- priedade de seu illustre antepassado. Algu- mas teem grandiosas estatuas de santos em marmore as quaes se destacam bem sobre um fundo curioso. E” este constituido por uma superficie encerrada n'um arco e preen- Seróes—N.º 24—Vol. IV Os jardins teem além d'isto uma maravi- lhosa vegetação que vem ainda do tempo de D. João de Castro, e a qual foi muito admi- rada de seus contemporaneos como sendo alguma cousa de verdadeiramente extraordi- nario. * Este mosaico de louça partida tem o nome de embre- xado. 24
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356 te notavcl varão, como tivesse dedica- cado de graça toda a sua vida ao serviço da sua patria, tinha o caracteristico gosto de fazer substituir as arvores fructiferas e as plantas rendosas de seu jardim por bellas plantas ornamentaes e arvores magnificas, que em parte trouxcra das suas viagens, afim de que não podessem dizer que clle preten- dia aproveitar-se com lucro da sua proprie- dade. ! No cume múis clevado da serra (de Cin- tra) crgue-se hoje o magnifico castello do Scrões tem ainda na nova construcção a pequena egreja e o gracioso e simples claustro. E du- vidoso, posto que o affirmam, ser a torre da primitiva. Em todo o caso a sua fórma actual tem muito de moderno. A egreja do convento divide-se em trez compartimentos ou vãos rectangulares, dos quaes o ultimo servia de côro aos monges. À entrada, no eixo dos outros dois compartimentos, faz-se por um pequeno portal, ao qual dá accesso um alpen- dre sustentado por duas ricas columnas. Este portico é corôado por uma pyramide coberta Mosteiro dos Jeronymos da Pena fallecido rei D. Fernando, a Pena, a Wart- burg dos portuguezes *. A poderosa estruc- tura que se agrupa em vulta do antigo con- ventinho dos Jeronymos, no ponto mais alto do monte, occulta na sua massa as velhas construcções. O pequeno convento do monte fôra alli fundado em 1503 por D. Manuel e concedido como refugio aos monges de S. Jeronymo de Belem; o rei teve por elle particular predi- lecção e alli esteve muitas vezes; e com ra- zão. E' um dos lugares mais formosos do mundo ; os aspectos dos seus rochedos sobre a serra, do campo esplendido e do mar são sem rivaes. D'esse modesto e velho mosteiro exis- * Vide Andrade, Vida de D. João de Castro pag. 10. * Castello celebre perto de Eisenach na Thuringia. à maneira antiga de azulêjos pretos e brancos; todas as paredes são muito simples, termina- das em ameias de argamassa de uma maneira similhante à que se encontra em Evora. À torre actual apresenta, como se vê na torre de Belem, duas platafórmas corôadas de amcias e um profil pitoresco. No interior a egreja tem uma linda abo- bada recticulada cujas nervuras fórmam gri- naldas douradas em parte, e cujos barretes como as paredes, são revestidos de bonitos azulêjos em azul e amarello. Os altares per- tencem ao tempo de D. João 111, e talvez se deva considerar o revestimento de escaiola de um d'elles, ante o arco principal esquerdo, como um velho trabalho italiano. E Na parede trazeira do segundo comparti-
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Da Renascença em Portugal mento, debaixo da abobada mestra, levanta- se o altar-mórem alabastro e marmore preto, uma das mais finas obras da florescente re- nascença em Portugal. Este altar foi mandado erigir, segundo se deprehende da inscripção, tos EE NE Se NE Nei Eta 4 por D. João rtt no anno de 1532 em com- memoração do feliz parto da rainha D. Ca- tharina que lhe déra um filho 1. O altar é dedicado a Santa Maria e na parte inferior de uma columna tem a inscri- pção de que foi feito por Nicolau Chatranez * Johannes tt Emanuelis Álius, pronep. Johamis 1 abnep. Por! asthiop. arabic. persic. Indi. ob rina regime conjugis incomparabilis suscepto Emmanuele filo. principe aram cum signis pos dedicavitque anno MDXXXI. Diva Mariz virgini et Matri src. Altar na Egreja da Pena 597 no anno de 1532. Toda a obra é repartida por columnas e pilastras, e encimada por uma Santa Familia em corôamento; as restantes superficies encerram entre finas divisões ar- chitectonicas uma profusão de altos relevos e de estatuetas representando episodios da historia sagrada. A principal divisão inferior é preenchida por um Santo Sepulcro e em volta uma suc- cessão de scenas em menores climensões : nascimento de Christo, a annunciação de Nossa Senhora, a adoração dos reis magos, a adoração dos pastores, ctc., todas as figuras d'uma grande graciosidade e de uma grande delicadeza. Todo o altar é architectonicamente bem dividido e ricamente executado, em parte
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com uma grande liberdade de tratamento de- corativo, como por exemplo nas grinaldas sol- tas em alabastro sustentadas por anjos isolados e ainda em outras graciosas decorações, de Ornato de columna do altar da Pena maneira quenão se pôde fazer d'elle uma dis- cripção bastante clara para dar perfeita idéa. Os detalhes architectonicos, sobretudo o or- namento, são de uma grande perfeição, como em Coimbra sómente d'elle se encontra exem- plo. Ao de Coimbra excede em muito aqui a execução, assim como o nome do mestre, Serões A egreja tinha provavelmente em antigos tempos pinturas sobre vidro do mestre Fran- cisco Henriques por 1510. Esta data marca o acabamento dos trabalhos aqui. Todo o rez-do-chão do conventinho tem as habituaes abobadas recticuladas. Ao centro da construcção fica o pequeno claustro quadrado. Ha de cada lado deste, nos dois pavimentos, duas divi- sões com trez aberturas sobre finos columnelos, e, entre aquellas divisões, arcobotan- tes com agulhas torças de remate e grossas molduras em fórma de corda. Nos arredores e para o ou- tro lado da serra, n'um valle pitoresco foi construido o mosteiro da Penha Longa, interessante por ser uma ele- gante construcção da transi- toria renascença dos primei- ros tempos do reinado de D. João 111. Tem a egreja uma só nave cuja parte des- tinada à capella-mór é co- rôada por uma cupula e é feita com muita pureza e severidade de fórmas. A nave com uma imponente abobada de tonel repartida em com- partimentos e com duas ca- pellas de cada lado fórma um vão grande de bôas pro- porções que se abre do lado do norte para um portico exterior. À sua architectura indica reconstrucção poste- rior (seculo xvII?); a torre muito simples deve ser pri- mitiva. Ao lado sul segue o claustro quadrangular com trez alas de dois pavimentos de uma architectura que cor- responde à que se encontra em Coimbra pelos annos proximos de 1540, de uma grande delicadeza de fórmas e de uma graciosa distinc- ção no sobrio ornamento. Em volta do claustro agru- pam-se as diversas dependencias do convento, a sacristia, o refeitorio, e uma parte agora utili- zada como habitação e que antigamente fôra a do abbade. Esta parte, com a sua pequena en- trada alpendrada sobre columnas e toda co- berta de rica abobada recticulada, deve ser dos ultimos tempos do reinado de D. Manuel.
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Da Renascença em Portugal Os jardins contiguos ao edificio en- cerram tam - bem ainda hoje toda a especie de cousas primi- tivas, grutas com azulêjos e similhantes, e mostram um exemplo de regular Claustro da Pena conservação de ajardinagem de um mosteiro opulento. A egreja de Collares, villa ce- lebre pelo seu vinho, situada no sopé da serra de Cintra mere- ce menção, posto que seja ape- nas uma egreja de aldêa de bôa apparencia. E” um edificio com- prido com abobada em fórma de tonel com capellas dos dois lados e cuja decoração é de ta- lha ricamente dourada. As pilas- tras teem bons azulêjos do secu- lo xvi e as paredes do côro são tambem revestidas de azulêjos em estylo do seculo xvrrr. Na praça ha ainda hoje e bem con- servado o pelourinho: uma cruz sobre uma esbelta columna do- rica, plantada sobre um pedes- tal de trez degraus. Na direcção do norte a pe- quena distancia da costa do mar, encontra-se proximo daqui a importante instituição do tem- po manuelino na villa de Cal- das —o estabelecimento dos ba- nhos denominado Caldas da Rainha, do nome de sua fundadora a rainha D. Leonor. Cintra Pom fittar der Pera 359 Esta notavel e intelligente senhora fundou alli em 1485 este grande hospital de thermas onde ainda hoje se faculta aos pobres o uso dos banhos e que no tempo de D. João v foi substituido por uma nova construcção. Da antiga e extensa construcção que pa- rece ter sido acabada pelos annos de 1502, existe ainda hoje a pequena egreja com a sua fina torre; é aquella muito modesta com simples janellas de arco de volta inteira e uma galeria sobre a cornija principal, lindas abobadas no interior; pelo contrario a torre exhibe rico e requintado acabamento no seu campanario, unico exemplo por mim co- Outro ornato do altar nhecido de uma torre de egreja isolada n'este estylo. As janellas d'esta são esplendidamente
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Serões 360 IN NS ENS JUS INSS NS) SE ri BASS. ne = pe T No N WIlE=SSSS SN SE E qa S EM, Cm ú au o | a E Z À E ) A N === o = S q = WN AS Wi INES: q SAY S T RT NAN os Ni À di N RRERSÇES NR ! Nie SS AN a NY , 4 FAS NE Ny SN PA Claustro da Penha Longa
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Da Renascença em Portugal emmolduradas e fecham-se em arco trevado e mostram uma execução muito original assim como o principio da arruinada pyramide (vide gravura). Todo este fragmento, como todas as construcções mandadas fazer por D. Leonor, indica que a rainha cra zelosa 361 pequenas egrejas indicam o começo do se- culo xvt; S. Pedro em especial possue um rico portal ogival de fórmas rudes no gothico dos ultimos tempos; nc interior tem absida, esómente o espaço da nave lateral, bem co- mo datransversal, possuc ricas abobadas re- E E ) Penha longa Teuzgarg. Capuel de columna da Penha Longa protectora do novo estylo; a egreja da Con- ceição em Beja, tendo estas mesmas fórmas vivas e pitorescas, póde ser retrotrahida ao tempo de D. Fernando, pae de D. Manuel e de D. Lconor, de mancira que póde di- zer-se ter este ramo da familia real uma ten- dencia consciente e seguida n'aquella orien- tação architectonica, em contraste com a de D. João 11. Em Torres Vedras que fica proximo, duas cticuladas; de mais é um edifício pouco sys- tematicamente plancado. O mosteiro de S. Gonçalo é um singelo edificio da época hespanhola com pateo em arcaria um tanto grosseira e egreja de uma só nave abobadada em fórma de tonel cujas capellas em parte encerram altares da boa renascença em obra de madeira em talha dourada da época proxima de 1640; o sar- cophago de S. Gonçalo na cgreja provem do
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362 Serões principio do seculo xv1 e exhibe fórmas pouco tão, cordado de ameias com o desenho dos finas do estylo gothico manuelino dos ulti- escudos do rei sobre a porta. mos tempos no paiz. Caminhando das Caldas da Rainha para O velho castello mourisco recebeu de D. o norte e pelo leste, encontram-se proximos Manuel uma vistosa construcção no seu por- os mais grandiosos monumentos da archite- y car) Torre da Igreja das Caldas da Rainha
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Da Renascença em Portugal 363" ctura de todo o paiz — exceptuando Be- primeiros reis em Alcobaça e Coimbra, dos +. lem — todos agrupados n'um pequeno tre- mais modernos na Batalha e mais para su- 'cho de terra: os soberbos pantheons dos deste em Thomar a immensa e magnifica Pelourinho de Collares residencia da ordem de Christo. A estas nuel a mais esplendida ornamentação, o en- obras poderosas, que proveem de uma épo- canto phantastico e artistico que as faz ainda ca mais remota, deu-lhes o tempo de D. Ma- hoje tão curiosas e unicas no seu genero (Continia)
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UMA CABRA E OS SEUS CABRITOS NARRATIVA JAPONEZA I bichos fallavam e andavam vestidos como a gente. Passou. Póde ser que outra venha, em que a gente se ponha a ber- rar como hoje os brutos e se cubra de pellos como elles; sabios ha mesmo que suppõem ter descoberto prenuncios certos d'esta farça dos seculos vindouros, a qual deve ser mui divertida. Mas isto não vem nada agora para o caso. Vou contar-lhes a historia de uma cabra desses tempos remotos, de nome Yagui-san, que vivia em companhia de oito filhos seus. Escusado seria accrescentar que mãe e filhos muito se queriam mutuamente, coisa vulgar nas cabras, e mais de esperar-se no Japão, aonde as mães japonezas (fall da especie humana) são as primeiras a dar o exemplo de um affecto entranhado ás creancinhas. Ha uma epocha remota, em que os A familia vivia na montanha. De quando em quando a cabra descia à aldeia mais vi- sinha a provêr-se de viveres necessarios para algum tempo. Um dia pois, em que Yagui-san teve, como de costume, de ausentar-se do seu lar, reuniu a pequenada e a todos fez a recommenda- do estylo: — «Vocês fiquem aqui muito quictinhos, não briguem uns com os outros, não abram a porta a nenhum estranho; cu vou à aldeia e volto breve, e não me esque- cerei de trazer-lhes confeitos e brinquêdos. » — Os cabritos grunhiram em côro — «Sim, senhora!» — e prometteram ter muito juizo. Lá vae Yagui-san, cesto no braço, descen- do muito lepida pela serra, desejosa de con- cluir cedo os seus arranjos e regressar a casa. Os pequenos fecharam a porta no ferrolho e para se entreterem começaram jogando a ca- bra-cega. Ora, um lobo dos sitios viu sair a matrona e dirigir-se á aldeia. Por fome e maus instin- ctos, pensou a principio em atirar-se a ella; mas raciocinou depois, e com criterio (faça- se-lhe esta justiça), que, banquete por ban- quete, mais valia ir abarcar os pequerru- chos, que eram muitos e de febras mais ten- ras do que a mãe. Assim fez. Eil-o abcirando-se da modesta choupana dos cabritos. Porta fechada; não contava com este contratempo. Por uma fen- da da madeira, espreitou para dentro e viu os garotos rindo e folgando, como bons ir- mãos: Bateu de manso com os nós dos dedos na parede. — «Quem é?» — disse o mais ve- lho dos cabritos — «Não se abre a porta a ninguem, por ordem da maman!» — grita o mais novo. — «Sou eu, murmura o lobo, a vossa tia, que vos traz confeitos e bonitos ; abri depressa, meus amores ..»— Um do grupo obtemperou então que a voz da tia era mais doce e harmoniosa do que aquella, o que deu em resultado decidirem não abrir a porta ao visitante. Corre o iobo a uma pharmacia, e pede um gargarejo que lhe torne a voz mais doce e mais harmoniosa. Usa a droga. Depois volta à casa dos cabritos, espreita e encontra a chus- ma a jogar ainda a cabra-cega. Bate de man- so. -— «(Quem é?» — diz o mais velho. —«Não se abre a porta a ninguem, por ordem da maman!»— berra o mais novo. — «Sou cu, objecta o lobo, a avósinha, que vos traz bo- los e brinquedos; abri depressa, meus meni-- nos . »— Um do grupo, approximando-se da porta e espreitando para fóra, notou aos companheiros que, tendo a avó os pés alvos como a neve, eram negros como carvão os pés do visitante; o que fez que resolvessem não abrir a porta a quem batia. Safa-se o lobo a galope, já muito despeita- co, e pede ao primeiro pintor com que depara que lhe pinte os pés de branco, por causa de uma brincadeira que projecta. Satisfeito o seu desejo, volve lesto ao poiso dos cabritos, que ainda se entretêem no mesmo jogo. Bate à porta, de leve. — «Quem é?» — diz o mais velho. — «Não se abre a porta a ninguem, por ordem da maman!»— guincha o mais novo. — «Pois sou eu mesma, tontinho! a tua mamansinha, que volta já da aldeia e traz o cesto cheio a transbordar de fructaa, de sala- da, de bolos e brinquedos !abri depressa, meus encantos . »— Consideram no caso, consul- tam-se, espreitam pela fenda; agora não ha duvida; a voz é da maman, doce e harmo- niosa, tal e qual como a da tia, e os pés são brancos como os d'ella, que nisto sac à avó. Abre-se a porta. O lobo entra de um pulo, esfomeado, iracundo, ardendo em odio. Não | precisa fallur, — para o caso dispensam-se
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Uma cabra e os seus cabritos discursos —; escancara a enorme bocca e cae sobre os tristes indefesos. O mais novo, por ser tão pequenino, poude esquivar-scás vis- tas do carnivoro e esconder-se dentro de uma arca que alli estava, donde então presenceou a scena horrivel que descrevo. O monstro en- guliu um por um todos os sete irmãos, intei- tinhos, sem mesmo tomar o gosto às tenras carnes; tal era a fome que o » alanceava é a raiva de que se achava possuído... Depois, julgando não restar mais coisa em que podes- se exercer a sua voracidade insaciavel, lançou um olhar perverso ao aposento, arrotou, lam- beu os beiços, fez meia-volta e retirou-se. Passado pouco tempo, voltou Yagui-san, tendo concluido as suas mercas. Vinha offe- gante, escorrendo em suor, pela azafama com que andára de um lado ao outro, do vendi- lhão de alface ao dos bonecos, ao do arroz, ao dos confeitos, e pela ancia com que trepou pela serra arriba, na pressa de chegar. A porta aberta, o desarranjo interno e o silencio em torno, tudo lhe annunciou uma grande catastrophe consummada. — «Meus filhos, clima a miscra, meus filhos onde es- tio? Ai de mim, e ai d'elles! que por certo abriram a porta por engano, o lobo deu fé disso, veio aqui, comeu-m'os, devorou- m'os!...» — As lagrimas corriam-lhe dos olhos, a fio, manifestando a dôr immensa que lhe ia no bestunto. Então o cabrito mais pequeno, unico salvo, entreabriu a tampa da arca e lá de dentro, tremulo ainda de susto e de pezar, contou à mãe como tudo succedera. A boa Yagui-san escuta attentamente a narrativa. A dôr, a colera, a sede de vin- gar-se, animam de tons differentes o olhar e o gesto do desolado bruto. Por fim, como se uma idéa genial de subito lhe occorresse e com um rasgo de coragem bem pouco em harmonia com a indole dos animaes da sua especie, — mas de que não serão capazes as mães em transes taes! — gritou ao peque- nito — «Acompanha-me ! vamos salvar teus manos e conferir o justo premio ao seu al- goz! ..» Seguem os dois. Embrenham-se no matto, alcançam as mais ermas clareiras da floresta, em procura do lobo. Oh! elle além está, es- tirado, fazendo fôfo leito das folhas seccas do arvoredo caídas pelo chão. Dorme e re- sona, n'uma doce postura de paz de con- sciencia e de apetite satisfeito, o canalha ! Convém não accordal-o ; pois não será com tal patife, em guerra a descoberto, que a ca- bra terá probabilidades de victoria. Chega-se os a elle mui de manso, mui de manso, 365 com pés de lã que avançam sem ruido, con- tendo a respiração, o arfar do peito. Eil-a ao lado da fera. Depressa, saca de uma tesoira que trouxcra, e rasga-lhe a barriga tão deli- cadamente, que o lobo continúa dormindo e resonando. Eis os filhos, todos sete, sãos e salvos, surdindo do bandulho sem uma só beliscadura e saltando ao pescoço e abraçan- do-se aos chavelhos da jubilosa mãe. — «Calem-se! absoluto silencio !...» — mur- mura-lhes a cabra. Os filhos, tem-n'os ella. E” muito bom, mas ainda não é tudo. Urge agora mandar para os infernos aquelle troca-tintas, já por- que a sede de vingança (que é uma virtude no Japão) assim o determina, já porque aconselham todos os codigos da prudencia que a gente — e os brutos porque não? — nos livremos para sempre, se podermos, de repetir encontros com os nossos inimigos. — «Cada um de vocês, segreda a cabra aos sete filhos, vae agora trazer-me um pe- dregulho, comprehendem 2» — Dito e feito. Yagui-san arruma as sete pedras na barriga do bicho, escancarada ; depois começa de juntar de novo a pelle, cosendo-a a leves pontos de fio de seda com que vinha preve- nida. Ah! impagaveis mãos dás japonezas, mesmo quando seja de cabras que sc trate... tanto mimo, tanta arte e quasi se diria — tal carinho — empregou no seu trabalho, como se estivesse cosendo um vestido de setim para um dos filhos, que ao cabo de uns minutos a ferida estava reparada sem que restassem vestigios do rasgão, composto e lisado o pello; e o lobo — comprazendo-se com os afagos d'aquelles dedos, parecia mais regaladamente continuava dormindo e resonando... Bem. Agora é safar ligeiro para longe e escolher poiso entre a maranha dos arbustos, ao abrigo das vistas do patife, que ha-de ac- cordar, quando se fartar de dormir tanto. E accordou, passadas umas horas. Er- gueu-se, espreguiçou-se, esfregou os olhos com as mãos, deu alguns passos ao acaso, mal seguros. Sem duvida, sentia-se pesado. — «Difficil digestão, exclama; eram mais du- - ros do que eu julgava, os cabritinhos A agua corre-lhe proxima, n'uma profunda ribeira que serpea na montanha. Devora-o a sede; acerca-se, inclina o corpo sobre as mãos, para beber. Então, por um pheno- meno de facil comprehensão, mesmo para os pouco versados nas leis da gravidade, as pedras rolam-lhe nas entranhas para a frente, o corpo perde o equilibrio, o lobo cae na agua e logo vae para o fundo... logo? não s—
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366 Serões tão rapidamente que não lhe chegassem às oito filhos, abeirar-se da ribeira e assistir aos orelhas as gargalhadas da cabra e dos ca- ultimos esgares e ao turvo arregalar dos olhos britos, que vinham cm rebanho, a mãe e os de sya excellencia o lobo... , Kobe, outubro de Igo2, WENCESLAU DE MORAES, ALA me es HISTORIA A todo o galope Pilhados! No momento da fuga O primeiro descanço
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GANHE Vá MEMENTO ENCYCLOPEDICO Acontecimentos politicos e sociaes Dezembro 17 de 1993 — Hesp mha — No se= nado em Madrid o sr. Montero Rios diz sentir grande satisfação pelo bizarro acolhimento feito em Portugal a Affonso xm, e prevê a al- liança de Hespanha com Portugal, preconisada pelo partido democratico. Em seguida propõe que se envie á nação portugueza um publico testemunho de gratidão. A proposta de Monte- ro Rios foiapprovada por unanimidade. — Gre- cia— O sr. Theotokis acceita o encargo de for- mar novo gabinete pela demissão do sr. Rhal- lis. — Japão — Dizem de Tokio que a resposta da Russia ao Japão foi examinada pelo con- selho de ministros, parecendo que as propos- tas russas não foram consideradas acceitaveis. 19 França— Em Lyon os operarios prepa- radores e tintureiros votam a continuação da gréve por grande maioria. 20 Hespanha — Em Valencia fecham-se os estabelecimentos para protestar contra os ag- gravamentos das contribuições. 22 Inglaterra — Em Londres as companhias de seguros estão já segurando navios contra os riscos de guerra. — Hespanha — Diz-se que Alexandre Pydal voltará novamente à politica activa em virtude de indicações d'altas influen- cias. — Argentina — Estão completamente pa- ralysadas as operações no porto de Buenos Ayres em consequencia da gréve. — Santiago do Chile — Dá a sua demissão o gabinete chi- leno. 24 França — A commissão da revisão pro- nuncia-se unanimemente pela reeêptibilidade do requerimento do ex-capitão Dreyfus para a revisão do seu processo em Paris. 25 França — O sr. Delcassé, ministro dos negocios estrangeiros e o conde Tormelli, em- baixador da Italia, assignam uma convenção de arbitragem, cujos termos são absolutamente identicos á convenção franco-ingleza assigna- da em 14 de outubro ultimo. 26 Hespanha — Salmeron está disposto a entrar n'uma activa propaganda republicana, realizando para esse fim varios «meetings». — Brazil — O numeroso pessoal da marinha mer- cante no Rio de Janeiro constitue-se em grêve por causa dos cidadãos ultimamente naturali- zados brazileiros serem excluidos da recente lei do sorteio para o serviço da marinha de guerra. 29 — Hespanha — Pablo Iglezias chefe do partido socialista vae retirar se á vida privada, afim de restabelecer a sua saude — Somalilan- dia — De Hoewit annunciam que os somalis inflingiram um pequeno revés a uma columna militar ingleza. Janeiro 2 de 1004 — Inglaterra — «O Daily Telegraph e o «Daily Graphic», publicam in- formações assegurando que as ultimas noti- cias do Extremo Oriente dão como inevitavel o rompimento da Russia com o Japão. 3— Uruguay — É declarado o estado de sitio em toda a republica. 5 — Brazil - A colonia portugueza do Cea- rá reclama do ministro portuguez, conselheiro Camillo Lampreia, providencias contra o as- sassinato do nosso compatriota Marques Dias. 6 — Marrocos—O governo marroquino paga os juros em atraso de todos os emprestimos. 9 — China — O principe Tching informa o ministro do Jupão em Pekim de que a China conservará a neutralidade no caso de se de- clarar a guerra russo-juponeza. 10 — Hespanha — À grêve dos trabalhado- res maritimos estende-se a Huelva Villagarcia a Bilbao e Gigon — Celebram: se dez comicios em Madrid contra o bispo de Nozaleda sendo presos varios oradores. 11 — Santiago do Chile— Resolve-se a crise ministerial, 12— França — A camara dos deputados elege para seu presidente o sr. Brisson repu- blicano radical e candidato da maioria, por 257 votos contra 219 dados ao sr. Bertrand, re- publicano. 14 — Italia — Granito Belmonte é nomeado nuncio em Vienna, e Caputo para egual missão em Munich. 15 — Hespanha — Ha um levantamento em Valencia contra os impostos de consumo.
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AA 48 19 — Inglaterra — O sr. Chamberlain vae a Guild Hall, onde tem um acolhimento enthu- siastico. Pronuncia um discurso em que ex- plana o seu programma aduaneiro. Diz que se não forem adoptadas as reformas que elle pro- põe, a Inglaterra participará da sorte de Ve- neza, e da Hollanda, cuja prosperidade está extincta. 20 — Allemanha — O «Reichstag» approva sem debate os creditos supplementares pedi- dos pelo governo para reprimir a rebelião na Damaraland. 22 — França — Em Paris na praça da Con- cordia dá-se uma manifestação aos gritos de viva a Alsacia. A policia evacua a praça e ef- fectua umas sessenta prisões. 26 — Hespanha — No senado o sr. Navarro Lenester combate energicamente o tratado de commercio entre a Hespanha e a Noruega. 29 — França — O senado approva as con- venções assignadas em Haya entre a França e varias potencias para regularização dos con- flictos de leis e jurisdição no tocante a tutella de menores, casamento e divorcio com sepa- ração de bens. z 30 — Hespanha — No senado Montero de los Rios pede a lista das reclamações feitas por hespanhoes depois da perda das Philipi- nas, e que se relacionem com o tratado feito em Paris, segundo o qual o governo america- no se obriga a recommendar a Cuba o cum- primento dos compromissos. Fevereiro 1 — Montevideu — Um bando de 1:500 homens pertencentes ao partido gover- namental soffre um revez em San Ramon. 2— Hespanha—O «Heraldo» publica varios documentos officiaes relativos á defeza de Ma- nilla. Um d'elles prova que Nozaleda presidiu á junta de defeza de Cuba. — Grecia — O sr. Theotokis, presidente do conselho e ministro do reino, apresenta na camara dos deputados o programma da reorganisação do exercito, — Inglaterra — Abre o parlamento com a as- sistencia do rei Eduardo vit. No discurso da corôa mostra-se grande satisfação por se ter concluido com a França a convenção de arbi- tragem. 8 — Servia — Em Belgrado o ministerio ser- vio dá a sua demissão collectiva. 4— Japão — O governo japonez é informa- do de que todos os navios de guerra russos sur- tos em Porto Arthur, menos um que está em concerto, partiram com destino desconhecido, e que as tropas russas se dirigem para o lalú. 7— Japão — Aguarda se a todo o momento a declaração de guerra. A legação russa pre- para-se para partir de Tokio. 8 Japão — O governo japonez declara offi- cialmente que toma a decisão do rompimento das relações por causa da demora da resposta russa, e affirma não a ter recebido. 9 Japão — A esquadra japoneza composta de 15 couraçados, bombardea Porto Arthur. Servia — Granitch Rerco constitue gabinete. 10 Hespanha — A autoridade suspende em Madrid o «meeting» da União REstolaf Repu- blicana, sendo preso um dos oradores. — Es tados Unidos — O governo americano decide 4 Serões : enviar os c uzadores da esquadra das Philip- pinas ás aguas chinezas para seguirem as ope- rações. — Russia — O almirante Alexcieft é nomeado commandante de todas as forças de terra e mar no Extremo Oriente. — Inglaterra — O rei Eduardo assigna a declaração da neu- tralidade da Gran Bretanha. 13 Allemanha — O «Monitor do imperio» annuncia a proclamação da neutralidade da Allemanha. — thina — O governo chinez pro- clama a neutralidade da China. 14 França — O governo francez adhere á nota dos Estados Unidos sobre a integridade e entidade administrativa da China. — O jor- nal official publica a declaração da neutrali- dade da França no conflicto russo-japonez. 15 Hespanha — O governo põe à disposição do deputado Nocedal, os documentos referen- tes aos processos instruídos, relativos á perda das colonias. 18 Portugal — Pela presidencia do conselho de ministros é levada á assignatura regia, de- pois de ouvido o conselho de Estado, o de- creto pelo qual Portugal manterá a mais es- tricta e absoluta neutralidade a respeito das potencias belligerantes no Extremo Oriente, — Japão — Os japonezes no combate do dia 14 em Porto Arthur metteram a pique 2 na- vios russos. 19 Portugal — Realizam-se comícios como protesto ás propostas de fazenda. 21 Hespanha — Marcham de Madrid e de Barcelona mais tropas para os Baleares. — Brazil — E" sanccionado no Rio de Janeiro o tratado do Acre com a Bolivia. 23 Hespanha — O sr. Salmeron, rodeado por todos os deputados republicanos abandona a sala das sessões do Congresso em Madrid e assim sahe do edificio sendo acclamado por enorme multidão que o applaude. — Russia — A nota da Russia ás potencias accusa o Japão de ter violado o direito das gentes em Porto Arthur. — França — O grupo da direita e o grupo da União Republicana affirmam por una- nimidade a sua fidelidade e sympathia para com a Russia e votam 500:000 francos para os feridos russos 34 Japão—A subscripção aberta para o em- prestimo destinado ás despezas da guerra foi coberta com grande enthusiasmo; a popula- ção ainda a mais pobre concorreu com o seu obulo para o emprestimo — Russia — O Men- sageiro do Governo publica o «ukase» que no- meia o almirante Makaroff commandante da esquadra -do Pacifico. 26 Estados Unidos — O presidente Roose- velt assigna uma proclamação que torna o tra- tado do canal de Panamá executavel. — Fran- ça— O sr. Delcassé, ministro dos negocios estrangeiros, assigna com o embaixador da Hespanha, uma convenção de arbitragem ana- loga á celebrada com a Inglaterra e a Italia. 28 Japão — O almirante Togo continúa a bombardear Porto. Arthur. — Colombia — E" eleito o general Reyes para presidente. 29 Portugal — Fundêa no Tejo a esquadra ingleza do Canal, sob o commando do vice- almirante Carlos Beresford.
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Variedades Pio) Março 1 — Portugal — E' recebido em pri- meira audiencia por sua majestade el-rei D. Carlos 1 no paço d'Ajuda monsenhor Guiseppe Macchi, arcebispo de Thessalonica, novo nun- cio de sua santidade em Lisboa. 3 Egypto— O conselho de ministros do Egypto decide que nenhum navio belligerante será autorizado a escoltar presos no canal de Suez nem nas aguas egypcias. 6 Hespanha — As forças militares que guar- necem Vigo recebem ordem para se mobilisa- rem na fronteira portugueza ; 9 Portugal — Dá-se uma revolta do gentio da Guiné. O governador envia de Bissau um telegramma noticiando que sahirá de Cacheu depois de completamente batido o Churo. 12 Japão — Os preparativos militares pro- seguem methodicamente. A esquadra japo- neza tenta conseguir de novo obstruir O ca- nal da enseada de Porto Arthur. ; 14 — Portugal — Realiza-se em Lisboa a manifestação do commercio de Lisboa, Porto e outras terras do paiz contra as propostas de fazenda — Bulgaria — O governo bulgaro de- nuncia todos os tratados de commercio. 15 — Hespanha — Fundea no porto de Vigo o «Koenig Albert», escoltado pelo couraçado allemão «Friedrich-Karl» e trazendo a bordo o imperador Guilherme. Duas horas depois chega o rei Affonso xt! tendo uma entrevista com o imperador a bordo. À tarde do mesmo dia o imperador Guilherme parte para Gibral- tar, nomeando antes Ff partir Affonso xm al- mirante da esquadra allemã, e concedendo as gran-cruzes da «Aguia Negra» aos comman- dantes dos navios de guerra hespanhoes «Pe- lavo», «Giralda», Vasco Nunez», e «Balboa». 19 — Russia — O estado maior general cal cula em mais de 550:000 homens, comprehen- dida a cavallaria, que até 25 de maio estarão concentrados na Mandchuria. Só em agosto poderá dar-se uma batalha decisiva. 21 — Jtalia — Na sua encyclica «Jucunda sa- ne» por occasião do centenario de S. Grego- rio, O papa exprime a resolução de defender, a todo o transe, os direitos do papado e diz: «Estamos n'uma época de negação universal, que é o resultado da sciencia mal applicada, revelando as consequencias moraes d'esta in- credulidade.» 24 -- Japão — No combate naval que se se- guiu ao bombardeamento de Porto Arthur, foi mettido a pique um couraçado russo —Hespa- nha—O senado approva o projecto supprimin- do o imposto sobre o carvão mineral. — Italia —O imperador Guilherme chega a Napoles. 25 — Italia — O embaixador da França en- trega a Merry del Val, secretario de Estado do Vaticano, conforme as instrucções do sr. Com- bes, presidente do conselho, e Delcassé, mi- nistro dos negocios estrangeiros, um energico protesto contra os ataques dirigidos pelo Papa ao governo francez na sua recente allocução aos cardeaes. 26 Italia — Chega a Napoles o rei Victor Manuel que vae visitar o imperador Guilherme. — Russia. — Os russos começam a transpor o rio la-Lu, 27 Hespanha — Em Junrilla, Murcia, da-se um importante levantamento popular contra o arrendamento dos impostos. — Russia — Re- solve-se formar um exercito de reserva com as tropas mobilisadas no centro da Russia eu- ropea. O seu effectivo será de 200:000 hcmeris, que partirão para o Extremo Oriente no prin- cipio de maio. — França — A camara dos de- ' putados approva por +16 votos contra 269 a generalidade do projecto de lei que supprime o ensino congregacionista. 29 Japão — Em Tokio o ministro da mari-, nha lê à camara dos representantes o relatorio do almirante Togo sobre o sexto ataque a Porto Arthur. A camara vota uma moção de | incitamento ao governo e obriga se a não lhe recusar nenhum meio de defesa para a conti- nuação da guerra. 30 Dinamarca — Chegam a Copenhague o rei Eduardo e a rainha Alexandra de Ingla- terra. ê 31 Macedonia — São enviados trez batalhões turcos a Hedjas, onde os beduinos massacra- ram perto de mil peregrinos. 5 Hespanha — O rei Affonso x assigna o decreto, promulgando a lei das responsabili-. dades dos funccionarios civis. — França — O sr. Delcassé, ministro dos negocios estrangei- ros assigna com o ministro plenipotenciario dos Paizes Baixos uma convenção de arbitra- gem analoga as que assignou com a Inglaterra, Italia e Hespanha. — Chile — O ministerio chi leno dá a sua demissão collectiva. 9 Turquia — E' assignado o accordo turco- bulgaro. 12 Portugal — A columna expedicionaria ao Binde e Bailundo na Africa, sustenta re- nhido combate em 31 de março, durante 2 horas e trez quartos terminando por um as- salto á bayoneta, e obtendo victcria decisiva sobre o gentio, que offerece grande resisten- cia. — Hespanha — Ao sahir do palacio da deputação provincial em Barcelona, o sr. Mau- ra, presidente do conselho de ministros é ferido com uma punhalada, que felizmente não é mortal. 13 Russia — Tendo a esquadra japoneza ap- parecido em frente de Porto Arthur a esqua: dra russa commandada pelo almirante Maka- roff sahe a perseguil-a, travando se combate. A esquadra russa retira para o porto. Afun- de se o couraçado «Petropavlovsk» por explo- são de tropedo, morrendo o almirante Maka- roff. — India Ingleza — A missão ingleza de Tibet que marchava sobre Giangtse, derrota 2:c00 tibetanos. 15 Japão — Quatorze navios de guerra ja- ponezes bombardeiam Porto Arthur. 24 França - O presidente Loubet chega a Roma, sendo recebido com a maior effusão pelo rei Victor Manuel e acclamado com grande enthusiasmo, por enorme multidão. 26 Brazil — A imprensa brazileira é una- nime em criticar o decreto reduzindo os direi- tos aduaneiros em favor dos Estados Unidos. 28 ltalia — O rei Victor Manuel responden- do ao brinde do presidente Loubet, diz que a Italia e a França harmonizando os seus inte»
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5o ressés no Mediterraneo, contribuem efficaz- mente para a paz da Europa. — Allemanha — Chega a Carlsruhe o imperador Guilherme. Maio 1 — Regressa a Paris da sua viagem á Ttalia o presidente Loubet. 2 Turquia — A Sublime Porta queixa-se aos abinetes de Londres e Paris de não ter sido consultada pas o convenio anglo-francez a respeito do Egypto. 7" '3 Russia - O almirante Alexeieff telegrapha confirmando officialmente o insuccesso da nova tentativa dos japonezes para obstruir o canal de Porto Arthur. 4 Japão — O general Kuroki toma na bata- lha do Ialú, contra os russos, vinte e oito pe- uenos canhões de tiro rapido e vinte peças e campanha. 5 Venezuela — O congresso venezuelano erigido em constituinte, confere ao general Castro com o titulo de presidente provisorio o poder de dictadura absoluta por um anno. 8 França — O sr. Delcassé, ministro dos ne- gocios estrangeiros, encarrega o sr. Nisard, embaixador da republica franceza junto da Santa Sé, de notificar ao cardeal Merry del Val, secretario de Estado do Vaticano, que a França considera nullo e não recebido o pro- testo pontifício contra a viagem do presidente Loubet a Roma. 8 Japão — O general Kouropatkine confir- “ma a noticia da occupação de Feng-Hoang- Cheng pelos japonezes. 11 Japão — O governo decide levantar um novo emprestimo de 5“ no paiz, na impor- tancia de dez milhões de libras sterlinas reem- bolsaveis em cinco annos, ao preço de 95 “Jo. 12 Peru — Rebenta uma gréve em Callao “entre os operarios e empregados da navega- ção, dos ministerios e dos caminhos de ferro. 14 Japão — A terceira esquadra japoneza bombardêa as fortificações de Danly e depois desembarcam as tropas. 15 Hespanha — Regressa a Madrid o rei Affonso xi1, tendo uma enthusiastica recepção. — Perú — E" acceita a demissão do gabinete peruano. Forma o novo gabinete o dr. Elmore. 19 Japão — O cruzador «Kasagui» abalrôa com o cruzador «Yochino», indo este ultimo a pique em poucos minutos, salvando-se ape- nas go homens da sua tripulação ; no mesmo dia o couraçado «Hatsuse» bate contra uma mina explosiva russa, e afunda-se, conseguin- do os barcos torpedeiros salvar 300 homens. — Marrocos — Quatrocentos salteadores, ca- pitaneados pelo celebre Raisouli, aprisionam dois americanos, Perdicario e Varley, com o fim de haverem d'elles um forte resgate. 21 Hespanha — Inaugura-se em Madrid o congresso naval sob a presidencia do rei Af- fonso XIII. — Italia — Dá se uma entrevista em Roma entre Nizard e Merry del Val, pe- dindo explicações relativas ao protesto do Papa. 22 Portugal — Realiza-se em Lisboa, na sala «Portugal» da Sociedade de Geographia a inauguração do Congresso Maritimo Inter- nacional com a assistencia de suas magestades el-rei D. Carlos I, e D. Amelia e sua mages- Serões tade a rainha D. Maria Pia, comparecendo to- dos os delegados estrangeiros e innumeras pessoas da nossa sociedade, inaugurando-se na seguida a Exposição Oceanographica d'El- ei. 26 Japão — Os japonezes expulsam os rus- sos de Nan Kia-Ling e tomam de assalto Kin- Cheo depois de encarnicado combate. 27 França — O sr Combes, presidente do conselho, diz na camara dos deputados em Paris que, «a retirada do sr. Nisard da embai- xada junto do Vaticano significa que quere- mos acabar com os protestos da Santa Sé, a respeito do poder temporal» e pede á camara que addie para janeiro toda e qualquer moção relativa á separação da Egreja e do Estado. 30 Brazil — O sr. barão de Rio Branco prohibe o transporte pelo rio Amazonas de armas e munições destinadas ao Perú. 31 Portugal — E' assignado em Lisboa, en- tre o ministro dos negocios estrangeiros, sr. Wenceslau de Lima e o representante de Hes- panha n'esta córte o sr. Luis Polo de Bernabé o tratado de arbitragem. Pelo convenio agora celebrado, Portugal e Hespanha compromet- tem-se a submetter as questões, que a diplo macia não resolva pelas vias ordinarias, a uma commissão nomeada pelo dois governos. E, só quando esta commissão não puder vir a accor- o sobre a solução do conflicto, é que elege- rá, de entre os membros do Co da Haya, um arbitro de desempate. : Junto 1 — Portugal — Chega a Lisboa a pri- meira divisão da esquadra americana do com- mando do contra-almirante Alberto S. Barker. 2 Hespanha — No conselho de ministros é approvada a proposta do governo portuguez para a constituição de uma commissão de Ji- mites do Guadiana, tornando-a extensiva a to- das as questões referentes ao uso do dito rio. — França — Na camara dos deputados ter- mina a discussão geral do projecto de lei que estabelece o serviço militar de dois annos. 6 Japão — O exercito japonez avança ao longo da costa para Porto Arthur. 8 Tanger — É" lida na mesquita uma ordem do sultão destituindo o pachá de Tanger. E” a primeira satisfação dada na questão do Rais- souli. — Hespanha — O duque de Almodovar, ex-ministro dos negocios estrangeiros, explica no congresso o estado das negociações do go- verno liberal para manter se O «statu quo» em Marrocos. 10 Hespanha — Dá entrada no Carcere Mo- delo o ex-presidente da deputação de Madrid Francisco Romero, por ter deixado extraviar o expediente sobre as eleições municipaes em Carabanchel. 12 Perú — A assembléa peruana proclama o sr. Fardo candidato á presidencia da repu- blica. — Argentina — São eleitos presidente da republica o sr. Quintana e vice-presidente o sr. Alcosta. 13 Argentina — Rebenta uma revolução na provincia de S. Luis, achando-se prisioneiro o governador. 14 França — As secções da camara dos de- putados nomeiam uma commissão de inque- di
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Variedades rito composta de 33 membros para averiguar o caso do milhão de francos oflerecido pelos frades cartuxos afim de evitarem a expulsão 15 Russia — Zukaroff, filho do director da Universidade de Moscow, presentêa o seu paiz com 8 torpedeiro-, cujo valor total é de 22 milhões de francos 16 Japão — Os japonezes derrotaram 7:000 russos perto de Fu-Cheu, tomando-lh: muitas peças de artilharia e munições. 17 Hespanha — Co veca em Barcelona a gréve dos operarios da viação. O grupo gré- vista intenta fazer parar as carreiras, a policia não deixa porém levar a etfeito o seu intento. 18 — Portugal — Parte de Lisboa para An gola um troço de soldados do exercito da me- tropole que vae reforçar a guarnição Paquella nossa provincia ultramarina e tomar parte na campanha que brevemente se vae encetar con- tra os «cunhamas», povos que se revoltaram contra a nossa soberania — Servia — O rei 51 linas occupadas pelos russos. Os japonezes conseguem occupar Guin-San. 6— Japão — Os japonezes repelliram os russos ao norte de Sae matse — Culombia — É eleito presidente da republica de Colombia o ELLE E 8 — França — A lei que supprime o ensino congregacionista será immediatamente posta em execução nas communas onde as escolas leigas podem desde já substituir as escolas ca- tholicas.— Brazil — Está acordado um «mo- dus vivendi» entre o Brazil e o Perú - Esta- dos Unidus— A convenção democratica esco- lhe o juiz Parker candida o á presidencia da Republica. 10 — Marrocos — O bey de Tunis parte em viagem á França. 10 — Russia — Os russos evacuam Hai-Chan devido á pressão dos japonezes e retiram-se para o norte, Pedro 1 da Servia tem na estação do caminho de ferro uma conferencia com o principe Fer- manda 1 da Bulgaria que passa incognito por ali. 19 — Hespanha — Uma commissão de re- presentantes dos mais importantes jornaes vi- sita o sr. Moret, presidente das reformas so- ciaes, pedindo lhe o seu apoio contra a appro vação do projecto do regulamento do repouso dominical — Japão — O general Sachelburg retira para o norte depois de ter perdido cerca de 3:000 homens. 20 — Hespanha — O rei Affonso a: convenio com o Vaticano relativo á futura das ordens monasticas. 22 — Russia — As recentes desordens da Finlandia, os tumultos da Polonia e a agitação de alguns districtos do Caucaso, reunidos aos desastres da campanha contra os japonezes preoseupam fundamente a opinião em Peters- urgo. : 22 — Hespanha — Iniciam-se as grêves em varios pontos da provincia de Castela 28 — Belgica — É assignado em Bruxellas o novo tratado de commercio com a Allema- nha — Japão — Os japonezes occupam a villa de San-Yu-Chan. 24 — Inglaterra — O rei Eduardo parte pa- ra Kiel — Estados Unidos -- O presidente Roo- sevelt acceita a demissão pedida pelo sr. Cor- telyon de ministro do commercio e industria — Chicago — A convenção republicana desi- gna por unanimidade Roosevelt candidato á nova presidencia da republica. — Uruguay — O coronel Galirza derrota os insurrectos em Cerro Largo. 26 — Allemanha — Em consequencia do ac- cordo anglo-allemão a respeito dos interesses allemães no Egypto, a Allemanha approva o projecto khedival relativo ás finanças egyp- cias. 80 — Haiti — O presidente da republica do Haiti dá satisfações publicas ao ministro ple- nipotenciario da França — Japão — A esqua- dra japoneza bombardêa o litoral e a bahia ao sul de Dalny, e desembarca um corpo de exercito, o qual vae em seguida atacar as col- igna o tuação 11 — Hespanha — No congresso em Madrid é approvada a ractificação do tratado da Hes panha com a Grecia. — Mexico — O general Profirio Dias é reeleito presidente da repu- blica. — Inglaterra — A convenção de arbi- tragem anglo allemã, analoga as convenções já celebradas, é assignada em Londres. 17 Kussia — O general Andrew vice-gover- nador de Elisabethpol, é morto á traição em Adjihent, 18 Russia — Trava-se um grande combate na região de Iauzelin entre uma columna do general conde de Keller e os japonezes, ven- do-se os russos obrigados a retirar. — Ingla- terra — O embaixador da Gran-Bretanha dirige á Russia um energico protesto contra O apri- sionamento do «Malacca», cujas munições pertencem á Inglaterra e são destinadas á esquadra ingleza nos mares da China. 24 Japão — Os japonezes alcançam uma nova victoria em Taksonitung. 25 Inglaterra — O sr. Arthur Balfour, pri- meiro ministro, respondendo a diversas per- guntas na camara dos Communs, diz que a convenção do canal de Suez estipula expres- samente que os navios de guerra teem o direito de passar pelo canal, Toda a liberdade do ca- nal está sob a fiscalisação internacional e ne- nhuma potencia tem o direito de dizer indivi- dualmente ao governo egypcio que procedi- mento deve seguir. 28 Allemanha — Os srs. Bulow e Whitte assignam o tratado de commercio russo alle- mão, — Russia — O ministro Plehwe é assas- sinado perto da estação chamada Varsovia, tendo-lhe um individuo arremessado uma bomba explosiva. ; Agosto 1— Russia — O general Keller é morto na guerra por uma granada. » 5 Brazil — O governo brazileiro compra em hasta publica a empreza dos caminhos de ferro de Sorocabana que serve uma importantissima região productora de café. 6 Estados Unidos — Tendo os patrões de diversas industrias de construcção despedido 17:000 operarios em consequencia de desac- cordo, os respectivos syndicatos e outras cor- porações de construcção proclamam por soli-
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52 dariedade a gréve, suspendendo o trabalho 50:000 operarios. 7 Hespanha — Em varias provincias reali- Re. comicios socialistas em defeza da liber- dade. 13 Inglaterra — A camara dos lords approva por unanimidade, em segunda leitura, a con- venção anglo-franceza. — Russia — O contra- almirante Withoeft, chefe de estado maior da esquadra, é morto a bordo do «Cesarewitch» por uma bala de artilharia durante o combate. 15 Russia — Um manifesto do tzar proclama assim a ordem da successão ao throno: 1.º no caso do fallecimento do soherano antes da maioridade do principe herdeiro o chefe do Estado será o gran-duque Miguel Alexandro- witch:. 2.º n'este caso a tutella do tzarewitch será confiada á tzarina Alexandra Feodorowna. 18 Japão — A legação do Japão annuncia que o general russo Stoessel rejeita as pro- ostas do Japão concernentes á sahida dos individuos não combatentes e á rendição de Porto Arthur. 19 Hollanda — Depois da refutação das idéas do sr. Jaurés, feita pelo sr. Bebel, o congresso socialista approva a moção do socialista italiano Ferri a favor da unidade do partido rejeitando a moção do sr. Vande- velde e vota a resolução de Dresde. 20 Russia — E” publicado um «ukase» que ordena a convocação dos officiaes da reserva de todas as partes do imperio e tambem dos reservistas de 71 districtos de diversos gover- nos. — Japão — Os japonezes occupam An- Chan Chuang. Os russos retiram para Mukden. 23 França — Começa a gréve geral no porto de Marselha. 26 Japão — Os japonezes tomam os fortes orientaes de Porto Arthur. 30 Marrocos — Em Sidibbelabes uma co- lumna franceza é atacada proximo de Berguent pelos mouros, tendo estes soffrido grandes perdas. 31 Japão — Trava-se a memoravel batalha perto de Liao-Yang, empenhando-se na acção, dos dois lados mais de 5o0:000 homens e 1:300 canhões. Os japonezes vencem, obrigan- «do a retirar os russos SeremBro 1 — França — Começa em Cette a gréve geral dos operarios e trabalhadores das docas. 2 Austria — O rei Eduardo VII regressa de Marienbad a Inglaterra. 7 Turquia —O chefe armenio apodera-se da cidade de Van. o que occasiona um grande panico na população. — Thibet — E' assignado o tratado de paz entre a Gran Bretanha e o Thibet. 8 Portugal — Realiza-se em Vianna do Cas- tello o congresso nacional de pescarias. N Viena d'Austria — Realiza se a abertura do Congresso Internaciona) da Imprensa em Vienna d'Austria. 14 Brazil — O Congresso approva a conven- ção maritima internacional estabelecida entre os delegados do Brazil, da Republica Argenti- na, de Uruguay, de Paraguay, reunidos no Rio de Janeiro, a qual supprime as quarentenas. Serões 17 Italia — O movimento da gréve propa- ga-se parcialmente a Roma, Bolonha e Turim. 20 Italia — Ao Congresso dos livres pensa- dores, reunido no Collegio Komano, assistem 3:000 delegados. O dr. Haeckel é saudado com acclamações O delegado portuguez, dr. Ma galhães Lima, é muito comprimentado 21 Servia — Celebra-se em Belgrado a ce- remonia da coroação do rei Pedro. 25 Perú — Assume a presidencia da Repu- blica o sr. José Pardo. Está constituido o novo gabinete com o sr. Leguva na presidencia do conselho. — Uruguay — Assigna-se a paz en- tre os revolucionarios e a gente do governo. 29 Portugal — As forçus portuguezas no Ultramar sofrem um desastre horroroso de que não ha memoria de outro egual desde a chamada campanha do Bonga; foi o massa- cre de um destacamento de cerca de *00 ho- mens e officiaes, que partindo do Humbe atra- vessára o Cunene. Ourusro 8 — Estados Unidos — Abre-se em Boston o 13.º congresso internacional da paz. 9 Hespanha — kealiza-se a peregrinação a Begona, a que concorrem :0:000 peregrinos, os bispos de Palencia, Santander e Zamora, a deputação provincial, numerosos nacionalistas e a maioria das camoras municipaes de Bis- caia. 12 Russia — A esquadra russa do Baltico composta de 42 navios, parte de Reval com destino a Libau. 15 Japão — O general Oku toma mais 10 canhões russos. Estes soffrem uma nova der- rota, retirando e perdendo cerca de 20:000 ho mens. 17 Santiago do Chile — E" assignado o tra- tado de paz entre as Republicas do Chile e da Bolivia. 18 Portugal — O presidente do conselho, sr. conselheiro Hintze Ribeiro, apresenta a El-Rei a demissão de todo o gabinete, que é acceite. 20 Portugal — Constitue-se o novo gabi- nete, sendo presidente o sr. conselheiro José Luciano de Castro. São ministros os srs con- selheiros Antonio Augusto Pereira de Miran- da, no reino; José Maria d'Alpoim, na justiça; Manuel Affonso Espregueira, na fazenda; Se- bastião Custodio de Sousa Telles, na guerra; dr. Manucl Moreira Junior, na marinha e ul- tramar; Antonio Eduardo Villaça, nos estran- geiros; Eduardo José Co.lho, nas c bras publi cas. 23 — Inglaterra — A esquadrilha de vapo- res de pesca de Hull é que alh chegou esta tarde relata que a esquadra russa do Baltico atacou na noite de sabbado a referida esqua- dra, afundando-lhe dois vapores, matando dois homens e ferindo muitos outros. 27 Russia —O czar exonera o almirante Alexeieff, a seu pedido, de commandante em chefe das tropas no Extremo Oriente; e no- meia o general Kuropatkine commandante em chefe de todas as forças de combate de terra e mar no theatro da guerra. Novempro 1 — Estados Unidos — E? assi- gnado o tratado de arbitragem entre os Es-
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Variedades tados Unidos e a França. — França — Em- quanto o sr. Lories falla na camara sobre a ordem do dia, Syveton, nacionalista, agride o ministro da guerra, e refugia se atraz da direita. A esquerda e extrema esquerda gri- tam: — Covarde ! e precipitam se no hemici- clo. A direita fecha o caminho. A camara dos deputados pronuncia a exclusão temporaria de Syveton. 5 Estados Unidos — Estão entaboladas ne- gociações para um tratado de arbitragem com a aa nhi 12 Portugal — Suas magestades el-rei D. Carlos e a rainha D. Amelia, acompanhados dos dignitarios ao seu serviço partem de Lis- boa, e seguem através da Hespanha e da França, na sua viagem para Inglaterra. Suissa — E' assignado o tratado de commercio entre a Suissa e a Allemanha. — França — A camara dos fonutadha approva a convenção com a Terra Nova, e sem debate a convenção cele- braúa com Siam. 14 Jtaiia— O Papa celebra consistorio se- creto em que falla principalmente da situação da França; repelle a accusação de ter violado a Concordata; proclama o direito do Papa denão nomeartodos os candidatos ao episcopado apre sentados pelo governo; e termina affirmando a sua inabalavel affeição pela França. 15 Brazil — O general Travassos e Dr. Lauro Sodré sublevam os alumnos das escolas milita- res — China — O ministro plenipotenciario de Portugal em Pekin assigna um novo tratado com a China pelo qual Portugal concede á Chi- na em Macau todas as facilidades para evitar o contrabando do opio, e obtem em troca o reconhecimento dos seus direitos commerciaes na colonia nomeadamente a respeito da nave- gação no Si Kiang; é tambem assignado o contracto para a construcção do caminho de ferro de Macau e Sin Ching por um svndicato sino portuguez. — França — O general André, ministro da guerra, apresenta a sua demissão. 18 Inglaterra — O ministerio inglez reune no Foreing Office para tomar conhecimento do tratado luso britannico de arbitragem. Os jornaes são unanimes em considerar de grande importancia o tratado de arbitragem. 19 Brazil — O alferes Ramos de Queiroz - partidario da projectada dictadura militar So- dré, subleva os inferiores e soldados do nono de infantaria, mata o tenente coronel Fabricio de Mattos, que cahe combatendo, prende os outros officiacs, sahindo do quartel com os sublevados para tentar artrahir o resto da pusinição, Repellidos no quartel do quinto e artilharia pelo coronel Ribeiro da Cos-* ta, são os sublevados atacados e submetti- dos pelo coronel Sotero de Menezes á fren te do dezeseis de infantaria. O alferes Quei- roz unico oficial sublevado é mortalmente fe- rido. 322 França — Os operarios do arsenal em Brest votam grêve geral. — Estados Unidos — E” assignado o tratado de arbitragem entre os Estados-Unidos da America e o imperio da Allemanha. 23 Portugal — Parte para Paris seguindo 53 depois para Roma, sua alteza o sr. infante D. Affonso, que vas representar sua majestade el-rei, no baptisado do principe do Piemonte, herdeiro do throno de Italia. 24 Italia — E" assignado o tratado de arbi- tragem entre a Italia e a Suissa. Ê 26 Hespanha — E' encerrado solemnemente o congresso das congregações Mariannas his- pano-americanas. 28 Hespanha — O Senado approva a con- cordata com o Vaticano. 29 Estados Unidos — Os Estados Unidos e a Russia decidem celebrar um tratado de ar- bitragem. 30 Estados Unidos — O: cont a-almirante Davis vcceita a nomeação de delegado da commissão internacional do inquerito ao in- cidente de Hull. 2.2 Acontecimentos mundanos, scienti- ficos e artisticos Dezemero 15 ve 1903 — Montevideo — Che- gaa Buenos Ayres a expedição escosseza Bru- ce, de regresso do polo antarctico, tendo attin- gido a latitude de 70º,25!. O navio «Scotia» partirá na proxima semana para,n polo onde deixou s.is pessoas para continuarem os es- tudos. 20 Allemanha—Realiza-se o casamento do gran-duque Meklembourg Schwerin com a princeza Alexandra de Cumberland. 22 França — A junta do Syndicato da im- prensa parisiense repartiu assim o premio de 100:000 francos fundado pelo sr. Osiris: 60:000 francos a madame Currie pela descoberta do radium, e 40:000 ao sr. Rranly pelo aperfeiçoa- mento da telegraphia sen” fio. 27 Portugal — Realiza-se em I.isboa a ce- remonia da entrega da canhoneira «Patria»; relo Arsenal de Marinha ao representante da commissão patriotici portugueza, e pr este, em nome da mesma commissão, ao governo. 28 Hespanha — Chegam a Madrid os prin- cipes da Baviera, hospedando se no palacio real. Estão acompanhados de seus filhos D, Fernando, D. Maria, D. Adalberto e D. Pilar. Falla-se na probabilidade do primeiro que con- ta apenas vinte annos, ser o futuro esposo da infanta D. Maria Thereza e da segunda que tem desoito annos completos, diz se que será a futura rainha de Hespanha, Janeiro 4 pk 1904 — Portugal — Realiza-se em Moncorvoa inauguração dohospital D. Ame- Jia cujos principaes iniciadores foram osbsrs. dr. Antonio Lopes Navarro, dr. Antonio Joa- quim Ferreira Margarido e Cesar Augusto Ma- cedo Ribeiro. 5 Hespanha — Chegam a Madrid o duque e a duqueza da Calabria. 9 Portugal — Effectua-se a inauguração da exposição Columbano em Lisboa, no salão do «Diario de Noticias» onde está reunida toda a sua obra, revelando toda a fertilidade da sua palheta, e todos os reflexos do seu raro talento. Realiza-se a inauguração do monumento em bronze do sr. visconde de Valmôr no largo da Bibliotheca em Lisboa,
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54 : u Portugal — Realiza-se ein Lisboa com a assistencia de suas magestades El-rei o Senhor D. Carlos e a rainha D. Amelia a ceremonia do lançamento da primeira pedra para a con- strucção do Instituto Central da Assistencia e do Hospital do Repouso — Suecia — Chega a Stockolmo a expedição polar dirigida pelo dr. Nordenskjold. Março 6 — França — Os mestres de armas italianos Pini e San Malato batem-se durante duras.horas e 25 minutos; as testemunhas são obrigadas a interromper o combate. Pini fica ferido na fronte, ao terceiro assalto, e San Malato na palma da mão. — Portugal. — E” inaugurada em Lisboa, á meia noute, a nova estatua de Sousa Martins. 14 Portugal — Realiza-se com a maior so- Jemnidade a inauguração da linha ferrea de Vendas Novas ao Setil, com a assistencia de sua magestade el-rei D. Carlos. 26 Portugal — Chega a Lisboa, monsenhor Macchi o novo nuncio de Sua Santidade n'esta córte. 30 Portugal — Realiza-se em Lisboa a inau- guração da lapide affixada na casa onde nas- ceu o valente almirante brasileiro Barroso. Fevereiro 4 — Portugal — Realiza-se na sa- la Algarve da Sociedade de Geographia de Lisboa a sessão solemne commemorativa do 105.º anniversario do nascimento de Almeida Garrett e do 2.º anniversario da Sociedade Lit- teraria que tem por titulo o nome do distincto escriptor e que foi a promotora d'aquella com- memoração. 10 Inglaterra — Realiza-se em Londres na capella de S. Jorge, em Windsor, o casamento da princeza Alice de Albany com o principe Alexandre de Teck. Asnit 3—Hespanha—Celebra-se no hippo- dromo de Madrid, a imposição pelo rei do cor- dão de S. Fernando, ao batalhão de Porto Rico. O acto é solemnissimo. Assistem os so- breviventes do batalbão, uns cem homens, que são saudados com enthusiasmo. Ao acto as- siste toda a familia real, governo, corpo diplo- matico, generaes, aristocracia, representantes de todos os centros civis e militares, opera- rios, estudantes, etc. 4 Montevideu — O presidente general Roca inaugura em Buenos Ayres o congresso de medicina, estando n'elle representadas todas as republicas latino-americanas. Hespanha — O rei Affonso XIII inaugura osição de Arte Ornamental. Hespanha — Inaugura-se em Madrid o Congresso dos architectos. O delegado portu- guez Pedro d'Avila pronuncia um discurso, ' que é muito applaudido. 8 Portugal — Sua magestade a rainha D. Amelia parte para Villamanrique, de visita a sua mãe e irmã, a sr. condessa de Paris e a princeza Luiza de França. 10 Hespanha — O rei Affonso XIII colloca a primeira pedra do monumento aos heroes Bruch no mosteiro do Monserrate, perto de Barcelona. 12 Hollanda — Viaja pelo Mediterraneo a rainha Guilhermina, da Hollanda. Serões 16 Hespanha — Celebram-se em Madrid, na egreja de S. Francisco, as exequias solemres da rainha Isabel. 25 Hespanha — Inaueura-se em Ibiza, com a assistencia do rei Affonso. presidente da commissão promotora. e ministro da guerra, o monumento á memoria de Vara, defensor de Caney. — áfrica — Nas propriedades da Companhia do Cazengo descobriu se um im portante jazigo de linhite. Maio 8 Portugal — Realiza-se com a costu- mada solemnidade e com a assistencia de sua magestade el-rei sr. D. Carlos, na Academia Real das Sciencias em Lishoa. a sessão para à leitura do relatorio dos trabalhos academicos e do elogio historico de Pinheiro Chagas, ora dor eloquente, poeta, estadista e parlamentar distincto. O eloeio é devido á penna do dis tincto academico sr. I.opes de Mendonça. 10 Portugal — Realiza-se em Lisboa a aber- tura da exposição das Bellas Artes. 4 14 Portugal — Fundea no porto de L.isboa o hiate «Marroussia», conduzindo suas altezas os duques de Orleans, irmão e cunhada de sua magestade a rainha D Amelia. 17 Portugal — E" collocada no salão de en- trada do theatro do Gymnasio em Lisboa, uma lapide em homenagem ao grande vulto da scena portugueza Francisco Alves da Silva Taborda, commemorando a estreia do glorio- so actor n'este theatro ha mais de meio se- culo. 26 Dinamarca — Abre se em Copenhague a conferencia dos membros da Associação In- ternacional para a lucta contra a tuberculose, estando representado Portugal. 29 Franca — E" inaugurado na praça d'Or leans, em Paris, o monumento levantado por subscripção publica ao poeta Colardeau, que foi membro da Academia franceza. JuxHo 1 Portugal — Realiza-se com impo: nente e extraordinaria solemnidade a ceremo- nia do alistamento de sua alteza o sr. infante D. Manuel na Escola Naval, com o posto de aspirante de marinha, na sala do Risco do Ar- senal, assistindo suas magestades el rei D. Car- los, a rainha D Amelia. a rainha D' Maria Pia, sua alteza o principe real. o infante sr. D. Af- fonso, dignitarios da córte. etc. 5 Portugal — Realiza-se em Lisboa, na Ta- pada da Ajuda, com a assistencia de suas ma- gestades, a inauguração da exposição hippica. 8 Portugal - Parte para Paris sua alteza O sr. infante D. Affonso. 10 Portugal — Realizam se em Braga as festas em honra da Virgem da Conceição, pa- ra commemorar O 50.º anniversario da procla- macão do dogma 12 França — Na corrida do «Grand Steeple- Chase» d'Auteuil, é vencedor «Dandalo», ver- dadeiro cavallo de raca, vivo, secco e nervoso, pertencente a Mr. Fischoff. Na corrida do «Grand Prix de I.ongchamp» chega 1.º «Ajax», 2.º «Turenne», e 3º «Macdonnall», tendo cor- rido 13 cavallos. 13 Portugal — Com: a assistencia de sua majestade el-rei o sr D. Carlos, realiza se na carreira de tiro dos corpos da guarnição, em
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Pedrouços, o segundo e ultimo torneio do grande certamen nacional. 26 Hespanha — Os federaes em Barcelona collocam solemnemente a lapide commemo- rativa na casa onde nasceu Pi y Margall. JucHo 5 — Portugal — Procede-se, com a assistencia de sua majestade el-rei sr. D. Car- los á ceremonia do lançamento da pedra fun- damental do monumento que se vae erigir á memoria do duque de Saldanha. 9 Portugal —E' inaugurada em Coimbra na Escola Nacional d'Agricultura a exposição agricola e pecuaria. 16 França — E” inaugurado na praça de Breteuil em Paris o monumento erigido ao sabio Pasteur sob a presidencia do presidente Louber, 20 Portugal — Chega a bordo do seu «yacht» a Lisboa sua alteza o principe de Monaco. — Italia — Centenario do grande poeta Petrarcha. Em Arezzo ha o descerra- mento d'uma lapide na casa solarenga do immortal cantor de Laura. 27 Portugal — Realiza-se na Bibliotheca de Lisboa a abertura da exposição em honra do grande poeta italiano Petrarcha. 81 Portugal — Inaugura-se officialmente o sanatorio de Parede, mandado construir pela sr.* D. Claudina de Freitas Chamiço, obra piedosa e altamente benemerita. Agosto 7 — Hespanha — Batem-se em duello em Madrid o jornalista Cadenas e o actor Ci- quelme. Este recebe trez ferimentos e aquelle varias contusões. O duello foi a sabre. 12 Russia — A tzarina Alexandra dá á luz um gran-dugne, herdeiro da corôa da Russia. 15 Portugal — São mandados executar com urgencia os trabalhos preliminares para a con- strucção das obras de fortificação destinadas á defeza do porto artificial de Leixões e da barra do Douro, 18 Portugal — Effectua-se em Alhandra na praça 7 de Março, a ceremonia do lançamento da primeira pedra de um modesto monumento que vae ser erigido em memoria de Sousa Martins, a expensas dos seus conterraneos. 24 Russia — Effectua-se com grande sole- mnidade na egreja de Peterhof o baptisado do tzarewitch. Setembro 4 — Sua magestade el-rei D. Car- los passa revista ás tropas em manobras no Bussaco, levando á sua esquerda sua mages- tade a rainha D. Amelia, seguidos pela casa militar e officiaes montados do estado maior da direcção dos exercicios. — Hespanha — Inaugura-se em S, Sebastiom a exposição ethnographica, Variedades 55 6 Portugal — Chega a Lisboa Mr. Charles Millot de passagem no seu passeio pelo mundo ue se propõe percorrer a pé. Tendo partido e Paris em 22 de Abril de 1900, isto é, ha quatro annos, tem percorrido, a França meri- dional, a Italia e a Hespanha. 9 Allemanha — E' officialmente ratificado o casamento do principe imperial da Allemanha Guilherme de Hohenzolern com a princeza Cecilia de Mecklemburgo Schwerin. irmã do gran-duque reinante Frederico Francisco. 15 Inglaterra — Chega a Londres o capitão Scott e os seus officiaes a bordo do vapor «Discovery» de regresso da sua viagem, de exploração ao polo Sul. — Italia — A rainha Helena dá á luz um filho varão, o qual sê chamará Humberto e terá o titulo de Principe do Piemonte. á 16 Hespanha — Abre-se ao serviço publico a navegação pelo canal de Castilha. Ourusro 18— A princeza das Asturias dá á luz uma infanta, fallecendo em consequen- cia, 24 Hespanha — Inaugura-se em Barcelona a exposição mineira sob a presidencia de Mlende, que no seu discurso mostra a neces- sidade de se estabelecerem os portos francos para o desenvolvimento das industrias. 25 França — Realiza-se em Paris a abertura dos cursos da Sociedade dos Estudos Portu- guezes. i 30 Portugal — Celebra-se no Porto a inau- guração do monumento levantado à memoria do insigne esculptor Soares dos Reis. Novemero 6 — Na carreira de tiro dos cor= pos da guarnição em Pedrouços (Lisboa), realiza-se o primeiro campeonato da taça D. Carlos I, premio patrioticamente instituído pelo «Tiro Sport». A 15 Inglaterra — O «yacht» real «Victoria and Albert» rodeado pela esquadra que o acompanha entra em Portsmouth, conduzindo suas magestades os reis de Portugal. 19 Chile— A republica do Chile é favora- vel a ajudar a da Colombia para abrir o canal interoçeanico através do isthmo de Darien, aproveitando os rios navegaveis Utrato e S. Juan. É 22 Portugal — E” assignado pelo conselho da Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portuguezes, o contracto de exploração do caminho de ferro de Coimbra a Louzã. 27 Hespanha — Na Academia de Historia celebra-se a sessão commemorativaftlo cen- tenario de Izabel a Catholica. — Jtalia—Inau- gura se no palacio de S. João de Latrão em Roma, a exposição internacional Marianna, seo NECROLOGIA Dezempro 16 — 1903 — O acror Gama, em Lisboa, um velho artista que por muito tempo trabalhara no theatro de D. Maria 17. 20 — Consermemo Lurz Carros GARCIA DE MiranDa, em Lisboa, juiz do Supremo Tribu- nal de Justiça. 22 — ConsELHEIRO GENERAL DE DIVISÃO ELY- seu Xavier DE Sousa E Serra, em Lisboa, 65 annos, administrador geral das alfandegas ; foi tambem deputado, commandante da Escolu Pratica de Artilharia, e era ajudante de cam- po honorario de sua magestade el-rei D. Car- os. 26 — Josi ZananpeLLI, em Roma, brilhante
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'56 Serões orador parlamentar ministro em diversas si- tuações e por ultimo, como chefe de partido, presidente do conselho. “Janeiro 2 — De. AntONIO FausTO NAMORADO, em Lisboa, 82 annos de edade; foi cirurgião em chefe do exercito e em 1881 reformara-se com a pdnação de general de brigada. 8 — Prixceza MareicDe, em Paris, casada com o principe russo Demidoff. Com a sua morte desapparece uma das ultimas grandes figuras femininas do segundo imperio. 7 —VisconpE DE CLavERIE, em Lisboa, 75 an- nos. Exercia o cargo de correspondente do jornal francez «Le Figaro». 8— Azserro BoreLHo, em Lisboa. Era de- utado da nação, professor do lyceu, lente da scola do Exercito e capitão de artilharia. 11 —Visconpessa DE MACEDO DE CAVALLEIROS em Ponte de Lima, esposa do sr. dr. José Ma- nuel de Brito Cicio, juiz de direito. 14 — CoxseLHeirO José SILVERIO DE AMORIM DA Guerra Quargsxa, em Lisboa, 83 snnos Juiz conselheiro do Tribunal de Contas. 20 — MansuicHer, em Vienna, inventor da arma que tem o seu nome. 22 — Baronzza DE S. Pepro, em Lisboa. 26 — D. Lurz pa Camara Leme, em Lisboa, general de divisão reformado, ministro de Es- tado honorario, par do reino e do conselho de sua magestade. 81 — Marqueza ng Tancos, em Bemfica ar- redores de Lisboa, venerada pelas suas virtu- des e bondade de coração. Fevereiro 6 — DeseMBARGADOR Luiz FiGUEI- Ras, em Lisboa 78 annos. 10 — GeneraL Davousr, em Paris, duque de Auerstadt e ex-chanceller da Legião de Honra. 13 — ConDE DA AZzARUJINHA, ANTONIO AUGUS- mo Dras pe Freiras em Lisboa, 74 annos de edade. Abastado capitalista, foi e rada em diversas legislaturas, e era par do reino. 15 — Casrumo Aucusto Vangz DANTAS, em Lisboa, 53 annos, general de brigada reforma- do, antigo escriptor e jornalista, inspirado poe- ta e militar distincto. 20 — O Acror Simõas, em Lisboa, pae da actriz Lucinda Simões e avô de Lucilia Si- mões. 22 — Barongza DA Povoa DE SANTO ADRIÃO, em Lisboa, 89 annos de edade. Era bisneta do marquez de Pombal, neta de José de Seabra e filha dos condes da Bahia. Março 2 — Epuarpo José Pereira em Lis- boa, antigo vice-consul de Portugal em Yo- kohama no Japão, cargo que desempenhou gratuitamente e durante o qual teve ensejo de prestar optimos serviços aos portuguezes re- sidentes e aos que em viagem por ali passa- ram. O extincto era um caracter nobilissimo e uma inteligencia pouco vulgar e cultivada. 5 — MarzcraL Conpz E WaLDERSEE em Ha- novre. Foi um dos generaes mais considerados do exercito allemão e era chefe do estado- maior general, 7 —VisoonDE pE MaLanza em Lisboa, pos- suidor d'uma grande fortuna. 8 — CeLso Heaminio DE FREITAS CARNEIRO, em Lisboa, distincto caricaturista. 17 — Duque pr Cameripor, em londres, 85 annos de edade, tio-avô do rei Eduardo vit. Era feld-marechal do exercito britannico, e membro da camara dos pares. 17 — DD. IsaseL Maria DE LACERDA CASTELLO Brasco, commendadeira do Real Mosteiro da Encarnação, da Ordem d'Aviz, em Lisboa, 68 annos de edade. Em 1888 foi condecorada por Sua Santidade Leão x com a commenda «Pro ecclesia et Pontifice», sendo a primeira pessoa agraciada com a commenda d'esta ordem pon- tificia. 19 — Avcusto Cesar DE ALMEIDA, em Lis- boa, actor muito conhecido das platéas dos theatros portuguezes. Asri 9 — D. Marta Luiza IzaBeL, era rainha de Hespanha, em Paris, filha de Fernando vu e de D. Maria Christina, de Napoles. Nascera em Madrid em 1830 A conspiração militar de se- tembro de 1868, obrigára Isabel u a sabir de Hespanha e a abdicar em seu filho Affonso xn em 1870. Desde esse tempo vivera completa- mente alheia á politica. 13 — Srva Pereira, em Lisboa, 65 annos de edade, um dos mais populares e estimados actores portuguezes. 14 — CoxseLmerro JacrxtHO StxõES FERREIRA pa Custa em Lisboa, form: do em direito e antigo deputado. 14 — Coxsermerro Joaquim Penro DE SEa- BRA, em lisboa, 69 annos de edade, filho do , visconde de Botelho Seabra. 24 — Bispo ng Angra DO Heroismo, D. José ManvzL DE CARVALHO, em Angra, 59 annos de edade. Mato 4 — Conpe VaLENcIA DE Don Juan, em Madrid, archeologo notavel e director da Real Armeria. — Gasrigi Merino, em Madrid, escriptor dramatico, auctor de «Los Africanistas» «El rey de Lydia» e outras. 10 — Henry Moretrox SranLey, em Lon- dres, 64 annos, celebre explorador africano, um dos mais audazes aventureiros do se- culo xx 12 — Ferxanpo DE Orivema, em [.isboa, 45 annos de edade, cavalleiro de touros, artista correcto e corajoso, victima d'um desastre na arena do Campo Pequeno. 13 — DanrgL Viera, em Paris, 55 annos, ce- lebre illustrador parisiense. 27 — Barko DE ComsarJvA, THOMAZ D'AquI- xo Mourão Garcez PALHA, pertencente a uma das mais distinctas familias da India Portugue- za, antigo deputado da nação, e actualmente dao da instrucção publica n'aquelle Es- tado. sunHo 6 — CoxpE DU Bois D'AiscHx, em Lis- boa, que durante alguns annos fôra ministro da Belgica n'esta córte. 9 — Marra Juctana RoserTA, em Ferreira de Zezere, com a notaveljedade de31 15 annos, deixando filhos, netos, bisnetos e trinetos. Nunca esteve doente nem tomou remedio algum. 13 — GexgraL VisconDF DE SANTA MARGARI- Da, em Beja, tendo feito parte do antigo ba- talhão nacional de caçadores de Beja.
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Variedades Jurmo 1 — VisconDE DE SANTO AMBROSIO, O pe Fraxcisco NamoraDo, em Lisboa * 4-— Coxeao ALves MENDES, no Porto, illus- tre escriptor e eloquente orador sagrado, um dos mais brilhantes que tem tido o nosso paiz. 10 — GexEraL Joko Jesus Fenão, em Setu- bal. 12 — GeneraL Antonio Simões DE CARVALHO VivaLpo, em Lisboa, 58 annos. 14 — Pavro Knuaer, em Clarens (Suissa), ex-presidente da Republica do Transvaal, ce- lebre individualidade que se extinguiu no exílio. 18 — Dr. Henrique Mivosr, em Lisboa, 80 annos, um dos nossos mais cultos jurisconsul- tos, professor distincto e escriptor estimado pelo seu profundo saber e nobre caracter. 28 — Coxsenunno Hesrique Francisco Bt- zarro, em Lisboa; delegado do thesouro no districto de Lisboa. 28 — Dr. Hygino de Sousa, em Lisboa, um dos mais brilhantes ornamentos da classe me- dica portugueza, operador distinctissimo Agosto 2.— Dr. ALrREDO FILGUEIRAS DA Rocma Peixoro, em Coimbra, 56 annos de edade, lente cathedratico da faculdade de ma- thematica e 1.º astronomo do observatorio astronomico da Universidade. 6 —GeneraL CONSELHEIRO ALVARES PEREIRA, em Azambuja, lente da Escola do Exercito. 12 —D. Anronto José Gomes Carposo, bispo de Angola e Congo, em Palma de Baixo, ar- redores de Lisboa. 18.— Gurrgaerz DE Aguera, em Lerico, Aus- tria, embaixador da Hespanha junto do Vati- cano. 28.—Manquez ne CasteLLONEs, em Madrid. 27.—MarIANNA JeRONYMA DA SILVA, em Sar- doal (Portugal) na avançada edade de 110 annos. Suvemero 9. — CemstLHerRo LUIS FREDERICO nx Bivar Gomes pt Castro, presidente da Ca- mara dos Pares, em Portimão (Portugal). 5- , 14. — Ossorio x BerxarD, em Madrid, dis: - tincto escriptor e jornalista. 16.— Arrrepo Serrano, em Bolonha (Italia) distincto escriptor e critico de arte. 18. — Prrxcrpe HerseRT DE BisMAROK, em Dohersdorf proximo de Kiel. Foi um diplo: mata e um politico distincto. 21. —Dr. Sruvrso Gurmarkes, em Lisboa, 43 Rs de edade, deputado do Estado do ará. Ourusro 1. —VIcE-ALMIRANTE ANTONIO DUAR- TE Penroso, em Lisboa, 7o annos de edade, antigo ajudante de campo honorario de el-rei D. Luis e de el-rei D. Carlos. 5. Rosa Damasceno, no Gradil, perto de Mafra, 55 annos de edade, distinctissima actriz, proeminente individualidade na scena portu- gueza, onde dificilmente será esquecida, ape- sar da ephemera gloria do palco. 6. — Francisco Simões MarciocHI, em Lis- boa, 56 annos de edade, par do reino, antigo provedor da Real Casa Pia, director-secreta- rio da Sociedade das Casas de Asylo da In- fancia Desvalida de Lisboa, antigo vereador da camara municipal de Lisboa, agronomo - ilustrado, tendo sobre a especialidade escripto numerosos artigos e memorias. 11.— Conve na Covn.HÃ, na Covilhã, fidalgo da nobre casa dos Calheiros da villa de Va- lezim e abastado capitalista. 15.—O Rer Da Saxonia, Frederico Augusto, em Pillnitz. Era viuvo da infanta portugueza D. Maria Anna, com quem casara por procu- ração, em Lisboa, a 11 de março de 1859. — Dr. ManueL Emycnio Garcia, em Lisboa, lente jubilado da faculdade de direito da Uni- versidade de Coimbra, orador e distinto es- criptor. 17.—A PrincEza DAS AsTuRIAS D. Maria Mer- cedes, em Madrid, 24 annos de edade. Era a herdeira do throno de Hespanha até seu irmão D. Affonso xi ter sucessão directa. THEATROS Dezembro 16 de 1903 — O HEROE DO DIA, pe- ça em 3 actos, traducção do sr. Alberto Bra- ga. (Theatro D. Amelia). — pum! peça em 3 actos e 6 quadros, original do escriptor brazi- leiro sr. Arthur de Azevedo e do sr. Eduardo Garrido. (Theatro da Trindade). 23 — Ressureição, peça em 5 actos, de Tols- toi e Henry Bataille, traducção do sr. Mello Barreto. (Theatro D. Amelia) 24 — UM SERÃO NAS LARANJEIRAS, peça em 3 actos, criginal do sr. Julio Dantas. (Theatro de D Maria II). 29 — O PRINCIPE PERFEITO, peça em 1 prolo- go & 4 actos, extrahida do romance «Os amo- res do principe perfeito», original do sr. Arthur Lobo d'Avila. (Theatro do Principe Real). 3o— O outro sexo, Pesa franceza em 4 actos, de Valabregue e Hennequin, traduzida ro sr. Sousa Bastos. (Theatro do Gymna- sio). Janeiro 8 — À CRUZ DA ESMOLA, peça em 3 actos, original do sr. Eduardo Schwalbach. (Theatro de D. Amelia). 9— O senHOR FEUDAL, peça hespanhola de Dicente, traduzida pelo sr. Julio Soller. (Thea- tro da Avenida). ; 12 — O soNHO D'UM PRINCIPE, peça em 1 acto, original do sr. Henrique de Mendonça. (Thea- tro de D. Maria II). 15— O coxo DO BAIRRO ALTO, peça em 0 actos, original do sr. Eduardo Coelho. (Thea- tro do Principe Real). S 23 — CASAMENTO DE CONVENIENCIA, peça em 4 actos, original do sr. Coelho de Carvalho. (Theatro de D. Maria II). 28 — Os DIABOS NA TERRA, UMa Opera comi- co-phantastica, com 4 actos e 6 quadros. A musica um «arreglo» de Nicolini. (Theatro da Trindade). 28 — UMA NOUTE EM VENEZA, operetta em 3 actos, de Zell e Genée, com musica de Strauss. (Theatro da Avenida).
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58 Fevereiro 6 — DE PORTAS A DENTRO, revista em 3 actos, original do sr. Baptista Diniz, com musica do sr. Paschoal Pereira. (Theatro da Rua dos Condes). 9 — GARRA DE LEÃO, drama em 6 actos, do auctor parisiense Edouard Philippe, traducção do sr. João Soller. (Theatro do Principe Real). 12 — CAVALLARIA LIGEIRA, peça em 3 actos, de Courteline, traducção do sr. Camara Lima. (Theatro de D. Maria II). 19— ÀS CALÇAS DO JUIZ DE PAZ, vaudeville em 4 actos, traduzido pelo sr. João Soller. (Theatro da Trindade). 29— À CASTELLÃ, comedia de Capus, em 4 actos, traducção do sr. Accacio de Paiva (Theatro de D. Amelia). Março 4 — UMA SENHORA ILLUSTRADA, CO- media traduzida pelo escriptor brazileiro sr. Ra d'Azevedo. (Theatro do Principe eal). 4— GENTE PARA ALUGAR, comedia allemã traduzida, arranjada e remodelada em 4 actos, pelo sr. Freitas Branco. (Theatro do Gymna- sio). 6 — PerpiDos NO MAR, drama em 5 actos, mitação do sr. José Antonio Moniz. (Theatro do Principe Real). 8— A MORAL D'ELLES, traducção da «Tante Leontine». — AMANHÃ, original portuguez de Manoel Larangeira, em 1 acto. (Theatro do Principe Real). 9— À MULHER DEMONIO, traducção do sr. Lu- ciano Chaves. (Theatro do Principe Real). 11— AMOR DE PERDIÇÃO, extrahido por D. João da Camara do drama de Camillo Castello Branco. (Theatro de D. Maria). 16 — ViviNHA A SALTAR, revista do anno, ori- ginal dos srs. Mello Barreto e Camara Lima. (Theatro da Avenida). 24: - NA LUA DE MEL, comedia, traducção do sr. Leopoldo de Carvalho. (Theatro do Gym- nasio). 24— O CeniMaTOGRAPHO, comedia em 3 actos, traducção do sr. Accacio Antunes. Thea- tro do Gymnasio). 26 — O ApvERSARIO, peça em 4 actos, de Capus e Arene, traducção do sr. Cunha e Cos- ta. (Theatro de D. Amelia). — O CoRACÃO TEM CAPRICHOS, peça em 1 acto, traducção do sr. Portugal da Silva. (Thea- tro de D. Amelia). ABriL 2 — O CÃO DO REGIMENTO, Operetta em 4 actos de Decourcelles. (Theatro da Trin- dade). 8 — Beios DE BURRO, revista em 3 actos e 12 quadros de Caracoles e Eduardo Fernandes (Esculapio). (Theatro do Rato). 9 — TERRA MATER, original em 1 acto do sr. Augusto de Lacerda. (Theatro de D. Maria n). — Os riLHOS ALHEIOS, Uma peça de Brieux («Le berceau») traducção do sr. Portugal da Silva. (Theatro de D. Maria 11.) 12 — JACK O ESTRIPADOR, drama em 7 qua- dros de Marot e Pericaud, traducção do sr. Eduardo Victorino (Theatro do Principe Real). 18 — EM RUINAS, peça original do sr. Ernesto da Silva (Theatro do Principe Real). 21— O niNHO DE curiDo, comedia allemã Serões traduzida pelo sr. Freitas Branco. (Theatro da nao: 23 — CASAMENTO E MORTALHA, comedia em 2 actos original do sr. D. João da Camara. (Theatro de D. Maria n.) MAIO 1 — JOCKEY Á FORÇA, operetta em 3 sctos, traduzida pelo sr. Accacio Antunes, com aaa de Victor Roger. (Theatro do Principe eal). 7— UMA visirA, peça do-sr. Eduardo Bran- dés, traducção do sr. Áccacio Antunes. (Thea- tro de D. Maria n). — Fogo no convEnTO, comedia do sr. Theo- doro Barriêre, traduzida pelo sr. Antonio Lo- pes. (Theatro de D Maria n) 11 — VELHOS GAITEIROS, vaudeville em 3 actos de em e Desvalliers. (Theatro do Principe eal). 1; — No TEMPO DE LUIZ xv. comedia em 4 actos de Alexandre Dumas. trasladada em por tuguez pelo sr. Salvador Marques. (Theatro de D. Marian) 17 — MANCHEIA DE ROSAS, 4Duetto da Afri- cana». «Chateaux Margaux», imitação do sr. José Soller das zarzuellas hespanholas, com musica do maestro sr. Del Negro. (Theatro do Principe Real). 18— Pera PATRIA, peça militar, escripta pelos srs. Caetano Pereira e Leopoldo Madeira, com versos do sr. Libanio da Silva e musica do maestro Luiz Filgueiras. (Theatro da Avenida). JutHo | — O ESPELHO DA VERDADE. peça phan- tastica em 4 actos e 10 quadros. (Theatro da Trindade). SETEMBRO 1 — Os FRADES MOSTENSES, ZarZue- Ja com musica de Chapi, peça vertida para nor tuguez pelo sr. João Soller. (Theatro da Trin- dade). 15 — Os vaRINOS, operetta em 3 actos, oriti- nal do sr. Raphael Ferreira, musica do sr, Del- Negro. (Theatro da Rua dos Condes). 19— O ANNO EM TRES DIAS. revista original dos srs. Machado Correia e Accacio Antunes, musica do sr. Filippe Duarte. (Theatro do Prin- cipe Real). Ourusro 5 — Rosina, comedia em 1 acto, earreglo» do sr. Pedro Cabral. (Theatro do Gymnasio). 7— SEM PÉS NEM CABEÇA, revista phantas- tica em 3 actos e 12 quadros, original do sr. José d'Azevedo e musica dos srs. Luiz Filgueiras e Joaquim Alagarnio. (Theatro do Rato.) 18 — Sciencias EXACTAS, comedia de Vital Aza. (Theatro do Gymnasio). 22— Os AMORES DE UM CONSELHEIRO, comedia em 4 actos original do sr. Tavares de Mello. | (Theatro do Gymnasio). Novemero 7 — GiLBERTA, em francez «Heu- reuse», peca em 3 actos, original de Hanne- uin e Paul Billaud, traducção do sr. Cunha e | osta. (Theatro de D. Amelia). f 8 — Os pars, drama em 5 actos de Alexan- dre Fontanes, traduzido pelo sr. João Soller. (Theatro do Principe Real). 12— À PEDRA DE TOQUE, peça em 5 actos de Augier e Sandeau, traducção do sr. Mello Bar-. reto. (Theatro de D. Maria 1.)