Seroes Revista Mensal Ilustrada 1902 N09-16
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REVISTA MENSAL ILUSTRADA SUMMARIO LAVORES FEMININOS. — ADORA- ÇÃO DOS MAGOS, — ARTE INDO- PORTUGUEZA. — MARTYRES. — DE KROONSTAD A LINDLEY. — DE LIS- - BOA A MOGAMBIQUE. — TRAGICA HIS- TORIA DE UM CSAR.— O PREÇO D'UM QUADRO. — MODAS. — MAL DE HERANÇA. — VARIEDADES. | VOLN DE JAM A FEV.- 1902 NUM. 9 CO E a CSS ss is, Administração : 7, Calçada do Cabra, Lisboa Preço 200 réis E / a
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LAVORES FEMININOS. — Exposição REALISADA NO ATHENEU COMMERCIAL. — Por VIRGINIA DA Rena: — Com 4 gteouras, copia de photographias.. . RTE INDO-PORTUGUEZA. — inda DE ARTILHERIA. — Por SOUSA VI- TERBO. — Com 7 gravuras, copia de photographias. ........ Sorrindo. — Estudo de J. B. GREUZE a MARTYRES. — Erisonio DA PERSEGUIÇÃO DE DiocLECIANO. — Por T. Lino D'AssuMPçÃO. — Capitulo VI — GALERO. pena VII — O SacRILEGO, — Cd 3 gravuras, copia de photographias. . “DE LISBOA A MOÇAMBIQUE. — Por Rima Ro — Capitulo mx— Mo- k CAMBIQUE, À FAZENDA AGRICOLA, COQUEIROS E CAJUEIROS, O moNHÉ. —(Con- linuação). — Com 2 gravuras, reproducções de photographias. TRAGICA HISTORIA DE UM CSAR. — Mysrterios DA E'sTORIA. — Com 5 ilustrações REÇO D'UM QUADRO. — ODAS. — Com 4 ilustrações “MAL DE HERANÇA. — Romance. — Segundo HarL-Carne. — Com 8 illustrações VARIEDADES. — PErús. — MEMENTO ENCYCLOPEDICO, — PHOTOGRAPHIA PRA- ; 3 A TICA, — PACIENCIAS. — CONHECIMENTOS UTEIS. — PROBLEMAS. ..........va + GRAVURAS CONDIÇÕES D'ASSIGNATURA Os senhores assignantes de Lisboa c do Porto podem satisfazer o preço: do numero o acto da entrega ou pagar serie adiantada de t2 numeros, tendo n'este caso a reducção o preço a 2$200 réis, o que equivale a receber gratuitamente um numero da serie. * Os senhores assignantes de qualquer outra terra do paiz, ilhas e possessões Persia poderão inscrever-se (pagamento adiantado) por : 53 numeros Series de 6 numeros 13 nnmeros ..... jo Para o Brazil e paizes da União postal, por : Serie de 12 numeros Feaaa penar 3$000 toa E S Pa O diminuto preço d'esta revista não suppónia o encargo de cobrança pelo correio. “Lyn. e impressão dos Serdes, C. do Cabra, 7 Editor. Thomaz Rodrigues Malhias
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Cliches de P. Marinho & C.* Impressão typographica dos SerõEs AguarELLA DA Ex.ma Sp.º D. Maria Simões
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SALA DA EXPOSIÇÃO — AsPECTO GERAL LAVORES FEMININOS Exposição realisada no Atheneu Commercial Entre os numerosos meios de que a mulher, dona de casa ou mãe educadora, se socorre para dar, na sua influencia bembazeja, ao lar domestico aquelle aspecto confortavel e alegre que prende sympathias e impõe respeito e estima, avulta, como mais visivel a olhos extranhos, a de- coração artistica da casa, do seu interior, onde abundem os lavores proprios. Felizmente desen- volve-se entre nós a predilecção pelo cultivo da pintura applicada a mil objectos de uso decorati- vo, praticada pelas senhoras e pelas meninas, n'um renascimento de gosto e de educação muito para louvar. Não é somente na capital que se denuncia este animador movimento; é tambem na provincia. Demonstrou-o, ha pouco, a exposição da Figueira. Confirma-se ainda pela exposição no Atheneu de que em seguida se dá noticia e se A renovação mental de que a sociedade portugueza tão urgentemente necessi- ta, um grande papel deve pertencer ás mães, porque é em casa, indirectamente, que se recebem as primeiras noções, a verdade ou o erro sobre a vida. Onde a mulher fôr apenas a depositaria da tradição e da rotina, nunca poderão surgir novas gerações, aptas para o trabalho intel- lectual do nosso tempo, ávido de conquis ancioso de soluções que conduzam à feli dade. Onde a mulher é collaboradora do ho- mem em todos os seus nobres progressos reproduzem alguns aspectos. scientificos, as gerações produzem uma obra redemptora como na assombrosa civilisação americana. Entre nós, infelizmente, a mulher é habi- tualmente afastada de todo o movimento intellectual e artistico, o que-representa um terrivel elemento de atraso. Tudo quanto altere essas desoladoras nor- torna-se merecedor da mais viva sym- pathia. Está n'este caso a exposição depintura promovida pela distincta professora D. He- lena Fontes nas salas do Atheneu Commer- cial. Vinte e sete alumnas expozeram cento e
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132 setenta e dois trabalhos, o que representa um grande esforço de boa vontade, e uma bella prova de applicação. Mas não se limitou a isso o resultado do esforço da illustre professora. Milhares de senhoras percorreram as sa- las onde se ostentavam os trabalhos, tiveram occasião de os vêr, de os discutir, de os to- mar para assumpto de conversações, tendo assim ensejo de: interessar-se pelas novas applicações de tantas actividades. Estudos de alumnas, muitas d'ellas com poucos mezes de curso, não podem criticar-se como quadros de artistas feitos, onde ha que apreciar o assumpto, o processo, o intuito so- cial, sem o qual a arte, digna d'este nome, se abate e desmerece. As producções das discipulas da sr.* D. He- lena Fontes, a qual já tem exposto no Gremio Artistico e no antigo Grupo do Leão, pódem dividir-se em duas cathegorias principaes: as applicações e os estudos, o ornato das pe- quenas coisas que fazem o encanto de um interior, e as tentativas de composições co- lhidas do natural, N'umrapido exame notaremos osseguintes: quadros com girasoes, alcachofras e papou- las, de D. Maria do Carmo Vaz de Albuquer- que; um porte-brosses com um ramo de cha- Serões gas e uma carteira com uma figurinha Luiz xv, de D. Laura Schroter Batalha de Carvalho um sachet de setim com passaros e uma es- padella com paisagens de D. Amalia Schro- ter Batalha de Carvalho; retrato a crayon, flôres, paisagem com passaros e uma almo- fada com chrysantemos, de D. Alice Samora d'Eça e Almeida; um biombo em quadro com aves, um quadro com papoulas, um «cyan com cysnes, e um fouf com rosas é malme- queres, de D. Leopoldina Danin Lobo An- tunes; stores com hortenses e cannas da In- dia, de D. Elisa Fernandes e Silva Gomes; uma cadeira com figuras Luiz XV e um dcran com rosas, de D. Beatriz Leal Wintermantel; uma sombrinha (rosas) e um espelho (rosas e lilaz), de D. Claudina Horta Machado ; uma, meza (rosas) de D. Anna Pereira Mendonça de Freitas; um biombo em setim (flores) de D. Sarah Antunes Monteiro; um retrato e uma colcha, de D. Julieta Maia; marinha, de D. Alice Santos; uma cadeira (chrysanthemos), de D. Georgina Santos; retrato e botões de ro- sa de D. Bertha Brito Macieira; uma almofada (Iyrios) de D. Carlota Brito Macieira Vieg: flores e uma paisagem, de D. Elvira Barroso; retrato e uma meza (rosas), de D. Esmeralda Nunes Frade; um porte-journaux (hera e SALA DA EXPOSIÇÃO — Um CANTO
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134 myosotis), de D. Etelvina d'Albuquerque Corrêa; uma cadeira (flores), de D. Marga- rida Morgado; uma jardineira (fc res), de D. Maria Emilia Taborda Trigueiros de Martel; um biombo (gira , peonias e lyrios), de D. Maria José Roma Machado; uma gui- tarra (paisagem), de D. Maria Julia de Men- donça; um desenho, de D. Maria Novaes Souto Maior e Athaide; uma cadeira (flores de D.. Marianna Morgado; paisagem de D. Zulmira Nunes Frade; um desenho de D. Entre as diversas associações de instrucção e de recreio que se desenvolvem em Lisboa, em demonstração, bem patente e contraria ao dizer commum, de que a iniciativa particular pouco alcanç e logo esmorece nos seus es- forços perseverantes, destaca-se o Atheneu Commercial, o qual, fundado em 1880, no mo- mento da celebração do tricentenario de Ca- mões, teve periodos de desfallecimento e de abandono, mas, pouco a pouco, tem resurgido, Ei FACHADA DO EDIFICIO DO ATHENE! prosperando e contando actualmente cerca de seiscentos socios empregados no commercio Além das aulas de portuguez, de inglez, de francez, de geographia, de calculo e contabi- lidade commerciaes que mantém, promove com particular,“cuidado e interesse, á simi- lhança de institutos similares extranhos, a realisação de conferencias, a que dão Relro o saber e a eloquencia de homens de alto va- Serões Maria da Purificação Pina Vidal. Era excel- lente o aspecto da exposição e de grande al- cance o seu efeito moral. Não porque o ensino da pintura seja de influencia decisiva no futuro de um povo, mas porque é mais um esforço tendente a erguer o nivel intellectual da mulher portugueza. Educar o gosto, crear o habito do estudo, é preparar o cerebro para a acquisição dos principios scientificos em que se bascia a stencia das modernas sociedades. VIRGINIA DA FONSECA, lor scientifico, como os drs. Miguel Bombarda, Silva Telles, "Sabino Coelho e tantos outros. De par com a in trucção escolar, abrem-se as aulas de diversão e educação Phy , como a esgrima, a gymnastica, a musica, a dança, a carreira de tiro. Juntamente com o cultivo dos exercicios sportivos, como a velocipedia, organisam se excursões pelo paiz, inicio de viagens provei- tosas em apprehender pela vista conhecimen- tos rapidos. Sempre solicito em promo- ver toda a iniciativa util, o Atheneu fa- culta as suas salas a exposições espe- ciaes, como a da im- prensa pela occasião dos festejos do cen- tenario da desco- berta do caminho maritimo para a In- dia, como a de ren- das, bordados e ou- tros lavores femini- nos, effectuada em ril de 1897, por iniciativa do Athe- neu, o qual alcan- çou exito verdadei- ro e justo, dando vigoroso impulso ao movimento educa- tivo n'este ramo muito especial da industria c e da arte applicada à decoração. Ao lado das suas salas de jogos communs n'estas sociedades o Atheneu tem o seu gabinete de leitura easua já valiosa bibliotheca com obras de insr ucção e de entretenimento intellectual. Assim esta be- nemerita associação concorre brilhantemente, dentro dos seus fins. estatutarios, para o me- lhoramento da intellectualidade e da educação d'uma numerosa classe social, trabalhadora e cooperadora na formação da riqueza publica, como são os empregados no commercio. CommerciaL
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FronTAL D'UM ALTAR NA CATHEDRAL DE COLONIA, POR MEISTER STEPHEN. SECULO XV Adoração dos Magos oriente vieram adorar o Menino Deus em Bethlem, tem sido thema predilecto da arte christã. Nenhum outro assumpto da histo- ria sagrada ou profana tem obtido mais nume- rosas e variadas representações. Nos muros das catacumbas, nas esculturas dos sarcophagos, nos mosaicos das basilicas, nas capellas de sumptuosos palacios ou em modestas igrejas, em azulejos decorativos, em calices dourados, nos embutidos das por- tas, nos pulpitos de marmore, na pintura dós tectos, em bronzes burilados, em relicarios, em toda a parte, onde a arte christã se assi- gnalou e floresceu, encontra-se o episodio da adoração dos Magos, descripto atravez dos seculos, n'umu ininter- rupta serie dos mais variados aspectos. Curioso exemplo de como o decorrer dos tempos permitte a al- teração profunda da narrativa original, e de como a phantasia ar tistica substitue a pou- co e pouco a simpleza dos factos primitivos, e complica n'um tra balhoso bordado de tradições, de lendas, de mythos e de velhos poemas a verdade his- torica, adornando a por vezes, interpre- tando-a outras, e de- A NARRATIVA evangelica dos Magos, que do turpando-a muitas. Todavia a imaginação ar- tistica illumina a crença, soffre a suggestão das epocas, inspira-se nas tendencias do mo- mento e fixa interpretações ou modalidades fugitivas que se fundiriam na bruma das ida- des passadas, se o pincel do artista pintor nã as conservasse na tela, o escopro no marmore ou o buril no bronze trabalhado. O episodio dos Magos, tal como nos é nar- rado pelo evangelista S. Matheus, é breve e simples. Conta-nos que, quando Jesus nasceu em Bethlem, uns forasteiros chegaram a Jeru- salem. Não diz o numero d'elles, nem a raça, nem lhes determina posição social; mas com- clue-se facilmente, pela consideração com que foram recebidos na córte de Herodes, por tra- D'ux FRESCO DAS CATAcUMBAS DE Roxa. SECULO TIL (PRIMEIRA METADE)
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136 zerem comsigo arcas de thesouros, e porque os denomina Magos, serem pessoas de ele- vada jerarchia e distincção. Mago significa discipulo de Zoroastro e membro da ordem sa- cerdotal da Persia, doutrina e ordem n'aquel- le tempo extensamente espalhada nas nações orientaes. O motivo que, segundo S. Matheus, Um pos magos no Viaggio pe Bexo: po PaLacio RiccaRDI, EM deram a Herodes da sua viagem, foi o de te rem visto no ceu um signal que lhes annun- ciava o nascimento do rei dos judeus e vinham portanto a adoral-o. Não fixa o evangelista, se o signal foi uma estrella ou muitas, um come- ta, ou outro qualquer meteoro fugitivo. Conta que Herodes, preoccupado com esta nova, convocou os principes dos sacerdotes, quer dizer os chefes das vinte e quatro fami- O CAZZOLI, FRAGMENTO DOS FRESCOS LORENÇA. Serões lias sacerdotaes que serviam no templo, e os escribas do povo, quer dizer os doutores da lei, depositarios dos livros santos e interpretes das escripturas divinas; c preguntou-lhes se os prophetas haviam designado onde nasceria o Messias. Respondeu-lhe o conselho unani- memente que Bethlem era o logar designado pelos prophetas. Para alli mandou Herodes seguir os Magos, tendo pre- viamente inqueri- do desde quando elles tinham visto o signal no ceu. O evangelista narra em seguida em bre- ves versiculosa jor- nada dos Magos, guiados pelo signal que de novo lhes appareceu, o en- contro com o me- nino Jesus, e a of- ferta de myrra, de ouro e de insenso, em forma de preito e de adoração. Fi nalisa a narrativa, explicando o re- gresso dos Magos ao paiz d'onde ti- nham vindo, sem visitarem novya- mente Herodes, por suggestão d'um sonho. Comprehende-se sem grande esfor- ço reflexivo como a piedade e a ima- ginação inventiva foram pouco a pou- co completando a breve narração do evangelista; como os Magos subindo em jerarchia se fi- zeram reis; como das tres offerendas resultou o numero d'elles; como do estudo das civilisações orien- taes e do seu conhecimento mais ou menos Phantasioso provieram as innumeras represen- tações dos Magos e de suas comitivas; como a lenda a cada um deu nome, e com este a ori- gem, e a raça; como na eloquencia commo- vedora dos monjes pregadores se poetisou a grandeza simples do trecho evangelico, signi- ficando o abatimento humilde da distincção Securo XV
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Adoração dos Magos realenga e da sabedoria orgulhosa perante o berço do pequenino Jesus. Ao mesmo tempo, a investigação scientifica, na ousada contraprova das prophecias indis- cutiveis, encontrou o apparecimento do signal no céu, que, para a sabedoria dos Magos, in- dicava o nascimento do Messias e os guiou na viagem, na notavel conjuncção de Jupi- ter e de Saturno, raro acontecimento side- ral que se deu pouco antes do anno do nas- cimento de Christo e se repetiu no anno se guinte, unindo-se ain- da o planeta Marte á conjuncção dos ou- tros dois. Sobre este phenomeno - celeste são extremamente curiosas as observa- ções de Kepler em 1604, e os modernos estudos dos velhos registos chinczes. A astronomia vciu con- firmar a verdade da narrativa do evange- lho de S. Matheus, se o espirito do cren te podesse admittir- lhe a sombra d'uma duvida. A arte christã apo derou-se do assum- pto e illustrou-lhe os mais pequenos por- menores, ao sabor da artistas. As gravuras desteartigo exempli- ficam varios aspectos da adoração dos Ma- gos, atravez dos secu- los, principiando n'um fresco das catacum- bas de Roma, pin- tado na primeira me- tade do ur seculo, e no qual dois Magos (o numero destes tem variado de dois a seis) apresentam á Virgem, sentada com Jesus nos braços, as offerendas em pratos dourados. Os Magos, cujo vestuario attesta a vinda do Orien- te, ainda não tem alli distincção alguma que lhes determine realeza. A corôa apparece só- mente no grande mosaico de Santo Apolina- rio o Novo em Ravenna, no vr seculo. Depois, na obra dos grandes mestres da arte, 57 encontra-se sempre este assumpto ou pelo me- nos um incidente cuidadosamente tratado, sob todos os aspectos do sentimento devoto, e da magnificencia da côr, do idealismo imaginoso ou do realismo paciente, da simplicidade in- genua ou da intensa concepção dramatica, como póde têl-os concebido o engenho artis- A avoração—Quanro DE Penro PauLO RUBENS, NO MUSEU DE Anvens. SecuLo XVI (rix) tico de Stephen, de Hans Memling, de Fabri- ciano, de Ticiano, de Veroneso, de Rubens, de Rembrandt, e de tantos outros. Entre os mais curiosos citamos os frescos de Benozzo Gazzoli, representando o Viaggio dos Magos, no palacio Riccardi em Florença. Este pintor florentino era sem duvida uma é cellente creatura, muito temente a Deus, pie- doso e correcto na sua vida, mas demasiada- mente desejoso de pintar tudo quanto na terra
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138 e no mar houvesse visto e admirado. Assim, encarregado por Cosmo de Medicis de deco- rar a capella do seu palacio com a historia evangelica da visitação dos Magos ao Menino Jesus, entregou-se mezes e mezes, á luz de lampadas, que a capella era interior, ao traba- lho de cobrir toda a parede com a pintura da mais magnificente e da mais extranha pro- cissão que a phantasia lhe sugger 1u. Corseis cur- veteados, guerreiros magestosos, pagens gen- tis, caçado- res seguidos de galgos li- geiros, atraz de veados e de leopardos, tudo ia cami- nhando por entre roche: dos escarpa- dos,rios, mon- tes e valles, á sombra de arvores es- guias ou de emplumadas palmeiras. Benozzo Gaz- zoli para alli foi amon- toando retra- tos dos gran- des da época; nas persona- gens do varie- gado sequito, e até achou logar para o seu proprio escrevendo o nome na orla do gorro. A figura princi- pal, porém, é sem duvida a de Lorenzo de Medicis, ainda moço, aquelle que mais tarde foi chamado o magnifico, montado sobre um soberbo cavallo branco, n'uma vaidosa attitude de rico senhor florentino, figurando um dos Magos. Para complemento da illustração d'este ar- tigo, reproduzimos a celebre Adoração de Ru- bens, existente no museu de Anvers, quadro pintado, segundo a tradição, em treze dias, superiormente composto na disposição das fi- A ADORAÇÃO — QuapRo ArrRIBUIDO A GRÃO Vasco xo Museu DE BeLLAS ARTES. SecuLo XV Serões guras, na escolha dos typos, e na harmonia de tons, e caracteristicamente expressivo da dupla maneira do grande mestre que traduzia nas suas télas religiosas a robustez pagã da fórma exuberante, sua inspiradora ; — egual- mente reproduzimos o quadro de Grão Vasco, existente no museu d'arte ornamental das Janel- las Verdes, para exemplo da escola portugueza, e queriamos, mas não nos foi possivel conseguir, dar ainda uma repro- ducção dire- cta da larga e suggestiva composição do nosso Se- queira, qua- dro que per- tence á col- lecção do sr. Duque de Pal- mella, haven- do no museu apenas o car- tão que não se presta com proveito para asua compre- hensão geral, facilmente, á reproducção photographi- ca, na qual se apagam as figuras nume- rosas que ro- deiam a Vir- gem e dão ao quadro uma magnificen- cia de com- posição ver- dadeiramen- te notavel. A seu tem- po serão es- tudados com largueza os pintores portuguezes ; agora vie- ram sómente fornecer commentario á evolu- ção da narrativa evangelica, sempre impre- gnada das influencias do meio e do tempo, completando-se e transformando-se sob o in- fluxo da varia phantasia do artista sempre illuminada pela piedade simples do christão, com a luz divinamente bella da conjuncção sideral que assignala o nascimento do Pra- mettido.
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A CELEBRE PEÇA DO CERCO DE Diu — MUSEU DE ARTILHARIA Arte indo-portugueza FUNDIDORES DE IVERSOS escriptores extrangeiros têem D propalado a existencia d'uma arte in- do-portugueza, applicando esta expres- são não só aos monumentos architecton! mas tambem aos productos de algumas ar- tes industriaes. Nos catalogos do South Ken- sington Museum vereis designada a proceden- cia de alguns objectos, sobretudo dos que fa- zem parte do mobiliario, como indo-portu- gueza. Em meu humilde parecer, esta ideia é uma these, admissivel sim, mas que carece de de- monstração. Ainda ninguem nos disse, creio cu, em que consiste essa alliança da arte in- diana e da arte portugueza, qual a sua in- uflencia mutua, quaes os elementos com que uma contribuiu para o enriquecimento ou para a modificação da outra. Aonde existem os trechos caracteristicos que nos demons- trem essa confraternidade? Foi nas linhas ge- raes ou apenas na ornamentação que a arte europeia se deixou influenciar pela arte orien- tal? Como se vê, o problema não é singelo nem tão fácil, como á primeira vista se poderia suppôr; pelo contrario, é complexo e envolve muitos pontos, que é preciso estudar devida- mente, antes de lhe dar a definitiva resolu- ção. Belem, a Batalha, Thomar, são os tres principaes monumentos, em que se pretende observar o influxo do orientalismo artistico. Convem todavia advertir-que nenhum dos ARTILHARIA architectos, que dirigiram as obras d'aquelles edificios foram alguma vez à Asia, e por isso não poderiam receber a impressão directa dos templos budhicos. Boytac, João de Cas- tilho, Danzinho, Bolonha, os Arrudas e ou- tros, sahiram, é certo, do continente, mas para ir visitar as praças d'Africa, onde fo- ram dirigir a construcção de importantes obras militares. Ceuta, Arzila, Tanger, Ma- zagão, Cafim, não eram cidades de impor- tancia monumental, mas continham, por cer- to, edificios que não deixariam de ser cons derados com attenção por um artista. E” de crêr até que a influencia arabica ou mourisca não fosse extranha aos nossos architectos. De Ceuta, touxe D. João 1,como despojos da con- quista, doze columnas de marmore, que of- fereceu ao convento da Carnóta, proximo de Alemquer, aonde ainda se conservam, No Mu- seu do Carmo, vê-se uma grande bacia ou tanque de pedra, trazido de Mazagão. Não serão estes os unicos testimunhos e vesti- gios da nossa passagem e estada militar no littoral de Fez e de Marrocos. Tem-se apresentado como argumento com- provativo ou favoravel da these, o predomi- nio do elephante na nossa ornamentação monumental. O famoso pachyderme vês se com effeito nos tumulos da capella-mór de Belem, mas ninguem se atreveria a dizer que esta parte da egreja, tão caracterisadamente classica e que tanto se destaca do restante
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140 do edificio, suggira a mais leve ideia de ar- chitectura oriental. Tambem o monumento de D. José 1 apresenta o gigantesco animal, e ninguem dirá que elle exprima outra coisa senão o symbolismo da Asia. Francisco de Hollanda, o amigo e fervoroso admirador de Miguel Angelo, sectario do classicismo e todo elle embebido nas maravilhas da arte italiana, fez do elephante o principal ornamento de uma fonte monumental, que deixou dese- nhada na sua Fabrica que fallece á cidade de Lisboa. Não seria porém para admirar que os nossos esculptores o reproduzissem ao vi- vo, quando é certo que durante muitos an- nos elle teve a sua jaula no Terreiro do Paço, e passeava pelas ruas de Lisboa, como fa- zendo parte do sequito real de D. Manuel. Citei já alguns architectos que foram às praças d'Africa: outros houve, e de mereci- mento, que foram às regiões do Oriente, onde deixaram de si boa memoria, mas não cons- ta que, no seu regresso, exercessem a sua actividade na patria, em obra de grande vul- to. Thomaz Fernandes, tão gabado por Af- fonso de Albuquerque, Francisco Pires que mereceu os elogios de D. João de Castro, Si- mão de Ruão e Julio Simão pertencem a esta pleiade. Eram sobretudo architectos militares, mas empregavam-se tambem na construcção de templos e outros edificios. Não me custa admittir, antes me parece rasoavel acceitar, que os nossos descobrimen- tos, não só os indianos, mas os da Africa e Serões |; primir cunho e nova orientação ao movimen- to artistico. Os variadissimos e extranhos productos ethnographicos e de historia natu- ral que tódos os dias eram trazidos a Lisboa, das mais remotas paragens, nas galés dos nossos navegadores, não só espantariam o vulgo,-nfás causariam admiração em todos. Por conseguinte nada mais logico que vêr-se em toda a parte um reflexo desse espirito de novidade e de aventura. Ahi está como o orientalismo penetrou na corrente do nosso sentimento esthetico. E quando digo orien- talismo, dou a esta palavra uma significação latitudinaria, envolvendo n'ella o resultado de toda a nossa vasta e dilatada odysscia. Para se avaliar até que ponto chegou esta influencia, seria necessario proceder ao estu- do comparado da nossa flora e da nossa fau- na ornamental, e n'este sentido, para bem se determinar, deveriamos dividir esse estudo em tres periodos, o primeiro dos quaes abran- geria desde os inicios da monarchia até à conquista de Ceuta: o segundo desde este feito até à empresa de Vasco da Gama; o terceiro, finalmente desde o descobrimento da India até aos fins do seculo xvt. see Isto pelo que respeita à grande arte, espe- cialmente à architectura. No tocante ás ar- tes industriaes a transfusão mutua fez-se mais extensiva e intensivamente, graças à activa Peça Francisco DE TAvora (CENTRO) — MUsEU DE ARTILHARIA . da America, actuando poderosamente na multiplicidade das relações mercantis em se- mentalidade portugueza, excitando a nossa guida ao descobrimento do novo caminho phantasia, necessariamente haviam de im- maritimo. As nossas naus não vinham umi-
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Arte indo-portugueza I41 camente carregadas com as especiarias e dro- cedencia, o relicario que pertenceu ao Con- gas orientaes, mas conduziram desde logo, vento Carmelitano da Vidigueira, onde se en- já como elementos de tracto commercial, já terrou D. Vasco da Gama, e na egreja da como recordações e mimos pes- soaes, os tapetes da Persia, as porcellanas da China, os pannos pintados, as sedas caprichosa- mente bordadas, os charões, os bambús, os bronzes, os moveis embutidos, o marfim rendilhado e esculpido e muita outra sorte de artefactos e curiosidades. Pe- la sua parte a industria occiden- al ostentava tambem os seus primores. Nos presentes com destino: aos potentados, cuja amisade ou cuja alliança deseja- vamos captivar, figuravam as pe- ças de setim e de velludo, os gomis de ouro, os espelhos, as armas, etc. Os nossos capitães vestiam-se dos mais ricos trajos, fulgurantes de pedraria e de bo- tões de ouro, pendentes do pes- coço os seus collares esmaltados, pendentes da cintura as espadas de punho ri- camente cinzelado. Quando recebiam, a bor- do dos seus navios, a visita de algum regulo, o convez convertia-se n'uma sala real, para- mentada com pannos de ráz, formando as paredes lateraes e, sob um toldo de velludo ou de setim, sentavam-se elles na apparatosa cadeira de espaldar, cercados da sua comi- tiva fidalga, dos seus homens d'armas, dos “seus atabaleiros e charamellas, que mistu- ravam os sons dos seus instrumentos fes- tivos ao troar bellicoso da artilharia. Algumas das industrias indigenas, como a ourivesaria, procurariam imitar as fórmas europeas, não só por um prurido de novida- de, mas pelas encommendas especiaes que os nossos lhes fariam. A tradição artistica prevaleceria, os processos fundamentaes con- tinuariam a ser os mesmos, mas a influen- cia da civilisação europea, sobretudo pelo lado religioso, havia necessariamente de se fazer sentir. O christianismo, já por meio da evangelisação, já por meio da força, procura- va estabelecer o seu dominio, e os artifices da terra, quer por vontade, quer por violen- cia, tinham de sujeitar-se e de adaptar a sua indole ás novas aspirações e exigencias. Em Portugal, apesar da vandalica dispersão con- tinua do thesouro accumulado durante secu- los, ainda se encontram nas egrejas e orato- rios particulares, muitos objectos de culto taes como, paramentos, cofres de filigrana de madreperola e de outras substancias, reli- carios e estatuetas de marfim, etc. No Museu das Janellas Verdes conserva-se, d'esta pro- Peça Lvis (EsquERDA) — MUSEU DE ARTILHARIA Graça, de Lisboa, um lindo cofresinho de ouro, em filigrana, presente da viuva de Ma- thias de Albuquerque, que fôra governador da India. Que algumas das industrias orientaes se aclimassem entre nós, é tudo quanto ha demais presumivel, não só por effeito de imitação, mas de apprendisagem directa. Muitos indi- genas vinham ao reino, já como serviçaes, já como escravos, e aqui de certo, dando provas da sua habilidade, ensinariam as suas artes. Os vice-reis da India costumavam man- dar de presente às rainhas, mocinhas d'aquel- las terras, as quaes, sem duvida, mostrariam na côrte as suas prendas, sobretudo como bordadeiras. Os vestígios desta corrente não são dificeis de encontrar ainda hoje em Lis- boa, onde ha marceneiros e reparadores de moveis antigos, cuja paciente pericia faz re- cordar a dos chinezes. 288 Postas estas ideias preliminares sobre a maneira que eu imagino mais rasoavel de interpretar a expressão Arte indo-portugue- za e de lhe determinar o verdadeiro alcance tractarei agora d'uma industria que floresceu nas nossas possessões indianas, e da qual existem alguns specimens, que attestam o desenvolvimento e perfeição que attingiu. Refiro-me à fundição de artilharia. Assim que os nossos resolveram estabe- lecer-se definitivamente na India e pôr pé em terra, logo a feitoria se converteu em
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142 fortaleza. Architectos e mestres de obras, comprehendendo o pensamento dos nossos conquistadores, os coadjuvaram briosamente. Affonso de Albuquerque não se cançava de elogiar os serviços e o prestimo de Thomas Fernandes. A par da fortaleza e da feitoria elevaram-se desde logo a egreja e o hospital. Na cidade, destinada a ser o emporio de todo o nosso vasto dominio, já se vê que se alargaram as edificações. Gôa ennobreceu-se com os seus arsenaes e estaleiros, estabelecimentos que Affonso de Albuquerque já encontrára por occasião da conquista, mas que se ampliaram depois. As ferrarias gôanas tiveram fama, e de um de seus mestres, Pero Fernandes, falla Diogo do Couto com elogio, chamando-lhe grande engenheiro. Tanto na primeira como na segunda con- Serões documentalmente, os nomes de outros fun- didores, que exerceram a profissão na India, mas cujos trabalhos se perderam. N'este caso, por exemplo, está João Luis, que residiu por muitos annos na India, desde Affonso de Albuquerque até D. João de Cas- tro. Era homem de grande e variada aptidão, salientando-se tambem como fabricante de polvora. Eº possivel que seja delle uma peça que existe no Museu de Artilharia, assignada sómente com o nome Zvis. Tem o n.º I7,no respectivo Catalogo. No tempo do governador D. Nuno da Cu- nha, a fundição de artilharia tomou grande incremento e perfeição, a ajuizar, pelos exem- plares que nos restam, os quaes tanto se dis- tinguem pela grandeza e elegancia das fór- mas, como pelas ornamentações artisticas. Em Diu, na couraça pequena, existia uma Peça Turies pe Menezes — MUSEU DE ARTILHARIA quista de Gôa, Affonso de Albuquerque ficou senhor de grande esbulho militar, assim em espingardas e peças, como em outras armas. De tudo isto mandou amostras a el-rei e junctamente os operarios que as fabricavam, para que em Lisboa mostrassem pratica- mente o que sabiam e o que valiam. Este facto, a ter-se, como é de crêr, realisado, vem confirmar o que acima asseverei no to- cante:á. vinda a Portugal de artifices orien- taes. Os fundidores e espingardeiros nativos continuariam a trabalhar no arsenal de Gôa, mas as peças que hoje possuimos teem todas a rubrical-as um nome de portuguez ou pelo menos de europeu a nosso serviço. Vieram até nós productos devidos aos seguintes offi- ciaes: Fernando Anes, Reimão, João Vicente eos Bocarros. E” de advertir que se conhecem, peça de bronze com a roda de Santa Catha- rina, e o seguinte letreiro: Jo? fundido este tiro na era de 1535 por mandado do governa- dor Nuno da Cunha. O auctor occultou o seu nome, mas, felizmente, nem todas as obras da mesma época são anonymas, tendo che- gado ao nosso conhecimento o nome de dois artifices deincontestavel valia— Reimão e João Vicente. Do primeiro não alcancei, nas minhas in- vestigações archivistas, mais nenhuma noti- cia, e se não fôra ter marcado nominalmente a sua obra, teria cahido no abysmo do per- petuo esquecimento. Não sei tambem se te- ria outro appellido, ou se Reimão seria o no- me baptismal. E auctor de uma grande bom- barda de bronze, de 13 palmos de comprido e 3 de diametro na bocca. Na borda tem este
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Arte indo-portugueza Peça Regis Lusrrant FAMULUS — MUSEU DE ARTILHARIA letreiro : Regis Lusitani famulus, como quem em vulgar quer dizer que é servo do rei de Portugal. Bom e leal servidor ! No terço an- terior ostenta as armas reaes portuguezas en- tre quatro espheras, lendo-se por baixo das armas esta inscripção : Nonu da Cunha presi- dis jussu conflatum et absolutum an MDXXXII (1533). Reimon me fecit. Não acaba aqui a or- namentação artistica e epigraphica da peça, pois no terço posterior tem um tigre em re- levo, com uma inscripção em volta cuja in- terpretação mais aproximada da verdade pa- rece ser: Eu sou o tigre esforçado que por do me mandou paso. Sim, o tiro mandado fabri- car a Reimão por Nuno da Cunha não era apenas o servo obediente do rei de Portugal, era o tigre esforçado, que passava raivoso por onde o mandavam. Bella heraldica e ar- rogante divisa a d'esta peça! Outro fundidor, que rivalisava com Reimão, e que trabalhou tambem às ordens de Nuno da Cunha, foi João Vicente. Havia comtudo bastantes annos que já andava na India onde prestou, pela sua variada aptidão muitos e im- portantes serviços. Conservava-se ainda alli em 1546, no governo de D. João de Castro, sendo n'aquelle anno mestre da fundição de Gôa. Nuno da Cunha chamou-o em 1532 à Cochim para alli estabelecer uma casa de fundição. Fabricou muita artilharia, mas de o we 6 = BoMBARDA DE ADUELLAS DE FERRO, CHAMADA FERNANDO EANNES — MUSEU DE ARTILHARIA
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144 todos os seus trabalhos balisticos só nos resta a formosa peça denominada de Santa Catha- rina, por ter em relevo a sua imagem. Veio Serões Nos fins do seculo xv1 apparece na India uma dynastia ou familia de fundidores, cujos membros se vão succedendo uns aos outros. Peça CHAMADA DE SANTA CATHARINA — MUSEU DE ARTILHARIA de Damão para o nosso Museu Militar, onde tem o numero 168. E de bronze, de calibre 35, € além da imagem da santa, tem um dra- gão, uma esphera e o letreiro que diz: /oa- nes Vie faciebat gubernate Nuno da Cunha ano 1537. João Vicente não era só bom official do seu officio; manejava tambem a penna, car- teando-se frequentemente com el-rei. Da sua correspondencia resta apenas uma epistola, mas, por signal, bem interessante. Nºella faz a sua auto-biographia enumera os seus ser- viços, queixa-se da má paga que tem rece- bido, e dá conta dos dissabores e rivalida- des d'um fundidor allemão. que o queria ma- tar, mas que não realisou o seu intento, mor- rendo antes. Esta carta é datada de Gôa a 16 de outubro de 1539, e publiquei-a na integra, no meu opusculo fundidores de artilharia. Junctamente com a peça de Reimão veio no transporte Africa para Lisboa uma bom- barda de aduellas de-ferro, que estava em Diu e que se guarda hoje no nosso Museu Militar. A inscripção diz que fôra feita por Fernando Anes ou Eanes, mas não declara o anno em que a fabricou, e como não co- nheço nenhum documento que lhe diga res- peito, por isso não me julgo habilitado a fi- xar a epoca da sua actividade. Em 1525 havia em Cochim um fundidor chamado Francisco Eanes, que não sei se seria irmão ou parente do Fernando. A peça de Fernando Eanes offerece uma legenda, que tem dado que fazer aos inter- pretes, mas parece que se reduz a este hende- casyllabo, de linguagem aliás incorrecta, mes- clada de hespanholismo: E etor forte amoros darei morte. Ha aqui indubitavelmente uma al- lusão ou reminiscencia classica. A peça com- parava-se a Heitor, o forte.capitão troyano, prompto a dar cabo dos mouros, como aquelle dos gregos. São os Bocarros. O chefe era Francisço Dias, que vejo apenas mencionado com estes dois nomes, mas que tambem usaria sem duvida o appellido da familia. Em 1589 recommen- dava a côrte de Lisboa ao governador D. Duarte de Menezes que continuasse a fun- dir mais artilharia, e que para esse effeito mandava dois fundidores, visto Francisco Dias, que lá estava, achar-se doente e aca- bado. Succedeu-lhe seu filho Pero Dias Bo- carro a quem o governador D. Duarte de Me- nezes nomeou fundidor de artilharia, nomea- ção confirmada por el-rei a 12 de outubro de 1590. D'este official existe uma peça no nosso Museu Militar (n.º 41) que tem a seguinte ins- cripção: Da cidade de (Goa. Fez em o a. de 1623 P. D. B. Conhecem-se mais dois Bocarros, sem duvida descendentes: dos anteriores. De um d'elles, Manuel Tavares Bocarro, existe no Museu Militar, sob o numero 42, uma peça que tem o escudo ladeado por dois anjos, um dos quaes, o do lado direito, tem sobre a ca- beça uma esphera armillar, e o outro, uma cruz. Por baixo das armas reaes um leão coroado. Lê-se n'ella'a seguinte inscripção : Antonio Telles de Meneses, governador da In- dia, a mandou fazer, no anno de 1640, por Ma- nuei Tavares Bocarro. O derradeiro Bocarro, de que tenho noti- cia, chamava-se Jeronymo Tavares. Foi no- meado mestre da fundição de artilharia do estado da India, pelo viso-rei Luiz de Men- doça Furtado e Albuquerque, conde de La- vradio, sendo confirmada a nomeação em car- ta regia de 21 de novembro de 1674. Contemporaneo d'este, ou talvez seu suc- cessor, foi Salvador da Costa, de que, no nosso Museu Militar, existe uma peça (n.º 169) man- dada fundir pelo governador Francisco de Ta- vora, conde de Alvôr, que governou a India durante os annos de 1681-1686.
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Arte indo-portugueza Pela rezenha que acabo de traçar se vê que foi bastante productivo e importante o movi- mento das ferrarias indianas no tocante á fun- dição de artilharia, como se prova, não só pe- los documentos, como pelos exemplares, que opulentam hoje o nosso Museu Militar. A col- lecção de peças de origem indo-portugueza é notabilissima, e mais consideravel seria, se não fôra o desleixo e o vandalismo de certas autoridades ultramarinas, que vende- Cascaes, 7 de setembro de Igor. 145 ram ou mandaram fundir muitos e valiosos specimens. Para corda d'esta collecção, lá está tambem a celebrada peça de Diu, que, se não é um monumento a attestar a perícia dos nossos arsenaes, é comtudo, e mais ain- da, o tropheu glorioso colhido pelos nossos soldados no desbarato e despojo dos inimi- gos. A inscripção arabica que a ornamenta, é a certidão da sua procedencia historica. Sousa VITERBO, SORRINDO ... Esruno DE J. B. Greuze Serões — N.º 9— Vol IL
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MARTYRES EPISODIO DA PERSEGUIÇÃO DE DIOCLECIANO CarrtruLo VI — GALERO nubio, suspersticiosamente e fanatica- mente pagã, Galero, além de supersti- ticioso e fanatico era feroz e cruel. Impetuoso na satisfacção dos impulsos animaes, entre- gava-se a elles com toda a selvageria do seu temperamento, sem nenhum dos requintes de arte, elegancia de espirito com que gregos e romanos disfarçavam vicios, ou attenuavam torpezas. Baixo, grosso, obeso até a deformi- dade, cabellos crespos, tez clara, barba espes- sa, nariz achatado, fulminante o olhar vago, tinha o gesto rapido, a voz aspera e as pala- vras terrificas. Os que delle se approximavam sentiam gelar-se-lhe o sangue nas veias, e at- terrava a quem o via. O proprio Diocleciano, senhor do imperio, augusto, filho de Jupiter e seu sogro, temia-se d'elle como d'um deus irado. Se quando voltou derrotado pelos per- sas, Diocleciano o obrigou a caminhar a pé, ao lado de seu carro, como se fôra um pri- sioneiro vencido, ou liberto de pouca monta, quando depois venceu aquelles mesmos per- sas, que lhe tinham destroçado o exercito, e o imperador, louvando-o por carta, lhe deu o tratamento de cesar, esperando elle ser in- vestido na dignidade de augusto, teve como resposta estas arrogantes palavras: — Então vou ficar cesar toda a vida? E em represalia ameaçadora, tomou logo as pomposas autonomasias de persico, medico, armenico, adiebenico e filho de Marte! Deante de tal homem não admira que An- tiochia tremesse. Predispunha-a ao terror, ao medo, à sa- bujisse o clima quente, humido e debilitante, o goso ininterrupto dos prazeres luxuriosos, e a deliquescencia moral que produz a ociosi- dade. Aggravava-se o mal com a união dele- terea da corrupção brilhante da Grecia com a molleza efeminada da Syria; ao mesmo E de rustica d'uma aldeia d'além Da- tempo que a fusão das escorias de varias raças pervertidas, que lhe trouxeram o virus de todas as loucuras orientaes, e com ellas lhe envileceram a alma, a faziam ingrata, co- barde, insolente, disposta a ser instrumento servil do cesarismo. Assim, era destituida da mais elemental noção do que fosse uma pa- tria. Vivia sem respeito pela familia; sem tra- dições a venerar; accentuando a toda a hora o seu desdem pela honestidade das mulheres, pelas qualidades masculas e corajosas dos homens, pelas càs da velhice. Dava, porém, a todos estes aleijôes repellen- tes e baixos, a todas as ignominias particula- res a certas povoações levantinas um verniz seductor, uma exteriorisação elegante e artis- tica. Amava as luctas rethoricas da palavra, aprazia-lhe a discussão arguta e subtil, sentia goso num luxo culto, artificiosamente bello, composto d'uma variedade infinita de ele- mentos, que lhe vinham de todas as partes do mundo, e se accumulavam sem metho- do nem ordem, caracterisados mais pela pro- fusão da riqueza, pelas pretenções magnifi- centes do que pela selecção do gosto. Collocada às portas do oriente era o collector que dava vazão às mais infimas torpezas moraes. Galero Cesar, dizendo-se sem segurança em Nicomedia, onde ao tempo residia a corte imperial, saira d'alh para se installar em An- tiochia, como quem procura refugio numa ci- dade amiga, que, aliás, bem sabia com que rigores se puniam sedições christãs. No inverno que tinha passado, Galero es- tivera em Nicomedia incitando Diocleciano a perseguir os christãos. Como se fossem conspiradores tramando contra seu rei, os dois fechavam-se no aposento mais recondito do palacio longas e demoradas horas, durante as quaes os magister oficinorum declaravam que elles não recebiam nem falavam, qualquer
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Í ; Martyres 147 que fosse o pretexto ou necessidade; e os trinta famulos, que cumpunham a ordem dos silenciarios, formavam nas immediações do quarto uma immovel e muda parede de iso- lamento. Ninguem, comtudo, o extranhava, porque já na corte imperial estava em adiantado uso a etiqueta servil, semi-sacerdotal do orienta- lismo. A pessoa do imperador começava a ser em vida objecto de culto, de resguardo sacro, e ninguem já se dirigia a Diocleciano senão de rastos, olhos no chão e palavras raras. Em demoradas discussões passavam horas e horas estudando e planeando a maneira de sustar o desenvolvimento sempre crescente e invasor do christianismo. Evidentemente Jesus era deus; mas um deus malefico, inimigo de Roma, um deus com bastante poder que tinha resistido à grande perseguição de Decio, e cujos secta- rios se manifestaram sem pejo nos trinta an- nos que se lhe tinham seguido. Convinha ex- purgar o mundo romano d'aquelle fermento dissolvente, anniquilar de vez a seita intole- rante, que não admittia no seu pantheon os deuses do imperio, não sacrificava em sua honra, e até, para menosprezar a memoria divina dos imperadores, prohibia que os seus membros fossem augustaes. Diocleciano, prudente e astuto, hesitava perante a conflagração geral que Galero que- ria provocar. Ao seu espirito calculista repu- gnava ir perturbar esse estado de paz romana porque tanto trabalhara. Via-se cercado de christãos, que o serviam com amisade e de- dicação, quer nos empregos de confiança administrativa, quer nos postos superiores do exercito, e ainda nos mais elevados cargos palatinos. Mas, ao mesmo tempo, não dei- xava de ver que a nova religião trazia a in- disciplina ao exercito, o que fôra por demais demonstrado com a legião thebana, que, por seus escrupulos de crença ia compromettendo o exito d'uma guerra, e que foi preciso cas- tigar severamente. Que a sociedade politica estava prejudicada pela resistencia dos chris- tãos ao exercicio dos cargos publicos, e prin- cipalmente pelas doutrinas subversivas ino- culadas nas massas escravas e proletarias e até nos cunucos, o que seria a destruição da familia, pela falta de guardas e servos de con- fiança, e um perigo para os amos expostos às suasintrigas, que tantas e taes eram já que che- gavam ás mais elevadas alcovas nupciaes. Fi- nalmente o exclusivismo da crença christã podia accelerar a divisão do imperio, que elle procurara manter uno, sacrificando à integri- dade d'este a do proprio poder. Depois de muitos conciliabulos foi ouvido O consistorio sacro, perante quem iam as questões que eram da antiga competencia do senado. Alli dividiram-se as opiniões, ficando em minoria os que seguiam as tendencias do imperador. Já o adivinhavam cançado, e não admira que fizessem a côrte ao sol nascente. Consultaram-se os oraculos; e o de Apollo fez ouvir ao fundo d'uma caverna, com voz lugubre, extranhas e quasi inintelligiveis pa- lavras, annunciando «que os justos, que en- tão habitavam a terra o impediam de dizer a verdade». Quem eram esses justos ? Foi interrogado o sacerdote do deus, so- bre tão incomprehensivel queixa da parte de uma divindade, e elle indicou os christãos” como taes, e concluiu que, «ficando, por culpa d'essa gente, banida a adivinhação da terra, forçosamente os homens haviam de cair em todos os males.» Com tal resposta ficou abalado o animo do velho soldado, do politico habil; mas ainda assim não se decidiu a decretar a persegui- ção pela qual Galero instava com um fana- tismo e um odio verdadeiramente ferozes. Venceu, por fim, a pertinacia d'este. No dia das festas terminaes, foi publicado o edito, cujas reproducções, afixadas nas pa- redes dos templos, nos pretorios das basilicas e nas portas das egrejas, determinavam que as assembléas christãs ficavam absolutamente prohibidas; — que as egrejas deviam ser ar- rasadas; — os livros e manuscriptos que nel- las se guardassem reduzidos a cinzas; — os christãos de ordem elevada perderiam todos os seus privilegios e cairiam na condição de gente infame, em consequencia do que pode- riam ser sujeitos à tortura, perseguidos, inca- pazes para intentar acção perante qualquer tribunal, embora por injuria, adulterio ou roubo. Quanto aos que pertencessem à aris- tocracia, ou à classe official perderiam a li- berdade, se continuassem a ser christãos ; os escravos nunca poderiam ser libertos. Revol- taram taes prescripções. Manifestaram-se des- contentamentos; revoltas de palavra. Um christão, palatino de alta categoria, arrancou o edito e rasgou-o; outros crivaram as suas disposições de chascos. Galero ia aproveitando todos os inciden- tes para fazer aggravar as penalidades; mas Diocleciano teimava em não derramar san- gue, julgando suficientes as medidas edicta- das. Dragava-se n'aquelle tempo o porto artifi- cial de Seleucia, perto de Antiochia. O tra- balho era duro, violento e por tal fórma con- duzido que as fachinas soldadescas que o executavam mal tinham tempo para comer e ainda menos para dormir. Um dia revolta- ram-se. Debalde Eugenio, o official que as
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148 commandava, as quiz fazer entrar na ordem. Os sediciosos, dispostos a subirem para An- tiochia, que sabiam desguarnecida, não fize- ram caso delle, nem das suas exhortações, e apontando-lhes as espadas ao peito deram- lhe à escolha: ou morrer ou seguil-os. No primeiro caso, era um momento emquanto lhe lançariam o cadaver ao Oronte; no segundo, no mesmo tempo seria acclamado imperador. Para salvar a vida, escolheu o imperio. Não o tinham conseguido tantos outros e pela mesma fórma ? Então envolveu- se no primeiro pe- daço de purpura que lhe veiu á mão, tirado dos hombros d'um idolo, e mar- chou com os sedi- ciosos para Antio- chia. Era longo o ca- minho, facile abun- dante o saque. Des- ordenados corriam comendo aqui, be- bendo acolá, rou- bando em toda a parte; e foi caindo de bebedos, que uns quinhentos ho- mens estafados e sem forças chega- ram a Antiochia. Tinham mais von- tade de dormir do que de pelejar; e assim que chega- ram à ilha da ci- dade nova, forma- da por dois braços do Oronte, e onde Barao qe Bots Serões gar ao algoz os chefes que tinham defendido e conservado a auctoridade imperial! Ainda a commoção d'este incidente não estava esquecida, quando, sem que ninguem o esperasse, no silencio da noite, rebentou um incendio no palacio de Nicomedia, habi- tado pelo augusto e seu cesar. Só depois de muito trabalho e de grande destruição é que o sinistro conseguiu ser do- minado. Quinze dias depois, o incendio reapparece mais devastador. Galero, que já ti- nha accusado os christãos de terem sido os incendia- rios, renova as ac- cusações; embora muitos affirmassem que o primeiro in- cendio fôra devido a um raio, e o se- gundo ao rescaldo mal apagado, e que no trabalho da ex- tincção a gente de Galero nada fizera, ou se o fez foi para levar mais alimen- tos ao fogo. A fim que as suas accusa- ções tivessem mor peso, retirou-se os- | tensiva e rapida- | mente de Nicome- | dia, deixando sua mulher, Valeria, no palacio, e partiu ' com toda a sua co- mitiva para Antio- ' chia, declarando a seu sogro, que lhe se eleva o palacio imperial, investiram com elle, e dentro em pouco dormiam nos atrios, nos triclinios, em todos os sitios e logares onde tinham caido, ou que instinctivamente escolheram. Sabendo isto, reuniram-se os magistrados da cidade e determinaram aproveitar-lhes a embriaguez para se desfazerem d'elles. Ho- mens e mulheres armaram-se com os instru- mentos que lhes vieram ás mãos; marcharam pela calada da noite, cairam d'improviso so- bre os sediciosos, não deixando um unico com vida, e como sepultura deram-lhes a cor- rente do Oronte. Galero attribuiu a sedição da soldadesca aos christãos, e Diocleciano, por uma destas aberrações incomprehensiveis, mandou entre- Lrcrores não appetecia mor- rer assado. Eis o homem que Antiochia recebera dentro das suas mura- lhas. Eil-o que chega, com o olhar torvo e vago, coberto o enorme peito com rezulente coiraça, de figuras d'ouro em relevo, cinze- ladas com precioso artificio; purpura nos hom- bros largos, traçada e com a ponta flutcuan- do ao vento, loiros cingindo os cabellos crespos, guiando os cavallos do seu quadrigo de triumpho, recamado de ouro sobre um fundo de vermelho vivo, a caminho do tem- plo de Jupiter Capitolino, cercado e escol- tado pelos seus amigos e confidentes a ca- vallo. A custo a brigada de lictores ia abrindo
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Martyres espasso por entre a multidão ; e talvez o não conseguisse se esta não fosse à viva força fen- dida e rechaçada pela impetuosidade com que as centurias dos protectores domesticos, espada fincada no flanco, escudo em guarda, formados em columna cerrada, iam marchan- CarrruLo VII UASI ao fim da grande Avenida, antes Q chegar à Porta do Noroeste, e ao cimo duma escadaria de amplos de- graus perfilam-se oito esbeltas columnas co- rinthias de capiteis de marmore com as vo- lutas, acanthos e cauliculas doirados, onde as- serita o epistylo, soberba architrave sobre que corre o friso, com suas metopes de bronze re- presentando deuses, heroes e sacrifícios. Sobe depois o frontão, terminado no ápice por uma Victoria d'asas erguidas e braços aber- tos distribuindo coroas. O seu fundo, enri- quecido por um alto relevo de figuras colos- saes, é um primor de estatuaria e um en- canto de composição, principalmente quando, como n'aquelle momento, o sol dava valor e tom, com os seus contrastes de muita luz e muita sombra, às diversas figuras que o en- chem, taes como Jupiter num quadrigo entre Juno e Minerva, tendo à direita Neptuno e a formosa filha de Nereu na concha puchada por tristões, e à esquerda Apollo, a quem fa- zem cortejo as nove musas nas attitudes e com os emblemas que as caracterisam. Contrapondo-se a este portico, o princi- pal, e que olhando para o nascente, forma o resguardo anterior dum edificio rectangular d'apparencia massissa, eleva-se, na parte pos- terior, outro de eguaes amplitude e contes- tura, ligados ambos e communicando por duas galerias lateraes, de forma que, a cober- to, se pode andar num espaço largo em volta do corpo central, que é o templo de Jupiter Capitolino, recinto mysterioso da divindade, reservado aos sacerdotes e aos que lhe levam oferendas. A monotonia das paredes exteriores, sem aberturas, é attenuada pela saliencia d'al- tas molduras que as carpanelam, e cujos re- cortes elegantes e sobrios estão valorisados pela intensa claridade do dia. Grinaldas de flores e festões de murta cercam os meda- lhões que apainellam bustos de deuses e de imperadores, que vão pelo friso fora, em in- tervallos certos, correspondendo cada meda- lhão a um entre-columnio. Nos fustes das columnas enlaçam-se em espiral troncos de 149 doa passo de carga, impetuosos, arrogantes, cegos. E o povo comprimido, a ponto de ser esmagado d'encontro às paredes, mal lhe restava folego para gritar : — Viva Cesar! Viva Galero! Gloria ao fi- lho de Marte. seo — O SacrILEGO hera, ligando palmas verdes e ramos de loiro , e de oliveira. A multidão dos masgistrados locaes, com as solemnes togas de bandas de purpura, os palacianos, as deputações extranjeiras, e os notaveis da cidade accumulam-se nas gale- rias, deixando, porem, livre o escadorio, de- vidido em dois lances, por meio dum largo e espaçoso patamar. Aqui se eleva o altar dos sacrifícios cruentos, quadrado, enfeitado de hera, a planta consagrada a Jupiter, e onde já flammeja a labareda dos troncos de pinheiro. A seu lado a credencia, ou mesa sagrada, com os utensilios e instrumentos de sacrifício, ea anclabris, outra mesa sobre que se collocará a victima, depois de morta, para ser aberta. Os victimarios, nus da cintura para cima, com os saiotes de franjas, resguardados por aventaes, facas e cutellos nas bainhas a tira- collo, cabeças coroadas de loiros, acabam de conduzir um toiro, que tem de ser immo- lado, e procuram todos os meios de o fazer estar quieto, para parecer que por proprio instinto se dedica, como hostia voluntaria; por- que seria de mau agoiro se tivesse ido à força até o altar, e de terrivel presagio se lá chegado d'alli tentasse fugir. Na multidão que enche a galeria formam- se grupos, onde se discutem, até à subtilesa tão querida de orientaes e gregos, as formulas e o ritual do sacrificio. Os velhos praxistas, afer- rados ás praticas d'uma liturgia tão pura como obsoleta, bebida na theologia explicada ou- trora por Varão, da qual já Cicero sorria, e que Augusto mal conseguira restabelecer, affir- mam que, em vez de um toiro, mais convinha sacrificar tres carneiros a Jupiter. — Pois sim, objectam outros lidos nos clas- sicos, mas o que sacrificou Eneas, quando na Tracia lançou os fundamentos d'uma nova cidade? — Por isso mesmo, respondem os praxis- tas, já as personagens de Macrobio chasquea- vam do caso dizendo: «Ora ahi temos um pontifice,— porque não havia duvida que Vir- gilio quiz fazer do filho d' Anchises umpontifice — que sabe menos do que qualquer camilo.»
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150 — Como se enganam! Se Eneas fez asneira, não a fez Virgilio, porque, por ter sacrificado um toiro, os deuses taes e tão terriveis pre- sagios permittiram, que o sacrificador teve que retirar-se quanto antes. — Tristes e miseraveis deuses cuja omni- potencia se melindra com o sangue que se lhes offerece, importando-se tão seriamente que elle seja d'um toiro ou d'um bode, d'uma porca ou dum cabrito. Estas palavras, pronunciadas com voz firme e vibrante, em tal logar e naquella occasião, determinaram um silencio d'espanto, rapido, temeroso, e todas as attenções do grupo se fixaram no interlocutor. Era o diacono Romano. Está pallido, a phisionomia mostra-se mor- tificada, como quem vem de curtir dores. O vestuario roto, enxovalhado como quem saiu d'uma lucta ; e se não fossem as calliculas os- tensivas nos hombros e nas fimbras da tu- nica, que o denunciam como christão, dir- se-hia um desses muitos parasitas que faziam profissão de philosophia cynica, para encon- trarem, com um jantar, desculpa ao desar- ranjo e porcaria dos vestidos. Um dos do grupo interpellou-o : — Quem és tu que tão irreverentemente zombas dos deuses ? — Um simples mortal, tão ignorante que, conhecendo vós outros uma infinidade de deuses e deusas, com filhos, netos e paren- tella varia, qual d'elles mais odioso e ridiculo, eu só conheço um unico Deus. — E chama-se ? — Deus! A turba começava a chasqueal-o, empur- rando-o de uns para outros, com tal violen- cia que, escapando-lhe um pé, foi rolando pelo lanço da escadaria, parando dorido, mortificado e ferido na cabeça apenas no grande patamar. Nºeste momento soaram as trompas e clarins, ouviram-se gritos, impre- cações e gemidos de gente esmagada, uma onda de povo reflue comprimida, e as cen- turias dos protectores domesticos, avançando com impetuosidade, abrem larga clareira na massa humana, dando logar a que con- siga chegar ao sopé da escada o quadrigo de Galero. Apea-se este a custo. Ao seu es- pirito superstícioso occorreu imitar Claudio, subindo os degraus do templo de joelhos; mas, filho de Marte, julgou que era humi-. lhar-se de mais. Então vae subindo com passo pesado e incerto, no meio das inclinações profundas e de baixa adoração de toda a gente, seguido pelos seus inseparaveis favo- ritos Dasa, seu sobrinho, Severo, o mais vil dos cortezãos, e Licinio, que o excedia em ferocidade. Serões As portas de bronze do templo, com os seus dois leves rompantes pintados a côres vivas, que até ali se tinham conservado fe- chadas, abrem-se de par em par e a multi- dao clama: Salve, Jupiter! O flamine dialis, as flaminicas e todo o corpo sacerdotal, for- mando longas theorias, de tunicas de purpura, occupam de um e outro lado os espassos en- tre as columnas que dividem o sanctuario em tres naves, as duas lateraes cobertas, a do centro aberta, e por onde entra a luz a jorro, visto que o templo era hyptero, o unico proprio para o deus do raio, do sol, do ceu e da lua. Os neocros, collocados de um e ou- tro lado da porta, ensopam Os hysopes, feitos de crinas de cavallo atadas a um cabo e as- pergem Galero e sua comitiva com agua lus- tral, haurida nos aquinarios, emquanto os musicos do templo, tangendo as flautas de buxo, as guitarras e lyras fazem ouvir uma melodia lenta, sem expressão nem colorido. Galero e os seus avançam, sem nem sequer lançarem os olhos para o fino e engraçado mosaico do pavimento, onde ha centauros, satyros, nymphas, scenas d'amor lubrico e bucolico, ornatos de bellos meandros, e diri- gem-se para a estatua de Jupiter, perdida na semi-obscuridade da sua cella, formada pela abside, com que termina a nave central. So- bem tres degraus, passam para dentro da teia, formada por uma balaustrada de marmore negro com applicações de oiro lavrado, e dei- xam que o imperador se adeante para o idolo. Domina e impressiona aquella estatua gi- gantesca o pequeno cesar que d'ella se tem approximado. Elle, que se fez chamar filho de deus, sente um invencivel terror ao enca- rar as feições accentuadamente severas do rosto divino, trabalhadas com uma extraor- dinaria força d'expressão em marfim pallido, à maneira do Jupiter olympico de Phidyas, tendo as rosetas das faces avivadas a verme- lhão. O corpo a nu é eburneo, os cabellos e o manto em que se envolve de oiro, o thro- no em que se senta de ebano, com incrusta- ções de marfim e recortes de oiro fosco. Na dextra empunha o raio que fulmina, e na sinistra sustenta uma estatua da Victoria, tão grande que se deixasse cair da mão a co- rôa, que lhe é attributo symbolico, por certo esta esmagaria Galero, que reverentemente curva o joelho e beija o pé ao deus. A luz quente e franca que entra pela nave central mal ilumina a estatua d'uma fórma extranha, deixando-a, ao fundo da capella, banhada numa claridade mysteriosa, que se diffunde com menos intensidade nas naves lateraes, onde as estatuas das duas absidiolas quasi mal se distinguiriam se não fôra a luz de centenas de brandões, profusamente es-
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: É Martyres 151 palhados pelo chão, em candelabros de bron- ze finamente cinzelados. Esta luz vermelha, fundida com a luz branca do sol, dá singular valor ás chapas de oiro que forram alguns logares das paredes, donde pendem ex-votos, tropheus e bandeiras, e subindo e attenuan- do-se até os encaixotamentos dos tectos, fei- tos de vigotas de cedro lavradas, ahi illumi- na suavemente os fundos das almofadas pin- tadas a côres vivas e cruas. Galero levanta-se, e frente a frente com o idolo, extendendo o braço direito e voltando para o deus a palma da mão com o pollegar unido ao indicador, murmura palavras de supplica. Volve sob os seus passos, approxi- ma-se da ara, onde arde um pequeno fogo, tira da acerra, que um dos camilos lhe apre- senta, alguns grãos d'incenso com uma co- lherinha e deita-os no fogo. Sobe o fumo, approxima-se o flamine sa- crificador com a tunica branca atada na cin- tura, verbena de hera coroando-lhe a cabeça, acompanhado da flaminica, vestida de verme- lho, apertando o longo veu de lã azul que lhe cobre a cabeça com uma corôa de folhas de carvalho. Erguem todos as mãos ao idolo, e o flamine, cobrindo a cabeça, entôa a ora- ção propiciatoria : «Jano bifronte, reza elle, tu que guardas a porta por onde entram todos os deuses no Olympo, sede-nos propício e intercede junto do pae celeste para que attenda as nossas supplicas. E tu, Jupiter soberano, a quem acção alguma de nós outros mortaes é indif- ferente, que do alto dos ceus vês o mar co- berto de vellas, a vasta extensão da terra, os rios, os montes, os povos e os animaes, tu que à tua beira governas e mandas nos deu- ses, lança sobre nós teus olhos, e se a nossa devoção t'o merece, concede-nos o teu auxi- ho e o teu soccorro.» Terminada a oração, Galero e a comitiva sairam do templo e desceram ao patamar do escadorio onde se ia consumar O sacrificio. As aguias, insignias e estandartes erguem- se ao som da musica marcial e veem agru- par-se ao redor do cesar, e logo o sacrificador exclama com voz potente, que domina todos os ruidos da multidão : — Que as linguas fiquem captivas! A ordem do flamine, impondo silencio, é logo attendida, todos os ruidos cessam, e a multidão, sobre que o sol dardeja, aviven- tando as mil côres que a matizam, fica im- movel como se um cataclismo a petreficára. Dois popas tomam da encalabris, onde se achavam dispostos todos os utensilios e instrumentos necessarios para o sacrificio, uma lavanda que approximam do flamine. Extende este as mãos, que purifica na agua que sobre ellas lança um dos ministran- tes, e enxuga-as a uma toalha de linho. Ao mesmo tempo, um dos victimarios aspar- gia a victima com agua lustral, e outro dei- ta-lhe sobre a cabeça farinha de trigo tor- rada, misturada com sal, e com a mesma pol- vilha o altar, as facas e cutellos, que os cultrarios tiram das bainhas, bem como os outros instrumentos dispostos na credencia. Impacienta-se 'o animal. Cruzam-se os olhares inquietos temendo presagio sinistro, e Galero carrega o sobr'olho terrivel, sentin- do calafrios de medo e impetos de colera. Um dos ministrantes entrega ao flamine a faca que elle apressada e obliquamente corre pelo dorso do animal-desde a cabeça à cauda. Depois corta-lhe uma mecha “dos mais cumpridos pellos de entre cornos e lan- ça-os ao fogo. Já do prefericulo se tinha despejado o precioso vinho para o simpurio de barro, no qual o sacrificador toca com os labios. Offerece-o depois a Galero e aos que se achava junto dºelle, entornando o resto sobre a cabeça do toiro, que os victimarios, fazendo esforços sobrehumanos, procuram conservar tranquillo, o que mal conseguem, agrupando-se uns ao redor dºelle e assim mas- carando outros que, deitados por terra, lhe seguram pés e mãos. Ergue o sacrificador as mãos sobre as chamas do altar e supplica a Jupiter, omni- pôtente, grande, bom, eterno protector de Roma que propicio e bemfazejo acceite aquelle sacrificio, e que a sua vontade sobe- rana não ponha limites na terra à grandeza do imperio romano». Depois, invocando os lares d'Augusto, ora por Diocleciano, Gale- ro e seus socios do Imperio, e pelas familias d'aquelles que o serviam e lhs sacrificavam. Quatro vezes é repetida a oraçõo, e qua- tro vezes o sacerdote, pondo a mão na bocca, anda ao redor do altar; findo o que um dos cultrarios, erguendo a maça pergunta : — Faço? E a um signal affirmativo do flamine des- carrega uma pancada entre os chifres da victima, tão certa e tão vigorosamente appli- cada que o toiro cae atordoado. Outro culta- rio acaba de mata-lo, enterrando-lhe a sera, de cabo de marfim com virolas d'oiro, no pes- coço, sangrando-a assim nas grossas arterias. Jorra o sangue para um e mais vasos em que é recebido. De novo reina profundo e re- ceoso silencio, emquanto os ministrantes, ex- tendendo o toiro sobre a encalabris, o abrem mas assim que o'sacrificador, no meio d'uma chuva de flôres que sobre elle despejam as sacerdotisas, voltando os açafates, libou com o sangue da victima derramando algumas gottas, sobre as chamas crepitantes do altar,
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152 e Galero se approxima para repetir a liba- ção, Romano, que sem ninguem dar por elle se tinha levantado e chegara quasi ao altar, corre para o principe e com voz, em que se junta ao horror do culto pagão a ancia do martyrio, exclama : — Que essa libação aos deuses infernaes seja o teu pacto de morte com elles !! Se o raio, rasgando as nuvens, tivesse ful- minado o sacerdote, o terror não seria maior na assistencia. Galero, num movimento de colera, levan- ta inadvertidamente o braço, e o sangue da victima, entornando-se por todo elle, man- cha-lhe com uma pasta viscosa o aço da armadura e a purpura do manto. Resa um grito de terror, milhares de braços se erguem implorando a cle- mencia de Jupiter, e à roda do cesar caem todos de joe- lhos. — Os teus dias estão contados, Galero, diz a voz sonora do diacono e será na podridão do teu corpo, cain- do-te a carne fe- dorenta a farrapos roida pelos vermes, que has de ser cas- tigado. Causarás horror e nojo; e depois de morto, raros os que ousa- rão approximar-se de ti, para levarem os teus restos à fogueira, onde contaminarão no proprio fogo, que tu- do purifica ! Mal a voz se calou, o sacrilego foi cerca- do e arrastado dali para fóra, pelo meio dum rasgão da turba que o amaldiçoava e o maltratava. Continuaria o sacrificio ? O flamine, fitando o céu por algum tempo, como quem espera uma inspiração, ou um indicio, acabou por servir nova taça de san- gue a Galero, que então libou. Serenaram os rumores, causados pelo sa- crilegio e restabeleceu-se o silencio ritual. Aberta a victima, tiradas, lavadas e exa- minadas as entranhas, polvilhadas com fari- nha, são conduzidas à ara e lançadas ao fogo, onde o sacrificador as vae libando com vinho e azeite. Ux sacurricio Serões Crepitam nas chammas as visceras quentes, lançando para o ar um fumo negro; nos thu- ribulos queima-se novo incenso, que se en- novela em branca fumarada; erguem-se num impeto marcial estandartes, aguias e insignias, e a musica junta as suas vibrações penetran- tes e cruas ao côro de cem vozes que entoam o hymno sagrado em honra de Jupiter. Está terminado o sacrifício, só falta a ora- ção final, que o flamine se apressa em recitar, erguendo as mãos sobre a ára: —Oh! Vesta, mãe, a ti, a quem é dedicado o fogo puro, tirado dos raios do sol, que jamais se extingue, e que em teus altares deve ar- der eternamente, tanto nos templos que te são dedica- dos, como no imo sagrado dos nossos lares, sede-nos pro- picia, espalha tuas benções e benefi- cios tanto sobre os principes que go- vernam, manteem e defendem o im- perio, como sobre o povo e familias de todos. E voltando-se para os assistentes, reenviou-os com esta unica palavra: — Licet. Retirou-se Ga- lero, pallido, com o olhar coruscante, atravessando a multidão tão silen- ciosa agora, como fôra enthusiasta e gritadora à chegada. Os da comitiva procuram disfarçar com a insolencia provocadora dos olhares a perturbação que lhes causou o sa- crilegio, e é deveras preoccupados que tanto elles como os sacerdotes se dirigem para pa- lacio, afim de celebrarem, no costumado fes- tim, o final do sacrificio. Apoz elles retiraram-se os popas, victima- rios, cultrarios e outros ministrantes, carrega- dos com os restos da victima, que vão vender nos açougues e tascas que gerem. Escoa-se a multidão, perdendo a pouco e pouco o involuntario constrangimento, dis- traindo-se na vista das lojas que se iam abrin- do, e assim restituindo a vida normal ao gran- de centro. Ao mesmo tempo passa, com as mãos amarradas, Romano a caminho das masmorras do palacio real. Os pagãos que o viam apupam-ore dirigem-lhe chufas; os chris-
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| | | | | Ê | | | | | | 4 Martyres tãos baixam os olhos, com medo de encarar aquelle olhar de fogo vivo que os fulmina, e elle deixa-se conduzir sem resistencia, sem invocar sequer os privilegios do seu nome illustre. Chegado à prisão, os soldados empurra- ram-o para um antro escuro. Ora, desde que elle caminhava entre a escolta, que o seguia uma mulher com uma creança nos braços, e o foi acompanhando até à prisão. (Continúa) 153 Consentiram os soldados que ella passasse, e entrasse como prisioneira no carcere, e o chefe da escolta segreda-lhe: — Vae, anima-o, e ao romper d'alva sae, para vêres como elle vence no pretorio. — Obrigada, irmão, disse ella. E entrando e chegando-se junto de Romano, tira do rega- ço uns fructos seccos e uma cabaça com agua, e diz-lhe : — Come e bebe, porque has-de ter fome e sede! Vo são Um cemiteRIO NA SYRIA
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nuvens, estendia-se a paizagem, cortada pela longa fita branca e areenta d'uma estrada. Aqui e alli pequenas elevações de terreno. Nenhuma habitação. Ao fundo, co- meçava o massiço d'arvores d'um pequeno bosque. De quando em quando, na sereni- dade abrazadora da atmosphera, deslisava num vôo baixo e cançado, alguma ave. De traz d'uma moita saltou um homem para a estrada. Novo ainda, forte e atarracado, trazia im- presso no rosto, coberto de espessa barba preta, a expressão d'um caracter viril e arro- jado. Cobria-lhe a cabeça um chapeu de fel- tro de largas abas; por sobre a véstia, ou blusa, uma cartucheira a tiracollo, e, por cima das calças, até meio joelho, umas botas altas e folgadas. Na mão direita empunhava uma carabina. N'aquelle ponto a estrada elevava-se com o terreno. O homem, sahindo do seu escon- derijo, olhou por longo espaço, para o hori- sonte que d'aquelle sitio podia descobrir, e, ou porque tivesse satisfeito a sua curiosidade, ou por se cançar do exame, voltou para o seu posto, escondido e coberto pela verdura. — Quem reparasse então um pouco melhor para o terreno circundante, notaria um movimento singular e estranho nas sebes e outras moitas que o cobriam. Dir-se-hia que alguma rajada de vento soprára n'aquelle instante com vio- rs calor torrido, sob um ceu limpo de lencia; e todavia a atmos- phera continuava quente, de uma calmaria extrema. — Cer- tamente fôra illusão da vista. eso Era ha mêzes e no sul d'Africa, em pleno theatro da guerra. Ladysmith fôra libertada e o orgulho bri- tanico voltava a respirar desafogadamente após as duras privações por que tinha pas- sado. No quartel general inglez em Kroonstad, o tenente William Locke recebêra órdem para levar a French, em Lindley, uma communi- cação importante. Além do que verbalmente era encarregado de lhe transmittir, seria por- tador de papeis que do maximo interesse era não se perdêrem, porque continham o plano da marcha combinada de todo o exercito em direcção a Pretoria, na qual o corpo de tro- pas do valente coronel inglez tinha a prestar uma coadjuvação imprescindivel. Vinte homens de escolta acompanhavam o tenente. A missão era importante e perigosissima. Occupada de pouco tempo quasi toda a republica orangina, todavia a submissão dos habitantes não oferecia garantia alguma de sinceridade, de modo que, embora não en- contrasse no caminho nenhum troço de boers dealgum dos commandos que ainda corriam o paiz, era muito possivel que procurasse obstar- lhe a marcha algum bando de camponezes armados que lhe sahissem à frente, vendo-o tão pouco acompanhado e longe de soccor- ros. O moço official inglez não tivera ainda
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De Kroonstad a Lindley occasião de se evidenciar durante a guerra. Entrára em pequenas escaramuças sem im- portancia. Chegava-lhe agora a vez, não para assistir a uma grande batalha mas para jogar a vida em lance talvez mais grave e arriscado. — Não obstante, William Locke, firme e reso- luto, recebeu as ordens e os papeis que tinha de transmittir a French, e, meia hora depois, elle e os seus homens galopavam em direc- ção a Lindley. so9 Pela estrada branca e poeirenta, batida pelos raios V'aquelle sol ardentissimo, os ca- vallos resfolegavam de cansaço, cobrindo-se de espuma na penosa e dura corrida que le- vavam. A' frente dos seus companheiros, Locke, fi- tando sempre o caminho que tinha a percor- rêr, attento à menor particularidade de ter- rêno, sentia o suor cobril-o inteiramente, emquanto, aos solavancos do animal, os copos da espada lhe batiam com violencia no quadril. Ao alcance da mão direita, tinha a pistola d'um dos coldres- Diante delle os lanços d'estrada succe- diam-se interminavelmente. O calor era ex- traordinario n'aquelle dia; com certeza al- guma trovoada se preparava para a tarde, prenunciando uma proxima mudança d'esta- ção. Mas, com a attenção presa no fim que o levava, o official nenhuma preoccupação sen- tia do estado atmospherico. Desabassem embora sobre elle as cataractas do ceu, elle havia de seguir para diante, custasse o que custasse. . 155 Com a cabeça em braza, o olhar ferido d'aquella immensa claridade, Locke sentia atraz de si o respirar arquejante dos soldados e o galopar exhausto dos cavallos. — De quando em quando, levando a mão ao peito, sentia, sob a farda, o masso de papeis cuja particular importancia lhe fôra communicada ao partir. x Quasi metade do caminho fôra galgado. À direita tinham já deixado um pequeno bos- que, cuja approximação tanto preoccupára o official. Mas nada apparecêra. O maior silen- cio, a maior quietação reinava por toda aquella natureza esbrazeada. Para diante, a estrada, constantemente egual, estendia-se como uma longa fita branca, subindo a pouco e pouco com o terrêno, la- deada aqui e alem por pequenas elevações, cobertas de sébes e outros massiços, mais ou menos espessos. E foi justamente quando o galopar dos cavalleiros entrou nesse ultimo lanço que uma centêna de homens armados cobriu aquellas elevações, surgindo como do chão, d'um lado e outro do caminho, por um largo espaço que os inglezes tinham a percorrêr. CAM) Era a morte? — Quando menos o ficar prisioneiro? — Tudo isto passou pelo espirito do moço official, — A morte? Que lhe impor- tava! Cahiria combatendo, até ao ultimo so- pro de vida, dando tambem a morte a alguns dos contrarios. — Mas, na sua situação, nem uma cousa nem outra lhe podia convir, não por si, era soldado, sabia qual o seu devêr e
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156 não recuava ante elle. A prisão, essa, em caso algum, nunca à acceitaria ; pela vergonha de entregar a sua espada, sempre pensou que devia preferir a morte, — Mas, n'aquella occa- sião, não se tratava de entregar, nem de com- bater. Necessitava, cus- tasse o que custasse, ir para diante e ir com vida. Outro interesse, superior ao seu dever de soldado, o obrigava a fugir ao combate, Se as ordens que levava não podessem sêr trans- mittidas, se os papeis fossem apprehendidos, compromettia a mar- cha do exercito inglez e talvez que o exito da campanha. Abaixando a cabeça, sem querêr ouvir a in- timação dos boers, que não tinham ainda dis- parado um tiro e lhe propunham a rendição, na certeza de que aquel- le pequeno grupo não ousaria resistir-lhe, — Locke picou de esporas e investiu para a frente, n'uma carreira desespe- rada, seguido pelos seus vinte cavalleiros. — En- tão,-quasi immediatamente, rompeu a fu- sillaria dos dois lados da estrada. Era uma temeridade, era uma loucura pretender se- guir atravez d'aquella chuva de balas. Tam- bem, no mesmo instante, Locke sentiu dois choques violentos, um no braço direito que descahiu sem força, e outro na nuca. Duas balas o tinham alcançado, Mas, não se sen- tindo desfallecer, embora calculasse grave a segunda ferida, picou desesperadamente o cavallo, que partiu n'uma carreira desen- freada. Nada se via aos lados do caminho; toda a paizagem corna-lhe pela vista, desfeita e confusa. — Então, terceira bala, certamente Serões : dirigida ao cavallo, veio ainda ferir o official n'uma das coxas. Locke sentia o sangue innundar-lhe o pes- coço e corrêr-lhe pelas costas. Finalmente, passára a zona perigosa. Os boers já lhe ficavam para traz. Então voltou-se, a vêr se era ainda seguido pelos seus homens, ou se estes, mais mal montados, viriam a maior distancia. Nem um só o acom-. panhava. Todos tinham fi- cado no caminho, prostra- dos pelas balas das Martini Henry. soe Quando à presença de French trouxeram em bra- ços, exangue, um moço offi- cial, que, pouco antes, cus- tosamente se apeára do ca- vallo, —o coronel inglez viu-o, pallido e tirar de dentro da farda um masso de papeis trémulo, diante d'elle, o olhar quasi apagado, que lhe entregou com a mão esquerda porque a direita lhe pendia inerte ao longo do corpo. E, quando French o quiz confiar ao cui- dado dos cirurgiões, pois o via ferido, embora o não suppozesse mortalmente, Locke, cum- prido o seu devêr, cahiu para não mais se levantar. Tardiamente, mas com segurança, produ- ziá o costumado effeito uma das muitas balas que as carabinas boers reservavam aos offi- ciaes inglezes.
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- De Lisboa a Moçambique Por ANTONIO ENNES CAPITULO IX Moçambique — A fazenda agricola — Coqueiros e cajueiros O monhé (Continuação) FACHA marginal da bahia de Moçam- bique está retalhada, principalmente a norte e oeste da ilha, em grandes pro- priedades agricolas, que, para além das Ca- baceiras e do Mossuril, se estendem até a bahia de Conducia. E” esse o regimen de pro- piedade que prevalece nos territorios onde chega a sombra da autoridade portugueza ; pequenos cultores indigenas, em terrenos pos- suidos pelos cultivadores, só existem nos arre- dores das povoações das Cabaceiras e do Mos- suril. E para além da estreita zona que se pode considerar policiada, não existe propriedade regularmente constituida; os regulos conside- ram-se senhores do solo, e os povos usu- fruemn'”o mais ou menos livre e gratuitamen- te, levantando a habitação onde lhes apraz e fazendo sementeiras onde imaginam que mais rendosa será a colheita, hoje aqui, amanhã acolá, para aproveitarem as virgindades origi- naes ou refeitas dos torrões. Essas grandes propriedades marginaes são quasi todas antigas, datam dos tempos da es- cravatura. Modernamente, a actividade agri- cola dos colonisadores quasi se tem reduzi- do, no districto de Moçambique, a recolher o fructo do trabalho alheio; raras explorações novas se emprehenderam, e até poucas con- cessões de terrenos foram requeridas, e ainda menos aproveitadas. As proprias fazendas fei- tas nem sempre encontram quem as grangeie, e muitas cairam já n'um abandono de que é triste documento a ruina das suas moradias. Por isso estão depreciadas. Compram-se ou arrendam-se por quantias inverosimeis mi- lhares e milhares de hectares de terrenos plan- tados, por falta de capitaes e por falta, ainda maior, de iniciativas arrojadas e laboriosas. A fazenda agricola, no districto de Moçam- bique, é, por via de regra, um palmar de co- queiros e um pomar de cajueiros, a que a na- tureza ajunta grupos de mangueiras frondo- sas e outras arvores, fructiferas sim, mas cujo fructo não figura nos roes dos productos mer- cantis. As culturas arvenses são especialida- des dos indigenas. O grande proprietario man- da semear, quando muito, hortaliças para a sua mesa e mãos cheias de mandioca, de mi- lho, de feijão chibamba ou preto para sustento dos serviçaes. Se em tempos passados os eu- ropeus pediram à terra variadas producções, como a do algodão, que Sebastião do Lago tornou obrigatoria, passaram depois a conten- tar-se com 0 côco e O caju, e só agora um ou outro se lembra de cultivar café. Não querem culturas trabalhosas. A terra — dizia-me um fazendeiro índio das vizinhanças da Cabecei- ra Grande, — tem força de mais; affoga em hervas todas as semeaduras. E' preciso caval-a fundo muitas vezes e mondar incessantemen- te, o que exige numerosos braços, e os braços dos negros são caros, indolentes e incertos ; é mais o tempo em que estão bebedos do que aquelle em que trabalham, andam sempre por batuques e festanças, fogem quando se aperta com elles, se chegam a juntar algumas rupias vão gastal-as na ociosidade, ainda quando se sujcitem produzem pouquissimo. O meu in- terlocutor preferia mandar buscar à India gen- te para os trabalhos indispensaveis de sua es- ploração; com essa, sim, podia-se contar, era sobria, era applicada e submissa, mas tinha o grave onus do transporte. Tambem havia que, contar com as devastações da muchem e com os estragos da intemperie; umas vezes falta- va agua, outras vezes as chuvas torrenciaes revolviam e arrastavam as terras léves. Por- tanto, não valia a pena emprehender arroteios. Nunca dariam o que davam o coqueiro e o cajueiro, abençoadas arvores que não pediam trabalho nem cuidados, e até se multiplicavam por si mesmas! Esta é a linguagem de todos os agricultores do districto. Não ha nada como o côco; nada ha como o cajú! O coqueiro é explorado de muitos modos, e é explorado hoje como ha tres seculos. Frei João dos Santos descreveu essa exploração com tanta propriedade, que substituo a noti- cia que d'ella poderia dar pela da Ethiopia Oriental, que, além de outras superioridades, tem o merecimento archeologico. «O fructo «natural que d'estas palmeiras se colhe são «côcos: os quaes nascem no alto da palmeira
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158 «em cachos, e ha cachos quo têem sessenta «côcos e mais, e muitas palmeiras que tem «dez e doze cachos. Estes se criam dentro «d'umas cascas grossas, do comprimento «d'um covado ao modo de bainha, a que os «cafres chamam tombos .. Do miolo do «côco fresco se tira leite com que cosem ar- «roz, ralado com um ralo e bem lavado em MoçamBique — Um PANGAIO Á DESCARGA «duas ou tres aguas, e espremido entre as «mãos, de modo que lhe façam lançar toda «a humidade que tem.. Este miolo de cô- «co, depois de secco e avellado se chama co- «pra, e serve aos gentios de mantimento, e «assim o comem com arroz em logar de con- «ducto, o qual é muito bom e sabe como «avellãs. D'esta copra se faz azeite muito «excellente, pisando-o em certos engenhos, «ou lagares... Se querem que a palmeira «dê vinho em logar dos cachos, tomam os «tombos em que estão os cachos encerrados, «e cortam-lhe as pontas quando já estão para «arrebentar, dos quaes começa logo a gote- «jar uma agua solta e clara, como cá faz uma «vide de parreira quando a pódam. A qual «agua é um licor suave e dôce, quasi como «mel, e assim fresco se bebe e é muito medi- «cinal, refresca e engorda. . E este é o pri- «meiro vinho da palmeira, a que chamam «sura dôce. Ha muitas palmeiras que teem «quatro, cinco e seis tombos d'estes, que es- «tão sempre estillando sura, e cada um d'el- «les dá cada dia meia canada pouco mais ou Serões «menos deste licor, o qual se recolhe em pas «nellas, que penduram debaixo dos tombo- «cortados, e n'estas panellas está pingando «sempre emquanto duram os mesmos tom- «bos, que é pouco mais ou menos vinte até «trinta dias, e antes que se acabem vão nas- «cendo e creando-se outros tombos, de modo «que sempre as palmeiras tem ou poucos ou «muitos que estillam sura .. D'esta sura «dôce se fazem tres vinhos e vinagre, mel e «assucar. O primeiro vinho se faz deixando-o «estar dois ou tres dias em algum vaso, onde «se azeda e ali está fervendo com grande «impeto como faz o mosto das uvas, e d'esta «maneira o bebem ordinariamente os mais «dos gentios, e com «elle seembebedam, «sebebem muito de- «masiadamente,por- «que é muito famo- «so. O segundo vi- «nho se faz estillan- «do esta sura azeda «com um engenho a «modo de lambique, «a que chamam bali, se todo o licor que «d'ali sahe estillado «é o segundo vinho, «a que chamam ur- «raca. O qual é mui- «to melhor que o «primeiro, mais forte «e famoso, quasi co- «mo a aguardente, e «embebedamais que «a sura azeda. O terceiro vinho se faz «d'esta mesma urraca, deitando-lhe den- «tro passa de uvas pretas em quantidade «que tinja o vinho, e nas pipas está fer- «vendo com esta passa vinte ou trinta «dias... A este chamam vinho de passa. O «vinagre se faz d'este vinho, quando se dam- «na, ou da mesma sura, deixando-a azedar «muitos dias, ou das balsas que ficam nas «pipas... O mel se faz da sura dôce, logo «quando se colhe da palmeira, o qual cosem «muito bem ao fogo em um tacho ou cal- «deira, e ali ferve tanto, até que fica em «ponto, do modo que se faz o arrobe do «mosto das uvas... D'este mel se faz o as- «sucar, deixando-o ferver no fogo tanto até «que se coalha de todo, e fica duro, indo-lhe «sempre tirando a espuma, que faz emquanto sferve. E depois de tirado do fogo se acaba «de apurar e aperfeiçoar fóra, curando-se ao «sol, como se faz ao assucar de canna.» De todas estas utilidades do coqueiro, a que se devem juntar as do palmito, que é comestivel, do cairo, de que se fabricam cor-
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De Lisboa a Moçambique das e capachos, da madeira, que se emprega em construcções, — só uma não sei que ain- da hoje seja aproveitada, o de produzir v2- nho de passas; e a extracção do que Frei João dos Santos chama mel e assucar só é praticada pelos indigenas em reduzida escala. Outros productos do coqueiro adquiriram, porém, maior importancia mercantil e indus- trial do que tinham no fim do seculo xvr, e são esses os que os fazendeiros principal- mente exploram. O miolo secco, a copra, de que n'essa epoca só os negros e os colonos, naturalmente, ex- trahiam azeite, é actualmente materia prima de industrias que, especialmente na França (Marselha) e na Hollanda (Rotterdam) e na Allemanha (Hamburgo), emprega milhares de braços e milhões de capital, e constitue por isso um dos artigos mais avultados da exportação de Moçambique. Dá só o traba- lho de colher o côco, partil-o, extrahir-lhe o miolo e deixal-o seccar ao sol, e cada kilo- gramma de copra vale, nos portos da pro- vincia, 30 ou 40 réis, preço este que assegura, por cada palmeira, um rendimento médio de cerca de 400 réis. Além d'isso o côco vende- se fresco, na terra, para usos alimentares, a 20 réis a panja de cinco, e tem largo con- sumo por ser elemento indispensavel do uni- versalisado caril e de outros preparados de culinaria ou de confeitaria, assim indigena como europêa. Mais ainda não é o côco o mais rendoso producto do coqueiro. Nas panellas em que se recolhe a seiva é que pinga dinheiro. A sura dôce é quasi de privativo consumo do- mestico, porque azeda em poucas horas ; mas à sura fermentada —a urraca da Elhio- pia, — e a sura destillada, tem tanta procura nos mercados que a producção nunca a sa- tisfaz, o que lhe eleva fabulosamente os pre- ços. Lavrada a sura em anno propício, um bom coqueiro póde render 4 ou 5 libras, e contam côcos de muito superior rendimento. Tão avultado é elle que, se a natureza o consentisse, a cubiça humana não deixaria medrar um só côco nos palmares! No interessante livro de João Coutinho, Do Niassa a Pembe, calcula-se que uma se- menteira de 1:000 coqueiros pode custar du- rante oito annos, isto é, até que as arvores frutejem abundantemente, 88$000 réis com- prehendidas as despezas de guarda e con- servação, e que se d'ella vingarem 800 pés assegurarão, só em côcos, um rendimento annual liquido de 3088000 réis, que se mul- tiplicaria por oito ou dez sendo o palmar la- vrado à sura. E” attrahente! Todavia, tanto tem esmorecido no districto de Moçambique “O espirito emprehendedor, que raras planta- 159 ções de palmares têem sido feitas nos ultimos annos em larga escala, naturalmente porque os escassos e cobiçosos capitaes que se ap- plicam à agricultura não querem esperar seis ou oito annos pelo juro, ainda que prometta ser mais usurario do que o das casas de prego de Lisboa ! Com o esbelto coqueiro compete em re- ceitas — mal ganhas receitas! — o folhudo cajueiro. Creio que esta especie foi introdu- zida, na provincia, da America ou, mais pro- vavelmente, da India, em tempos remotos, porque não dão noticia d'ella os velhos chro- nistas que tão por miude descreveram as producções da costa oriental de Africa ; mas se assim foi alastrou-se como escalracho. Hoje sombreia milhares e milhares de hecta- res de terreno, porque não exige cultura e porque fornece materia prima para bebedei- ras. O seu formoso fructo não tem quasi va- lor como alimento ; mas dos copiosos succos que encerra fabricam tantas bebidas Como da seiva do coqueiro. Frescos, acabados de es- premer da maçã, são refrigerantes, de sabor agradavel e nada intoxicantes; mas raro vão ao mercado. Fermentados lisongeiam mais o paladar do indigena, e já constituem um artigo de commercio; mas é principal- mente a aguardente de cajú, o producto da destillação do caju, que enriquece o fazen- deiro. Não pode haver droga mais nausea- bunda, a julgar pelo aspecto e pelo cheiro. Cheira exactamente a terebenthina. No tem- po de destilação, quando o mercado de Mo- çambique se enche de bojudas talhas de cajú, e todas as lojas são adegas de cajú, e pretas acocoradas vendem cajú às esquinas das ruas e a bocca de cada indigena é uma chaminé de vapores de cajt, acredita-se que toda a cidade, até as entranhas dos seus ha- bitantes, foi pintada de fresco. Mas a popu- laça é doida pela fetida beberragem. Em- quanto ella dura, e felizmente é só poucos mezes, ha perpetuo jubileu de borrachos ; os amos não podem contar com os criados, nem os officiaes com os soldados, nem os mestres com os artistas ; avoluma-se a estatistica dos furtos, multiplicam-se as desordens, desaffo- gam-se os gaudios em incessantes batuques, despejam-se os mealheiros dos laboriosos, os indigentes vendem os andrajos não po- dendo vender os corpos, a policia anda n'uma roda viva, e a aguardente do cajú alcança preços inacreditaveis, superiores ao do vinho do Porto. Termo medio, uma quartola de go litros vale 10$000 réis. Comprehende-se, pois, que os agricultores estimem o cajueiro. Em Moçambique diz-se que uma propriedade tem tantos mil pés de cajueiro, para dar idéa da sua riqueza, como
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160 no Douro se diz que tem tantas mil cepas. O anno agricola é bom ou mau conforme a producção do cajú. A officina essencial e ca- pital d'uma fazenda é a distillação, onde o cajú é pisado, os succos fermentam em vasi- lhas e passam depois para os alambiques, que funccionam em permanencia durante alguns mezes. As despesas d'esta operação a pouco montam. Só a noz ou castanha — o appendice reniforme da maçã, — que Os ne- gros comem assado, e o summo fresco, pagam a apanha; o fogo alimenta-se com lenha que está à mão de todos, e os processos do fa- brico, sendo quanto possivel rudimentares, não exigem pessoal dispendioso. Não ha nin- guem, nem o negro mais boçal, que não saiba destillar ! São, pois, liquidas todas as receitas do cajueiro, — os seus productos nem soffrem empate. Nunca ficou uma colheita em deposi- to; isso sim! Tão pouco soffrem os riscos, as de- moras, e os trabalhos de exportação ; quanta aguardente se produz toda é absorvida nos logares do fabrico, e mais que fosse. Não ha, em toda a provincia, outro negocio assim, nem o de aguardente importada com que se fazem tres garrafões d'um só, vendendo-se a agua que para isso se lhe accrescenta ainda por maior preço do que se pagou pelo alcool. Os fazendeiros, portanto, não querem cul- tiva” senão cajú e côco, e esses serão os uni- cos ou os principaes productos abundantes da agricultura crvilisada, emquanto alguns phenomenos economicos ou uma legislação fiscal e policial não arruinarem o coqueiro e o cajueiro. A cultura do cafezeiro em Mo- cambique não passa duma curiosidade, con- finada nos quintaes. Só tive noticia d'um proprietario da terra firme, um europeu la- borióso' e emprehendedor, o sr. Candido Soares, que tomou amor ET preciosa planta ue está opulentando Angola e S. Thomé, e ja colhe algumas saccas de café. Este agri- cultor pertence a uma familia que represen- ta, com singular distincção, o que-se pode chamar a fidalguia colonial de Moçambique”; descende essa familia, sem mescla de sangue indigena, d'um alto funccionario da provin- cia, Pedro da Costa Soares, que n'ella falle- ceu em 1780, e ficou vivendo nas suas vas- tas propriedades patrimoniaes, ageitando-se à tarefa de sua laboriosa administração e ao viver africano, sem perder as virtudes e as prendas patriarchaes portuguezas. Uma d'es- sas propriedades, a Choca, encosta os seus alterosos palmares, as suas densas florestas de cajueiros e mangueiras, à margem da ba- hia de Conducia, n'aquelle ponto alta e cor- tada quasi a pique sobre o mar. Em todas aquellas redondezas não ha sitio mais apra- zivel, pela majestade do arvoredo, pela am- Serões plidão do panorama, pelo frescor das aragens e das sombras, e pelas memorias que con- serva de antiga prosperidade agricola da terra e do viver largo, mas proficuo, dos seus povoadores portuguezes; por isso é uma es- tação fixa de romagens festivas ou estudio- sas. Os grandes proprietarios da terra firme não são só europeus, nem representam todos an- tigos colonos, como essa familia excepcional; recentemente tambem alguns asiaticos, e até alguns indigenas opulentados, se teem dis- trahido do commercio para explorarem fa- zendas agricolas, sendo em regra mais felizes no emprehendimento do que os brancos, por serem mais diligentes, mais cubiçosos, mais sobrios, e terem maior azo de empregar nos trabalhos gente da India. Perto da Cabaceira Grande vive e trasteja um indio, de Damão, que em curtos annos se levantou da indigen- cia à categoria de grande e poderoso agricul- tor. Estes fazendeiros ou vivem sempre nas suas terras, nas moradias nobres, tantas vezes apalaçadas, que em nenhumas faltam, ou re- sidem em Moçambique tambem uma parte do anno, quando não ha serviços agricolas a dirigir. Essas casas, as officinas ruraes,—quasi sempre toscos barracões de alvenaria cober- tos a telha,—as casas de malta, grupos de cu- batas dos trabalhadores, são as unicas cons- trucções que nas fazendas interrompem a continuidade dos palmares e das florestas; nunca fechadas por sebes ou muros, nem se- quer demarcadas, em regra, por quaesquer balizas artificiaes. Para além, no sentido do interior, d'esta região, que se póde chamar da grande cul- tura arborea, dispersam-se as pequenas cul- turas dos indigenas, que — é triste dizêl-o, — são precisamente as que fornecem ao commer- cio a maior copia de artigos de exportação. Os negros pedem à terra o seu sustento quo- tidiano, e para o obterem, semeiam ou plan- tam, a par do coqueiro e do cajueiro, man- dioca, maxoeira, mapira; milho, alguma canna saccharina, muitas especies de feijão, e ou- tros vegetaes cuja producção é de exclusivo consumo local; mas 'é tambem a sua lavoura rudimentar, feita com instrumentos primitivos e até à mão, que manda aos portos montões de amendoim e de'gergelim, que lá vão bus- car as industrias europêas para d'elles fabri- carem oleos, copiosamente empregados na saboaria, na perfumaria, em mil preparados, e que nós todos bebemos quasi quotidiana- mente como azeite de oliveira. Vão lá dizer a um marselhez que este azeite tem melhor sabor do que o oleo de amendoim! Sem as colheitas dos indigenas, só para elles remuneradoras, Moçambique não teria
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De Lisboa a que exportar, a não ser algumas mãos cheias de copras, mas o proprio trabalho agricola dos indigenas não tem sido encaminhado para aproveitar os generos ricos, que a natu- reza lhe offerece quasi gratuitamente. Assim, medrando espantosamente na Macuana di- versas arvores, e em especial muitas trepadei- ras, de cujos troncos se extrahe borracha, e conhecendo quasi todos os macuas os pro- cessos da extracção, quotidianamente prati- cados pelos seus visinhos do Nyassa, poucos bolbos desse estimado artigo accodem hoje aos portos do distrito de Moçambique, e ninguem lá pensou ainda em promover ou emprehender a cultura regular das especies que a produzem. Tabaco: à ilha de Moçam- bique e à costa fronteira vem tabaco do in- terior, onde superabunda, grosseiramente ma- nipulado pelos indigenas em grossas tranças feitas das folhas da planta torcidas e compri- midas, que depois enrolam sobre si, formando grandes rodas, furadas no centro. Estas ro- das vendem-se por uma bagatella, a menos de 200 réis o kilogramma. Da qualidade do tabaco que as compõe não posso informar, Moçambique 161 porém, só os indigenas o aproveitam. Ho- mens, mulheres, creanças, fumam-n'o em compridos rolos, quasi sempre de fórma py- ramidal, que envolvem em delgadas folhas seccas de bananeira; mas nunca se cuidou, sequer, de averiguar se esse tabaco que faz as delicias dos cafres podia ser vantajosa- mente introduzido nas fabricas europêas, ou sequer portuguezas. A canna saccharina é uma golodice, mais nada; dá-se como pre- sente, saguate, juntamente com a gallinha classica. Tambem os indigenas ainda não po- deram achar proveito em colher, ao menos, o café que cresce e amadurece nos mattos à beira das suas palhotas, e quasi ignoram que o anil, a urzella, e muitos outros productos espontaneos ou faceis do seu uberrimo solo, se elles os juntassem em quantidades com- merciaveis, lhes dariam mais pannos vistosos, mais fiadas de contaria, mais armas e polvo- ras n'um anno do que lhes dão em dez as pobrissimas culturas de amendoim e de ger- gelim a que, coitados, dedicam a pouca acti- . vidade que impõem à indolencia nativa. Ger- gelim, amendoim, alguma copra é quasi tudo Mocameique — O MONHÉ NO INTERIOR pois nunca pude fumal-o, tão forte é; mas dizem melhores entendedores que se recom- menda pelo aroma e pelo sabor. Bom ou máu, Serões — N.º 9 -- Vol. II quanto o sertão macuano envia a Moçambi- que, desde que fugiram para regiões mais en- tranhadas e mais septentrionaes os elephan- u
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162 tes, que ainda no principio do seculo xvir iam às praias das Cabaceiras farejar, com as trombas estendidas, as gentes novas que po- voavam a ilha, e que a subtileza do seu ol- fato estranhava por não cheirarem a catinga. O estado da agricultura define a natureza do commercio. Realmente só exporta amen- doim, gergelim, copra; tndo mais são baga- tellas. Importa quasi todos os artigos neces- sarios à vida dos europeus, incluindo gado de Madagascar para o talho, eaté... arroz para sustento dos indigenas ! O valor da importa- ção excede sempre e em muito o da exporta- ção; ao deficit occorre o Estado por meio dos seus gastos e das suas munificencias. Este commercio está, principalmente, nas mãos dos asiaticos. E” vêr os arruamentos de Moçambique. Estão guarnecidos de lojas, tantas que causa espanto como se sustentam n'uma terra onde se não vê viv'alma, a não serem almas de tanga; e as lojas de venda a retalho são entremeadas por casas de grosso tracto, umas de aspecto soberbo, que parece denunciar vastos armazens atulhados de marfim e especiarias, e às vezes só armaze- nam teias de aranhas, outras com mesquinha apparencia de baiucas de ferro-velho, que disfarçam depositos abarrotados de fardos c saccarias: aquellas são, geralmente as dos eu- ropeus, estas as dos baneanes e mouros. Nos estabelecimentos de venda a retalho vende- se tudo: calçado e bolachas finas, sedas e aguardente, louças da India ou da China e meias de algodão, conservas e guarda-soes. Os sortimentos capitaes são de fazendas para os pretos, e conservas e licores para os bran- cos. As armações pobres e toscas, no estylo das que nossos avós usavam na rua da Alfan- dega, são ornamentadas pelas pilhas scintil- lantes de lataria e pelas etiquetas coloridas das garrafas; ha lojas que offuscam a vista, quando os clarões do petroleo acceso rebri- lham nas latas. Paredes de peças de algodões estampados completam, com os seus tons as- sanhados, a decoração das humildes quitan- das, sempre cheias como ovos de muitas gemmas, e por detraz dos balcões, por cima das rumas de peças de louçaria, por entre bambinellas de panos pendurados no tecto, entrevêem-se, dentro de dezenove portas por cada enfiada de vinte, caras macillentas de indios scismadores, scismadores dos melhores processos de enganarem os freguezes. Os lo- gistas europeus contam-se, contam-se de côr. De vulto são dois, as firmas Mendonça &Silva, Serões e Pinto & Rodrigues, nenhuma das quaes se occupa, porém, exclusivamente, do commer- cioaretalho, e que das relações mercantis com ogoverno tiram os mais valiosos proventos. Am- bas têem casas grandiosamente sortidas, que nenhuma outra desbanca em conservas e em vinhos; mas fazem-lhes invencivel concorren- cia as tribus dos monhes de todas as seitas, e estes proclamam como seus patriarchas os Ju- más, Grande e Pequeno, donos de verdadei- ros museus commerciaes mais espanejados, nababos mercantis, um dos quaes é tão rico que escandalisou os manes dos seus avós com a prodigalidade de construir um predio com cantarias lavradas. Caso este nunca visto na Africa Oriental, desde que para lá navegam pangaios com carregações de cobiça e avare- za de feitio humano ! D'estalegião delogistas destacam-se asgran- des casas exportadoras, duas das quaes perten- cem às opulentas firmas de Marselha, Regis, e Fabre, ambas respeitaveis, millionarias, an- tiquissimas na provincia, por cujos portos es- palharam succursaes, e as chamadas Casa hol- landesa e Casa allemã, tambem sizudas e po- derosas. Estas occupam-se especialmente de comprar os productos da provincia, as semen- tes oleaginosas, e exportal-as para Marselha, Hamburgo, e Rotterdam, e só accessoriamen- te, e em algumas das succursaes, vendem por miudo artigos de importação. Houve tempo em que estiveram quasi sós em campo; ser- viam-lhes os asiaticos de intermediarios junto dos indigenas. Vendiam-lhes ou fiavam-lhes fazendas com que elles, internando-seno mat- to adquiriam as producções indigenas, que de- pois compravam ou recebiam em pagamento. Mas os tempos mudaram. Os indios, que d'an- tes não exportavam nem importavam com- mummente, cobraram alentos e capitaes para se empregarem n'essas operações, e hojenão só estão emancipados das casas europeas, senão que competem com ellas. Mais ainda. Tendo- se desenvolvido as industrias na India, e ex- pecialmente as industrias textis, a ponto de supplantarem em barateza e em acabamento os da propria Inglaterra, os seus artefactos as- soberbaram os mercados de Moçambique, e toda a importação de tecidos, a mais avultada, cahiu por completo nas mãos dos baneanes e dos mouros. Os proprios agentes e represen- tantes de firmas estabelecidas em centros in- dustriaes da Europa vão geralmente comprar aos monhes os algodões de que precisam para as permutações com os indigenas. (Continiia). Ec
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«Sr HISTORIA DE UM CSAR Das diversas paginas mysteriosas da historia que aqui teem sido transcriptas, nenhuma oferece talvez tanto interesse, pela extranheza dramatica do caso, como a narrativa que segue : onde se faz rapida memoria do advento ao throno da Russia, d'um aventureiro sympathico, cujo destino tragico commove, e cujo exito ephemero parece ser devido à poderosa influencia da Companhia de Jesus. ras da noite, o embaixador da rainha Elisabeth de Inglaterra, sir Jeronimo Horsey, foi despertado do seu somno por fortes pancadas no lado exterior do portão da sua casa. Pensando que a sua ultima hora estaria chegada, pois elle sabia bem qual o estado agitado e perigoso da sociedade moscovita desde a morte de Ivan o terrivel, o embaixa- dor chamou os seus criados que o rodearam em numero de quinze e todos se muniram de pistolas e outras armas. Depois d'isto, e só depois, aventurou-se a sahir ao pateo que n'aquelle tempo circumdava todas as mora- dias moscovitas e approximou-se do portão. Uma voz do outro lado chamou-o fallan- do em russo, voz de homem como tomado de pavor. — Oh! meu bom amigo! —sir Jeronimo, deixe-me fallar comsigo ! O inglez avançou para muito perto da por- ta, cautelosamente abriu o postigo de vigilan- cia e reconheceu á luz do luar, em pé do lado de fóra, um nobre boiardo, Athanasius Nagoy, “irmão da csarina Maria, a viuva de Ivan. —O csarino Demetrius morreu ! continuou na mesma voz de horror o visitador da meia noite. Demetrius era seu sobrinho, e irmão mais novo do novo csar. — Foi degolado, pelas seis horas, pelos diaks ; um dos seus pagens confessou na tor- tura, que por incitação de Boris; a csarina está envenenada e ás portas da morte; os seus cabellos, as unhas e a pelle estão-se- N: Russia, no anno de 1591, por altas ho- lhe desfazendo. Ajude-me, meu amigo! E por amor de Deus dê-me algum remedio bom! Entre os ignorantes moscovitas d'aquelle tempo, o inglez gosava da reputação de ter conhecimentos medicos como ainda até hoje teem entre os tartaros e os arabes. Logo que o embaixador percebeu qual era o pedi- do, correu a casa, e arranjou um pequeno frasco de balsamo do que lhe déra a propria rainha Elisabeth, e uma caixa cheia de um preparado conhecido pelo nome de triaga de Veneza. — Aqui está o que tenho. Peço a Deus que lhe faça bem — disse. E, ainda contrariado por ter de abrir o portão, diligenciou passar os remedios ao ir- mão da csarina por cima do muro do pateo. Depois de os ter recebido, o preoccupado boiardo seguiu precipitadamente pela noite, em quanto que Horsey voltava para dentro para assentar o memoravel accidente no seu diario, n'aquelle bello inglez que ainda hoje póde ser lido pelos curiosos no manuscripto conservado no British Museum. Taes foram as primeiras noticias que che- garam a Moscow d'aquelle mysterioso acon- tecimento que ficou um enigma para a pos- teridade. A tragedia tinha succedido na ci- dade de Uglitch n'um logar remoto, a cem milhas de distancia. Por que meios chegara a noticia a Athanasius Nagoy ? Que verdade haveria na horrivel e concisa narrativa que trouxera à meia noite ao enviado de Elisa- beth? A resposta a esta pergunta talvez po- desse ser fornecida por uma commissão de
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164 inquerito, mandada áquella cidade pelo pro- prio Boris, a quem o tio de Demetrius de- nunciára como instigador do crime. A negra figura de Boris Godunoyv ergue- se na historia da Russia com a mesma fu- nesta proeminencia da do conde God- win na historia de Inglaterra : similhante ao conde Saxonio, Boris era sogro do piedoso e fraco csar que cingia então a corôa. Simi- lhante áquelle, monopolisara todo o poder do Estado, que elle governava com a auto- ridade de um regente. Como Godwin, era tambem um habil estadista e defensor do seu paiz contra os estrangeiros, ou dos temidos tartaros ou dos destestados polacos. Mas egualmente como elle era accusado de hor- rendos crimes, movidos, como então se pen- sava, por uma desmedida ambição que tinha a mira no throno. A raça dos antigos csars de sangue de Ru- rik hia desapparecendo. Os seus ultimos re- presentantes eram o joven csar Feodoro e seu meio irmão de dez annos, Demetrius. A mãe de Demetrius tinha sido a setima mu- lher de Ivan, e a igreja orthodoxa não per- mittia mais de quatro casamentos. Sobre este ponto de vista, Boris diligenciara fazer con- siderar o pequeno csarino como illegitimo ; mas os moscovitas amavam a dynastia real tanto quanto odiavam Boris, portanto este projecto falhou. Depois correram boatos, de- nunciando o pequeno principe como um monstro de crueldade, e declarando que elle soffria de epilepsia. Estes boatos ainda assim não poderam abalar a cega idolatria popular que não tinha sido apagada pelas atrocida- des do terrivel Ivan. O maximo que Boris poude conseguir foi mandar o moço csar com sua mãe para a pequena e isolada cidade de Uglitch. O seu exilio n'aquelle sitio foi partilhado por dois irmãos da viuva csarina, Miguel e André Nagoy. Boris tinha um agente em Uglitch, um tal Bitiagofski que cra empre- gado como thesoureiro da casa d no csar. Este homem c os seus aux os diaks, aos quaes se referira Athanasius Na- goy e nenhuma estima os prendia aos cria- dos do palacio. Era esta a situação quando succederam os casos que se vão agora des- crever. Um palacio moscovita n'aquelle tempo apresentava uma grande similhança ao pri- mitivo grupo de cabanas, rodeadas de baluar- tes grosseiros, que formaram a morada de Attila e que ainda hoje formam as habitações do khan asiatico. Similhante ao celebre Krem- lin de Moscow, consistia, não de um unico e immenso edificio, mas de numerosas cons- trucções separadas e destinadas a salas de Serões reunião, quartos de dormir, cosinhas, caval- lariças, tudo situado dentro d'um espaçoso recinto rodeado de muralhas de tijolo ou de pedra. Em similhante pateo era facil per- der-se de vista uma creança em qualquer recanto das construcções ; e egualmente facil para o ladrão ou para o assassino entrar por qualquer lado despercebido. N'este pateo do palacio de Uglitch, o pe- queno Demetrius brincava n'uma tarde de maio com mais quatro rapazes. Era justamente a hora depois da refeição do meio dia; tanto que seu tio, Miguel Nagoy, estava ainda den- tro de casa à mesa, bebendo. A csarina tinha ido para os seus quartos, deixando uma go- vernante e duas criadas a cuidar no principe. Demetrius, tinha nas mãos um pequeno pu- nhal e divertia-se a enterral-o no chão. Os seus quatro companheiros de folguedo esta- vam perto delle. Havia portanto ao todo sete pesssoas para lhe observar os movimentos. Comtudo houve um instante em que o her- deiro do throno da Russia desapparecera da vista de todos. Quanto tempo durou esta ausencia e o que succedeu durante ella nunca se explicou. Mas as trez mulheres declararam depois que, quando o viram em seguida, estava deitado no chão com uma ferida na garganta e morto. Alarmada pelos gritos d'ellas, a csarina correu precipitadamentepara o local eao vel-o exclamou que seu filho fôra assassinado. Lou- ca de pezar, a infeliz mãe pegou d'um pau e bateu na governante, accusando-a de dar entrada na côrte aos assassinos. Na mesma occasião denunciou Bitiagofski como au- ctor do attentado. Chamou pelo irmão Mi- guel que appareceu acompanhado dos que o rodeavam. Começou de tocar a rebate o sino da igreja visinha e os habitantes de Uglitch vieram em multidão ao logar da scena. Entre os chegados, estavam Bitiagofski e seu filho. Com suspeitosa presença de espi- rito o agente de Boris esforçou-se por sere- nar o tumulto, e começou de explicar em al- tas vozes que a creança tinha cahido sobre o punhal ou faca n'um ataque epileptico e que se matára involuntariamente. Mal a enraivecida csarina lhe ouviu a vóz, voltou-se para elle e exclamou: — Eil-o, ahi está o assassino! — As suas palavras foram o signal do massacre. Bitiagofski e seu filho fo- ram levados de rastos para um dos edificios do palacio, e mortos no mesmo instante. De- pois seguiu-se uma horrivel caçada a homens, na qual, todos que tinham ligação com o odiado diak, foram perseguidos pelas ruas da cidade e mortos. O corpo da creança foi conduzido para a igreja e uma victima foi levada atraz d'elle e offerecida em sacrificio.
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Tragica historia de um csar O massacre só terminou, quando o clero in- terferiu, diligenciando salvar algumas mulhe- res, que a populaça ainda não tinha despe- daçado. Tal foi a narrativa official da tragedia, in- cluida no inquerito dos commissarios impe- riaes, a qual, extorquida ou fabricada por elles, continuou a tomar-se por verdadeira. Conforme esta fonte de informação, parece que Miguel Nagoy, convencido tarde de que não havia provas contra Bitiagofski offere- cera ao official de justiça de Uglitch valiosa peita para collocar um punhal tartaro ao lado do corpo do homem assassinado. Pa- rece que a csarina tambem abandonara as suspeitas contra os agentes de Boris. Denun- ciou depois duas outras victimas, a ultima das quaes accusou de ter enfeitiçado o filho, levando-o portanto a matar-se; e expressou remorsos em ter tido parte na execução sum- maria de Bitiagofski. Foi notavel a sentença passada por Boris em nome do cesar. À csarina viuva foi convi- dada a retirar-se para um convento. Os Na- goys simplesmente prohibidos de entrarem em Moscow. Mas todo o pezo da vingança recahiu sobre os agentes inferiores do mas- sacre. Duzentos cidadãos de Uglitch foram executados. Muitos mais tiveram as linguas cortadas, ou encerrados em carceres. O resto dos habitantes da cidade foram e: lados para a Siberia, e a mesma sentença foi pronunciada contra o sino que deu o o signal para o morticinio. Tanto quanto a versão d'este extranho acontecimento poude exonerar Boris da suspeita de ter instigado o assassínio de Demetrius, foi empregado em sua justi- ficação. A theoria de uma morte acciden- tal, da qual os Nagoys se apoderassem, como pretexto, para vingar o seu odio pessoal sobre o innocente Bitiagofski, foi logicamente deduzida da narrativa dos commissarios. Mas aquella explicação não convenceu o espirito popular da Russia e nunca foi aceita como verda- deira pelos historiadores. Tentando desenredar a verdade da falsidade n'esta narrativa, começa-se lo- go com o duvidoso facto do massacre do agente de Boris pela populaça de Uglitch. Aquelle massacre era por si só a mais grave accusação contra Boris. Deve no- tar-se que o verdadeiro fim do chamado inquerito era rebater qualquer accusação, demonstrando a innocencia de Bitiagof- ski A prova d'isto está na propria sen- tença, onde aquelles, que podiam realmente ser responsaveis pela morte de Bitiagolski, foram apresentados, negando as suas sus- 165 peitas, para escapar às penas correlativas. Não podendo por forma alguma fazer ca- lar a populaça de uma cidade, foi portanto transportada para além das montanhas Uraes, por cima das quaes nenhum som po- desse vir revelar a verdade do que hou- vesse suecedido n'aquella tarde em Uglitch. A evidente falsidade da narrativa deduz-se ainda do suicidio de Demetrius. A idéa de que uma creança de dez annos se podesse suicidar ou morrer por cahir sobre uma pe- quena faca, envolve varias impossibilidades praticas. E' praticamente impossivel para qualquer morrer de repente por cortar acci-, dentalmente o pescoço. Mesmo em casos de suicidio deliberado, a victima não acaba su- bito e padece por algum tempo; em outras palavras sangra para morrer. Aqui o depoi- mento da governante diz que tinha apenas por segundos tirado os olhos da creança quando a viu depois morta no chão. E' desnecessario insistir nas outras impro- babilidades do caso e nas varias contradicções entre o succedido e a primeira noticia che- gada ao irmão da csarina em Mascow na noite em que elle batera à porta da moradia do embaixador inglez. O ponto que se oppõe abertamente à supposta evidencia da ingui- rição, é aquelle em que toda a testemunha, Louca de pesar, a infeliz mãe pegou d'um pau... que podia derramar alguma luz, foi constran- gida ao silencio e exilada. Ou o tempo, durante o qual o joven csarino esteve longe
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166 das vistas dos seus guardas, foi mais lon- go do que se tem admittido; ou o corpo encontrado morto no pateo do palacio e de- pois enterrado no Kremlin de Moscow não foi o de Demetrius Ivanovitch. Ver-se-ha agora como o destino impri- miu novo aspecto a estes factos. Passaram-se dez annos. O csar Feodoro falleceu muito novo — não sem o auxilio do seu ambicioso e muito poderoso sogro, di- zem. Os moscovitas acharam-se sem um re- presentante da linha real a quem podessem chamar para o throno. O khan dos tartaros ameaçava invadir do sul. O rei da Polonia, vindo do éste, preparava-se para se apode- rar da corôa. Como os saxões, depois da morte de Eduardo, de Inglaterra, o povo russo voltou-se para quem lhe pareceu mais forte, e escolheu Boris Gudunov para seu csar. Depois de certa hesitação, real ou fingida, Boris acceitou a corôa, mas similhante ao filho usurpador de Godwin, estava conven- cido de que a nação não era verdadeira- mente leal para com elle. Governava habil- mente mas da memoria não se lhe apagava a lembrança dos crimes pelos quaes encur- tara o caminho para o throno. Em breve se levantaria contra elle um desses crimes, em- bora acariciasse a crença de que estavam se- pultos para sempre á curiosidade geral. No anno de 1603, depois de Boris ter rei- nado “durante cinco annos, levantou-se e correu um assombroso boato, iluminando como um relampago toda a superficie da Russia. O csarevitch não morrera e resur- gia das scenas meio esquecidas do myste- rioso massacre de Uglitch. Tinha sido reco- nhecido na provincia de Volynia, estu- dando latim n'um mosteiro. Tinha sido visto a guerrear entre os cossacos, bandidos do sul. Passára uma noite n'um convento em Novgorod-Severski, disfarçado em monge e seguira, não se sabia para onde, no dia se- guinte, deixando um papel na sua cella, no qual declarava a sua origem e promettia vol- tar alli a recompensar o archimandrita do convento pela sua. bondosa hospitalidade. Finalmente declarara a um nobre polaco em casa de quem estava então servindo, que se preparava para entrar na Russia e recla- mar pelas armas a sua legitima herança. O logar em que primeiro se tornou visivel este extraordinario personagem, foi em Bra- gin, na fronteira da Polonia. Um polaco no- bre, o principe Adam Wisniowiecki era ser- vido no seu banho por um rapaz, que elle tomára para a sua casa pouco tempo an- tes. O principe mandara-o buscar qualquer objecto de que precisava; o rapaz voltou Serões sem este. Zangado pela falta de attenção ao serviço de seu amo, Wisniowiecki deu-lhe um sopapo, chamando-lhe qualquer nome desprezivel. Com lagrimas nos olhos o rapaz queixou-se amargamente, dizendo : — Ah! principe Adam, se soubesse quem o está servindo não me tratava assim ! — E quem és então, e d'onde vens? per- guntou admirado o principe. — Eu sou o csarino Demetrius, filho de Ivan Vassilievitch. Tal foi a resposta. Demetrius, se realmente o era, começou de contar a sua historia extraordinaria. Con- forme essa narrativa, o que succedera em Uglitch fora o seguinte. Um medico vallaico, chamado Simon, ao serviço do pequeno csa- rino, tinha estado secretamente relacionado com os agentes de Boris, que o haviam pei- tado — para entrar n'uma conspiração con- tra a vida de Demetrius. Receoso de recu- sar, e reconhecendo que esta recusa não o livraria de ser mais tarde accusado de haver commettido o crime, Simon aceitou os offe- recimentos que lhe fizeram. Foi fixada uma certa noite para o assassi- nio, mas m'aquella noite o fiel medico substi- tuiu o principe por uma creança escrava. O pescoço da creança foi cortado pelos assassinos em quanto Simon fugiu secreta- mente de Uglitch com o verdadeiro Deme- trius, que ficou desde então livre das perse- guições de Boris, umas vezes vivendo em mosteiros, outras entre as tribus de cossacos. O fiel medico morrera, mas como prova do seu conto, o mancebo apresentava um sinete russo, onde estavam gravados o nome e as armas de Demetrius, c uma cruz de oiro en- castoada de magnificas pedras, presente de seu padrinho o principe Ivan Mstislavski. E” preciso observar-se que esta versão dos acontecimentos em Uglitch, difere tanto da official como da primeira que chegou aos ouvidos de Athanasius Nagoy. Mas deve dizer-se que o relatorio dos commissarios de Boris nunca se tornara publico. Permane- cia occulto nos archivos em Moscow, e os mais bem informados contemporaneos, que acreditaram na morte do pequeno csarino, julgaram que ella tinha sido de noite. À similhança entre o pequeno Demetrius e o mancebo era completa, tanto quanto podia ser restabelecida. Tanto o Demetrius crescido como o pequeno, tinha um braço mais comprido do que o outro, e duas verru- gas bem visiveis e caracteristicas na face. Na figura parecia-se com Ivan, o terrivel, e a sua physionomia era trigueira como a da csarina Maria. Não eram necessarias tantas provas para
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Tragica historia de um csar convencer Wisniowiecki. Deixando o seu ex-criado no quarto de banho, apressou-se em ir procurar a mulher, ordenando-lhe que preparasse um banquete para o csar de Moscow, que estava proximo a chegar como convidado. Depois escolheu os mais explen- didos vestuarios do seu guarda-roupa c as mais bellas armas da sua armaria e voltou para o quarto de banho seguido de bas- tantes criados. Comprimentando Demetrius como csar, ajudou-o com suas proprias mãos a mudar os humildes trajos de servo pelos fatos de um principe, e depois acompa- nhando-o, apresentou-o à gente de casa como filho de Ivan e verdadeiro soberano da Russia. Durante os mezes seguintes não se fallou na Polonia senão na maravilhosa apparição de Demetrius. Descobriam-se diariamente novas provas de identidade, e a sua causa foi reforçada por novos e poderosos adhe- rentes. O principe Adam, seu primeiro pro- tector, levou-o para o castello de seu irmão Constantino Wisniowiecki, onde aconteceu estar alli um criado russo que declarou ter servido antigamente em casa do joven csa- rino, e reconheceu todos os signaes de iden- tidade entre aquelle e o pretendente. Os po- lacos nobres vinham de longe e de perto em multidão vêr o csar fugitivo, que conquistou todas as sympathias pelas suas maneiras no- bres e graciosas, a sua bella sciencia de equitação, os seus conhecimentos da lingua polaca, que fallava tão bem como a russa e, finalmente pelo seu respeito pelas institui- ções polacas, e em particular pela igreja ca- tholica romana. Emquanto Demetrius estava fazendo esta impressão favoravel na Polonia, um monge russo da igreja orthodoxa, chamado Grego- rio Otrepiev, ia pelas aldêas cossacas annun- ciando a chegada do legitimo czar, e exci- tando-os contra o odiado intruso. Boris, que a principio considerára Demetrius como um simples aventureiro audacioso, começou de ficar sériamente inquieto. Mandou offerecer dinheiro e estados aos dois Wisniowieckis se elles lhe entregassem ás mãos o impostor. Os altivos polacos nem sequer se dignaram res- ponder a similhante pedido. Mas Constan- tino receioso de que o seu hospede estivesse tão perto da fronteira, mudou-o para a resi- dencia de seu sogro, o palatino Mniszek que então governava o districto de Sandomir com todo o poder feudal. All, foi Demetrius reconhecido outra vez por um velho soldado polaco, que tinha sido em tempos feito prisioneiro. Este veiu dizer que durante o seu captiveiro tinha sido man- dado a Uglitch, onde vira muitas vezes o 167 pequeno Demetrius. Elle tambem testemu- nhou a identidade do recem-vindo com o jo- ven czar. O palatino de Sandomir não fez difficul- Ajudowo com as proprias mãos a mudar de vestuario... dade alguma em reconhecer o seu hospede como o czar de Moscovia. Demetrius mos- trou-lhe as cartas que recebera do monge Otrepiev, nas quaes se declarava que as tri- bus cossacas estavam amadurecendo uma re- volta. Mniszek convencionou associar os seus bens à tentativa do pretendente e levantar um exercito de polacos. Em troca ficou secreta- mente combinado que, tão depressa Deme- trius se achasse senhor do throno moscovita, casaria com a formosa filha do palatino, Ma- rina, e daria ao sogro a provincia de Smolensk, além de lhe pagar um milhão de florins. Tomava-se, porém, urgente e necessario obter o assentimento do rei da Polonia, Se- gismundo 111. Segismundo movia-se pela in- fluencia do nunciô do Papa, e houve então uma negociação secreta entre o nuncio e De- metrius por intervenção de alguns jesuitas de Sandomi Era sabido que qualquer profissão mani- festa da fé catholica seria fatal às esperanças de Demetrius, sendo os russos tão funda- mente dedicados à sua propria igreja, e de-
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168 testando tanto as crenças do occidente que as confundiam continuadamente, aténonome que lhe davam de heresia do Luthero Ro- mano. Mas o pretendente deu secretamente a sua adhesão à igreja catholica, e jurou a si proprio que, uma vez coroado em Moscow, havia de fazer todo o possivel para trazer os moscovitas ao gremio da fé romana. Isto foi bastante para o nuncio. Havia porém, ainda muitos polacos de ele- vada categoria que recusavam acreditar na historia de Demetrius. Para os vencer, recor- reu-se ao extraordinario estratagema de fazer crêr que o pretendente era realmente um fi- lho natural do grande rei polaco, Estevam Ba- thori; assim, milhares dºesses que nunca o supportariam como filho de Ivan o Terrivel, de boa vontade cederam à idéa de collocar um principe polaco no throno da Russia. Seguiu-se a publica recepção de Deme- trius pelo rei Segismundo. O rei polaco, no throno, a mão sobre uma mesa, rodeado pela sua nobreza, esperou que o nuncio conduzisse Demetrius que, avançando com- movido e tremulo, de cabeça descoberta, bei- jou a mão que Segismundo lhe offerecia. De- pois, em eloquente linguagem, o mancebo relatou a historia da sua vida, a milagrosa fuga e a subsequente vida errante. Concluiu fazendo appello à protecção do rei e ao seu auxilio para recuperar a corôa dos seus maio- res. Segismundo ouviu-o em silencio e fez-lhe menção de se retirar, emquanto o seu pedido ia ser meditado em conselho. Um camarista conduziu-o para uma sala proxima, onde es- perou no meio de uma multidão de cortezãos pela resposta que ia decidir do seu destino. Pouco depois entrava o nuncio, que o levou pela mão novamente à presença do rei po- laco. D'esta vez Demetrius ficou silencioso, de cabeça curvada, as mãos encruzadas so- bre o peito em attitude supplicante, emquanto Segismundo se lhe dirigia : —«Deus vos salve, a vós, Demetrius, prin- cipe da Moscovia! E'-nos conhecido o vosso nascimento por evidentes e fidedignas teste- munhas; nós vos mantemos uma pensão de quarenta mil florins, e, como nosso amigo e hospede, vos permittimos aceitar a direcção e serviços dos vossos vassallos.» O mancebo que mezes antes tinha sido um humilde criado em casa de Adam Wisnio- wiecki, e que n'aquelle momento era publi- camente saudado por um grande rei, como herdeiro da Russia, ficou mudo e subjugado pela emoção. Poude apenas fazer uma pro- funda reverencia e retirar-se, deixando Se- gismundo vagamente descontente d'esta en- trevista. Talvez o monarcha polaco tivesse Serões já o presentimento de que este humilde sup- plicante não provaria ser tão docil como o sup- punha o nuncio de Sua Santidade. A cerimonia do reconhecimento publico de Demetrius na côrte de Polonia foi uma ameaça que o czar Boris não podia desprezar por mais tempo. Manãou a Cracovia um embai- xador, para fazer uma representação persua- siva a Segismundo e para pedir a extradicção do chamado principe de Moscovia. Entretanto Boris reconheceu que não era bastante denunciar Demetrius como impos- tor. Se não era o filho de Ivan, era necessa- rio explicar quem e o que realmente era. Se- gundo as instrucções recebidas, o embaixador do czar declarou que o pretendente era real- mente aquelle mesmo Gregorio Otrepiev que estivera, representando como seu arauto, en- tre os cossacos. Foi fixado o apparecimento d'este tal Gregorio pelo anno de 1603. Era um monge expulso da ordem, de costumes dissolutos e ebrio, tendo passado a vida a percorrer os mosteiros russos. N'aquelle anno declarou-se que elle atravessára a fronteira até Lithunia, e induzira um padre polaco, por uma fingida confissão, a escrever ao seu rei, annunciando ser elle o perdido czarvitch. Tal foi a situação arranjada contra Deme- trius para defeza do czar. Foi corroborada por solemne excommunhão pelo patriarcha de Moscow, na qual o pretendente era indi- cado pelo nome de frei Gregorio, como um apostata, um rebelde e um magico, convicto de ter tentado introduzir a heresia latina na Russia, levantando igrejas catholicas no solo orthodoxo. Um tio de Gregorio Smirnoy Otrepiev, que bastante curiosamente con- quistára a amisade e confiança de Boris, foi ao mesmo tempo para Cracovia, afim de con- firmar a narrativa e reclamar seu sobrinho fugitivo. Esta explicação não teve entre os contem- poraneos de Demetrius tanto exito como o alcançado desde então entre os historiado- res russos. Pergunta-se como este bebado monge russo adquirira o cavalleiroso porte, a habilidade na equitação e o conhecimento da lingua polaca que distinguia Demetrius. A historia da fingida confissão ao abbade polaco foi puramente uma invenção. Outra mais forte objecção para os russos d'aquelle tempo foi o favor e protecção concedidos aos outros Otrepievs. Se Boris realmente acreditasse que este monge era o Demetrius, certamente que os membros da sua familia não alcançariam taes favores. Ainda estava, porém, para apparecer refu- tação mais decisiva. O csar não conseguiu apesar dos seus es- forços tolher o caminho ao seu inimigo que
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Tragica historia de um csar promptamente reuniu tropas mixtas de po- lacos e de cossacos, com as quaes entrou na Moscovia e penetrou até a cidade de Putivl. Todas as cidades, na sua passagem, lhe abri- ram as portas sem resistencia. Foi em Putivl porém que a historia de Gregorio Otrepiev recebeu o ultimo golpe pela apparição em scena d'aquelle proprio heroe. Tendo em grande conta os seus serviços, felicitou De- metrius com insolente familiaridade, mas o pseudo-csarevitch pol-o immediatamente no seu logar. Pouco depois mandava-o retirar. e o monge em breve recahiu na obscuridade. Boris começou então de tremer pelo seu throno e pela vida. Os seus crimes voltavam a resurgir em vinganças ameaçadoras. Le- vantou numerosos exercitos; mandou-os con- tra o invasor, mas os seus generaes eram-lhe desleaes e deliberadamente arrastavam a guerra. Notava-se que o csar tinha perdido a antiga energia, apenas podia andar, e ti- nha a apparencia de ur: homem perdido. Mandou secretamente uma grande parte dos seus thesouros para Astrakhan como preparativos de fuga para a Persia. Como ultimo esforço contra o preten- dente, procurou influir no animo da viu- va csarina Maria, no convento onde ella ficára sempre desde os mysteriosos acon- tecimentos de Uglitch, e teve com ella uma longa conferencia na presença do patriarcha de Moscow. O que se passou nessa conferencia nunca foi revelado; porém, depois d'ella, a mãe de Deme- trius foi mais estrictamente vigiada do que era d'antes. Deduz-se sem duvida pelo que se seguiu que Boris tentára ar- rancar-lhe a declaração da morte do filho, e não conseguira. Comquanto os grandes boiardos se mostrassem indifferentes em resistir ao pretendente, e o povo estivesse disposto a acreditar n'elle, havia na Russia um poder que se apresentava firmemente hostil. Esse poder era a igreja. Apezar do profundo segredo em que jaziam os compromissos de Demetrius com refe- rencia à igreja romana, o clero ortho- doxo farejava perigo n'um principe vin- do da Polonia e sustentado pelas armas polacas. Sabia-se que era acompanhado de dois padres jesuitas, que diziam missa para as tropas; e que havia permittido que se dessem tiros em honra d'estesritos scismaticos. Despertada uma vez esta desconfiança, estava destinada a ter fa- taes consequencias no decorrer do tempo. Emquanto a causa do pretendente conti- nuava duvidosa, deu-se um destes aconteci- mentos em que os espiritos supersticiosos 169 viram immediatamente o castigo de Deus. Levantando-se o csar Boris, um dia, da meza no palacio do Kremlin, começou a deitar san- gue pelo nariz e pela bocca e expirou instan- taneamente. Este fim dramatico, que apre- senta mais outra vez extraordinario confronto com o conde Godwin, foi aceite como aviso de Deus pronunciando-se a favor de De- metrius. O patriarcha de Moscow e alguns boiardos conseguiram coroar o joven filho de Boris : mas o seu reinado foi muito curto. Basmanoff, o mais bravo e o mais leal dos ge- neraes de Boris, induziu o exercito a decl: rar-se pelo filho de Ivan. Seguiu-se um tu- multo, o Kremlim foi invadido pelo povo, é a familia de Boris internada na prisão, em que, pouco tempo depois, o novo coroado csar e sua mãe foram estrangulados. Durante este tumulto, deu-se um notavel incidente. O presidente da commissão que fora encarregada de investigar dos casos de Uglítch era um grande boiardo, chamado Shinski, figura sinistra na historia do tempo. «..as mãos cruzadas sobre o peito em attitude supplicante... Este homem foi tambem chamado pelos mos- covitas, no meio da excitação, para declarar se o pequeno Demetrius tinha sido realmente morto. Shinski, sem a menor hesitação, aflir-
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170 mou que o cadaver que lhe fôra mostrado não era o do csarevitch, mas sim o d'um filho de um padre. E” inutil acrescentar que este de- poimento provou a falsidade da narrativa que o proprio Shinski em tempo apresentára sob as ordens de Boris... Faltava só agora a Demetrius tomar posse do throno. Porém antes de entrar em Mos- cow tinha de cumprir um acto de justiça ou de vingança. O patriarcha que o excommun- gara e o denunciara como o apostata monge Gregorio, e fizera coroar o filho de Boris, retratou-se e fez juramento de fidelidade, desde que viu victoriosa a causa de Deme- trius. Mas o novo csar, generoso em perdoar a todos os outros inimigos, não mostrou com- paixão para com o padre orthodoxo. Orde- nou que fosse preso no altar-mór, despojado das vestes patriarchaes e rebaixado à posi- ção de monge. A destituição foi logo seguida de nomeaçãode um novo patriarcha na pes- soa de Ignacio, bispo de Riazan. Ignacio não era moscovita ; era grego cy- priota por nascimento. Expulso da ilha de Chypre no tempo da conquista pelos turcos, refugiou-se em Roma, onde passou alguns annos em termos apparentemente amigaveis com a santa Sé. Vindo para a Russia no rei- nado de Feodoro, e ganhando a sympathia do csar pela narrativa dos seus soffrimentos, obtivera o bispado de Riazan. Póde bem i imaginar-se com que disposição o clero russo, já desconfiado do novo csar, se achou ESB ADO debaixo das ordens de um estrangeiro que era suspeito de ter en- trado na communhão catholica durante a sua residencia em Roma. Esta medida de mau presagio foi attribuida às insinuações dos dois padres jesuitas que acompanharam Demetrius da Polonia, e que se dizia lhe da- vam conselhos secretos. No mez de junho, de 1603, Demetrius en- trou na capital à frente das suas tropas. O seu primeiro acto foi dirigir-se á cathedral, onde houve officio solemne. O segundo foi de visitar o tumulo de Ivan o Terrivel, na igreja de Michael Archanjel. Cahiu de joelhos, beijou o tumulo chorando e exclamou: —Oh! meu pae, o teu filho orphão reina, e deve-o à tua celestial intervenção ! Os espectadores commoveram-se em movimento de sympa- thia e murmuraram uns para os outros — Realmente este é o filho do terrivel csar! Uma cousa só faltava para confirmar o titulo de Demetrius. Reparava-se que elle tão prompto em testemunhar o seu respeito á memoria do pae deixasse passar um mez inteiro sem procurar a presença da mãe. E' verdade que os Nagoys consideraram-o como sobrinho, e tinham tomado posição na côrte Serões correspondente ao seu parentesco. Mas o povo murmurava sobre o abandono da csa- rina viuva cujos sofrimentos e caracter reli- gioso se impunham ao seu respeito. ' O csar então arranjou satisfazer o desejo do povo. Convidou a csarina a deixar o con- vento e a ir para Moscow, e o proprio De- metrius foi ao encontro della, seguido de numeroso sequito avido de vêr com os pro- prios olhos o encontro entre os dois e de se convencer da realidade da união entre elles, A certa distancia no caminho foi levantada uma magnifica tenda. O csar entrou n'ella sósinho e a csarina à sua chegada foi condu- zida até o interior onde os deixaram juntos. Houve suspensão d'alguns momentos, e de- pois no meio do mais frenetico enthusiasmo correram-se as cortinas da tenda e viram-se a mãe e o filho unidos em terno abraço. A multidão dava expansão ao seu jubilo com gritos de alegria e desde essa occasião ces- saram todas as duvidas. A csarina tornou a entrar na carruagem e seu filho, novamente reconhecido continuou a andar respeitosa- mente ao lado d'ella até que chegaram ao Kremlin, onde ella foi alojar-se no convento indicado para sua residencia, emquanto se não construia um novo que a piedade do csar ordenára se levantasse em sua honra. Desde esse momento todos os privilegios e todas as rendas da czarina lhe foram resti- tuidas. O seu nome, segundo a antiga regra na Russia, apparecia em qualquer decreto, e o seu filho visitava-a diariamente e consulta- va-a nos negocios do estado. Poucos dias depois d'este acontecimento, Demetrius foi coroado com toda a solemni- dade conforme o antigo cerimonial dos czars da Moscovia. Tanto quanto a vista humana podia abranger, via-se o csar firmemente sen- tado no throno, o seu nascimento fóra de toda a duvida, e os seus direitos reconhecidos pela nação inteira. Comtudo havia ainda um partido forte que secretamemte não acredi- tava ser elle o filho do seu antigo csar e de olhar invejoso vigiava o mais insignificante si- gnal para se confirmar na suspeita. Encontravam-se os inimigos do novo csar, principalmente entre os grandes da nobreza moscovita. Aceitaram-o como chefe, em parte, porque estimavam uma mudança no novo governo de Boris Godunov, e em parte porque temiam o povo. Mas bem depressa se arrependeram da condescendencia, e logo principiaram de procurar a opportunidade de se libertar deste desconhecido que se assenhoreara do poder. A” frente da facção descontente estava Shinski, aquelle mesmo que alternadamente testemunhára que De- metrius estava morto, e que ainda vivia.
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O Tragica historia de um csar EFE O novo csar breve lhes deu motivo para conspirarem. Observara-se que elle mostrava extranha indiferença pelos antigos cos- tumes moscovitas, e preferencia pelos da Polonia. Modelou a sua côrte pela do rei Segismundo. Empregou como secretario de confiança um polaco. Fallava constante- mente a lingua polaca e dizia-se que a fallava melhor do que a russa. Quebrou quasi completamente a etiqueta chineza dos antigos csars, an- dando livremente entre os seus su- bditos. Depois, co- mo Pedro o Grande dispoz-se a introdu- zir na Russia a civi- lisação do occidente, e francamente censu- rava os seus nobres boiardos do seu barba- rismo e ignorancia. Isto tudo não lhe te- ria sido fatal, se não ul- trajasse ao mesmo tempo os preconceitos religiosos d'elles. Guardára-se pro- fundo segredo da sua união com Roma, mas por nume- rosas indicações fez levantar involuntaria suspeita de que não era adepto verdadeiro da igreja orthodoxa. Serviam-se à sua meza comidas que a igreja grega prohibia; fallando com os bispos, empregava algumas vezes as phrases de vossa religião ou de vossa igreja. Escandalisára toda a cidade de Moscow, conce- dendo licença aos jesuitas de con- struir uma igreja dentro do sagra- do precinto do Kremlin. Lançou impostos sobre o clero. Que pensa- riam ainda os seus subditos, se tives- sem conhecimento da sua activa cor- respondencia com o Papa e de que o nun- cio papal, da Polonia, lhe recordava a pro- messa de trazer a Russia à communhão la- tina? Todavia, para reparar até certo ponto, as suas inclinações pela Polonia, levantou uma questão com o rei Segismundo, sobre o seu direito ao titulo de imperador, que Segis- mundo lhe recusára dar. No decorrer da dis- cussão o rei polaco fez uso de uma ameaça bem notavel. Mandou dizer a Demetrius que Boris Godunov ainda estava vivo, tendo-se refugiado em Inglaterra, e que elle, Segis- mundo, podia irritado restituil-o ao throno. Não é difficil vêr n'esta missiva o mais pro- «-.fot visitar 0 tumulo..: vocante dos sarcasmos. Queria isto dizer ao supposto imperador que a sua resurreição fôra uma astucia de que se sahira bem uma vez, mas que podia ser ainda desfeita. Idéa similhante occorreu pelo mesmo tempo a um impostor do sul da Russia, que levantou reclamação, dizendo-se filho do csar Feodoro, irmão mais velho de Deme- trius. Demetrius tratou o pretendente com muita mais intelligencia de que mostrara Bo- — ris para com elle. Escreveu-lhe convidando-o a vir a Moscow:— «se a sua historia é falsa, será executado; se é verdadeira, tra- tal-o-hei como o filho de meu irmão». Esta carta destruiu a pretensão. Durante todo o cido da donzella a quem ti- nha jurado fidelidade quan- do era ainda simples aven- tureiro na Polo- nia— a formosa Marina. Tinha posto de parte o Papa, com des- culpas plausiveis, quasi tinha que- brado com o rei Segismundo, mas conservara-se fiel à filha do palati- no. Um dos seus primeiros actos, depois de se ter estabelecido em Moscow, foiman- dar um embaixa- dor á Polonia pa- ra a pedir em ca- samento e para lhe levar as mais escolhidas joias do thesouro dos csars. De tempos a tempos, como os preparativos do enlace se tornassem morosos, o apaixonado e impaciente csar mandava novos mensageiros a solicitar que viesse. | Ha m'este doloroso e accidentado drama uma scena que prende a attenção e emo- ciona:— a d'este homem tão novo — apenas vinte e trez annos— sentado n'um throno pouco firme, rodeado de espiões e de trai- dores, que o consideravam hereje e intruso prompto a affrontar a colera da nação inteira e o perigo de perder corda e vida, por causa da mulher que amava. Finalmente o seu ar- dente desejo foi satisfeito. Em 12 de maio de
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172 1606, Marina entrou em Moscow, e com ella infelizmente a ruina e a desgraç: Já tinha corrido o boato insidioso de que a escolha do csar, de uma noiva polaca, era o primeiro passo para effectuar a traição para com o paiz em favor dos polacos e de que os conspiradores lhe faziam cargo. Com effeito o casamento d'um csar orthodoxo com uma polaca hereje, feria os preconceitos dos po- pulares, assim como os puritanos inglezes se sentiram do casamento de Carlos 1 com Hen- riqueta Maria. A populaça accumulava-se nas ruas e conservava-se silenciosa, d'aspecto ameaçador, emquanto passava a csarina, es- coltada por um corpo de quinhentos polacos armados. Por desastrosa coincidencia, dois embaixa- dores de .Segismundo chegaram ao mesmo tempo, acompanhados de uma egual e nume- rosa comitiva. Pareceu à imaginação do povo sempre odiento e desconfiado que o exercito polaco. estava levantando arraiaes em sua propria casa. Os polacos déram tambem mo- tivo a despertar-se este sentimento popular pelo modo insolente de se apresentar e de proceder. Houve desordens nas ruas, á noite, provocadas pelo seu comportamento repre- hensivel com as mulheres moscovitas. Na coroação de Marina, ostentaram o seu des- acato pelo cerimonial grego, e encontrando a cathedral, como todas as igrejas gregas, sem assentos, imprudentemente se empolei- raram sobre os tumulos. O estouvado noivo ainda accrescentoucom- bustivel para o fogo, satisfazendo caprichos femininos. A czarina oppoz-se à cosinha russa e insistiu em ser servida por cosinheiros da Polonia, o que fez accordar a idéa de que ella queria, sem respeito, violar as regras da igreja orthodoxa, no capitulo da comida. O czar viu-se obrigado a annunciar que sua mu- lher havia de seguir a fé grega, mas o seu proceder era formal negativa a similhante affirmação. Ella desejou levar para a cerimo- nia da coroação uma Zoilette importada de Paris, em vez de vestir as sagradas vestes, immemorialmente usadas pelas czarinas de Moscow. Fôra apenas collocada a corda na sua cabeça, e já avisos de proximo perigo principiavam de chegar a Demetrius, de to- dos os lados; e demagogos ousados aberta- mente apregoavam nas ruas que elle era um simples impostor. Signaes e avisos foram egualmente despre- zados pelo mancebo, deslumbrado pelo bri- lhantismo do seu proprio exito. Em 26 de maio, justamente quatorze dias depois da chegada de Marina, observou-se que nume- rosos soldados de um acampamento perto da cidade entravam em Moscow e se mistura- Serões vam com os habitantes da cidade. O expres- sivo symptoma passou desapercebido a De- metrius. A” noite, assistiu a um banquete onde se demorou até o alvorecer do dia. Na volta para o palacio, quando atraves- sava uma varanda, encontrou all escondido um conspirador. Nada suspeitando, o czar perguntou-lhe se tinha alguma missiva para elle. O homem deu umas desculpas quaes- quer, incoherentes, e foi-se embora, sem ser detido. Dirigiu-se immediatamente à casa de Shinski, onde estavam reunidos os chefes da conspiração para lhes dizer que Demetrius regressára ao palacio. Decidiu-se o ataque immediato. Shinski e os outros sahiram para a rua per- feitamente armados. Reunindo gente em re- dor, approximaram-se do Kremlin. Os guar- das' que tinham sido peitados de antemão, abriram as portas de par em par. Shinski con- duziu os seus companheiros até a igreja da Assumpção, onde parou um momento para os exhortar à revolta: «Christãos orthodoxos! gritava, morte aos herejes !» O grito era repe- tido ferozmente por todos. No mesmo ins- tante o grande sino do Kremlin tangeu agu- damente pela madrugada, dando signal que foi repetido pelos tres mil sinos da Santa Moscow. Ao primeiro tanger do sino, Demetrius sal- tou da cama em que se havia deitado apenas, e veiu perguntar a rasão de similhante alarme. Recebeu a resposta de um irmão de Shinski, que aconteceu estar alli esperando, assegu- rando ao czar que era simplesmente por causa de um incendio. Depois correu a reunir-se aos conspiradores que já se approximavam. Um minuto depois chegava aos ouvidos assustados de Demetrius o clamor e a grita de todos os sinos de Moscow e-da multidão furiosa. Vestindo-se apressadamente mandou o seu fiel secretario Basmanof informar-se do que estava succedendo. A apparição de Bas- manof nas escadas do palacio levantou um grito desesperado da populaça armada que estava fóra. «Abaixo o impostor !» Era o signal de morte. Basmanof refugiou- se, chamando por todos os alabardeiros que formavam a guarda do palacio, mas que eram bem poucos para reagir contra a multidão. Os aggressores enxamearam pelas escadas e in- vadiram o quarto onde o joven czar os espe- rava, com Basmanof a seu lado. «Olá, czar de máu presagio, até que afinal estás accor- dado!» disse em ar de chofa o primeiro que entrou no quarto. Basmanof collocou-se de- fronte de seu amo, emquanto Demetrius ar- mado com uma espada fugia para o terraço, para onde outros atacantes já tinham seguido caminho, e arrojou-se sobre elles, gritando :-
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Tragica historia de um csar — «Miseraveis, eu não tenho sido um Boris para comvosco, não !» Muitos dos conspiradores cahiram mortos, mas afinal Basmanof foi morto e o czar teve de recuar. Ao mesmo tempo os alabardeirc que estavam reunidos na entrada do palacio para a guardar foram rec! haçados para den- tro. Diligenciaram chegar até Demetrius e ar- rastaram-o para o interior do edificio sempre fogosamente perseguidos. A morte era certa pelas armas de fogo que os aggressores pos suiam, emquanto que os soldados do czar não as tinham. Forçavam-se portas sobre portas e os fieis alabardeiros iam sendo impellidos até chegarem a ficar reduzidos à defeza do ultimo quarto. Então descobriu-se que o czar tinha desapparecido. Ferido e ensanguentado, Demetrius cor- rera por toda a serie de quartos até chegar a uma janella que deitava para uns terrenos in- cultos nas trazeiras do palacio, no logar onde antigamente se levantava o palacio de Boris. A janella tinha a altura de trinta pés do chão, mas o homem perseguido deu um salto d'ahi para baixo. Com o salto quebrou uma perna e desmaiou pela dôr que sofirera. Antes que tivesse podido vir a si ou que podêsse ter fu- gido, um formigueiro de inimigos saltaram so- bre elle, tomaram-o e trouxeram-o para fóra. Quando passou pelos seus fieis guardas, en- tão já prisioneiros, acenou-lhes com a mão para lhes dizer um ultimo adeus. Nao foi morto immediatamente. Os que o capturaram brincaram com elle como um gato com o rato. Arrancaram-lhe as vestes imperiaes e envolveram-o na tunica d'um co- sinheiro. «Vejam o czar de todas as Russias!> e escarneciam. «Está outra vez vestido com a roupa que lhe pertencia». Um dos nobres boiardos, disse-lhe: — Cão, dize-nos quem és e d'onde vens? — Todos vós, respondeu a victima com voz firme, sabeis que eu sou o vosso czar, o filho legitimo de Ivan Vassilievitch. Perguntae-o a minha mãe ; mas, se quereis a minha morte, dae-me ao menos tempo para fazer a minha confissão. — E' assim que eu confesso este polaco de máu agouro, retorquiu brutalmente um dos da canalha ; e descarregou-lhe em pleno peito um arcabuz. No meio de gritos: —O que diz o polaco, o hystrião ? — Elle confessa ou não a sua impostura ? — Cortem-o em pedaços ! Os enfurecidos sanguinarios cahiram so- bre a preza, e não largaram o cadaver em- quanto o não estropiaram a ponto de ficar completamente desfigurado. Depois de ter sido arrastado pelas ruas da cidade, o corpo de Demetrius foi exposto 173 durante tres dias à vista da populaça. Mas a ferocidade dos executores' annullou os seus proprios fins, pois muitos' 'aquelles-que vi- O joven csar esperava-os com Basmanof a seu lado ram assim os restos mutilados e despedaçados, perguntavam se era realmente o corpo do csar. Correu o boato de que Demetrius ti- nha iludido os guardas do palacio, que ti- nha fugido para os cossacos e havia de vol- tar a tomar posse do throno. Na terceira noite, os guardas que vigia- vam o cadaver, descobriram sobre elle um tenue raio de luz azul pallido em que, na sua ignorancia sobre as leis da putrefacção, jul- garam vêr obra de bruxa! a. O corpo foi en- terrado apressadamente num cemiterio fóra de portas. N'essa noite houve uma violenta tempestade e no seguinte dia estava aberta a sepultura e o corpo achava-se deitado sobre a superficie da terra. Um terror supersticioso apoderou-se do povo inteiro. Segredava-se que este ente ex- traordinario, que se tinha feito ar como filho de Ivan, era realmente uma creatura de natureza diabolica, um magico ou feiticeiro que apprendera a arte magica entre os fin- landezes, e possuia o poder de morrer e de voltar outra vez à vida. Para se libertarem d'aquelle monstro, queimaram o corpo n'uma fornalha, collocaram as cinzas n'uma peça e descarregaram para fóra das portas de Mos- cow. Tal foi o fim d'esta vida extraordinaria
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174 que difficilmente encontra similar na historia ou no romance. Não parece que fosse em verdade o pe- queno que se dizia morto em Uglitch no anno de 1591. Ape: s narrativas d'este mysterioso acontecimento differirem muito, todas são concordes no ponto da morte do csarevitch. Não ha realmente duvida de que elle fora assassinado por instigação de Boris Godunoy; illumina-se a treva que peza sobre este caso, pelos esforços de Boris para” occultar sempre o facto do seu crime. Verdade é que o pretendente foi depois re- conhecido pela csarina como seu filho, mas tambem Arthur Orton foi reconhecido pela mãe de Roger Tichboume. A csarina e sua familia tinham sido fundamente insultados por Boris, e tinham toda a razão de aco- lher o triumpho do que estava obrigado, por seu proprio interesse, a tratal-os com as mais elevadas honras e deferencias. Nem tão pouco foi este brilhante aventu- reiro o monge Otrepiev. O absurdo d'e: explicação já foi demonstrado. Póde chegar- se à solução do enigma, reunindo cuidade mente certos pontos por onde se tocou na descripção d'esta extranha carreira, O primeiro facto que surprehende extrao: dinariamente é a promptidão com que foi recebida a pretenção. O principe Adam está no seu banho; o criado, para se desc ulpar dum acto de negligenci ia, diz-lhe que éole- gitimo cesar das “Russias. E o principe aceita este conto sem um momento de hesitação, e immediatamente começa a tratar o seu criado como csar, e d'ahi por diante o caminho se- guido pelo pretendente é suave até ser pu- blicamente reconhecido pelo rei Segismundo. Note-se, que nunca foi explicado, por que fórma entrou este rapaz ao serviço do prin- cipe Adam. Serões Se isto assim foi, resta uma pergunta a fa zer. Quem eram, pois, esses poderosos amigos oceultos que, depois de terem primeiramente arrastado este rapaz para representar aquelle papel, e de o terem introduzido em casa do seu alliado, o principe Adam, ajudaram tão fir memente os passos da sua subsequente car- reira? k Póde deduzir-se resp« sta plausivel da pro- pria narrativa feita. Qual é o caminho que as segura a Demetrius o apoio dos polacc sua recepção na igreja romana pelos jesui- tas — outra comedia; porque, note-se, o pre- tendente era, por certo, um catholico, se não por nascimento ao menos por educação. Quem é que finalmente induz Segismundo a apoiar as suas pretenções? O nuncio do papa por intervenção dos jesuitas. Quem acompa- nha Demetrius na sua curta carreira, e quem é mais publicamente estimado por elle, com escandalo de seus subditos ? Os padres jesui- tas. Quem se encontra partilhando das res- ponsabilidades do poder, dando-lhe conselhos secretos, suggerindo-lhe medidas favoraveis Roma? A quem foi permittido construir uma igreja catholica na mais sagrada região em toda a Russia? Aos mesmos jesuitas. Não é necessario accrescentar que, annos antes d'estes acontecimentos, a Companhia de Jesus, toda poderosa na Polonia, fundara collegios perto da fronteira russa, e mandara missionarios áquelle paiz, um dos quaes teria sido talvez Gregorio Otrepiev, e tinham-se gloriado com a esperança de trazer os mos- covitas ao gremio romano. Foi esta maravilhosa sociedade, que em dado momento pareceu destinada a gover- nar o mundo inteiro, que concebeu, e real- mente executou, o arriscado projecto de fa- bricar um csar, e de o collocar no throno de todas as Ru ?
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O RETRATO DA DUQUEZA DE DEVONSHIRE POR THOS. (GGAINSBOROUGH Ao mesmo tempo que as attenções do publi- co artista erão solicitadas pela exhibição da pintura readquirida do celebre retratista in- glez Gainsborough, a Duqueza de Devonshire que reproduzimos na pagina seguinte, um ou- tro retrato do mesmo mestre, d'uma outra Du- queza de Devonshire era exposto tambem na galleria dos Srs. Henry Graves e C.* em Pall Mall. Não se chamava Georgiana, como a pri- meira, mas dizia-se Isabel, esta duqueza de Devonshire, mais conhecida por lady Betty Foster. A historia d'esta duplicação de obras muito similares está descripta em documento authentico. Lady Betty poisou para o retrato de Gainsborough pelo anno de 1778, tendo ella propria feito a encomenda do retrato. O artista fez primeiramente o esboço para re- trato de todo o corpo, mas quando foi mos- trado a lady Betty esta disse preferir uma pintura mais pequena. A figura já estava de- lineada na tela, mas o pintor prometteu que havia de cortal-a no tamanho desejado. Lady Betty gracejou nessa occasião com Gainsborough, recordando-lhe a opinião en- tão corrente de que as suas pinturas eram geralmente muito amaneiradas e não pos- suiam os mais solidos meritos de Reynolds ; ao qual elle respondeu, que podia pintar em qualquer estylo, mesmo no de Reynolds, e que, para lhe ser agradavel, n'esta pintura havia de misturar a sua propria maneira de - pintar com as qualidades que ella parecia tanto admirar no seu grande rival. Quando acabou o quadro, não podendo lady Betty concedel-o para expôr, permittiu que Gains- borough fizesse a copia que todavia elle nunca acabou. Tendo casado com o duque de Devons- hire, lady Betty deu a pintura como lem- brança ao pae do sr. Foster, o qual agora conta esta historia e a authentifica, pedindo- lhe que não se desfizesse d'ella emquanto vi- vesse. Mais tarde o pintor Thomas Laurence dirigiu-lhe o pedido de permittir que dei- xasse completar a copia que estava por aca- bar pelo original que elle possuia e foi-lhe con- cedida a licença. Todavia Laurence, introdu- ziu-lhe modificações, carregando considera- velmente a côr das faces e dos labios. O sr. Foster pae, tendo-se mudado para Wolver- hampton, fez enrolar a pintura para a via- gem e levou-a comsigo para a Australia. Es- tava guardada, enrolada n'uma caixa compri- da, rotulada «canna de pescar». Apezar d'este disfarce, a pintura foi roubada emquanto es- tava em Sydney. Foi, comtudo, recuperada. pelo Shipping Ófjice, onde o ladrão a deposi- tára com o fim de a transportar para Ingla- terra. Depois da commoção causada pelo roubo da pintura dos srs. Agnew, o sr. Fos- ter levou o retrato para Londres e tem desde então estado em Inglaterra. O quadro foi adquirido recentemente por 30.000 lbs. ou seja cerca de 180 contos por Mr. Pierpont Morgan, o celebre milionario americano, co- nhecido pelo titulo de imperador dos /rus/s, os grandes syndicatos de producção. Gainsborough é, como Reynolds, conside- rado um dos primeiros retratistas-pintores inglezes e os seus quadros são como os do seu rival disputados a peso d'ouro. Ambos se dedicaram com carinhosa e bem sugges- tiva arte à reproducção da imagem de mu- lheres, e d estas as mais bellas quizeram ter a gloria de perpetuar -a lembrança da sua formosura nas telas dos admiraveis pinto- res. Saito
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A vuqueza ne Devonsmne — QuaDro DE THos. GAINSNOROUGH
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MODAS COSTUMES DE CARNAVAL PPROXIMA a epoca festiva do carnaval folhos do dominó ou no costume scintillanto e amiudam-se as reuniões, os bailes e as e pittoresco do que na casaca grave e insi- soir onde a mocidade, em contraste frisan- te e curioso, se encarrega de prolongar e de manter as ti dições do pas- sado, como pa- ra demonstrar o elo symbolico da continuidade da vida. São sem- preos novos que fazem resurgir velhas usan- ças: por isso O velho carnaval resurge todos os annos, sempre loução e estur- dio, despreoceu- ade te: alegre. v” uma época aproveitada pa- ra festas familia- res eintimas, on- de a mascara do disfarce gentil ou extravagante substitue a mas do conven- cionalismo —ha- bitual, A come- dia humana é espectaculo que não finda; é re- presentação on- de não desce o panno; apenas se renovam os actores ou se transformam “os travestis. (Nºeste mez, mercê do calendario, o disfarce é per- mittido/ em ple- na liberdade. Cada um esco- JaponEza lhe o seu, inde- pendentemente das convenções ou dos pr pida ou na toilette roçagante e seria das conceitos que obrigam 'as/attitudes determi- grandes ceremonias mundanas. nadas e:reflectidas. Ha mais verdade nos re- Damos em seguida uma des ipção suc-
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178 cinta dos diversos costumes de Carnaval, apontando de uma fórma geral a foilette que pelas ilustrações a leitora modificará segundo a conveniencia de momento. - Serões diversos tons de azul claro. O corpo do ves- tido tem as lizas, e é ajustado à cin- tura por uma larga faixa de setim azul escuro, bordada como o galão. Nas costas, grande nó sem pontas. A frente do Cosrume DE CARNAVAL Japoneza — Vestido em crepe da China vermelho velho, bordado, aberto e atraves- sado sobre uma saia de setim amarelo, tam- bem cruzado e guarnecido de galão de setim azul escuro, com bordados ou applicações em corpo aberto em V. pe- queno. Galão azul bor- dado, guamecendo igual- mente a frente e o de- cote. Mangas largas, aber- tas e cahidas. Meias de da, sapatos de setim. Nos cabellos, pentes e pregos de oiro. Leque japonez Costume de carna- val — Saia curta em /aille coberta de renda preta bordada a oiro, Corpo liso, em setim amarello, de forma princeza, recor- tado em grandes dentes ou tiras ponteagudas, com guizos doirados nas extre- midades. Tira de velludo na frente, fechando em pregas. Mangas largas, em preguinhas de gaze recor- tada. Decote nas costas arredondado, e adiante em forma de V. Sobre o corpo bandas de/velludo preto recortadas em gran- des dentes ponteagudos. Gola de velludo preto com guizos. Renda de oiro guarnecendo o de- cote. Sobre a cabeça, ca- pacete ponteagudo, com uma aureola formada de pontas de velludo preto enfeitado com guizos. Ca- bellos cahindo sobre os hombros. Meias de seda, sapatos de setim. Hespanhola — Saia curta em faille com aven- tal em grossa rede de froco. A parte superior do avental feita em rede de froco mais fina e uma grande faixa de fazlle cor- tando o avental a meio e reunindo as duas redes. A parte de traz da saia em largas pregas lisas, cujos lados exteriores são forrados de bandas de velludo. Uma grande grinalda de folha- gem guamece a saia em baixo, toda em volta, e segura atraz as pregas de faille. O corpo do
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Costumes do Carnaval mesmo /aille decotado, aberto em V, com collete em bico de velludo. A parte de cima é coberta con rede de froco. Collete atacado a meio das costas. Ao peito uma grande rosa pallida. Luvas compridas em pelle de Suêde. Leque de renda. Coifa de froco prendendo os cabellos, com rosetas collocadas em diadema. Meias de seda, sapatos de se- tim. Costume Egypcio— Vestido de seda pekim heliotrope, velludo e fazlle, no mesmo tom e surah listrado de azul e branco, perolas e galões de oiro. a curta, sobre a qual atraz se forma uma gunda meia saia listrada horizontalmente, princi- piando dos lados e encur- tando para a cintura em fórma de peplum e na frente outra segunda meia saia em faille liso, dispos- ta em panters ou tufos. Avental em surah lisrrado enfeitado, e armando tam- bem o corpo em decote redondo guarnecido em volta de galão doirado, finalisando de cada'lado sobre as bandas do aven- tal a. que se prende por fivelas doiradas. Capacete de metal doirado com pe- nacho de plumas, Venta- rola de pennas. | Botinas de pelle de cabritoz e meias de seda héliotrope. Zanette-Costume em seda e faille liso, côr de rosa velho e azul. Le do esquerdo da saia cur- ta, em seda branca, tec da de verde e rosa velho, com o vestido de faille côr de coito, partindo do meio da frente e encur- tando sobre o lado. A parte de diante e a parte do lado direito em fazlle rosa velho comen- quadrados de velludo cortado. Corpo de seda e em velludo verde com abas lisas, encrusado sobre o peito e decotado em forma de V.Com- pleta e fecha o corpo umas presilhas e em bai- E xo uma fivella ingleza. Mangas tufadas aber- tas adiante sobre um fundo liso de faille; são tufadas até o cotovello, ajustando-se por um pequeno punho na extremidade. Manto de HespANHOLA faille azul, forrado de surah rosa velho com grande cabeção de faille côr de rosa e prega- do nos hombros com laços de fita côr dejrosa desmaiado. No pescoço duas fieiras de pe- rolas, caindo sobre o peito. Luvas de pel-
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18o lica. Chapéo cór de rosa com penacho de plumas verdes. Meias e sapatos de setim verde, Imperia — Costume em seda tecido em Serões da a oiro sobre o lado direito do corpo e uma banda de surah botão d'oiro sahindo do mes- mo lado direito, passando sobre o hombro es- querdo, descendo sobre o peito e cahindo atraz sobre o braço esquerdo. Um sacco de Egyrera vermelho velho, surah apropriado, surah ama- rello, botão d'oiro e enfeites de flores. Saia em seda, com'avental de surah vermelho. Grinal- da de espigas e flores campestres no lado es- querdo. Corpo em seda, redondo, decotado em forma de V, Largas pregas de seda, teci- ZANETTE ImperIA fantasia em setim vermelho, com um leque forrado de surah côr de oiro velho. Umbrella de setim do mesmo tom com laço apropriado. Chapéo de palha com largas abas voltadas e laços de fita vermelha. Meias e sapatos de se- tim vermelho. Luvas de pellica branca.
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Cas K A O auctor, notavel e popular romancista inglez, aproveita esta dramatica novelia para tratar, sob um aspecto commovedor, a terrivel hereditariedade alcoolica; soccorre-se, para o, efeito da narrativa, das modernas doutrinas e praticas do hypnotismo e da suggestão, e de- screve com agudo interesse na simplicidade descraptiva a poderosa influencia da esperança e da imaginação sobre um espirito doente, na forma de degenerado, CAPITULO vinte e trez de dezembro de 18.., na estação de Euston, enclinava-me para fóra da portinhola da carruagem do expresso da Escossia e Jorge Chute dava-me do caes da gare o aperto de mão de despedida. — Adeus Roberto, disse-me elle, Lembra-te de me procurares á tua volta, logo que che. gues. Fico ancioso de saber noticias. As nos- sas boas amigas de Cleator são ainda um pou- co extranhas para ambos nós, tu bem o sabes, sobretudo para mim. Meus cumprimentos para myss Clousedale — tambem para mistress Hill. Adeus! Acenei.lhe com a mão em quanto o com- boio se afastava rapido da gare. Elle tinha jan- tado comigo n'aquella noite, em minha casa, no Temple, e acompanhara-me até Euston pa- ra assistir á minha partida. Jorge Chute, tinha mais vinte e cinco annos do que eu, todavia era o meu amigo mais intimo. Fôra desde no- vo muito amigo de meu pae. Quarenta annos antes tinham sido companheiros e empregados no escriptorio de um procurador na provincia. Depois separaram-se pelas suas carreiras. Jor- ge Chute veio a ser o mais considerado solli- citador de Londres, onde prosperava, e meu pae, Roberto Harcourt, juiz na India. Com- quanto separados pela distancia de meio mun- do, mantiveram sempre a mesma amisade. Eu nasci na India, e qnando aos quatorze annos fui mandado para Inglaterra para principiar a minha educação n'um collegio publico, foi Jorge Chute que me installou um Harrow. Em tempo proprio mandou-me para Oxford, e de- pois abriu-me carreira no tribunal. Estive cin- co annos como junior, e devi-lhe em grande parte o meu exito. Elle era mais de que um Serões — N.º g— Vol. II Na domingo, pelas nove da noite, em PRIMEIRO amigo — era para mim um pae adoptivo. Mas de todas as benevolencias de que lhe era de- vedor e pelas quaes lhe era em extremo grato, havia uma que mais do que qualquer outra me Jigava a elle muito affectuosamente. Fôra por sua intervenção que eu conhecera Lucy Clou- sedale. Lucy tinha vindo da sua casa em Cum- berland a Londres para o consultar sobre a si- tuação em que estava a sua herança. Ella tinha vinte e dois annos e seus paes tinham morrido ha muito. A sua unica companheira na vida fôra uma velha criada que ficára solteira, mas a quem apesar d'isto chamavam mistress Hill. Jorge Chute, impressionado por vêr a pobre orfá sem relações d'amisade, convidou a para a sua propria casa em Cheyne Walk. Foi alli que a encontrei, e logo me prendi na admira- ção da sua pessoa, porque realmente nunca vira mulher mais encantadora. A saudavel frescura da sua explendida mocidade, a doce simplicidade do seu convivio e a naturalidade desaffectada das maneiras fizeram-me profun- da impressão. Isto deu-se pelos principios de maio, e nos dois mezes seguintes ella era con- siderada pelas nossas relações como intima e convidada para toda a parte. Lucy conversava com uma leve e graciosa acentuação do norte e cantava deliciosamente antigas canções in- glezas. Tudo era novo para ella e tudo achava maravilhoso. Sentia-me feliz porque a nossa convivencia progredia em amizade e da amizade passara a amor. Antes de deixar Londres, em fins de ju- nho, Lucy prometteu ser minha mulher. Ajus- támos casar somente na proxima primavera, mas visital-a-hia em sua casa pelo Natal. Passá- mos juntos em casa de Jorge Chute a sua ul- tima noite em Londres. O tempo corria doce 12
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182. e para nós feliz. A suavissima claridade d'um pôr de sol de Londres estendia-se pelo estrei- to e sereno Tamisa em quanto, sentados no terraço,olhavamos para a velha ponte deBatter- sea. Antes de se acenderem os candieiros, ella cantou «Um passeio no bosque». Eu tinha com- tudo n'alma um grande tormento: a idéa dos seis mezes de separação. Mas afinal tudo isso acabára. A longa serie das minhas obrigações nos tribunaes estava pre- sentemente finalisada. O Natal estava proximo e eu partia no expresso para Cumberland. Re- costei-me para traz, aconcheguei-me no meu logar e entretive a primeira hora de jornada em reler um masso de cartas antigas que tra- zia na carteira. Na sua maioria eram de Lucy — delicadamente escriptas na mais nitida cal ligraphia. Notei pela segunda vez que, sob este aspecto especial, duas d'ellas eram differentes. Serões — Não, esta não é bôa... Hein? disse elle com expressiva entoação. Julgava-se perito em assumptos de grapholo- gia. E tinha rasão. Por temporaria indisposi- ção foi explicado o caso. A propria Lucy o confirmou mais tarde. As unicas cartas da minha velha carteira que não eram de Lucy, eram de meu pae. Ti- nha-lhe escripto a participar-lhe o meu futuro casamento, e respondera-me com tanta cor- dealidade quanta na verdade eu tinha direito de esperar. Elle confiava em que a minha re- solução fosse acertada, que o meu proceder não fosse nem prematuro nem precipitado, e que visse claro ante mim o meu futuro. O unico e bem significativo periodo da sua carta era uma especie de aviso : «Sobretudo, meu querido filho, deixa-me esperar e confiar que a mulher que ha de ser O tempo corria doce e para nós feliz. A lettra era irregular, e as phrases sacudidas, inconsequentes. Por acaso, Jorge achavá-se no meu quarto quando recebi uma das duas cartas e n'essa occasião mostrei-lh'a : tua, e minha filha, provenha de uma boa e sau- davel geração, Vivendo n'este paiz onde a na- tural selecção no casamento é estorvada pelos preconceitos de casta, agora mais claramente E |
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Mal de do que nunca, vejo quão terriveis são as con- sequencias da hereditariedade, não sómente nos vícios physicos, mas tambem nas innume- ras fórmas de máus costumes que correspon- dem a uma determinada doença.» Deixei o expresso correio da Escocia em Penrith ás tres da madrugada, mas a casa de Lucy era no districto das minas de ferro de Cleator Moor, e ainda tinha de passar segundo entroncamento antes de chegar ao limite da minha jornada. Este entroncamento era já no centro das montanhas de Cumberland. Ainda não tinha alvorecido quando alli cheguei. O chão estava coberto de espesso gêlo, a noite fria, e eu tinha de esperar meia hora pelo com- boio local.Por indicação do factor, entreina sala de espera da pequena casa de madeira da esta- ção. Ardia alli um bello fogo sobre ladrilhos, e alguns mineiros estavam sentados em redor, fumando nos cachimbos de argilla, com os co- tovellos sobre os joelhos, e as candeias de mina penduradas dos pulsos. Déram-me logar ao pé do fogo, mas continuaram na sua con- versa sem attenderem á minha presença. Per- guntei-lhes se seguiam no comboio para Clea- tor. Responderam : «Sim, e que trabalhavam nas minas de Clousedale, no poço conhecidc por Owd Boney-.» Sube que Owd Boney queria significar osso velho, e aquella denominação tinha directa referencia á historia da mina. Colhi tambem que aquelles homens viviam na proxima cidade de Cockermouth e voltavam n'aquella manhã novamente para asua mudança quinzenal de residencia, em turno de trabalho. — Mas na vespera de Natal ! disse eu admi- rado — certamente teem folga no dia de Na- tal? Riram-se e responderam-me que para os mi- neiros todos os dias eram eguaes. — Domingo ou-segunda é túulo o mesmo — disse um. A machina do topo da mina não pára para os officios da igreja. — E as caldeiras estão sempre tão sequio- sas como o velho Geordie Clous'al, o engui- çado — disse um outro ; e riam-se em frâncas e basculejadas gargalhadas, deitando bafora- das de espesso fumo sorvido nos cachimbos e cuspindo sobre o fogo. O comboio parou na gare e apitou. Entrei com os mineiros para a mesma carruagem, e seguimos para o paiz das minas. O dia come- çava de apparecer agora sobre as rochas co- bertas de neve. As montanhas ficavam para traz de nós, e entravamos n'uma larga exten- são de brejos. Mais adiante com o augmento da luz acinzentada pude vêr as edificações de madeira de muitas minas, e o fumo e cham- mas das baixas chaminés dos fornos de fun- dição. A neve cahia mais fina e rara a cada milha que se adiantava, e o chão descoberto herança 183 coloria-se de vermelho e preto como se esti- vesse cheio de cinzas e de escorias de ferro. — Fallaram do velho Jorge Clousedale, dis- se: Quem é? — Um homem já morto, informou um dos mi- neiros. — O que era elle ? a — O dono de Owd Boney e da metade das minas de Cleator. — Algum parente de-miss Clousedale, de Clousedale Hall ? — perguntei. — Lucy ? disseram ao mesmo tempo muitas vozes. — Sim, Lucy, se lhes apraz. — O sequioso velho Jorge Clous'al era avô de Lucy. Estava com intensa curiosidade, mas este tratamento familiar irritara-me ao mesmo tempo : — Devo informal-os por uma vez que miss Clousedale é pessoa de minha amisade e que estou em viagem para a visitar. Comprehenderam-me immediatamente e desculparam-se com a mais humana simplici- dade. — Não é falta de respeito por miss Lucy. Não lhe desejamos senão mil bens. Paga-nos o pão que comemos e nada temos contra ella. Nada mais se disse até chegarmos á distan- cia de uma milha da aldêa, que tinha entre- visto de longe, estendida sobre a superficie ne- gra atravez de uma columna de fumo. Então um dos mineiros, inclinando-se para a janella da carruagem e apontando para a casa que estavamos rapidamente passando, disse : — Ahi está Clousedale Hall, senhor. Levantei-me de subito e olhei. A casa era uma grande moradia quadrada, de construc- ção moderna, sem caracter particular, erguida silenciosa do terreno por de traz de espessos grupos de arvores, agora todas despidas de fo- lhas. Tinha descoberto o sol, a humidade tor- nara-se brilhante sobre os tectos de ardosia e rebrilhava espelhenta sobre a herva dos cam- pos. Sahia fumo das chaminés e justamente, m'aquelle momento, alguem levantava e afas- tava a cortina branca de uma das janellas. Tal era a casa de Lucy. Emquanto o comboio passava, notei que pouco longe do portão de Clousedale Hall havia um pequeno grupo de casas abarracadas e n'um canto, no extremo mas proximo d'ellas, um pequeno botequim. A linha ferrea corria tão perto que lhe pude ler a taboleta. Era o «Clousedale Arms». Apeei-me na estação e olhei em redor a vêr se teria alguem á minha”espera. Ainda era cedo, oito e meia, e a manhã estava fçia, mas em todo o caso eu alimentara uma tenue espe- rança de que Lucy tivesse apparecido na gare. Pelo menos julgara que mistress Hill estivesse. -
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edad di É ; : 184 Serões Nem uma, nem outra. Não havia carruagem, nem animal, nem criado de especie alguma. Quando os mineiros se retiraram, a plataforma ficou vasia, só para mim e para os moços do caminho de ferro. Fallei com o factor. Into socego e descanço durante estes dias proximos. Não é caso de perigo e espero que não tenha inquietação e menos ainda receios. Porém n'estas circumstancias, sou involun- tariamente obrigada a pedir-lhe que não venha por ora a Clousedale Hall. Tomei a liberdade de lhe alugar quartos no Wiheatsheaf na villa onde espero que esteja conforta- Mettendo a mão na algibeira tirou uma carta... — Não ha aqui alguem que leve a minha mala para Clousedale Hall? perguntei. — Então o senhor é o cavalheiro que espe- ram — disse e, mettendo a mão na algibeira do casaco, tirou uma carta. Era-me dirigida, porem não era de lettra de Lucy. A carta vinha de mistress Hill, datada de domingo 23 de dezembro, ás 9 da noite. Meu caro sr. Harcourt. Com pezar o previno de que Lucy ficou repentinamente doente e que o doutor julga necessario que ella tenha abso- CAPITULO A hospedaria esperava-me prompto o al- moço, mas não pude tocar-lhe sem pri- meiro ter escripto a Lucy. Relatava-lhe o que soubera com respeito à sua doença, quanto desejava o seu completo restabeleci- velmente, até o momento em que eu possa convenientemente e sem perigo dar á minha querida menina a felicidade de lhe pedir mudança da sua residencia para esta casa. Com todas as desculpas, profundo pezar e bem contra- riada, sou, meu caro sr. Harcourt, Sua muito sincera, Martha Hill. — Bem. Leve a minha mala para Weatsheaf? disse. Elle levantou-a do chão, pôz-se a caminho e eu segui-o verdadeiramente desgostoso,desani- mado, desnorteado. SEGUNDO mento, quanto desconsoladora fôra para mim a decepção de não a vêr logo á minha chegada, alem de muitas cousas demasiadamente intimas para as repetir aqui. Depois de ter mandado esta carta por mão propria, sentei-me para almoçar EO VN pp
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: Mal de ea propria hospedeira amavelmente veio ser- vir-me, Era uma mulher de Cumberland, simples, de meia idade, muito grave e sisuda, mas um tanto mais expansiva do que em geral são as da sua raça. Chamava-se Tyson; o marido tinha o quer que fosse de sportman; viviam na pro- priedade de Clousedale. A senhora Tyson tinha muito que dizer sobre Lucy, a quem ella conhecia desde a infancia — da sua bondade para os pobres, da sua do- gura para com todos, da sua generosidade, re- partida por muitos meios, e em geral das qua- lidades de espirito e de coração que a faziam estimar do povo em decidida preferencia a outra qualquer do districto onde nascêra e se creára. Não me surprehendeu que, aos olhos d'aquelles que a conheciam ha mais tempo « mais intimamente, a minha escolhida fosse considerada tão bôa como formosa. Fui in- formado que ella concorria para varias insti- tuições locaes de caridade ou de beneficio popular: para a associação dos homens de tra- balho, para uma aula nocturna, destinada aos mais necessitados, e para um ramo da ordem Rechabite * que ella ajudára a estabelecer. Pa- rece que á sua propria custa — estando si- tuada a igreja parochial a duas milhas de distancia no valle — levara a sua generosidade a ponto de construir e de dotar uma capella para uso da communidade que residia nos altos pedragosos, em volta dos poços das minas nas quaes as familias trabalhavam em successi- vas gerações. A mulhersinha narrava com en- thusiasmo todãs estas acções caridosas, e quando lhe perguntei sobre a saude de Lucy, se alguma vez tería inspirado cuidados, res- pondeu-me : —Não; e que só duas vezes, tanto quanto se podia lembrar, tinha estado muito doente, e que os dois ataques os tivera n' seis mezes ultimos. — Nada grave, certamente ? disse. — Que eu saiba não, respondeu a estalaja- deira, mas para a pobre menina parecia que a melhor alegria que conhecia, e nunca achava bastante, era a de fazer bem, chegando-se á bei- ra de qualquer. Era cruel e penoso vel-a ir com a physionomia pallida de casa em casa com o seu cesto e a sua bolsa. Foi n'uma dessas occasiões que ella obteve do seu novo parocho escocez o estabelecimento dos votos rechabites. A gentil figurinha percorria ella mesma o povoado, persuadindo os mineiros a tomar aquelle compromisso : — «Uma. bôa + Associação de temperança cujos membros se obrigam à abstenção de bebidas alcoolicas e cujo nome se deriva do facto contado na biblia de que um dos descendentes de Jonadabe, filho de Rechab se abstinha de todas às bebidas alcoolicas, e até mesmo de plantar vinhas. herança 185 cousa para alguns d'elles, ou antes para todos, é a mulher d'um estalajadeiro que lh'o diz». A minha longa viagem de noite cançara-me; recolhi-me ao quarto e dormi profundamente. Um pouco pela tarde acordei, e occorreu-me então que talvez podesse, para me tirar do desasocego em que estava e que não podia evitar de sentir, ir procurar o medico de Lucy. N'esta idéa, depois de ter jantado al- guma cousa, fui procural-o, tomando previa in- dicação da estalajadeira. OQ doutor não estava em casa. Estava no dispensario publico da aldêa. Sube que este dispensario era uma outra caridade de Lucy. O quarto exterior estava cheio de mulheres e de creanças, esperando a vez de entrar no consultorio. Como ficasse entre ellas, em- quanto levavam o meu bilhete ao doutor, ou- vi pronunciar o nome da minha adorada, acompanhado de elogios e de bençãos. — Ha de receber a recompensa no ceo, dizia uma mulher. — Deus ha de pagar-lhe, dizia outra. O doutor chamava-se Godwin. Achei um homem de physionomia dura, n'uma cabeça bem modelada e de olhos pardos e firmes, olhar de aço reluzente. Fôra educado na Allemanha, e sube depois que elle se envaidecia em estar a par de todos os progressos modernos da sua sciencia. Isto, e o seu caracter pessoal resoluto, deram-lhe uma certa superioridade sobre o genero antigo dos clinicos da provincia, não obstante saber-se que elle era um atheu e que nunca frequentava a igreja. Expliquei-lhe que era da amisade de miss Clousedale, e pareceu me que elle estava ao corrente das nossas intenções. Perguntei-lhe se a doença d'ella era grave, e respondeu-me com menos promptidão de que eu esperava. — Não, não é grave — por agora, disse. Como não adiantasse mais nas explicações, atrevi-me a perguntar-lhe se os incommodos de Lucy eram indisposições femininas. Res- pondeu-me depois d'alguns momentos: — Sim ; e ficou novamente silencioso. — alguma doença de nervos, sem duvida ? — disse, ao que elle me respondeu: — Sim ; mais uma vez, repetindo as minhas palavras mechanicamente. Depois olhou para mim; e com precipitação perguntou-me se tencionava permanecer no districto. Fiquei irritado com aquella reserva, e disse-lhe que Lucy estava para ser minha mulher, que tinha vindo ex- pressamente, em virtude d'uma combinação anterior ajustada em Londres, para a visitar ; que pelo desejo da sua dama de companhia e do seu proprio, conforme tinha comprehendi- do d'uma carta recebida, fôra ficar na hospe- daria da aldêa, mas que tencionava mudar os meus aposentos para Clousedale Hall, tão de-
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186 pressa elle me podesse asseverar que a minha presença alli não prejudicava a doente. — Ha de esperar ainda alguns dias — disse. Julguei que o tal doutor me estava tratando com pouca cortezia e não disfarcei o meu aborrecimento. Quando o deixei, cheguei ao excesso de lhe dar a entender que talvez pen- sasse, sendo necessario, telegraphar para um especialista. A minha ameaça não produziu effeito algum. O homem conduziu me até á porta com a mais fria polidez envolta no si- lencio d'uma esphinge. Voltando pela rua principal da aldêa, passei ao cahir d'aquella noite de inverno por uma igreja de estylo go- thico, em tijolo encarnado, situada no meio d'um povoado de edificações muito pobres. Era a capella mandada construir e dotada por Lucy. Reconheci-a pela pedra de fundação na qual em lettras doiradas havia uma inscripção em honra da minha querida Lucy. Havia lu- zes lá dentro, a porta estava aberta, e entrei. Algumas mulheres estavam decorando as ja- nellas e o madeiramento visivel do tecto, com o auxilio de escadas de mão, seguras por dois ou trez mineiros. Quando voltei a Wheatsheaf, perguntei se tinha vindo algum recado de Clausedale Hall. Não navia carta, mas esperava-me alguem que tinha vindo visitar-me. Era o sacerdote. Chamava-se elle Mac Pherson, escocez, de meia idade, de aspecto severo. Vinha dizer-me mm PULA hd A senhora Tyson viera servir chá ao marido. que a minha carta tinha sido recebida, mas que miss Clousedale não estava bem para po- der responder. Por isso, pelo seu proprio al- Serões vedrio, elle resolvera avisar-me do adia- mento forçado da minha combinada visita. — Está assim tão gravemente doente ? per- guntei. — Receio que o esteja, respondeu. — Mas que doença tem ella? Hesitou um momento, e depois concluiu : — Não posso verdadeiramente dizer. — Teve-a já alguma vez? — Duas vezes. — E restabeleceu-se nas duas occasiões ? — Sim, graças a Deus, porém com demora, em todo o caso. Principiava a sentir uma colera interior, ir- resistivel. Tanto este homem como.o doutor, faziam-me perder a paciencia pela sua reserva calculada. — Então aconselha-me a que volte para Londres ? — Por agora, — replicou. -— Sem a vêr? — Vêl-a, seria impossivel. — É o seu proprio desejo ? Hesitou ainda, depois respondeu gaguejan- do: — Sim; creio ser esta a impressão que tive. A minha paciencia estava quasi exhausta quando felizmente vi fóra de casa o sacerdote. N'este mesmo momento entrava outro homem o limiar da porta : — um rapaz alto, robusto, peito largo, um sacco de caça ao tiracollo e um espingarda no braço. Era Tyson, o esta- lajadeiro. Sau- dou-me rapida- mente e passou para a sala. Ha- viam'aquelle ho- mem um ar de franqueza e de energia,quedes- de logo me at- trahiu; e, tendo deixado o paro- cho, seguio meu estalajadeiroaté uma sala de re- cepção, decora- da de verme- lho, nastrazeiras do botequim. Deu-me alegres boas vindas, e começou logo a chasquear da vi- sita que acabára de receber, chamando-o Sr, Piloto do Céu, e dizendo-me que era a primeira vez que sua reverendissima se houvera dignado atraves-
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Mal de sar os humbraes da porta de Wheatsheaf. Su- “be em seguida que Mac Pherson era um fa- matico da temperança, e Tyson estava con- vencido de ter sido esta a qualidade prin- cipalqueolevára á sua nomeação de paro- cho, obtida pela pro- tectora do «seu modo de ganhar a vida.» — Nem admira — disse Tyson — vendo a lição que ella está recebendo todos os dias da sua propria vida, pobre senhora ! — Que lição ? per- guntei ancioso. — Nunca ouviu fal- lar do velho Jorge Clousedale ? Recordei-me da conversa dos minei- ros no comboio. — Do sequioso ve- lho Jorge ? disse. — Esse mesmo — confirmou o estalaja- deiro. —Ella está sof- frendo a praga. — Qual praga? per- guntei, cada vez mais intrigado. — Então o senhor não conhece a histo- ria de Clousedale ? Tive de confessar que não obstante miss Clousedale ser pessoa da minha amisade in- tima, nada sabia da familia della A se- nhora Tyson viera servir chá ao marido. —Cala-te João! Não atormentes a cabeça do nosso hospede com similhantes con tos de velhas. Approximei a mi- nha cadeira para perto do fogão c fingindo- me curioso e sceptico: — Uma historia de pragas? Quero ouvil a a todo o transe. Tyson riu-se. — Então vou contar-lh'a como a ouvi—e ao mesmo tempo que mastigava, com a bocca cheia, começou a sua narrativa. — O velho Jorge Clousedale, o avô de Lucy e o fundador da fortuna da familia de Clousedale era um cruel e duro patrão. Dizia-se d'elle que se via uma pobre velha e viuva apa- herança 187 nhar cinzas de refugo da casa da fundição, para aquecer os seus velhos ossos n'um dia de inverno, elle não duvidava afastal-a com Era um patrão duro e cruel... ameaças e desabridamente. N'um domingo de manhã dois dos seus mineiros, voltando para casa da igreja do valle, lá em baixo, quando o atravessavam, apanharam uma pedra encar- nada e brilhante. Era bom c rico minerio de ferro excellente. Era um achado que lhes pro- mettia grandesresultados.Oshomens combina- ram nada dizer da descoberta emquanto não conseguissem o privilegio de concessão e come- çassem a explorar a mina porsua propria conta.
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188 Um dos dois foi firme na sua combinação ; mas o outro quebrou o segredo. Emquanto o primeiro estava juntando dinheiro para indem- nisação ao dono da propriedade, o segundo foi a casa do seu patrão, contou-lhe a desco- berta e aceitou uma gratificação de vinte li- bras. Dentro d'uma semana Jorge Clousedale tinha comprado o privilegio de uma outra mina, e estava perfurando um outro poço. O mineiro, que fôra trahido, endoideceu de raiva. Procurou o parceiro infiel e sovou-o valente- mente, pondo-lhe a vida em risco. O homem foi preso, e Jorge Clousedale foi ainda o ma- gistrado que o processou. Foi sentenciado a alguns mezes de prisão. “* pobre rapaz era o unico amparo da mãe, e quando foi levado para Carlisle a pobre ve- E NB NA PE. Nua) Ha de ter no corpo o fogo do inferno... lha dirigiu-se a casa de Jorge Clousedale. Este appareceu-lhe no vestibulo, e ella inju- riou-o, chamando-lhe traidor e tyranno. Per- Serões dendo a cabeça com os insultos da velha, Clausedale agarrou n'um chicote que estava pendurado na parede, zurziu-a e mandou-a para o inferno, e que não se atrevesse a mos- trar a cara outra vez n'aquella casa. A mulher atirou-se para elle e gritou : — Rufião brutal | É você que ha de ir para o inferno; mas an- tes que vá, ha de ter no corpo o fogo d'elle e ha de soffrer d'uma sêde tal que nunca será saciada! Ha de beber e beber até mor- rer, os seus filhos hão de beber e os seus ne- tos e bisnetos para todo o sempre, e atravez das gerações ! — Mas, objectei, não quer dizer que a praga tivesse sahido certa ? — Julgue como quizer, disse Tyson; mas em menos de seis semanas Jorge Clouse- dale foi atacado d'um ardor abrazador no in- terior e bebeu, bebeu e bebeu e em doze me- zes estava morto. — Quantos filhos teve ? — Só um — o moço Jordi, como nós o cha- mavamos, Jordi riu-se do velho conto quando lh'o disseram, mas aos quarenta annos foi ata- cado da mesma sêde abrazadora £S e aos cincoenta abriu-se-lhe a sepultura de beberrão incorri- givel. —E... Lucy? Miss Clouse- dale ? — Essa era apenas recem- nascida quando o pae mor- reu e não teem perdido tempo nem ensejo de a educar na temperança. Eu ri, Tyson riu-se e ua mulher tambem e todosrimos ao mesmo tempo, — Uma boa e velha historia de bruxaria, disse com certo estremecimen- to interior, que não podiadominar.A dmi- ro-me que façam ca- so destas pragas. Mas o caso fizera- me impressão. Vol- teia fallarn'ellemais do que uma vez. A mina, que tinha si- do a primeira cau- sa de desordem, era a que tinha o nome de Owd Boney.. Trouxe a riqueza para a familia Clou- sedale e era a fonte principal da fortuna de Lucy. Seu pae morrera rico, mas os seus ulti- mos dez annos foram annos de soffrimento e x
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Mal de de terror. A insaciavel sêde que o atormentava principiára por ataques periodicos que cresce- ram mais e imais frequentemente, apparecendo primeiro com intervallo de seis mezes, depois de tres, e finalmente de um apenas. Portanto em limitado circulo, a febre ardente apertára o homem como uma serpente mortifera e suffocou-o por fim. A historia do meu estalajadeiro devia inte- ressar-me em qualquer occasião, mas n'aquelle momento parecia ter uma horrivel fascinação. N'outras circumstancias teria apenas supposto CAPITULO A unica resolução que me trouxe a manhã foi que escreveria a mistress Hill, pedindo-lhe licença para a ir visitar. Assim fiz, com muitas expressões de cuidado, não encobrindo o des- asocego em que estava. Propunha-lhe ir pelo decorrer da tarde a Clousedale Hall, mas pe- dia-lhe uma resposta, encorajando-me a fazer- lhe aquella visita. Era o dia de Natal, e os sinos tocavam para os officios divinos. Fui para a igreja. O banco debaixo do pulpito estava vazio — era o banco de Lucy. Tinham-o ornamentado com hera e azevinho e algumas vergonteas de tojo florido. Havia lá uma grande concorrencia, principal- mente de mineiros e seus filhos. O celebrante era o reverendo Mac Pherson, o meu visitante da noite antecedente. Entre a segunda lição e o sermão pediu orações para todos os presen- tes, pela amiga e doadora d'elles, a protectora da sua igreja, que áquella hora de regosijo permanecia doente em casa. Muitas cabeças se inclinaram immediatamente recolhidas em oração fervente. Quando sahia no fim dos offi- cios, alguem tocou-me no braço. Era um ho- mem de idade madura, com physionomia pra -- zenteira, e com uns pequeninos olhos brilhando por traz de uns grandes oculos. Disse me cha- mar-se Yondale, e era o gerente das minas de Clousedale. Annunciou-me que ia distribuir-se o jantar habitual do Natal para as creanças pobres, offerecido por miss Clousedale nas es- colas da igreja — Desejaria estar presente ? Seguimos juntos. A escola estava cheia de pe- quenos, todos muito desairosos, muito sujos, muito bulhentos, mas muito felizes, a despeito da sua condição. Cantou-se a acção de graças e depois foram trazidas numerosas panellas quentes. As creanças espreguiçaram-se de sa ciedade, antes mesmo de terem exgotado os pratos. Déram-se graças, e depois o meu amigo dos oculos levantou-se por duas vezes para exhibir um discurso. Começou por lamentar a ausencia da adorada bemfeitora, que por bon- dade de coração fornecera aquelle jantar de herança 189 que ao poder da imaginação se devesse somen: te aquelle destino espantoso; porém com as ip- sinuações mysteriosas da doença de Lucy tornára se-me difficil pensar desapaixonada- mente. Não me atrevia a formular os receios que me inundavam a alma. Resolvi definitivamente «dormir sobre o caso», e fui para a cama. Al- gumas horas depois acordei n'um pezadêlo de tormentoso somno, e ouvi lá fóra o canto de hymnos nas ruas. Tinha-me esquecido de que era a vespera do Natal. TERCEIRO Natal ás creanças,mas que por motivo de doen- ça não podia vir partilhar da boa acção. Exhor- tou em seguida a que rogassem a Deus se com- padecesse d'ella e a tirasse do valle sombrio onde cahira para ser guia e benção de todos os que a amavam e veneravam. Uma joven professora sentou se ao orgão, e depois os pequenitos levantaram-se e cantaram «Salvos nos braços de Jesus». Era mais do que eu po- dia supportar, e sahi furtivamente, desaperce- bido. N'aquella tarde soffri uma terrivel dece- pção. Todo o tempo esperei e desesperei por uma resposta á minha carta dirigida á dama de companhia. Não veiu nenhuma, mas pelo cahir da noite veiu uma carta dapropria Lucy. criptan'a- * quellamesma fórma irregu- lar que tanto me surpre- hendera nas duas cartas recebidas em Londres e com aquel- 4 las mesmas %, 2 sacudidas e a e inconsequen- 4 vende aC ANT SE dos tes phrases. Não posso resolver-me a transcrevel-as para aqui. Cada syllaba queimava por si no meu
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Igo Serões cerebro como se fosse dedo de fogo ali pousa- do. Pedia-me, rogava-me, supplicava-me que não fosse a casa d'ella. Desejava ferventemente ««myslerio que não estou disposto a suportar mais tempo... a minha indulgencia,o meu perdão,o meu eter- no esquecimento como quem eraindignado meu amor e da minha dedicação. Ella estava doente, muito doente, mas tambem havia ainda peor do que a doença. Que a deixasse desligar-se do nosso ajuste de casamento. Tinha sido a ale- gria e o encanto da vida d'ella, mas agora era o terror e o tormento da sua existencia. Que voltasse para Londres e nunca mais pensasse nella. Que Deus lhe perdoasse e se compade cesse d'ella.— «Meu Deus, sêde bom para mim, guardae-me e preservae-me !» escrevia ella, Esta carta um unico effeito podia produz Peguei no chapeu e dirigi-me para Clousedale Hall. Emquanto atra- vessava a aldêa anda- va precipitadamente, mas ao chegar ás tra- vessas desatei a cor- rer. Ao aproximar-me do grupo de casas abarracadas que esta- vam junto do portão da casa e que vira do comboio, estava ba nhado em transpira- ção e batia-me o co- ração fortemente. Pa- ra não destruir o meu intento com similhan- te violencia de proce- der fui até Clousedale Arms, e pedi um cali- ce de brandy. Ers uma d'estas casas de venda de feitio antigo que tem a loja dividi- da em compartimen- tos, como as divisorias gradeadas das caixas de bancos ou de bilhe- teiras de caminho de ferro. Entrei n'um d'estes compartimen- tos, repousei e bebi o meu brandy, emquan- to diligenciava colligir os meus pensamentos e determinar o que havia de fazer. Esta- va uma mulher no compartimento proxi- mo ao meu, e a ven- dedeira — inclinára-s: para lhe fallar em voz baixa, mas eu ouvi. — Tenho pena que Maggie perdesse o seu logar — disse uma das duas. — Ella sabia-o bem de mais, — disse a ou- tr: Ainda hontem a senhora lhe dêra meia libra para ella sahir furtivamente e ir bus- lhe uma garrafa de qualquer coisa, e quando voltou nem lhe recebeu um vintem de troco. — Foi então o medico que advertira Maggie? — Parece que sim, não me disseram as par- ticularidades. Para chegar a Clousedale Hall tinha de per- correr um caminho em curvas, bordado de arvores, que, comquanto estivessem despidas
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de folhas, faziam um barulho surdo vibrando ao vento que principiava de se levantar. En- contrei com difficuldade a porta, não havendo nenhum candieiro aceso na estrada, e tendo apenas para me guiar a tenue luz que appare- cia por entre as persianas das janellas do an- dar de cima. Não foi facil obter que me des- sem attenção e só depois de uma longa de- mora appareceu, em resposta ás fortes panca- das que batera, um criado baixo, de meia idade, com uma luz na mão, tendo a porta entre-aberta apenas para me di- zer que a senhora estava doente -bas- tante, e que a go- vernante não a po- dia abandonar. Não estava para ser despedido com similhante desculpa e, passando brusca- mente pelo velho para dentro da sala de entrada, disse- lhe que levasse im- mediatamente o meu nome a mis- tress Hill pedindo lhe que me viesse ver no mesmo ins- tante. Não foi pre- ciso que o fizesse; porque, emquanto estava fallando, a propria mistress Hill desceu precipi- tadamente a esca- da, como se esti vesse escutando no patamar de cima e correspondia assim à minha imperiosa intimação. Achei-a extrema- mente agitada e tristemente trans- tornada. Em logar da graciosa senhora de idade, no seu bem talhado vesti- do de seda, com maneiras suaves e fallas brandas — a companheira da mi- nha querida em Londres — vi ante mim uma mulher nervosa e hysterica, vestida com um saiote e capa. Tirou O candieiro da mão do criado e conduziu-me Mal de herança IgI para um quarto sem fogão. Depois, fechando a porta e fallando em segredo, começou com mil explicações e desculpas, dizendo que ti- nha muito pezar em ser tão pouco hospita- leira o que tambem era uma causa para a in- felicidade de Lucy. Quando lhe perguntei se poderia ver a minha adorada, pareceu cahir n'um estado de extrema perturbação, decla- rando que era impossivel e o doutor tinha prohibido todas as visitas, á excepção das do Levantava a vidraça quando a estreitei nos braços... sacerdote. E quando lhe perguntei se ella ti- nha conhecimento do assumpro da carta que Lucy me mandára, a sua perturbação augmen-
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Sea E See a * tou e protestou que, não obstante ter sido es- = cripta sem o seu conhecimento, estava con- vencida de que o que a suggestionára havia «de ser pelo melhor. '— É pois verdade, então ? Terei de me con- vencer de que a doença de Lucy está longe de uma esperança de restabelecimento ? » Fiz a pergunta, esperando uma prompta ne- iva. À indecisão e a incerteza da resposta irritaram-me. — Não posso dizer — não estou certa — o “doutor sabe-o melhor. “Perdi a paciencia e respondi sem cerimo- nia : - — Então pelo doutor saberei, ainda que te- nha de lh'o arrancar das goellas, este disfarce dum mysterio que é demasiado para mim, e * não estou disposto a supportar mais tempo. “Com isto sahi e fechei a porta atraz de mim. Metteu-se me em cabeça que Lucy era vi- * etima de uma conspiração, e que os dois ho- 'mens, o doutor e o sacerdote, eram os causa- dores de tudo, Com o coração e os miolos “em braza fui galgando as curvas do caminho, E ali abaixo. Nos olhos da imaginação es- tava vendo a minha querida noiva, como no » brilho passageiro d'um relampago, primeiro com os seus olhos brilhantes, cheios de vida, “de saude, de felicidade e de amor, e depois cahida no laço de qualquer hedionda maqui- nação. Fui despertado das minhas visões por uma repentina apparição. Era a de uma mulher que sahia de Clousedale Arms no momento em que eu passava pela porta. Era nova ; co- bria-lhe a cabeça um pequenino chaile preto; presença suja e abandonada. Ella sahia a furto da travessa, deteve-se um instante quan- do me approximei, e, meia voltada, quasi de- “cidida a retroceder. N'aquelle momento, “pela luz da janella vi-lhe a cara. Senti um cho- ue terrivel. Aquella cara tinha uma feia simi. ança com o rosto de Lucy. Quando olhei outra vez já a mulher tinha desapparecido. * Tomei animo e segui-a, chamando-a repetidas vezes. Os seus passos perdiam-se na escuri- — Espere ! gritei, e adiantei-me para a se- 4 am Vi-a entrar no portão de Clousedale — Espere ! griteilhe ainda outra vez, e — apressei-me, resoluto. Quando cheguei á — alameda o ruido dos passos tinha cessado e o vulto desapparecido. Sentia apenas sobre a cabeça o ranger dos ramos das arvores des- “pidas de folhas, torcidos pelo vento. Acerquei-me novamente da casa e com os (Continua). dois punhos cerrados bati pesadamente á por- ta. D'esta vez foi a propria mistress Hill que . abriu. Ella tinha o aspecto de ter enlouque- cido. — Mistress Hill, disse, sinto ser grosseiro, mas peço para ver miss Clousedale, preciso vel-a immediatamente. Ella desatou n'um choro soluçado e eu en- trei em casa. Observei então que tudo alli es- tava em desordem. Os criados, com candiei- ros nas mãos, subiam e desciam as escadas, entravam e sahiam dos quartos no andar ter- Teo. — Onde irei encontral-a? disse-me ella. N'esta interrogação a pobre creatura fazia uma clara confissão. Lucy tinha sahido de casa. Tinham-a presa e vigiavam-n'a constan- temente, mas ella conseguira fugir. Aproveitan- do-se da opportuna ausencia de mistress Hill, quando pouco antes a fóra procurar e insistira para lhe fallar, Lucy desapparecera e ninguem sabia o que era feito d'ella. — Santo Deus! — Pensei no meu recente encontro, e um grande terror se apoderou de mim. Sahi de casa, precipitadamente, e n'um momento corri para o portão de entrada. Jul- guei sentir alguem passar por mim na escuri- dão. Parei e estendi os braços para o lado do som, mas... ninguem. Depois ouvi rastejar alguma coisa na relva, como se fôra o vestido de uma mulher. Era com certeza e o som esbatia se em direcção á casa. Em seguida, vi distinctamente o vulto de uma mulher pas- sando defronte das janellas illuminadas pelas luzes que vinham e hiam d'um lado para o outro. Corri atraz d'ella e agarrei-a. Levan- tava a vidraça corrediça d'uma janella para saltar para dentro, quando a estreitei nos meus braços. — Quem é? — perguntei, e ella soltou um grito e suavemente implorando, respondeu : — Deixe-me ir, deixe-me ir ! — Não deixo, emquanto não souber quem é. — Deixe-me ! — Quem é? repeti ancioso. As nossas vozes attrahiram os criados, que vieram correndo para o quarto com as luzes. Então vi o rosto da muiher que segurava nos braços. Era Lucy. Lucy, a minha adorada, o meu amor, a minha querida, a que havia de ser mi- nha mulher, Lucy, a bem amada de todos, a alma santa, o coração generoso, a dôce e linda flôr immaculada, ainda em botão, e agora transformada n'uma pobre e infeliz dipso- maniaca sob o terror auto-suggestivo de uma praga ! (Segundo HaLL-CAINE).
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PERUS AGUARELLA DA Ex.ma Sr,2 D. MARIA SIMÕES s SERÕES fazem, n'este numero, a sua primeira tentativa de reproducção ty- pographica a tres cores d'uma aguarella expressamente pintada e amavelmente offere- cida pela Ex.ma Sr.a D. Maria Simões. Está lon- gea nossa gravura de traduzir com fidelidade a frescura de tintas e a exactidão de côr, as quaes distinguem o original, trabalhado com o saber e com a arte da premiada expositora nos salões do Gremio Artistico. Que nos per- dôe a gentil artista amadora, mas as melho- res reproducções de quadros que temos visto feitos por este processo, de obter com tres cores de impressão apenas, o amarello, o ver- Sem alarde de vaidades descabidas, os Se- rões teem a consciencia de ter até agora rea- lisado algum progresso n'este genero de pu- blicação; e, para o seu preço em extremo di- minuto, conseguido apresentar grande numero de boas gravuras, cuidadosamente impressas. Deste seu empenho e esforço, tem alcançado o favor publico e acolhimento excepcional. Procuramos melhorar ainda o aspecto geral, utilisando os modernos processos coloridos de gravura typographica, pouco a pouco, e de quando em quando ; porque todas estas inno- vações apenas se conseguem realisar cabal- mente, quando uma larga tiragem compensa- dora permitte a despeza correlativa, como succede em publicações mais ou menos con- generes no extrangeiro. Lá. o mercado é gran- de; a leitura muito procurada; a revista, o ma- gagzine é companheiro habitual e indispensavel de toda a gente, no interior das casas e na rua, em comboios ou em omnibus; é leitura variada e mais barata do que o livro, ao qual tem feito na Inglaterra, na Allemanha, na America e em melho e o azul, sobrepostas todos os tons e todas as cambiantes, alteram a tonalidade geral, quando comparadas com os originaes, e a distincta pintora, discipula estimada de Silva Porto, sabe muito bem esta attenuação obrigada das tiragens. Não 'é uma copia; é uma simples reproducção typographica, o que é diferente. Os Serões reconhecem-se profundamente penhorados pela obsequiosa colloboração, to- da despreoccupada de justas vaidades, que a distincta pintora da notaveltela Jogando as cris- tas mostrou não ter, entregando a sua esplen- dida aguarella à nossa modesta reimpressão. França uma concorrencia intensiva. E" vêr como as obras dos melhores romancistas e dos melhores pensadores se imprimem primeiro nas revistas; as edições subsequentes em livro são a confirmação do exito alli obtido. Os Serões teem conseguido vulgarisar al- guns trabalhos notaveis e ineditos de escripto- res portuguezes, e n'este mesmo intuito ou- tras obras se seguirão. Ainda como esclareci- mento da quantidade de leitura que os Serões fornecem nas suas 72 paginas, é curiosa a ve- rificação já feita de que seis paginas compa- ctas de prosa da nossa revista no seu typo pequeno mas bem claro e legivel, equivalem a vinte e duas no formato e no typo vulgar dos romances em livro. E por isso affirmamos ser o seu preço em extremo reduzido. Procura mos assim attingir mais larga tiragem, só en- tão remuneradora; e fiamos a nossa melhor e quasi unica propaganda na recommendação espontanea de que dos Serões façam, como temos verificado acontecer, os nossos feliz- mente já numerosos leitores. TAXA IA
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18 Serões MEMENTO ENCYCLOPEDICO NovemBro — 26 França — Voltam ao traba- lho todos os mineiros de Denain. 27 Soldão — Os representantes da Inglaterra e da Italia, reunidos em Roma, encarregados da delimitação de fronteiras em todo o Soldão e Erytrêa chegam a uma intelligencia sobre o assumpto. — Estados Unidos — Os guarda agu- Ilhas associados dos caminhos de ferro do norte dos Estados Unidos, declararam-se em gréve. — Allemanha — O conselho federal approva o orçamento da marinha o qual ascendea 200 mi- lhões de marcos. 28 Portugal — Trasladação das ossadas dos reis D. João II, o Principe Perfeito, D. Affonso V, o Africano, rainha D. Isabel, esposa d'este, e principe D. Affonso, filho 'aquelle, da casa capitular e da capella de Nossa Senhora da Piedade para a capella do fundador no mos - teiro da Batalha. A cerimonia realisou-se com a assistencia de suas majestades. 29 Columbia — Os commandantes dos na- vios, de guerra, recebem dos liberaes a rendi- ção de Colon e entregam a administração da cidade ao Dr. Alban. 80 Columbia — É officialmente confirmada a ruptura das relações diplomaticas entre a Columbia e Venezuela. Foi a Columbia nem fez a notificação do rompimento — Republica- Argentina—Um violento incendio destroe uma prado fabrica de tecidos no bairro italiano ell Acqua em Buenos Ayres, cujos prejuizos são enormes e ficando sem trabalho 1500 ope rarios.— Hespanha—A princeza das Asturias dá á luz um infante que será baptisado com o no- me de Affonso André. — Africa do Sul — São desterrados mais 9 chefes boers. Uma procla- mação ingleza declara abolidas differentes leis da Ena Dezemero — 1 França — É nomeado dire- ctor da Comédie Française o actor Guitry. — Inglaterra - Celebra-se em Londres em Hyde Park um grande comicio de protesto contra a exoneração do general sr. Redvers Buller. 2 Portugal — Inauguração do congresso co- lonial na sala Portugal da Sociedade de Geo- graphia com a assistencia de Suas Magestades e alteza o Principe Real. — Italia — Inaugura- se solemnemente em Cagliari um monumento a Verdi. — Polonia — Accentua-se na Polonia prussiana o movimento de opinião contra a Allemanha. Os commerciantes fazem os seus pedidos á França. — Asia — Accentua-se a rivalidade entre a Inglaterra e a Russia. — — Estados Unidos — O sr. Hutin, presidente da Companhia do canal inter-occeanico do Panamá, entrega “ao vice-presidente Roose- velt uma offerta formal de venda dos direitos da companhia aos Estados-Unidos. — Abertura do congresso americano, o orçamento geral do Estado para 1902-1903 fixa as despezas em 610:827:688 dollars. banqueiro Scartezzini com um passivo de oito milhões de liras. — O comité dos dalmatos re- nuncia os direitos do Instituto de S. Jeronymo a favor da Assistencia do Vaticano. — Hespa- nha — Realisa-se em Jerez um importante co- micio eperario para pedir a liberdade para os companheiros presos em consequencia dos acontecimentos de Sevilha, Corunha e Barcel- lona. 5 Austria — O partido progressista germa- nico expulsa o seu chefe, Wolff, obrigando o a demittir-se do seu mandato parlamentar, em consequencia de questões intimas do partido. — Inglaterra -— Um violento incendio destroe a Bolsa de Liverpoo! em consequencia de uma explosão. 6 Estados Unidus — O senador Maccomas defende no senado o projecto de lei punindo com a pena de morte os auctores de attenta- -dos contra os presidentes, funccionarios do es- tado ou chefes de estado estrangeiro. — Por- tugal — O Diario do Governo publica a refor- ma da Escola de alumnos marinheiros. — In- dia — Em Loheia no Yemen, são mortos 4o soldados turcos n'um combate com os indige- nas que se revoltaram contra os impostos. 7 Inglaterra — A Inglaterra envia 6:000 li- bras para pagamento de indemnisação aos americanos prejudicados pela guerra do Trans- vaal. — Estados Unidos — É apresentada ás camaras uma proposta para ser concedida á viuva de Mac Kinley uma pensão de 5:c00 dol- lars. — Brazil — Descobre-se uma conspiração monarchica no Rio de Janeiro com o fim de derubar a republica e sendo aprehendido bas- tante armamento. 8 Servia — Os operarios e estudantes de Belgrado fazem uma grande manifestação con- tra a nova lei sobre a imprensa e o direito de reunião. 9 Austria — Os jornaes começam uma cam- panha contra os duellos tendo-se publicado um documento com 300 assignaturas dos homens mais notaveis, esperando-se que se conseguirá uma reforma legislativa que evite os duellos. — Russia — O popular romancista Maximo Gorki é desterrado para o Caucaso. — Nicara- gua — O ministro dos negocios estrangeiros de Nicaragua e o ministro plenipotenciario dos Estados Unidos assignam a convenção que cede a esta nação uma parte do territorio da lar- Bi de 6 milhas, seguindo o traçado do ca- nal. 10 França — Parte dos accionistas do Fi- garo reclamam perante os tribunaes que sejam repostos os antigos director e gerente. — Aus- tria — Produz-se uma grande manifestação an- ti-allemã em Lemberg por occasião da inau- guração da estatua do poeta polaco Yeuski tendo, o consulado allemão sido apedrejado.— Estados Unidos — Celebra-se em Chicago um grande meeting de protesto contra a guerra 8 Italia — Declara-se fallido em Genova o Lboer. — A camara dos deputados approva o
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Variedades S projecto de lei dos premios á marinha mer- cante. a 12 — Suissa — A assembléa federal elege presidente da confederação para 1902 o con- selheiro Zemp, de Lucerne pertencente á di- reita catholica e o conselheiro Deucher de Thurgovia, vice-presidente. — America Central — É publicado um decreto convocando 60:000 homens da reserva em Buenos Ayres para 1 de janeiro. — Estados Unidos — A commissão senatoria do canal isthmico approva o proje- cto Morgan. 13 Russia — O governo auctorisa o ministro das Obras Publicas a dispender em 1902, 202 milhões de rublos nas construcção de duas li- nhas ferreas, uma de S. Petersburgo a Viatha e outra de S. Petersburgo a Moscow. — Esta- dos Unidos — Alguns clubs revolucionarios or - ganisam uma subscripção para levantarum mo- numento a Colgosz, o assassino de Mac-Kinley. — Venezuela — Cessam as communicações da Allemanha com a Venezuela. — Nicaragua — A commissão commercial da camara dos repre- sentantes de Washington decide apresentar um relatorio favoravel ao projecto do canal isthmico de Nicaragua. Os estados unidos de Nicaragua assignam um protocollo concedendo aos seus vinhos e fructas a entrada com fran- quia nos EstadosUnidos. 165 Hespanha — As fabricas de fiação em Berga suspendem o trabalho por desavenças entre os patrões e operarios. — Porto Rico — O jornal À Tribuna propõe que a ilha de Porto Rico c as ilhas dinamarquezas constituam um estado autonomo que se chamaria Estado Anti- lhano e que teria por capital S. João de Porto Rico. — Africa — Termina a gréve dos pedrei- ros em Tanger por terem chegado a um accor- do os patrões e operarios ácerca das 8 horas de trabalho. — Allemanha — Os estudantes po- lacos fazem ruidosas manifestações contra Shic- man, que se occupou n'um discurso da questão polaca. 15 Hespanha. — A imprensa de Las Palmas protesta contra o accordo hispano-argentino, que se suppõe pactuado, com a clausula de serem admittidos nas Canarias durante 20 an- nos, livres de direitos, os cereaes argentinos. — Reunem-se em Barcelona os trabalhadores da arte metallurgica que querem o dia de q horas de trabalho, votando a gréve geral em vista da recusa dos patrões. Deixaram por este facto de trabalhar 16:000 operarios. — Portu- gal — Regressa de Lourenço Marques a Lis- boa a bordo do paquete Zaire a penultima ex. pedição militar enviada ás possessões africa- nas — Estados Unidos — O presidente Roose- welt recusa acceitar dez milhões de dollars ara estudantes pobres, offerecidos pelo mil- ionario Carnegie. — França — Termina o mee- ting monstro dos operarios dos caminhos de ferro realisado na Bolsa do trabalho de Paris, votando-se a protecção contra o excesso de trabalho e contra a exploração que os opera- trios soffrem; concessões de pensões e apo- sentações, protestar contra as despedidas arbi- trarias que as companhias fazem, defender a lei de Berteaux do limite do tempo de trabalho, Eu sfelicitar os deputados que a votaram e pedir que ella seja approvada no senado — Belgica — Constitue-se o comité para a celebração do anniversario do nascimento de Victor Hugo em Bruxellas— Allemanha — Os estudantes po- lacos organisam manifestações contra os depu- tados do reichstag. — China — Um violento incendio destroe 800 casas em Cantão fazendo numerosas victimas. 16 Italia — O papa pronuncia uma allocução contra o projecto de lei do divorcio apresen- tado na camara pelo socialista Berenini. — São nomeados os bispos de Saragoça, Madrid e Jaen — Bulgaria — O gabinete bulgaro dá a sua demissão em consequencia dos incidentes relativos á realisação do emprestimo — Esta- dos Unidos — O senado ratifica por 72 votos contra 6 o tratado Hay-Pauncefate. — Russia — E' descoberta uma conspiração nihilista contra o czar e contra varios personagens de influencia na côrte, sendo cortados os canos de abastecimento d'aguas e estas envenenadas na residencia imperial de Tzarteweselo achan- do-se duzentas pessoas envenenadas por este motivo. 17 Hespanha — Realisa-se em Barcelona um meeting em que tomam parte 6:000 grévistas. -— A rainha regente auctorisa o ministro da fazenda a apresentar ás camaras um projecto de lei, baixando a 2 !/, por cento do juro dos emprestimos do Banco de Hespanha ao the- souro — Noruega — A camara auctorisa o go- verno a contrahir um emprestimo de 35 mi- lhões de corõas. 18 Filippinas — A camara dos representan- tantes approva por 153 votos contra 128 o projecto da pauta aduaneira das ilhas Filippi- nas — Argelia — O governador criauma direc- ção geral especial destinada a centralisar tudo quanto diga respeito a indigenas residentes no territorio submettido á jurisdição civil. — Africa portugueza — E aberta ao trafico civil e ás importações para as minas do territorio por- tuguez a linha ferrea de Lourenço Marques. 19 França — sr. Roger Ballu, inspector das Bellas Artes e professor da escola das Artes decorativas é exonerado das suas funcções por ter dirigido expressões injuriosas ao go- verno numa reunião politica celebrada no dia 15 nos arredores de Paris — Inglaterra — deputado Okelli é condemnado a dois mezes de prisão, por ter, em varios discursos, amea- gado os proprietarios de que não receberiam as rendas dos colonos irlandezes. 20 Allemanha - A policia convida as socie- dades polacas a que fallem allemão nas suas reuniões. Os pangermanistas preparam uma exposição ao Reichstag, solicitando a suppres são de direitos politicos aos polacos, dinamar- quezes, alsacianos e lorenos que vivam sob o regimen allemão. — Belgica — A camara dos representantes approva o projecto de lei apre- sentado pelo governo ácerca do assucar. 21 Venezuela — O general Mendonza presi- dente do Estado de Carabobo, subleva-se con- tra O general Castro, presidente da Republica. 22 França — E' inaugurada em Paris a es- tatua de Baudin. — Italia — A camara dos de-
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20 “putados approva o projecto das medidas fi- nanceiras com a suppressão de impostos no va- lor de 25 milhões de liras. Os direitos de bar- reira sobre a farinha eo pão serão abolidos gra- dualmente. Cria-se um imposto progressivo so- bre as heranças— China—O governo de Pekin dirige uma nota á Russia perguntando-lhe quando terminará a evacuação da Nandchuria e lhe entrega a linha ferrea. Pede tambem que lhe seja reduzida a indemnisação assignalada para manutenção do caminho de ferro e pro- testa contra o monopolio mineiro que exerce a Russia. 23 Inglaterra — Chamberlain acceita o of- Serões ferecimento da Australia que consiste em mandar mil homens para a Africa do Sul. —- À alliança protestante dirige um protesto a lord Salisbury contra a invasão de padres e freiras que pretendem estabelecer-se na Inglaterra. — África Portugueza — E. assignado o mudus vi- vendi entre O governador geral de Lourenço Marques e lord Milner, resultando ficar o ca- minho de ferro portuguez em eguaes circums- tancias aos das colonias inglezas durante a guerra do Transvaal. | 24 Republica Argentina — A camara vota uma lei prohibindo a exportação de cavallos e muares. see THEATROS Primeiras representações de originaes portuguezes e traducções durante o mez de Dezembro DezemBro 2 — À creança de go annos, co- media drama em 2 actos (Theat. da Trindade). MA. segu da mulher de Tanqueray drama de Arthur William Pinero, traducção dos srs. Luiz Galhardo e Mauuel Penteado (Theatro de D. Maria). 5 10 — Sorte comedia em 4 actos de A. Capus, traducção do sr. Accacio de Paiva (Theatro de D. Amelia). 15— O filho artificial, comedia em 3 actos de Bourchier, traducção do sr. Freitas Branco (Theatro do Gymnasio). 3 17— Acorrida do facho, peca de Paul Her- vieu, traducção do sr. Accacio Antunes (Thea- tro de D. Amelia). O Supplicio d'um pae, drama em 5 actos arranjado de uma peça de Dumas pelo sr. Luiz Galhardo (Theatro do Principe Real). 18 — Abertura da epocha lyrica do Real Theatro de S. Carlos com a opera Tosca. NECROLOGIA NovemBro 28 — Antonio GisBERT, em Paris, pintor hespanhol notavel pelos seus quadros sobre assumptos hespanhoes. 29 — Pr y MARGALL, 77 annos, em Madrid, illustre publicista e politico republicano. 29 — GurLHeRME TisercHIEN, em Bruxellas, celebre philosopho belga. Dezempro 3 - Bispo DE [LaMEGo, D. Antonio Thomaz da Silva Leitão e Castro, 54 annos, em Lamego. 7— Cone pe ViLLa Franca, 80 annos em Lisboa, litterato e politico distincto. 15 — BapristA MAckADO, em Lisboa, conhe- cido folhetinista, actor e auctor de varios co- medias e revistas. 16 — MARQUEZ DE ANGEJA. 56 annos em Lis- boa, fidalgo muito conhecido e popular. 16 — JuLes GasrigL. HERBETTE, 62 annos em Ros antigo embaixador da França em Ber- im. ses PHOTOGRAPHIA PRATICA Dada a vulgarisação sempre crescente da arte photographica entre amadores, que d'ella fazem agradavel entretenimento, daremos com a regularidade possivel m'esta secção, noticia de processos, formulas, machinas ou inventos, que possam ser praticamente utilisaveis. Como se fazem quadros para projecções De todos os quadros em vidro para projec- ções, os melhores e mais perfeitos são os pho- tographicos Ha outros meios de os preparar, porém, a sua Rep ão exige mais ou menos paciencia e habilidade de mão sobretudo se se desejar qua- dros coloridos. Para fazer simples desenhos a traço, applica-se um pedaço de vidro transpa- rente sobre o desenho que se deseja reprodu zir, copiando-se com um pincel fino molhado em tinta preta ou com uma penna molhada em tinta da China um pouco espessa. Para que o traço se fixe facilmente sobre a superficie do vidro, deve limpar-se este muito bem com branco de Hespanha e cobril-o depois com uma
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Variedades camada muito ligeira d'uma substancia sobre a quala tinta da China adhira facilmente, tal como a gelatina ou o fel de boi. As tintas de côr applicam-se tambem mais facilmente sobre o vidro assim preparado. Alguns pintores cobrem o vidro com uma camada de essencia de therebentina distillada que se deita na superficie como o collodio e deixa se seccar verticalmente n'um supporte. Em logar de se applicar o vidro ordinario póde-se, com um lapis duro, copiar sobre um vidro despolido o fino. Logo que o dese- nho esteja prompto enverniza-se a superficie despolida, o que a torna transparente. São variados os processos para obter os de- senhos sobre vidro ou sobre outra qualquer substancia transparente. Entre outros processos, indicaremos dois que são bastante praticos : 1.º Faz-se com um lapis o desenho, com as dimensões necessarias, sobre um pedaço de gelatina. Os traços destacam-se, portanto, em negro por projecção, podendo se preenchel-os com tinta preta em pó, que se applica logo que o desenho esteja terminado. Um outro processo consiste em cobrir de negro de fumo uma chapa de vidro e dese- nhar com uma agulha, que deixa os traços brancos, e fixar o desenho, como no desenho a lapis conté sobre o papel. Querendo applicar uma gravura ou uma photographia das dimensões necessarias e á qual não se deseje dar outra applicação, pódem passar-se sobre o vidro da seguinte fórma : Limpa se bem o vidro e deita-se-lhe uma camada de verniz de essencia, deixando se seccar. Mo'ha se a gravura em alcool e sec- ca-se imperfeitamente entre duas folhas de mata borrão, collocando-se ainda humida so- bre a camada de verniz e apertando-a bem em todos os sentidos de maneira a fazer sahir as bolhas de ar que se contiverem entre o pa- pel e o verniz. No dia seguinte molha-se o pa- pel e fricciona se com o dedo fazendo sahir o papel quasi completamente de maneira que fique apenas uma pelicula extremamente fina, devendo chegar-se a este resultado sem estra- gar a gravura. Finalmente, para acabar de dar ao quadro a transparencia necessaria deita-se- lhe por cima uma certa quantidade de verniz de espirito de vinho, espalhando-o sobre toda a superficie do papel e escorrendo-o em se- guida. Querendo fazer quadros colloridos ou col lorir os que o não são, taes como as photo graphias, ha tres maneiras diflerentes de ope- rar; 1.º Pintar com tintas de aguarella, tornan- do as transparentes por meio de applicação de uma camada de verniz branco de espirito de vinho sobre a chapa pintada; logo que a ca- mada esteja secca, pinta se novamente, se as primeiras tintas apparecerem fracas e enverni- za-se ainda uma vez: é este o processo mais simples. 2.º Às pessoas habituadas a pintar a oleo preferem servir-se do processo seguinte : Empregam-se as tintas em bisnagas como 21 para a pintura ordinaria. Desfazem-se o mais possivel sobre um vidro com uma espatula ou varetade vidro, juntando lhe pou-o a pouco ver- niz copal, e utilisam se em seguida; ou prepa- ram-se préviamente em séries de côres necessa- rias que, uma vez diluidas com o verniz, são fe- chadas em pequenos frascos. Antes de dissolver as tintas com o verniz, se se apresentarem um pouco gordas ao tiral-as das respectivas bis- nagas, deitem-se sobre mata-borrão destinado a beber o oleo. As tintas assim desengordu- radas misturam se melhor com o verniz. 3.º Uma outra receita que nos parece ainda mais facil: Desenha-se o traço sobre o vidro com tinta lithographica desfeita a secco n'um godet e em seguida desfaz-se com essencia e algumas gottas de verniz copal. Quando o traço esteja secco, applica-se a côr com as tintas de agua- rella, em paus e diluídas com o liquido se- guinte : Agua 20 partes, gomma 4, assucar 2 e uma ou duas gottas de acido phenico para evitar o bolôr. Enverniza s: com gomma laca dissol- vida no alcool fgdmma laca branca, 8 gram- mas ; alcool a 95 gráus, 100 cc.) EA Este verniz emprega se aquecendo ligeira- mente o vidro. Póde-se dispensar o enverni- zamento se se cobrir a pintura com um se- gundo vidro. N'estes trabalhos só se devem empregar as côres transparentes que são o azul de Berlim, o carmim de cochonilha, o carmim de ga- rança, a laca amarella, o verde vegetal e a terra de Sienne queimada. é Para os negros emprega se a tinta da China ou a tinta ordinaria de escrever ou ainda o negro de fumo dissolvido em verniz de qua- dros. Pódem finalmente empregar-se os vernizes de côr que se encontram preparados no com- mercio, mas o seu emprego, visto a sua grande fluidez e evaporação rapida, apresentam algu- mas difficuldades. ; Taes são os processos empregados pelos pin- tores que produzem geralmente este genero de quadros. Póde-se seguir exclusivamente um ou outro d'estes methodos ou simultanea- mente, mas em verdade na pratica encon- tram-se uma infinidade de pequenas difficul- dades, das quaes se triumpha á força de pa- ciencia e tempo. Só uma grande experiencia nos trabalhos d'este genero permittirá evitar os escolhos que se encontram no começo. Es- tes processos são: tambem applicaveis aos po- sitivos sobre vidro ou gelatiua. Qualquer que seja o methodo seguido ha uma cousa a evitar por todos os meios possi- veis, é a poeira que póde cahir sobre a pin- tura ainda fresca e ahi deixar depositos im- perceptiveis, que uma vez ampliados dão um máu effeito sobre o quadro. Deve-se verificar o mais cuidadoso aceio na casa onde se tra- balhe, o que se evita supprimindo todas as ta- posatias inuteis e tudo de onde possam sahir os voltijando no ar. Os fatos são muitas ve- zes causa do insuccesso, sendo conveniente trabalhar com uma blouse usada,
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22 Emprego do borax nos reveladores de hydroquinone Serões A formula indicada para o banho de hydro- quinone é a seguinte: i ê PPA VET E RT aaa 1000 gr. eidelconagerie Súlfito de soda... EN 100 » FE UA Borax..... E5 30 » Mr. Watherhouse indica no Photo-Era a Hydroquinone .... 10 » vantagem do emprego do borax nos revela- " dedo E dores de hydroquinone e iconogêne em subs- € para o de iconogene: tituição do carbonato. Com esta modificação Agua. .... cc cics E 1900 gr. os reveladores conservam-se por mais tempo Sulfito de soda.. 100 » e evitam a juncção do brometo para se obter Borax...... RELA 25 » os negros transparentes, Iconogêne ....... ecperenes 10» ... PACIENCIAS estimados e mais vulgarisados. Para mui- tos o habito de fazer paciencias attinge a intensidade da paixão, quando não chega a constituir um vicio innocente. E” um exercicio de attenção e de habilidade imaginosa que não fatiga o espirito e contenta-o fartamente na réussite. Permitte o isolamento na conversa- ção geral, quando se quer ; e não inhibe de en- trar nella, quando convenha; a sua manipula- ção, em geral complicada, aguça o entendi- mento e acompanha-o na elaboração do pen- samento e da reflexão; o desejo de attingir a resolução procurada absorve tão docemente, * que se esquecem até as teimosas contrarieda- es, accumuladas, como nuvens negras, no in timo da consciencia. Os melhores e mais po- derosos espiritos usam das paciencias como distracção habitual. Para citar alguns, lembra- nos Bismarck, o grande chance de ferro, que todas as noites, antes de recolher, apoz o seu trabalho exhaustivo, fazia a sua paciencia em volta da mesa do serão, sob a luz abatida do candieiro, onde se reuniam a familia e os intimos, em momentos de descanço distensivo e bom. Portanto os Serões, mercê de um dos seus mais prestimosos collaboradores, come- gem hoje a oferecer aos seus leitores algumas paciencias menos conhecidas, senão inteira- mente ineditas, como aquella que segue sob o nome de: F's paciencias é dos passatempos mais Cruz de Malta (Dois baralhos completos — Não enaipada) Colloquem se sobre a meza as cartas na dis- posição adiante indicada, formando uma es- trella. No centro, um dois de qualquer naipe, os quatro azes vermelhos em fórma de cruz ; por cima d'elles e atravessados os quatro reis tam- bem vermelhos. Nos espaços comprehendidos entre os azes Eni disponham-se os azes negros e sobre elles tambem atravessa- dos os reis negros. Dispostas assim estas car tas, vão-se tirando do baralho oito cartas, uma a uma, começando a sua collocação exterior- mente na parte superior ao rei vermelho da linha vertical e sucessivamente junto de cada um dos oito reis nos oito bicos da estrela. Logo que estejam assim dispostas estas pri- meiras 8 cartas, verifique se em primeiro lo- gar se ha alguma ou algumas que convenha collocar sobre o dois que está ao centro, isto é, para começar em tres, depois quatro, cinco, etc., e assim seguidamente no sentido ascen- dente até ao rei que se tira dos reis negros da estrella; chegando ahi retrocede-se, isto é, volta-se a pôr um valete, continuando com dama, dez, etc., no sentido descendente até chegar novamente a dois, ao qual segue um az ue tambem se vae buscar aos azes negros a astrella, e começar de novo a subir até rei ara descer até az e assim successivamente, cando bem assente que os azes e os reis a tirar são sempre os negros e nunca os ver- melhos. Como raro será que as 8 cartas exteriores appareçam todas seguidas, de certo ficarão al- gumas sem collocação sobre o dois do cen- tro; verifique-se então se entre ellas algumas ha que possam collocar-se umas sobre as ou-
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Variedades 23 cartas exteriores á estrella, acabando portanto tras para formar familias, devendo-se ter em conta que as cartas na direcção das linhas vermelhas se collocam sempre no sentido des- cendente, escolhendo a de menor valor e collocando as outras sobre ella, isto é: ha- vendo um dois colloque-se um tres, sobre este um quatro etc.; e que na direcção das li- nhas negras se procede inversamente, isto procure-se a de maior valor, por exemplo um valete, e colloque-se sobre elle a dama, o dez, etc., sempre no-sentido descendente. Esta operação tem por fim arranjar o maior numero de cartas possivel para serem colloca das no monte que se está formando sobre o dois do centro. Póde, attendendo ao seguimento do monte, trocar-se uma carta de uma linha vermelha por outra de uma linha negra; exemplo: no monte central está um quatro e precisa-se de um cinco para continuar a ordem ascendente; se por acaso houver n'uma das linhas negras um seis sobre um cinco e nas linhas verme- lhas houver um sete, póde passar-se o seis da linha vermelha para sobre o sete da linha ne- gra que é a linha descendente até encontrar O cinco que se procura e se colloca sobre o quatro do monte central assim como as car- tas que se lhe seguem por ordem hierar- chica. Para se conseguir um bom resultado com estas trocas é necessario ter muita attenção e criterio habituado. A paciencia considera se terminada quando se consegue collocar sobre o dois central as n'um az como indica a figura seguinte E? muito dificil conseguir se este resultado, e as pessoas que não forem dotadas do maxi- mo de paciencia, para só por esta forma o con- seguir, poderão servir-se do recurso de reco- lher todas as cartas exteriores, sem as bara- lhar, começando pelas de cima da linha verti- cal e só mais uma vez recomeçar a pacien- cia, o que ainda assim não é muito facil ter- minal-a com exito. s... CONHECIMENTOS UTEIS Modo de beber leite. — Muitas pessoas dizem que não digerem o leite; ora, salvo raras ex- cepções, toda a gente digere com facilidade es- ta excellente e bem natural bebida, porém com uma condição indispensavel — sabel-o beber. O leite é sempre alcalino, coatêm não so- mente assucar, manteiga e albumina, mas ain- da uma substancia albuminoide especial que se denomina caseina, coagulavel pela acidifica- ção ou em presença de determinados fermen- tos, como aquelle que serve para a preparação dos queijos. Ora, quando o leite chega ao es- tomago coagula-se em presença dos acidos e dos fermentos que aquelle contêm normal mente. Estes coagulos são em seguida disolvi dos pela acção dos succos digestivos. Com- rehende-se, portanto, com facilidade que se es uma avultada e rapida ingestão de leite se fôr bebido em grandes goladas, se formará no estomago um coagulo volumoso, um gran- de bloco de queijo, que será sem duvida mais vagarosamente disolvido e d'uma digestão mais difficil e mais penosa do que, ao contrario, se houver a precaução de beber o leite em pequ nos golos, interrompidos, lentamente ing dos. Praticamente, deve gastar-se pelo menos cinco minutos para beber um copo deleite da grandeza ordinaria, vulgar. Basta, portanto, saber beber bem leite para que este seja facilmente digerido. Da mesma causa provêm a necessidade de cortar o leite com agua de Vichy ou de Vidago, para esto- magos debies e enfraquecidos. À agua mineral alcalina e ainda a simples agua commum pro- move a producção de coagulos menos compac- tos e por isso mais faceis de desagregar. À re- gra experimental e racionalmente justificada é eber O leite sempre a pequenos golos.. Da frescura dos ovos. — Para reconhecer a edade recente dos ovos tem sido indicados varios processos dos quaes o mais vulgar con- siste na applicação da lingua sobre uma das extremidades do ovo. Se houver sensação de frescura, O ovo é recente; se é antigo, parece ae a casca é quente ao tocal-a com a lingua. s Ovos frescos são um pouco mais transpa- rentes no meio, e o contrario se dá nos ovos velhos. O ovo fresco afunda-se dentro d'agua, o velho chega a sobrenadar com o decorrer do tempo. A casca d'um ovo velho é vitrea, em quanto que a d'um ovo fresco parece re- coberta d'uma camada de cal. A casca d'um ovo fresco secca immediatamente a ser reti- rado da agua fervente ; se ficar molhada, des- confie-se da frescura. E A RR Sh a hdi a“ SQuá hd nd PE Va,
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Serões O automovel agente therapeutico contra a tuberculose, e a bicycletta contra a neuras- thenia. — Um medico, do maior pendor e pre- dilecção pelo automobilismo, escreveu, ha pouco, ao Times, narrando as suas observa- ques sobre a acção benefica que sobre os pre- ispostos para a tuberculose e sobre os que principiam a soffrer-lhe as primeiras investi- das, exerce o passeio em auto n'uma veloci- dade superior a 40 kilometros por hora. Cons- titue um novo tratamento de pleno ar. Virifi- cou levantamento de forças, melhoria de dis- posição moral, accrescimos de appetite, ten- dencia á diminuição da tosse, que se confirma na permanencia das melhoras, após dias de tratramento. A bicycletta tem sido indicada como meio curativo de diversos males; mas em doenças da vontade parece ser decisiva a sua acção bene- fica. Alem das doenças chamadas physicas ha tambem aquelas que se denominam vulgar- mente moraes, que se tem tornado mais fre- quentes com o surmenage intellectual, com a residencia em climas depressivos pelo calor e infecciosos pela febre, com o abuso das bebi- das alcoolicas e estimulantes, com a violencia da vida moderna, com a luta pela riqueza e pelo prazer. A neurasthenia é a mais vulgar dessas affecções chamadas moraes; caracte- risa-se em geral pelo spleen e pela perda de vontade, Ha pouco ainda aconselhava-se aos neuras- thenicos viagens e distracções, como tambem o repouso e o isolamento, conforme os casos e a sua forma; mas esquecia se assim que a falta de gosto e de vontade inhibia de execu- tar o tratamento e de tirar d'elle o beneficio previsto. Os passeios a pé quasi se tornam au- tomaticos para o neurasthenico que diaria- mente passa pelo mesmo sitio, cruza o mesmo, itinerario, sempre insipido, sempre desprendi do da acção exterior. Ora, o doutor Berillon, professor de psychologia hysiologica, tem ve- rificado que a acção cyclista produz no neu- rasthenico manifestação de decisão e de auto- ridade, sentimentos que se apagam em regra nas victimas dlaquelha doença. Parece que a attenção forçada ao equilibrio, ao movimento, aos incidentes do caminho provoca uma salu- tar reacção no organismo deprimido. Claro está que o uso da bieycleta não é therapeuti- ca infallivel, mas está provado ser um coadju- vanfe poderoso e eficaz. Glycerina perfumada. — Como se sabe, a glycerina tem em alto grau a propriedade de absorver o perfume das flores, e alem d'isto a de amaciar a pelle, sendo excellente para os cabellos. Deitam se dentro de glycerina de bôa qualidade bastantes flores de lilaz, jacyn- thos, narcisos, lyrios, violetas, rosas, jasmins e deixam-se permanecer durante tres semanas para ceder todo o seu perfume á glycerina ; e depois tiram-se, obtendo-se um oleo perfuma- do que excede as mais finas essencias. Como a glycerina se pode misturar com agua em quaiaher proporção, deitando algumas gotas "este oleo em agua, obtem-se uma deliciosa agua perfumada para lavagens e banhos. Como” é sabido, a glycerina, apesar da sua apparen- cia oleosa e chimicamente um alcool. PROBLEMAS Resoluções do numero anterior N.º 18 — 12 decim; 5 decim, N.º 19 — 36 annos; 12 annos. * N.º 20 — Xadrez: BRANCOS 1. Ra. para 3 T 2, Xeque e mate. meros te Qualquer Num. 24. Um trem k isa: de A. para B, distante 216 kilometros, 2 horas da manhã. Tres horas e meia depois parte de A para o mesmo pon- to um segundo trem que percorre por hora 4 kilometros mais do que o primeiro o chega 1 hora antes d'aquelle. A que horas chegou cada um dos trens a B.? Num. 22. Um tanque pode encher-se em 26 !/, horas or dois tubos differentes, ao mesmo tempo. Be se fizerem funccionar separadamente, o maior gastará 18 horas menos que o mais pe- queno em encher o tanque. Canta horas empregaria cada tubo n'esta operação ? XADREZ Pretos (4 peças) Num. 23 o dida EE Z “o é” E Buancos (10 peças) Os brancos jogam e dão mate em dois lanços