Serões Revista Mensal Ilustrada 1905 N1-4 N8-12
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Abril de 1906 FERREIRA & OLIVEIRA L.?M — Editores 182, Rua do Ouro, 188— LISBOA
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Summario | MAGAZINE A PINTURA DE MALHOA (so ilustrações) por Ramatno OariGão .... 257 CASTELLO DO NORTE DE PORTUGAL (13 ilustrações) por MANOEL MONTEIRO. .......ceer score crreernacenerenaeenneesceenreensesatiea 7! BENITA — Romance Africano. (4 ilustrações e 1 vinheta) por H Riber HAGOARD abusius aus rtocs cectree re on iso cre cusv suma vanv oa, 282 EXPOSIÇÃO DE BELLAS-ARTES, NO RIO DE JANEIRO (7 illustrações) cer cecereereererecnecerennenceerrannaniecararananacacrenenananancero uneneceso 294 EFFEITOS DE LUZ (2 ilustrações, photographias de um poeta) ......uurunenuneenenentees es roame cares ve cn ra tasas 297 O VESTIDO DA JAPONEZA (8 ilustrações) por WENCESLAU DE MORAES ...risersesceseseneserenseeeonsssonnseeensanetennasa 208 O TIO FEIRA (g ilustrações) por MARGARIDA DE SEQUEIRA. .......cererecereereerereereasenrisenaro enceteei 303 A FLORESTA — Versos. (2 illustrações) por João DE BARROS +... sec cereennenereeeoeeronesenneneneranresenneransesantenas 305 A MUSICA DOS VENDILHÕES (39 ilustrações e 2 vinhetas) por ADRIANO MerEa.. THOMASO CANIZZARO (3 iltustrações) cenenerecencrnentareana cena nene ntaenaaas COSTUMES DE MACEIÓ (3 iliustrações) por Lº LAVENERE.... ces eeesereessererereseereneeenseenescenesemereneanererento 318 NA SEMANA SANTA — O CONCURSO DOS DEVOTOS (Photographia de Lima SE A MOCIDADE SOUBESSE... . — Conclusão. (3 ilustrações e 1 vinheta) por Aones E EcertoN Castle ...crececeseescesoressresannneneseceneess 381 HISTORIA DE UM VEADO (6 ilustrações) ..eccescacerenano cntnereceracananencecnenscoreanneeenenaneceerennnenaceceennto 330 LENDAS AÇORIANAS — À SENHORA DO PRANTO (2 illustrações e 1 vinheta) por Rapozo DE OLIVEIRA... ....cceescreesecencoresressescesrencesneeas 333 OS SERÕES DOS BÉBÉS — A PERA VINGATIVA. (7 illustrações) por ZELIO, ....ce.ccecerererereneonrercanancesacenantanes ancerereactsas ENS re 336 CHUVADAS DE MAIO (7 ilustração). O LEQUE (Versos) por ALCANTARA CarrEiRA. SECÇÃO DE XADREZ (5 diagramas) por BALDAQUE DA SILVA... ..ccrecceecereeacecteneeneanacacess 339 ACTUALIDADES E Doi TUR de EQ ADO fe SN RP PR PRP AR O RR EINE RO SEN ed ADA ER AO 340 CONCURSO PHOTOGRAPHICO DOS SERÕES (Estrada de Odivellas) Photographia do Sr. ALPREDO F. DE LEMOS .......ccseceisssciserirreress 317 | OS SURÕES DAS SENHORAS (2 Ilustrações) “CHRONICA GERAL DE MODAS. pag. 169 Um LIVRO MARAVILHOSO . ... pag. 176 ToILETTES MODERNAS. . » 169 IDEAES DE BELLEZA ..... » 176 CHAPEUS ELEGANTES . 179 | LAVORES FEMININOS. » 177 MODAS PARA CREANÇAS. Os Nossos FIGURINOS. . 171 PORTE JOURNAL... ecc. ginterao UT 172 ÁLMOFADA BORDADA E ARREMATADA » » » DR Jd dd COM RENDA ........ q » » » CHAPEUS DA ESTAÇÃO . » 177 À CARICATURA DA MODA. . 174 MOVEIS QUE VALEM FORTUNAS. » Tom Joias QUE MORREM . 174 CARACTER DAS SOBRANCELHAS » 178 A NOSSA FOLHA DE MOLDES. 175 ALVITRE DE MENDIGO. » 178 Dois ELEGANTES FIGURINOS «xe. ....« » 175 PELOS ALTOS — IvíLios REGIOS » 179 CORPO DE VESTIDO PARA COMMUNHÃO. » 175 CONSULTORIO DE LUIZA ..... » 180 CABEÇÃO COM APPLICAÇÕES DE LACET » 175 NOTAS DAS DONAS DE CASA. » 182 CINTO PARA VESTIDO. . ..cereeroo e. » 176 -CONTRASTES.................. » 184 A MUSICA DOS SERÕES PETITE MAZURKA DE SALON Por JuLio NEuPARTH........ E CORREA ETR e REA vATO SID UBS 680 Co rola ada + 4 paginas Composto e impresso nas officinas do ANNUARIO COMMERCIAL, C. da Gloria. 5.
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Correspondencia dos SERES COLLABORAÇÃO ESPONTANEA Continua a afluir á redacção dos Serões grande copia de subsídios de diversa indule— artigos de informação e litterarios, poesias, Photographias, etc. — que muito e muito cor- 'dealmente agradecemos. Cumpre-nos todavia, mais uma vez, e bem a nosso pezar, resistir á natural impaciencia dos autores que desejam vêr em breve prazo publicadas as suas producções. A ordem da publicação obedece a varias circumstancias, que é muito difficil explanar minuciosamente, mas entre as quaes avultam a actualidade pal- pitante dos assumptos, a facilidade da illustra- ção, a extensão dos artigos, conveniencias a * que tem muitas vezes de ceder o passo a ordem chronologia. A propria colaboração encom- mendada é muitas vezes prejudicada por essas erentes exigencias, a que tem de sujeitar-se «gaa publicação d'esta ordem. Eis a resposta que mais uma vez damos a frequentes reclamações e pedidos que nos di- rigem, e cuja falta de satisfação não significa menos apreço pelos amaveis collaboradores dos Serões. Isto não evita que insistemos pela remessa de artigos que estejam na indole da nossa re- vista, especialmente todos os que digam res- peito a localidades, monumentos, episodios historicos, obras de arte, etc. referentes a Portugal, Brezil e colonias portuguezas Arti- gos ha, convem notar isto, a que circumstan- cias occasionaes ou qualquer das conveniencias spontadas poderão dar cabimento immediato, € que portanto não serão prejudicados pela ordem de inscripção, á qual nunca poderemos obedecer rigorosamente. A PINTURA DE MALHÔA Nºeste admiravel artigo, devido á penna bri- lhantissima de um mestre em critica de arte, - Ramalho Ortigão, inserimos photogravuras de um grande numero de quadros do notavel pintor portuguez. A escassez de espaço não . nos permittiu multiplicarmos ainda essa illus- tração, a que a fecundidade de Malhõa pode- ria dar proporções consideraveis. Mas occorre- nos lembrar que na 1 * serie dos Serões, vol: IH, pag. 302, se acha raproduzido o quadro A volta da romaria, o qual pot esse motivo não reproduzimos de novo. QUEBRA-CABEÇAS Esta secção não terminou, como suppõem alguns dos nossos prezados leitores. Esperamos que um acrescimo de interesse nos leve a con- tinual-a e nos compense dos embaraços pro- duzidos pela falta de espaço. Por agora pre- enchemol a com uma parte importante, a dos problemas do xadrez, que um dos mais habeis xadrezistas portuguezes, o capitão de fragata Baldaque da Silva, se prestou amavelmente a dirigir. Quanto ás charadas, de que alguns corres- pondentes nos rogam a publicação, repetimos o que já mais de uma vez dissemos tanto m'estas paginas como no cabeçalho da respe- ctiva secção. Teem cabimento, juntamente com problemas de diversa indole, todas as que se recommendem pela novidade ou curiosidade do engenho Mas não poderemos ceder e espaço, que nos é precioso, a simples producções cha- radisticas, elaboradas segundo o ramerrão de ha cincoenta annos a esta parte, sem desperta rem uma faisca de interesse intellectual ou sem se recommendarem pela sua feição litteraria, SERÕES DAS SENHORAS Algumas assignantes nos teem pedido firmas e monogrammas. Encontral-os-hão na nossa folha de moldes, correspondente a este numero, e entre elles os que nos foram designados es- pecialmente por cartas. Temos tambem recebido pedidos de moldes especiaes, a alguns dos quaes temos directa- mente satisfeito. Mas, como é avultado e tra- palhoso esse expediente. muitas vezes nos re- servaremos a satifazel-os com a publicação. na folha de moldes, dos que particularmente nos são requisitados.
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SERÕES Às capas e encadernação dos “SERÕES,, Os 6 primeiros numeros dos SERÕES, (parte pro- priamente do magazine) formam o 1.º vol. da 2.º série — para a qual fizemos desenhar capas d'encadernação espe- cial a preto e oiro — ao preço de 800 réis. «Os Serões das Senhoras» e a «Musica dos Serões» só formarão volumes no fim do anno, 12 numeros e para elles faremos tambem pastas especiaes. Os nossos estimados assignantes das terras da provin- cia onde não haja encadernador podem enviar-nos os 6 nu- meros para encadernar — juntamente com a importancia | do custo da capa 300 réis, empaste 100 réis e porte 100,04 | seja réis 500, — e dentro de 4 dias receberão o volume en- cadernado. O maço dos 6 numeros a enviar-nos deve ser muito bem embrulhado em papel consistente e atado com cordel forte, para que os numeros não soffram com a viagem. O acote assim feito deve estampilhar-se com 80 réis de sel-. os — e ser dirigido a FERREIRA & OLIVEIRA L.º* Rua do Ouro 152 a 158 LISBOA indicando o endereço e o nome do remettente. | Q1.º semestre encadernado da 2 * série dos «SERÕES» forma um bello volume de Goo pa- | ginas, com mais de 600 gravuras, ao preço de Rs. 19h600; — e se já os numeros avulso dos «SERÕES» se evidenceiam pelo cuidado e quasi luxo da parte material e reduzido preço—o vos. lume completo mais mostra que os «SERÕES» são a publicação relativamente mais barata - que se tem feito em lingua portugueza. j GRANDE DEPOSITO ——j DE de Moveis de ferro e colchoaria —— DE ge JOSÉ A. DE C. GODINHO 54. Praça dos HRestauradores, 56 +=. LISBOA =-==—+ po aa = ta 9-2 NB: ro im om ni TT Casa especial de café do Brazil A. TELLES & C. Rua Garrett, 120 (Chiado) e Rua Sá da Bandeira, 74 — PORTO Telephone n.º 1:438 Café especial de minas geraes BRAZIL : “Torrado ou moido kilo 720 Todo o comprador tem direito a beber uma chavena de café gratuitamente Depositos em Lisboa Consorvaria Pomona de Lisboa, rua da Prata, 111 a 113; Confeitaria Pires, rua da Palma, 68,72; Pastellaria Raymundo, praça dos Restanradores; 22; Jacintho Nunes Quintas, rua Paschoal e Mello, 27; Casa Progresso de Bomfoa, rua Direita de Bemfica, 912 212:B; Pastéllaria Taboonse, ruá de D. Pedro V. 55. e em todus as suoonraaos da Companhia de Panificação f sbonense. =
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Dn ci den gás SERÕES Nunes de Sá & CºW SACAM sobre: 430 Agencias em Portugal e Ilhas. 854 é > Hespanha. 36.145 E ” Ytalia, Syria, França, Inglaterra, Montevidéo, Buenos Ayres e demais praças no Estrangeiro. EMITTEM cheques de qualquer quantia para pagamento de encom- mendas postaes e fazem remessa de dinheiro por telegrammas para todos os-paizes. As letras e cheques entregam-se immediatamente EXERA. 1º DE) MARÇO ul? RIO DE JANEIRO EN x,
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SERÕES SERÕES PUBLICAÇÕES RECEBIDAS: “Aurora — Revista mensal de critica social e literatura — Num. 8-9 Anno 1 — Summario — Leis positivas e leis tendenciaes, P. Robin — Sobre a vida e o gozo de viver, F Armand — O principio de organisação, H. Malatesta — Mas alguem desmanchou a festa, L. Marsolleau —Lingua internacional, C. Papillon — O problema da immigração, N. Vasco — As prisões, P, Cropotkine — Volta ao mundo em 3o dias, Lucifer — Folheando a imprensa, H. Da- an — (5 Hombre y la Tierra — Bibliographia, G. A. Frontini — Registo d'entrada — otas e avisos, A Critica Litteraria — Publicação mensal primeira e unica no genero nos Estados Unidos. A Vinha Portugueza — Revista mensal de viticultura, de agricultura geral. — Dedicado aos progressos agricolas, é principalmente viticolas, do paiz. O Instituto -- Revista scientifica e litteraria — Volume 53.º, n.º 3, março de 1906. Boletim da Asscciação do Magisterio Secundario Official — Anno Il— Março a Abril de 1906 — Fasciculo X. Summario— De sobre aviso — O caso do Lyceu de Braga— Analyses Bibliographicas — Os novos Lyceus de Lisboa e Porto — Os nossos mortos — | Varia — Legislação — Bibliographia. O Comentario — Revista mensal, publicada no Rio de Janeiro para divulgação de todos os | acontecimentos que interessem á historia da Civilisação no Brazil — n.º 12 — serie II — | Abril de 1906. Guia da cidade do Rio de Janeiro —Por Paulo Pessoa, engenheiro civil — Publicado no | Rio de Janeiro pelo 3.º Congresso Scientifico Latino-Americano. Ilustração Theatral —n.º 2—1 Abril de 1906. — Summario —Emilia d'Oliveira—De raspão— Os teus beijos—Novo barytono portuguez— Paga dobrada—Zigs-Zags—Chronica lyrica — | Descantes — Pagina internacional — Qual é a actriz portugueza mais bonita —(:oncurso, | A Instrucção do Povo — Publicação mensal da Associação de Escolas Moveis pelo Methodo | de João de Deus — Anno I n.º 8 e 9. : La Lecture — Revista de ciencias y de artes — Afio VI — Abril de 1906 — Num. 64. Lyrios Roxos — Primeiros versos — afonso Schmidt — Com retrato do autor — Uma carta | ás leitoras — 5summario — Portico, Lyrio Rubro, Flor do Circo, Semelhunça, Canção | d'um triste N'um leque, Cavalleiro da noite, Sarau, Lyrio, A voz do sino, Cigarra, Versos | á Maria, Si. ., Quando passas, Branca de Neve. Eil-a!, N'um album, Nevrose azul;. Romantismo, Canção d'alma, Meia mite, Sorriso, Profissão de fé. 3 Os Annaes — Revista Brazileira n.º 77 — Anno III — 12 de Abril de 1906 — Semanario de Lit- teratura, Arte, Sciencia e Industria. Portugal Agriõola — Dedicado aos interesses, fomento, progresso e defeza da iavoura na metropole e nas colonias— 17.º anno n.º 8- 15 de Abril de 1906. Renascença — Anno III, n.º 25 — Março de 1906 - Revista mensal ilustrada — Editores pros | prietarios E. Belivacque & Cº — Rio de Janeiro — Summario — Uma lenda litteraria, Gar e Verissimo; Haeckel, Thiago Guimarães ; Ignotos, Dr. José Goes e Sequeira; Biblis, Car- los da Maia; O Fogo, Coelho Netto; O Pharol, Victor Silva; Bristo, Rodrigo Octavio; O corsario, B. Paranapiacaba; Alta Equitação, Dr. Pires d'Almeida; O livro da morte, | Cunha Mendes; O Gil, Domingos Ribeiro Pinho; O que me disse a musa, Mario Alencar; | O Pescador e as Sereias, Coelho Netto; Lyrica Ero-Archaico, Dr. Pires d'Almeida; Chros! nica Musical, Iyan d' Hunoc-Elorhard Brand. y Revista de Manica e Sofala—Publicação mensal illustrada—3.º serie—Maio de 1906 n.º 27, Revista de Minas — Commercio, in lustria e lavoura — n.º 1 — Março 15 de 1906 = Proprie tario Raul Mendes — Bello Horisonte. E Revista Portugueza — Colonial e Maritima — n.º 100, 9.º anno — 20-1-906 vol. 170 — Ferin. & C*— Lisboa — Summario — Porto de Lourenco Marques, A Educação Naval em El A terra. Reorganisação das Esquadras Inglezas, Sul de Angola, Notas Navaes, Revista Ul tramarino — Livros é publicações periodicas recebidas, Informações commerciaes. ; Revue d'italie — Directeur: H. Mereu — Summaire — Un dernier mot sur la conférence, Un | Câncien Diplomats; Rabelais á Reme (Suite et fin), Aurelio Stoppolani; Les correspon: dants du Peintre Fabre, Léon G. Pelissier; L'exposition de Milan, &. di Sanl'ambrogio Cans de Rome, Italo; Chronique des lettres et de arts, M. d'Albola; Notes économiques, Bibliographie, La Finance et la Bauose. Sociedade dos Architectos Portuguezes —— Anno I — Annuario de 1905 — Summario — Trabalhos associativos, Biographias, Interesses geraes de classe, Assumptos technicos, Legislação, Varia. Sol —«Fléxa Ribeiro» — Edição de A. M. Teixeira, Lisboa — POESIAS — Summario — Sym- : phonia de luar, Alvcrada, Meio-dia, Eclipse, Poente. E União Velocipedica Portugueza — Boletim official — n.º 12, 2.º anno --- Março de 1906,
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Ferreira & Oliveira LL. - tmintúnos RUA AUREA, 132 A 138 - LISBO À Fornecedores de S. M. El-Rei é Depositarios das publicações do Estado ULTIMAS PUBLICAÇÕES: João Chagas — Bom Humor, t vol. * D. João de Castro — Jornadas do Minho, 1 vol. Jonathan Swift — Viagens de Gulliver, 1 vol. ilustrado 300 * Teixeira Botelho — O homem Primitivo, 1 vol. enc... . 300 * Lopes d'Azevedo — Historia dos Eclipses, 1 vol. enc... 300 Cervantes — D. Quichote, 3 vol. cada br. 200, enc... . 300 Adelino d'Abreu — Serra da Estrella, 1 vol. br. 800, enc.. 1000 Francis Chassereau Coombe — The Tourist's and Visitors Illustrated Pocket í Guide to Lisbon Cintra, and Cascaes, 1 vol...........usnue eres Egas Moniz — Vida Sexual (physiologia), 1 vol. br. 156000, enc. pis E» » — Vida Sexual (pathologia), 1 vol. br. 15000, enc... Henrique de Vasconcellos — Flirts, 1 vol. br. 500, enc. ......esescessssessresos | Anthero de Figueiredo — Recordações e Viagens, 1 vol. br. 600, enc. 800 Maximiliano d'Azevedo — Em casa do filho, 1 vol 200 Henrique Lopes de Mendonça — Nó cego, 1 vol.. 300 | Antonio Correia d'Oliveira — Parábolas, 1 vol. enc .. 700 » » ” — Ara, poema, 1 vol. enc. Goo » » » — Auto de Junho 100 * Theophilo Braga — Tricentenario da Publicação do Don é pçs 1 vol. br 200, * Antonio de Soveral — Libambos, 1 vol. br ssRt ç 500 | A. Cruz de Rocha Peixoto — Os. conflictos Internacionaes ao sta o se- culo xx, 1 vol. br 800 “Maria P. Figueirinha — Contos para às creanças, 1 vol. enc Soo * Raul Brandão — A Farça, 1 vol. br.. ......... 6co Arnaldo da Fonseca — Mulher amada, 1 vol. br 500 | Candido Figueiredo — Lições praticas da lingua Age, 3 vol br. nfirodi enc. 2ib70oo José Syder — O Jogo das Damas, 1 vol. br. 500, enc. 650 Marcellino Mesquita — Almas Doentes, 1 vol br... g 400 * Alfredo Keil — Collecção e Museus de Arte em Lisboa, 1 vol. br..............ers 200, Queiroz Ribeiro — Caminho do Céo, 1 vol. enc..........cnemeeees 800 * Conego Anaquim — O Genio Portuguez aos pés de Maria, 1 vol. br 600 Gonçalves de Sousa — A seccagem da fructa, 1 vol. br. 300 Alexandre Malheiro — Chronicas do Bihé, edição de luxo, 1 vol.. - 15200 “Augusto Louza — Na Suissa, 1 vol. br 500 * Freire de Campos — Guia Pratico do creador e amador de cavallos, 1 vol. br.. Goo Visconde de Villarinho de S. Romão — O Minho e as suas culturas, 1 vol. ea 2if*o00 “José Joaquim d'Almeida — Coisas d'Africa, 1 vol. br 400 * J. Mattos Braamcamp — O Tiro de caça, 1 vol. br.. Rida 400 * Augusto Fuschini — A architectura religiosa na edade media, 1 vol. br.... ... .. 195500 | Joaquim Madureira — Impressões de theatro, 1 vol. br. 1000, enc..... . . ..... -1D200 À NO PRÉLO “Emilio Garcia — Os que furam, 1 vol. (comedia). “Alexandre de Sousa Figueiredo — Manual de Arboricultura, 1 vol. (2.º edição). * Pedro Dória Nazareth — Primeiros soccorros a doentes, 1 vol. ilustrado. “Lord Bulwer Lynton — Os ultimos dias de Pompeia, 2 vol. ilustrados. 'C. Pina Machado — Alma Errante, Poema dramatico.
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Estudo para o quadro Barbeiro na aldeia JOSÉ MALHÔA
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OS OLEIROS M Pintura de Malhõa caso de visitar a offi- cina de José Malhõa, incluida na linda casa artistica, de que elle é morador e o proprie- tario feliz, em uma das mais desafoga- das e luminosas avenidas da nova Lisbôa. O predio, engenhosamente concebido e delineado para abrigar n'um recinto meigo a intimidade carinhosa da fami- lia e da arte, destaca-se das edificações adjacentes, conciliando-se todavia mo- destamente com a luz, com o espaço, com a paizagem e com a urbanisação ambiente. Ao centro da fachada, um grande SERÕES N.º 10 arco envidraçado, por onde amplamente penetra a luz do atelier; a um lado, em ligeira curva, a breve escada de pedra alpendrada, que conduz á porti- nha da entrada; em frente, fechado por uma gradaria de ferro forjado, o peque- no jardimarrelvado, rescendente, florido de geranios e de violetas, offerece a esta vivenda, d'artista arranjado, uma accessibilidade jovial e discreta, que fica bem ao espirito do dono e á civi- lisação esthetica da cidade, trazendo á lembrança, ainda que sob a attenuação do meridiano local, as risonhas habita- ções de Claude Monet em França, de Leys na Belgica, de Querol ou de So- rolla em Madrid. FOL, 1
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258 A PINTURA DE MALHOA Interiormente, no primeiro pla- no do edificio, succedem-se, inde- pendentes, recolhidos, com o mo- desto conforto, e a ordem bem pregadinha de um béguinage fla- mengo, os apartamentos intimos da familia; o salãosinho conver- sador; a amigavel casa de jantar festivamente illuminada pelos tons d'ambar, de rubi e de turqueza da vidraça em luneta, de paizagem polychromica; a casa de banho em nikel resplendente ; a pequena cosinha de faiança branca engri- naldada em friso pela bateria de aluminium. E, ascendendo a um lado, em frente da porta de entrada, como um envolvente festão de carpette vermelha ris- cada de varetas de cobre poli- do, a escada que sobe á vasta officina do artista, corrida a RETRATO DO SR. D. ANTONIO ALVITO toda a largura do andar supe- rior. Aqui me apareceram reunidos, devidamente emoldurados, pron- tos para a embalagem do trans- porte, mais de cem quadros e cerca de outros tantos desenhos, que Malhôa destina á exposição que vae brevemente effectuar no Rio de Janeiro. A area d'esta consideravel pro- dução é bastante variada e ex- tensa para que d'ella se possam deduzir os caracteres essenciaes do pintor que a concebeu. A serie abrange quase todos os generos: o retrato, a pintura his- torica, a pintura mural, a pintura de genero e a paizagem. Os retratos grandes e os episo- dios historicos destinados á deco- presa cad ração official de alguns edifícios (Premiado na exposição de Madrid) publicos figura-se-me constituirem
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A PINTURA desenvolvimentos accessorios da apti- dão d'este pintor. Tambem na Hol- landa Berchem, Wouwerman, Metsu e Paulo Potter se metteram em tão volu- mosas composições como as de Rem- brandt, de Franz Hals e de Van der Helst; mas são os seus minusculos qua- . DE MALHOA 259 É o seu modo de conceber a paiza- gem perante a contemplação da terra portuguesa, de seleccionar os assum- ptos, de submetter a tethnica á exte- riorisação de determinados efeitos psy- chologicos por meio de correlativas com- binações de linhas, de luz e de côr, que O PINTOR JOSÉ MALHÔA (Photographia de Arnaldo da Fonseca) drinhos que os immortalisam, e é como petits-maitres na pintura que elles são verdadeiramente grandes na gloria. O vasto campo em que fundamen- talmente se exerce a acuidade visual de Malhõa, a vibratibilidade do seu sentimento, a fecundidade da sua veia, a bella irradiação do seu talento, é a paizagem. especialisa a sua obra e a distingue da dos seus mais illustres predecessores na interpretação plastica da vida rural da nossa terra e do nosso pôvo — Silva Porto e Arthur Loureiro. Os dois eminentes artistas a que me refiro (um d'elles, Loureiro, ainda feliz- mente vivo e em plena força de traba- lho) terão, creio eu, de ser considerados
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260 A PINTURA DE MALHOA O REGRDOR na historia da arte do nosso tempo como os iniciadores e primeiros mestres da paizagem em Portugal. Intimas analo- gias os relacionam um com o outro. São ambos do Porto, da terra verde e montanhosa, das empinadas e musgo- sas azinhagas, dos campos de milho qua- driculados pelas videiras de enforcado, dos pinheiraes, das azenhas, das aguas murmurantes, das translucidas neblinas e das lindas raparigas de olhos azues e tranças louras. Ambos essencial- mente minhotos, inclusos, sentimentaes e nostalgicos. Ambos conjuntamente educados em França, pintando em Fon- tainebleau com os impressionistas do tempo, na convivencia dos grandes mestres, de Barbison, Corot, Daubigny, Troyon, Diaz, Millet. Emfim ambos mais ou menos achacados do peito, pertencendo como taes á categoria d'a- quelles predestinados doentes de infi- nito no agiologio da arte, em que Man- clair compreende por symptomas com- muns de nostalgia poetica, de nervo- sidade exacerbada, de ternura febril, de insaciabilidade ideal e de melanco- lia mystica, certos privilegiados tempe- ramentos como o de Wateau na pintura, o de Verlaine na poesia, o de Mozart, de Chopin e de Schubert na musica. Loureiro e Silva Porto são sempre, atravez das suas mais hilariantes sym- phonias de côr, dois delicados, dois con- templativos, dois sonhadores. De uma vez, no atelier de Silva Porto, achando-nos em frente de uma tela em que o artista virgulava por glacis uma afinação de tons numa paizagem som- bria, tristonha, quase dolorida, repre- sentando um desolado trecho de char- neca, ao sol posto, num céo glauco e duro, uma senhora perguntou-lhe : — Porque escolheu um ponto tão des- habitado, tão triste, e, sinceramente, tão feio ? Silva Porto, de paleta e pinceis na mão esquerda, dentro da sua grande blusa de linho, o rôsto afogueado, os olhos baixos, torcendo o bico da barba, respondeu na sua velada voz, enrou- quecida, mas concludente : — Escolhi este ponto feio porque o acho lindo. RETRATO DO SR. D. ANTONIO ALVITO
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A PINTURA DE MALHOA 261 Nunca Malhôa concor- daria com semeihante cri- terio d'opção. Repugnam- lhe as melancolias cre- pusculares, as harmonias das sombras, os extacticos silêncios da natureza im- mobilisada, o; vago som- nambulismo das coisas pa- recendo quererem ouvir no ar a aza do anjo invisivel que passa, a campina en- luctada, a contra-luz, tão predilecta de Millet, os nocturnos elegiacos, as symphonias em branco ou os caprichos em negro de Whistler. O que invade, O que alicia, o que arrebata O seu carnal temperamen- to, à Jordaens, à Teniers, à Van Ostade, à Goya, à Claude Monet, são as po- sitivas, esplendentes e ra- diantes exterioridades do mundo. É particularmente a vida dos campos, farta, simples, lidada e festiva, toda de fóra, a que hypnoticamente o atrae, como o trapo côr de sangue, desfraldado ao sol, em labareda, atrae o touro sôlto. Chamei-lhe um paizagista, e elle o é por certo; como porem, pelo seu ins- tincto de sympathia e de sociabilidade, o que mais o interessa na natureza é o homem, oprime-o a solidão, precisa de chamar gente, de tocar a busina ou de tanger o sino de socorro para que se complete a expressão do sitio pela con- comitante physionomia do habitante. Assim, não podendo ser descritivo sem ser tambem anecdotico, elle é conjun- tamente e cumulativamente tanto um pintor de paizagem como um pintor de genero. APOTHEOSE DE BEETHOVEN Salão de musica do sr. Lambertint O campo da Extremadura portugueza, tão especialmente suave e pingue, le- vemente outeirado, de uma grande egual- dade de temperatura, longamente: al- fombrado, ora de verde ora de louro por ondeantes cearas como nas Lezi- rias, profusamente matisado d'hortas, de pomares, de vinhas e de olivaes, opu- lento de produções celebres como o azeite de Santarem, os vinhos famosos de Bucellas. de Torres, de Collares, de Carcavelos, do Lavradio, o mel, os lacticinios e as frutas proverbiaes do termo d'Alcobaça e das varzeas col- larejas, este privilegiado campo, abun- dante e prospero, onde a mais humilde cabana tem todas as telhas e todos os vidros que lhe são dados, onde quase
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1262 “ A PINTURA DE MALHOA não ha pobresa, e onde todo o trabalho parece sorrir como nas eclogas de Diogo Bernardes ou de Sá de Miranda, nin- guem mais intimamente do que Malhõa o conhece, ninguem mais profundamen- te o ama, nos seus aspectos pittorescos, nas suas tradições, nas suas culturas e nesses usos e costumes provinciaes dos quaes disse Henri Martin, quando veio cá, que o estudo do presente é aqui tão curioso como o de uma edade an- tiga. A obra paizagistica de Malhõa, suffi- cientemente representada nesta exposi- ção, forma no seu conjuncto, um fiel traslado da nossa vida rural, lembrando pela similaridade do seu intuito a epo- péa lapidar de Constantin Meunier consagrada á glorificação do trabalho industrial da Belgica. Atravez de algumas dezenas de va- riadas composições desfilam nos qua- dros deste pintor quasi todas as fazes da vida dos campos e das casas rus- ticas do coração de Portugal: — a lavra, a sementeira, a monda, a ceifa, a de- bulha, a empa, a poda, a vindima, a pisa, a trasfega, a faina da eira e do lagar, os grandes acontecimentos do- mesticos, o baptisado, a boda, o mor- torio, a matança do pôrco, a prova do azeite e do vinho novo, a extrema-unc- ção, a intriga eleitoral; e, acima de tudo, a vigilia e a festa do orago da fregue- zia, o sermão, a missa cantada, a ro- maria, o arraial, o repique dos sinos, o estrondear dos foguetes e dos mortei- ros, a feira do gado, as barracas de comes-e-bebes, a philarmonica, o bom- bo e a caixa de rufo, as merendas na herva ou debaixo das azinheiras, o chiar do peixe frito, o revolver das saladas, o desatar dos ôdres e o espumar do vi- nho nos picheis, a guitarrada geme- bunda, o suspirado solo do fado, os titeres, os descantes, os bailaricos ; emfim, a procissão, entre os efluvios do incenso, com o seu pendão enfunado à frente, os mesarios de opa encarnada, o juiz com a sua vara, o andor bam- baleante da Senhora, e ao fundo, sob o pallio, nas mãos tremulas do velho parocho, envolto no seu veo d'hom- bros sobre a capa d'asperges, a cus- todia com a sagrada formula, circum- dada de esmeraldas-e rubis, por entre a multidão ajoelhada no chão tapetado de alecrim, de rosmaninho e de funcho:; e, cobrindo tudo, a infinita cupola do ceu azul, por toda a parte esburacado pelos artifícios pyrotechnicos, sarjado pelas canas dos foguetes, estralejado ESTUDO PARA O QUADRO “APOTHEOSE DE BEETHOVENH
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A PINTURA DE MALHOA O AZEITE NOVO pela explosão das bombas, cuspinhado de errantes borrões de fumo. Percebe-se bem na obra de Malhôa que serão estes os dias grandes da sua vida. Ao esperal-os, pensando nelles, lhe luzirá d'alegria o ôlho avido, e, uma vez chegada a festa, é indubitavel que elle amanhecerá no adro com as pri- meiras queijadeiras do arraial; que presenceará a inicial cambalhota ainda
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264 A PINTURA DE MALHOA somnolenta dos sinos para o repi- que da alvorada; verá descarregar a primeira carreta dos melões; aju- dará a desenhar e a armar o arco de murta em frente do cruzeiro; verá subirem para o côro os timbales e o rabecão da musica; verá che- gar o prégador, o fogueteiro e a caleche com a familia do fidalgo ; felicitará depois das suas varia- ções o cornetim da philarmonica ; ajudará de tenôr aos motetos da missa; irá d'opa a um dos ceriaes ou a uma vara do pallio; e, só de noite, sob o sete-estrello, pela estrada silenciosa e branca de luar, elle voltará para casa com ESTUDO PARA O TECTO DO GABINETE REAL, a memoria e o album d'algibeira NA ESCOLA MEDICA DE LISBOA NO FORNO
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260 A PINTURA DE MALHOA ESTUDO PARA O QUADRO «Ã CÓRAR A ROUPAS pejados de esfusiantes croquis, repi- sado de ruido, deslumbrado de luz e de côr, em companhia dos ultimos fei- rantes e dos ultimos romeiros, retar- datarios, claudicantes, de cabeças en- trapadas por effeito dos percalços trau- maticos da bebida ou do amôr. Na composição technica de toda esta serie de alegres, maliciosas ou commo- vidas anecdotas, nenhum esoterismo de processo, nenhum duplo sentido, ne- nhuma casuística, nenhuma ambigui- dade. Desta zona da obra de Malhõa se pode dizer o que pouco mais ou me- nos dizia Burger de certos hollandezes da mesma indole: sabe-se claramente de que se trata, em que logar do paiz e em que estação do anno se está, que dia é, e quantas horas são. O processo chamado do natural está aqui comprehendido á letra e observado á risca. Vê-se que do trabalho de Ma- lhôa se excluiu, como deveria excluir-se de toda a creação artistica, o modelo pago a tanto por hora para consecuti- vamente representar aos olhos do pin- tor, mais tarde aos do publico ingenuo, o porte, a figura e o gesto de um prin- cipe, de um burguez ou de um mes- teiral, ou seja Cezar passando o Ru- bicon, Socrates bebendo a cicuta ou o Filho Prodigo guardando os seus ba- corinhos. O modelo assim comprehen- dido é o mais inverosimil dos fingimen- tos, encobrindo uma falsificação tão condemnavel na arte como é no com- mercio a do vinho sem vinho ou a do leite sem leite. Malhõa satisfaz rigoro- samente a clausula de Violet-le-Duc, que não considera desenhista senão aquelle que sabe desenhar com a vista, e tem na memoria as formas, assim como o escriptor tem os vocabulos dos objectos que vê. Os seus personagens são extrahidos, ou de memoria ou por series de rapidos apontamentos gra- phicos— de que dão testemunho os innumeraveis desenhos dos seus albuns e das suas pastas, — do vivo da acção gue a sua pintura se destina a reprodu- zir. Esses desenhos são notaveis de fa- cilidade, de precisão e de elegancia, assignalando o auctor como um dos mais completos discipulos de Simões de Almeida, o insigne mestre, que a Escola de Bellas-Artes de Lisboa, na lapide comemorativa que um dia hou- ver de consagrar-lhe, poderá justamente qualificar acrescentando ao seu mo- desto nome este simples desenvolvi mento — aquelle que nesta casa fundou a sciencia do desenho.
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A PINTURA DE MALHOA 267 Destes recursos de technica e deste methodo de composição resulta a fei- ção culminante, especialmente caracte- ristica na obra d'este pintor—a elo- quencia da sua mimica, tão assignalada, por exemplo, nos quadros intitulados O azeite novo, a Chegada do Zé Preira, O Barbeiro, A volta da Romaria..... effeito de involuntario confronto, a côr de alguns quadros de Malhõa me pare cesse hyperesthesica no seu registo dv tonalidades, na sua instrumentação dos valores, no brilho symphonico das suas juxtaposições e dos seus contrastes chro- maticos. E possivel que a minha impressão A CÓRAR A ROUPA No patim da escada que leva ao ate- lier na casa do artista, pende do muro, creio que como aviso previo, como bi- tola ou como regra preambular, uma bella reprodução phototypica do incom- paravei quadro de Rembrand Os syn- dicos dos mercadores de pano. D'esta chamada retrospectiva da minha me- moria ocular para um typo de pintura em que tão fundamente se embeberam os meus olhos no museu de Ams- terdam, resultou talvez que, por um tivesse sido outra se eu tivesse pensado na Ronda da noite em vez de somente me lembrar dos Syndicos. Bem capcioso elemento o da côr na pintura! A Ronda, por exemplo, dá-nos o effeito de toda a escala do spectro solár. Os Syndicos são um simples acor de de quatro notas, com os seus susteni dos e os seus bemoes, em castanho e bistre. Ha um anno vi em casa de So- rolla dois quadros de curioso contraste. Um delles representava um laranjal de
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268 A PINTURA DE MALHOA COCEGAS Valencia coberto de fruto e envolvido em sol. O outro era o retrato do pin- tor Beruete, em tamanho natural, corpo inteiro, todo vestido de preto. Este ho- mem, de lucto pesado, sentado numa poltrona, segurando um chapeu de fel- tro preto nas mãos calçadas em luvas pretas, pareceu-me tão intensamente co- lorido como o laranjal faiscante de verde e de amarello sobre um fundo de anil. Este effeito provem do poder da luz, unico inilludivel, soberano dominador de toda a composição pictorica. Diffe- rentemente do que se dá na physica, em que a luz e a côr são phenomenos associados, um resultante do outro, na pintura elles são consequencias distin- ctas de combinações diversas. Por isso o bravo e desditoso Monticelli, o mais portentoso colorista da moderna pintura franceza, dizia, nessa lingua composita e synesthesica, a cuja bastardia se não pode deixar de recorrer na critica d'arte, que na pintura o desenho, a perspectiva ea côr são como na opera o côro, o acompanhamento, o enredo e o maqui- nismo; a luz é o tenôr. Para os poly- phonistas da musicalidade e da drama- tologia lyrica moderna a frase de Mon- ticelli, um tanto antiquada e rossiniesca, poderá parecer ambigua. Creio que o que elle quiz exprimir é que na gamma da paleta a luz é o dó sustenido, do peito. Tudo mais são gradações de es- forço e de insufficiencia organica. A luz é a meta dos coloristas. O trage dos homens do campo nas provincias do sul de Portugal, trage com tão amoroso es- crupulo estudado por Malhôa, restringe a pista da meta a que me refiro á mais sobria relacionação de tons quase mo- nochromaticos.
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A PINTURA DE MALHOA 269 Ainda ha pouco o grande pintor John Sargent, de viagem em Portugal, me dizia: — O homem do povo no Alem- tejo e na Extremadura portugueza é, no ponto de vista da pintura, o homem mais lindamente vestido do mundo, Com a cara rapada, a tez morena e córada, de calça e jaqueta de um es- pesso castanho amelado, a camisa do mais bello branco, a cinta negra, e o chapeu negro mate, de aba arregaçada por um debrum de veludo, todos me parecem trajados por um figurino pin- tado por Velasquez. Caberá a Malhõa como colorista cor- roborar demonstrativamente a tão justa observação de Sargent. É de notar que a tão especial tonalidade, pardo alambreada, que apresentam vistos ao solos extremenhos e os alemtejanos a que Sar- gent se refere, é como que o filtro dominante em que muitas vezes se embebe o pincel de Columbano. D'essa tão especial e subtil noção, consciente ou incons- ciente na intenção do artista, provem o quase indifinivel encanto, o sortilegio de côr, que em alguns dos melho- res retratos d'este ar- tista nos captiva e sub- juga. Malhõa é moço e dispõe da mais rara força d'applicação e de trabalho. Pinta sorrindo e cantando, quotidianamente, de sol a sol, e pinta com a mesma es- pontaneidade e o mesmo doce fluxo de seiva com que as plantas dão flor. Ex- poz seis ou sete vezes no salon em Paris, e, por proposta da Sociedade dos Artistas Francezes, foi lhe conferida a cruz da legião d'honra. Constantin Meunier, a quem já me re- feri, contava 69 annos d'edade, tinha a serena consciencia da lesão mortal que lhe tocara o coração, e era já illustre e consagrado, quando corajosamente em- prehendeu a tarefa monumental da sua obra definitiva, essa glorificação epica do trabalho do povo belga, hoje uma das mais altas expressões do genio contemporaneo. Malhoa tem deante de si todo o tempo, e não o desaproveitará de certo, para proseguir e levar até á apotheose final os seus fastos da vida do campo na sua terra, ESTUDOS PARA O QUADRO «COCEGAS» Esta simples circumstancia: ser, como elle, sinceramente, convictamente, en- ternecidamente da sua terra, é já uma condição fundamental do exito. A de- cadencia miseravel das manifestações da arte contemporanea deve-se princi. palmente á impersonalidade vergonho-.
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ESTUDO PARA O TECTO DO GABINETE REAL NA ESCOLA MEDICA DE LISBOA O tecto foi reproduzido no n.º 9 dos Serões no artigo sobre:O congresso de medicina em Lisboa. sa, á decapitante rasoura snobica das nossas penetrações cosmopolitas. Assim nas conclusões tão superiormente dida- cticas d'esse admiravel congresso d'arte publica, ultimamente pela terceira vez reunido em Liege com o concurso de todos os paizes civilisados, se insistiu particularmente neste princípio: Reno- var por toda a parte as tradições na- cionaes e ethnologicas é assegurar o poderoso renascimento da capacidade humana, libertando-a do esterilisante cosmopolitismo que hoje tende nefasta- mente a regular todos os movimentos não só do espirito mas do coração das gerações novas. Determinar fazer uma exposição d'arte no Rio de Janeiro, levando os seus qua- dros ao mercado brazileiro, é outro aus- picioso indício de sabia orientação. Pre- tender, pelo mais falso espirito conven- cional de casta, desaliar da questão de dinheiro a questão d'arte é penetrar no dominio da pura fantasia, pondo de parte toda a lição da historia. Sempre, invariavelmente, em todas as nações, atravez de toda a trajectoria da civili- sação, os destinos da arte se filiaram nos destinos do commercio. Nos paizes com cuja civilisação mais estreitamente se relaciona a civilisação portugueza, A PINTURA DE MALHOA durante a edade media e a renascença, na Borgonha, em Flandres, na Italia, na Allemanha, .o commercio foi sempre adeante, creando a riqueza, fundando a cultura, permutando mercadorias e ideias, e difundindo dinheiro. Os artis- tas seguiram logicamente os mercado- res. E sempre as grandes epocas da arte coincidiram com as grandes epocas da riquesa publica. Filippe o Bom, sob cujo governo a arte da pintura tocou pelos pinceis de Van Eyck e de Memling a meta da perfeição a que anteriormente não che- gára nunca e que jamais se ultrapassou depois, é o primeiro potentado do seu tempo, o alto suserano feudal que todos os magnates de França e dos Paizes Baixos se comprasem em ter por chefe. Os que não são seus vassalos — diz Michelet— não querem egualmente dei- xar de submetter-se-lhe, considerando-o o supremo pontifice da honra, do pun- ESTUDO PARA O QUADRO «A VOLTA DA ROMARIAU
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A PINTURA DE MALHOA 271 donôr e da cavalleirosidade. Se o rei de França tem contra o duque a sua jurisdição, o duque tem sobre todos os grandes senhores uma acção conside- ravelmente mais poderosa e mais deci- siva, a do tribunal de honra do Tosão de Ouro, de que elle é o arbitrc. Ora todo o poder enorme de Filippe tem por base a portentosa riqueza dos seus burguezes e o admiravel trabalho dos seus mesteiraes, a guilde e a halle. O proprio carneiro, que pelo seu velo dá o nome á ordem de mais prestigio e de mais força aristocratica que jamais exis- tiu, o que é senão o symbolo, consa- grado no polyptico de Gand, da riqueza flamenga proveniente do commercio da lã no mercado de Bruges? A pintura portugueza, que no seculo xvr attingiu um limite de maestria nunca. mais alcançada, deriva inicialmente da influencia de Flandres, travada não só pela alliança conjugal do duque de Bor- gonha com a excelsa filha de D. João I, irmã dos altos infantes de Portugal, no começo da gloriosa dynastia de Aviz, mas tambem pela preponderancia dos nossos descobrimentos sobre os desti- nos commerciaes do mundo. Essa pin= tura manteve-se durante perto de um seculo pela riqueza dos nossos nego- ciantes, que juntamente com os de Hespanha vendiam em Anvers as espe- ciarias da India, os diamantes e as pe- dras preciosas, as lãs então preferidas ás de Inglaterra, as uvas, as laranjas, as amendoas, os vinhos do Porto e do Xerez, e compravam para introdusir no reino gado, laticinios, peixe salgado, tecidos e objectos d'arte. Só o com- mercio das especiarias attingia a somma annual de 4 mil contos na Casa de Por- tugal em Anvers. Os nossos feitores ha- bitavam sumptuosos palacios que os grandes artistas ornavam com a profu- ESTUDO PARA O QUADRO «CHEGANDO Á CEIA» são das suas obras. Pelo seu luxuoso teor de vida elles hombreavam com os famosos capitalistas do tempo, os Fug- gers e os Medícis. Um d'elles, Manoel Cyrne, do Porto, não querendo que o cheiro da turfa molestasse o olfato dos seus convivas em dias de recepção, mandava queimar canella nos fornos da cosinha e em todas as chaminés da casa. Era por meio d'estes numerosos agentes de grosso commercio e de alta elegancia que D. Manuel encommen- dava esculpturas a Veit Stoss, D. João III mandava lavrar por Miguel Angelo uma estatua da Senhora da Misericor- dia e fazia cinselar por Benvenuto Cel- lini a sua espada, emquanto o infante D. Fernando tinha como intermediario Damião de Goes para a compra dos seus livros, das suas illuminuras e das suas tapessarias. A arte, em summa — e parece-me util que esta singella noção entre no convencimento de toda a gente — é pe-
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272 A PINTURA DE MALHOA rante as transações sociaes um simples artigo de luxo, — luxo dispendiosissimo porque a joia d'arte é a unica em que o valor da materia prima é nulo. Tudo é feitio, e o seu preço é enorme. A arte custa ao estado em França vinte mi- lhões de francos. Não custa menos á Inglaterra e á Allemanha. Um retrato por John Sargent paga-se por vinte contos. Um bom tapete persa custa em media quinze contos. Os herdeiros de um amigo de Chardin a quem o pin- tor pregara na parede da mais modesta casa de jantar no campo quatro peque- nas telas, lembrança d'amisade consi. derada de nenhum valor, refugo de uma encommenda que lhe fizera a Dubarry, alcançaram recentemente uma fortuna vendendo a um milionario americano essas quatro naturezas mortas e durante cem annos esquecidas. Este luxo, defeso aos homens e aos paizes pobres, é obri- gatorio para os paizes e para os ho- mens ricos. É pelo gosto e pelo culto da arte que, em todas as sociedades e em todos os tempos, se desmaterialisa, se justifica e se enobrece a riqueza. RamaLHo OrTiGÃO. A PROCISSÃO | |
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Castelos do Norte a Portugal De como se organisava a defeza ter- ritorial do paíz durante a Edade Média. erois da conquista, po- voamento e cultura da terra foi a sua defeza o que, largamente e com ancia, preoccupou o es- pirito d'uma alta previ- dencia administrativa dos nossos primeiros monarchas. Visto que a instabilidade social da Idade Media o exigia, repetiu-se então, mas sem a enternecida e carinhosa poesia dos ritos que a religião inspirava no mundo antigo, a pratica de levantar, em volta de cada burgo formado, O cinto de murelhas defensivas. Estas couraças de cantaria, espessas e bem consolidadas, ras- gavam-se d'onde a onde para permittir a com- municação com o exterior por meio das leva- diças lançadas sobre o fosso de resguardo, e interrompiam-se aqui e alem nos cubellos que as reforçavam. Dentro do perimetro assim vedado em que se abrigava uma cidade ou uma villa, havia ainda o reducto procurado, com tumulto e'al- voroço, na hora amarga e extrema do perigo. Por vezes não havia povoado, mas apenas um ponto de importancia estrategica a prote- ger. Então [surgia estrictamente o castello, al- candorado e dominante, atalaiando o horizonte com os seus muros e torreões, cauta e sagaz- mente dispostos, n'um selvagem arreganho d'ameias, sob a imponencia arrogante da ele- vada torre de menagem. Mas nem só povoações e logares de vigilan- cia cumpria assegurar n'esta epocha em que os vultos ca nobreza, ordens monasticas e prin- cipaes dignidades do clero assumiam, sob todos os aspectos, tão extraordinaria(preponderancia na vida publica da nação. Defenderam-se pois mosteiros [como 'o de Leça do Balio, conventos como o de Travanca (Amarante) e casas nobres como a de Pene- SERÕES N.º 10 TORRE DE MENAGEM DE BRAGA Cliche de João San Romão gate, do 1.º quartel do seculo x1v, o Paço de Giella restaurado no seculo xvi (Arcos de Val de Vez) etc. etc. Certo é que, atravez do paiz, já o sarraceno para o sul, como em Santarem, e antes O legionario, como em Braga, e o luso romano, como em Castro Laboreiro, haviam cercado de muralhas protectoras os seus habitats com o maior interesse e attenção, sendo mais tarde porém reformados e modificados pelos dynas- tas affonsinos, que manifestaram assim o reco- nhecimento da mesma, senão mais intensa, necessidade que distantemente as motivara. Mas acima d'este interesse restricto e assaz circumscripto, surgiu o do aggregado col- lectivo em cuja formação se puzera o mais apaixonado ardor e o mais porfiado empenho. A terra commum, a terra patria, para cuja consolidação e integridade todos haviam con- tribuido com o mesmo esforço desinteressado, suscitando a communhão affectiva no ideal que fundamenta a vida d'um povo, não podia ficar aberta e exposta á plena mercê do desejo audaz e rapace de qualquer invasor. D'aqui derivou a pormenorisada solicitude, o constante cuidado com que se postaram rijas e altivas sentinellas de pedra ao longo da fron- teira, não só onde houvesse povoados consi- deraveis como Bragança, Montalegre e Mi- randa, mas assignaladas posições estrategicas FoL.N.º2
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274 - | CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL de repulsa como Valença, Monsão, Melgaço, Lin- doso e Castro, ou pontos de facil accessibilidade ( E: Fa / FP ás incursões do inimigo como Lapella e Ca- minha. AO correr do littoral não seria o receio tão radicado e oppressivo, salvo em nucleos de grande impor- tancia commercial e industrial como Porto e Vianna: do Castello. Foi pois pela raia secca que com mais insistencia e tena- cidade se cuidou de proteger o paiz e é ainda agora ahi que mais frequen- temente se nos deparam as malhores sobrevivencias dos velhos baluartes medievos, aquelles monumentos depois dos religiosos, que mais vivamente traduzem e suggerem essa epocha cavalleirosa e lendari Não lograram porem esses exemplares da nossa architectura militar o ! x MOSTEIKO DE LEÇA DO BAILIO Ls cd respeito e o acato das gerações, desde que os meios de guerra se volveram outros. Dado o rebate da sua inutilidade, começaram a ser ultrajados pela brutal ingratidão dos homens, a cujos antepassados tão prestimosos haviam sido, pois que d'alma estreita e pusillanime os transformaram em'calçadas, paredes e vivendas, ou os aluiram n'umjpassatempo da mais inaudita imbecilidade. As corporações admini trativas, padecendo geralmente do morbo da ignorancia, teem consentido ou provocado taes sevic O poder central contirua impassivel a taes affrontas da historia e da arte, quando não as patrocina, como succedeu ultimamente com a vetusta cidadella de Braga, que foi despojada d'um lanço da muralha e dos seus dois cubellos delimitantes, restando-lhe apenas a soberana torre de menagem de D. Diniz e não sem o ameaço do extermínio. Aquelles especimensque a vesania da pilhagem ou da destruição poupou, estão desmazela-
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CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL 275 damente abandonados aos estragos do tempo e vão Tuindo, lento e lento, sem que uma simpathia cons- ciente e reparadora os am- pare, com caricia, na sua majestosa decrepitude. E tal é a derrocada em que se encontram quasi todos esses documentos «Poutr'ora, — paginas gri- salhas, envelhecidas e es- phaceladas !—que, em cer- tos, só a imaginação dos eruditos, avidos em des- vendar o passado, será por- ventura susceptivel de os reconduzir á sua integrali- dade inicial. Todos immer- sos na desolação da ruina, a que a natureza tantas vezes dá o ar- ranjo decora- RUINAS DO CASTELLO DE tivo d'uma MIRANDA (Lano suL) formosura Cliche de Rocha Peixoto surprehen- dente e bizarra, avolumando a saudosa commoção que as coisas d'outrora inspiram, com o encanto de scenario feito de tons macios e gastos seduzindo TORRE DE PENEGATE Cliché de J. San Romão sempre os temperamen- tos artísticos com amor e delicia! Estes assertos teem a sua plena confirmação com uma simples roma- gem ás venerandas for- talezas construidas nas linhas fronteiriças de Minho e Traz-os-Mon tes, que fundamental- mente obedecem ao 'RUINAS DO CASTELLO DE MIRANDA (LADOS NORTE E POENTE) dede) typo architecto- Cliche de Rocha Peixoto nico, salvo a differen-
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276 CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL ciação de elementos secundarios evidenciadas nas da segunda provincia e a variabilidade de plano estabelecido em harmonia com as con dições do local onde foram construidas. Em todas, alem da segurança e firmeza do seu arcabouço, observa-se o intuito d'uma astuciosa precaução pelos vestigios ou logicas conjecturas dos ardis, dos obstaculos, dos estorvos, prudente e intelligentemente elabora: dos e d'um tão largo alcance contra a violen- cia do ataque exterior, ou até d'um valioso recinto de guerra, sobranceiro á corrente inter- nacional, que o separa da margem d'alem, antigamente hostil. Sobre o silencio e a melan- cholia penetrante d'esta assolação cae o des- lumbramento da luz a valorisar a riqueza das. tonalidades do panorama inesquecivel... Passando por Valença, a celebre praça forte, que substituiu a oxydada armadura do seculo xu1 e onde se respira uma athmospera pesada e oppressiva pela influencia immediata do conspecto das solidissimas e espessas muralhas. CASTELLO DE MELGAÇO auxilio n'uma fuga angustiosa depois da der- rota ineluctavel. Em Caminha principiava a corrente defen- siva do norte de Portugal. Mas nada resta, por assim dizer, das fortificações medievicas n'esta villa risonha e gracil, pittorescamen:c, acantonada entre a foz do rio Minho e a «o Coura, depois de ter despido o surrado burel que a sequestrava do doce embalo das aguas. Para leste, o primeiro élo fecha em Cerveira com o castello erguido por D. Diniz que o visitante busca por detraz do casario moderno, irregular e incaracteristico. Transpos a uma porta carcomida e baixa, d'onde se diffundem espiritualizados remem- bers de sabor archaico, e subindo a pequena e tortuosa ladeira que d'ella segue, estatela-se em face o aspecto commovedor de muralhas incompletas, torres quasi de todo apeadas, como se um vento de insania, desordenada e furiosamente houvesse passado n'aquelle envolventes, portas soturnas, vias subterra- neas, baluartes angulosos e espionantes, fossos cavados e pontes suspensas, levanta-se, a 5 kilometros de Monsão, a formosa torre de menagem do extincto castello de Lapella. Fica junto á orla das aguas do Minho, n'uma baixa, e alicerçada na rocha. Mas emerge do minusculo povoado circundante n'uma tão galante e esbelta sobriedade de linhas e sobre: um tão gracioso fundo de paisagem que para logo captiva os olhos mais indifferentes e ru- des. A sua porta em ogiva rasga-se a dez me- tros do solo no lado septentrional e é sobre- pujada pelo brazão de D. Fernando. Tem in- dicios dos miradouros de projecção. No alto irrompe do seu terraço O tufo verde negro dos louros e oliveiras ondulantes pavilho- nando o padrão de guerra, agora inutil, como symbolo classico de triumpho pelo preterito e de estreita e risonha paz pelo presente. A estrada que de Valença conduz a Lapella
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CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL 277 é a mesma que leva directamente a Monsão, à Porta do Sol da valente praça forte, onde se repetem os nomes que relembram dois feitos dos mais epicos da nossa historia militar: o horroroso cerco soffrido no seculo xiv, sem capitulação mercê do estratagema lendario da heroica Deus-a-Deu Martins, e o desespe- vado assedio-do seculo xvr! com a guerra da CASTELLO DE Cliché de Rocha Peixoto INDOSO Restauração. Pois bem. O visitante ao chegar tem um testemunho excellentemente demons- trativo da sensatez e do criterio da maior parte das nossas municipalidades. Aquella porta, unica via a canalisar a communicação com as arterias exteriores, e tão vigorosa e astutamente construida, com o reforço das setteiras lateraes em toda a sua profundidade para reprimir a passagem do inimigo, quando Os gonzos, armellas e ferrolhos das portadas cedessem á bravia arremettida, foi hedionda- mente mutilada, Em 1902, a conspicua edili- dade que dirigia então os interesses locaes, mandou arrasar-lhe a extensa abobada para que a entrada na villa se fizesse desabafada, ovante e banhada na luz dos astros, ou mesmo na agua dos chuveiros E, sem mais com- postura, assim ficou a nudez dos esboroa- mentos, desde os arranques da curva para mais destacar a proeza aos. olhos dos foras- teiros. As outras portas escaparam felizmente aos alindamentos do progresso. A Monsão segue-se Melgaço, para onde a diligencia cambaleante e somnolenta se en- carrega tambem do transporte. Alem do Peso e a certos corcovos da estrada enxerga-se a villoria poisando no alto em volta da linda torre d'uma côr esmaecida sobre o tundo azul do ceu, como a silhueta desbotada e tenue d'uma illuminura. Arribando, logo se descobre que o abraço inerte das muralhas compostas no seculo xr, quando Affonso III reinava, conforme o de- poimento insuspeito d'uma inscripção juncto da porta occidental, rompeu-se para se não separar a terreóla das chatas magnificencias do largo principal, geometricamente arbori- sado, com assentos solicitos ao entretenimen- to da madracice indigena.
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278 CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL A nordeste circumscreve-se o reducto, em ellipse, com o postigo para nascente e fenestras para sul. Ao centro a torre alta- neira, austera de linhas, com a sua corôa d'ameias dispostas no parapeito saliente, apoiado na cachorrada circumdante; a porta recorta-se a norte em arco de pleno cintro occupado pelo dintel raso, que assenta em dois modilhões como nos porticos das igrejas romanicas. Uma curiosidade irreprimivel leva a su- bir os estreitos degraus e a perscrutar o in- terior. Esta indiscreção delata-nos que s acha convertido em palheiro. Nada perde porém do seu prestigio, como certos ani- maes que apezar de empalhados, funda- mente impressionam pela soberania do seu aspecto. As inclemencias do tempo desde- nham todavia da arrogancia das obras hu- manas. Nºum dia tempestuoso, com effeito a torre airosa ficou desdentada no angulo PAÇO DE GIELLA Cliche de J. San Romão nordeste, servindo talvez de sepul- tura a esses despojos a cisterna quasi subjacente. Mas uma impressão de calma se- gurança e veneravel respeito se dif- funde d'esta energica construcção, producto d'uma architectura esta- vel e definida. Levantada no se- culo xi por D. Pedro Pires, prior de Longos Valles, e restaurada mais tarde na cimalha, continua como impavida e soberba atalaia multi- secular que assistiu ás façanhas bel- licas no tempo do Mestre d'Aviz e, inabalavel no seu posto, não desistiu de servir ao repellão das hostes na- poleonicas. Contemplando-a de so- bre o adarve na sua provecta quie- tude, tão penetrada de sol, para a ressurreição d'um quadro retros- pectivo apenas falta uma figura cou- raçada, de lança faiscante, erecta so- bre o eirado, à beira da sineta de TORRE DE MENAGEM DO CASTELLO DE BRAGANÇA rebate pendente de dois creneis. Cliché de Rocha Peixoto A sentinella immediata deste cor-
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CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL 279 dão defensivo assenta em Castro Laboreiro ao sul do povoado, sobre uma agreste eminencia de fraguedo escarpado avançando abrupta- mente entre dorsos de serrania de que a sepa- ram gargantas profundas convergindo para a cova das inverneiras. Actualmente, reserva-se ahi o espectaculo d'um vandalismo sem nome. Vencida a difficil ascensão observa-se que o plató se delimita pela muralha externa, galgando sobre os accidentes do terreno, e em absoluto vedada, salvo no extremo noroeste, onde se recorta a pequenina Porta do Sapo só accessivel por es- treitissima vereda talhada sobre o abysmo. Re- «parando n'este pormenor avalia-se a recatada prudencia, tactica experiente e consummada que presidiu á edificação da fortaleza. Um valoroso solado medieval de inquebrantavel firmeza e louca temeridade seria sufficiente para resistir aos inimigos que, só podendo approximar-se um a um, ao menor movimento de combate seriam arremessados successiva- mente ao precipício. Penetrando n'este inexpugnavel esconderijo, em tal grau de devastação se exhibe, que não é possivel reconstituir a sua estructura origi- naria. As divisões internas mal emergem aqui dos alicerces, incompletas e fendidas ali, des- aprumando e ruindo alem O material da muralha envolvente foi derrubado, ora em saque, ora por divertimento selvagem. E os guias sempre dispostos a exemplificarem pra- ticamente a acceleração progressiva do movi- mento dos objectos projectados do cimo dos declives, não se furtam à tentação de deslocar alguns pedregulhos para o despenhadeiro pa- voroso. Em estado pouco menos miserando se de- para o castello de Lindoso, sobranceiro à in- greme encosta que margina o Lima, vigiando a margem hespanhola, que começa mesrio defronte. À torre central reduzida a menos d'um ter- So, quadrellas desapparecidas, muros desaba- dos ou toscamente reconstruidos nas obras do seculo xvmr. Todavia presente-se uma disposi- ção, reflectida e commoda, nos seus elementos constitutivos. Nenhumas outras ruinas como as d'este grato poiso, solitário entre serras, sobre ribas de tão variado aspecto, se prestavam mais a lamentações maguadas, se n'este paiz ainda fossem proveitosos os gemebundos queixumes d'uma jeremiada... Em melhor conservação se encontra o de Montalegre, perfilado sobre um outeiro a norte da villa, guardando a larga chá por onde corre - o Cávado, ainda insignificante e reduzido pro- cedendo do Larouco a barrar ao fundo o horizonte n'uma, vaga immaterialidade de nevoa. Quem segue de Villannho de Negrões, ao descer a serra do Avellar, imprevistamente descortina, n'uma inapagavel surpreza, a rota e veneravel alcaçova d'uma tinta morta de folha secca, sulpicada de rubros laivos, escu- recidos nos bordos, como coagulos obstinados d'um sangue secular. Á medida que se de- clina pelas abas da montanha, mais resalta o arrogante e indomavel cubo de menagem reta- lhando a abobada no mesmo gesto aggressivo que lhe fixaram os alvaneus de Affonso IV. Ascende, como um emblema de inflexivel e inalteravel fidelidade ao Passado n'esta zona do planalto barrozão em que o regimen eco- nomico social é, approximadamente, o pres- cripto na legislação foraleira, sua coeva, e inspirado no communismo germanico. .. Pedaços de muro indicam a trajectoria do cerco antigo contando ainda trez torreões, um dos quaes da primitiva feitura no seculo xiv e os restantes derivados da restauração no seculo xvi. A meio do recinto esphacelado, a grandiosa torre com uma pequena talha na dentadura d'ameias que não prejudica o effeito do seu conjuncto d'uma estabilidade quasi irreductivel. A galba obedece ao schema generico : base quadrangular, machicoulis des- tacando nos angulos, mas ao nivel do ultimo pavimento interno, para protejer as faces e a porta em ogiva, precavidamente afastada do solo. A sua austeridade amima-se porem com a caricia d'um arbusto—a lamagueira — de folhagem fina e copioso fructo sanguineo, borbulhando das junctas da velhusca silharia n'um decor festivo, juvenil, caloroso, o que a semelha a uma ara gigantea engrinaldada de ramos votivos. Proximo fica Chaves com o castello muito reduzido. A torre de menagem apresenta apenas de especifico o ter entre os machicoulis angulares, outros centraes, na mesma hori- zontalidade. A noroeste sobre uma elevação alça-se o de Monforte, juncto da raia, e para o levante depara-se com o de Vinhaes. Mas onde o espirito melhor sacia a ancia pelas réminiscencias e indícios que mais com- pletamente despertam o preterito é em Bra-
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280 CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL gança, na cida- della occupando a nascente o pi- naculo d'uma collina. A entra- dana caduca col- meia humana faz- se por uma porta | TORRE DE MENA- ogival entre dois GEM DE MELGAÇO (| | baluartes que avançam parallelamente sobre a su- perficie da muralha, logo a chocar se para a dextra n'uma decepada quadrella — a torre da camara. Transposta aquella abertura, ta- lhada em forma de mitra, que já se não cerra com fragor ao toque im- | perioso do sino de correr, atravessa- se a espessura do segundo cinto de vedação para alem do qual se abre uma ruéla, amolgada, tor- tuosa e estrei- ta, conduzindo ao quartel de caçadores si- tuado no ex- A tremo oppos- to. Então, abs- trahindo da PORTA DOSAPO;) pouca gentana CASTELLODECAS- que transita TROLABOREIRO com vestes da Cliche de R. Severo moderna fan- fcaria e d'al- guns soldados d'arcabouço pobre e parrano a desmentir a hyper- bole litteraria da corpulencia dos trasmontanos, a imaginação recúa instinctivamente uns seculos pelo intenso archaismo que de todos os lados a solicita. » Hr A, |) O CASTELLO Dt CASTRO LABOREIRO Cliche Ricardo Severo
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CASTELLOS DO NORTE DE PORTUGAL 281 No segmento direito do ambito cercado enfrenta-se com o bairro humido, viscoso e sordido, sulcado de víéllas e bêccos fétidos por onde cursa, n'um socego ineffavel, toda a fauna que as lendas dos evangeliarios fixaram mo affecto da alma popular e d'onde vem o ruido de bitesgas sombrias e cavernosas, de <asinholos pelintras espalhando uma vida amo- finada e miseravel e de poluidos valhacoutos onde se espoja a soldadesca ; mais alem, e dis- simulada por uma capelloria, poisa a Casa do MIRANDA — PORTA DO AMPARO Desenho de Moraes Senado, talvez unico exemplar dos nossos edificios urbanos do seculo xu. No segmento esquerdo alça-se a picota bri- gantina d'um insolito valor archeologico e O corpo principal das ruinosas fortificações d'outrora em que sobresahem a torre da princeza a desaggregar-se lentamente, como que roida por uma carie centenaria, e a torre “de menagem, vasta e um tanto acaçapada, mas não desgraciosa, tal é o concurso artistico e mobilificante de certos incidentes architecto- micos congraçando a solidez e a esthetica. Esta, <omo aquella, é feita de schisto, antipatico, e rebelde a qualquer affeiçoamento, de que lhe resultou a denegrida patine de ferrugem e é solidada nas arestas pelo granito amoldavel e robusto. A pouco mais de meio da sua verticalidade <inge-a um friso granitico d'um inesperado alcance ornamental e ao alto dos cunhaes excrescem as bases, em secção rectangular, «dos miradouros cylindricos a lançar uma nota de desvio e excepção ao typo até aqui exhi- bido, mas n'uma tão arguta e segura penetra- ção de placos, que logo denuncia o magistral € douto senso constructivo que a gestou; as ameias de remate horizontal com gretas cruci- formes servindojde escudos ás vigias do terraço. A porta, como sempre, voltada ao inimigo n'um cauteloso afastamento do solo. A nascen- te e a sul duas poeticas janellas gothicas flam- mejando e alleluiando as respectivas fachadas com o fulgor que irradia da pureza dos seus lavores. Aqui e ali, fenestras escancarando o vago e mudo negrume do interior, como golpes rese- quidos e hirtos de remotas punhaladas que jamais cicatrisassem. Um brazao até'gora in- demne memora a interferencia de D. João 1 restaurando a obra de D. Diniz, que por sua vez renovara a de D. Sancho. Para aquem de Bragança contavam-se algu- mas atalaias como as de Outeiro e Vimioso, hoje extinctas, mas só Miranda, a pequenina cidade morta, debruçada sobre o Douro, pos- suia realmente um castello. Sujeita aos acom- mettimentos hespanhoes, com Zamora perto, acauteladamente se abafara n'uma resistente muralha, agora muito desmantelada, mas ainda evidente em quasi toda a cercadura e que se transpunha por duas portas: a de Sº, Antonio já desapparecida e a do Amparo identica á de Bragança € abrindo para a costanilha—a pit- toresca rua seiscentista. Para as escapadas so- bre a tenebrosa margem do rio havia o pos- tigo a nascente, No ponto culminante, a noroeste, erguia-se a fortaleza com o seu muro especial, o fosso e levadiças a contornar o cubo de menagem far- tamente empastad» com additamentos de re- forço. Uma explosão monstruosa, porem, fez com que quasi tudo isto abatesse. D'esse indescri- ptivel desastre apenas ficaram aprumados alguns lanços de cortinas e parte da firme torre central que D. João I mandou erigir, como o attesta o escudo firmado na face do sul com a sua porta ogival aberta para a Hes- panha. O aspecto do poente é desolador. A me- nagem amputada e desventrada, as restantes edificações aluindo, e sobre a ossatura a desco- berto das paredes descarnadas vão crescendo os pensos das hervagens decorativas das rui- nas. Em volta a paisagem árida e triste onde um magro hortejo, ou um arremedo bucolico de vinha mais lhe aviva a sinistra melancoli que obsidia e penalisa juncto d'aquelles des- troços — perfeito simile d'esta nossa patria es- quecida da sua historia. MANuEL. MONTEIRO
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, 1) PM SUMMARIO DOS CAPITULOS I A VI Benita Clifford, que se dirigia á Africa a bordo do paquete ZANZIBAR afim de se reu— nir a seu pae em Durban (Natal), tem por companhetro de viagem Roberto Seymour o qual se enamora della. Seymour conta como encontrou o pae della e Jacob Meyer em Bambatse, no intsrlor de Africa, onde se suppunha existir um valiosissimo thesouro os, condido. A declaração do seu amor é interrompida, quando ella está para responder, pelo uaufragio do paquete. Seymour salva com grande dificuldade Benita, desfallecida por um ferimento na cabeça, mettendo-n dentro d'uma lancha. Cede em seguida o lo- gar a uma mulher e à uma creança, em riscos de afogar-se, por não caber mais gente na lancha. Antes de se lançar ao mar, deixa no seio de Benita uma carta em que pede q resposta á sua declaração, caso ainda venham a encontrar-se. Consegue aleancar à costa, extenuado. A lancha é encontrada por outro paquete, e Benita reune-se a seu pae em Durban, onde por um jornal tem noticia do encontro de um cadaver na costa por um cafre, que apresentou como prova um relogio com o nome de Seymour. Benita e seu pae partem para a fazenda deste, Rooi Krantz, é quando estão proximos sahem do carro para dar caça a um antilope ferido, transviam-se, e de noite estão a pique de eahir nºum precipício, quando em sen auxilio acode Jacob Meyer, levando-os a salvo: para a fazenda. Ahi lbe narram a lenda dos portuguezes mortos haseculos em Bambatse, e do thesouro que deixaram escondido. CAPITULO VII Os emissarios BRIU-SE a porta, e transpol-a Jacob Meyer, seguido por tres indigenas. Benita não os viu nem ouviu; tinha a alma longe d'alli,. No topo do aposento, toda vestida de branco, pois que só no coração usava luto, illuminada pelos raios do candieiro suspenso acima d'ella, permane- ceu silenciosa e erecta, porque se havia levan- tado; no rosto e nos olhos grandes e negros, uma expressão extranha de ver. Jacob Meyer deu por isso e estacou; os tres indigenas deram tambem por isso e estacaram. Quedaram se to- dos quatro, no extremo da comprida sala, pas- mados para a figura branca de Benita e para os seus olhos extaticos. Um dos indigenas apontou com o dedo del- gado para o rosto d'ella, e disse aos outros um segredo. Meyer, que lhes entendia a lingua, comprehendeu o que elle segredara. Era isto : — Olhae o Fantasma da Rocha! — Que fantasma, e que rocha é essa? — perguntou elle em voz baixa. — O fantasma que apparece em Bambatset aquella que os nossos olhos já viram —respon- deu o homem, sempre pasmado para Benita. Benita ouviu o cicio das vozes, e percebeu que falavam a seu respeito, embora não pu- desse apprehender uma palavra só. Com um: suspiro desafogou-se das suas visões e sentou- se n'uma cadeira que lhe ficava a geito. Então, a um e um, Os emissarios approximaram-se- della, e cada um d'elles fez uma profunda ve- nia, tocando no chão com as pontas dos dedos e fitando-lhe o rosto. Mas a seu pae, saudaram- no apenas levantando a mão. Ella olhava-os com interesse, e interessantes, no genero, eram
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BENITA 283 elles realmente; altos e magros, de tez bastante clara, physionomias finas e expressivas. Não havia alli sangue negro, mas antes o de qual- quer povo da antiguidade, como egypcios ou phenicios: homens cujos antepassados haviam sido instruídos e civilisados ha milhares de annos, e que porventura haviam figurado nas côrtes de Pharaó ou de Salomão. Acabadas as saudações, os tres homens aco- coraram se em linha, conchegando as vesti- mentas de pelle, e aguardaram em silencio. Jacob Meyer pensou um momento, e disse: — Clifford, quer dar-se ao incommodo de ir traduzindo, para sua filha ficar certa de que lhe referem fielmente o que ha? Depois virou-se para os in lhes: — Os vossos nomes são Tamas, Tamala, e Hoba. Tamas é filho do molemo de Bambatse, que se chamam Mambo. Tamala e Hoba são seus conselheiros iniciados. Não é assim? Elles inclinaram a cabeça. — Bem. Tamas, conta tu a historia e torna a dar o teu recado, afim de que o ouça esta senhora, que tem uma parte no assumpto. — Que ella tem uma parte entendemos nós — replicou Tamas — Em seu rosto lemos que tem ella a parte principal. E della sem duvida que o Fantasma falou a meu pae. São estas, ditas por minha bocca, as palavras do molemo meu pae, as quaes em tão longa jornada vie- mos communicar. «Quando vós dois, brancos, visitastes Bam- batse ha quatro annos, viestes a mim, Mambo, pedir licença de entrada no terreno sagrado, afim de pesquizar o thesouro que os portugue- zes occultaram em tempo de meu avoengo da sexta geração. Recusei-lhes permissão de ver, sequer mesmo de entrar no terreno sagrado, porque de nascença sou guarda d'esse the- souro, embora ignore onde elle jaz. Acho-me porem agora em grande aperto. Tenho noticia de que o usurpador Lobengula, que é rei dos Matabales, se escandalisou commigo por certos motivos, entre elles por eu não lhe mandar tri- buto sufficiente. Consta que elle tenciona no proximo verão mandar um impi para me exterminar a mim e ao meu povo e tornar o Kraal em. carvão como o veld depois de uma queimada. De pouca força disponho para lhe resistir a elle, que é poderoso, e a minha gente não é guerreira. De geração para geração teem elles feito commercio, cultivado a terra, trabalhado os metaes; são homens dados á enas e falou- paz, que não desejam matar nem ser mortos. Demais, são poucos. Por conseguinte, falta-me. poder para arrostar contra Lobengula, «Lembro-me das armas que vós trazieis comvosco, as quaes podem matar de muito longe. Se eu tivesse uma provisão d'essas ar- mas dentro das minhas muralhas, já eu podia desafiar o impi de Lobengula, cujos guerreiros usam azagaia. Se vós me fornecerdes cem boas armas e copia de polvora e balas para ellas, tenho uma revelação de que me será licito admittir-vos no terreno secreto e sagrado, onde podereis pesquizar á vontade o ouro enterrado, e, se o achardes, leval-o para onde vos aprouver sem objecção minha ou do meu povo. Mas quero ser leal comvosco. Esse ouro nunca será encontrado, a não ser pela pessoa predesti- nada para tal. Assim o disse a dama branca em tempo de meu avoengo; ouviu-o elle com seus ouvidos, e dos seus descendentes o ouvi eu com meus ouvidos, e assim ha de ser. Toda- via, se me trouxerdes as espingardas, podereis experimentar se qualquer de vós é a pessoa predestinada. Eu não creio, porem, que homem algum o seja, porque o segredo está occulto n'uma mulher. Embora! Isso podereis apren- der por vós proprios. Eu apenas falo conforme me ordenaram. «É este o meu recado, dito por minha bocca, que é Tamas, filho de meu corpo, e meus con- selheiros que o acompanham serão testemu- nhas de que elle fala verdade. Eu, Mambo, molemo de Bambatse, vos envio saudações, e vos acolherei com regosijo e cumprirei minha promessa, se vierdes a mim com essas armas que alcançam longe, dez vezes dez d'ellas, e a polvora, e as balas com que eu possa repellir os matabeles, mas não de outra forma. Meu filho, Tamas, e meus conselheiros conduzirão vosso carro ao meu paiz, mas não devereis tra- zer comvosco servos extranhos. O Espirito da mulher branca, que se matou ante os olhos de meu avoengo, tem apparecido ultimamente em pé no extremo da rocha; tambem me tem visi- tado no sitio mysterioso em que pereceram seus companheiros. Ignoro o que tudo isto pro- gnostica, mas creio que entre outras cousas ella desejava informar-me de que os matabeles estão a pique de nos atacar. De presente vos envio uma pequena porção do ouro velho, visto que o marfim pesa demais para ser transpor- tado por meus emissarios, e eu não possuo carro. Adeus». — Ouvimos o que disseste — exclamou
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BENITA PASMADOS PARA À FIGURA BRANCA DE BENITA QUEDARAM-SE TODOS QUATRO...
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BENITA 285 Meyer, quando Clifford poz termo á traducção — e desejamos fazer-te uma pergunta. Que que- res tu dizer quando declaras que tem appare- cido o Espirito da mulher branca? — Quero: dizer o que digo, branco — respon- deu Tamas — Vimol-a nós todos tres, de pé em cima do pincaro, ao romper da aurora; tambem a viu meu pae e com ella falou a sós, quando de noite dormia. É esta a terceira vez em vida de meu pae que ella apparece assim, e é sempre antes de algum importante suc- cesso. —Como é ella? — perguntou Meyer. —Como é? Ah! tal qual como essa dama que alem está sentada. Sim, tal qual, pelo menos assim se nos afigurou. Mas quem sabe? Nós nunca vimos outras mulheres brancas, e não estavamos muito perto d'ella. Que essa senhora, venha pêr-se ao lado do Espirito, para nós as examinarmos a ambas e podermos responder melhor. Acceitaes a proposta do molemo? — Amanhã de manhã t'o diremos — replicou Meyer -Cem carabinas não se encontram de pé para a mão, e não custam pouco dinheiro. Entretanto, não vos faltará aqui que comer nem onde dormir. Os tres homens pareceram desapontados com esta resposta, que evidentemente toma- ram á conta de preliminar para uma recusa. Consultaram-se uns momentos, em seguida Ta- mas metteu a mão n'uma sacola e tirou de den- tro o quer que fosse, embrulhado em folhas secas. Desfeito o embrulho, apresentou um col. lar bellissimo e desusado, de elos de ouro en- trelaçados, e pedras brancas incrustadas, que os europeus não tiveram difficuldade em reco- nhecer por diamantes não lapidados de consi- deravel valor. Do collar pendia tambem um crucifixo modelado em ouro. — Offerecemos este presente — disse Tamas — da parte de Mambo, meu pae, a esta dama para quem não teem serventia alguma o ouro em bruto. Esta cadeia tem uma historia. Quando a dama portugueza se despe- nhou no rio, tinha-a ella ao pescoço. Ao cahir, bateu n'uma ponta de rocha que lhe despeda- çou a cadeia — vêde como está quebrada e con- certada com um fio de ouro. Ficou a cadeia presa á ponta de rocha, e d'ahi a tirou meu avoengo. É um presente para a senhora, se ella prometter usal'a. — Acceita —- murmurou Clifford, depois de terminar a traducção — aliás ficarão escandali- sados. Benita disse pois: — Agradeço ao molemo, e acceito o presente. Tamas ergueu-se então, adeantou-se para ella e enfiou-lhe pela cabeça a antiga e tragica joia. Ao descahir-lhe sobre os hombros, sentiu Be- nita que era uma cadeia, com que o destino a puxava não sabia para onde, esse adorno que fôra usado por aquella mulher, enlutada e des- ditosa como ella propria, que só na morte pu- dera encontrar refugio contra a sua angustia. Tel o-hia sentido ella arrancar do seio, pensa- va Benita, como ella propria, a viva de hoje em dia, o sentira cahir no seu? Os tres enviados ergueram-se, fizeram uma venia e sahiram, deixando-os sós. Jacob Meyer levantou a cabeça como se quizesse interpellar Benita, depois reflectiu e ficou calado. Ambos os homens esperavam que ella falasse, mas ella nada disse. Foi afinal seu pae que rompeu o silencio. — Que dizes, Benita? — perguntou-lhe com anciedade. — Eu? Nada tenho a dizer, a não ser que ouvi uma historia curiosissima. O recad> do sacerdote é para meu pae e para o sr. Meyer; aos senhores cumpre responder. Que tenho eu com isso? — Tens muito, creio eu, minha querida, ou assim o suppunham, ao que parece, aquel- les homens. Em todo o caso, eu não posso commetter a viagem sem te levar commigo, e não o farei contra tua vontade, porque a via- gem é longa e cheia de complicações. O que eu pergunto é se queres ir. Ella meditou uns instantes, emquanto os dois homens a fitavam com olhos anciosos. — Pois sim! — respondeu finalmente, com voz serena — Irei, se assim o desejam, não. porque eu pretenda achar thesouros, mas: porque a historia e o paiz onde ella occorreu me interessam. Verdade verdade, eu não tenho. grande fé no tal thesouro. Ainda mesmo que os indigenas sejam supersticiosos e tenham medo de o procurar elles proprios, duvido que elles lhes consentissem pesquizas, se acaso sup- puzessem que elle se poderia encontrar. A mim não me parece a jornada vantajosa sob o ponto de vista do negocio, e alem d'isso tem. seus perigos. — Nós acreditamos que ella é excellente — atalhou resolutamente Meyer — E ninguem es- pera apanhar milhões sem soffrer incommodos, — Sim, sim — disse Clifford — mas ella tem razão: ha perigos, e perigos serios: as febres, os.
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286 animaes ferozes, os selvagens, e outros que se não podem prever. Acaso tenho eu direito de a expôr a elles? Não é mais justo irmos sós? — Seria escusada a ida —-replicou Meyer — Aquelles emissarios viram sua filha, e envol veram-n'a na sua supersticiosa historia de uma alma, da qual eu, que sei não existirem taes cousas, não creio, aliás, palavra. Sem ella é certo que nada faremos. — Pelo que respeita a perigos, meu pae — disse Benita—cá por mim não faço caso d'elles. O que deve acontecer tenho a certeza que ha de acontecer por força, e ainda quando eu soubesse que era destino meu morrer no Zam- beze, nada me importava isso. Mas o que me palpita, não sei explicar porquê, é que meu pae e osr. Meyer estão mais arriscad 's do que eu. A ambos pertence ponderar bem se devem ex- pôr-se a perigos. Clifford sorriu. — Já estou velho — disse elle — A minha resposta é esta. º eu cá estou habituado a aventuras d'este Jjaez — disse Meyer, encolhendo os hombros — Quem é que não correria algum perigo n'uma contingencia de tal modo seductora? Opulen- Cia, opulencia, opulencia como nunca sonhámos, e o poder que d'ella vem; o poder de vingar, de premiar, de comprar honrarias e prazeres, e todas as bellas cousas que são apenas patri- monio dos ricaços. E Meyer espalmou as mãos e ergueu os olhos, como se estivesse em adoração perante o deus «do ouro. E — Excepto essas ninharias que são a saude e a felicidade — commentou Benita, com uma tintura de sarcasmo, porque tinha uma certa repugnancia por este homem e por seus appeti- tes materiaes, especialmente ao confrontal-o com outro homem, perdido para ella, com- quanto fosse certo que o passado d'este havia sido ocioso e improductivo bastante. No emtanto, as ambições de Meyer tambem a interessavam, pois nunca encontrara em nin- guem taes talentos, tal avidez e tal crueza. — Então, pelo que vejo, é caso assente — disse ella. Clifford hesitou, mas Meyer redarguiu im- mediatamente : — É, é caso assente, pelo menos tão assente «quanto possivel. Ella aguardou um momento que seu pae fa- dasse, mas elle nada disse. — Muito bem. Agora escusamos de nos em- BENITA baraçar com mais duvidas ou argumentos. Va- mos partir para Bambatse, lá no Zambeze, muito longe d'aqui, em cata de ouro enterra- do. Conhio, sr. Meyer, que, caso o encontre, os resultados corresponderão ás suas esperan- ças e lhe trarão toda a especie de fortuna. Muito boa noite, meu querido pae, boa noite. — Minha filha está convencida de que esse ouro nos trará má sorte — disse Clifford, quan- do a porta se cerrou sobre ella. —É a maneira que ella tem de exprimir essa convicção. — Sim —retorquiu Meyer com ar sombrio — Ella está convencida d'isso, e pertence ao numero das taes quessão videntes. Deixalo | Pode ser que se engane. Demais, a questão é esta: devemos agarrar esta occasião com todos os seus perigos, ou deixarmo-nos aqui ficar toda a vida a crear cavallos ruins, emquanto ella, que de nada tem medo, se ri de nós? De- cididamente, vou a Bambatse. Clifford ainda desta feita não deu resposta directa; fez apenas uma pergunta: — Quauto tempo levará a arranjar as armas e as munições, e quanto pode isso custar? — Cousa de uma semana para as havermos de Wakkerstroom — replicou Meyer — O velho Potgieter, o negociante do sitio, acaba de im- portar uma centena da Martinis e outra cente: na de Westley-Richards. Cincoenta de cada, com uns dez mil cartuxos, importarão ahi em 600 libras, e essa quantia possuimos nós no banco. Temos tambem a carriola nova e abun- dancia de bois e cavallos excellentes. Podemos levar comnosco uma duzia de cavallos; e ven: delos por bom preço no norte do Transvaal, antes de nos mettermos nos campos da mosca tsé-tsé. Os bois é provavel que os atravessem a salvo, visto que a maior parte d'elles estão «salgados». — Vejo que vossê pensou em tudo, Jacob, mas olhe que tudo isso representa uma conti- nha calada, sem falar de outras cousas. — Custa, isso custa, e essas carabinas são boas demais para cafres. Quaesquer escopetas velhas serviam, mas não as temos á mão. Mas que importa o dinheiro, e que querem dizer as carabinas, em comparação com o que podem grangeiar-nos ? — Parece-me que o melhor seria consultar minha filha. Afigura-se-me que ella tem ideias assentes sobre o caso. ' — Miss Clifford formou o seu juizo, e já d'alli não sae. Escuso de lhe fazer mais per- guntas — replicou Meyer dci icidho oa I
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| e pa BENITA 287 Em seguida sahiu elle tambem do aposento, afim de dar ordens para a jornada a Wakkers- troom, que logo no outro dia tencionava inten- tar. Mas Chfford ficou alli sentado até depois «a meia noite, a pensar se teria feito bem e se «encontrariam o thesouro com que elle sonhava havia annos, e que sorte lhe reservava o futuro. Ah! se elle pudesse prever! Quando Benita veiu almoçar, perguntou onde estava Meyer e soube que elle já partira para Wakkerstroom. — Está com pressa — disse ella rindo. — Está — respondeu o pae — Jacob está sem- pre com pressa, mas apezar d'isso não tem que louvar-se por esse costume. Se formos mal suc- <edidos, não ha de ser á mingua de pondera- ão e preparo da parte d'elle. Passou quasi uma semana antes que Meyer voltasse, e entrementes Benita aprestou-se para a jornada. Nos intervallos dos seus singelos aprestos, tambem conversou bastante, servindo seu pae de lingua, com os tres soberbos maka- langas, os quaes gratamente se acolhiam ao «escanço depois da longa viagem. A conversa- ção versava sobre topicos geraes, visto que por tacito assenso não se faziam referencias ao the- Souro nem a cousa alguma que lhe dissesse respeito, mas habilitoua a formar opinião fa- voravel sobre elles e o seu povo. Percebeu ella que, apezar de falarem um dilaecto do zulu, elles não possuiam sombras da valentia dos zulus, e viviam realmente com terror mortal dos matabeles, que são zulus bastardos; um terror tal, com effeito, que ella tinha grandes duvidas sobre o serviço que lhes prestariam as cem carabinas, caso chegassem a ser atacados por aquelle tribu. Eram o que antes d'elles haviam sido seus paes: agricultores e operarios em metaes, não gente de combate. Tambem Benita se applicou a estudar quanto pudesse a lingua d'elles, o que não achou difficil, porque, alem de possuir uma aptidão natural para esse genero de estudos, munca se esquecera do hollandez e do zulu, que costumava tagarelar em pequena e que n'um prompto trouxe de novo á lembrança. Dentro em pouco, já falava correntemente em qual- quer d'essas linguas, pois que, alem da pratica, consumia as horas vagas a estudar-lhes a gram- matica e a lel-as. Assim foram decorrendo os dias, até que uma tarde appareceu Jacob Meyer com dois carros escocezes, carregados de dez caixotes compridos que pareciam caixões, e outros cai- xotes mais pequenos mas muito pesados, alem de uma grande quantidade de provisões. Como Clifford previra, nada lhe havia esquecido; até trazia a Benita varios artigos de vestuario e um revolver que ella não tinha encommendado. D'alli a tres dias partiram elles de RooiKrantz n'uma lindissima manhã de domingo em começos da primavera, fazendo constar que iam n'um expedição de commercio e de caça ao norte do Transvaal. Benita lançou um olhar de despedida para o seu favorito recanto, deli- ciosamente remoroso, e para o placido lago que lhe ficava fronteiro, sobre o qual vogavam as aves aquaticas, e suspirou. Para ella, agora que ia deixal-os, aquelles sitios como que per- tenciam ao seu lar, e veiu-lhe ao espirito a sus- peita de que nunca mais os tornaria a ver. CAPITULO VIII Bambatse Perto de quatro mezes passados, a carriola, que transportava Clifford, Benitae Jacob Meyer, acampou finalmente uma noite dentro das ter- ras do molemo de Bambatse, Mambo de nome. Ou talvez que fosse esse o seu titulo, visto que, no dizer de Tamas, seu filho, todos os chefes que iam succedendo eram assim chamados, comquanto nem todos fossem molemos ou re- presentantes e prophetas de Deus ou do Gran- de Espirito a quem elles davam o nome de Munwali. Succedia pois ás vezes que o molemo, ou sacerdote de Munwali, e o Mambo ou chefe eram pessoas differentes. Por exemplo, affirma- va Tamas que elle proprio seria Mambo por morte de seu pae, mas não lhe era dado ter visões; por conseguinte, pelo menos emquanto assim fosse, não lhe competia ser molemo. No decurso d'essa prolongada jornada, tinha- se deparado aos europeus grande numero de aventuras, como aliás era commum aos viajan- tes africanos antes de existirem caminhos de ferro; encontros com animaes ferozes e tribus indigenas, cheias de rios, e, o que foi peior, tres dias passados a curtir sêde por lhes falhar um poço ou fossa onde esperavam encontrar agua. No emtanto, nenhum destes percalços foi em extremo grave, e nunca tinha qualquer dos tres gozado mais saude do que n'aquella occasião, porque tinham tido a fortuna de es- capar ás febres. Até aquelle viver sertanejo e rude tinha convindo extraordinariamente a Be- nita. Quem a houvesse conhecido nas ruas de
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288 BENITA Londres difficilmente a identificaria com a ra- pariga tostada, activa e desempenada que n'essa noite se sentara junto á fogueira do acampa- mento. Tinham-se vendido todos os cavallos, excepto aquelles que tinham morrido e tres que estavam «salgados», isto é, á prova contra a epidemia mortifera d'esses animaes. A gente de serviço tinha sido tambem recambiada para Rooi Krantz, a tomar conta de um carro escocez carregado de marfim, comprado a uns caçado- res boers que o haviam trazido do norte do makalangas, corriao Zambeze, cemfrente d'elles, á distancia de umas dez milhas se tanto, um grande monte isolado, nem mais nem menos que a terra que elles vinham procurar de tão longe, Bambatse, que o grande rio quasi cir- cumdava. Um dos tres makalangas, o que tinha o nome de Hoba, adeantara-se já para annun- ciar na terra a chegada dos europeus. Estavam a descançar no meio de ruinas, a mór parte de forma circular, e Benita, estudan- do-as á claridade brilhante do luar, suspeitou que ellas houvessem sido d'antes casas. Aquelle — SENHORA, OLHA A CIDADE DO MEU POVO Transvaal. Portanto, n'este final de jornada, seus unicos serviçaes eram os tres makalangas, que guardavam e pastoreavam o gado, em- quanto Benita cozinhava a caça morta pelos dois brancos ou o alimento comprado ás vezes aos indigenas. Dias havia já que elles percorriam uma re- gião praticamente deserta, e agora, depois de passarem um desfiladeiro, o mesmo em que Roberto Seymour havia deixado o seu carro, estavam acampados n'uma planura que, a ajui- zar pelos escombros de muro que por todos os lados appareciam, fôra em tempos largamente murada e cultivada. Á direita elevava-se um terreno montanhoso, alem do qual, diziam os sitio, tão solitario agora, fôra sem duvida, ha centenas ou milhares de annos, habitado por uma grande população. Ha milhares de annos, mais do que centenas, pensava ella, visto que alli ao pé, do meio de um d'esses casebres cir- culares, crescia um immenso baobab, que não podia ter presenceado menos de dez ou quinze seculos desde que a semente traspassara o chão de cimento, ainda visivel em redor do tronco gigantesco. Tamas, o filho do molemo, viu-a a estudar estas provas de antiguidade e approximou-se, saudando-a. — Senhora — disse elle na sua lingua, que ella já falava perfeitamente — senhora — repe-
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BENITA 289 tiu elle agitando a mão n'um bello gesto — olha a cidade do meu povo. — Como sabes que era esta a tua cidade ?— perguntou ella. — Não sei, senhora. As pedras não falam, os espiritos são silenciosos, e nós esquecemo-nos. Comtudo, eu assim creio, e nossos paes nos contaram que ha seis ou oito gerações, quando muito, vivia aqui gente em barda, comquanto não fosse essa gente quem levantou estas pare- des. Ainda ha cincoenta annos havia aqui mui- tos, mas agora os matabeles exterminaram- nos, e nós somos poucos; ámanhã verás que poucos somos. Vem comigo e repara. Conduziu-a para o interior de um kraal qua- drangular para gado, que estava perto d'elles. Viam-se lá dentro um hervaçal verdejante e algumas moutas, e pelo meio dezenas de cavei- ras e ossos. — Mataram-n'os os matabeles em tempo de Moselikatse — disse elle — Agora, ainda te es- pantas de que temamos os matabeles e deseje- mos armas para nos defender d'elles, ainda que vendamos os nossos segredos para as comprar, visto que não temos dinheiro para darmos por ellas? — Não — respondeu ella, olhando para o ne- gro alentado e solemne, em cuja alma tão pro- fundos sulcos haviam deixado os grilhões do terror e da escravidão — Não, já não me es- panto. Ao romper do dia seguinte, proseguiram seu caminho, sempre por entre esses vestígios de “povos mortos e esquecidos. Não tinham mais de dez milhas a percorrer para alcançar o ter- mo da prolongada viagem, mas a estrada, se este nome se lhe podia dar, era deveras ingre- me, e os bois, de que restavam apenas quatorze para puxarem o carregadissimo vehiculo, esta- vam magros e estropeados, de forma que a marcha era vagarosa. Já passava do meio dia quando afinal começaram a entrar no que só por arrojada metaphora se podia chamar a ci- dade de Bambatse. — Quando voltarmos, teremos de fazer a jor- nada pelo rio, quer-me parecer, a não ser que possamos comprar gado novo — disse Meyer olhando para os fatigados ruminantes com ar dubitativo. — Porquê? — perguntou anciosamente Clif- ford. — Porque alguns d'estes animaes foram mor- didos pela mosca tsé-tsé, como succedeu ao meu cavallo, e a peçonha está começando a la- sERÕES N.º 10 vrar. Já a noite passada desconfiei d'isto, e agora tenho a certeza. Repare-lhes para os olhos. Foi ha oito dias, n'ageulla moita do veld. Bem dizia eu que não deviamos ter alli acampado. Chegavam n'este momento á cumiada da ser. rania, e logo a pouca distancia se lhes depara- ram as prodigiosas ruinas de Bambatse. De- fronte d'ellas erguia-se um monte, que se de- bruçava sobre o amplo estuario do Zambeze, o qual n'uma grande extensão o protegia por tres lados. O quarto, que lhes ficava fronteiro, a não ser n'uma especie de vereda que conduzia á povoação, era egualmente defendido pela natu- reza, porque a rocha granitica da base se er- guia quasi a pique, cousa de dezeseis ou deze- sete metros. No monte, que ao todo cobriria oito ou dez geiras de terra, e cercados por um profundo fosso ou donga, havia tres cercas de fortifica ções, umas acima das outras, muralhas possan- tes que evidentemente não haviam sido erigidas por mãos modernas. Ao contemplal-as, podia Benita comprehender bem o motivo por que os pobres portuguezes fugitivos haviam escolhido este local como derradeiro refugio, e tinham por fim sido vencidos, não pelos milhares de selvagens que os perseguiram e cercaram, mas só pela fome. Na realidade, o forte parecia inexpugnavel para qualquer exercito que não estivesse armado com peças de cerco. Para aquem d'esse fosso natural, que sem du- vida em antigos tempos se enchera com agua trazida do Zambeze, ficava a aldeia dos ma- kalangas de Bambatse, um agglomerado de setenta ou oitenta miseraveis choupanas, redon- das como as dos seus antepassados, mas cons- truidas de lama e colmo. Á roda ficavam os jardins ou campos cerrados, cultivados com es- mero, e n'esta quadra do anno ricos de cereaes que se douravam. Comtudo, Benita não viu nenhum gado e concluiu portanto que o guardariam, por segu- rança, no monte, dentro das muralhas. Foram descendo pesadamente pela aspera ladeira; e atravessaram em seguida a aldeia, onde as poucas mulheres e creanças embasba- caram para elles com ar de susto. Chegaram depois á vereda que, no extremo, estava blo- queiada com espinhos e pedregulhos arranca- dos das ruinas. Emquanto esperavam que a de- sobstruissem alguns homens que tinham appa- recido, Benita observava a muralha massiça da cerca, com dez a treze metros de alto e talvez uns seis a sete de espessura na base, construi- FoL, 3
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290 BENITA da de blocos de granito sem argamassa, com um embrechado de pedras coloridas formando ornatos exquisitos- Na sua espessura divisava ella uns entalhes, onde evidentemente tinha havido outr'ora pontes levadiças, mas estas ha- viam desapparecido de ha muito. — É admiravel! — exclamou ella dirigindo- se a seu pae — Ainda bem que vim! E meu pae esteve lá em cima? — Não, só estive entre a primeira e a segunda cerca, e apenas uma vez entre a segunda e a terceira. O velho templo, ou o que quer que seja, fica no cimo, e dentro d'elle não quizeram nunca admittir-nos. É ahi que está escondido o thesouro. — Que se suppõe estar escondido o thesouro — corrigiu ella sorrindo — Mas diga-me, meu pae: que garantia tem de que elles nos conce- dam agora essa permissão? Talvez que nos apanhem as espingardas, e nos dêem com a porta, ou antes com o portão, na cara. — Sua filha tem razão — disse Meyer — Não ha garantia alguma, e antes de descarregarmos um unico caixote, convem que a tenhamos. Ah! eu bem sei que é arriscado, e melhor fôra que nos assegurassemos de principio, mas agora já é tarde para fallarmos n'isso. Olhe lá! Os pe- dregulhos já se tiraram; vamos andado, vamos! Estalou o comprido chicote, os pobres bois esfalfados deram uma arrancada nas cangas, e lá transpuzeram a entrada da fortaleza fatidica, a qual tinha apenas a largura sufficiente para lhes dar entrada. Dentro"havia um grande es- paço descoberto, o qual, a ajuizar pelas nume- rosas ruinas, fôra outr'ora cheio de edificações, agora meio occultas pelo capim, pelas arvores e pelas trepadeiras. Era esta a cerca exterior onde, em tempos antigos, tinham a sua casa os sacerdotes e os capitães. Cortando atravez d'ella cousa de cento e cincoenta metros, acha- ram-se a contas com a segunda muralha, iden- tica á primeira, embora um pouco menos soli- da, e viram n'um terreiro de terra batida, sen- tados á sombra por causa do calor do dia, os habitantes de Bambatse reunidos para os sau- dar. A uns cincoenta metros descavalgaram, dei- xando os cavallos mais o carro a cargo do ma- kalanga Tamala. Então, Benita collocou-se en- tre seu pae e Jacob Meyer, e adeantaram-se todos para o rancho dos indigenas, os quaes andariam por uns duzentos, todos homens adultos. Ao approximarem-se, á excepção de um vulto que permaneceu sentado de costas para a mu- ralha, o circulo humano levantou-se todo em signal de respeito, e Benita viu que elles tinham aspecto semelhante ao dos emissarios, altos e sympathicos, de olhos melancholicos e ar timi- do, como de gente que vive dia a dia no terror da escravidão e da morte. Defronte dos euro- peus, havia uma aberta no circulo, e por ella os guiou Tamas. Benita sentiu então que toda aquella gente cravava sobre ella os olhos tris- tes. A poucos passos do homem acocorado de encontro á muralha, com a cabeça envolta n'uma manta primorosamente lavrada, estavam collocados tres tamboretes de excellente talha. A um gesto de Tamas, sentaram-se n'elles os tres, e, como não era cerimonioso que falassem primeiro, ficaram silenciosos. — Não vos impacienteis e perdoae — disse por fm Tamas — Meu pae, Mambo, está im- plorando ao Munwali e aos espiritos dos seus paes que esta vossa vinda seja afortunada e que sobre elle desça a visão do que está por vir. Benita, sentindo perto de duzentos olhares concentrados sobre ella, desejou que a visão não se demorasse; mas, passados um ou dois minutos, o seu espirito começou a afinar com o meio em que se via, e quasi achou prazer n'este extravagante episodio. Aquellas possan- tes muralhas velhas, erectas por mãos desco- nhecidas, que haviam assistido a tantas peri- pecias tragicas; a ronda triplice e silenciosa de homens pacificos e solemnes, os ultimos des- cendentes de uma raça culta; o vulto agacha- do envolto no manto, que se imaginava com- municando com a sua divindade — tudo isto era extranho deveras, espectaculo bem digno de uma creatura farta da monotonia da civi- lisação. De subito, o homem agitou-se, e lançou para traz o manto, revelando uma cabeça encaneci- da pela edade, um rosto espiritual e ascetico, tão macilento que todos os ossos se mostravam, e olhos negros que se erguiam sem vista, como de pessoa em transe extatico. Tres vezes suspi- rou, emquanto a sua gente o contemplava, De- pois os seus olhos recahiram sobre os tres brancos sentados em frente d'elle. Fitou pri- meiro Clifford, e alterou-se-lhe o rosto; de- pois Jacob Meyer, e teve uma expressão de an- ciedade e de pavor ; finalmente, cravou em Be- nita os olhos negros, os quaes assumiram um ar de serenidade e de ventura. — Virgem branca — disse elle em voz baixa
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BENITA 291 TO dd Ii 4 [x | o E, 1)
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292 e suave — para ti pelo menos tenho eu bons prognosticos. Ainda que a Morte de ti se appro- xime, ainda que a vejas á mão direita e á mão esquerda, na tua frente e atraz de ti, digo-te eu, escusas de temer. Aqui, onde conheceste pro- funda angustia, encontrarás felicidade e repou- so, 6 virgem que acompanha o espirito de uma virgem pura e bella como tu, que ha tanto tem- po morreu. Em seguida, emquanto Benita se sentia im- pressionada por aquellas palavras, ditas com tão doce gravidade que, embora não lhes desse credito, lhe traziam uma especie de conforto, elle olhou de novo para Clifford e Jacob Meyer, e, como dominando-se com esforço, ficou si- lencioso. -—Nãotensnenhuma prophecia agradavel para mim, meu velho amigo? — interrogou Jacob — Para mim que de tão longe venho para a escutar? O rosto senil tornou-se immediatamente im- penetravel, desvaneceu-se d'elle toda a expres- são sob uma centena de rugas, e o velho respondeu : — Nenhuma, branco, nenhuma que seja mi- nha missão revelar-te, Investiga tu proprio os ceus, tu que és tão sabio, e lê n'elles se acaso podes, Senhores —proseguiu elle n'outro tom — saudo-vos em nome e na presença de meus filhos. Tamas, meu filho, saudo-te egualmente; cum- priste bem tua missão. Escutae agora... Es- taes fatigados e precisaes descançar e comer; no emtanto, tende paciencia de me ouvir, por- que tenho uma cousa a dizer-vos. Olhae em torno de vós. Estaes vendo toda a minha tribu, que não passa hoje de vinte vezes dez acima da edade infantil, nós que eramos outr'ora in- numeraveis como as folhas d'essas arvores alem na primavera. Por que razão temos perecido? Por causa dos amandebeles, d'esses perros fe- rozes, que ha duas gerações conduziu lá do sul Moselikatse, o general de Chaka, que nos es- cravisam e matam anno a anno. «Não somos bellicosos, nós que temos sobre- vivido á guerra e á mortandade. Somos homens pacificos, que desejamos cultivar a terra, e se- guir as artes que de nossos antepassados her- dámos, e adorar os ceus que nos cobrem, para onde partimos a juntar-nos aos espiritos de nossos avoengos. Elles porem são ferozes e ro- bustos e selvagens, e cahem sobre nós, e assas- sinam creanças e velhos, e roubam nossas mu- lheres e nossas virgens para as escravisar, e le- vam-nos todo o gado. «Onde pára o nosso gado? BENITA «Em poder de Lobengula, chefe dos amande- beles; a custo nos deixa uma vacca que dê leite aos doentes ou ás creanças orphãs de mãe, «E, apezar d'isso, ainda exige mais gado. Tri- buto, dizem seus mutumes, dae-me o tributo, senão virá sobre vós o meu impi, que vol-o ar- rancará com as vidas. «Mas nós não temos gado nenhum, sumiu-se todo. Nada nos deixaram a não ser esta antiga montanha e estas velhas edificações, e uma mancheia de trigo com que vivemos. Assim vol-o affirmo, eu, o molemo, eu cujos antepas- sados foram grandes reis, eu que em mim te- nho ainda mais sabedoria que todas as hostes amandebeles.» E a cabeça encanecida tombou-lhe sobre o peito e deslisaram-lhe lagrimas pelas faces ru- gosas, emquanto o seu povo bradava: — Mambo, é verdade isso. — Escutae ainda ! — continuou elle —Loben- gula ameaça-nos, por isso eu mandei dizer aos brancos que em tempo aqui estiveram que nos trouxessem cem espingardas, e polvora e balas, para nós podermos rechaçar os amandebeles detraz d'estas nossas fortes muralhas, e que eu os conduziria ao local mysterioso e sagrado onde durante seis gerações nenhum branco poz os pés, e lhes permittiria que pesquizassem pelo thesouro que lá está occulto, ninguem sabe onde, esse thesouro que elles pediram licença para procurar ha quatro invernos, Recusei en- tão e expulsei-os d'aqui, por causa da maldição lançada sobre nós pela virgem branca que morreu, a ultima sobrevivente dos portuguezes, que nos prophetisou sorte egual á da sua gente, se acaso deixassemos levar o ouro enterrado por alguem que não fosse a pessoa para isso predestinada. ; «Meus filhos, a alma errante de Bambatse vi- sitou-me; via eu, outros a viram, e no meu somno me disse ella; «Consente que esses ho- mens venham e pesquizem, porque com elles está alguem do sangue a quem é dada a ri- queza do meu povo; e grande é o perigo que te ameaça, porque muitas lanças se approximam». Meus filhos, eu enviei meu filho e outros emis- sarios n'uma jornada longinqua até onde esses homens residiam, e elles regressaram passados muitos mezes trazendo comsigo esses homens, trazendo tambem comsigo outra pessoa de quem — eu nada sabia, sim, aquella que está predesti- nada, aquella de quem me falou o Espirito.» Então ergueu a mão mirrada e extendeu-a para Benita, dizendo :
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BENITA 293 — Digo-vos eu que alem está sentada aquella por quêm teem esperado as gerações. — Assim é —responderam os makalangas —É a Dama Branca que volta de novo a bus- car o que é seu. — Amigos — perguntou o molemo aos euro- peus, pasmados d'este extraordinario discurso — dizei-me, trouxestes as armas ? — Por certo — redarguiu Clifford — Estão lá no carro, das melhores que se fabricam, e mais dez mil cartuchos, comprados por alto preço. Cumprimos da nossa parte o contracto; queres agora cumpril.o tambem, ou preferes que nos retiremos com as espingardas e que vos deixe- mos a braços com os matabeles, apenas arma- dos das vossas azagaias? —Dize tu as condições do ajuste, que nós te escutamos — retorquiu o molemo. — Pois bem! — disse Clifford — as condições são estas: Dar-nos-has alimentos e abrigo em- quanto aqui nos demorarmos. Conduzir-nos-has ao local mysterioso no cimo do monte, onde morreram os portuguezes e está escondido o ouro. Deixar-nos-has fazer pesquizas onde e quando nos aprouver. Se nós descobrirmos o ouro ou qualquer outra cousa de valor para nós, consentirás que o levemos e auxiliar-nos- has na jornada, ou fornecendo-nos almadias e gente para as tripular, afim de navegar pelo Zambeze abaixo, ou de qualquer outra forma que mais facil possa ser. Não permittirás que ninguem nos moleste ou nos aggrave durante amossa permanencia aqui. É este o ajuste? — Alguma cousa falta— disse o molemo — Eis O que é preciso accrescentar: primeiro, que vós nos ensinareis a servir-nos das espingardas; se- gundo, que pesquizareis e descobrireis o the- souro, se tal fôr o destino, sem auxilio nosso, porque n'esse assumpto não nos é licito intro- metter-nos; terceiro, que se por acaso os aman- debeles nosjatacarem emquanto aqui estiverdes, fareis o possivel para nos auxiliar contra o seu poder. —Esperaes pois um ataque? — perguntou Meyer com desconfiança. — Branco, nós estamos sempre á espera de ataque. Estaes pelo ajuste? —Estamos—responderam a uma voz Clifford e Jacob Meyer. E este ultimo accrescentou : — As espingardas e os cartuchos pertencem- te. Cumprimos a nossa obrigação, confio na tua honra e na do teu povo, que cumprireis a vossa. — Virgem branca— perguntou o molemo di- rigindo-se a Benita—tambem estás pelo ajuste? — O que meu pae diz, digo eu egualmente. — Bem! — disse o molemo — N'esse caso, em presença de meu povo e em nome do Munwali, eu, Mambo, que sou seu propheta, declaro que assim está pactuado entre nós, e caia a vingan- ça do ceu sobre aquelles que este pacto rompe- rem. Recolham-se os bois dos brancos, dê-se ração aos seus cavallos, descarregue-se o seu carro, para que nós possamos contar as espin- gardas. Levem-se tambem alimentos para a casa dos hospedes, e, depois de elles terem co- mido, eu, o unico entre todos que alli teem pe- netrado, lhes darei entrada no local sagrado, para que elles comecem a pesquizar por aquil- lo que os brancos desejam seculo após seculo, para que o descubram, se puderem; se não, que partam satisfeitos e em paz. (Continua)
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MEDALHA DE AUGUSTO GIRARDET (Anverso e reverso) ERFÓOSICHOrDE DBELLASNRTES NO RIO DE JANEIRO ouco se sabe na Europa sobre o movimento artistico do Bra- zil, o qual se vae aliás tor- nando digno das attenções da critica. E claro que não se pode esperar que exista uma grande escola de pin- tura ou de esculptura n'um paiz ainda novo, onde a arte tem de contentar-se com uma categoria subordinada entre os interesses humanos. No emtanto, desde o começo do seculo passado que o Brazil tem uma escola de Bellas Ar- tes, e d'ella teem sahido alguns bons artistas, embora não sejam em grande numero. N'um centro mais propicio ao desenvolvimento das suas faculdades, esses artistas teriam attingido uma alta reputação. Basta citar para exemplo o celebre Pedro Americo de Figueiredo, cujo nome andou ha cousa de trinta annos citado na imprensa européa como o de um grande pintor de imaginação. A Exposição, que ultimamente se realisou no Rio de Janeiro, pode divi- dir-se em duas secções: uma compre- hendendo as obras de artistas já con- “ sagrados, outra as de artistas juvenis, que forcejam por conquistar logar na primeira fila. Entre os primeiros, de- vem desde já citar-se dois nomes: Henrique Bernardelli com tres excel- lentes retratos, n'um dos quaes, o do RETRATO por Henrique Bernardelli
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EXPOSIÇÃO DE BELLAS-AR TES NO RIO DE JANEIRO 295 PAIZAGEM A AGUARELLA, por D. Maria da Cunha Vasco sr. Ubaldino do Amaral, uma technica vigorosa se prestou a dar relevo a uma caracterisação singularmente forte e expressiva de uma bem conhecida per- sonalidade; e Elyseo Visconti, primo- roso artista profundamente versado em todos os processos da moderna escola franceza, e que expoz porventura o quadro mais notavel da Exposição, um esplendido retrato, em tamanho natu- ral, de Nicolina de Assis, a esculptora brazileira. João Baptista da Costa é o paizagis- ta brazileiro por excel- lencia. É de primeira ordem como artista de ar livre, com uma pai- xão especial por esses effeitos de lusco-fusco e de aurora, em que a luz diffusa possue uma suavidade cheia de en- cantos. O seu quadro principal, O começo do dia, pertence ao sr. Re- gis de Oliveira, minis- tro do Brazil na Ingla- terra, e acha-se actual- mente em Londres. Devemos tambem mencionar n'este grupo Pedro Weingartner, com interessantes qua- dros de antiguidade pa- gã; Modesto Brocos, que expoz um retrato bem composto e uma bella paizagem; Benno Treidler, com uma pai- zagem impressionista e varias aguarellas vigo rosas, genero em que é mestre reconhecido no Rio de Janeiro; as suas duas talentosas discipu- las, D, Anna e D. Maria da Cunha Vasco, as quaes, ainda na primeira juventude, teem direito a ser contadas entre os ar- tistas feitos, em vista do primor com que manejam o pincel; Gustavo Dall'Ara, com duas bellas marinhas, cheias de linda luz, mostrando como o seu tem- peramento veneziano encontrou no Rio um campo adequado ao seu talento de colorista; e Antonio Luiz de Freitas, que tem predilecção especial por pro- blemas de luz. Entre os novos artistas que rapida- A VESPERA DO NOIVADO por 4. Luiz de Freitas
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296 EXPOSIÇÃO DE BELLAS-ARTES NO RIO DE JANEIRO RETRATO DE NICOLINA DE ASSIS, por Elyseo Visconti mente se approximam da craveira supe- rior, merecem especial menção Eugenio Latour, Rodolpho Chambelland e Anto- nio Fernandes. Eugenio Latour tem estado a estudar na Europa ha cêrca de dois annos e tem mandado para o Brazil umas vinte obras, em que se manifesta um sentimento delicado, uma technica segura, uma paleta limpida, e bellos efeitos de luz. Á similhança d'elle, Rodolpho Chambelland é de ori- gem franceza, e as suas principaes ca- racteristicas são uma certa audacia no tratar effeitos de luz e um delicado sentimento do colorido. Antonio Fer- nandes é um hespanhol, ainda novo, que emigrou para o Brazil aos doze annos, ahi estudou até aos dezenove, em seguida passou tres annos em Roma, trabalhando sob a direcção do pintor hespanhol Barbadan, e regressou agora com uma boa technica e uns doze quadros interessantes, de genero e de paizagem. Augusto Girardet, o medalhista, tem uma copiosa e abundante exposição, e merece ser classificado entre os mais habeis do seu mister. É tão esmerado na medalha, propriamente, como na gravura em pedras preciosas, e os seus medalhões dos diversos presidentes da sonHos, por Eugenio Latour
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EXPOSIÇÃO DZ BELLAS-ARTES NO RIO DE JANEIRO 297 cepublica brazileira são verdadeiros primores. Possue uma technica perfei- ta, unida á invenção e a um encanto notavel. Na esculptura, o unico expositor é o grande artista portuguez Antonio Teixeira Lopes, a quem não precisa- mos apresentar ao publico de Portu- gal, senão quando condignamente po- dermos celebrar nos Serões a sua admi- DN DI do ravel obra e o seu genial talento. Em breve esperamos fazel-o, cumprindo gostosamente um dos principaes arti- gos incluidos no progranima dºesta re- vista. Por agora, folgamos de mostrar, por este ligeiro artigo e pelas illustra- ções que podemos colher, a vitalidade artística que se accentua entre os nos- sos irmãos de além-mar. EFFETITOS“ DE LUZ Photographias de um poeta tO CAHIR DA TARDE 10 LUSCO-FUSCO ELSA — Em S. Pedro de Muel — 1903 Clichés de Affonso Lopes Vieira
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da Japoneza por WENCESLAU DE MORAES Hobe, dezembro de 1905 u Já referi algures, — em paginas que devem correr por ahi dispersas, a lembrarem pobres folhas seccas sacudidas pelas brisas do outomno, — eu já referi algures como na arte niponica, no desenho por exemplo, especialmente suggestivo, a musumêé, a rapariga japoneza, é, em via de regra, esboçada em rapidos traços fugidios, sem preoccupações que visem a im- primir-lhe uma feição individual, uma particularidade phisiono- mica; resumida emfim a um con- tornosinho vago, caracteristica- mente feminil sem duvida, mas tambem caracteristicamente im- pessoal, O pincel desenha a mu- sumé como desenha uma came- lia, ou como desenha uma bor- boleta, para as quaes, — camelia ou borboleta, — a nossa concepção esthe- tica admitte perfeita- mente que se não bus-
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O VESTIDO DA JAPONEZA quem conceder qualidades distinctivas ás petalas ou intensões sentimentaes ao olhar. Referi tambem eu que, passando da arte á reali- dade, do desenho á vida, a mulher japoneza nos offerece a mesma uniforme fluidez de linhas, iden- tica impersonalidade no seu typo; o que, pelo menos, serve a justificar a arte e a absolvel-a do senão de disparatada monotonia, que muitos estra- nhos lhe attribuem. Com effeito (e sem já fallar de hereditariedades ancestraes que véem de longe e igualizam o typo), sujeita desde a tenra infancia a uma meticulosa disciplina educativa, que lhe prohibe o deixar transparecer no rosto os senti- mentos que lhe vão dentro d'alma, — de alegria ou de tristeza, de colera, de despeito, de susto, de desejos, de dor, de tudo que pode emocionar um ser, — as feições da japoneza diluem-se n'uma phisionomia indecisa e inexpressiva, identica em todas, como se uma mascara lhes viesse cobrir as faces, apenas ligeiramente animada de modes- tia, de humildade e de um sorriso. Reparae nos cem rostos, nos mil rostos de japonezas que vos ficam cerca, — na sala de espectaculo, n uma pere- grinação ao templo ou a um campo de cerejeiras em flôr: — todos 209 os rostos vos parecerão os mesmos, como se fossem irmãs gemeas todas aquellas japonezas. Pode pois, n'um estudo de comparação es- thetica, eliminar-se o rosto á filha de Nippon. Assim de- capitada (se a expressão me é permittida), do que resta da sua nudez, as mãos — mãos deliciosas, — e os pés — pés deliciosos, — pouca importancia téem no referido estudo esthetico : as mãos, por umfgesto peculiar a esta gente, desapparecem frequen-
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300 O VESTIDO DA JAPONEZA temente no fundo das longas mangas do Kimono, e os pés nas pregas rojantes d'este mesmo amplo vestido. Fica assim, por exclusão de partes, redu- zida a musumé ao seu vestido, ao seu Kimono: isto é, a uma simples peça de modista, a algumas jardas de fazenda, a um trapo... Se ha encanto n'ella, um tal encanto não poderá derivar de caracteristicas se- xuaes; será, quando muito, um encanto de colorido, de linhas, de ondulações mur- murantes de sedas e setins; ou ainda um encanto de flôr, um encanto de insecto, um encanto de ave de polychroma pluma- gem. Mas ha encanto. O colorido japonez, as gradações dos tons, são primorosissimos e uni- cos, nem ha palavras que os expliquem; véem das côres da na- tureza, por imitação directa, revelando uma intuição prodigiosa nos dotes visuaes do ar- tista, maravilhando, mas fugindo á nossa critica. O japonez é o mais genial colorista «ºeste mundo ; os olhos do estranho poisam por horas, hypnotisa- dos por um enlevo ir- resistivel,na doce polychromia de um vestido de mulher. Quanto ás linhas, o Ki- mono constitue talvez o trajo feminino mais gracioso; e esta forma quasi de tu- lipa, a que elle se amolda, quando, descendo cingido ao corpo, se alarga em ca lice sobre a esteira do pavimento, é incomparavel. A manga, a manga enorme, resume em si e pelo gesto o inteiro poema da musumé; se a musumé chora, é a manga que vem cahir-lhe em véo por sobre o rosto, para occultar lagrimas que não devem ser vistas; se ella ri, é a manga que vem tapar lhe a bocca, para abafar gargalhadas que não devem ser ouvidas; segredando uma phrase e incli- nada sobre a orelha confidente, é a manga que poisa sobre os labios, para abafar o som da vóz; no theatro e sem duvida na vida pratica, o reter na mão tremula uma ponta da manga da donzella, indecisa ou desdenhosa, é o gesto de supplica que um apaixonado lhe dirige, de joelhos; um poeta dos velhos tempos, como invocação de amor e de saudade, pergunta a si proprio que manga de Kimono roçou pelas flôres do seu jardim, para as deixar tão perfumadas; por ultimo, n'um vestido que não tem algibeiras, a manga serve de cofre, de bolsa natural, onde a mu- sumé guarda o seu dinheiro, o seu lencinho, o seu espelhinho, os seus perfumes. . .
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acaso a carta recebida ás escondidas, que irá ser lida com deleiteemhoras propiciosas.. Vae-se fazendo luz n'esta materia, Entre a Senhora Bago de Arroz, entre a Senhora Chrysanthemo, entre a Senhora Pri- mavera, podem estabelecer-se preferencias de- cisivas. A musumé pode ser discutida, julgada, apreciada, querida até, pelo grau do mimo colo- rista do vestido, pelo grau de gentileza do córte do Kimono, pelas curvas da seda, pela graça na mimica das mangas, pela dedicadeza do te- cido. Com respeito a esta ultima questão, nada: | O VESTIDO DA JAPONEZA 301 iguala — do que se tece em todo o mundo, — a leveza, a fléxibilidade, a maciez da seda japoneza, do crépe por exemplo, o Chirimen—uma das grandes maravilhas sa- hidas dos teares de Tokyo e) de Kyoto. — Constitue uma delicia palpar nos (de- dos um pedaço de tal seda; sobre os labios, deixa a impressão de um pecego beijado. E, aproposito, ide beijos: nunca peças, tou- riste, um beijo á japoneza, porque a offenderias cruelmente, não sendo o galanteio admittido no Japão; o. famoso methodo de João de Deus, não o da cartilha, mas o dos beijos, não me- nos famoso, apresentando como dogma que «um beijo na face pede-se e dá-se», não poderia ter curso n'este imperio; mas poderás talvez beijar, sem que a mu- sumé o saiba, dissimulando o gesto... o seu vestido.
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You know RAM invariavelmente seis horas da manhã quando, no verão, o tio Feira sahia do monte. Sentado no burro, sobre uma golpelha que «cobria o albar- dão e levava de um e de outro lado a fructa para a venda, o tio Feira rece- bia alli as en- commendas : —Se me trouxes- se um avental? — dizia uma das rapa- rigas estendendo- lhe um saquinho com o respectivo dinheiro. — Metro e quarta, basta. — E a mim, linha para umas meias —accrescentava outra, entregando- lhe egualmente um saquinho com di- nheiro. Os saquinhos agglomeravam-se ; homens e mulheres tinham, diariamente encommendas que fazer: — E era assucar, chá, café, tabaco, papel, sobrescripto e estampilha para uma car- ta, rapé, emfim, tudo; e não havia memoria de elle trocar uma encommenda, nem de falhar um pedido ! De forma que, á noite, ao entardecer, o re- gresso do velho era aguardado com indes- criptivel interesse, principalmente em dia de correio, quando elle ia por cartas ou chegava ao quartel do regimento, a ver al- gum soldado da fami- lia! Porque de familia se consideravam todos, vivendo juntos, an- nos e annos, sem se lhes dar contas senão pela sementeira e a colheita ! O tio Feira era um velho soldado liberal, companheiro do real senhor D. Pedro IV e conservando pela sua preciosa memoria o culto da mais commovente veneração. O maior desgosto d'elle fôra a pressa com
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O TIO FEIRA 303 que os filhos, robustos rapazes do campo, haviam feito o serviço militar ! Sempre cheios de licenças, pedidas pela mãe, que nanja elle! que a lingua lhe parasse na bocca á hora em que elle pedisse para um filho se esquivar ao seu dever! Andava dobrado ao meio, pelas dôres rheu- maticas, apanhadas nas costas, pelas invernias rigorosas, por algumas balas alcançadas, mas o seu espirito estava vivo e firme como se tivesse ainda vinte annos! — A sua alegria era constante, o seu bom humor era notavel. “Tudo tinha de acontecer, quanto acontecia. — Em cada um nascendo, trazia no livro do des- tino todos os dias de vida contados até á hora da morte ! E, no entretanto, o tio Feira era um crente eum devoto. Ouvia missa, confessava-se, com- mungava; e ás noites, ao terço, quando a se- nhora o resava em communidade com todo o pessoal que queria associar-se, desde o mais graduado ao mais humilde dos creados, o tio Feira era o mais assiduo de todos! Pelos vivos, pelos mortos, pelos seus amos e bemfeitores, pela Familia Real... Havia dias em que elle contava, sentado no poial do forno, aquella triste guerra, aquellas maldades... todas ... como tanto haviam confiscado aos seus amos... — Ah! se o senhor doutor vivesse!... E as perguntas choviam, e a attenção redo- brava, quando elle contava que o seu amo vinha quasi de noite vestido de carvoeiro, com dois burrinhos carregados de carvão... e só então via a senhora! — E o morgadinho, o fi- lbito mais velho, ficava passado ao avistar o pae; mas... caladinho... porque se não po- diam matar o seu paesinho. E mataram, mais tarde, depois da paz; ma- taram-o á traição... Ah! mas Nosso Senhor não dorme e isto aqui são dois dias ! Depois d'estas conversas, o velhote ficava vibrante, rejuvenescido; mas toldavam-se-lhe sempre os olhos de lagrimas!... Levantava- se muito dobrado, mas ainda erguendo o busto ; oscillante o corpo todo, nas pernas delgadissi- mas de polaina e calção, trazia quasi sempre o largo chapeu de Braga deitado para traz, uma pontinha de cigarro ao canto da bocca e um varapausinho para se apoiar. Annos e annos se passavam sem, que de verão ás seis e de inverno ás sete horas da manhã, elle deixasse de sahir do monte, Ora era o leite que se ven- dia, ora o almece, ora as fructas, que tantas eram e o consumo não dava vasão! Aquellas vendas eram um pretexto para umas tantas pobres velhas da cidade, viuvas, irmãs de crea- das, etc., terem onde ganhar o sustento, sem a capa humilhante da esmola, visto que ainda podiam trabalhar ! A tia Maria Veronica, uma velhinha de se- tenta annos, quasi sempre lhe dava uma cha- vena de café bem quente, no inverno, — café como só ella sabia torrar e preparar, café como não havia em parte nenhuma! Cheirava que era um consôlo ! E no verão era então um capilé que o aguar- dava, capilé que ella aprendera a fazer no con- vento com a senhora D. Luiza Francisca, mãe de uma senhora freira, e que ninguem sonhára em preparar melhor. O tio Feira sentava-se então e fazia as suas contas de cabeça! Contas certissimas, mathe- maticas, eguaes ás d'ella, que não perdia nem dez réis de um melão ou de uma melancia: — Porque vossemecê bem sabe, ti Feira, eu . sempre dou o meu melanito lá a uma creança ou outra, ou a alguma pobre que não ha de comer só pão ! Isto a senhora não se importa; vossemecê diga-lhe lá, sim? Porque se não, parecia que eu roubava..... — Crédo! Ora que lembrança, a senhora dizia lá isso? nam que ella nam sabe quem a genteé!» Havia annos que só aos domingos o pobre velhote descançava, e então ia quasi sempre de tarde para a lareira e contava á senhora como a sua tia avó, D. Margarida, creára os cinco sobrinhos orphãos de pae e mãe — por- que a senhora não resistira á morte do marido— como elles haviam sido espoliados e a nobilis- sima tia os educára milagrosamente ! Para o mais velho estar em Coimbra, houve dias em que quasi comeram só pão os pequeninos! E como depois elle, mais tarde, reconquistára os bens da tia, que andavam em caseiros des- honestos; como dotára os irmãos, e chorára a irmásinha de oito annos... cujo dedalsinho conservára até á morte, com a pequenina cos- tura, no cestinho ! — Ah! se elle não morresse, os bens con- fiscados voltariam..... Mas assim tinha de ser... e foi E, muito dobrado, despedia-se e lá ia deitar- se..... Tinha d'ir cêdo para a cidade. N'aquelle domingo, porém, aconteceu haver chegado um destacamento, e a mãe de um sol-
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304 dado, que havia de vir, pedira-lhe na vespera : — Se vomecê pudesse, ti Feira, dava lá uma saltada, ámanhã, e dizia ô mê Zé que pedisse lecença e viesse. Assim fôra, logo ás seis horas; mas então sem encommendas. E era já tarde... tardissimo, sem haver ain- da regressado !4 Já se não contavam as vezes que a pobre mãe do soldado, na altura do monte, investi- gava, com o olhar, o horisonte indefinido, deslumbrante !... O horisonte illimitado do Alemtejo, que á hora do sol posto offerece espectaculos unicos, incomparaveis ! No verão, uma orgia de purpuras diaman- tinas|beijando o ouro fulvo das seáras; no inverno, o roseo dourado incomparavel cahin- do, como uma nuvem, na alfombra avelludada e esmeraldina.... Uma alfombra ondulante que de longe se assemelha ao mar ! O Alemtejo é avaro em arvores, todo elle se desdobra em tapetes mais ou menos floridos, de côres vivas e alegres, d'espigas douradas e pendidas.... 1 Já era, pois, vencida de ir e voltar que a pobre creatura avistou ao longe, distrahida- mente sentado no burrinho, o desejado ti” Feira. E parecia-lhe um sonho como elle havia de chegar! — Viu lá o mê Zé ? — perguntava ella aju- dando-o a desmontar para cima da pedra, onde elle costumava encostar o burro para subir ou descer, —Despache, homem de Deus, parece que vem assim a modos que parvo ! — Vio tê Zé, sim; elle vem bom e ámanhã por hi está! Ahi te manda roupa, uma cêra de figos e um pá de escolate... — Tome lá um bocadinho. .. — Não, não.,. não quero... E Deus te dê O TIO FEIRA santas noutes. Se a senhora préguntar, diz le que venho assim asoinado e amanhã lá vou fallar.... E passando a arreata pelo braço, mais dobra- do ainda do que nunca levando os olhos ra- sos de lagrimas, o ti” Feira lá foi.... com o burrinho ! Elle sahira na ideia de ouvir missa, na cida- de, cousa que ha annos não lhe succedia. E ouviu. Dirigiu-se depois ao quartel. Ca- sualmente, o regimento estava formado ; sen- tado no burro, encostou-se a uma parede! Ficou vendo !.... Seria exercicio talvez! Elle entendia todas as vozes de commando e ria sósinho. .. O Senhor Duque da Terceira... o marechal Saldanha, aquillo é que era... Mas de repente soou-lhe aos ouvidos o hymno da Carta e a bandeira appareceu... Ta haver juramento. O velho sentiu passar por deante dos seus cançados olhos..... o esplendor luminoso do passado... reviu, de repente, tudo, e sobre tudo. .. um vulto fino, insinuante, heroico: o vulto do seu Imperador Saltou do burro, sem o menor auzxi- lio... tirou o chapéu e... a tremer e a chorar, ouviu em conti- nencia aquelle hymno sa- grado! Hymno de tanto sacrificiode tantallagrima, | — de tanto amôr!.. Lisboa, outubro, 905. MARGARIDA DE SEQUEIRA,
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SERÕES N.º 10 Ho Padre Manso Não chores tanto, não te aflijas tanto, Mer: pobre Amor: — Nem sempre a vida é para nós o encanto Do Géo azul, dos roseiraes em flor. Nem sempre a vida é bôa ; e neste dia Em que a dôr te allucina e esmaga e dilacera, Julgas morta de vez toda a tua alegria E perdida e fanada a tua Primavera. Eu presinto, eu conheço o grande sofirimento Que entenebrece agora o teu olhar tranquillo : Mas é maior do que elle o eterno esquecimento, E um dia has-de pensal-o — e nem poder sentil-o. E depois, meu Amor, não ha sonho de gloria, Não ha sorriso bom, não ha paz ou belleza Que não deixe um clarão, um rastro na memoria A que a gente se aqueça em dias de tristeza. Nunca Dezembro foi capaz de destruir Toda a graça que veste a Natureza em Maio : Ha frio, ha vento, ha chuva-—.e as rosas a florir Dão perfume e dão côr ao funebre desmaio. * Olha: houve um tempo em que, buscando o Sol em braza Sobre a Terra fecunda e prenhe de energias, Florestas collossaes, dentre o ferver da vasa, Erguiam para o Cho as altas ramarias. Nas arvores em flor cuja elegancia altiva Cortava o azul do ar com gestos quasi humanos Uma seiva inquieta e moça e ardente e viva Era como a volupia em corpos de vinte annos Vertiginosamente. impetuosamente, Ascendia a correr, subia a palpitar, E só parava quando o Sol, vum beijo ardente, Nas folhas verdes a fazia descançar. Nas folhas verdes, que entre a fluidez Da iransparente e fulva atmosphera, Bebiam luz, sorviam luz — com a avidez De quem alcança emfim a sonhada chimera. Bebiam luz... Sorviam luz... D'instante a instante Despontavam botões, explodiam rebentos — Novas boccas sugando a luz do Sol radiante, Nºuma ancia d'amor, com desrjos violentos. E tanta claridade aureolava então Os troncos juvenis, duma esveltez de mastros, Que mesmo á noite, sob a funda escuridão, Das florestas sata um doirado clarão Como o brilho immortal d'enormissimos astros ! é FOL, 4
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306 A FLORESTA + Mas todo esse esplendor, toda essa claridade, Toda a luz embebida e presa no arvoredo, Desapparece um dia e morre no saudade D'uma noite perpetua e d'um triste degredo. Foi o sólo crescendo á volta das florestas. E crescendo e trepando e afogando afinal — Na avançada continua, em victorias funestas— Os troncos hirtos d'uma altura excepcional ! E onde houve luz e força e vida e energia, E a verde confusão das folhas rumorosas, Um pedaço de terra, adormecida e fria, Amortalha de vez as frondes gloriosas! Nem sequer se adivinha um ramo ou uma flor, E a auréola que os cercou, perennemente accesa, Não deixou um vestigio, um resto de esplendor... Fôra inutil o Sol--e ingrata a Natureza... * Milhões Vannos depois, um homem que vuscava Pedras para abrigar o lume que accendera, Ao revolver o solo onde a floresta, escrava Da terra impicdosa, emfim adormecera; Trouxe na sua envada um blóco empedernido — Seixo pela dureza e pelo aspecto lama — Que posto ao pé do lume ardeu, foi consumido Erguendo nobremente uma rutila chumma, E o homem foi cavando a inexplorada mina, Pasmado, sem saber como essa pedra inerte Se desfazia em luz, na eterna luz divina Que a noite nunca vence, e o ml nunca perverte ! Sem ser que viver ali, sob os seus pés, Uma grande floresta em plena mocidade, Que feita pedra emfim, conservára atravez Da funda escuridão, da negra frialdade, A antiga luz, a primitiva claridade .. Porque era o Sol que ardia agora novamente, —Um Sol que tinha visto as distantes origens— Trazendo ao mundo velho o brilho adolescente D'uma era de gloria e de energias virgens! * Pois assim como a Terra abrigou e escondeu A luz, a juventude em seu vigor perfeito, Assim tambem o amor, o sonho que foi teu, Deve ninda viver no fundo do teu peito: Vae procural-o bem: desenterra o passado: Que a saudade to queime —e desperte o esplendor D'um momento distante e bom e sempre amado... E á sua chamma aquece o coração gelado, Meu pobre Amor !... Janeiro 1908 João de Barros
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Ra ci di ci a ii Id os attributos sono- ros da vida lisbo- nense ao ar livre, são os pregões dos vendilhões os uni- cos que desde a in- fancia nos costumá- mos a ouvir, umas vezes com complacencia, outras com vivo prazer. Não enfadam nunca. Sanfonas, realejos, cantores ambulantes, — tambem de manivela, ao que parecia — houve alguem a cuja benemerencia devemos não cir- £ularem já pela capital. Seriam intoleraveis as campainhas dos electricos, se o seu desappa- recimento não puzesse em risco de vida os transeuntes incautos. Os sinos, que ha mais de quatro mil annos atordoam a humanidade, nunca como ao presente provocaram tanta aversão; apesar da Historia nos dizer que o seu silencio, quando longo, é signal de suspen- . São nas regalias civis, ha alguns mezes, em Pa- ris alguem pensou em supprimil-os. Semelhante eliminação seria tão barbara como é culposa a indifferença manifestada ul- timamente em Lisboa ante a intemperança «alguns sineiros virtuoses, completamente em- pedernidos de coração... e de apparelho au- ditivo. Às horas matutinas em que uma sombrinha aberta seria offensa grave á luz temperada dum sol acariciador, sitio nenhum de Lisboa oferece maior interesse que o mercado prin- cipal regorgitando de gente, da qual são ven- dilhões a maior parte. É vêl-os então nos car- reiros formados na lide afanosa de transpor- tarem para fóra da Praça todo o fornecimento do dia. Terminado elle, vendedores e vende- deiras disseminam-se pelas ruas, cruelmente ajoujados. Pasma-se então de como algumas d'ellas, racas na apparencia, de pescoço rete- zado, susteem gigas que são como que base d'enormes cones dehortaliça;e lá seguem assim soltando o seu pregão n'uma frequencia que nos diz elle animal-as na rude labuta, como o cadenciado ordinario suavisa a um troço de soldados as fadigas de longa e penosa marcha. Regressando d'uma excursão á capital do norte, Pinheiro Chagas deixou escripto que, no Porto, os vendilhões apregoam por apre- goar; apregoam porque assim convém á sua industria. Em Lisboa é vulgar poder-se no- tar o contrario. A vendedeira, principalmente, emitte o seu pregão com certo garbo indica- dor do empenho em dar realce a esses farra- pos melodicos que por ahi se ouvem cantar. — Cantar ! — exclamará, indignado, algum frequentador do Lyrico ao suppôrmenoscabada a arte que idolatra. Cantar ! affirmamos, sem perigo d'impropriedade, nem proposito de des- prestigio. Cantar, cantam esses que ahi vêdes, quando apregoam o Dia, as Novidades, a Pa- rodia, e, ordinariamente, por instincto, vão modulando a voz, fazendo-a subir ou descer conforme a vogal sobre que recahe a accen- tuação do vocabulo. Cantar, cantamos todos quando tfallamos, asseverava um dia Saint- Saêns cahindo a fundo sobre um contradictor a quem a convenção da opera beliscava os melindres d'estheta. Um ouvido musical, bem exercitado, poderia notar as series de sons produzidos na decla- mação d'um discurso. Ora, para os cantos dos vendilhões, nem tão apurado ouvido é pre- ciso. Hoje em dia, o que já se torna difficil n'al- guns... é agarral-os. Ha uma vintena d'annos a colheita dos pre- gões era ainda empreza facil. Algum conheci- mento de solfa, um lapis, papel com a respe- ctiva pauta, duas voltas pelas travessas e ruas
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A MUSICA DOS VENDILHÕES CANTAR, CANTAM ESSES QUE AHI VÊDES. da Baixa, e de mais não se necessitava para trazer fartura d'elles. Actualmente, o caso é outro, porque as vantagens do progresso não as fruimos nós gratuitamente. O facho que o symboliza, seirradia claridade, é á custa do que vae reduzindo ás cinzas do olvido nos usos e costumes do patrimonio na- cional. Pouco a pouco, Lisboa perde de cara- cterístico, não só nas zonas principaes como tambem n'alguns bairros populares, ondt dia a dia se vae desvanecendo esse conjuncto de traços, outr'ora tão vincados, de que se com- punha a physionomia das nossas ruas. Quem nunca tenha vindo á capital, se quizer conhe- cer o que foram durante seculos os habitos da população, não percorrerá as largas aveni- das, nem as principaes ruas da Baixa, onde já não são poucos os predios em que até as man- sardas parecem ameaçadas da invasão d'escri- ptorios e agencias commerciaes. Terá d'enve- redar pelas ruas estreitas e tortuosas, onde o movimento exterior é menos animado e o das almas que ahi vivem mais espontaneo e impul- sivo. Ahi poderá colher ainda em flagrante o caracter da nossa gente nas suas varias moda- lidades; irá surprehendel-a nas occupações normaes, pois que lá a vida decorre meio dentro, meio fóra de casa ; verá como ella pal- pita na alacridade do riso e no soluçar das lagrimas presenceará, emfim, o que em gera- ções successivas foram as ruas de Lisboa tão curiosas d'aspecto, tão cheias de pittoresco nas suas figuras populares. D'essa galeria vastissima, os melhores exemplares são os mesquinhos commerciantes com cujamercadoria carregam. Comecemos por uma figura typica que, não sendo originariamente nossa, por longo tempo andou ligada como nenhuma aos casos e cousas das ruas olisyponenses. Elleahiestá,divergindo apenas do que era nos seus tempos florescen- tes em que o Alviella não nos saciava ainda a sêde, na chapa numerada que lhe parece sus- pensa do umbigo. Quanto ao mais, é a mesmis- sima figura, porque o aguadeiro, gallego de na- cionalidade, é a constancia em pessoa. Sobrio, pacato, resignado nas suas funcções de carre- gador resistente, indiferente a tudo que para elle não represente augmento de fundos, o gallego, oriundo d'uma região rica de cancio- neiro musical, quando ao passar por Las Por- tillas começa a sua viagem migratoria, esquece quantas canções ouviu. O assobio, tão peculiar aos typos da rua, é prenda n'elle desconhecida. Subordina todo o seu sentimento musical ao pregão da agua, summario quanto possivel no seu justo intervallo de quinta:
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A MUSICA DOS VENDILHÕES 309 Mas circumstancia digna de notar-se é que ha gallegos exi- mios na fórma de fa- zer ouvir o curto apregoado. O porta- mento e o smorzando, as caracteristicas pri- ncipaes do canto lar- go italiano, não é ra- ro elles empregarem- n'os com verdadeira pericia. Alguns exa- geram até o primeiro destes artificiosos ef- feitos empregando o glissé. E quanto á nota agu- da, ha tal que a fila com a suavidade indizivel com que um artista do bel canto faz diminuir gradualmente um som a ponto de parecer vo- latisar-se. D'onde se conclue que o aguadeiro não serve para a declamação lyrica de Wa- gner. Grande parte dos vendi- lhões circumscrevem hoje o seu giro a sitios afastados da Lisboa faustosa. São esses, «'ordinario, os mais curio- sos d'aspecto. Actualmente, só por acaso se topa fóra dos bairros modestos com a figura do bufarinheiro com o seu sortido de fitas e movellos, fivellas e colchetes, agulhas e alfine- tes e um cento mais de bagatelas, — sortido completo em que o negociante empregou o capital de cinco ou seis tostões e traz no mos- truario, pendente do pescoço, percorrendo as ruas a apregoar : AGULHAS E ALFINETES = Outra figura, e essa extremamente caracte- ristica, que, cremos bem, nunca poz pé nas avenidas no exercicio do seu mister, é a preta do mexilhão. Bradaria aos .céos, na parte ho- dierna da capital, sentir-se a lusidia e anafada bahiana a esganiçar-se no : ERESRESSSESE DO -OUUVU N.---RUU Tambem por esses sitios de luxo, onde a electricidade já vae tornando raros os bicos incandescentes, é porcerto excessivamente ma- gra a freguezia do homem do petroline. Ha de ser raridade ouvir-se por lá entoar, á hora crepuscular em que o sol esmorece no occaso, este retalho melo- dico tão embebido de me- lancholia, do qual menos prosaica applicação devia mem ter merecido o destillar a mei- guice insinuante do canto da se- reia : A PRETA DO MEXILHÃO uma lithographia de 1835 OR! auto dic RT O leitor deve têl-o escutado recentemente em theatros lisbonenses, se não no palco de
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310 A MUSICA'DOS VENDILHÕES S. Carlos, no da Trindade, na pa- rodia á Aida, cuja partitura, do sr. Julio Neuparth, é das cousas de gei- to, feitas estes ul- timos tempos em musica scenica. São os primeiros compassos do can. tabile de Amneris, em principios do º acto da Aida. Seria fortuita a coincidencia? Com perdão aos manes de Verdida approximação ir- reverente: o es- tro do operista insigne terá trope- gado com o do homem do petroline ?. . Não nos é facil discriminal-o, comquanto nos in- clinemos a que este pregão é mais antigo que a Aida em S. Carlos. Quem talvez nos pudesse esclarecer o caso é um amigo nosso, a quem, como a Kastner e a Charpentier, mordeu um dia a tarantula de notar os pregões da sua terra. Mas ignorando nós como elle tomaria a pergunta, não convém consultal-o, porque, — quem tal imaginaria ! — esse vendedor que por sobre os passeios da Lisboa antiga, candida- mente, merencoriamente, vae arrastando o seu pregão em tom de sentido lamento... esse vendedor, por todos considerado creatura sin- gela, é um finorio da gemma. Um dia o nosso amigo dispoz-se a recolher-lhe o pregão, e eil-o na peugada do homem do petrolinc e do azeite doce; mas este, que alem de vendel-o dir-se-hia tambem bebêl-o, adivinhou-lhe as in- tenções, e quanto mais um caminhava, mais o outro emmudecia. E assim se foi a scena pro- longando, a ponto tal que o nosso amigo, sen- tindo-se já sem pernas, n'um esforço de von- tade, acercou-se do homem do petroline e, honteux et confus, rogou-lhe a audição do pre- gão. O vendedor fez então ouvir a sua nénia e o annota- dor, descobrindo-se, apresen- tou-lhe os seus agradecimentos. PITROLINE ! O pregão do homem das ostras: FEEs Quem quev volras ookras é curto, sacudido, rijo como a concha do mol- lusco. Vê-se que o vendedor d'ostras não pode perder tempo, por causa do que lhe gasta o abril-as. Já se não dá outro tanto com a melopéa do homem dos ossos : Css ie dam bad E ow larkão quanto a nós, o mais curioso dos pregões de Lisboa. Nenhum, tanto como elle, reveste o ca- racter da nossa canção popular no melancho- lico arrastado da musica que os mouros, her- dando dos arabes, fizeram conhecer á nossa gente. Deviam ser no estylo d'esta, na lango- rosa insistencia das tercinas, na irresolução rythmica proveniente d'algumas notas synco- padas, as toadas a que outr'ora o nosso povo chamava aravias e tão bem se identificavam com a sentimentalidade portugueza. Tambem vagarcsa, mas muito diversa pelo seu aspecto moderno, a musica volta e meia ouvida ao homem dos quebra-luzes. Não tem eilea noção n do que o tempo. vale: N Nem os perfidos zigue- zagues das bicyclettes, nem a celeridade as- sassina dos automo- E: ABRINDO AS OSTRAS
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A MUSICA DOS VENDILHÕES 3m veis, fazem que este vendedor ambulante, inte- meratamente postado a meio da rua, deixe d'apregoar em adagio : Um pregão cujo desenho melodico deve ser d'importação é o dos galleguitos que por ahi andam, em geral aos pares, com uma caixa de ferramenta a tiracollo. Em que se empregam ABAT-JOURS, ABAT-JOURS ! ao qual o lamento da nota sustentada presta um ar de plangencia, proprio da lamuria em que pedem esmola. Os hortaliceiros não teem, em geral, como tambem os peixeiros, um typo certo de pregão. Naturalmente, sendo aquelles quepoderiamos considerar clas- sicos excessiva- mente pobres de plasticidade, estes vendedo- res, custando- lhes a fixar o aspecto sonoro desses apre- goados, ado- ptamuns quaes- Á CATA DE Ossos dizem-no alguns utensilios que a caixa não quer, mais ou comporta e que lhes servem para o mister de | menos amor- deita-gatos e arranjos de chapéos de sol. Alli, phos, apenas porém, campeia a miseria a evidenciar-se na pela necessida- carne a espreitar pela roupa esburacada,o que de de que a fre- diz com o pregão : guezia os sinta. Mas se isto suc- cede com as couves e os es- pinafres, po- dendo-se mes- mo dizer que CONCERTA CHAPEUS DE SOL!
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312 A MUSICA DOS VENDILHÕES abrange toda a hortaliça, já se não dá por exemplo com as azeitonas, que, quer sejam elles a apregoal-as, quer sejam as raparigas que por ahi as mercadejam d'alguidar á cabeça, ouvem-se invariavelmente annunciadas por este pedaço de musica : Quemugpueranei Ko — nas mónoa Para ouvidos exercitados, estes compassos de valsa dão a impressão de sequencia, de con- tiguidade. Lembram um fragmento d'uma idéa me- lodica de que se não ouviu o princi- pio. Continuando, chegámos aos fructos, com um dos quaes, o mo- rango, se dá uma anomalia medonha no que respeita a quem vende o ca- baz d'elles. Pode ha- ver quem lhes pre- fira outra fructa; gostos não se discu- tem. Mas de todas as fructas, cuja abundancia e varie- dade enriquece os nossos vergeis, ne- nhuma como o mo- rango reune tama- nho peculio de pre- dicados tentadores. Elle agrada á vista na graciosidade da sua fórma curvili- nea; alegra-a na côr enrubescida; é um regalo para o ol- facto no aroma que rescende; para o paladar uma delicia no seu sabor finissimo. E depois possue uma qua- lidade inapreciavel: — não é fallaz como o melão, a melancia e tambem a laranja, com toda a sua proa. O morango é o que alli está, offerecendo por isso ainda de bom poder-se- lhe avaliar a intensidade do sabor pelo tom rubro que apresente. Mas é sensivel, melin- droso, creou-se para mãos femininas, e, portan- AZEITONAS NOVAS ! to, é deploravel que quem solte o formoso pregão : Mecadca-Paz de mol ram - - 9% a que a curva franca e graciosa do intervallo de sexta imprime donaire e distincção, dire- mos até coquettismo, — seja tanto a miude o genuino saloio coberto de pó, a rebentar de manha, e ainda por cima suarento e mal chei- roso. E" uma indignidade !... A amora negra e fria incumbe-se o rapazio de vendel-a, ao som d'um trecho de melodia que, pelo italianismo puro, parece inspirado em Donizetti. Eil-o : EEcESEEtE ue a mova da” hov.. FREE Do figo aberto e rugoso é quasi sempre ven- dedeira mulher entrada em annos. Razão por que se ouve tanta vez como que em grita : A laranja não tem typo fixo de vendedeiras Ou é a collareja ainda de carnações frescas, quando novel na profissão; ou a varina mo- rena e viva, esbelta como a palmeira, que ven- dendo peixe pela manhã, á tarde, n'um pisar ligeiro, com os quadris em saracote, passa can- tarolando : Er E Heuca aanvja- dar Chi. - mo D'accordo com a portugueza usança, fomos primeiro á fructa que aos dôces. Vamos, pois, agora a estes no que toca aos seus pregões
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! A MUSICA DOS VENDILHÕES 313 “Apresentamos dois, e qualquer d'elles a titulo «de curiosidade retrospectiva. Hoje é preciso estar-se já a contas com a edade ingrata, pelo menos, para que por entre a poeira das recordações longinquas se distinga a passagem do curioso typo da rua que punha a creançada em alvoroço quando se lhe ouvia «este mellifluo canto : Oh CE Rs O outro dos dois pregões de dôce, o das broinhas, tambem já desapparecido, contras- tava com o antecedente no aspecto musical: era bem marcado no rythmo cheio de reso- lução, mercê do qual elle parecia pavonear-se de pimponice e petulancia. Elle ahi está : BROINHAS DE MILHO ! Ai nhas À erva do. Dos pregões actuaes das castanhas, havendo por ahi tantos rapazes e adultos a gritar: — Quem as quer quentinhas ? —. não existe um só merecedor d'especialisação. Uns não servem, por méramente individuaes, outros não são para aqui por falhos de relevo melodico. Bem definido no seu desenho musical mas ainda coevo do chafariz do Neptuno, no largo das Duas Egrejas, era um que a tradição diz ser assim: AQUI AS TEM, MUITO QUENTINHAS. SIE — z Cas. Xa-mhas po sv -dod ae quer que, deu do-po'
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314 “A MUSICA DOS VENDILHÕES Industria assás decadente a venda do tre- moço em Lisboa. Se uma ou outra vez nos in- terminaveis domingos de verão, se ouve a sa- cudir-lhes a monotonia esta nesga melodica : 8 do kamiço du. Loro ou esta: — a a F + 6 à lamiço da. hoiro quem as enuncia é a vendedeira ainda por in- formar. Qualquer rapariguita como essa que abaixo vêdes. Pregão festivo e saltitante, este : Mas a musica buliçosa d'este apregoado já não atravessa hamuitoasruas da capital. Se o Pinhão novo ainda se ouve, é nos arraiaes, por entre o es- talar dos fo- guetes, d'envol- ta com uma vozearia infer- nal, cortada de improperios e chocarrices. Uns lustros mais e desap- parecerá de to- do, com muitos outros que o Tempo arreba- tará no seu tor- velinho inces- sante São ba- TRAMOÇO SALOIO 8 dão, 6, 6, Gon 0, Gon GO, Con 60, Cão gatellas, decerto, mas não valem só pelo lado pittoresco : valem tambem pelo que evocam no que se lhes associa. Quando se vae já adeantado na jornada da vida, encontra-se a gente ás vezes n'uma dis- posição d'alma apenas desconhecida de quem jámais cuidou em se entregar a pensar. É a nostalgia do passado. Quando ella nos invade, toma-nos como que uma ancia de reconstituir em mente scenarios a dentro dos quaes nos decorreu o melhor da existencia. Prazer raiado d'amargura é esse de buscar, por entre a fumarada das recor- dações, as da inti- midade de sêres que estremecemos, bem como as da alvoro- çada alegria da mo- cidade e de mil venturas que não vol- tam, impossi- veis de gosar sem o enthusiasmo ju- venil. Quanto mais messes momentos o coração se confrange, mais exigentes pare- cemos no trabalho im- posto á memoria de reverter ao passado. Somos crueis na ni- tidez com que preten- demos a reconstitui- ção de factos. E quan- do a memoria, por fa- tigada, jánão nos dá se- não as recordações da infancia, as mais impres- sivas de todas, é-nos grato relembrar figuras que nos alegraram em creança, como as de vendedores ambulantes, hoje desappare- cidos, e outras curiosidades do aspecto an- tigo das ruas, que, pouco a pouco, o cosmo- politismo foi envolvendo na sua gélida mor- talha... PINHÃO NOVO ! Apriano MERÊA.
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AMIGOS DE PORTUGAL NO ESTRANGEIRO NA =“ as V Ma PER NDA TM, Peg 7 TA Veeis s lettras portuguezas têem tido, ha uma duzia de annos, uma vulgarisação notavel no estran- geiro. Referimo-nos ás vulgarisações sen- satas, feitas conscien- ciosamente por homens superiores. Entre os nossos mais dedicados amigos, des- taca pela envergadura de grande poeta, pela erudição vastissima e pelo conhecimento pro- fundo das linguas, a figura extremamente sympathica de Tom- maso Cannizzaro. Elle e W. Stork, o sabio pro- fessor da universidade de Munster, ha pouco extincto—as duas figu- ras excelsas, cujo amor pelos nossos grandes homens deve ser para nós, que ás vezes mise- ravelmente o não te- mos, um grato consôlo e um justificado orgulho... Vem de ha muito a sympathia de Cannizzaro pela nossa literatura. Deve- RETRATO E ASSIGNATURA DE TOMMASO CANNIZZARO HF 1| Did ASlarata reravas) q mos-lhe, além de muitos versões differen- tes nas Hiori d Oltralpe, o melhor das Folhas Cahidas, de Garrett, e os Sonetos Completos, de Anthero, com um largo prologo critico, cartas, retratos, etc, Um volu- me precioso como arte, e precioso como docu- mentação, Para breve nos pro- mette o extraordinario poeta os Souetos Com- pletos de Camões, os Simples de Junqueiro e outras versões já adean- tadas. As suas traducções são em verso — e em versos admiraveis. A lingua italiana, melo- diosa ou forte, quando instrumento dum poeta como Cannizzaro, re- produz num relevo di- vino os nossos bellos poemas. Damos a nota bibliographica dos tra- balhos de Tommaso Cannizzaro ; Publicados (originaes): Ore segrete; Jn solitudine Carmina (2 volumes)”
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316 TOMMASO CANNIZZARO Epines et Roses; Tramonti; Uragani; Gouttes dâme; Cinis; Quies; Vox re- zum; La vota des Deux mondes. Traducções: — La mia visita a E. Sanson, do francez; Fiori dº Oltralpe (2 vol.); Sonetti Completi, de Anthero do Quental; Georgica, de C. Lemos; Dalle Folhas Caídas, d'Almeida Garrett; Le Orientali ed altre poesie, de Hugo; La tura o di quel che non é, e Canti popo- lari della provincia di Messina (mais de 3:000' cantos). O auctor de Uragani, de Cinis, de Vox Rerum, é um homem de genio, cuja obra enorme merece a admiração de todos. Quanto a nós, portuguezes, não é apenas RESIDENCIA DE TOMMASO CANNIZZARO Perto de Messina (Sicilia) Comedia di Dante (primeira traducção em dialecto siciliano). Ineditos: — Antelucane (versos); Es- celsior, idem; Dernitres étoiles (versos francezes); Dalla Vita (pensamentos). Traducções, além das já indicadas, O poema do Cid, do antigo Castelhano ; Canzoniere, di Mirza Schaffy, do allemão; Três poetisas francezas; Mithologia Norrena dalinglese di E. Rasmus An- derson. Em preparação tem ainda «Della Na- com a admiração, mas com affecto agra- decido, que devemos corresponder á gentilesa do grande vulgarisador das nos- sas lettras. Toda a obra de Cannizzaro é meditada e vivida, a espraiar-se como o grande e luminoso mar que lhe beija as costas da Sicilia — a sua patria. Nos seus volumes de versos (varios em francez) ha sempre, a par duma limpida visão esthetica, uma riquesa prodigiosa. O poeta não se restringe a generos: é deliciosamente ly-
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TOMMASO CANNIZZARO 317 rico, heroico, uma vaga nevoa pessimista invade ás vezes o artista, ou tem a ironia dum Heine esplendidamente ita- liano. Não é, claramente, benedictino cinze- lador de formas, um parnaziano acanhado. A sua musa tem os magnificos cabellos soltos como as deusas; a inspiração é larga, e precisa de todas as cambiantes de forma, de toda a variedade e riquesa de metros. Tem a nobresa dos poetas classicos, mas a sua lingua é viva — «mais colhida na bôca do povo, que nos livros» — como o poeta confessa no prologo de Voa Re- rum. O alto espirito de T. Cannizzaro, que é o dum pensador penetrante e mo- derno, divaga por todo o esplendor da natureza, mãe antiga e bemdita de todos os grandes poetas; ascende, no largo vôo, e ás vezes colhe as azas luminosas e deixa-se envolver um momento em nuvens melancolicas. . . No seu volume Dalla Vita (natureza, sociedade, amor, mulheres, arte, poesia, etc), se avaliará mais nitidamente da philosophia de T. Cannizzaro, do que na musica e na beleza dos seus admiraveis poemas. No poemeto ha pouco publicado, Voir des deux mondes, relativo á guerra russo-ja- poneza, transbordam os sentimentos mais generosos, e as ideias mais puras de li- berdade e de justiça cantam nas estrophes dessa ode hugueana, cujos alexandrinos batem grandes azas nas fulgurações duma aurora nascente... O egregio poeta, que não é creança, conserva sempre a fres- cura generosa da mocidade no grande coração ! Concurso photographico dos “SERÕES” — Menção honrosa ESTRADA DE ODIVELLAS Photographia do Sr. Alfredo F. de Lemos
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Costumes de Maceió Estado de Alagõas, E. U. do Brazil Envia-uos um nosso amavel Jeitor de Maceló o seguinte interessante artiguinho sobre costumes dºessa terra, tão pouco"conhecida, e tão digna de o ser./entre nós. Acompanham o artigo duas curiosas gravaras, que deliciosamente ilustram o texto. Em nosso nome e no dos nossos leitores, agradecemos ao sr. Laventre a sua valiosa colaboração e fa- zemos votos para que o seu exemplo seja largamente mitado. UM CARRO DE BOIS Esse progresso, porém, não «pede que o velho carro de bois ainda transite pelas nossas ruas, calçadas de paralleli- pipedos, atravessadas por linhas telepho- nicas e- telegraphicas, vias ferreas, e vehiculos menos attestadores de deca- dencia ou infancia. O carro que ahi se vê transporta uma carrada de lenha grossa, destinada aos fórnos de padarias. Alem desse rude serviço, o carro de bois é utilizado ainda, nesta cidade, para acEtó, capital do Estado das Ala- gôas, é uma cidade quasi mo- (4 derna: é illuminada a luz elec- trica, tem estradas de ferro, cafés, bilha- res, fabricas de tecidos, collegios, semi- nario episcopal, etc. UM CARRO DE BOIS
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COSTUMES DE MACEIO 319 CHEGANÇA conduzir familias aos logares distantes, na estação do Natal. Imaginemos uma d'essas interessan- tes viagens. É pela madrugada a hora da partida. A porta dos que vão passar o dia de Natal fóra da cidade, está o carro de bois. Galantes raparigas empunham harmo- nicas, pandeiros, ganzá, etc. Talvez não saiba o leitor que coisa seja um ganzd... 3 simplesmente um tubo de folha de flandres com algumas pedrinhas dentro... Serve para animar a nossa dança po- pular, o côco ou samba. Difficil seria descrever um côco ver- dadeiramente alagoano, mas não é aqui o seu logar. frente do carro vae uma caixa de provisões para o dia: a panella de mão de vacca, sarapatel, lombos cheios, fri- tadas de camarões, o nosso indispensa- vel sururú, e a não menos indispensavel quantidade de vinho, cerveja, aguarden- te fina, bem azuladinha... Os cajús, as melancias, jacas e outras fructas encontram-se pelo caminho. O pão quentinho é comprado á ultima hora, quando o primeiro alvor do dia apressa a partida. Moças, creanças, as mamãs e as titias arrumam se no carro de bois, como sar- dinhas em lata. Um toldo de esteiras de peri-peri abriga-as do sol. Os rapazes e o chefe da caravana ca- valgam ao lado, em animaes que até á vespera não sabiam que gôsto havia em supportar uma sella. Não faz mal; o tempo é de festa e a festa não é bôa sem esses disparates que fazem rir.
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320 COSTUMES DE MACEIÓ Partiu o carro, chiando um gemido que não acaba, tombando, subindo e descendo, quebrando as costellas das creaturas, que n'outra occasiãô chorariam em vez de rir e cantar. Viajam assim duas horas! Atravessam ribeiros cuja agua vae molhar os vestidos de alguma das viajantes; chegam emfim, cançadas, as faces rubras, as mãos ver- melhas de almas que bateram acompa- nhando as cantigas de côco. Teem que voltar ainda no mesmo carro, e voltam sem a mesma alegria da partida... No dia seguinte o pobre carro de bois continua a carregar lenha grossa, mas não vem chiando o seu lamento que é o encanto do carreiro, porque a munici- palidade não permitte que se juntem duas velharias tão velhas dentro de uma “cidade tão nova. Maceió-Brazil. N ANA CHEGANÇA É a chegança um dos divertimentos populares do Estado de Alagõas, Bra- zil. Na estação do Natal a barca dos che- gantes vae cada noite até a casa de um divertido cidadão, executa manobras de guerra, sua tripulação conta historias que em algum tempo foram verdadeiras, como naufragios, combates navaes, etc. e acabada a festa vem a ceia lauta que o visitado offerece aos chegantes. Dura esse divertimento desde a noite de Natal até ao dia de Reis. A barca que ahi se vê foi a mais no- tavel do Natal de 1905, em Maceió. A figura que está á prôa é a do guardião, mostrando o cornimboque em que tem o seu rapé; o outro, é o ração. L. Lavrnire. E. Na Semana Santa Cliché Lima Nº Porta dos Martyres — O Concurso dos Devotos
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Se a mocidade soubesse... ya! A AVESINHA CASEIRA Os aposentos" da marechala eram no andar terreo do palacio, e Sidonia julgou que a sorte a (favorecia quando, ao chegar lá, o porteiro lhe disse que a illustre dama acabava de entrar. Ainda mais contente ficou ao ser recebida por ella de braços abertos e arrulhantes palavras de boas vindas. —Muito bem, ma belle enfant! Tenho ás vezes uns presentimentos!... Já a esperava. O grande javardo de seu tio, o chanceller, e a serigaita da mulher. .. Conheci-a á primeira vista: cabecinha de arveloa, genio de vespa e coração de ferro. Não era logar proprio para a menina aquella casa. A minha filha precisa de uma verdadeira amiga, e por isso fez bem em vir ter comigo, fez muito bem !—Acenou afirmativamente com a cabeça, fazendo com que a pluma da ave do paraizo, que lhe enfei- tavaa touca de gaze, adejasse por sobre os fi- nos caracoes alvos de neve. Pela segunda vez n'aquella noite os olhos de Sidonia luctavam contra a invasão das la- grimas; d'esta vez, porém, eram prantos de allívio e gratidão. A marechala deu-lhe uma pancadinha no hombro e inclinou-se para bei- jala: tinha em volta de si um delicado am- biente de pós de Parma e do ambar que aro- matisava as rendas. E" muito bom, querida filha—murmurou ella — ter na côrte uma pessoa de amisade, al- guem que possa guiar-nos atravez d'estas pa- ragens, Ma petite, vamos fazer grandes coisas, afianço-lhe. Mas por emquanto não lhe digo mais nada. Não tarda a nossa ceiasinha. Que comeu hoje, ma belle enfant? Tocou uma campainha de prata e appareceu uma gentil soubreite, que fitou atrevidamente na visitante os olhos negros de azeviche. — Bettine, ma fille — disse a meliflua dama =leva... Mademoiselle para o meu toucador e arranja-lhe o penteado, antes da ceia. — E voltando-se para Sidonia segredou-lhe amavel- mente : — Precisa tornar-se ainda mais bonita, porque tenho um convidado. — Par ici, mademoiselle — disse Bettine ra- pidamente. SERÕES N.º 10 Quando já iam entrando n'um gabinete que rescendia a violetas, e cujas tapeçarias eram da côr das violetas, ouviram a marechala di- zer, com os mesmos tons assucarados : — Bettine, ha de voltar aqui. Tenho um bi- lhetinho para mandar, ma fille. — Sim, minha senhora — respondeu a crea- dita franceza e fechou a porta. Sidonia olhou em volta de si, e attentou de- pois na cara antipathica da soubrette. Pareceu- lhe que debaixo dos pés se lhe abria um abysmo, no proprio jogar onde esperava encontrar terreno firme. Tinham-lhe ferido desagradavel- mente o ouvido a palavra mademoiselle e o tom emphatico com que a senhora edosa a pronunciara. A referencia ao convidado tam- bem lhe causara uma certa suspeita, que a or- dem relativa ao bilhete accentuara ainda mais. E observando os olhos pretos de Bettine, via n'elles uma expressão petulante e profun- damente desagradavel. Perguntou com aspe- reza: — Quem é que a sua ama espera para a ceia? A creada encolheu os hombros e respondeu familiarmente. — Ao pé de Madame la Marêchale ninguem se aborrece. E então os seus petits soupers fins são o que ha de mais delicioso e discreto. Faça-se tão bonita quanto possivel, Mademoi- selle, e tudo lhe correrá ás mil maravilhas. Allons ! Tire-me essa horrivel capa... Prom- pto! Não se quer sentar?... Oh! Que Ma- demoiselle est bien faite! Mais coifée... Queira desculpar... o seu penteado é quasi anti-diluviano ! Foi quando Sidonia percebeu em que arma- dilha se deixara cahir. E, com a nitidez da sua convicção, viu tambem o que tinha que fazer. Sentou-se, como a franceza lhe dissera, e sem proferir palavra foi fazendo um exame minu- cioso do quarto, emquanto a aia da marechala lhe ia arranjando o penteado. Porta só havia aquella por onde tinham entrado ; aos lados do toucador rasgavam-se grandes janellas, ta- padas com cortinas espessas. — Ora veja como ficou tanto melhor, Made- FOL. 5
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322 SE A MOCIDADE SOUBESSE... moiselle ! — exclamou Bettine, recuando um pouco para admirar bem a sua obra. Sidonia reflectiu anciosamente no que aca- bava de pensar. Uma palavra, um olhar, um indicio de fraqueza frustrariam promptamente o seu plano, á pressa imaginado. Para além d'esta possibilidade surgiam os horrores para que nem podia olhar, para que nunca olharia. Pois, no peor dos casos, ainda havia um refu- gio. As palavras do rabequista: «O lenitivo de uma alma pura e altiva... o que chega a ser alegria» acudiam-lhe de quando em quando ao espirito, como um echo da sua musica, e da- vam-lhe energia e allivio. — Oh! Como está linda, Mademoiselle ! — exclamou Bettine novamente, e d'esta vez com sincero enthusiasmo. — Despede verdadeiras chammas o seu olhar, e não ha carmim que possa egualar a côr das suas faces ! — Bettine! — chamou do quarto proximo * a voz argentina da marechala. Sidonia, en- trando no seu papel, com o instincto de quem se vê sem defesa, sorriu alegremente para a francezita, como a dizer-lhe que fosse ter com a patroa. — Espero que Mademoiselle, quando estiver no. galarim, não se esquecerá de que fui eu que a enfeitei — insinuou a creada da mare- chala. — Não me esqueço, fique descançada — res- pondeu Sidonia, por entre dentes. Mal viu a porta fechada, agarrou no puxa- dor. Felizmente,a marechala gostava dos gon- zos discretos e por isso a noivasinha poude abrir a porta cerca de uma pollegada, para escutar o que diziam as duas. Não lhe tremiam as mãos: sofreou a respiração para que nem o ruge-ruge da seda pudesse atraiçoal-a. |..Os espiritos fortes exaltam-se nas grandes situações. Segredavam no quarto contiguo. O ouvido da herdeira de Wellenshausen educara-se nas clareiras da floresta, cheias dos sons quasi imperceptiveis das vidas minusculas. Apanhou palavra aqui, palavra ali : — O bilhete... nas mãos de Sua Magesta- de... Percebeste bem ? — Mais oui, madame ! Bettine ia-se afastando, mas n'esta occa- sião a marechala disse qualquer coisa, em voz ainda mais baixa, que Sidonia não poude ouvir e que a resposta de Bettine não esclareceu. A resposta foi esta, acompanhada por um frouxo de riso: «Ai! Não, minha senhora. Creia que se engana. Não nos assustamos tão facilmen- te!» Uma risadinha meliflua commentou o dito da creada. — Em todo o caso, já está na gaiola a pom- binha — tornou a marechala, ainda a rir. Era mais do que bastante. Sidonia fechou a porta com suavidade. Descobriu um ferrolho, que se moveu promptamente debaixo dos seus dedos. Estava n'um phrenesi de pressa, A capa sobre o vestido de côr pallida,e o capuz sobre o elegante penteado, obra de Bettine !... E agora para a janella ! Quem fecha na gaiola uma avesinha, deve ter a precaução de veri- ficar se as vergas estão em bom estado, por- que a coitada tem azas, e o coração palpita- lhe pela liberdade, pelo companheiro, pelo ninho. Os aposentos da marechala eram no rez-de-chaussée, mas ainda que fossem no an. dar mais alto, aquella janella não deixaria de ser para a donzella o caminho da evasão. Oh! Que impressão deliciosa a que lhe pro- duziu, batendo-lhe no rosto, aquelle ar fresco e puro, em substituição da atmosphera quente e desagradavel, que se respirava dentro do quarto! Pelo socego e tragrancia, pela terra molle que sentiu debaixo dos pés quando sahiu para o exterior, conheceu que estava no jar- dim do palacio. Noite escura e chuvosa. Ao longe os candieiros da entrada do parque lançavam clarões vacillantes. Não fazia a menor ideia da direcção que de- via tomar, mas aintenção da sua alma era inca- paz de desvios, como o vôo da ave que volta ao ninho. Havia só um refugio para ella, um logar só: os braços do esposo. Era claro o seu caminho: ia ter com Estevam, e, depois d'issoy mais nada lhe importaria no mundo. Deitou a correr em direitura das luzes do por- tão. D'ali a instantes, já tinha encharcados e atolados em lama os sapatos de baile ; as saias estreitas pegavam-se-lhe ás meias de seda; tropeçou em moitas de verdura rentes ao chão e esteve quasi a cahir. Já não podia correr. Tinha de avançar ás apalpadellas. Os olhos fo- ram-se-lhe habituando á escuridão. Vislum- brou a claridade de uma alameda, pelo meio das renques de arvores; por ali se encami” nhou para as luzes. N'aquelle chão mais firme já podia andar mais depressa, se arregaçasse um pouco as saias que lhe prendiam os mo- vimentos. O portão estava aberto. Nem sequer havia sentinella na guarita, que desse rebate da fuga de Sidonia. De dentro do cubiculo do
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SE A MOCIDADE SOUBESSE... 323 porteiro vinha o barulho de cantigas, de risa- «das e de copos. Tal amo, tal creadagem. A rua por onde tomou era calçada e estava quasi ás escuras. Tinha pouquissimas casas, todas do lado opposto ao muro do parque. A parte que subia parecia ir dar ao campo, e á cidade a que descia. Quasi sem reflectir, tomou por esta, apertan- do mais as dobras da ca- pa contra os fatos choca- lheiros, e pu- xando o ca- puz para a cara. Agora tinha de ca- minhar mais devagar, se bemqueoba- ter dos pulsos lhe desse ideia dos pas- sos de perse- guidores im- Pplacaveis, e o seu deseju ir- resistivel fos- se correr deante d'elles quanto pu- desse. Atra- vez do escuro parque, trazia sobresicomo que um pe- sadelo, mas a passagem pela cidade era mil vezes mais terrivel. “Olhou para traz, para a escura solidão, bus- cando amparo. Continuou a andar sem vacillações, firme- mente, pelos labyrinthos das ruas sordidas: parando aqui,a perguntar o caminho a alguma matrona, e obtendo umas vezes respostas deli- <adas, mas sendo outras vezes repellida, como se fosse mulher despresivel. ou motejada, em vista do seu luxo lamacento. N'uma occasião <ercou-a um bando de estudantes, rindo e bai- AQUELLA JANELLA NÃO DEIXARIA DE SER O CAMINHO DA EVASÃO lando; um dirigiu-lhe graçolas em francez mascavado e outro agarrou-a pela cintura. Es- tava meio morta de medo, mas enfureceu-se e cobrou. animo para castigar o insolente em bom e energico dialecto da Thuringia, dizen- do-lhe que era indigno de um verdadeiro al- lemão insul- tar assim uma mulher inde- teza. Todos se afastaram im- mediatamen- te, vexados e respeitosos, e ella conti- nuou a andar com resolu- ção, se bem que ocoração lhe batesse com tanta força no pei- to, que amea- cava suffo- cal-a. Maisadean- teum homem de cara escu- ra e grossei- ra, e com ar- golas de oi- ro nas ore- lhas,acompa- nhou-a pas- so a passo,ao longo de uma rua. Foi o momento de maior angus- tia de toda aquella aven- turosa jorna- da. Na som- bra de um portico, viu, porém, luzir a alabarda de um vigia nocturno ; foi para elle delibera- damente e, na boa lingua'materna, commum a ambos, disse-lhe a cruel afflicção em que estava e pediu-lhe que a guiasse até á Aigle Impérial. O homem escutou-a calado, fitando os olhi- nhos sagazes no rosto de Sidonia, que ella fi- zera instinctivamente sahir um pouco do ca- puz, como para reforçar com este argumento as suas palavras.
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324 SE A MOCIDADE SOUBESSE... Então, soltando uma imprecação contra os estrangeiros, agarrou-lhe na mão, como se es- tivesse tratando com uma creança. E como creança ella o acompanhou cheia de alegria, escutando, com um sentimento vago de conforto, as palavras que o homem resmun- gava em dialecto thuringiano mais grosseiro, prophetisando a libertação da honrada West- phalia, a queda dos tyrannos pygmeus e a ap- proximação do tempo afortunado, em que as mulheres decentes poderiam passear pelas ruas de Cassel sem se arriscarem a ouvir insultos, e em que os allemães genuinos reentrariam na posse do que era seu. * — Sou a condessa de Kilmansegg — disse Sidonia ao creado, que se lhe dirigiu, quando entrou na Aigle Impérial. Pouco se lhe importando já que a reconhe- cessem, deitou o capuz para traz da linda ca- beça desgrenhada. O creado olhou para ella com espanto, ao ver Mamgell a Baroneza. —A burgravina não lhe dera outro titulo. —Mas o olhar da re- cemchegada era imperioso, de modo que, sem dizer palavra, o serviçal tomou a deanteira e levou-a; pelo pateo e ao longo das escuras es- cadas, até ão quarto do segundo andar. Ta ba- ter á porta, mas a condessa despediu-o, di- zendo-lhe : — Pode ir-se embora. Eu mesma me annun- cio. a No quarto estava o fogão acceso e havia luz, mas como Sidonia não viu ninguem, cui- dou que o coração se lhe tornava tão deserto como o quarto —um vacuo doloroso. Fe- chou a porta e sentou-se profundamente des- animada. Passado algum tempo, foi invadindo-a uma sensação de agazalho, um calor physico e-moral, que a retemperava. Viu espalhadas em volta de si varias coisas pertencentes a Estevam. Deixou de temer que não voltasse! O vago aroma da alfazema, de que elle tanto gostava, trouxe-o de subito e vividamente á presença de Sidonia. Desatou a chorar, coitadita ! Já não podia mais. Quando encostou os pés á porcellana aquecida do fo- gão, era como se mil pontas de agulhas esti- vessem a espicaçar-lh'os. Quebrantada de es- pirito, avassallada pelo enternecimento, have- ria para ella consolação mais doce que-o trium- pho, n'esta hora-em que se rendia a sua es- sencia de mulher? Parecia que aquellas lagri- mas doloridas tinham apagado inteiramente a lembrança dos motejos e ameaças de Betty, e das suppostas culpas de Estevam. Ha mo- mentos em que a alma vê alem dos factos. O calor foi actuando n'aquelle corpinho exhausto. Sentiu-se levada para longe, emba- lada em sonhos vagos, para acordar logo de- pois com o coração a pulsar desordenada- mente no peito, opprimido pelas reminiscen- cias das passadas angustias. N'um destes sonhos, imaginou que o bur- grave, Betty, d'Albignac e Jeronymo lhe tinham descoberto a pista, e que a levavam outra vez para o palacio real. Quando acordou, conhe- ceu que estava sósinha, mas não se libertou completamente do pavoroso terror do pesa- delo... A astuciosa Betty sabia certamente onde deviam procural-a e o homem que estava lá em baixo tinha-a reconhecido. ., Não ser- via de nada fechar a porta, porque o burgrave, mettendo-lhe os hombros, arrombal-a-hia de prompto, ainda que o obstaculo fosse muito mais solido. E Estevam pódia voltar e não vir a saber Ergueu-se, toda tremula, do logar onde estava sentada e olhou em redor de si. N'isto surgiu-lhe no espirito uma ideia ex- travagante e infantil: o grande leito allemão da alcova era todo cercado de grandes corti- nados de damasco de seda amarello. Podia então acoitar-se áquelle abrigo convidativo e correr os cortinados. Ficaria ali tão abrigada como a avesinha dentro do ninho occulto na folhagem... Era um quarto dentro de outro quarto. E escondida poderia espiar o marido, quando elle voltasse. * Estevam subiu as escadas vagarosamente. Durante duas horas, exasperado pelo ruido dos folguedos longinquos, medira a passo o vestibu- lo do palacio do rei, á espera da resposta da car- ta que escrevera ao burgrave, reclamando sua mulher. Afinal tinha escapado de ser preso, graças a um official de bom genio, cujo cora- ção sympathisou com aquelle moço e gentil estrangeiro, de bolsa facil em abrir-se e rosto onde se estampava a afflicção. Voltou profundamente triste para a Aigle Impériale. Talvez o rabequista se tivesse lem- brado de ir lá procural-o! Encontrou, porém, a aguardal-o no salon publico uma persona- gem muito diferente, que matava o tempo beberricando copitos de cognac. Era d'Albignac, monteiro e estribeiro-mór
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SE A MOCIDADE SOUBESSE... 325 do rei Jeronymo. Mal viu Estevam, levantou-se € cumprimentou-o com uma grande cordeali- dade, pronunciando rapidamente o nome e o titulo austriaco do conde, e annunciando o seu com affabilidade exaggerada. — Já nos tinhamos encontrado — retrucou Estevam asperamente, muito bem disposto, AH! SIDONIA ! como estava, para levar as coisas ás do cabo. — Parece-me que não — replicou o estri- beiro-mór, cujo olhar teve um lampejo de raiva, que brigava com aquelle sorriso. — Pa- rece-me que não, sr. conde. Tenho até a cer- teza de que é esta a primeira vez que disfructo o prazer de lhe falar. —Como quizer! —disse Estevam, encolhendo os hombros, com desprezo, e fitando os olhos na face bochechuda, em que já uma vez tinha assentado a mão. —Afinal de contas era o se» nhor que tinha mais forte razão para se lem- brar. —E accrescentou com arrogancia bri- tannica : — Diga o que quer. O sorriso de d'Albignac' sahiu-lhe contra- feito, por entre os dentes amarellados. Os de- dos contrahiram-se de repelão sobre um papel
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206 SE A MOCIDADE SOUBESSE... que acabava de tirar da pasta pendente do cinturão da espada. Todavia, o estribeiro- mór não alimentava illusões sobre a duração que teria o poder de Jeronymo, e aquelle pa- pel, uma vez assignado, assegurava-lhe a pros- peridade futura. Valia a pena, portanto, mos- trar um minuto de urbanidade a quem, se não fosse isto, desejaria esmagar debaixo dos pés» — Tenho que tratar com o sr. conde um assumpto bastunte melindroso, mas que, es- pero, será facilmente resolvido n'uma conver- sação que tivermos a sós. E indicou, por uma olhadela significativa, uns officiaes francezes, que estavam perto d'ali, jogando os centos e o gamão. — Não imagino que assumpto se possa tratar entre nós, a não ser um. Em todo o caso, venha ao meu quarto. O que desde já lhe prometto é que será prompta a minha res- posta, Mal disse isto, encaminhou-se para a escada, tenuemente alumiada, e subiu com d'Albignac atraz de si, Encaminhou-se para o seu quarto, onde entrou em primeiro logar, pois um ca- chorro de semelhante laia não tinha direito a ser tratado de outro modo. — Feche a porta e vamos ao que tem para dizer. D'Albignac conseguiu outra vez dominar a furia. — Como disse, meu caro senhor, é um as- sumpto melindroso. Creio que não ignora que Mademoiselle de Wellenshausen está agora no paço. — Allude á condessa de Waldorf-Kilman- segg ? — perguntou Estevam com intimativa. — Oh! Esse titulo!...Bem sabe que, de parte a parte, se arrependem de ter casado. Ponha o sr. conde o seu nome n'este papel, que do resto nos encarregamos nós. — Nós? — repetiu Estevam, que tinha estado a ouvil-o com apparente serenidade. — Que tem que ver com estas coisas o coronel d'Al- bignac? Nem sempre tira um homem a melhor vin- gança de outro esbofeteando-o ou dando-lhe uma cutilada. Na resposta que deu d'Albignac, ficaram perfeitamente saldadas as contas an- tigas que havia entre ambos. — O rei—disse elle— o meu rei, Sua Ma- gestade o rei Jeronymo interessa-se muito pela nobre fidalga. Foi como se a capa estivesse a estrangular o moço austriaco. Arrancou-a de si e desca- hiu dois passos para traz, a fim de atiral-a para cima do leito. Precisava de ter livres os braços. A voz desagradavel do outro continuava a ouvir-se : —E' desejo do meu soberano que a joven: herdeira de Wellenshausen despose um fidalgo da sua cóôrte, e a escolha recahiu n'este seu humilde servo. Posso tambem dizer que a en- cantadora menina está de accordo. Confusamente, atravez da zoada que o san- gue lhe fazia nos ouvidos, Estevam escutava. Por um movimento machinal, fez a capa n'um» molho e descerrou os cortinados de damasco, mas quedou-se atonito, silencioso, de costas viradas para o seu atormentador. D'Albignac esfregava as mãos e sofreava um risinho mordaz. Era gôso mais completo que retribuir-lhe a bofetada com outra mais retumbante, e até melhor do que sentir o aço cortar á vontade na carne ou morder nos ossos do contrario... O conde de Kilmansegg deixou a capa es- corregar-lhe das mãos e, tendo fechado rapi damente os cortinados, voltou-se para o visi- tante, dizendo-lhe ': — Se o coronel quizer deixar-me esse docu- mento, examinal-o-hei esta noite com toda a attenção e devolvel-o-hei ámanhã de manhã. Recebeu cerimoniosamente o papel da mão de d'Albignac. Estava um pouco mais pallido- que antes, mas tinha no rosto um sorriso sin- gular e nos olhos um estranho brilho. —E trata-se da herdeira mais rica da West- phalia! Sempre teem uma tal prôa estes austriacos!--pensou o estribeiro-mór, resfole- gando alliviado. —Felizmente, bastou-me tocur no assumpto para... — Accrescentou, dirigindo- se a Estevam: — Não imagina quanto folgo por tel-o encontrado tão razoavel, meu amiguinho. Víjo ques.. que deseja o meu bem... Pois de certo! Os tempos vão maus e um soldado de fortuna, como eu, não pode ser muito es- crupuloso. O rei... valha-nos Deus ! ceia hoje com a condessa de Kilmansegg.... Não! Não! Quero dizer: com mademoiselle de Wellenshausen ! Alargou-se n'um sorriso momentaneo o ros- to do conde. —Que riso amarello !— disse comsigo mesmo d'Albignac. — À demain, coronel, mas não antes do meio dia. Estevam disse estas palavras com voz sere-
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j SE A MOCIDADE SOUBESSE... 327 na, quasi carinhosa. Avançou depois a passos ligeiros para o estribeiro-mór, bateu-lhe ao de leve no hombro, e apontou para a porta. Os dois encararam-se fixamente, surgindo com impeto os impulsos bestiaes no alentado corpo do ser- ladas madeixas, formando como que uma au- reola em redor do pallido semblante. Nunca se manifestara tão exuberantemente aquella mocidade. à Mas como parecia fatigada e exhausta no meio de toda viçal de Jero- nymo Bona- parte. Havia, porém, no olharde Este- vam um quid imperscruta- vel, uma ani- mação, uma quasi alegria que entibia- ram o outro. Julgou que Estevam se lhe avantaja- va, e muito, no modo frio de encarar os acontecimen- tos, e recuou fazendo uma desastrada mesura, mas sem saber manejarairo- nia. As suas grandes bo- tas resoaram pela escada abaixo. Estevam abriu com cautela os cortinados e ficou debru- gado a exa- minar o vulto adormecido. À avesinha tinha vindo para casa finalmente! Extenuada de cançaço, estava, como creança que era, immersa em somno tão profundo, que nem a bulha feita por d'Albignac lhe cau- sara o minimo incommodo. Tinha os delicados braços abertos para um lado e outro, e as mãos levemente contrahidas, n'uma attitude de immensa prostração.. Atravez dos labios semi-ubertos, respirava placidamente. O doirado cabello espargia-se em ennovel- ERA UMA MELODIA DE AMOR, DE ADEUS, DE PARTIDA a placidez do seu repou- “sol... Ainda estavam sujas de lama as saias desetim, que deixavam verum peque- nino pé des- calço, com a meia: de se- da manchada de lodo e... de sangue ! A sua que- rida mulher ! Que diffi- ceis camin- hos não tri- lhara para chegar até ali!,.. Sees- capara a' al- gum abysmo mais escuro e profundo e mais terrivel que o do cas- tello de Wel- lenshausen?.. Lentamen- te, sem saber o que fazia, Estevam ca- hiudejoelhos ao pé d'ella, tendo ainda fechado na mão, inconscientemente, o papel que lhe dera d'Albignac. Percorria-lhe todo o ser uma onda de amor, um esto de ternura protectora. A sua querida mulher ! Ainda na rua O vigia nocturno não tinha acabado a cantilena da meia noite, quando se sentiu uma pancada secca na porta do quarto. E logo o vulto do rabequista Hans appareceu deante de Estevam, que se ergueu e dirigiu pa- ra elle.
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328 SE A MOCIDADE SOUBESSE... Parou um instante, apesar de vir em urgen- te missão, para admirar, á luz que havia no quarto, o rosto do mancebo. Nunca imaginara que tão pura alegria pu- desse contrapôr-se á enorme desolação que arrastava pelo mundo. Foi sem a minima sur- preza que viu assomar por entre os cortinados a face rosada de Sidonia : já tinha conhecido pelos olhos de Estevam que estavam juntas finalmente as creanças que amava. — Estevam ! — disse Sidonia. — Ah! Sidonia !... gritou Estevam. Correu para a noiva, e, sem se importarem com a presença de Hans, abraçaram-se doi- damente. Por entre elles cahiu para o chão o papel, com que havia de annullar-se o casa- mento. — Vamos, filhos! — disse a rir o musico ambulante, mas com os olhos arrasados de lagrimas, o que ninguem ainda lhe tinha visto. — Para isso terão jtempo de sobra, depois; agora precisam aviar-se! Vamos! Vamos! Tenho lá em baixo uma carruagem á sua espera. Ria comigo, |menina Sidonia, ria comigo! E" nemjmais nem menos que a carrua- gem da burgravina! Podera ! As esposas alle- mãs não podem escapar tão facilmente aos maridos, fainda que seja na côrte de Jerony- mo ! Betty de Wellenshausen não viajará esta noite, fugida ao seu senhor ! Nem o fará nun- ca, talvez! Uma berlinda e quatro bons cavallos de posta podiam lá desaproveitar-se!... De- pressa, meus filhos, que não se pode perder um minuto. Afianço-lhes que antes do amanhecer cahe sobre a cidade um'grande temporal ! Sidonia não tinha que fazer grandes prepa- rativos. Poz a capa, e do fundo do capuz o seu lindo rostosinho voltou-se para o rabequista. —Para onde vamos ? — perguntou. — Para onde ? — repetiu o vagabundo, com uma toada na voz semelhante a um echo da sia musica. — Pois para onde havemos de ir se- não para a floresta, para o verde seio que tão discretamente e sem perigo ha de acalentar esse amor? Para a casa escondida no meio do arvoredo, aonde, uma vez, levei certo rapaz que se esquecia da primavera da vida e que se perdera no caminho. Foi assim que encon- trou uma e outra coisa. %* * * O rabequista subiu para a almofada e os ca- vallos romperam a trote largo. Encostada ao hombro do marido, Sidonia cahiu de novo n'uma meia somnolencia, acalentada pelo go- tejar da chuva lá fora, pelo monotono ba- lanço do carro, pelas- pancadas rhythmicas das ferraduras dos cavallos contra os cami- nhos embrandecidos. Passaram pela estalagem dos Tres Caminhos, e já estavam cingidos pe- lo amplexo do cerrada arvoredo, quando ella estremeceu de repente e soltou um grito aba- fado. — O que é isto ? Um bramido surdo ainda lhe soava aos ou- vidos. — São tiros de artilharia — respondeu-lhe Estevam. —E” o fim do reinado de Jeronymo ! Ao pôr do sol chegaram á casa da floresta, onde a sua presença causou grande espanto e alegria. Depois da excellente ceia, que lhes foi servida na sala, em cujo tecto sobresahiam as longas traves, sentaram-se ao pé da grande lareira. E quando não riam nem falavam, a paz da floresta vinha cingir os dois amantes, conforme lhes tinha prophetisado o rabequista Hans. Que tarde bemdita ! Com os clarões avermelhados a bailarem- lhe no rosto, o musico apparentava uma ex- traordinaria serenidade. — Ha de viver sempre comnosco, meu que- rido Geiger-Hans!— dizia-lhe Sidonia de instan- te a instante. E de cada vez que lhe ouvia isto, o musico sorria, como se estivesse de ac- cordo. * Cas Ao raiar da portentosa madrugada na flores- ta, acordou Estevam no dia seguinte, e embo- ra no coração tivesse tanta alegria como a de um passarinho na primavera, ainda pesava so- bre elle um sentimento de perturbação e an- ciedade, que parecia tel-o penetrado durante os sonhos d'aquella noite. A janella ficara aberta, para entrar o luar, que tinha ido beijal-os; mas a mysteriosa al- vorada proseguia longe d'ali, velada como noiva do Oriente. Tenues vapores acinzenta- dos pendiam, como cortinas, por deante da janella aberta. 4.1 Estevam sentou-se na cama. Os pulsos batiam-lhe apressados. Apurou o ouvido : sentiu o rumorejar das folhas, o gotejar do orvalho, o chilrear dos passaros que iam despertando... e por fim uns accor- des tão apagados, que parecia fluctuarem n'um sonho. A melodia tornou-se mais distincta,
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SE A MOCIDADE SOUBESSE... 329 posto que continuassem a tocal-a muito á surdi- na; ergueu-se depois, lamentosa, alegre e tris- te ao mesmo tempo: um segredo e um cha- mamento. E com ella vinha um rythmo como de quem ia caminhando: melodia de amor, de adeus, de partida. Enfraqueceu e sumiu-se mais uma vez nos murmurios do arvoredo. Foi silencio por fim, mas ainda parecia cantar. Repentina magoa trespassou o coração de Estevam. Conheceu que o rabequista Hans o tinha deixado para sempre. * * * O musico vae andando ao longo do bosque sombrio e humido. Já esvoaça no ar o cheiro do primeiro lu- me, que accende a próvida tia Friedel, e (Traduzido do inglez por Maximiliano de Azevedo). vem lisonjear o olfacto de Hans, lembrando- lhe a lareira; elle, porém, tinha voltado as cos- tas resolutamente á casa da floresta e á ven- tura juvenil que ali se abrigava. Estava aca- bada a sua obra. Devia, portanto, continuar a vida errante, porque era a solidão tudo o que Deus podia conceder-lhe na terra; a solidão e o movimento incessante, para adormecer a dôr que lhe retalhava o coração. Sentia-se muito velho e cançado. Tinha a face livida e severa, quando a voltou para a longa estrada. A clareira da floresta rasgou-se de improvi- so para deante d'elle, e a terra começou a baixar em direcção á planicie, toda banhada em luz de oiro. O sol vinha nascendo com brilho tamanho que parecia prometter um dia eterno. AgnEs E EGERTON CASTLE.
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Historia de um veado DURANTE O PKkIMEIRO ANNO, US CHIFRES DE UM CORÇO SÃO APENAS DUAS PROTUBERANCIAS NO ALTO DA CA- BEÇA, AS QUAES VÃO CRESCENDO DE ANNO PARA ANNO, ASCEU este veado n'uma magnifica ta- pada de um fidalgo riquissimo, um lo- gar de delicias onde: desde seculos cres ciam livremente, entrelaçando os ra- mos frondosos, arvores robustas e res- peitaveis. Tambem ha que seculos alli vam em doce paz os seus antepa em vastos rebanhos que era um' gosto ver, das janellas do solar, a pularem por montes e valles, ou agachados e meio: oceultos entre os fetos enormes, pelo: meio dos carvalhos colossaes. Porven- tura era graças ao instincto que havia herdado, tanto como ás ordens severas de sua mãe, que elle, logo de pequeno, se deixava estar horas esquecidas dei- tado na sua cama de fetos secos e cal- cados, quietinho que nem uma estatua. Logo com poucos dias de vida, o nosso amigo sentiu força nas pernas para galopar em companhia dos outros corços da sua egualha, tão velozes que mais pareciam voar do que correr, pa- rando apenas uma vez por outra para calcar a relva com os cascos delicados. Nos dias quentes do verão, os re- barhos da velha tapada passavam o tempo em attitude sonhadora, ao passo: que os pequenos iam medrando à lei da natureza. O dia começava para elles por volta das cinco horas da manhã. Preparava- lhes o guarda um bello almoço de legu- mes, espalhando-os para que a distri- buição se fizesse com a maxima equi- dade, cousa de meio litro por cabeça, em media. Depois, desde us nove e meia até duas da tarde, descançavam veados e corças, preguiçosamente reclinados á sombra do copado arvoredo, ou, em dias mais abrazadores, no cimo dos ou- teiros, onde podessem apanhar as mais leves aragens, ruminando e dormindo, de pernas estendidas. A tarde, das duas ás quatro, era con- sagrada á pastagem e ao passeio. Um
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HISTORIA DE UM VEADO 331 veado não morde a herva tão rente como as ovelhas ou os cavallos, mas pode alimentar-se n'uma pastagem onde a ovelha morreria de fome. Junto com a herva, o veado atira-se com guloseima ás bolotas. Cerca das quatro horas da tarde ha- via outro: periodo de descanço, de ru- minar e reflectir, seguido ás seis por outras duas ou tres horas de actividade, em que os corços cabriolavam á vontade. Apenas cahia a noite, todos os veados, grandes e pequenos, se enroscavam a dormir em cima dos fetos. E n'este agradavel modo" de vida passou o nosso corçosinho os seus annos de infancia, dormindo, brincando e repousando ; até que pelo mez de ou- tubro, com a queda das folhas; uma grande mudança occorreu no espirito da manada. regra em todas as manadas haver uns poucos de maioraes, que servem de guias aos mais novos é reteem em seu poder quantas corças possam conquistar. Por conseguinte, os veados novos teem por força de esperar annos antes de fur- tarem uma corça ao harem do maioral, e só por direito de conquista se apossam della. Quando um dos maioraes enve- lhece, tem que dizer adeus ás glorias da conquista, e é pouco venturoso o seu destino. O corço tinha muitos annos deante de si para se ir habilitando de maioral ; mas a natureza não perdia tempo em o ir aprestando para as bata- lhas da vida. Os esgalhos do veado contam um volume inteiro das istoria. Todos Os verões começa a crescer uma camada, augmentando em tamanho e em numero de pontas, até ficar completa em agosto. O chifre é fabricado pelo sangue que circula livremente dentro de sua cober- tura de veludo, ou pelle velosa, e se acaso esse veludo é offendido, o chifre pára de crescer ou cresce deformado. Por volta de agosto, começa a formar-se um lobulo no pé do chifre, interceptando o suprimento do sangue ; e o veludo vae cahindo então, e as armas do veado, já"duras e limpas, estão promptas para TODOS OS ANNOS VÃO SURGINDO NOVAS PONTAS, E SE NADA LHES TOLHER O CRESCIMENTO REGULAR, OS a refrega. ESGALHOS FICAM PEKFEITAMENTE SYMETRICOS,
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332 HISTORIA DE UM VEADO No anno seguinte, ahi pelo mez de abril, os chifres estão na muda; mas dentro de quinze dias começam de novo a crescer, e a desenvolver-se com ma- ravilhosa rapidez. Os esgalhos do nosso veado cresceram por feitio regular ; eram finos em forma e tamanho, compridos e limpos. Co- meçou aos dois annos a sua carreira de combates, embora nada ganhasse com o seu esforço mais do que uma tremenda derrota, infligida pelos mais velhos emais fortes, e um grande desgosto por se não sentir ainda com força bastante para vencer um adversario da sua egualha. Aos tres annos ainda não se podia medir com os maioraes ; mas no anno seguinte já cantou victoria. Succedeu n'esse anno um dosmaioraes chegar a uma crise dolorosa na vida, e dar o primeiro passo no caminho da de- crepitude, Uma bella noite, os seus bramidos e furíosas patadas receberam uma terrivel affronta. Estava elle ao luar, mergulhado até aos joelhos n'um massiço de fetos, em frente do seu cortejo de corças, a desa- fiar arrogantemente um bando de vea- ditos novos. De repente, destacou-se do bando um d'elles, arrostou com o patriarcha, bai- xou os esgalhos e investiu para o velho guerreiro como um raio. Entrechocaram-se os lesgalhos. O veado velho recuou. Mais e mais foi re- cuando até ser impellido para longe das corças espavoridas,até vacillar e cahir sobre os joelhos. Então o juvenil veado deu uns passos á rectaguarda e depois investiu de novo contra o inimigo der- ribado, uma, e outra, e outra vez, até não ter duvidas sobre a sua definitiva victoria E d'essa data em deante, ficou ha- vendo na manada um novo maioral. Contente de si, triumphante em suc- cessivas batalhas, acrescentando de anno para anno o seu cortejo de corças delicadas, lá vive elle na vetusta tapada senhorial, e todos os corços novos o encaram com veneração e temor, La virá dia em que por seu turno envelheça e em que um adversario mais robusto o QUANDO OS ESGALHOS CHEGAM AO ESTADO PERFEITO, Ei TEEM DOZE PONTAS É DÃO AO ANIMAL UMA APPARENCIA esbulhe do seu prestigio e do seu re- MAJESTOSA E SENHORII.. banho de corças.
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LENDAS ACORIANAS ERMIDINHA DA SENHORA DO PRANTO EM S. MIGUEL. branca ermidinha da Senhora do Pranto tem todos os an- (2) nos a sua romaria de devotos, que lá vão piedosamente of- (9) fertar-lhe, junto com as suas orações fervorosas, cordeiros e trigo, fructas e flores. A ermidinha fica arredada do caminho, lá para baixo, quasi sobre a rocha, distante dos povoados, olhando o mar, sorrindo aos na- vios que ao longe passam, abençoando os pes- cadores que todo o dia lidam nas aguas. Naquelle santo dia da Senhora do Pranto, despovoam-se as quatro freguezias mais pro- ximas da sua rustica ermidinha. O adro e os campos de em volta estão cheios de gente que ri e canta, ao som da viola, findo o jan- tar de pão e fructas, sobre a toalha verde da relva. E até que a tarde morra, pelo es treito carreiro que vae dar á ermidinha, os romeiros continuam a descer n'uma festiva via sacra,—como uma fita ondeante de mil côres estendida sobre o verde claro das seáras. E a boa velhada parece ter, nesse dia, os olhos cheios daquelle descuidado riso da sua mocidade, vendo as dansas e folgares da ra- paziada, ouvindo a gritaria chilreante das creanças. + Senhora do Pranto! Senhora do Pranto! Vê como os teus filhos riem junto da tua ermidinha branca, redimidos pelo pranto que choraste | Olha como essas ingenuas e boas almas con- fiam em tie te são gratas! Como vão, cheias de crença no remedio dos seus males, tirar terra da sepultura da tua serva, beber agua da tua fonte, beijar a pedra dessa nascente, onde para sempre ficou gravada a forma do teu divino, pequenino pé! Olha! Senhora do Pran- tol Mas bem pagas tu as offertas das semen- teiras e fructas novas, das flores e da cêra, com que os teus filhos vão carinhosamente adornar-te o altar. Dás felicidade aos noivos, tranquillidade aos velhinhos, riso ás creanças, abundancia ás terras... Bem lhes pagas tu! Por isso eu nunca vi dia de festa tão in- genuamente tocante, tão cheia de riso, tão doirada de crença. Como é linda a tua festa, Senhora do Pranto! O caminheiro que passa na estrada, e vê lá em baixo a tua ermidinha, fica a scismar porque não seria ella construida á beira do caminho e perto do povoado. Tenho mais pe- na, Senhora do Pranto, da ignorancia do cami- nheiro, que não sabe a linda historia da tua ermidinha, do que do mendigo que passou um dia com fome, sem alcançar uma migalha de pão... Tu sustentarás o mendigo, Senhora do Pranto, e pode muito bem ser que o pobre caminheiro nunca tenha a felicidade de ou- vir a maravilha do teu poder. Abençoa a minha penna, Senhora do Pran- to, que eu vou escrever a historia assombrosa da tua ermidinha, para que todos a saibam;
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334 LENDAS ACORIANAS e ao verem-na de longe, levados pelas velas «algum navio, sobre as aguas do mar, ou de passagem pela estrada verdejante, se descu- bram e rezem uma Ave-Maria, porque foi grande o teu poder, como é grande a tua mi- sericordia. Abençoa a minha penna, Senhora do Pran- to, que eu vou escrever a historia assombrosa da tua ermidinha. Olha! Sabes tu? Ainda ha pouco, contan- doa eu a um Doutor, tal como a ouvi no tempo santo em que era tambem teu romei- ro—ai! ha quantos annos, Senhora do Pran- tol—elle disse-me, a sorrir, que essa historia não passava duma lenda. Vê tu, minha boa Senhora, como são in- credulos e vaidosos os sabios! Perdoa-lhes, per- doa-lhes, Senhora do Pranto, que a tua bon: dade é bem maior do que os nossos peccados! Peccadores! Escutae! Quando morei, pequeno, numa das aldeias visinhas da rustica ermidinha, que lá em bai- xo se ergue sobre a rocha, eu fui tambem romeiro da Senhora do Pranto. Peccadores, como eu! Poisae aqui os vos- sos olhos, lêde a grandiosa historia daquella ermidinha rustica | Escutae! A uns quinhentos metros da costa, olhan- do-se da ermidinha para o mar, vêse emer- gir das aguas um grande rochedo, em forma de cratera, que umas vezes as vagas revol. tas açoitam com furia, que outras vezes as mansas ondas suavemente beijam. Foi ha muitos annos, por um dia de inverno. Proximo'do rochedo, deitára as suas redes um barco de pescadores, que um desabrido tem- poral accometteu de surpresa. No horror das vagas alterosas, da cerração espessa, do vento que bramia, todos os es- forços dos pobres marinheiros foram inu- teis. O batel estava raso de agua, rotas as velas, quebrados os remos.., E então, es- ses quatro homens que se viam morrer mesqui- nhamente, deixando ao desamparo viuvas e -orphãos, com o rosto em pranto e as mãos em cruz imploraram o auxilio do ceu. Uma ailtima vaga lhes quebrou a ultima esperan ça. O barco tinha sido arremessado de en- contro ao recife, despedaçando-se. Envoltos nas ondas, sem forças para luctar, iam-se já afundando os miseros naufragos... Foi então que uma linda Senhora appa- receu sobre o rochedo, envolta numa auréola de luz, e estendeu o seu divino braço para os pescadores, que subitamente se viram so- bre aquellas pedras, onde o mar não ousou chegar-lhes, emquanto lá por cima, pela bei- ra da rocha, mulheres e homens choravam afflictamente. Passada a tormenta, um outro barco os to mou € restituiu, sãos e salvos, ao carinho das esposas, dos paes e dos filhos, a quem con- taram, maravilhados, o prodigioso milagre da Virgem! Escutae, peccadores! Ainda a historia não findou. Em memoria d'este signal da bondade e do poder de Nossa Senhora, a quem chama- ram do Pranto, pelas muitas lagrimas que em tristes olhos secçára, quizeram os povos da- quelles sitios edificar-lhe uma ermidinha, hu- milde como elles, mas rica da fé das suas almas. E foi cá em cima, á beira do caminho, que se «he abriram .os alicerces e se preparou a pedra. Mas quando toda ella estava appare lhada para a construcção da ermidinha, uma bella manhã, indo os operarios continuar a sua obra, não viram a pedra, que tinha sido levada, não se sabia por quem, durante a noi- te, para a beira da rocha... Os operarios pasmaram de assombro, e todo o povo ali correu, a presenciar o mysterioso caso. A pedra foi novamente conduzida para a beira da estrada, mas no dia seguinte ama- nheceu outra vez sobre a rocha! Que milagre era, pois, aquelle?... E foram os espiritos rusticos dos naufra- gos que tiveram a revellação de que era a Senhora quem. a transportava de noite lá para baixo, porque queria a sua ermidinha dominando o mar, para olhar pela segurança dos que andavam sobre as suas aguas. Ali deixaram a pedra, que não mais se mo- veu; e sobre a rocha alta foi construida a ermidinha da Senhora do Pranto, de “quem eu fui tambem romeiro.
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LENDAS ACORIANAS 335 * Mas escutae ainda, peccadores como eu. Durante a fabrica da ermidinha, como fi casse longe a agua para amassar o barro, de- morado se tornava o trabalho dos operarios. Houve então uma pobre mulher, velhinha e fraca, que fez promessa de todos os dias a acarretar do povoado, para não retardar o fim da obra piedosa. Assim o fez, até que as forças de todo lhe faltaram; e cahindo de joelhos junto da ermi dinha, cujas paredes começavam a erguer-se, supplicou á Santa que não a desamparasse. E ali mesmo, ante os olhos maravilhados da pobre creatura, uma fonte começou nesse instante jorrando as suas agu: Está hoje a nascente envolta numa garrida gruta, feita pelas mãos piedosas dos campo: nezes: e uma das pedras, que resguardam o trasvazamento da agua, tem gravada a forma dum pequenino pé, que dizem ser o da linda Senhora, que ali foi beber. Ficou a velhinha, durante a vida, sendo a guardadora da branca ermida. Hoje, as cin- sas do seu corpo estão sepultadas lá dentro, sob o chão terreo da egreja, terra de aben- çoados milagres. Peccadores! Eis a mystica e perfumada his- toria, a que muitos de vós chamarão lenda. Eu, por mim, verdadeira a creio, porque muitos velhinhos ma contaram, chorando, no tempo santo em que eu era tambem romeiro — ai! que ainda o fosse! — da linda Senho- ta do Pranto. Senhora do Pranto! Senhora do Pranto! Na tua festa tens fructas maduras, cordei- ros brancos, sementeiras novas, lumes e flo- res, que te vão offertar as crentes e ingenuas , Lisboa, 1905. almas dos teus romeiros. Mas generosamente pagas tu essas offerendas, Senhora do Pranto! Têm uma santa morte os velhinhos que le- vam para casa um punhado” de terra da se- pultura da tua serva—e a sepultura está sem- RETABULO DO ALTAR MÓR MIDINHA DA SENHORA DO PRANTO (S. MIGUEL.) NA pre rasa !-—-vivem ditosos os noivos que bebem da agua da tua fonte; ha sempre riso nos labios das creanças que beijam a pedra onde poi- sou o teu divino pé, e nunca mais houve um naufragio nas aguas do mar que a tua ermidi- nha vigia! Senhora do Pranto! Senhora do Pranto! Repara no pranto de meus olhos! Olha que eu tambem fui teu romeiro | Ai! quem o fósse ainda, Senhora do Pran- tol Raposo DE OLIVEIRA.
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Os Serões dos Bébés BERTA Viana Vivia certa Perinha No ramo da mãe Pereira, Mais feliz que uma rainha, Mais occulta que uma freira. Assim mesmo'foi bispada Cá de baixo p'la Rosita, Que disse para a ereada: «Hi! Que pera tão bonita!» Foi logo apanhada a pobre, Verde ainda, muito dura. Se a Rosita a não descobre Chegava a molle e madura. Como não lhe mette dente K lambaz da pequenota, Deita-a surrateiramente Para um frasco de compota. K Pera, ao cahir na calda, Jura vingança eruel, Pois toda em raiva se escalda, Tão azeda como fel. Se a tiraram pequenina De junto de sua mãe! Do sol, do ar, da campina, Que saudades ella tem!
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OS SERÕES DOS BEBES 337 Dias depois figurava Ho jantar, na compoteira, E o appetite despertava Da Rosita lambareira. Ninguem mais... Está sósinha... Htreveu-se... uma corrida!... E n'um segundo já tinha K rija frueta engulida. Mai no estomago se apanha, = Diz a Perinha, contente: «Chorarás a tua manha Na cama, que é parte quente!» Vae deitar-se a pequenita, Sentindo já muitas dores. Como ella rebola e grita Debaixo dos cobertores! Rosna a Perinha judia: «Se verde não me comeras, Nenhum mal te suecedia. Tens ainda pão p'ra peras!» E teve, pois soffreu dores Tres semanas successivas... Meu Deus, livrae-nos de amores E de peras vingativas ! SERÕES N.º FOL. N.º 6
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CHUVADAS DE MAIO UM DOS AMORSINHOS, AO OUTRO — Casos ha em que uma aberta vem fóra de proposito entre os mortaes, não é assim, ó collega? LAN coeso Diz tristeza e alegria, Desdem, capricho, paixão, Bondade, melancolia, O leque na sua mão! Ja poueo (noite sombria, O! meu pobre coração !...) Foi um punhal d'ironia O leque na sua mão ! &u enlevado dizia Versos cheios d'emoção ; & quanto de mim se ria O leque na sua mão ! Mas ao ver quanto eu sofíria, Jomou-se de compaixão & quazi perdão pedia O leque na sua mão ! Num theatro, ainda outro dia, Bem commovente era a acção ! Que d'agitado tremia O leque na sua mão ! De longe attento seguia Yoda aquella vibração, & quanto comprehendia O leque na sua mão! Despreza, mata, inebria, Dá o castigo e o perdão, Jima e detesta a poesia O leque na sua mão! Que estranha soberania Que poder de sedueção ! Parece feitigaria O leque na sua mão ! ALCANTARA CARREIRA
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“SECÇÃO DE XADREZ por BALDAQUE DA SILVA N.º 1, Problema directo N.º 2, Problema directo Pretas 4 Pretas 5 As brancas dão mate em 2 lances. As brancas dão mate em 3 lances. N.º 8. Problema symbolico. S (Series) N.º 4. Problema retrogrado Pretas 5 ” 7 Brancas 7 As brancas dão mate em 2 lances a brancas jogam. —2 As pretas desfazem a jo- Serão publicados os nomes dos resolutores de todos os problemas de cada numero. Tanto na resolução dos proble- mas como na indicação das partidas, emprega- remos a notação alge- brica, na qual as colum- nas são representadas pelas primeiras oito let- tras do alphabeto, e as fileiras pelos algarismos terior. — 3 As brancas dão mate, de 1 a 8. As lettras que designam as peças do xadrez. são: R-— Rei; D-—Dama; T— Torre; B-—Bispo; C—Cavallo; P— Pião. Adoptando esta nota- ção, teremos que os oito movimentos possiveis do € collocado em d 5 são: Cbg, b6, c3, c7, e3, e7, fa, f6.
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Eesti r$ 0 Pesadelo mundo civilisa- de Marrocos do soltam suspiro de alli- vio. À questão de Marrocos acha-se resolvida... pelo menos tempora- riamente, depois de dez tremendas semanas de suspensão, emquanto os diplomatas tagarelavam em Al- geciras. O pacto final assentou nas seguntes bases : Regras restrictivas para a impor- tação de armas em Marrocos; Regulamentação das alfandegas; Internacionalisação do banco ão Estado, com quatro censores no- meados pelos bancos da França, Allemanha, Hespanha e Inglaterra, sendo o capital distribuido por forma que à França tenha tres qui- nhões, ao passo que as outras po- tencias terão um ; Organisação da policia, com instra- ctores ne meados pela França e pela Hes- panha, ofliciaes das duas nações em Tan- ger e Casabranca, predominio da-Fran- ça em Mogador, Sa- fim, Mazagão e Ra- bat, predominio da Hespanha em Tetuan é Larache; Pacto cincos annos em vigor a datar da ratificação. DEPOIS DO LANÇAMENTO DO DREADNCHIGHT O Kaiser, olhando para o navio!—Dois mastros! Pois eu hei de ter doze! Do “Daily Mirror” AS METAMORPHOSES DO KAISER Do “Figaro” Ao reunir-se a conferencia, o de- legado allemão Radowitz declarou que nella não haveria vencedores nem vencidos. Os resultados justi- ficam esta previsão. Mas como nem a França nem a Alemanha ficaram plenamente sa- tisfeitas, é de receiar que estes cinco annos proximos representem o intervallo de repouso emquanto o pau vae e vem. Depois veremos se continuarão a folgar as costas. ão proseguindo Na Russia as eleições para, a Duma, no meio de perturbações constantes. Não admira. Não é facil que o povo russo manifeste grande enthusiasmo por um parlamento que não passará de uma simples cari- catura da assembléa nacional que lhe fóra promettida. O recen- te manifesto do Czar deitou por terra to- das as esperanças. O conselho de Es- tado terá direitos eguaes aos da Duma. Os seus membros nomeados formarão uma maioria perma- nente, e o conselho terá direito de veto sobre as resoluções de Camara Baixa
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A ALLEMANHA À CAMINHO DA CONFERENCIA DA PAZ, PARTINDO DA CONFERENCIA DE MARROCOS. Uma viagemzinha nada facil ! Do “Lustige Blátter” Os ministros são apenas responsa- veis perante a corda. A" Duma não é permitido receber petições ou deputações, nem disentir o princi- pio autocratico, e os seus membros devem assignar uma decluração de lealdade no Czar como antocrata. Uia comedia cujo desenlace po- derá ser medonhamente tragico como muitas das peripecias já de- corridas. Mas apesar de todas as pressões e todas as violencias, o partido cons- titucional democratico tem trium- phado em quasi todos os centros cultos do Imperio. O elemento reac cionario só pode contar com os ru- des eleitores do campo, que ainda COMO ACABARÁ ISTO? Com tanta força se aa em Algeciras O cachimbo da par que ha risco de uma explosão geral. Do “Wuhre Jacob” ACTUALIDADES assim lhe darão porventura uma oria esmagadora. uvIDOSA prosegue a situação na Hungria. O par- tido hungaro, enormemente forte, exigia a desnacionalisação do exer- cito. Os chefes não queriam to- mar conta do governo emquanto o imperador não acedesse a esta exi- gencia, e este recusava-se terminan- temente, Devia-se proceder a novas eleições, para substituir o parla- mento dissolvido; mas o partido nacionalista alcançaria nova victo- ria, e tudo ficaria como dantes. Á ultima hora, parece ter-se transigido de parte a parte. For mou-se um ministerio de concen- tração, em que entraram os elemen- tos de opposição, e parece que as cousas estão sanadas temporaria- Na Hungria mente. A INGLATERRA E A ITALIA EM ALGECIRAS INGLATERRA — Sempre te quit bem, pequena. Chegou agora o enseio de mostrares a tua gratidão. Do “ Pasquino,, Pós o desastre de Courritres, teve o seu quinhão de calamidades a Ttalia, tantas vezes experimentada por terriveis pheno- menos sismicos e vulcanicos. O Vesu- vio abriu as fauces, exigindo a sua ração periodica de povoações. Fica- ram destruidos o Observatorio e o caminho de ferro funicular, e foi cercada pela lava a aldeia de Bosco Trecase. As aldeias circumvisinhas foram abandonadas, e o panico extendeu-se até mesmo a Napoles. A sene das catastrophes UMA TAREFA DIFFICIL | Aguentem bem as aduelas! Mais tarde concertaremos O tonel. Do “Kladderadatsch"” Esta erupção teve uma repercus- são formidavel. A florescente cidade de S. Francisco da California foi destruida quasi completamente por um horroroso terremoto, seguido de um incendio, como a nossa Lisboa no seculo XVIII. Foram menos de certo as victimas, porque cidade moderna, com largas aveni- das e recursos superiores de salva- mento, são naturalmente attenundos os perigos pessones. Mas os prejuizos materines foram enormes, elevando-se a centenas de milhões de dollares. O governo dos Estados: Unidos votou importantes subsídios para accudir às victimas da catastrophe, e de todos os pontos do globo acorrem soccurros e teste- munhos de sympathia, n'este alen- to de confraternisação hnmana, que é felizmente caracteristico do se- culo XX. numa A ASSOCIAÇÃO AUSTRO-HUNGARA SEGUNDO À VEEM OS BOHEMIOS. Do “Humoristicke Listy*
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342 Principes inglezes em colo- mas portuguêzas lonias inglezas «la Africa do Sul, Suas Altezas os duques de Connaught, irmão e cu- mhada do Rei de Inglaterra, digna- ram-se visitar alguns dos mais importantes pontos da nossa provin- «cia de Moçambique. Estiveram em cpois de uma ex- cursão pelas co ACTUALIDADES Lourenço Marques e na Beira, e em ambas essas cidades foram recebidos com as honras devidas á sua alta categoria e com a sympathia natu- ral a portuguezes quando se trata de festejar representantes d'esse grande paiz, tão estreitamente al- liado a Portugal. Como recordação d'essa memoravel para a historia das nos sas extensas e ricas possessões da Africa Oriental, recebemos uma se- rie de interessantes photographias que muitos inceramente agradecemos, e algumas das quaes publicamos com grande regosijo, sentindo ser nos impossivel desde já a repro- dução de todas ellas. O vaPoR «ring Regent», CONDUZINDO OS DUQUES DE CONNAUGHT, ATRACADO À PONTE-CAES DE LOURENÇO MARQUES — DESEMBARQUE DE SUAS ALTEZAS r REVISTA DOS PRETOS DO COMMANDO MILITAR DE ZAVALLA, POR OCCASIÃO DAS FESTAS EM HONRA DOS DUQUES DE CONNAUGHT
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ACTUALIDADES wa Est vz 1. VISTA DE UMA PARTE BAIXA DA CIDADE DE LOURENÇO MARQUES E DA BAHIA. — II. PARTIDA PARA O PALACIO DA PONTE VERMELHA. APÓS A RECEPÇÃO. — II. OS DUQUES DE CONNAUGHT NA BEIRA
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ACTUALIDADES Vida na seieneia e na industria Propulsor portatil Ú BrRCORLa ECO, de darcos invento n'um motor e um pro- pulsor, ambos os quaes se podem fixar em poucos momentos a qual- quer embarcação miuda, transfor- mando-a n'um barco automovel. Actua ao mesmo tempo como pro- pulsor e como leme, e pode dar uma velocidade de 5 a 10 milhas a uma embarcação contendo cinco ou seis pessoas. O motor de maio- res dimensões, desenvolvendo a força de 2 '/, cavallos, peza apenas pouco mais de 40 kilogrammas. Novo torpedo XPERIMENTOU -SE com aplicação ultimamente em do Telekino Antibes um no- vo torpedo que aproveita eflicaz- mente o apparelho a que no nosso numero 7 nos referimos, inventado pelo engenheiro hespanhol Torres NOVO TORPEDO COM oNsTA esta nova sonda de um apparelho de in- dução de forma especial, ligado ao telephone para indicar a pre- Sonda electrica de metãss PROPULSOR PORTATIL DE BARCOS Quevedo. É guiado pelas ondas Hertzianas (telegraphia sem fios), e pode por conseguinte dar-se lhe a direcção de terra ou d'um navio sem intervenção de quaesquer liga- ções materiaes, no sentido comum de palavra. Os mastros é que rece- bem a corrente de governo. sença de metaes. Este appareho consiste n'um fio primario de arame grosso ligado a uma bateria e a um rapido interruptor auto- maticô. O fio secuhdario é de arame fino, disposto exuctamemte em angulo recto com o outro, e li- gado ao telephone. Se o circuito APPLICAÇÃO DO TELEKINO primario é continúa e rapidamente interrompido emquanto o fio não está proximo de nenhum metal ou material magnctico, não se ouve som algum no telephone, visto que: todas as influencias inductivas são eguaes e oppostas: mas no caso contrario, o equilibrio é perturbado e onve-se um som no telephone. Pode-se usar com vantagem esta SONDA ELECTRICA DE METAES
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ACTUALIDADES 345 INTERIOR DE UMA MINA DE CARVÃO material e as horisontaes são as galerias para o movimento interno da mina, por onde passam os carros de transporte. sonda no fundo do mar, ao longo mundo subterraneo de costas escarpadas, em poços e onde vivem milha- perfurações, e em terrenos abun- res de operarios, na dantes de metaes que não estejam imminencia de peri- auito profundos, passando simples- gos horriveis, como mente com ella por sobre ou perto esse que produzia o destas superficies. tragico desenlace de Courriêres em que mais de mil homens recente e tre- foram victimados. Minas de carvão À menda catas- As raias negras trophe de Cour- obliquas represen- ritres, o mais mortifero desastre de tam os veios ou fi- minas de que resa a historia, dá lões de caivão ex uma palpitante actualidade às duas ploravel, compre- ilustrações que apresentamos. hendidos entre ca- A primeira d'ellas é uma arvore madas de schistos e schematica, por onde se afere a terras hulhiferas. A's riqueza extraordinaria do carvão vezes são brusca- mineral, mostrando todos os pro- mente cortados ou ductos que directa e indirectamente desviados por acei- d'elle se extrahem. Eis a explica- dentes geologicos, qão dos sacrifícios que a industria como se vê à esquer- humana se vé forçada a exigir dos da da figura. mineiros, em vista da larga com- As aberturas ver pensação do capital empregado, — ticaés são os poços A outra mostra claramente o in. de entrada e sahi- terior de uma mina de carvão, esse da do pessoal e do PRODUCTOS DA HULHA
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346 ACTUALIDADES Vida nos campos e STAMOS NO mez Jardins special das fo: es. N'este mez vigia-se pela boa or- dem e limpeza de terras em que vivem as diversas plantas, sachan- do-as para augmentar o effcito da aeção do sol e do ar, desafrontando- as de plantas nocivas e inuteis, e re- gando-as com toda a regularidade e attenção. A melhor hora para se proceder ás regas é aquella, em que a evapora- ção rapida da agua não venha pre- judicar a sua acção. Sendo alguns de opinião que durante o calor se deve regar de manhã, para que a humidade atenue nas horas de maior calor o seu effeito escaldante, parece averiguado ser mais «onve- niente regar se de tarde, porque a prolongação do «stado fresco da terra melhor resistencia prepara ás plantas para o efeito do calor do dia seguinte. Não deixa por isso de ser aconselhavel, especialmente nos jardins de mais exposição. alem das regas pela tarde, refrescar de manhã o chão e as plantas com um chu- veiro leve e rapido. A melhor agua para regas de jardins é a que se póde aproveitar das chuvas. A agua corrente de rios ou re- gatos tambem é boa, embora de menos confiança. A agua estagnada tem o valor fertilizante das mate- rias organicas que traz em suspen- são, mas pode na sua evapora- ção causar doenças ao apaixonado que mais se demora preso ao en- canto seductor das flores. As aguas dos poços são em geral muito car regadas de principios calcareos, mui- tas vezes prejudiciaes ás plantas : pode comtudo tornar-se melhor se a demorarmos em repouso durante algum tempo em deposito bem ex posta ao ar. Servem para isto muito bem os tanques de ornamentação. O excesso de agua prejudica a planta, especialmente se o terreno MAIO não tem a permeabilidade necessaria para regeitar esse excesso. Em vaso convem deitar no fundo areia, pe- dras ou matto para evitar a reten- ção de aguas junto ás raizes. 9 maneira que Horta o calor vae apertando, se vão tornando mais necessarias tam- bem n'este ramo de cultura as regas dos tulhões tanto de plantação nova, como já em plena produção de hor taliças. É este o mez de se plantarem abo- boras, cujo desenvolvimento tão facil e interessante se torna onde não falte agua, A abobora, cuja cultura é relati- vamente barata e facilima, é um ali- mento de primeira ordem para todos os animues domesticos. Longe de ser pobre a sua acção alimentadora, como é vulgar julgar-se, está averi- guado por analyses ser de uma gran- de riqueza em elemento nutritrivo. O retalhamento da abobora é fa- cilmente feito á faca, para pequenas porções, e.com machinas especines (corta-raizes) para o seu consumo em maior escala. As vinhas come- ça a enxofração dos cachos para se combater a apparição do oidium, tambem conhecido pelo nome de cinzeiro. O enxofre é o remedio mais pra- tico e economico para este mal, e é applicado, bem pulverisado, sacu- dindo sobre a videira pequenos tu- bos de folha de tampa perfurada, saccos de borracha, ou folles com ou sem deposito de folha, e ainda para vinha de maior importancia por meio de apparelho que disposto sobre as costas do operario permite a distribuição perfeita com a agu- lheta de ar comprimido. Como ainda se torna necessario combater um outro mal que flagela Vinha a cepa por esse tempo, .e o remedio a empregar é o sulfato de cobre, tem a industria combinado este sal com — o enxofre para que se possam appli- car ao mesmo tempo os dois pro- ductos n'um só trabalho; é o que chamam enxofres cupricos. «E caminhando o desenvolvimen- to dos trigos para a sua completa maturação. Se as circumstancias foram favo- raveis, tambem se desenvolveu a herva nas terras destinadas a pas tos, ou nos prados, e o lavrador trata de a cortar para com ella ali- mentar o gado de mangedoura. O corte da herva faz-se com foi- ces, gadanhas ou machinas tiradas por animaes segundo a quantidade de trabalho a executar, ou a appli- cação a dar à herva. Pode esta ser cortada à foice se é necessario trazer para a arribana apenas o bastante para o consumo de cada dia; quando porem se quer fazer um côrte mais abundante para arrecadar, o processo é differente. Cortada a herva fica no chão ex- posta ao ar e acção do so! para que evaporada a agua que contem, possa ser mudada sem perigo de fermen- tação. Não deve porem ficar ahi abandonada, pois que, sendo a eva- poração da agua produzida pela acção de elementos que veem de cima, torna-se esse effeito mais mo- roso ou nullo nas camadas inferiores em contacto com a terra mais ou menos humida. É preciso virar à berva para a sua perfeita prepara ção. Servem pára esse effeito as forquilhas para o trabalho normal. ou machinas especiaes chamadas penadeiras puxadas por animaes. Transformada assim a herva em: feno, pode ser conservada indefeni damente e constitue uma rica ali- mentação para toda a qualidade de gado estabulado. Campo
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Era para desejar que os nossos la- vradores prestassem a sua attenção à cultura racional da herva e sua Preparação, porque não tem com- paração a sua utilidade alimentar com a da palha de trigo cuja appli- cação para este fim só se justifica Como aproveitamento de um re- siduo nas debulhas a pé de gado, é que 0 habito leva a exigir como producto imprescindive] nas moder- nas debulhas á machina. Nos paizes em que reina mais humidade, torna-se moroso e muitas vezes mesmo impossivel seccar con- venientemente a herva, e então é logos olympicos (Ros a presidencia em do Principe Real Athenas da Grecia, rea- lisa-se em Athenas, de 22 de abril a 2 de maio, a mais impor- tante serie de Jogos Olympicos desde a revivescencia d'este exercicio clas - sico, a qual data de alguns annos. Todas as nações civilisadas fo- ram convidadas para se fazerem Fepresentar pelos individuos mais distinctos no sport athletico. Mas um tal acontecimento tem, alem da sua importancia profissional, um alcance social que não se póde ne- gar, pela soliduriedade' internacio. mal a que serve de estimulo. Realisam-se os Jogos Olympicos Internacionaes no Stadion Panathe niano, Os concursos são variadissi- mos, incluindo corridas “pedestres, corridas de cestos, tiros de diversas especies, entre elles o disco, a pe- dra e a arma de fogo, lucta athle- tica, lawn-tennis, football, natação, mergulhagem, re- mos, e até a arte do bieyclo, muito popular entre os gregos. Só & permitida a entrada de ama- dores, designando- se sob esta classi= ficação todos os in- dividuos que nunca ACTUALIDADES esta arrecudada antes da completa evaporação da agua que contem. Para evitar então a fermentação na- tural que se estabeleceria, torna-se necessario defendel-a da acção do oxygenio do ar e para isso tem de fi- car bem comprimida e coberta. Cha- ma se a este processo ensilagem e está muito em uso especialmente na America, Inglaterra e outros paizes, começando já ultimamente a ser empregado entre nós, não que nós não possuissemes um clima mais favoravel á preparação da herva, mas por ser esse meio de conser- vação mais pratico e «conomico. Vida no sport competiram para um premio em d nheiro, nem acceitarem remuneração pelos seus exercícios, nem sejam athletas profissionaes, permittindo- se-lhes comtudo o receber indemnisa- ção pelas suas despezas de vingem. Entrementes, ha desde já grande afiluencia para exercicios preparato rios no Stadion, o qual foi orga- nisado por Lycurgo na primeira metade do quarto seculo A. Ç. Tem cerca de 2UU metros de comprido por 43 de lurgo e pode acommodar 40:000 espectadores. XPERIMENTOU-SE ultimamente, sob os auspícios do Automobile Club de França, um vehiculo de motor electrico, cons- truido pelo conhecido estabeleci- mento dos Vedrines, de Neuilly. É um cab de tres logares, provido de Automoveis electricos o o GRANDE STADION DE ATHENAS 347 As nossas terras de pastagem, se não teem as vantagens que o estudo alcançou poderem obter-se, como qualidades mais resistentes ao calor, vegetação suficiente para repetidos córtes, teem o encanto, para nós suf- ficiente, de ser espontanea a sua producção, e essa matisada de lin- das papoulas de um veru elho vi- vissimo, e das poeticas boninas e malmequeres que tantas revelações fornecem aos apaixonados e apaixo- nudas, sempre desejosos de levantar uma pontinha ao veo que lhes en- cobre o futuro da vida, acumuladores Agathos com capa- cidade de 250-ampére-hora, e pe- sando 700 kilos. O cab andou 62 milhas e meia de uma assentada, com a velocidade media de 21 milhas por hora, É este um grande pro- gresso sobre os carros electricos até hoje usados, nos quaes o limite para: os acnmuladores não passa geral- mente ae 30 milhas. Esta capaci- dade dupla de distancia acrescentará sem duvida a utilidade pratica d'este vantajoso meio de locomoção. Cres- cerá a voga dos vehiculos electricos se acaso, como agora se afigura pos- sivel, se poderem usar mais pode- rosos acumuladores sem augmenta- rem anormalmente o seu peso. O Jiu-itsu exercicio japo- na policia franceza AJ) ez» no qual con- sagrámos um ar- tigo especial no nosso numero 4, vne-se generalizan- do na Europa. Mr. Lépine, commissa rio chefe da policia franceza, organizou ultimamente um curso de jiu-jitsu para os policias de Paris, afim de que elles estejam adex- trados no meio de defeza pessoal, que é actualmente con- siderado de maior efficacia.
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348 O ESCULPTOR ANATOLE CALMELS O Esculptor loDE dizer-se que Calmels a arte portugue- za acaba de perder um dos seus mais insignes cultores na pessoa de Anatole Cal- mels, porque, embora o artista não fosse portuguez de nascimento, ti- nham-no nacionalisado dezenas de anhvs de permanencia entre nós assim como os numerosos trabalhos que deixou no nosso paiz. Avulta entre elles o bello grupo que encima o Arco de T gusta, deixando o seu nome ligado à con iumpho da Rua Au- ração das glorias de Por- tugal. O velho artista, retirado ha annos, pouco trabalhava. A “sua ultima obra foram, cremos, as duas caria- tides que ladeiam o portal do Pala- cio Palmella. A sua morte foi muito. sentida no mundo da arte, onde todos o veneravam como mestre. EPRESENTOU-SE theatro Francez o dra- ma de Donnay, Paraitre, o qual não parece acrescentar muito à gloria do dramaturgo, Versa sobre a força dissolvente da opulencia A nova peça de Donnay no; ACTUALIDADES Vida na arte n'uma familia da “alta burguezia. Em consequencia do casamento de menina d'essa familia um millionario, ma todos Os austeros costumes do um: com alteram-se para lar. O pãe arrâna uma amante, à os do eSposa do fiino cae nos draç cunhado milionario, mais talvez por ambição que por amor, final- mente esse perturbador da virtude domestica é morto por um tiro do marido atraiçoado. Thema de pouca novidade, de- fendido pelo brilhantismo do dia- logo, erriçado de pontas satyricas, e tentando rejuvenescer-se por um acto de sobreposse, como epilogo, depois do natural deseniace. AUGUROU Jardim da Glo- Rio de E nO Fonte monumental no Rio de Jana iro ria, no Janeiro, a fonte monumental que os commerciantes do Porto, srs. Adriano Pinto & Irmão, offereceram áquella capital. Ramos A precipitação com quê era mis- ter realizar a of- ferta não permit- tin que ella fosse trabalho de portu- guezes, como de- sejavam os offe- rentes, que n'esse intuito se diri- giram ao eminen- te esculptor Tei- xeira Lopes. Co- este mo artista não podesse en- carregar-se da execução do mo- Humento, foi elle confiado a um es- culptor francez, que dessa missão se desempenhou com inteligencia. Se não produziu uma obra prima, fez pelo menos um monumento interessante e impo- nente. O material é magnifico mar- more italiano. No alto ergue-se a: figura do Amor. Em baixo tres mulheres de bella esculptura sau- dam essa figura symbolica. A agua. despenha-se em tres golphões sobre a larga taça de desenho sobrio é elegante Celebridades musicaes em Lisboa yr Lisboa ultima- mente O prazo: dado de umas poucas de celebridades Iyricas. Os maestros Leoncavallo, Giordano e abbade Perosi honrarum neccessiva- mente a cadeira do maestro de or- , em que pela novidade se notabilisaram as oratorias do ultimo, Moysés é Resur- reicção de Christo. O ilustre Saint Sáens mostrou no piano e no orgão as suas admiraveis faculdades, e per ultimo Paderewski arrebatou o au- exsentricidade, por! genial, da sua execuç chestra, regendo obras suas, ditorio com a vez FONTE MONUMENTAL NO JARDIM DA GLOKIA (RIO DE JANEIRO!