Seroes Revista Mensal Ilustrada 1905 N01-12

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de 1905 PROL RESET FERREIRA & OLIVEIRA L.” - Rditores 132, RUA DO OURO, 138— LISBOA Typ. da vA Editoras — Lisboa.

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Summario MAGAZINE Pac. SILVA PORTO (Algumas breves Ene a (14 illustrações) por MANuEL PENTEADO ........cccciro cerentenenienos 465 O-TSUKIMI (7 ilustrações) por WENCESLAU DE MORAES. ......ccicitciro ceara 477 UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA DO SECULO XVIII (7 ilustrações de Roque GAMEIRO e 2 vinhetas) por JuLto DANTAS...... . 482 TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS (4 ilustrações de Moraes) poesia por Augusto Gu 491 A POESIA DA PHOTOGRAPHIA (3 photographias de Avronso LopEs-VIEIRA) ...... cecsceescrsssenea cas 494 D. FREI CAETANO BRANDÃO (No priméiro centenario de um ben (13 ilustrações) PONAVICIO RE ICUARIRO:: ei arara direto doe ra UA Petri e 496 BOCAGE E A INQUISIÇÃO EIN AT TT (e) dm ERR AS (e RATE SPARTA Ss DORSO Ra Os PRESEPIOS DE BARRO (20 ilustrações) por João BARREIRA........cciceso nusuirisaressse amo 514 SE A MOCIDADE SOUBESSE... — IV 2 ilustrações) por Agnes E EGERTON CASTLE... ...cecccscrscereescaroo 526 UM GRANDE AMIGO DAS CREANÇAS (A proposito da Ap: (Srillustrações) por/RigMOR: BENDIX ce sam beto ilopatin tata vio sle mina msi 535 SONHO DESFEITO (damllustrações) por: REPANÇO sa ss. ssa dci jarra pa nado ia A ENDOSSA 538 UNIVERSIDADE DE COIMBRA — 6. parte (7 illustrações) por MANUEL DA SiLva GAYO .... cc... cics rersrerariro 541 AZENHA DE VERÃO NO LEITO DO MONDEGO (Photographia de MesquiTA DE FIGUEIREDO) ...... coccssiseressinaros 545 * Os SERÕES DOS BÉBÉS — O HOSPEDE DA NOITE DE NATAL (3 ilustrações e vinheta) por Eva ROGERS ...,..... cecesssssisrersess 546 QUEBRA-CABEÇAS (Ilustrações é TVINRREA)S src ro sra om RR vv O Co AN EE E opera a a ao 555 ACTUALIDADES (RED ae (to) LED PR QUI [U Lo À DRE Tp EE RR OS SNS ED A PRP 555 UM CÃO IMITADOR DUIMUSAAÇÕES) ora ovbra ess Vera SUR AT! o ld TR O PERSA UENE L O RS 563 A INVASÃO DE LISBOA (Ep NolOBRAPRIAS ii mile aim Rae aber aa Sb AD Ea vera a era A DON EO A afete SAD O CONCURSO PHOTOGRAPHICO DOS SERÕES Alcacer do Sal — Cabo de 5. Pedro, na baixa-mar . 513 Peniche — Manhã de sol 2 557 Os SERÕES DAS SENHORAS (58 Ilustrações, A VARIEDADE DA MODA . cc cisco 93 INCONVENIENTES DOS TAÇÕES ALTOS ...... vg PeLLES MODERNAS ......+ FRADE, 92 PAssAROS QUE COZEM 99 (CREANÇAS EM AUTOMOVE pes 9+ PELOSTALTOS” ,jo!z a! euaio ste ea 2100 SAIAS PARA MENINAS NOVAS Rd. CANDIDATAS AO THRONO DE HESPANHA . 101 ToILETTES DE VELLUDO +... AESA 95 — LAvORES FEMININOS 102 (CaAPEUS MODERNOS .... 96 Os ARTISTAS DA MODA. 106 (Os NOSSOS FIGURINOS... cecve ev 96 - CoNSULTORIO DE LUIZA .. Eve Aa CHAPEUS . FER cn clan na so veem a B7., INOTASIDA DONA-DE CASA ais een eine pa nam n4 A NOSSA FOLHA DE MOLDES ..... «.vescea 98 Uma folha solta de moldes Grande numero de pequenos artigos de hygiene domestica, receitas caseiras, advertencias uteis, etc. A MUYSIZA DOS sERSES NANANDO Musica de ALexanpre Rey CoLLaço, texto de Branca DE Conta CoLLAÇO, illustras OBS GE INhO RA ES e ORE Desp ma dio ccpaia SATA O SP ta a E e AA RU 4 paginas

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DE=a CS E===50 CONGRATULAÇÕES E PROMESSAS Ao terminar com o anno de 1905 o pri- meiro volume da 2.º serie dos Serões, cum- pre-nos, com os cumprimentos de boas fes- tas, renovar os nossos agradecimentos muito effusivos pelo mais que benevolo, antes ca- loroso, acolhimento concedido pelo publico de Portugal e Brazil á nossa revista. Repe- timos o que já por mais de uma vez aqui exarámos acolhimento excedeu toda a nossa expectativa, forçando-nos jubilo. mente a reimprimir os primeiros numeros e a augmentar successivamente a liragem dos seguintes. Este prospero início augmenta as nossas responsabilidades, de sobra o conhecemos. Não nos sae do espirito a ancia de melhorar ivamente os Serões, não só na parte + como na lilteraria e art ves contratempos temos tido a vencer, inhe- rentes mais ou menos a uma empreza d'esta ordem n'um paiz em que os meios de publi- cação são infelizmente ainda deficientes. En- vidamos todos os esforços para vencer, e confiamos em que elles sejam coroados de llente resultado. Contamos com o auxi- as que nos dois conti- exc lio de todas as pess nentes falam a lingua portugueza e que nc possam dar informações, por qualquer forma graphica, sobre cousas da nossa terra ou do Brazil, que é um prolongamento espiritual da patria, Com esse effeclivo auxílio, pod, remos tornar os Serões uma publi ação sencialmente portugueza, largamente instru- etiva e documentada, e excepcionalmente interessante para todos ós individuos, seja qual fôr a sua profi ou a sua classe so- cial, que por todo o mundo estão ligados a nós por laços de patriotica solidariedade, Eis a nossa aspiração, eis a esperança que nos alenta em todos os sacrifícios e no meio. dos mais temerosos estorvos. Exre TE A parte — Magazine — dos Serões termina com este numero o seu 1.º volume (2.1 serie, ) Junto distribuimos as paginas de ante-rosto, rosto e indice d'esse volume. Para elle se ão manufacturando elegantes capas de encadernação, que fornec remos aos nossos gnantes pelo preço de 400 réis. A parte— Serões das Senhoras — deve completar o volume no fim do 1.º anno, isto é, em junho de 1906, « — Musica dos Serões. Pa m como a parte guardar os nu- meros respectivos se estão elaborando egual- mente umas elegantes pastas que poderão ser- vir mais tarde pa 0. s tres collecções constituirão um interes- sante repositorio que, em vista dos primores da encadernação, pode figurar dignamente nas mais elegantes bibliothecas, fornecendo em todo e qualquer tempo uma leitura amena e instructiva, a encaderna QueBRA-CAE Para os problemas apresentados no nosso n,º 4, e os quaes numeramos respectivamente 41 (As sommas desconhecidas), 2 (Medição do leite), 3 (Quanto tempo leva ?), recebemos decifrações dos seguintes amaveis correspon- dentes: Antonio Alves de Mattos (3), Tito (1,2€ 3), X Psilonn (1, 2 e 3), Bohemio-Arazede (3), Lanzudo da Lourinhã (1, 2 e 3), A. Tavares (1, 2 e 3), Visconde das Barbas (1, 2 e 3), Jovita Grandal (4), José Martins Barbosa (1 e 3), Dois caturros (1, 2 e 3), X. Y. Z, (1, 2 e 3), Matultino (1, 2 e 3).

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A medição do leite pode fazer-se da forma seguinte; Tira=se da vasilha 3 decilitros para o copo que fica cheio, Deitam-se na medida de meio litro esses 3 decilitros. Torna-se a encher o - copo, e, com parte do que elle contem, acaba - de se encher a medida, Ficou pois no copo “1 decilitro. Despeja-se em seguida a medida «na vasilha do leiteiro. Deita-se na medida o decilitro do copo, Enche-se este de novo, e juntam-se esses 3 decilitros ao que está agora na vasilha. Temos assim os 4 decilitros pe- didos. Quanto ao ultimo. problema, a solução é simples. O homem começou com 558000 réis, e gastou 50 annos a accumular o capital. Vamos agora ao já celebre problema Onde irá parar? e apresentemos a solução proposta pelo se, Justiniano Esteves: «Seja p um ponto da derrota desconhecida do navio que suppômos partir de O no equa- “dor e origem das longitudes (fig. 1). N sideremos ilivament pes. queno da derrota a partir de p, PD que d verá pertencer ao circulo maximo que passa em pe é inclinado de 45º sobre PN. Sejam Fig. 2 agora dm e dl os acrescimos de longitude e de latitude relativos ao percurso pD; será dm=MF=N e di=Dg. (fig. 2) Posto isto está formado um triangulo espherico NpD, (fig. 3) que pas- saremos a resolver afim de terminar a relação entre dm e dl que pela integra- ção nos dará a equação da derrota procurada. a D'esse triangulo pode- | mos, estabelecendo a equa- ção que liga quatro ele- mentos contiguos, chegar à equação : Fig. 3 sen 1. cos dm = — sen dm-f-cos Lig (Ur dl) + N'esta equação podemos pôr cos dm =1 e sen dn = dm por ser dm infinitamente pe- queno, ficando (feito o desenvolvimento) : tg Ltg dt dm=cosl-—> > — sen] 1— tg l-+Htg dl - Tgl-Higal dm = estica jd =tg l| cosl 1 —tgltg dl ainda tg dl dm=——— cos U(1—tg | tg dl) onde podemos despresar o producto tg | tg dl ficando ; a

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dl como já fizemos com o sen dm por dm: — Para integrar ponhamos : sen [= 1 cos l= CEEE edi= Integrando agora entre os limites 0 em e “to € | correspondentes a 0 e |, vem: y ' E Hf- dt 1 : + —0p. 1+t 1—t E ps lo Io dicando o signal | a necessidade da sub- to , slituição dos limites. Emfim substituindo t por 1, resulta-nos a quação desejada da derrota do navio: Fig. 4 tação em que se póde substituir tg dt por cresce Conto nana até ao infinito, o versamente : aa m até ao infim 1 cresce até > ps especie de espiral em torno do polo approxi- mando-se continuamente delle sem nunca o attingir, dando um numero infinito de vol- A tas em torno da esphera. Alcobaça, 10/11/05.» Temos mais a proposito d'este problema nos permitte por agora publical-a, como se ria desejo nosso. Para o numero seguinte, afim de proseguir n'uma discussão scientifica | que tem verdadeiro interesse para os techn' cos, daremos logar às soluções e demonstra- ções recebidas dos srs. Réclus... manqué, Minimus e A. Tavares... se podermos, Os SERÕES DAS SENHORAS De uma assignante recebemos uma ensa- boadela, perante a qual nos curvamos res- peitosamente, permitlindo-nos comtudo as | observações seguintes: Não é facil, é mesmo quasi impossivel, que as deseripções acompanhem sempre as gra- vuras na mesma pagina, sobretudo querendo . manter a divisão do texto em secções. Para o demonstrar, teriamos de entrar n'uma longa . de certo resolvida a aturar. Mas não ha gra- vuras de figurinos, lavores femininos, eles, que publiquemos sem a respectiva deseripção No caso com que V. Ex.º exemplifica o se aggravo, verá que a descripção relativa às | gravuras de pag. 64 e 65 se encontra a pag. 63, ] Não acha V. Ex.º bonito que intercalemos maximas pelo meio dos figurinos. Com fran- queza, não somos da mesma opinião. Ea | maneira de chamarmos a attenção para esses grãosinhos de sabedoria. Quanto á sua inclu- | são nas Nolas de dona de casa, somos do seu parecer. Foi um lapso... ligeirinho... de que nos penitenciamos. E a respeito de | menus, procuraremos satisfazer de futuro os | justos desejos de V. Ex.º

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132, RUA DO OURO, 188 Almanach HNCHETTE Encyclopedia popular da vida pratica para 1906 Entre os almanachs cuja reputação é universal, destaca-se o Almanach Hachette. É o que se póde chamar uma verdadeira encyclopedia, onde todos podem estudar. Os assumptos ali tratados póde dizer-se que abrangem toda a vasta serie de conhecimentos humanos. Assim, o d'este anno, além do kalendario e da agenda, encerra estudos desenvol- vidos sobre o universo, historia universal, geographia, litteratura, bellas artes, foyer, scien- cias vulgarisadas, direito usual, agricultura, sports, viagens, a vida pratica, é uma desen- volvida secção Males e accidentes, os nossos males e os nossos remedios, pequeno guia de medicina pratica. Todos estes artigos são profusamente illustrados, o que augmenta ainda mais o interesse que sempre desperta o Almanach Hachette. 1 volume brochado, 564 paginas, 10 mappas ou planos e 1:200 figuras, 300 RÉIS. A mesma edição, cartonada, 400 RÉIS. Encadernada em marroquim, com os cantos dourados, 600 RÉIS. A NON O CULTO DO CHÁ Por Wenceslau de Moraes llustrações de Yorhiaki ã O ultimo conflicto entre a Russia e o Japão veiu chamar a attenção publica para este | extraordinario paiz, que, em poucos annos, se ergueu e levantou ao ponto culminante que E hoje occupa. Por isso, é conveniente estudar os habitos e os costumes japonezes. O Culto do Chá é um livro d'um raro sabor oriental. Escripto por quem conhece o | Japão, e que ali tem vivido, estudando os costumes d'esse paiz, as suas paginas lôem-se | com um encanto irresistivel. E nas illustrações, que o adornam, temos um exemplo evidente | da arte japoneza. E' uma obra de luxo, mimosa quanto possivel, encantadora pelo seu valor litterario e | pelo seu valor artistico, e que devem lêr todos quantos gostam de compulsar uma obra, d'arte. E reco 50090 réis

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Maria Pinto Figueirinhas Em todos os paizes, a litteratura infantil tem merecido particulares desvelos; e, para tornar a leitura amena e agradavel, tem-se recorrido aos contos, cheios de poesia, às len- das alegres e divertidas. No nosso paiz, tambem o assumpto não tem sido descurado; e existem já bons livros portuguezes, destinados à infancia. Um d'elles, e dos que maior acceitação tem tido, é os Contos para creanças, de D. Maria Pinto Frgueirinhas. São contos primorosos, bem delineados, feitos com mestria, e reveladores do talento da auctora, a qual, sabendo bem o publico para quem escrevia, revestiu a sua obra das mil infantilidades que tanto agradam e emocionam as creanças. Tem dois meritos esta obra: — distrae os pequeninos espiritos, dá-lhes a noção do bello, falla-lhes ao coração, em liguagem encantadora, e, ao mesmo tempo, educa e mora- lisa, ministrando bons e salutares exemplos, tão necessarios à infancia. 1 vol., de perto de 300 paginas, illustrado e encarnado 800 REIS A, IMPRESSÕES DE THEATRO (Cartas a um provinciano e notas sobre o joelho) ?» Joaquim Madureira (BRAZ BURITY) É este um dos mais soberbos livros de critica que entre nós se tem publicado, com * relação a assumptos theatraes. Nos paizes em que o theatro é a grande escola dos cos- * tumes, acompanhando-se o seu progresso e a sua evolução, livros d'estes são sempre * acolhidos com enthusiasmo. A critica analysa-os, aprecia-os, identifica com elles. “Entre nós, são raros trabalhos d'esta ordem, reveladores de muito estudo e d'uma con- | seienciosa analyse. Por isso, julgamos ter prestado um grande serviço à litteratura portugueza, lançando no mercado este livro escripto com o calor d'uma convicção sentida, como contribuição * de alicerces e repositorio de materiaes para a historia dos movimentos dramaticos—ramo “ e factor da historia do pensamento, dos costumes e da civilisação atravez dos tempos e “das raças. 1 vol, de perto de 500 pag. com 180 caricaturas 1$000 REIS REA a x » IPEA poe ii 2 Ro E cPicça ERRA a ER Eq Gel 4 dci

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Po qe de ue bl, dns de a Rets Harmonias de A. Rey Colaço Ilustrações de Jorge Colaço Prologo de Branca de (GG. Colaço Tem um certo encanto as canções populares. Nºellas se evidenceia a alma boa e simples do povo, e a sua poesia, por vezes encantadora na propria simplicidade. Por consequencia, reunir n'um album, todo accentuadamente artistico, todas essas canções dispersas, fazendo-as acompanhar da musica tradiccional, foi um serviço importantissimo, O album abre com dois soberbos retratos de Alexandre Rey Collaço e Jorge Collaço, é consagrado à ex.ma gr.» Duqueza de Palmella, e encerra 16 canções populares, todas | acompanhadas de grande numero de illustrações, a côres, a que Jorge Collaço soube communicar scentelhas de espirito e de verve. 1 volume profusamente illustrado 18500 RÉIS mA Antonio Correia d'Oliveira PARABOLAS Este livro, quando viu a luz da publicidade, causou uma certa sensação no nosso | mercado litterario, e tanto que a critica portugueza e brasileira se referiu a elle, com pa lavras de justo e merecido elogio. PARABOLAS é um livro de versos, feito de rithmicas branduras, de amaviosas . sentimentalidades. Livro para mulheres e para creanças, os seres que mais se parecem pela ingenuidade candida que de suas almas transparece, elle evidenceia o cunho de in: dependencia do auctor, a sua sinceridade, o seu sincerismo emocionista. Toda a alma portugueza canta cheia de vida n'este livro. Os versos são admiraveis, cheios de sinceri- dade, de candura. Todos estes predicados tornam o livro PARABOL AS o mais delicado | e gracioso brinde que, n'este tempo de festas, se pode offertar a uma mulher ou a uma, creança. 1 volume magnificamente impresso, a côres, encadernado 700 REIS

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Rua Aurea, 132 a 138 — LISBOA dornecsdores de S. dl. dl-diei e Bepositarios das publicações do Estado ULTIMAS PUBLICAÇÕES: Teixeira Botelho — O Homem Primitivo, 1 vol. enc Lopes d'Azevedo — Historia dos Eclipses, 1 vol. enc. Cervantes — D. Quichote, 3 vol. cada br. 200, enc S * Adelino d'Abreu — Serra da Estrella, 1 vol. br. 800, enc...........siccscessreers Francis Chassereau Coombe — The Tourist's and Visitors Illustrated Pocket Guide to Lisbon, Cintra, and Cascaes, 1 VOl........cscesteeesereecerenireasra Egas Moniz — Vida Sexual (physiologia), 1 vol. br. 195000, enc » » — — Vida Sexual (pathologia), 1 vol. br. t$p000, enc Henrique de Vasconcellos — Flirts, 1 vol. br. 500, enc Anthero de Figueiredo — Recordações e Viagens, 1 vol. br. 600, enc... Maximiliano d Azevedo — Em casa do filho, 1 vol à * Henrique Lopes de Mendonça — Nó cego, 1 vol... .. * Antonio Correia d'Oliveira — Parábolas, 1 vol. enc.. » » » -— Ara, 1 vol, br | » » — Auto de Junho, poema . “Theophilo Braga — Tricentenario da Publicação do Don Quichote, 1 vol. br...... Antonio de Soveral — Libambos, 1 vol. br......cexececererceneneesaserencareso “A. Cruz de Rocha Peixoto — Os conflictos Internacionaes ao principiar o se- ENLOLIE, 1 OLDEST ido uia io oco Po dad UR E a e * Maria P. Figueirinhas — Contos para as creanças, 1 vol. enc. “Raul Brandão — À Farça, 1 vol. br Arnaldo da Fonseca — Mulher amada, 1 vol. br......esussessessuesenso ro menAs andido Figueiredo — |.ições praticas da lingua portugueza, 3 vol. br. 2p100, enc. Conde de Sabugosa — O Paço de Cintra, edição de luxo, 1 vol........ 0... nam “José Syder — O Jogo das Damas, 1 vol. br. 500, enc. * Marcellino Mesquita — Almas Doentes, 1 vol. br... | Alfredo Keil — Collecção e Museus de Arte em Lisboa, 1 vol. br.. É Queiroz Ribeiro — Caminho do Céo, 1 vol. enc 'Conego Anaquim — O Genio Portuguez aos pés de Maria, 1 vol. br... “Gonçalves de Sousa — A seccagem da fructa, 1 vol. br lexandre Malheiro — Chronicas do Bihé, edição de luxo, 1 vol Augusto Louza — Na Suissa, 1 vol. br é | Freire de Campos — Guia Pratico do creador e amador de cavallos, 1 vol. br.... isconde de Villarinho de S. Romão — O Minho e as suas culturas, 1 vol. br. “José Joaquim d'Almeida — Coisas d'Africa, 1 vol. br........cccecsesecrsennerea Mattos Braamcamp — O Tiro de Caça, 1 vol. br.......... ceccsisssciarenea ugusto Fuschini — A architectura religiosa na edade media, 1 vol. br abc “Joaquim Madureira — Impressões de theatro, 1 vol. br. 1jpoco, enc. ......ueee AS selmo Vieira — A Questão fiscal e as finanças portuguezas, 1 vol. br..... creesa NO PRÉLO: loão Chagas — Bom Humor, . vol. milio Garcia — Os que furam, 1 vol. (comedia). lexandre de Sousa Figueiredo — Manual de Arboricultura, 1 vol. (2.º edição). dro Dória Nazareth — Primeiros soccorros a doentes, 1 vol. ilustrado. | João de Castro — Jornadas do Minho, 1 vol. athan Swift — Viagens de Gulliver, 1 vpl, illustrado.

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“OBRAS PRIMAS | Bibliotheca dos melhores livros de todas as litteratoras antigas & modernas Tom QUICHOTE DE LA MANCHA E por MIGUEL DE CERVANTES SAAVEDRA Fundando esta Bibliotheca, foi nossa intenção pnblicar as obras que immorta- lisaram os nomes de Shakespeare, Molitre, Goethe, Shiller, La Fontaine, Dickens, | Thackeray, Gorky, Wells, Rod, Prévost, Maupassant, Hervieu, Pereda, Galdós, Ibánez, etc., creando em redor d'esses nomes uma reputação universal. Desnecessario nos parece enumerar a utilidade educativa e o recreio honesto | que da leitura de taes escriptores podem advir, tanto mais que teremos todo o escrupulo na escolha, para que os livros da nossa Bibliotheca possam entrar em | todos os lares e andar em todas as mãos. A parte litteraria merecer -nos-ha o maior desvello, sendo os trabalhos de traducção confiados a escriptores de reconhecido merito. Com taes intuitos, não podíamos escolher obra melhor para inaugurar a nossa Bibliotheca do que o Dom Quichote de la Mancha, critica mordaz e incisiva aos antigos tempos da cavallaria, que tornou o nome de Cervantes conhecido em | todo o mundo, e lhe deu a immortalidade ao lado dos maiores escriptores de to- | dos os tempos. O Dom Quichote está hoje editado em todas as linguas. Todos os povos cul: tos o conhecem. E as edições succedem-se umas ás outras, divulgando a obra magistral de Cervantes. Depois da Biblia, nenhuma obra ainda se diffundiu tanto . por todas as camadas sociaes. Na sua leitura, o espirito retempera-se nos, a alma eleva-se-nos na agudeza da critica e o encanto d'aquellas paginas falla-nos ao coração, A obra de Cervantes não deve deixar de figurar em todas as estantes. Uma lacuna d'essa ordem representa um crime de lesa bom-gosto. Por isso, fizemos uma | edição primorosa, impressa em bom papel, composta em typo novo, e que, no | emtanto, á belleza artistica da execução, allia o seu custo economico. ql A obra está já toda publicada, constando de 3 volumes, que em brochura: importam em À, o 600 REIS e n'uma elegante encadernação em percalina com ferros especiaes 900 REIS Pedidos a FERREIRA & OLIVEIRA 1.º — Livreiros-Búilores 132, Rua do Ouro, 138 — LISBOA NO PRÉLO VIAGENS DE GULLIVER | f É por JONATHAN SWIFT

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Silva Porto — AmoR NA ALDEIA

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À PORTA DA VENDA Quadro de Silva Porto, pertencente a Sua Magestade a Rainha Silver Forto | (Algumas breves notas) m delicado impressionista, * descrevendo-nos n'uma phrase terna a figura pe- quenina «e discreta de Silva Porto, dizia d'elle: — «Dá o ar d'um Christo que tivesse pedido fe- viado na ceia dos apostolos. ..» Timido e simples, solitario e doce, franzino e triste, olhos habitualmente adormeci- dos n'uma morte-luz de saudade, a pelle n'um tom macillento e terroso, as fei- ções grossas e plebêas d'um sensual, modesto no trajar, humilde nas fallas, retrahido nos gestos, Silva Porto pas- 3ava nas ruas como uma sombra, sem attrahir um olhar, muito cosido com as sERÕES N.º 6 paredes, muito «João Ninguem» no as- pecto, surprehendido talvez de não lhe tomarem contas e talvez mesmo prom- pto"a pedir desculpas de ser o mestre da paizagem com aquella cara... | Era um homem de vida interior, aca- nhado e cauteloso diante de estranhos, dilatando-se apenas na solidão ouna con- vivencia d'algum raro intimo. Então, um outro Silva Porto surgia d'aquella creatura embiocada para o mundo, um Silva Porto bom burguez, familiar, in- fantil, por vezes brincalhão, com inof- fensivas malicias nos olhos e uma graça ingenua nos ditos, amigo de rir, feliz de viver. Este Silva Porto que poucos conheceram realmente e o outro que FL

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406 descia á vida, re ceioso, contrafei- to, atarantado, ex- plicam, me pare- ce, a feição a um tempo perfeita e pueril, honesta e banal, limitada e sincera, de toda a sua obra. O seu apego ao solitarismo le- vou-o aoamor pela paizagem. Diante das arvores paci- ficas e innocentes, das aguas pregui- cosas e sentimen- taes, das atmos- pheras diaphanas e leves, estava in- teiramente á von- tade. Pintando fi- gura, necessitava parailludir aquela sua cobardia in- vencivel, d'um modelo plebêo e inferior que não o intimidasse ou d'alguem que SILVA PORTO CABEÇA DE CAMPONEZA Pertencente a S. M, El-Rei o agradavel con- vivio lhe fosse ha- bil e lentamente insinuando na sua ambiencia de ar- tista. Os seus instin- ctos de exemplar burguez, — tomo a palavra na boa accepção —fazem- no escravo d'uma moral atavica, ins- tinctiva, obrigan- do-o a cumprir quasi como um of- ficio a sua arte ma- gistral. Saia cedo, inva- riavelmente, e tra- balhava o dia in- teiro, na aula, no atelier, naslicções particulares, che- gando a casa para jantar, extenuado como um operario á volta da oficina. A maior caracteristica nos seus qua- A SALMEJA Pertencente a S. M. El-Rei

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SILVA PORTO 467 dros é a probidade de technica: as suas paizagens são verdadeiras, d'uma ver- dade toda material; dão a região, a hora, o sitio. Não lhe peçam o lado vasto e mys- terioso da natureza, alguma indefini- vel surpreza ou qualquer idéa transfi- gurando-se em sonho immaterial. Não, Silva Porto pinta o que vê e só o que vê. Trabalha, lucta, esforça-se por con- seguir o que tem diante dos olhos, sem deixar a minima coisa ao acaso do pin- cel, Procura dar o aspecto completo da sua visão e foge systematicamente á improvisação que elle julga uma in- ferioridade de caracter, uma immora- lidade relativa, embora muitas vezes ella sáia feliz e revele talento. Com certo conde artista, muito affei- coado a Silva Porto, passou-se uma interessante scena que indica até que ponto ia a probidade do nosso paizagis- ta. Gostava o conde de pintar e, não raro, aproveitando uma excursão do mestre, partia para o campo a trabalhar ao lado de Silva Porto. D'uma vez, esco- lheram ambos o mesmo trecho de pai. zagem e cada um com sua taboinha tratou de fazer a respectiva mancha. No primeiro plano havia uma arvore

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468 SILVA PORTO RAPARIGA DOBANDO Pertencente ao sr. Ferreira das Neves tôsca e imperfeita que crescera sem cuidados nem amparo, á mercê do tem- po. O conde, apezar d'artista, era um eminente botanico, pro- fessor d'uma escola su- perior, é começou logo tratando a sua arvore como um especialista e profundo conhecedorda anatomia plastica do modelo. A pouco e pouco, le- vado pela sua paixão, ia corrigindo a pobre arvore inculta, detalha- va-lhe os ramos, com- pletava-lhe a archite- ctura dos troncos, pren- dia-lhe symetricamente tufos de folhagem, des- ciaa minucias de recorte da folha, era meticuloso na implantação dos pe- ciolos. Quando Silva Porto deitou os olhos ao estudo do conde, não conheceu a arvore. E levantando-se, muito grave e muito tris- te, disse: — Está muito bonita, mas não é o que lá está! E para o resto do dia ficou furioso contra aquelle attentado, emquanto o conde ria a bom rir... Os quadros de Silva Porto vivem pro- digiosamente por essa probidade e por essa solidez de factura que tem já de cha- mar-se individualidade. Conhecem-se de longe, sem precisar ver quem os assignou, e nada entretanto os domina como garridice ou effeito proposital. A tinta é sempre suave, macia, harmo- niosa e bella, e o truc é- tão admira- velmente disfarçado na justeza e habi- lidade dos processos que o quadro parece não existir como obra d'arte mas como inexplicavel reducção da propria natureza. Silva Porto pinta bem e essa indispensavel qualidade n'um mestre de pintura é adquirida aos pou- cos, n'uma tenacidade espantosa em individuo portuguez, como consequen- cia da sua honestidade burgueza se re- percurtir na sua vida artistica. E” pre- ciso pintar bem «para não enganar o publico» ... Vemol-o, por exemplo, mudar mui- AZENHA NO MINHO Pertencente ao sr. A. Torres Pereira

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Danca DESPASSAGEN (sente eterno) Pertencente ao sr. condeçdoAmes!

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470 SILVA PORTO tas tintas da sua paleta ao reconhecer que certos brancos, alguns amarellos, determinados vermelhos, cresciam ou negrejavam com o tempo, prejudicando o quadro. Vemol-o tambem estudando todas as suas paizagens ao ar livre, enchendo-se de apontamentos do natu- ral, e queixando-se sempre ao pintar o quadro definitivo no atelier de que lhe faltam documentos. O seu desejo seria rebanho?... D'essa primeira arvore, hirta e chata, de côres carregadas e falsas, de folhagem banal e miudinha, pacientemente feita a granulos de tinta, dando-nos a impressão de certas pacoti- lhas allemãs que imitam grosseiramente hediondas chinezices de exportação, até aos habeis e perfeitos trabalhos do fim da sua vida, que constante e pertinaz pro- gresso, que continua e lenta ascensão, CONDUZINDO O REBANHO Pertencente ao sr. conde do Ameal levar a grande tela para o campo e ali executar, fielmente, á vista do modelo. Procurando ser exacto, perseguindo a verdade, chegou a apoderar-se da fórma. A sua technica, mórmente nos ultimos annos, é incomparavel, quasi incomprehensivel; tem segurança, fa- cilidade, largueza. Quem nos diria, olhando a primeira arvore que Silva Porto pintou, estar ali o futuro compo- sitor da magnifica tela Conduçindo o que espantosa e esforçada lucta para ver, para tentar, para conseguir, para trium- phar! O seu ideal é sempre o mesmo: ser probo, pintar o que lá está .. E d'este modo attinge um outro: ser pessoal, inconfundivel, ser Silva Porto. Estamos habituados a chamar artis- tas a creaturas que não passam dos dominios d'uma technica habilidosa que adquirem, á força de insistir no tempo

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472 SILVA PORTO O MUINHO DO GuEGoRIo Pertencente ao sr. H. Pinho da Cunha e na paciencia, um processo correcto de factura sem originalidade nem indi- vidualidade São typos frios, astuciosos, preparando a pincelada com a receita dos outros, soffrendo successivos aba- los na maneira conforme as influencias proximas, executando como um qual- quer ao cabo do mesmo esforço de copia. São incontestavelmente traba- lhadores, com grandes qualidades assi- milativas. mas que chegam ao lirrite do molde sem nunca o ultrapassar. Para. physionomia de grande artista falta-lhes a idéa, falta-lhes o caracter na obra, falta-lhes a sinceridade na execução. Não conseguem interpretar; o vôo que alguma vez ensaiam não se libra, é rasteiro, roçando o que vêem sem jámais se levantar ao que sen- tem... porque nada sentem. A propria technica vão buscal-a a paletas extra- nhas, sem nunca tentarem uma tinta de sua: lavra: pintam como se usa; a moda limitrophe, sem poder crear. E' a historia de quasi todos os nossos pintores que vão estudar lá fóra. Abdi- cam da sua nacionalidade e do seu sen- timento, mascaram-se de pasticheur, e raras vezes procuram libertar-se da influencia extrangeira, Silva Porto nao foi assim. Andando cinco annos em estudos pela França, Belgica, Hollanda, Inglaterra, Hespa- nha e Italia, ficou sempre genuinamente portuguez. Não se desenraizou da sua terra; ao contrario, parece que a au- sencia da patria, roendo-o de saudades, avigorou o amor que lhe tinha, e a ina- daptação a um meio extranho, artificial, hostil e complicado de mais para o seu fatalismo de plebêo e para a sua cre- dulidade infantil, fez pungir essas tris- tes e nostalgicas idéas que depressa o trouxeram para Portugal, na ancia de outra luz e melhor ceu. Uma vez na patria, fazendo arte, nunca se esqueceu de prover ás necessi- dades caseiras e ao equilibrio material da sua vida. Dá lições particulares, rege uma cadeira na Academia e ainda os

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SILVA PORTO 473 motivos que escolhe de preferencia para” pintar são os que seduzem prompta- mente o comprador. O Minho com a sua paizagem maneirinha e doce, tem- perada de suavidades de luz e melo- diosa na orchestração das côres, for- nece-lhe uma serie facil de ensaios, apontamentos e pequeninas telas, sem- pre disputada pelos amadores. Os arredores de Lisboa, pocirentos e baços, os campos ribatejanos, certos trechos pittorescos da provincia, encon- tram em Silva Porto não só o pintor inegualavel de fidelidade mas tambem o representante sincero d'uma clientela. A sua arte tem um lado pratico, é quasi sempre um modo de vida Ve- mol-o, por- exemplo, fixar o preço dos seus quadros pelo tamanho da tela e não pela qualidade de pintura. A mara- vilhosa Cabeca de camponeza, realisada com um amor e uma delicadeza d'ins- pirado, é vendida por sessenta mil réis como qualquer mancha de natureza rustica e banal. E quem estranhasse o facto, encontrava o pintor, timido e, envergonhado, desculpando-se : — Então havia de pedir mais dinheiro. por um bocadinho tão pequeno de pin- tura?! Este feitio medroso de negociante prendeu lhe as azas para a concepção d'uma larga obra em que as suas ex- traordinarias aptidões de paizagista e animalista se immortalisassem por al- guma coisa mais do que a wrtuosidade. Ao seu lado faltou aquelle anjo que, no dizer ingenuo de Corot, descia do ceu para lhe pintar as melhores te- las... Nas reproducções que acompanham estas ligeiras notas encontrará o leitor, que por infelicidade nunca lograsse ver os quadros de Silva Porto, a expres- são da realidade attingida pelo paiza- gista ao cabo d'um esforço paciente e pertinaz de longos annos. Algumas pa- recem instantaneas copias photogra- phicas, tão flagrante é a acção do qua- dro, tão nitida a movimentação da CEIFEIRAS Pertencente ao sr. conde do Ameal

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474 SILVA PORTO CASA MINHOTA Pertencente á Sociedade Nacional de Bellas Artes scena. Na Barca de passagem, o rio, as arvores, os montes, o carro de bois, a barqueira são d'um naturalismo per- feito... e impassivel. Nas Ceifeiras, uma das suas melhores telas, o qua- dro dá espantosamente essa seara dos suburbios de Lisboa, d'um amarello convalescente, e nas figuras ha um vis- lumbre de evocação poetica que rara- mente-se encontra no artista, tão rara- mente -que só nol-a recordam mais dois quadrositos seus: um com o estu- do d'uma manhã de neblina no Tejo e outro em que ha uns cavallos bebendo. No quadro Conduzindo o rebanho, d'uma factura admiravel, inegualavel, unica, o virtuose parece querer mos- trar-nos todos os seus recursos na clara e 'nitida execução d'um trecho alta- mente complicado. Nº'essa extraordina- ria tela de quasi dois metros, juntam-se todas as maiores difficulda- des d'uma paizagem, A luz é a do meio dia em agosto, o ceu abafa n'um calor de trovoa- da, o terreno é o d'uma azinhaga dos arredores de Lisboa; piteiras, sil- vas, uma oliveira car- comida e velha, tudo poeirento e sequioso, n'uma atmosphera de febre; pela vereda pe- dregosa uns carneiros, um pastor, um burro e uma lavadeira, levan- tando uma poeirada as- phixiante... Não ha palavras que expliquem sufficiente- mente o efeito d'este quadro; é preciso tel-o visto para se com- prehender até que pon- to ia a consciencia do pintor escravisando se à exactidão da scena. Diante desta paiza- gem, onde o artista se preoccupou apenas em nos revelar que sabe pintar, é que se sente bem a falta que lhe fez um pouco de ideai, de commoção, de sonho, a divi- nisar-lhe aquellas inexcediveis faculda - des de technica. Seria um nunca acabar descrever mesmo summariamente as tresentas ou quatrocentas telas que deixou. São ra- pidas manchas, pequenos estudos, tre- chos d'arvoredo, notas animalistas, ca- sas alpendradas, engenhos d'agua, ma- rinhas, regadas, costumes e trajos mi- nhotos, scenas de campinos, mulheres fiando, riachos verdosos, recantos rus- ticos... De vez em quando, uma mu- lher de Santa Martha, de Avintes, de Miadella ou da Maia, apparece com seu lenço á chineza e jaleco de riscas, saia entrançada de côres como um arco- iris, com suas resplandecentes arreca- das nas orelhas e grilhão de muitas

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SILVA PORTO 475 voltas ao pescoço, as meias de neve, a chinellinha ponteaguda no bico do pé... Outras vezes, é uma saloiasita nubil e fresca, de roupinhas pobres e lavadas, humilde e casta, um lenço vermelho descaído para os hombros, um sorriso meio acanhado na bocca inexpressiva, —uma saloiasita como a d'essa Cabeça de camponeza, tão cheia de caracter e de graça, que um amigo meu, enfeiti- cado pela suave e encantadora mode- “tuguez, e assim succede, é vergonha dizel-o, que no Museu Nacional das Janellas Verdes ha apenas uma pequena tela de Silva Porto, que, por maior infelicidade, não pertence à sua ultima feição de technico pujante e incompa- ravel. E Coisas caracteristicas da nossa ter- Ta... O seu ultimo quadro, por concluir, parece-me que pertencia ao Gremio MACIEIRAS EM FLOR Pertencente á Sociedade Naciona de Bellas Artes, ultimo trabalho de Silva Porto (por concluir) lação da pequenina tela, intitulou a Jocunda portugueça... Pena é que toda essa obra valiosa e vastissima esteja em mãos de particu- lares, sujeita aos acasos da fortuna e a problematicos destinos no futuro. Os poderes. publicos, sempre distrahidos com as rotinices da machina politica, esqueceram-se de adquirir, em época propria, os indispensaveis documentos para a historia do maior paizagista por- Artístico e deve estar hoje na Socie- dade Nacional de Bellas Artes. E uma linda mancha de côr, com uma atmos- phera fluida e luminosa, onde se recor- tam os ramos floridos de duas maciei- ras. O terreno, em tres gradações de verde, n'uma pastada larga, alonga-se a perder de vista. Ha certos pontos em que as tintas apparecem ainda sobre- postas tal como o pincel, à pressa, as colheu na paleta, sem tempo de fun-

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478 SILVA PORTO dil-as completamente. E um valioso e na exposição do Gremio, um anno interessante documento para quem pre- | depois da morte do paizagista. Todos tender algum dia estudar o processo os dias, em frente do quadro, os visi- de pintar de Silva Porto. tantes deixavam o tapete coberto de As Macieiras em flor appareceram — flores. (*) MANuEL PENTEADO. CAMPINOS Pertencente a S. M. a Rainha Senhora D. Maria Pia (+) Antonio Carvalho da Silva Porto nasceu no Porto a 11 de novembro de 1850. De 1865 a 1873, seguiu alli com distnc- ve os cursos de architectura civil, esculptura e pintura, na Escola de Bellas-Artes. No ultimo teve por mestre João Corrêa. m 1873, tendo feito concurso, partiu para o extrangeiro, como pensionista do Estado, a completar a sua educação. Diri- glicse primeiro a Paris, onde esteve até 1877 e onde foi discipulo de Cabanel, Daubigny, Beauverie, Yvon e Groseillez. esse anno, foi para Roma concluir os seus estudos. De Italia voltou a França, realisando em seguida, á sua custa, uma viagem pelos museus da Belgica, Hollanda, Inglaterra e Hespanha. No seu regresso a Portugal em 1879, foi logo nomeado interinamente, para um dos logares de professor de pintura na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, —logar que a morte de Annunciação (em 3 de abril d'aquelle anno) deixára v: Em 1883, passou á effectividade. Silva Porto concorreu ás éxposi- ções do Salón; em Paris, nos annos de 1876, 1878 e 1879, merecendo as suas obras a atenção da crítica. Enviou tambem al- guns quadros à exposição universal que se realisou n'aquella cidade em 1878. E quando, em 1881, a Hespanha celebrou o i-centenario de Calderon, expoz diversos trabalhos em Madrid. Em Portugal, apresentou-se pela primeira vez em 1880, n'uma exposição organisada pela Sociedade Promotora das Bellas-Artes. Depois, tomou parte nas oito exposições reali- sadas, de 1881 a 1888, pelo raio do «Leão», de que era o mestre, o chefe, — e em 1891, 1892 e 1803, nas exposições promo- vidas pelo Gremio cArtistico, de que foi presidente e um dos fundadores. Figuraram ainda trabalhos seus na decima-terceira e na decima-quarta exposição da Sociedade Promotora, e no Porto repetidas vezes. A” exposiçá industrial que em 1888 se realisou em Lisboa, enviou dois dos seus melhores quadros: —A Salmeja e Avolta do mercado. O jury conferiu-lhe a medalha de ouro. Silva Porto foi um dos artistas que tomaram parte nos trabalhos da solemnisação do tri-centenario de Camões. E” seu o desenho do carro da guerra. Morreu em Lisboa no 1.º de junho de 1893. Formou-se logo uma commissão de artistas, alumnos e professores da Academia de Bellas-Ártes, para promover algumas homenagens à Silva Porto. Essa commissão organisou uma interessante exposição de quasi toda a obra do artista em junbo de 1894. Dois annos depois, effectuava a transladação dos restos mortaes de Silva Porto para um modesto tumulo, erigido por subscripção publica no cemiterio oriental. Projecta tambem erguer um pequeno monumento ao grande paizagista/em um dos jardins publicos de Lisboa.

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O-Tsukimi o 15.º dia do 8.º mez lu- nar, que coincidiu este anno com o dia 13 de se- tembro do calendario gregoriano, é a festa da lua, n'este Imperio. As varandas das casas, col- locam-se previamente jarras com plantas e flores symbolicas; e a gente aguarda com anceio a apparição do astro da noi- te, então em plena grandeza, saudan- do-o reverente, com as mãos postas, elevadas ao céo. No entretanto, ha sitios preferidos, pela belleza especial do seu scenario, para se ir prestar culto à lua, ao que ORNANENTAÇÕES EM HONRA DA LUA A LUA CHEIA se chama Ó-Tsukimi; prefe- rindo-se naturalmente os ho- risontes vastos, atravessados pela amenidade das aguas — oceano ou rio, — e onde abun- dam os pinheiros e outras ar- vores, entrando nos preceitos da esthetica classica o obser- var-se o resplandecente disco atravez da renda da folha- gem. Ora, eu, que sou tão japo- nez quanto me permitte a cir- cumstancia de não ser japo- nez, resolvi tambem ir este anno, como qualquer japo- nez de fino gosto, assistir ao U-Tsukimi, em um local afa- mado para o effeito; e assim me encaminhei para a aldeia de Ishiyama, na provincia de Omi, distante algumas leguas de Kyoto. Omi, como é noto- rio, é uma das mais pittores- cas regiões de todo este Nip- pon, mercê do seu delicioso lago Biwa; e o contemplar a lua do alto do templo de Ishiyama constitue precisa-

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478 Ó-TSUKIMI mente uma das oito bellezas legen- darias da provincia. Ishiyama é tam- bem notavel pelo brilho e grandeza dos seus pyrilampos, que pullulam sobre os charcos nas noites quentes de junho, e que as raparigas veem de longe colher, em festa, como um bando de fadas que viessem roubar estrellas do céo. O meu afan de peregrino inspirára-se talvez principalmente no facto de estar annun- ciada a paz com a Russia: ia alumiar o solo do Japão o astro rejuvenescido, após um longo anno de incessante lida planetaria; esse jorro de luz, serena e meiga, trazia ares de uma benção vinda do alto, convidando o povo à tranquil- lidade, ás doces alegrias pacificas, ao amor da terra, ao labor carinhoso do solo e das industrias; e crescera-me o desejo de participar n'essa adoravel commemoração pagã, elevando tambem as minhas mãos, elevando tambem a minha prece, á lua, o astro dos poetas, o astro dos nipponicos, que todos são poetas !... A aldeia de Ishiyama é deveras deli- ciosa, contendo em si a essencia inteira de uma d'essas paizagensinhas paradi- siacas, que nos commovem no esmalte das porcellanas, ou no brilho dos cha- rões, ou na trama dos brocados. Do lago Biwa, entra por aqui um braço, estreitando em rio, limpido e calmo, por onde barquinhos sulcam. A famosa e lendaria ponte de Seta, em duas cor- covas, une uma margem a outra mar- gem, ambas povoadas de casinhas rus- ticas, de poisos de viajeiros. No primeiro plano, os arrozaes viçosos descem até vir beijar as aguas. Nos planos distantes, succedem-se e recortam-se as curvas acavalladas dos montes verde-escuros vestidos de matas de pinheiros, dos montes azues, dos montes roseos, dif- ferentemente impressionados pelos tons da luz e pelos vapores da terra. A tudo se sobrepõe um céo de anil, que nuvens de formas apocalypticas mosqueam. A grande affluencia de hospedes na chaya onde me achava e a consequente A PONTE DE SETA, LAGO BIWA

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480 Ó-TSUKIMI TOMANDO CHÁ E CONTEMPLANDO A LUA “demora em servirem-me o modesto jan- tarsinho que pedira, privaram-me do prazer concebido de ir assistir, no tem- plo de Ishiyama, á apparição do astro. Traziam-me justamente o ultimo ace- pipe, por signal um pouco de peixe crú adubado com vinagre, quando uma es- tranha gritaria irrompeu de todos os quartos que se seguiam áquelle que 0c- cupava, trazendo-me a noção de algum grande acontecimento commovente. Um âncendio no edificio? uma invasão de russos?... Nada d'isto: era a lua que surdia de traz de uma collina, e se ele- vava, e se elevava no azul, na magnifi- cencia cariciosa do seu disco de ouro pallido, em gapotheoses fulgorantes de crepusculo. Todos os hospedes acudiam á varanda da chaya, em sobresalto, em extasis, embasbacados para o pheno- meno, como se fôra a primeira vez que o desfructassem; soltavam-se exclama- ções varias, observações de jubilo; a phrase O-7suki-Sama (Sua Excellencia

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Ó-TSUKIMI 481 a Lua) chegava frequentemente aos meus ouvi- dos; mãos alvas de musumés er- guiam-se. amoro- samente ao céo, em gestos de pie- dade... Abandonei o jantar e corri ao templo de Ishiya- ma, /shiyama dera (o templo da mon- tanha de pedras), que dá o nome à aldeia, e assim chamado pelas pedras extrava- gantes, núas, re- queimadas, que surgem do solo onde assenta o sa- grado edifício, de- dicado a Kwan- non, a deusa do perdão. A chusma dos peregrinos percorria solem- nemente os tri- lhos que serpeam em torno das varias construcções do templo e após se em- brenham pelos pinheiraes arriba; e ia agglomerar-se, respeitosa, n'uma vasta clareira. D'alli, tomando chá, que uma velha servia a troco de alguns cobres, a chusma contemplava o inteiro pano- rama da paizagem, então lindamente iluminada, como uma paizagem de so- nho, pela luz que Sua Excellencia a Lua Kobe, setembro de 1905. OS PYRILAMPOS NA GAIOLA do alto lhe jor- rava.. A faixa pratea- da do rio esten- dia-se ao longo do horisonte, en- tre montanhas. Além, distante e indefinido, dese- nhava-se o arco da ponte de Seta, de legendaria me- moria, medindo 791 pés de com- primento. Fôra de sobre aquella pon- te que, ha mil an- nos, o guerreiro Tawara Tôda Hi- desato prostrou com uma frecha, em cuja ponta cuspira por des- preso, a mons- truosa centopeia, de uma legua de tamanho, que se aprazia em tor- turar o dragão- peus, que habi- tava o lago Biwa. Em premio de tal façanha, fez o dragão varios presentes a Hidesato, não sendo o de menor va- lia um saco cheio de arroz, do: qual Hidesato, sua familia, seus amigos, seus criados, seus vassallos, tiravam em cada dia seu sustento, sem que jamais o saco se esvaziasse. Maravilhoso saco ! Mara- vilhosos tempos! Maravilhoso Impe- Bios. SERÕES N.º 6

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Um dia de uma elegante lisboeta do seculo XVII esHo à honra de lhes apresentar uma das mais célebres elegantes lisboetas do sé- culo xvirr,— a menina Luiza de Sousa Villanova, 19 annos, orphã de mãe, e fi- lha do desembargador do Paço D. Diogo Este- ves de Villanova, que por volta de 1753 servia na Chancellaria da Côrte e casa da Supplicação de Lisbôa. Tenho a honra de a apresentar, porque é o typo perfeito da «frança» do meado do sé- culo, da «frança» D. José, cheia de joia berta de: polvilhos, mosqueada de signaes, rica, futil, caprichosa, beata, — e tão linda quanto lh'o permitte o seu penteado mons- trnoso, a sua maquillage excessiva, as vinte môscas de tafetá que lhe pontuam a face, a luneta de punho d'oiro e d'um vidro só, levada constantemente à orbita esquerda... Não a estão vendo, bem sei, — porque são apenas 8 horas da manhã e a nossa elegante a esta hora ainda se conserva recolhida : mas vêem a tapeçaria de Arrás que dá para os seus aposentos, — aquella velha tapeçaria 'um ver- de-pallido, vagamente tecida d'oiro, aqui e ali, e onde duas grandes personagens desbo- tadas gesticulam, meio dissimuladas nas do- bras do estofo. É por detraz Jaquella tapeçaria que ella está,—talvez dormindo. Esperemos que a nossa «frança» acorde e sacuda a campainha de prata da cabeceira, pequenina como um guizo, leve como um brinquedo: a dueia e a m de camara correrão immediatamente, sollicitas, apressadas, -— a moça com as chinellas e as roupinhas, a ducha com o espelho de mão para a menina se vêr... Mas emquanto a campainha não toca e el- las não chegam, vou dizer-lhes o que era, por volta do meado do século xvrrr, o typo tão caracteristico da «frança». , €O- A «frança» é a elegante de 1750, chamada assim pelo vício de imitação das modas fran- cezas. Tem como predecessora- a «preciosa ri- dicula» do século xvir e como suecessora a «sécia» de 1790. Está entre a Carta de Guia de Casados e os serenins de Queluz. Não tem privilegios em nenhuma camada social: a «francezia» invade tudo, infiltra tudo, — desde a nobreza vieille-roche até à ultima burgue- zia, desde o tecto d'oiro da Sala dos Veados: até aos telhadinhos equivocos do. Mocambo e do Bairro Alto. Está em toda a parte, vê-se em toda a parte, nas procissões, nas novenas, na Comédia, no Paço, com a sua espantosa saia de bambolins, os seus penteados complicadissi- mos feitos de véspera, o seu monstruoso dia- mante da testa à laia d'unicornio, a sua voz de falsete, os seus passinhos dançados, a sua. face pintada e mosqueada de signaes. É uma. charge, é uma caricatura. Mas a sua «france- zia» io vae mais longe: limita-se ás modas. A «frança» e o seu modelo parecem-se apenas. por fóra. Emquanto a elegante franceza do s culo xvir creava um typo, dava leis, fazia opi- uião, decidia da vida litteraria do seu tempo; emquanto nos salões da marqueza de Lambert, de Madame Du Deffand, de Madame d'Aiguil- lon, de Madame de Tencin, as mulheres: «grip- pées de phiosophie», elegiam academicos, no- meavam magistrados, disentiam Cicero, Séneca, Plinio, Horacio, contribuiam para a publicação do Espirito das Leis de Montesquieu e trata- vam d'egual para egual La Motte, Fontenelle e Marivaux, — a nossa «françasinha» lisboeta, ainda a mais nobre, educada por frades, creada. debaixo das saias das duchas, dengosa, futil, beata, sensual, era o que pode imaginar-se de mais deliciosamente inculto e de mais encan- tadoramente ignorante. A sna «francezia» era toda exterior: não passava das joias, dos le-

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UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA 483 dito ) ) y |] Nu) ques, dos penteados, das mesuras. Lá por den- tro não havia nada de mais portuguez. Muito devota, muito inculta, muito sensual, rodea- vam-n'a frades, sempre frades, eternamente frades. Uma procissão, um Lausperenne, um papagaio, um lundum, uma bôba mulata, — e ahi estava uma «frança». A sua mais alta ex- pressão de intelleetualidade consistia em dar «motes» n'um outeiro, em tocar péssimamente Haydn n'um cravo e em ensinar inconyenien- cias ao papá . Em resumo, a elegante lis- boeta do século xvrrr, era... era... “A MENINA AINDA DORME + «1 Prompto: a campainha. A nossa «frança» que acordou. Ahi vem já a creada com as «roupinhas do levantar», as chinellas de velludo que mal ca- beriam n'uns pés de creança, o pequenino es- pelho de mão de prata lavrada, — e atraz, muito grave, muito composta, muito bem toucada, à dona velha com umas fructas de conserva den- tro d'um prato da India: é o petit-dejeuner. À guarda-porta de Arrás afasta-se um pouco para ellas passarem, e nós vemos ainda, rapidamen- te, n'uma vaga névoa doirada, as roupas des- feitas d'um leito e um lindo braço côr de rosa pendendo na indolencia do despertar... Mas descancem: não vemos mais nada, À tapeçaria tem o bom senso de cahir de novo, pesada,

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484 mysteriosa, — e diante dos nossos olhos ficam apenas, oscillando, as duas grandes persona- gens desbotadas que gesticulam, tecidas d'oiro, no fundo pallido d'um bosque. . . Deixemos a «frança» fazer a sua toilette, — e sejamos discretos. Já o.dizia o precioso ab- bade de Choiseuil a certa marqueza pouco escrupulosa : — «Quando uma mulher bonita sáe da cama, todo o homem de espirito deve fechar os olhos», Fechemos pois os olhos, como o abbade de Choiseuil. Aquella tapeçaria é sagrada para nós, — e para o celebre e pittoresco Mufiéri, cabelleireiro das meninas da moda, que acaba de entrar na antecamara e de pousar sobre um tremó doirado uma multidão inverosimil de frasquinhos, de ferros, de borlas de polvi- lhos, de tigelinhas de côr, de papellinhos de pós de França, — de coisas insignificantes, mi- nusculas, complicadas, pertencentes á nobre arte de riçar, de frisar, de encannudar, de polvilhar, de fazer d'uma linda cabeca uma deliciosissima monstruosidade. Observemos o senhor Mufhiéri: vale a pena, porque o senhor Mufliéri é célebre. Imaginem um velho saltitante, com uma casaca de sêda preta muito justa, uns bofes de renda monstruosos, umas pernas magrissimas alongadas ainda pela moda franceza dos «ro- los», a cara pintada de carmim, os dedos cheios de pedras falsas, dançando em vez de andar, cantando em vez de falar, ridiculo, precioso, meudinho, insinuante, — e ahi teem a figura tão pittoresca do cabeleireiro da senhora marqueza de Marialva, da senhora condessa de Tarouca, da senhora condessa de Soure (fi- lha), de todas as «franças» nobres do tempo, emfim, -- e da menina D. Luiza de Sousa Vil- lanoya. Sabe escandalos de toda a gente, pô- dres de todas as familias, faz recadinhos d'amor, toca deliciosamente modinhas ao cravo, ensina os caniches das fidalgas a fazer habilidades, — e coisa curiosa, coisa impagavel, não perde a linha, é sempre correcto, sempre palaciano, sempre distincto. Tem só um defeito: em toda a parte onde veja um espelho, Mufliéri põe-se logo defronte, a fazer caretas, a ensaiar posi- ções. Apanhou um tremó, pousou os frasqui- nhos, — e lá está elle a morder os beicos, a procurar attitudes, a mão na cinta, o tricorne debaixo do braço, velho como um fructo secco, galante como um petit-abbé. Nisto surge-lhe no espelho a figura da sua deliciosa cliente, volta-se: é a nossa «frança- UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA sinha» que vem entrando, muito dengosa, muito lenta, amparada á moça de camara, com um grande penteador de sêda branca, umas chi- nellinhas meudas de velludo berne, os dedos cheios de joias, sorrindo e apertando voluptuo- samente nos dentes um alperce cristalisado. Levam bem cinco minutos a fazer mesuras um ao outro. Depois a signorina senta-se n'um tam- borete doirado, diante do tremó, e emquanto come confeitos d'uma maneira vertiginosa, Mufhéri procede solemnemente à edificação dum inverosimil penteado «á hungara», riçan- do, empoando, aceumulando joias, laços, rosi- cléres, ondeando, encannudando, encaracolan- do, ereando em volta de si uma atmosphéra as- phyxiante de perfumes e de pós de França. Por fim termina-se o penteado. A nossa «frança» parece uma figurinha de Watteau ou de Boucher. O cabelleireiro recolhe os frascos, os ferros, os polvilhos, a menina ergue-se, le- vam outra vez cinco minutos a fazer mesuras, e Mufhiéri sãe, cortejando n'um italiano cerra- do, saltitando, dançando, andando de costas. Procede-se então à toilette para a missa. D'ahi a pouco, a «françasinha» sae da sua guarda roupa, vestida estupendamente, com uma saia de bambolins na ultima moda, um grande manto de velludo côr d'ouro velho, que era a côr que mais se usava então, muitas joias, muitos laços, muitos signaes de tafetá. A dueia entrega-lhe a borla de arminhos que ella ha de levar comsigo para se empoar cons- tantemente, e a bocetasinha d'oiro das «anos- cas» para substituir alguma que porventura caia. Pelo seu lado, a moça de camara toma re- ligiosamente nas mãos um pequeno coxim de damasco vermelho para a menina ajoelhar na Egreja, — e a menina n'uma poltrona, a dueia e a moça em tamboretes, aguardam as tres, sentadas e immoveis, que em baixo na cocheira apparelhem o cóche d'arruar. Batem as dez, fóra, em todos os sinos da cidade, — e dentro em todos os relogios da sala, que tilintam mi- nuetes. Por fim surge um ereado empoado, de libré: Sua Excellencia pode descer, está prom- pto o cóche e o senhor Desembargador espéra. Então, a menina desce, sempre amparada á moça, em pequeninos ais de cansaço que no tempo eram d'uma distineção suprema. No pateo, o pae aguarda-a, de cadogan, lu- neta de punho d'oiro e ares desembargatorios, dá-lhe a mão a beijar, — e entram os dois na berlinda, uma rica berlinda doirada, muito no- bre, muito solemne, muito oscillante, com per-

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UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA 485 sevão de mosaico e pinturas de Pedro Quillard, um francez mandado vir por D. João V, que pin- tava deliciosamente à maneira de Watteau. Ao subir o estribo, a nossa «fr: pé,—um pé adoravel, pequenino, calçado de vel- ludo vermelho, um pé que faria honra a Luiz XV e ao sapateiro Choisy, — um pé tão singular- casinha» mostra 0 mente lindo, que um frade que vae passando curva-se todo em Gloria Patri para o vêr me- lhor, e um «faceira» fidalgo deixa cahir a luva co... O ereado ergue o estribo, curva-se, sóbe às taboas, o cocheiro fustiga os frisdes, cal linda parte, doirada e cambaleante, pelo Ba Alto, até S. Roque, entre frades e galdranas, casquilhos e baetas, O tejadilho aflora quasi a dl ; ii; o TAN 5 alpendrada dos resaltos, e d'uma janella de rótula, ao passar o cóche, uma voz esganiçada de michéla trauteia o «minuete do casquilho» : «Ai que senhora Como é formosa, Peito de rola, É Faces de rosa. Entra na Egreja Toma aqua benta, Só de creadas Traz bem sessenta, Vê o seu seio, Guarda o seu léque, Olha em seu peito O rosielér. Quando a berlinda pára á porta da À, uma nuvem de mendigos ro- + coberta de chagas e de farra- O desembargador, que sae pri- meiro do cóche, tem de os afastar, com a ponta do bastão, —não vá a cana- lha amarrotar os bam- bolins da menina ou furtar-lhe alguma joia do cabello. Depois, na Egreja, são as «fran- cas» amigas e conheci- das que envolvem a W a E E) “da gllLia MUBFIÉRI, CABSLLEIREIRO DA MODA, PROCEDE À EDIFICAÇÃO D'UM INVEROSIMIL PENTEADO...

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486 recemchegada, em passinhos dançados, chiando em falsete, muito empoadas, rindo muito, corte- jando-a, beijando-a, todeando-a, trocando epi- thetos ridiculos que são «a prata quebrada dos encontros» : — «A minha Delicia! A minha Exquisita ! A minha Ternura !» Entretanto, junto á pia d'agua-benta, os casquilhos e os «faceiras», de casacas de sêda, braços d'arame, chapéu de tres ventos no so- vaco esquerdo, pintados, esticados, cheios de «moscas», de rendas, de joias, aguardam que as «franças» se aproximem, descalcem as luvas de pala e desçam a mãosinha côr de rosa á pia de marmore. E" n'esse momento que os segredos se dizem, que os rendez-vous se marcam, que as mãos se apertam ás escondidas, ainda humidas agua benta, e que as cartas se trocam ás ve- zes com um tal descaramento, que era opinião «lo cardeal da Motta «que sobre gr pedra...» ada concha das jas se devia mandar pôr um Cupidinho de Reparem na nossa elegante, a graciosidade com que ella descalça a luva para tomar a agua benta, e o gestosinho caleulado e lento com que deixa cahir uma flôr aos pés de certo rapaz de rendigote côr de rosa, muito loiro, que ajoelha immediatamente para a apanhar... Esse rapaz, que eu lhes apresento agora, é filho segundo do Principal Marco Antonio de Azevedo, antigo ministro dos Extrangeiros de D. João V, — um velho astuto e habil, com um bello perfil de medalha romana e um constante tic nervoso na face, convidado nºesse dia para jantar com D. Diogo de Villanova. Os dois na- morados olham-se na mais dôce das contem plações, ella finge compôr pela miléssima vez o signal do canto da bôcea, elle morde o lenço de hollanda finissima, léva-o aos olhos, ao pei- to, ao punho do espadim, n'uma eloquencia muda, — e consideram-se decerto no momento mais feliz da sua vida, quando o padre en- tra para a missa, com uma riquissima casula de brocado douro, as mãos postas, os olhos baixos, a estola pendente. A dueia acerca-se da sua menina, põe sobre o soalho o pequenino coxim de damasco vermelho, e a «françasinha» ajoelha, sem perder de vista o rapaz loiro da casaca côr de rosa, que continúa a namoral-a com o lenço, dengosamente, ostensivamente. a pareceu- sima a ambos. a pouco D, Luiza Villanova está de novo dentro da sua berlinda, que ségue, Bairro Alto acima, cambaleante, doirada, solémne. A UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA dueia, no banco da frente, faz considerações sobre a pouca vergonha com que os casquilhos namoram na missa, irrita-se toda, aflauta a voz, fala nas penas do inferno; a menina afflicta, toca-lhe com o pé, faz-lhe signal para que se cale, e o velho desembargador do Paço, brin- cando com os grilhões d'oiro do relogio, olha de revés a filha e sorri á socapa, como quem diz: — «Ainda tu cuidas que eu não sei, tontinha !» O PAE AGUARDA-A, DE «CADOGAND, LUNETA DE PUNHO D'OIRO E ARES DESEMBARGATORIOS. + + Ao almoço a nossa «frança» come pouco; ape- nas uma empada de róla, um covilhete de amen- doa e um gole de chá. Quando vão a levantar-se da mesa, a dueia annuncia a prima D. Maria de Lencastre que vem buscar a menina para irem ambas ao convento de Sant'Anna vêr a tia abbadessa. O velho desembargador não gos- ta muito d'essas visitas a mosteiros, e ainda gosta menos da Prelada, — digna successora da outra que em 1730 fugira com um frade capucho, —mas resigna-se por delicadeza para com a prima Lencastre, que já a esse tempo entra pela sala, muito alegre, rindo muito,

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ENTRAM OS DOIS N'UMA RICA BERLINDA BOIRADA, PINTADA Á MANEIRA [E WATT

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488 UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA toucada de amarello á moda allemã, com uma saia de bambolins que parecem alforges, uma enorme cruz de diamantes ao pescoço, um ro- siclér nos cabellos, um cãosinho ao collo. E a alegria, que entra por ali dentro. À p: Lencastre ble. Pôe tudo em polvorosa, obriga o cão à fazer habilidades em cima d'um tamborete, empôa-se, compõe a charpa, préga o manto, fala muito, fala sempre, n'um falsete impossi- vel, — e finalmente lá vão ambas com as duas duchas, n'uma berlinda doirada, a caminho do convento de Sant'Anna. Dizia um bispo do seculo xvur de certo con- vento de agostinhas : «C'est une maison de fem- mes qui inquittent Vévêque, leurs familles et les ima ão é bonita; c'est la beauté du dia- diena oix elles sont», Que diria o santo prelado se visse a grade do convento de Sant' Anna, ás duas horas da tarde, por volta do anno de 1753? Ima- ginem uma onda de «faceiras», de «casquilhos», de «bandarras», com todos os vícios da «turi- na» do tempo, & vas de todas as córes, tri- cornes de todos os tamanhos, sorrisos de todos os feitios, dançando cortezias em trocadilhos de pernas, fazendo boquinhas, dizendo tolices, falando tiple, os espadins doirados entre côxas, as luvas de manópla muito espetadas, — tudo isto misturado com vinte ou trinta frades, quarenta ou cincoenta beatas de capotes e rengos brancos, varios fidalgos velhos e devas- sos, de bastões e casacas de seda preta, —e aqui teem o aspecto d'aquella immensa socie- dade de «freiraticos», todos elles á espera de vêr surgir a sua freira, de ter logar, de ter vez, namorando Soror Técla, cortejando Madre Pé- rola, mordendo o lenço, acenando com flóres, atirando beijos. A mania freiratica invadia tudo, arruinava os filhos-familias, endoidecia os ve- lhos, — dava raptos, scenas de sangue, aventu- ras de capa-e-espada. Durante o seculo xyri a freira foi um delirio, uma loucura, qualquer coisa de vertiginoso e de inexplicavel, Os «fa- ceiras» não trocavam um quarto d'hora de grade pela maior riqueza do mundo: era curioso vel-os peregrinar de rotula em rotula, de ralo: em ralo, correndo os ferros a todos os «conyen- tos conversativos», de manhã à noite, muito ri- cados, muito cheios de carmim, muito cheirosos. a «agua de Cordova», estafados, escorridos d'al- gibeiras, sem repousar, sem comer, Depois, o amor d'uma freira era o mais caro de todos os amores do tempo: choviam os pedidos, as-exi- gencias, — agora chapéus de plumas e espadins para as Comedias, logo pela Quaresma capellas para os Anjos, depois espadas para os peniten- tes, capas para as Irmandades, mais tarde di- nheiro, joias, o fato, a cabelleira, o relogio, a bolsa, a vida, —e sahia um «freiratico» das grades d'um convento mais depennado do que um frango pelo Natal e mais arrependido do que uma alma do Purgatorio. Mas o arrepen- dimento era curto, — e ahi estavam elles outra vez na mira d'aquelles «passaros d'encerro», farejando o ralo, cheirando a grade, mordendo o lenço, atirando beijos, — ainda que se ven- desse a quinta, que se empenhasse a sége, que

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UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA 489 O PAPAGAIO FALOU E O CÃOSINHO FEZ HABILIDADES SOBRE UM TAMBORETE. . « se destruisse a commenda, que se acabasse a farçola, que se perdesse o mundo. Foi essa multidão de «freiraticos» que as nossas duas «franças» tiveram de atravessar, 4 entrada e 4 sahida, na visita Átia Abbadessa, onde se tinha falado das modas do Paço, das joias dos genove comido dôce d'ovos, intrigado, escandalisado, discutido, — n'uma palavra, tratado de tudo menos de religião. A visita demorára bem tres horas. Ao subir para o cóche, a prima Lencas- tre, muito mais ladina, não poude conter que não dissésse ao ouvido da outra, muito co- rada, muito afogueada: — «Afinal, prima, di- zem que a tia Abadessa... tambem tem um frade capucho !» Às quatro horas da tarde estão ambas de volta: já o Principal Marco d'Azevedo passeia no jardim com o Desembargador, gravemente, lentamente, ambos de rabichos brancos, de ca- sacas de seda, discutindo os ultimos aconteci- mentos politicos, o tratado com a Hespanha, o estado de coisas na Austria. D'ahi a pouco jantam. Grandes cabritos as- sados sobre enormes bandejas de prata, — que dariam para o jantar duma communidade. Do- ces de convento, abundantes, brutaes, — bolos podres, toucinho do Cén; moletes, sevados, ar- golimhas. No fim, toda a botelharia abaixo. Como já não ha luz do dia, accendem cincoenta vélas de cêra: parece um serão do Paço. As duas «franças» tagarelam em falsete, riem de es, tocado cravo, dançado, tudo, brincam com o cão, mandam vir o papa- o, dizem tol puerilidades. De vez em quando, Luiza Villanova recorda-se do lindo rapaz de casaca côr de rosa que namorára na missa, que namorava sempre que sabia, e cujo pae ali estava diante d'ella, dizendo mal de Alexandre de Gusmão, com o seu rude perfil de Cesar antigo, constantemente em contrac- cões, em tics nervosos, Se elle viesse tambem, ao menos logo, ao serão ! E d'ahi, quem sabe ? Valvez que aquelles dois velhos tão cheios de gravidade tivessem pensado já em os casar... E a nossa «frança», muito gulosa, comendo um palito de lt Reina, fazia em segredo confiden- s curiosissimas á prima, — como o encon- trára, como lhe falára a primeira vez, como co- meçúra a gostar delle... Entretanto, o velho Marco d'Azevedo cont nuava a falar de politica com o desemba gador, a queixar-se ásperamente de El-Rei D. José, que o exonerára de ministro para o substituir por um tal Sebastião de Carvalho, a fazer aflirmações sobre o futuro, que lhe appa- recia cheio de dificuldades pelo lado de Hes- panha... E quanto mais se enchia de razão mais os tics redobravam, d'uma forma affietiva e tão lamentosamente risivel, que a ducia poude conter-se, começou a rir como uma perd! da, engasgou-se, teve um desmaio e foi cahir nos braços do antigo ministro do senhor D. João V. A gargalhada communicou-se ás «fran- cas», que tombaram suffocadas de riso sobre

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490 um sophá, — emquanto Marco Antonio d'Aze- vedo, com a ducha desmaiada sobre o braço es- querdo, agitava desastradamente um léque de rendas e pedia, muito afilicto, que trouxessem um frasco d'Agua da Rainha da Hungria... Muitas desculpas, muitas mesuras, — e a dona velha é transportada para a sua camara, Se- DANÇARAM O MINUETE, GPAVEMENTE, SOLEMNEMENTE + - gundo opinião do Desembargador tinham sido flatos. Segundo opinião do antigo ministro ti- uha sido uma fatalidade: a dueia, ao cahir-lhe nos braços, enchera-ll de pinturas. Começaram a entrar visitas para o serão. Accenderam-se mais cincoenta vélas de cêra, tocaram-se ao cravo modinhas e lunduns, dan- » a casaca de polvilhos e UM DIA DE UMA ELEGANTE LISBOETA cou-se o minuete. Alexandre Antonio de Lima, o poeta, glosou varios motes dados por D. Vio- lante de Portugal. O celebre musico David Peres, que ainda hoje se vê pintado em Que- luz no tecto da sala das Talhas, tocou delicio- samente Bach n'um bello cravo hollandez. Por fim, quando Luiza Villanova já estava p. um canto, triste e sem espe- rança, viu de repente surgir ao fundo uma casaca côr de rosa, muito galante, uns bo- fes de renda picada de prata, uma luneta ávida que a pro curava: le, — o Elle com E grande que faz suspirar to- das as Ellas, que as deixa tris- tes com uma palavra e doidas Entretanto, ao sala, junto duna enorme f, ça chineza, o am- tigo ministro de D. João V po guntava ao velho Desembarga- dor, vendo aproximar-se os na- era mesura, como s empoadas de Grenzo: - «Então, quando casamos os pequenos?» Pela meia noite, o pateo cs: tava cheio de cadeirinhas, de seges, de berlindas, As visitas foram sahindo ponco a pouco, as luzes, fe- rodando os foram-se apagand chando as janellas, cóches, — e a nossa «franç nha», d'ahi a meia hora, seguida da dueia e da moça de camara, cidamente, virginalmente, na sua a pla À cerrada. A tapeçaria d'Arrás, onde «s duas personagens tecidas d'oiro gesticulavam, no fundo verde-pallido d'um bosque, cahiu de novo, pesada e silenciosa, sobre o «deitar da frança». E nós, resignadamente, como o precioso ab- bade de Choiseuil, — fechamos os olhos... Jucio Dantas. «Hlustrações de Roque Gameiro)

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ACA[ENTAREM $ Que.esta lin Andou no meu Trago-a nos braços E minha!... Do berço, segue-me os pass: Onde eu vou, seus olhos E quando a apérto nos Ç — Abraço o meu coração. Quando o seu chôro receio, Embalo-a, faço que acceite A alegria do meu seio Na brancura do meu leite... E quando assim não descança, Que tris, ne consomem Mas antes chore em creança Que depois quando fôr homem...

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492 TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS Se ao dal-a ao mundo soffri Tormentos, ancias mortaes, Desgraça, vae-te d'aqui, O que pretendes tu mais ?!! Bale as azas, mas ao voares Não me apagues esta eslrella, Se alguem d'aqui pre CS, — Aqui me tens, em vez della! Tocam às ave-marias. Foi-se o sol vem a lua, Luzinha que me allumias, Que sorte será a lua? Riquezas tenhas tão grandes, E tal bondade tambem, = Que ao redor d'onde tu andes Não fique pobre ninguem. Que a todos cheque a ventura; Toda a bocea tenha pão, Toda a nudez, cobertura, Toda a dór, consolaç Mas se 0 oiro é mau caminho, — Antes lu venhas a a O pobre mais pobrezinho De quantos pobres houver. Iremos por esses montes Altos e azues, como os ceus,.. Que onde ha fructos e onde ha fontes, a meza de Deus! v quando a neve cahir, seivas adormecerem, Ive ão pedir... (Aceeilar o que nos derem!) Andaremos à mercê Dos genios bons e dos falsos Leguas e leguas a pé Rolinhos, magros, desc E onde houver urzes e lojos. Pedras que rasgam a pelle, Porei o corpo de rójos — Passarás por cima delle! Dorme, dorme, meu menino, Foi-se o sol. sceu a lua. Qual serão teu destino? Que sorte será a lua ?...

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TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS 495 Se um crime tens de fazer, Antes fique vago um throno, Antes um palacio a arder, — Do que uma enxada sem dono... Se porém no teu destino Ha tão cruentos signaes, Dorme, dorme, meu menino, E — Não tornes a acordar mais! Mas os meus nervos não mentem, São um indicio seguro. Que os nervos das mães presentem Muitas + ) futuro. E esse olhar, essa bondade Não me enganam, filho... Não! A pomba da f'licidade Virá poisar na tua mão... Avcusto Gi.

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Um dos mais inspirados poetas da geração nova, o sr. Affonso Lopes-Vieira, honrcu os Serões com a dadiva de tres magníficos clichés da sua lavra, que por nosso turno offerecemos jubilosamente aos leitores. Por elles se vê que a photographia não é uma fórma puramente mechanica de reproducção da natureza. Póde ser alguma cousa mais, desde que o senti- mento artistico se reuna á pericia pro- fissional e dirija o photographo na esco- lha dos seus assumptos e do ponto de vista particular, moldado para certos ef- feitos de luz, de contorno, de composi- ção, de esthetica. Os clichés de Lopes-Vieira denunciam uma alma de poeta contemplativo e me- lancholico, que, por assim dizer, trans- mitte á machina o segredo das suas commoções intimas. A objectiva é um como duplicado do olhar do poeta, o obturador é manejado pelos dedos ner- vosos de um grande artista, que sabe fechar os olhos a tempo para que no seu espirito persista a imagem sug-. gestiva dos mais delicados sentimen- tos. O juvenil poeta, que já tem enrique- cido as lettras patrias com deliciosos livros, soube assim communicar aos ex- tanhos, por outra fórma artistica, toda a melindrosa sensibilida- de que vibra nos seus versos. Estes bellos clichés re presentam sem duvida uma lição e um estimulo aos nossos photographos, frequentemente habitua- dos a reduzirem-se ao frio automatismo das suas machinas, sem compre- henderem o muito com que póde collaborar nos seus trabalhos a emoção pessoal. Ao eminente poeta vi- vamente agradecemos, por nós e pelos nossos leitores, o brilhante subsi- dio que lhe aprouve con- ceder aos Serões, abalan- çando-nos a pedir-lhe en- carecidamente que, sob as variadas fórmas por que póde expandir o seu talen- to, nol-o renove a miudo.

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A POESIA DA PHOTOGRAPHIA CLICHÊS DE AFFONSO LOPES-VIEIRA

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MONUMENTO DE D. FREI CAETANO BRANDÃ + NA CIDADE DO PARÁ D. Frei Caetano Brandão No primeiro centenario de um benemerito (15 de dezembro — 1805-1905) ão as grandes figuras da Bon- dade humana, os apostolos do Bem, da Caridade, da abnegação, a fonte unica de onde deriva o exemplo sublime do mais acrisolado espirito civilizador da Hu- manidade. Debalde se er- guem na historia os nomes e memorias dos conquistadores, dos guerreiros, dos monar- chas, dos politicos, que tudo revolvem, se- meando odios, desventuras, luctas fratricidas. Mais alto, mais perduravel nome firmam pe- los seus actos os que apostolizam a Paz, o trabalho, a fraternidade, o amparo fraternal ás creanças e aos invalidos, os que prégam com a palavra e com o exemplo a organização paci- fica, laboriosa das sociedades, promovendo o ensino, a educação moral e civica, a affecti- vidade de homem para homem, como de irmão para irmão, pondo em pratica a lei do Christo, adequada aos tempos, aos logares diversos da Terra! Exemplos sublimes do Bem! Tal era a de-

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ER mominação que D Antonio da Costa, o bene- mérito apostolo da instrucção em Portugal, tencionava dar à uma galeria de esboços, que pensava dar a publico, das figuras mais salien - tes da bondade intelligentemente exercida no nosso paiz, onde a alma popular é geralmente caridosa e boa. Quantos destes santos exemplos se podem apontar, desde os que a egreja canonizou, e se veneram nos altares, como as santas Ma- falda é Izabel, como S. João de Deus, até tan- tos outros nomes, uns de fama apregoada atra- vés dos seculos, outros obscuros e simples, ainda após a morte amortalhados no silen- cio austero a que a sua propria modestia os condemnou, e do qual a posteridade não soube ainda erguel-os mo pedestal condigno da sua elevada acção humanitaria! Temos apontado na historia singela de lse- meficencia Portugueza, muitos destes nomes ignorados e esqueci- «dos, aos quaes se não levantaram pelas ruas e praças dos povoados do velho Portugal es tatuas ou monumentos, como lá fóra amiuda- das vezes se faz. Alguns, porém, se estatuas de marmore ou de bronze dhes não attestam a eterna gloria de bem- feitores da humanidade, teem comtudo, é cer- to, as suas obras extensamente descriptas * commentadas em livros, verdadeiros monu- mentos, que lhes ergueram escriptores dedica dos. A Rainha Santa, o veneravel D. fr. Bar- tholomeu dos Martyres e outros, teem sober- bos monumentos erigidos ás suas virtudes, nas memorias que escreveram os seus chro- nistas fr. Luiz de Sousa, o dr. Ribeiro Garcia «de Vasconcellos, e D. Antonio da Costa. Te- ve:o, tambem o venerando bispo D. fr. Cretano Brandão no livro das suas Memorias, escriptas pelo seu amigo e admirador Dr. Antonio Cae- tano do Amaral, e no drama memoravel de Silva Gayo. D. FREI CAETANO BRANDÃO senõEs N.º 6 D. FREI CAETANO BRANDÃO Copia dé um quadro existente na cápella do hospital de S: Murcos 497 Não careceria de outro monumento o pie- doso arcebispo de Braga; porém, já no I'ará lhe erigiram uma estatua na praça publica, e pretende-se agora levantar-lhe outra, na cidade de Braga, que tanto lhe deve. E” justo, é necessario, pois, que para acomi- panhar esta louvavel iniciativa, procuremos numa pequena noticia commemorar, vulgar i- zar, tornar conhecida do publico contempora- neo, menos lido em chronicas antigas e des- conhecedor já dos effeitos e scenas theatraes do d-ama de Silva Gayo, a grande obra bene- fica e santa do venera- vel arcebispo de Brag: e bispo do Pará, o sa- cerdote exemplar que se chamou D. fr. Cae- tano Brandão. N'esta quadra hodier- na de egoismos ferozes, que levam: de vencida os esforços em favor da civilização, tentados por grandes pensadores e philosophos, é grato ao espirito affeito a his- toriar a commovedora serie de obras de bene- ficencia e de protecção a todas as dôres e des- ditas humanas, reme- morar aquelles exem- plos modelares, aquel- les bondosos instituido- res que acompanhavam devotamente os seus in- stitutos pios; aquelles Provedores que a tudo acudiam sollicitos com os thesouros inexgota- veis da sua infinita unção humanitaria e bôa ! Almas grandes, que de braços abertos rece- biam e amparavam os infelizes, que nem pre- cisavam supplicar-lhes protecção e soccorro ! Corações generosos que folgavam de privar-se de confortos para mais largamente soccorrer as desventuras alheias ! Ponham alli os olhos aquelles a quem in- cumbem deveres profissionaes, na distribuição dos soccorros com que, segundo a moderna comprehensão dos phenomenos sociaes, O cor- po collectivo tem por indeclinavel encargo acudir ás miserias geradas no seio das agglo- merações humanas, Não será necessaria hoje a virtude evangelica, nem o fervor beatifico, FoL. 3

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498 que encaminhava aquelles religiosos espiritos na senda do Bem. Bastará uma nitida orienta- ção do espirito esclarecido pelas doutrinas po- sitivistas da sociologia, na sua applicação pra- tica, sensata, guiada pelas excellencias de cara- cter, pelo amor e respeito da Familia, base es- sencialissima das sociedades humanas; não mais se fará a esmola e o beneficio — por amor de Deus, na esperança de futuros premios ; sim como dever de homens para com os homens, de irmãos para com irmãos, todos egualmente membros da enorme familia humana, sem pre- conceitos de raça, de religião ou de seita. Hoje cumpre-se apenas o dever social da collectividade de amparar e suster na queda, no descalabro, o seu irmão que enferma de mo- lestia ou de desventura, e de fortalecel-o para novamente, quando possivel seja, entrar na grande lucta universal, no trabalho util, na la- butação eterna, que constitue a vida das na- cionalidades, e forma as civilizações, a arte, a industria, o commercio, o Progresso, emfim! * Notável influencia exerceram na cultura e civilização do povo portuguez, alguns prelados cujos nomes se conservam na veneração de to- dos. Bastará lembrar os actos benemeritos de D. fr. Bartholomeu dos Martyres, de D. Diogo de Sousa, de D. fr, Caetano Brandão, ao norte do paiz, de D. fr. Manuel de Cenaculo, em Beja, e de D. Francisco Gomes de Avellar, no Algarve. Referir-nos-hemos agora tão sómente a D. fr. Caetano Brandão. Nasceu em Loureiro, a sete legoas do Porto, em 11 de setembro de 1740, € inclinando-se desde verdes annos á hu- mildade e brandura, professou em 1759 na Or- dem Terceira de São Francisco da Penitencia, no Collegio de S. Pedro de Coimbra, e fre- quentou a Universidade, tomando grau de ba- charel como theologo. Chamado a Lisboa alli ensinou philosophia, mostrando indícios cla- ros de grande talento, e das suas virtudes e caridades. Estas qualidades o recommendaram á rai- nha D. Maria ], que em 1782 o nomeou bispo do Pará. Fr. João de São Joseph Queiroz, nas suas Memorias, pinta-nos o estado desgraçado de ignorancia e miseria em que jaziam os po- vos semi-selvagens d'aquelle bispado, quando o santo bispo alli desembarcou. A vida exemplar, modesta, estudiosa e tra- D. FREI CAETANO BRANDÃO balhadora do novo prelado fôram o primeiro estimulo á reforma da diocese. A noticia das suas visitas pastoraes pelo sertão e logarejos- do Pará ficou registada nas suas cartas memo- raveis. Chamou-lhe as attenções o Seminario,. a cujas aulas assiduamente assistia, edu- cando devotadamente os pupillos, creados:sob- o seu bafo protector. Rejubilava-se de o fre- quentar, de o ouvir, de lhes apreciar dia a dia os adeantamentos e aproveitamentos, an- cioso de n'elles achar prestimosos auxiliares para conseguir a reforma do clero da dio- cese. Cuidava nas escolas com desvelo; queria a instrucção dos seus diocesanos; egual inte- resse lhe mereciam os enfermos a quem visi- tava a miudo, quer em casa, quer no hospital, levando-lhes soccorros e confortos. Ao passo que pensava em preparar no Seminario os mis- sionarios da civilização, anciava por acudir aos. males e desventuras dos pobres, e dizia : «Olhei para esta cidade e vi o diluvio de miseria e pobreza em que fluctuava uma gran- de parte dos seus habitantes, morrendo muitos d'elles ao desamparo, por não haver um asylo- publico de necessidade, enterneci-me e temi justamente que Deus houvesse de me tomar conta, como a pae commum, de não ter ao me- nos feito alguma tentativa para diminuir a somma de tantos males.» Por isso tentou fundar um hospital e uma Confraria de Caridade que o sustentasse, e co- meçou a excitar o zelo dos poderosos, por meio de cartas pastoraes e sermões, de que restam preciosos autographos no archivo da Misericordia Paraense e na bibliotheca publica d'aquella cidade. São documentos realmente notaveis de eloquencia, de sinceridade e de dedicação, em que transluzem as mais puras & sãs idéas de fraternidade e de caridade. Colheu logo copiosos resultados, do que se confessa jubiloso. Fundou a confraria, e deu começo ás obras do hospital, vendo-as crescer dia a dia, com impaciencia febril, demonstrada nas suas cartas, nas quaes, alludindo á sua creação idolatrada, dizia, por exemplo : «Deus tem semeado no fundo do coração humano um principio inalteravel de ternura que entra na sua composição e forma, para O dizer assim, a parte mais clara e mimosa do homem, etc.»

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D. FREI CAETANO BRANDAO BRAGA — PARTE DO EDIFICIO ANTIGO'DO COLLEGIO DOS/ORFÃOS, ONDE HOJE SE ACHA INSTALLADA A PHARMACIA DOS ORFÃOS Elle proprio sahia em procissão de collecta, com a irmandade, munidos de cestinhos em que recolhiam as esmolas, batendo de porta em porta O hospital abriu em 1787, e o caritativo bispo, n'uma das alludidas cartas descreve ufano as magnificas accommodações que obti- vera para os seus queridos doentes. Foi este hospital da Caridade que em fins do se- culo xx o Pará reconstruiu, transformando-o em um grande hospita! modelo, que em 1goo se inaugurou com 176 doentes. Por essa oc- casião o Provedor da Misericordia Paraense teve a louvavel idéa de assignalar a memoria do egregio bispo per uma estatua, na praça em frente de majestoso hospital, praça que fi- cou denominada de D. Frei Caetano Brandão. Assim se fez, com o concurso inteligente do Conselho Municipal, e em 3 de maio de 1n00, quando se celebrava o 4.º Centenario do descobrimento do Brazil, lançava-se a primeira pedra do monumento, cujo projecto e execu- ção foram confiados aos italianos Domenico de Angelis e Giovanni Capranesi, concluindo-o este, por morte do primeiro. A estatua, representada na nossa gravura, foi inaugurada em 15 de agosto do mesmo anno. Na frente, sob o brasão das armas do bispo, lê se: À MEMORIA vE DOM FREI CAETANO BRANDÃO O MUNICIPIO DE BELEM 1900 Na face posterior: RESOLUÇÃO DO CONSELHO MUNICIPAL NUMERO 54 DE 24 DE MARÇO DE 1899

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5oo D. FREI CAETANO BRANDÃO Na face da direita: «V. Ex.º cobre-me de pejo, pondo-me a par do bispo do Algarve; he meu mestre e exem- NASCEU plar; cá vou rastejando em seu seguimento; EM 11 DE SETEMBRO DE 1740 porém de longe, por não ter as forças que NOMEADO elle tem, e achar caminhos mais agros e in- BISPO DO PARÁ EM 1782 trincados.» ARCEBISPO DE BRAGA EM 1789 15 DE DEZEMBRO Chegado a Braga vendeu logo todos os ador- DE 1805 nos e baixellas da mitra, como o fizera D. Francisco Gomes de Avellar, vendeu coches e cavallos para applicar o producto em institu- tos de caridade e de ensino: Na face da esquerda : INAUGURAÇÃO DO HOSPITAL DA Reformou o clero e os mosteiros, luctando SANTAÍCASA DA MISERICORDIA EM 25 DE JULHO DE 1787 com a malevolencia e a calumnia, e despre- zando a campanha vil que em torno delle se levantava, proseguiu ovante nos seus abençoa- dos intuitos. O bispo apparece-nos al- li, em vestes de pontifical, empunhando o baculo e erguendo a mão em gesto de abençoar. E” um bello e perfeitissimo monumen.- to, no estylo italiano de 1700, do tempo de Bernini. Assim ia discorrendo a vida do virtuoso bispo, en- fermeiro cuidadoso no seu hospital querido, que visi tava a miudo, até que, subi- tamente, a fama de suas ex- <epcionaes qualidades, re- percutida na córte, fez com que o intelligente ministro Martinho de Mello e Castro o nomeasse em 1789 para o elevado cargo de arcebis- po de Braga, primaz das Mespanhas. Abandona o bispo a diocese do Pará, onde os povos choram sen- tidamente o seu bemfeitor. E, assumindo o exercicio do novo cargo, D. frei Cae- tano Brandão procura imi- tar o exemplo memoravel do bispo do Algarve D Francisco Gomes de Avel- lar, a quem pede com in- stancia o aconselhe na es- pinhosa e ardua missão de que o encarregaram.N'uma carta sua lê-se o seguinte: PARTE DO ANTIGO EDIFICIO DO COLLEGIO DOS ORFÃUS, DO LADO DO CAMPO DA VINHA (HOJE CAMPO D. LU:Z, EM BRAGA)

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5o2 D. FREI CAETANO BRANDÃO AUTOGRAPHO COM A ASSIGNATURA DE D. FREI CAETANO BRANDÃO Fundou logo numa das casas da mitra o se- minario dos orfãos, sua obra dilecta, procuran- do obter-lhe beneficios e rendas, e desde logo medita construir um edifício, tão vasto que nelle se alberguem 200 creanças pobres, orfãos e expostos da cidade. Abriu em 1790 com 16 orfãos, meninos de 8a 12 annos, tirados da ultima miseria e do mais completo desamparo O seu plano foi estabelecer-lhes aulas, misteres, officinas e fa- bricas. Creou aulas de desenho, teares, sirga- rias. Queria educar prática e profissional- mente os seus queridos orfãos, destinando uns a seguir estudos e a doutorarem-se na Univer- sidade, outros a exercer com proficiencia a la- voura e a agricultura, outros ainda para arti- fices e fabricantes. No piedoso intuito de proporcionar faceis soccorros clinicos ás povoações ruraes do ar- cebispado, chamou a Braga um medico distin- cto para reger uma aula de cirurgia, na qual cursavam doze alumnos do seminario e de fóra. Construido novo edificio, conseguiu o ve- nerando arcebispo reunir em 1748, nos dois seminarios, sob as suas vistas paternaes, 230 orfãos, sendo 80 meninas e 150 rapazes. Para as meninas, das quaes procurava fazer bôas mães e exemplares donas de casa, chamou mestras, que lhes ensinassem a coser e a fiar. Não se poupava a esforços para educar e ci- vilizar o povo da sua diocese; estabelecêra premios a quem soubesse ler, dizendo : «Insensivelmente me sinto arrebatado a pro- mover a bôa educação de meninos e meninas pobres, e creio que não deixa de ser exercicio proprio de um bispo » Para augmentar a receita dos institutos de beneficencia e de ensino, D. frei Caetano Bran- dão, com um espirito claro e uma extraor- dinaria isenção de fanatismos ou de obsecação religiosa, lembrava ao governo a creação de loterias, a exemplo das de Lisboa e Porto, ea extincção de Confrarias e irmandades, santua- rios e sisas, que antes só aproveitavam ás ex- terioridades de culto, para que seus rendimen- tos tivessem mais proveitosa applicação no empenho de educar e ensinar as gerações futu- ras. Dizia o santo arcebispo : «Porque emfim he grande loucura esperar q P'

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D. FREI CAETANO BRANDÃO 503 que venha a ser melhor a geração futura se lhe não fornecermos outros recursos que não teve a nossa.» Notavel exemplo este de venerando sacer- dote que em fins do seculo xvir manifestava idéas liberaes e ciilizadoras, como não as re- velam tantos membros do alto clero, em prin- cipios do seculo xx. lam muito longe as suas beneficencias, que absorviam o melhor dos 35 contos, que áquelle Não tinha barreiras nem limites a sua cari- dade; não lhe bastando já os pobres da dio- cese extendia a protecção e amparo até aos emigrados francezes que pela Galliza e pelo Minho se debatiam com os horrores tragicos da fome. Imponente triumpho teve a sua incompara- vel bondade nesses jantares em que 130 meni- nos, a quem elle déra vestidos e premios, o ac- clamavam num delirio de reconhecimento, com vivas e palmas, que deviam echoar com a mais ACTUAL EDIFICIO DO COLLEGIO DOS ORFÃOS — FACHADA PRINCIPAL tempo formavam a renda da mitra. Dividia esta avultada verba, afóra as despesas indis- pensaveis do seu sustento, pelos seminarios dos orfãos e orfãs; pela casa dos velhos e ve- lhas onde albergava 56 de ambos os sexos; em premios aos que soubessem lêr e ás artes € oficios, como já direi; em vestidos e jantares a 139 rapazes e raparigas que frequentavam as aulas e officios ; em ordenados aos respecti- vos mestres; em esmolas a velhos invalidos e a mais de cem familias envergonhadas que re- <orriam ao seu obulo; em remedios aos po- bres, auxilios ao hospital, jantar aos presos, etc. profunda alegria no seu coração bondosis- simo. Mas D. frei Caetano Brandão, ás excellen- cias de caracter eminentemente caritativo, al- liava a rija tempera de um espirito esclarecido, manifestando a orientação nitida, definida e pratica, de um plano civilizador. Não se limi- tava a soccorrer os desvalidos, a acudir aos pobres, aos enfermos, ás creanças Promovia o progresso material e moral da sua diocese; tinha por alvo conseguir o fomento da agri- cultura, das industries caseiras, das artes me- chanicas, do commercio, emfim. Neste civilizador intuito, D. frei Caetano

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5o4 D. FREI CAETANO BRANDÃO Brandão promoveu em Braga, em: 1792, um verdadeiro certamen de artes e industrias, es- tabelecendo premios, aos quaes convocava o povo: da: diocese em editaes publicamente af- fixados. Deu a idéa inicial das exposições uni versaes, que só mais de meio seculo depois, em 1862; começaram a produzir na Europa culta os seus opimos resultados Foi D. frei Caetano: Brandão quem as ins- tituiu e iniciou em 1792 na cidade de Braga, com o concurso das corporações dos mestéres arithmetica, escripturação mercantil por par- tidas dobradas e conhecimento de negocios ; depois premios a aprendizes do fabrico de seda, de sombreireiros, tecelões, armeiros, li- vreiros encadernadores, e enxambradores car- pinteiros, e outros a-raparigas que -se distin- guissem como fiandeiras, tecedeiras, borda- deiras em ouro € prata, costureiras e sirguei- ras. Realizou-se a distribuição dos premios em 1793, sendo premiadas 10 mulheres por tra- ACTUAL EDIFICIO DO COLLEGIO DOS ORFÃOS — FACHADA POSTERIOR regularmente organizadas pelo virtuoso e exi- mio prelado. Assim o reconhecia e affirmava em 1862 a commissão da secção agricola por- tugueza na Exposição Universal de Londres. Estabelecia o sabio arcebispo nos seus edi- taes 24 premios, sendo: dois de 5055000 réis a2 lavradores que plantassem mais de 50 pés de oliveira, preferindo-se os mais pobres, com mais filhas, ou de maior idade ; dois de 505000 réis a: 2 lavradores: que semeassem mais de dez alqueires de linhaça; outro de foibooo réis ao caixeiro de mercadores de lã ou seda, de capella, de mercearia ou de generos de fóra-do reino, que tendo 12:a 15 annos soubesse balhos de tecelagem; de talagagem, de bor- dados de côr e a branco, de costura, de meia, de fiar em roca e em roda, e de sirgaria, im- portando o total d'estes premios de Sojpooo réis e de 254000 réis em 3754000 réis. Ho- mens foram premiados 14, dentre os que exerciam o commercio e os offícios de enca- dernador, espingardeiro ou armeiro, teares de toalhas e guardanapos, cutileiros, sombrei- reiros, emxambradores, lavradores e fabrican- tes de seda, sendo a importancia totai destes. premios 42525000 réis. O arcebispo, conscio do proveito e utilidade da sua admiravel tentativa, que a inveja não

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BRAGA — CAPELLA DA SENHORA DA PIEDADE OU MISERICORDIA VELHA, ONDE JAZ SEPULIADO D. FREI CAETANO BRANI

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506 D. FREI CAETANO BRANDÃO GRUPO DE INFERNOS DO COLI EGIO DOS ORFÃOS, COM O SEI ACTUAL DIRECTOR, REV. JOSÉ MARIA COELHO, QUE O MESMO COLLEGIO EDUCOU E ORDENOU logrou empecer, dizia satisfeito vendo os re- sultados magnificos por elle previstos «Estão desenganados os burguezes ; e pelo que vejo começa o meu designio a produzir -effeito que é com o mesmo meio diminuir a miseria publica e combater a ociosidade. Deus nosso senhor por sua misericordia abençoe este, e os mais desejos que tem posto no meu coração, que me parece são uteis a uma e ou- tra republica E ainda como demonstração de elevado cri- terio, o arcebispo, em 1801, traçou por sua propria mão o plano da educação dos or- tãos, trabalho notavel debaixo de todos os pontos de vista, e felizmente publicado em 1861 pela commissão administrativa do semi- mario. Era esta a instituição sua predilecta. E” de suppôr quanto seria attribulada a situação do seu espirito, quando em 17097 epidemias tei- mosas am o seminario e a cidade, sendo por fim attingido o proprio prelado. Então os orfãos, n'uma manifestação de pie dosa supplica, com seus curiosos uniformes — beca verde e estolas encarnadas — sairam em procissão pelas ruas, implorando em preces religiosas o restabelecimento do seu querido ola; protector. Finalmente, em 15 de dezembro de 1805, pelas duas horas da tarde, fallecia pobre, no meio das bençãos e lagrimas de todos os dio- cesanos, o venerando arcebispo, modelo exem- plar de bondade criteriosamente exercida, sob um ideal superior de civilização. Sepultaram o bom arcebispo na capella-mór da Sé, de onde em 1840 o transferiram para a capella do claustro, chamada de Jesus ou de Nossa Senhora da Piedade, mais vulgarmente da Misericordia Velha, por n'ella ter sido in- stituida a Confraria da Misericordia de Braga, que se conservou alli até 1558. Não podiam ter os restos do benemerito

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AUMULO DE D. FREI CAETANO BRANDÃO, EXISTENTE NA CAPELLA DA SENHORA DA PIEDADE

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5o8 D. FREI CAETANO BRANDÃO prelado mais adequada jazida. N'esta capeila que o celebre arcebispo D. Diogo de Sousa erigiu em 1513 no claustro da Sé para sua sepultura, de seus irmãos e pessoas capitu- lares da egreja que n'ella quizessem ter eterna morada, e onde do lado da epistola, em arco uberto na parede, se acha o tumulo do illus- tre Primaz, repousam hoje, em logar corres- pondente, do lado opposto, os restos de ou- tro egualmente illustre prelado bracarense. Alli estão em tumulos fronteiros os doi «<ebispos mais notaveis da archidiocese, os quaes nos seculos xvi e xvim encheram o bis- pado de melhoramentos materiaes e moraes. Ao primeiro, devem-se o ampliamento e progresso da cidade, novas ruas, fontes, tem- plos, hospitaes; — ao segundo, o ensino, dos orfãos, a protecção ao trabalho, á agricultu- ra, á industria, ás artes, o incentivo intelli- gente e paternal á Civilisação e ao Pro- gresso. Na sepultura de D. fr. Caetano Brandão, pozeram o epitaphio seguinte : ar- AQUI JAZ D. Fr. CAETANO BRANDÃO, FILHO LEGITIMO DE Tomé Pacheco DA CuxHa, SARGENTO-MÓR DE OnDENANÇAS E DE D. Makita JosgrA DA CRUZ. Vor Rericioso DA ORDEM TERCEIRA DE S. FRAN- «isco, Depois Bispo to Pará No BRasiL, E MAMENTE BispO E SENHOR DE BRAGA PRIMAZ DAS HespanHAS. PRELADO EXEMPLAR E MUITO DISTINCTO PELA SUA SABEDORIA E VIRTUDES, TORNOU-SE NOTAVEL PELA FUNDAÇÃO DE IMPORTANTES ESTABEI ECI- MENTOS Dº BENE“ICENCIA E CARIDADE NESTE ÁR- CEBISPADO. NASCEU EM II DE SETEMBRO DE 1740 NO LC- GAR E FREGUEZIA DE LOUREIRO, BisPADO DO Porto, E FALLECEU EM 15 DE DEZEMBRO DE 1805 NESTA CIDADE DE BRAGA, SENDO SEPULTADO NA CAPELLA-MÓR DESTA SÉ PRIVACIAL, E TRANS- FERIDO PARA ESTE TUMULO EM 15 DE DEZEMBRO DE 1890 (1). JLTI- A veneração popular 'que começou a mani- festar-se por occasião das pomposas exequias do arcebispo, continuou até hoje, bem sincera e espontanea, demonstrando-se na romaria (1) Inscripções e letreiros da cidade de Braga e algu mas freguezias ruraes, por Albano Bellino, Porto, 1805, pag. 40. JOAQUIM JOSÉ FERREIRA VEIGA Bemfeitor do seminario dos Orfãos. fallecido em Lisboa em 1846 (Retrato existente no actual colegio) piedosa e incessante que accorre ao tumulo daquelle, que não tendo sido canonizado pela o foi e scrá sempre, incontestavelmen- te, pela religiosa memoria que telle se con- serva na gratidão do povo. Comtudo o seu instituto querido, o semina- rio dos meninos orfãos, morto o instituidor, decahira profundamente. Resurgiu muito de- pois por um impulso do generoso philantropo Joaquim José Ferreira Veiga, fallecido em Lisboa em 1846, que se lembrou de o con- templar com um importante legado, que só em 1856, após complicados pleitos, foi por sentença applicado ao seminario dos meninos orfãos, com destino a desenvolver alli a ins- trucção industrial e agricola, fundando-se uma granja e officinas diversas. Tomou então o instituto o novo nome que ainda hoje conserva, de— Collegio dos Orfãos de S. (iaetano, reformado em 1801, e que ainda presentemente constitue o mais perduravel monumento crguido à memoria do seu bon- doso e inteiligente instituidor. Do Collegio dos Orfãos partiu agora, como justo era que partisse, a louvavel iniciativa

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D. FREI CAETANO BRANDÃO da celebração centenaria, e o pensamento de erigir em uma praça publica a estatua daquelle que foi modelo exemplar de prelados, mos- trando como em posições eminentes da ma- gistratura ecclesiestica ou civil se deve prati- car o cumprimento dos mais indeclinaveis de- veres de protecção e amparo a todos os seus tutelados, tendo em vista, como ideal supe- rior, O incentivo ao trabalho util, o ensino das gerações futuras, a applicação das aptidões e da actividade dos válidos nas artes, industrias e commercio, de modo a promover o pro- gresso material e moral do Povo, o advento da civilização. Merecem e peito, a nossa admiração, o verdadeiro cult de todos os que amam e prezam as glorias da Patria Portugueza ! Assim como a Villa da Praia soube levantar uma estatua, como preito de eterno reconhe- cimento, ao benemcerito e honrado funcciona- 15 de dezembro de 1905 509 rio civil, que não só a reedificou, como tar - bem promoveu com todas as suas forças a sua reorganização moral, a instrucção publica, a beneficencia sensata, justa, sollicita, em todo o districto que lhe fôra contiado, a esse modelo de governadores civis, que não empregava as suas horas na galopinagem eleitoral, mas sim no bom e paternal governo dos seus adminis- trados, a esse homem justo, emfim, que se cha- mou José Silvestre Ribeiro, assim tambem a cidade de Braga, que já conferiu a uma das suas ruas o nome do venerando arcebispo, deve envidar todos os esforços para que s O noso reali numa das suas praças se erga na majestade *do bronze ou do marmore, a figura altamente sympathica de um dos mais puros e santos exemplos de bondade, de patriotismo, e de ci- vilizadores intuitos, que temos encontrado nas bellissimas paginas da historia da benefi- cencia em Portugal. Vicror RiBEiro. COLLEGIAES DO ACTUAL COLLEGIO DOS ORFÃOS, COM O SEU FARDAMENTO (A MUSICA DOS MESMOS NAS DUAS ULTIMAS FILAS)

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Bocage e a Inquisição O centenario da morte de Bocage, realisado solemnemente na sua terra natal, Setubal. e em outros pontos do reino, dá actualidade ao documento que consta do seguinte artigo e que não é geralmente conhecido. Por elle verão os leitores dos Serões não só algumas circumstancias que se referem á prisão do grande poeta pelo Santo Oficio, mas tambem ás condições em que se faziam as denuncias eSse exercia a espionagem dos suspeitos por esse odioso tribunal. E” esta a ligeira, mas interessante contribuição, com que n'este momento os Serões concorrem á iusta homenagem prestada a um dos maiores genios literarios da nossa patria. MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE Reprodueção de um desenho de Henrique José da Silva, gravura de Francisco Bartolozzi omo Damião de Goes, Antonio Vieira e Antonio José da Silva, como o Cavalheiro d'Oliveira, Filinto Elysio e José Anastacio da Cunha, Bocage foi perseguido pelo Santo Officio. Felizmente o ominoso tribunal não tinha nem sombras do seu antigo pode- rio, desde que o Marquez de Pombal lhe tirara quasi toda a força, converten- do-o em dependencia das justiças reaes elo regimento do Cardeal da Cunha. Be assim não fôra, é de crêr que El- mano Sadino tivesse soffrido tão hor-

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BOCAGE E A INQUISIÇÃO 51 CASA DE SETUBAL, ONDE NASCEU BOCAGE rendo supplicio como o que padeceu em 1729, no Campo da Lã, o desditoso Judeu das Operas, que entrou para os carceres inquisitoriaes innocente de to- da a culpa. Eis a denuncia dada contra Bocage na inquisição de Lisboa. Na Torre do Tombo estão guarda- dos os archivos das quatro inquisições, que havia em Portugal. «Denuncia. — Eu, Maria Theodora Severiana Lobo, filha de Roque Fer- reira Lobo, morador na rua da Era, freguezia de Santa Catharina da cidade de Lisboa, attendendo ao preceito e obrigação que impõe o Tribunal do Santo Officio aos que souberem alguma das coisas contheudas nos interrogato- rios do edital do D.º S. Tribunal; de- clara que ouviu dizer a Manoel Maria de Bocage, que elle e José Maria de Oliveira e um fulano do qual não sei o nome, mas sei que é filho de Mathias José de Castro, o qual ouço dizer que é christão novo, que todos os tres referidos, Bocage, Oliveira, e Castro do qual não sei nome pro- prio, são pedreiros livres; e ainda: que o dito sujeito o disse debaixo de segredo, ella o denuncia aq Santo- Tribunal obedecendo aos seus pre- ceitos. — Maria Theodora Severiana Lobo. «P. S. — Declaro que sou filha do- administrador do correio do reino, e que os sobreditos moram, Manoel. Maria n'um becco que está na rua Formosa, José Maria dentro do cor- reio do qual é escripturario, não sei bem a freguezia, mas parece-me que é das Mercês, e o dito capitão Cas- tro na travessa da Condessa do Rio. e tambem não sei dizer de certo de que freguezia, mas parece-me que é de Santa Catharina ; tambem declaro. que o dito Manoel Maria não sei que tenha occupação, e creio que vive: CASA DE LISBOA (TRAVESSA DE ANDRÉ VALENTE) ONDE FALLECEU O POETA

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512 BOCAGE E A INQUISIÇÃO «as suas obras em verso, e não sei se tambem em prosa.» Um aviso assignado pelos inquisido- res Manoel Estanislau Fragoso, Fran- <isco Xavier de Oliveira de Mattos e Antonio Velho da Costa, de 23 de no- vembro de 1302, manda ao padre José dos Reis Marques «que na primeira -occasião em que a denunciante se lhe fôr confessar, ihe peça licença para fóra da confissão tratar com a mesma «sobre objectos da denuncia que deu ao Santo Oficio, segurando-a que póde livremente expressar e declarar tudo o ue souber a respeito dos particulares di tal denuncia, sem o menor receio “de que perigue levemente o seu credito e reputação, nem offender as leis da Santa Religião e da mais pura Chris- tandade, antes que este é o meio unico “de acabar de sanar sobre este negocio a sua consciencia, e logo no confissio- mario ou em tal logar com toda a cau tella, disfarce e segredo, que muito lhe -encarregamos da Nossa Ordem e Au- ctoridade, se informará da dita Maria “Theodora das circumstancias seguin- tes: Quanto tempo ha que ella ouviu dizer o que tem declarado, por que -occasião e motivo entraram os tres su- jeitos, mencionados na d.º* denuncia, a tratar na presença d'ella declarando sobre materias tão improprias e incom- petentes ao seu sexo e à profissão dos m.””* sujeitos; se estes lhe persuadiam, “alguma doutrina que competisse parti- -cularmente à sociedade de que elles se diziam socios ou se disputavam entre si, approvando-as vantagens da mesma sociedade, abonando as suas doutrinas, e sustentando ser ella licita e boa; se sabe que elles se ajuntem e formem assembléas para tratarem dos negocios de tal sociedade, onde as façam, se são em dias certos e quaes sejam estes; se mostraram algumas insignias ou coisas que sejam idoneas para se darem a conhecer por membros da mesma so- ciedade e mostrar as prerogativas della, e ultimamente a advertirá que pode e «eve declarar tudo que souber relativo «aos objectos acima referidos.» A relação do padre José dos Reis Marques é de 28 de abril de 1803 e do theor seguinte: «Em observancia d'esta ordem do Santo Tribunal declaro que tive licença da sobredita denunciante Maria Theo- dura para tratar e averiguar fóra da confissão o que pertencia á sua denun- cia e para dar parte ao Santo Tribunal do que fosse preciso a este respeito; e sem que eu lhe désse parte do que sa- MONUMENTO DE BOCAGE EM SETUBAL bia de antes da sua denuncia, declarou em tudo verdade como n'ella se con- tem, demais disse que não estava certa do tempo em que o tal Bocage Ih'o ti- nha dito, mas que estava certa que tinha sido depois da quaresma de 1802, em casa de uns visinhos da sua escada d'elle denunciante e onde elle, e o tal José Maria algumas vezes iam de vi- sita, e disse mais que ná mesma casa achando-se ella presente, em que esta- vam o d.º Bocage e o d.º José Maria,

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BOCAGE E A o tal J.º Maria desenhara em cima de - uma banca um triangulo e em um an- gulo d'elle um olho, e dentro d'elle o sol, a lua e algumas estrellas e duas mãos dadas, e que dissera se havia ceu n'este mundo era aquelle, e chamando o tal Bocage para ver, elle se excu- sara que não gostava de desenhos, mas, instando o d.º José Maria, veiu com efeito ver, disse que d'aquelle que gostava e apagou-o logo porque não viesse alguem que entendesse, o que fez suspeitar á d.º denunciante se um sujeito da dita casa, escrivão do crime da Côrte e Casa, chamado Joa- quim Manoel, seria tambem da mes- ma sociedade, visto que não escon- deram isto delle, e que se tratavam por manos, que segundo lhe tinham INQUISIÇÃO 513 dito, era costume nos da sociedade, e que não estava certa no dia em que isto succedera, mas que fôra depois do meado d'este março passado; e que o tal Bocage quando lhe declarou as coisas, não lhe declarou o logar nem o tempo das suas assembléas, mas sim que a tal sociedade tinha muitos socios tanto n'este reino como- em outro e que se communicavam e tinham muitas vantagens, que se aju- davam uns aos outros e que tinham: varios signaes com que se entendiam, mas que elle os não sabia, e que nunca o persuadiram a coisa alguma pertencente á dita sociedade, e que além d'isto que tem declarado nunca observou coisa que conhecesse ser op- posta á religião.» Concurso photographico dos «Serões» — Menção honrosa ALCACER DO SAL — CABO DE S. PEDRO, NA BAIXA-MAR Photographia do sr. Thiago Silva serÕES N.º 6 FOL. 4

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FRAGMENTO D'UM PRESEPIO DE ANTONIO FERREIRA Existente na egreja da Madre de Deus Os presepios de barro narno é o elemento ductil de que o homem lançou mão para modelar os primeiros simulacros da sua adora- ção rel giosa. Symbolo da creação inicial, amassado pelos dedos ancestraes na superficie ainda molle da Terra solidificada, é a materia que se offerece com facil submis- rar a represen s da nature ão animica são para enc das antigas for fórmas ainda eas primeiras rustes das divindades. Ou fi- gure os deuses terrificos e mysteriosos do Oriente ou hellenica, a arte do barro tem sempre um lado popular e simples, espontâneo e livre, 1s luminosas creações da vida onde as almas bafejam a sua candura e mo- delam a sua bonhomia, — candura e bonho- mia que pé irmã do ole tambem humilde de que elle arem da convivencia di rece ir o humilde com essa materia 1Z brotar a fórma. Os materines considerados nobres o marmore, o bronze, transmitem à estatu ria al queza, fallam de re, uma coisa da sua nobreza e da sua ri- altivolas, envolvem- se em prégas de inspiração, e a belleza que nºelles se consubstanciou parece dizer, como o Poet ne ris : «el jamais je ne pleure el jamais je rri, É ironico é r, quasi nunca 3 o elemento proprio da ador O barro, esse canta e meigo, confidente e famil severo. popular, da alegria espontanea, da sem amarg » intima familioridade, tão estreita convivencia, fiz com que se er se, ao lado de Phidias, o pobre coro- ao lado do o santeiro ão dos simples. As lendas que se am e evolucionaram no seio do povo, tradul-as elle à sua imagem, e com os inge- nuos arranjos da sua phantas plasta das figurinhas de Tanagrs esculptor dos deuses magestosos, da reli sta

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OS PRESEPIOS DE BARRO 515 do seu calendario, o mart santos, a vida sempre tão illumin sodios ternos dos seus padroeir que tod gria caseira, a celebração do Natal, de- riologio dos seus da de epi- e, mais as, pelo nimbo de saudade e de ale- viam dar á sua invenção formal os assum- ptos preferidos que a musa popular sara, e os autos já haviam tornado vivos com à poeti- suas ldas e chacolas. E quem se lembrou, afinal, de modelar a primeira representação plastica da estreba- ria desabri volta de cujo berço se entoaram os primeiros canticos que acor e pandeiros? Foi prec de Assis, es humildade se egualou é e que quiz de Belem, um luminoso quadro vivo da ado- da onde n: ceu Jesus, e em por zagaes ainda de carne e osso, m dos arredores samente o poverello Francisco, cuja eirinha herva, com suas gaitas se suave azer da representação do estabulo o para os simples. Pelo menos, assim o contam suas chronicas, segundo refere um velho livro provençal chronicas da sua Ordem phico fez um oratorio a de Natal, onde representou o mais natural possivel o Nascimento de Nosso Se- nhor, depois de ter obtido licença da Santa «Sabemos pel: ste homem se que € no di Sé, com receio de que, se o não fizesse, fosse condemnada aquella novidade. E pobre e comprida estrebaria, tão comprida e tão injuriada pelo tempo que estava desman- telada, e sem telhado a mais de meio. Os arranjos que a sua devoção lhe deparou foram uma eng go. O sitio era alumiado por muitas vélas e guras de madeira que re- presentavam o Menino Jesus, a Virgem M ria sua Mãe, e o bemaventurado S. Joseph, estavam postos ao pé de um jumento e de um boi, que elle mandou vir com palha e colheu uma nhosa mistura de papel, palha e mus- lampadas, e as PRESEPIO DA EGREJA DO CORAÇÃO DE JESUS (ESTRELLA) Esculptura de Antonio Ferreira

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516 OS PRESEPIOS DE BARRO feno para sustento dos mesmos animaães. esta estrebaria fosse vi- sitada por g mero de religiosos que alli iam fazer suas ora- ções diante das imagens de madeira, espalhou-se pelos arr da nova devoçam, e cha- mou os camponezes das mo ande nu- dores a fama cercanias que foram os os a adorar o ver- enado, fazendo a gem com vio- sua homei ki s e bandolins...» 9 do Ora- A congrega torio transmitiu aos con- Alfredo Guimará ventos de Marselha, e es- tes às familias, o nucleo dos presepios figu- rados, que em breve se espalharam por toc a Europa christã. A feira dos santinhos é ainda hoje, e desde € local onde vão aprovisionar-se da imagina- ria popular os que annualmente armam os presepios em quasi todo o sul da França. e tempo remoto, o Em Portugal, é o seculo xvmr a melhor e mais rica epocha dos presepios de barro, e n'elles se estudam, como em resumo illustra- predilecções do tempo e a sua arte, tivo, as os seus costumes e os seus trajos, oseum, ticismo precioso e as suas modas. Paginas de folk-lore decorativo, nellas interpre! os barristas o perfumado convencionalismo de uma religião pomposa e de punhos de ren- da, que sensualisou a simpleza do primitivo: Evangelho com o fausto das suas Sés e as grandes maneiras da sua Côrte. A pompa desce à creação da oflicina, faz. os dedos mista, imprimindo- geito precioso, donaire na altitude, re- quinte no sorriso ou no extasi. As figuras plebeias requebram-se em ciosos ademanes de rece terem emigrado de uma pastoral de Waltcau, com ares de quem se polvilhou para representar num lhea- trinho régio, e pelos tor- rões da paysagem feita do ce a, OS camponezes pa- iles da de musgo e estalac rocaille, os travest nobiliarchia desli moniosa proc — fidal- am em ce ão heraldica guinhas de alvos collê- tes minhôtos que os seios repellem na linha dos atacadores lando graciosos bustos de sete rodas fran- na cinta deixando À meia b chinellinha microscopi- typos de raça mal disfarçados em mendi- com bolifarras de almocreve, chapeu ensombrando-lhe: de ephebos italianisados tratadas com delicadeza de es- mode- FIGURA DE PRE: anca e a Da collec do sr. Alfredo Guimarães gos, GRUPO DE PRESEPIO Da collecção do sr. Alfredo Keil

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OS PRESEPIOS DE BARRO 517 PRESEPIO DA SÉ DE LISBOA Esculptura de Machado de culptura até ao reticulo das veias azuladas; zagaes de uma especie de Trianon catholico, sobraçando a £ sem de uma tapeçaria dos Gobelins; e anjos nita de folles como se desces- que surgem das aureolas resplandecentes, com ge + pannej e floconosos, os corpos mede dade indecisa dos androgy Em todos os typos se repete, ma's ou menos aluaes stos es dos n nos de P accusada, a mesma estylisação do gesto, da adas e acade- marcha, das roupagens agi micas, minhando, quer adorando, parece declama- rem a tanto que os personagens, quer ca- rem phrases conceituos deixa de uma scena de fino sentimentalismo. Os braços tomam contornos de voluta como se as coisas do ceu participassem das elique- s, ou esp: tas de sala, os dedos são flexuosos e longos como os dos violinistas, e, quando ha marty- alfange do moi- res, estes vergam a cabeça à ro ou à tenaz em br: victa elegancia de uma reverenc za do china com a con- de minuête. isboa abundavam e abundam ainda, bastante dispersos, os presepios Em L posto que dos nossos barris'as do seculo xvim, e não ha figura que por ahi surja à avidez tumultuari: dos colleccionadores que não passe logo pars o alulhado patrimonio artistico de Machado de « rto que os melhores que por ahi se veem são da sabia factura do illustre au- thor da estatua de D. José, mas quantos igno- rados oleiros esperam ainda a justiça de uma restituição. sem fallar em Barros Laborão e Antonio Ferreira, sem fallar mesmo nas ofli- cinas provinciaes, Aveiro, Porto, Caldas, cuja i naria reclama paciente estudo ethno- graphico. N'um artigo de magazine, mal vae erudição e rebusca, pois me parece não dever passar de texto succinto e sóbrio para subli- tro. nhar ilustrações. Um presepio é, em geral, e quando na sua ão, presepio de oratorio [i- a, uma apotheose mais rica exp) dalgo ou de altar de ba.

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518 OS PRESEPIOS DE BARRO FIGURA DE PRESEPIO Da egreja da Madre de Deus convergente, que obedece a uma estudada composição alegorica, com planos, escala, fundo; e como certos quadros flamengos que desdobram no mesmo painel toda uma chro- nologia de scenas sucecessivas, apenas sepa- rada por ligeiros accidentes de terreno, assim nos presepios scenas var'as dos primeiros an- nos de Christo se espalham pelos monticulos musgosos do panorama, misturadas aos episodios pittorescos da vida urbana e da vida rural dos nossos dias: os reis ma- gos e os recoveiro! das nos- sas estradas que os cortejam como a morgados que vão de jornada; a degolação dos innocentes, ou a fuga para o Egypto, junto da matança do porco; soldados de tri- corne e capote branco, ca- racolando ao lado de legio- narios romanos, de couraça e elmo. Era curioso estudar, uma a uma, as figuras dos pre- sepios, combinadas, tanto quanto possivel, com a origens provaveis, e a in- vestigação da casa ou suas FIGURA DE PRFSEPIO Da egreja da Madre de Deus FIGURA DE PRESEPLO Da egreja da Madre de Deus egreja a que primitivamente foram desti- nadas, Lá se encontrariam, talvez, typos histori- cos, personagens da epocha, devotos que quizeram entrar na peregrinação piedosa des- ses autos figurativos, tanto em certas caras se vê a preoccupação do retrato, ao lado das fa- ces de modelação. não só convencional como amanei- rada. Constituiam d'estarte a mesma devota consagração que nos quadros votivos cabe às figuras dos donata- rios, os quaes costumavam ser apresentados à Virgem pelos santos seus padroei- ros. Assim, no valioso prese- pio que existe n'uma casa da rua de Mamede (1), abre a brilhante romagem (1) Na casa do sr, dr, Pulido Garcia, onde existe um dos mais bellos presepios de Lisboa, cuj figuras passavam, na tradieção da familia, por ser de Machado de Castro. curiosos documen- tos que me foram amavelmente

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OS PRESEPIOS DE BARRO PRESEPIO PERTENCENTE AO SR. DR. PULIDO GARCIA Figuras de Machado de Castro e Joaquim José de Barros no primeiro plano à esquerda, um grupo en- savam pelo mais lindo casal da epocl cantador de quatro fi + que me dizem se- Marqu tem uma physionomia delicic rem os Marque de Bellas, os quaes pas- mente ingenua, à Greuze, emoldurada com confiados, amabilidade que aqui penhoradamente do Campo Grande, sendo o presepio armado por José agradeço, sabe-se que parte das fi foram com- Joaquim de Barros, mestre de esculptura, que fez os pradas ao pintor Pedro Alexandrino, cujo recibo exis- torrões, (assim chamavam aos fragmentos da monta- te, e que outras foram compradas a Luiz José nha com suas figuras) e os respectivos personagens,

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OS PRESEPIOS DE BARRO Sam PASTORES FAZENDO OFFFRTAS Grupo da coll os figurantes que representam a paixão de Christo dão ao José de Arimathea. Mas o que ha de mais caracteristico nos pre- sepios ricos do seculo xvir é a impressão de apotheose que de tudo irrompe, em tudo vi- bra, a caudal de figuras convergentes para o grupo central, recolhido sob o telheiro des- mantelado que se apoia em columnas corin- thias como fragmentos da antiga Palmyra, e onde o Menino Jesus e a Virgem, S. José e o Anjo, junto dos pacificos seus com- panheiros, formam o centro compositivo. Ao alto, uma triade de anjos em gloria paira re- lumbrante, em fluxuosas curvas de alegoria. No ultimo plano, o plano superior, desdo- bram-se as muralhas ameadas de Jerusalem, intervaladas de torreõdes e minarêtes, com suas animaes Estrella, Madre de Deus e Laveiras, havia outros stas taes como o Assis (pae do profess aum dos auctores do presepio da casa do Marqu Borba a Santa Martha, é Manuel Teixeira, discipulo de Antonio Ferreira. O estudo da maneira de cada um «los mestres de esculptura não cabe n'um artigo de oecasião, e será feita opportunamente, n'um dos | ximos numeros dos Serões, quando puderem colligi informes e o maior numero de reproduc «los presepios que ainda existem no paiz, para assim arem as tendencias artisticas regionae alade das interpretações, o elemento estr onde se manifestar, e os costumes do tempo. jo do sr. Alfredo Keil portas emolduradas de esculpturas como al- tares, no estylo D. João V, e que dão pas- sagem ao interminavel e ondulante cortejo dos Reis Magos. E todo o Oriente dé conven- Cof ente dos autos e das procissões, do rei David e de Kaiphás, desenrola a fila dos seus animaes € 0,0 Or dos seus ador- nos, dos oiros e de purpur seus das suas plumas e dos seus diadê- los trazem oscil- lantes baldaqui- nos de brocado deoiro, por cuja frestas êsprei- tam cabeça exoli de curiosidade; macissos e des- graciosos ele- phantes seguem adas Às cheias com pass vagarosas e la- citurnas, enci- FIGURA DE PRESEPIO mados por tor- ! Da collecção do sr. Alfredo Guimarães res de guerra,

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522 OS PRESEPIOS DE BARRO UM PRESEPIO Pertencente ao Collegio de Campolide achairelados de velludo estrellado de oiro, com franjas de pezadas borlas que pendem até ao chão; e os cavallos esc am em mo- de caudas, vimentos de nobre impacien de crinas esparsas e ondulantes, com arreios de fivellas de oiro, chaireis de bordados de oiro, penachos heraldicos cravados em fir- », os cavalleiros: "ando o caminho aes ind , altitudes orgulhosas de cabeça, nçam fidalgamente como para um tor- neio, com seus lurbantes à moda barbaresca, Na frente, em tr allos nobremente paci- ficos, Balthasar, Melchior e Gaspar seguem

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OS PRESEPIOS DE BARRO 523 aponta o luzeivo rulilante. Por fim, os dg e das charamellas abrem o cortejo, n'um estridor colo- rido de metaes, de sede de turbantes, as faces entu- mecidas, a soprarem nos instrumentos com sympa- thica e grotesca convicção. Sob o caramanchel, todo recolhe, e concen- s trombetas o movimento toda a aleg tra, e as mais graciosas attitudes de adoração pros- tram pastores e anjos, cam- ponezes e Jegionarios, com espiriluaes ou adocicados sorrisos de intimo conten- tamento. A Virgem é sem- Ls pre a figura em que os dedos do barrista mais amorosamente, máis res- peitosamente se detiveram, e o seu gesto é ao mesmo nhoril e humilde. + leve- tempo a face oval e pu mente tingida por um sor- riso de incuba melancolia. A modelação de todas GRUPO DE FIGURAS DE PRESEPIO Madre de Deus Pertenceme á egreja dz cheios de bondosa magestade, olhando a es- de um convencio- trella guiadora, com os mantos de arminho — nalismo que não caindo em pri que fazem a montuosidade rustic com anhos balando, moçoilas tocando sada com dema- ÀS impecaveis. Nos lorrões exclue o caracter, a do chão, a anatomia, acu- pandeiro; ou conduzindo casaes de pombos e siado vigor, por gigas de ovos, alternam com almocreves de vezes alfectada e manta alemtejána que, n'uma alta, desseden- incorrecta, dá tam récuas de machos em chafarizes recolhi- comtudoaos mem- dos sob ramarias umbrosas; cegos tocando bros o que quer sanfona, cobertos de andrajos de estylo, por que seja de elas- cujos rasgões se veem vigorosas e more- tico e movimen- as anatomi ns; e em logares afastados, ao tado que se casa pé de um moinho ou de um casebre onde ju- com o gesto, ora mentos carregados de saccas esperam pacien- voluntarioso ora tes, pastores retardatarios acordam deslum- elegante. Como FIGURA DE PRESEPO brados sob o hal o leve d'um anjo, que lhes | havia, desde o Da egreja da Madre de Deus — Vac O

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524 OS PRESEPIOS DE BARRO GRUPO DE PRESEPIO Da collecção do sr. Alfredo Keil objecto de uso commum á obra monumental, uma harmonia de composição e de arranjo que sahia do mesmo e homogeneo ponto de vista esthetico, pois que a autonomia das e pressões artisticas não se accusava com tanto vigor como hoje, em que a anarchia na arte é theorisada pela extrema esquerda do indi- vidualismo, os barristas portuguezes obde- ceram a uma escola que se póde se: desde os trajos e as maneiras da epocha, o seu mobiliario e os seus adornos, às atlitu- des das alegorias picturaes que se veem nos guir, GRUPO DE PRESEPIO Da colecção do sr. Alfredo Keil iosos de Pedro Alexandrino e o de per- paineis relig Vieira Lusitano : ha n'elles um mix fume de incenso e de ambrosi Os anjos organislas que en'oam canticos em tão donairosos movimentos de arrebata- mento extactico, dir-se-hiam sereias de azas ze elherea, modulando accordes no re- canto dalguma gruta de jardim pagão, por detraz da qual se eslivessem prepa illes para o mytho- logico Embarquement pour Cylhére. A polychromia, sempre, e sobretudo aqui, justamente convencional, concorre para har- monisar e enriquecer a composição, dando- lhe colorido sem antinomias chocantes de tons, pois os illuminadores empregavam quasi sempre as cambiantes neutras, como os pin- aes, que tão maravilhosos efleilos de côr produziam dispondo quasi só do azul, do amarello e do vermelho. Os costumes da epocha, os trajos, os enfei- tes, os penteados, dão aos presepios um ndo as da córte de Vers damas tores de vit precioso valor iconographico, e, ao pé dos ty- pos da cidade e do campo, pastores, mendi- gos, holeeiros, quando o barrista pretendeu dar a côr local, fixou todo o inventario figu- rado dos objectos de uso commum, da ouri- vesaria do tempo e da ceramica, desde o vaso co, de cinzelagem pomposa, que os Magos apresentam como tributarios submissos, à bilha popular, de galbo elegante e puro, tra- zida à cabeça ou à cinta pela pastorinha de »quebro dengue. No presepio da casa particular, a devoção do possuidor ia agglomerando todas as figu- ras que lhe agi nteiro do bairro ou no tendeiro da feira. É assim que, no adavam no s

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OS PRESEPIOS DE BARRO 525 uras de model mesmo presepio, ha fig ferente e de differente expressão, menos ad demicas e mais populares algumas, outras - Nes- rante o caracter naturalista, o gesto ão llamer de incontestavel import tas é flag m mia mais particule nal: lembram person: Van Ostade. Conheço um dimensões, que tono- pittoresco que decorativo, a phy ista e menos convencio- ens de Teniers ou de rupo de cegos, de exiguas ão de caminho encostados em fila, a face levantada e tateante, o dorso caricaturial, que são quasi a tradueção dos cegos do famoso quadro do velho Breu- ghel. O caracter naturalista tres da Flandres e da Hollanda, contrasta com a corrente de arte do nosso seculo xvrrr, ão peculiar aos mes- mais italianisada e mais estylisada, menos lista e mais decorativa. As arte: ão artistic re do barro, cedendo, como toda a , à crise de inspir: cre: io que si extinguiu certas fórmas de artes industriaes, refugiou-se nos san- empobreceu e qui s de lavadeiras teiros do Porto, onde bucolic: s scenas typicas do e de camponios, cer paiz vinhateiro, costumes e trajos, oiros e tecidos, enchem as vitrines dos loiceiros que 18. Mas na visinham com a Torre dos Cleri , à copia de- inaria ceramic moderna im masiado naturalista faz desviar para o por- menor o interesse que devia incidir sobre o lançamento geral da figura. Os olhos de vidro, o feltro que dá a illusão dos tecidos, o azulado excessivo das faces es- tudo isto prejudica a commoção eslhetica, pois o espirito sente que alguma coisa ha além da moldagem formal dos ob- canhoadas jectos e dos typos—e esse alguma coisa cha- ma-se—estylisação, e é ella que nos dá o goso contemplativo experimentado diante dos bar- ros do seculo xvim, pelo escorço tão esbelta- mente concebido das suas moças e dos seus alfenins. João Barreia. A FUGA PARA O EGYPIO Presepio da Egreja da Madre de Deus

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Se a mocidade soubesse... IV A MELODIA DAS VIOLETAS ALAVRAS não eram dictas, quando a orla da floresta que os dois viam"deante de si, foi abalada e rasgada em cem logares. Hussards de fardas encarna- das e dolmans azues fluctuantes — a maior parte de cabeça descoberta, mas alguns com enormes barretinas adornadas de desgren dos pennachos — irromperam ao longo de toda a linha, enchendo de ruido a grande mat- ta, como que saltando um após outro, de- bruçados para o cepilho da sella, e correndo à espora fita direitos à base da encosta, Estremeceu debaixo do cavalleiro o cavallo ruço do conde. Tinha em novo, certamente, tomado parte em muitas cargas, a calcular pelo ardor marcial que mostrava agora. Sa- cudindo com impaciencia a cabeça, no intento de liberta das mãos abequista, pare- cia tão disposto a precipitar-se tambem em vertiginosa corrida — julgando-a talvez como carga gloriosa — que outro cavalleiro menos experimentado dificilmente se conserva na sella. istevam sentiu apenas a impressão con- fusa de uma tropa fugindo em debandada, quando lhe passou por deante dos olhos aquelle torvelino atroador, baldeando, esfu- ziando, golfando, retinindo, patinhando, em que se viam faces humanas rubras, contorci- das, de bocca escancarada; freios babados de espuma e sangue; pescoços hirtos de ca- vallos com as narinas a fumegarem... O rabequista soltou uma gargalhada estri- dula: — Os mais brilhantes hussards da Guarda de Sua Magestade Jeronymo, primeiro e ul- timo, em completa derrota! E, ó sombras de Moscow, ahi veem os perseguidores ! A foresta vibrava com gritos asperos e gutturaes, como se das profundas sombras nemorosas se tivesse de repente soltado um bando giganteo de corvos. E depois que o derradeiro hussard com o sangue a jorrar de uma ferida escura que lhe fendia a testa, passou pesadamente, mui- to à retaguarda dos camaradas, surgiram de tropel os outros, à redea solta, o busto incli- nado para a sella, Os hunos! Acocorados cavalleiros sobre acocorados cavallos, brandindo toscas lanças, tão lanzu- dos os homens como os animaes, de longos pingentes de cabello entrançado bailando jun- to to de barba hirsuta; gorras pon- teagudas de pelles a carregarem para a testo os joelhos, cobertos de coiros de carneiro, tão erguidos nos loros de corda que chega- vam quasi a tocar na barba; pendente do ar ção o mais variado despojo — um ganso, um leitão, uma frigideira, um relogio talvez ra- pinado de alguma herdade. Surgiram trium- phantes, crocitando, guinchando, grunhindo, enchendo os caminhos de clamor, algaza e fetido, e desappareceram, antes ainda que Estevam, sulfocado de espanto, tivesse po- dido respirar. Como segunda rajada do furacão, tinham- se agglomerado, dispersado e desapparecido, ao mesmo o que o ruido atroador produ- sido pela corrida vertiginosa rapidamente esmorecia com a distancia, à medida que o valle ia tragando os perseguidores. — Uma excellente provação para a sua mo- cidade educada á ingleza — disse o musico, erguendo a vista para o companheiro, — Ani- quilados os seculos pelo Destino, acaba de stir à passagem dos Barbaros. PfT!... Que fedor a animaes bravios deixaram atraz de si! Lembrarmo-nos de que Napoleão foi bus- car aos seus steppes estes lobos e chacaes. .. que espalhou os cossacos pela face da Eu- ropa! Sahiu do fosso. E o ruço, muito excitado, resfolegando e às upas, seguiu-lhe as pisa- das. Subiu até ali o som de uma descarga de infantaria, que crepitava ao longe, na pla- nicie. — Ouve? — perguntou o musico, — Sabe o que significa isto ? — Que ha combate para além d'aquella a— respondeu Estevam esporeando o cavallo, no intento de subir até ao viso do outeiro. ao eris

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SE A MOCIDADE SOUBESSE .. — É o desabar do Imperio — disse o rabe- 527 elfeito do mesmo terremolo que arrasou a quista, ao mesmo tempo que, segurando com cidade. a mão o loro da sella, tambem galgava a en- Pararam na cumiada e mergulharam a 4; = — == ) ESTREMECEU DEBAIXO DO CAVALLEIRO, O CAVALLO RUÇO costa. — O que ouvimos são os estalidos pro- duzidos pela pequenina realeza da Westpha- lia, que está condemnada tambem a desabar, vista no valle, que para além se desenrolava, assim como derrue a choça do monte, por banhado pelo sol Um docel de fumo azul pairava sobre as campinas situadas entre o sopé da encosta e uma cidadesinha distante

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| | | 528 SE A MOCIDADE SOUBESSE... cerca de meia milha. Atravez da nevoa en- xergava-se o lampejar das bayonetas de li- nhas de infantaria, que evolucionavam lenta- mente, e até, para um dos lados, o verde, o encarnado e o cinzento dos uniformes das companhias em marcha, e, para outro, soli- das massas de azul sombrio. O vagabundo mirou a scena com olhos de entendido e exclamou: — Ah! Os prussianos estão senhores da cidade! Como contrastam pelos sobrios uni- formes com as tropas de Jeronymo, de far- damentos escarlates e verdes, enfeitados de galões de oiro, e de plumas! Ah! Lá vão os nossos fugitivos! Encontraram apoio. Não vê? Estão novamente a formar-s reta- guarda d'aquelle pelotão carmezim... os granadeiros da Guarda do manosinho Jero- nymo, que, para macaquear em tudo a Napo- leão o Grande, arranjou um arremedo da Ve- lha Guarda! Veja! Veja! Os cossacos deban- dam de roldão pela base da collina, como um enxame de besouros! Estão cortados dos seus alliados prussianos, e se os hussards chegarem a tempo, dentro de poucos minutos veremos invertidos os papeis do drama! Emmudeceu repentinamente. Passara uma coisa entre a cabeça delle e a de Estevam, debruçado para poder ouvil-o... uma coisa que zumbiu um cantico extranho e lhes bafe- jou o rosto como um sopro gelado. — Que foi isto? — perguntou o moço aus triaco, olhando em volta de si. — A morte que anda por aqui desgarrada — disse tranquillamente o musico. — Não lhe parece que devemos procurar um abrigo? — Não! Quero ver tudo bem! — gritou Estevam, com o olhar incendido pelo fogo de uma raça de luctadores. — Acolá deve passar ainda mais chumbo voando — retorquiu o vagabundo. — Quando se joga esle jogo, a morte vôa com azg ca- prichosa. O noivo sorriu amargamente e replicou : — Não podia haver solução m mples para as difficuldades com que estou luctando. Ao menos, ninguem chorava muito por mim. — Se o seu gosto o chama para as balas — disse o rabequista com um sorriso de s casmo — estã em harmonia d'esta vez a sua mocidade com a minha velhice. O que em todo o caso podemos fazer, antes de mais nada, é ir amarrar o seu pobre cavallo a qualquer ar- vore da floresta. É escusado sacrificar tam-— bem o pobre animal no altar do seu deses- pero... muito menos podendo elle ter utili- dade quando anoitecer. A lembrança foi acceita. D'ahi a pouco os dois homens estavam sen- tados no alto da ribanceira, com as pernas baloiçando no espaço. — Isto inspira! —disse o artista empu- nhando a rabeca. — Reparou na ultima des- carga? Aposto este arco em como foi dada por: tropas adextradas sob as ordens de Bona- porte. E veja como lhe respondem os insur- gentes prussianos. Camponezes, estudantes, desertores das tropas de Jeronymo, n'uma palavra, patriotas. Vê aquelles rolos de fu- mo branco a evolarem-se da linha abaixo do muro da aldeia?... Nem uma só peça de arti- lharia... um tiroteio irregular, mas um forte odio !... Rufos de tambores! Vozearia! E a carga de bayoneta ! Que lhe dizia eu? Lá vol- tam para traz os nossos homens... os que ainda restam... Estou inspirado ! Attenção! É o canto do combate! Primeiro avançam os granadeiros, frios e altivos, espingarda con- tra o peito, braços cruzados, marchando como um só homem. «Servi à sombra da Aguia, na Guarda do Grande Imperador. Fui a Muscow e voltei: hoje vejo o sol bri- lhar: isto aqui é uma brincadeira de crean- cas, mas quem me dera voltar para o gelo como meu Imperador! Para mim elle é sem- pre o Petit-Caporal. Sou velerano. Eu e os meus camaradas puzemos-lhe a corôa na ca- beça. Para Iena fomos cantando que havia- mos de arranjar um reinosito para o nosso manosinho Jeronymo. Se Napoleão assim tinha resolvido, de que servia à gentalha di- zer que não ?... Em lena, camarada, a coisa foi de escaldar!... E em Moscow de enre- gelar os tutanos! — «Rapazes, fogo sobre el- les, os da Velha Guarda!» grita o prus- siano aos seus arlilheiros voluntarios, «Des- troça a Guarda e é nossa a victoria, Vamos! Varre a Guarda com um chuveiro de metra- lha !» «Vim combater pela patria,» diz o moço aldeão, «minha mãe poz-me um raminho verde na barretina. Hei de dar um risco na coronha da espingarda, por cada francez que matar, para mostral-a aos meus filhos, quando voltar para a terra e casar com à Gretel.» Oh! Mas a Velha Guarda faz fogo à carga cerrada. O raminho verde tombou na campina ; os camaradas saltando-lhe por

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SE A MOCIDADE SOUBESSE... 529 cima, espesinham-n'o, porém elle já nada sente. Pobre rapazelho!... Ainda não ti- nha combatido pela patria, ejá tingia o chão «com o seu sangue tão vermelho! Como cres- cerá viçosamente a arvore da liberdade, num chão assim regado! O granadeiro, à volta da Russia, eil-o a sorrir. Tambem jaz cahido no chão com os olhos mirando o céo. Está frio, muito frio. Em que pensa? Está com o seu Imperador !» O rabequista movia o arco com uma espe- cie de phrenesi. E sobre o estrondo e o cla- mor do combate distante, sobre o ruido e a algazarra que faziam os cossacos trepando a encosta, e os seus gritos e grunhidos pro- vocadores, erguia-se aquella musica de ba- talha, apaixonada, altiva, tragica! Os ultimos da horda cossaca tinham de novo attingido a cumiada, em bravia confu- são, buscando o abrigo que ali perto lhes promettia a fioresta. Perpassou atravez d'el- les, cantando, uma saraivada de balas: a companhia de granadeiros, dando vista do «derrotado inimigo a projectar-se no céo, mandava-lhes por desprezo uma ultima des- carga. Desataram aos guinchos os selvagens, * curvaram-se todos para o pescoço dos pel- ludos cavallos, em phantasticas atlitudes ; foram attingidos uns poucos; um cahiu e o «camarada mais proximo apanhou-lhe o ca- vallo pela redea e levou-o, despedindo um grito de satisfação. O morto foi arrastado por algum tempo, emquanto o pé inerte não poude soltar-se do estribo de canhamo, e ficou por fim entre as pedras, n'um monte de trapos «lesbotados. Dos rostos d'aquelles homens ne- nhum traduzia medo: contrahiam-se todos em sorrisos sarcasticos e provocadores. O seu grito de guerra era ainda de triumpho. O rabequista pôz-se de pé, no alto da col- lina. Baloiçou o arco, e, passando-o nova- mente pelas cordas, rompeu n'um canto es- 4ridente e zombeteiro, escarnecendo os fugi- tivos. «Soltae as negras azas, e voae, agoirentas aves! E ainda exultaes na debandada: paira no ar o cheiro da Morte. Dentro em pouco vos podereis saciar — mas hoje a Aguia fe- vida ainda tem força para escorraçar os corvos. Balei as azas, fugi, voae... Coá!... cod !...» Cheio de pasmo, como que enfeitiçado, Es- tevam ia escutando o companheiro. O musico parecia possesso. As madeixas do cabello seRÕES N.º 6 . grisalho destacavam-se-lhe das faces, com o aspecto de rigidas; a mão esquerda saltitava ao longo das cordas, e a direita oscillava com furia. Se a madeira e as cordas alguma vez escarneceram e insultaram, foi de certo n'a quelle dia, durante o combate de Heiligens tadt, quando o endemoninhado instrumento do Rabequista Hans vibrava em frenterdos der- rotados kalmucks. «Coá! Coá !» gritava elle, e este som guttural chegou até aos ouvidos de um cossaco fugitivo, que à retaguarda dos seus camaradas forcejava por acompanhal-os, no seu cavallo ferido. O homem voltou-se para traz, aprumando-se na sella de pelle de carneiro, e, com a ira a faiscar dos olhos congestionados, ergueu a arma acima da ca- beça, calculando a distancia. — Cuidado! — gritou o conde, saltando da crista da rocha. Os sons da rabeca tornaram-se mais fortes, mais estridentes. Arremessou a lança o selvagem, e Estevam, atirando-se para deante, de braços abertos, foi attingido. Cahiu para cima do rabequista e ambos rolaram para o chão. A musica em- mudeceu. Cantando victoria, o cossaco obri- gou a andar o ensanguentado cavallo, até se embrenharem na espessura do arvoredo, * * * — Se Madame Sidonia aqui estivesse, pas- sava a julgal-o um heroe ! — disse o musico, accentuando muito a palavra madame. Tinha ligado o hombro de Estevam — a fe- rida não apresentava mau aspecto — e deu-lhe a beber vinho da localidade, que trazia num frasco, e agua, que foi buscar a um ribeiro proximo. No entretanto, a contenda das tro- pas do rei Jeronymo com os invasores não acabara ainda, e pelo valle continuavam a bramir sons vagos de batalha. As brisas do ditoso maio sussurravam no arvoredo, e tinham varrido de oeste a leste o céo de um azul superior a toda a descripção. Em volta dos dois homens havia um palpitar maravilhoso de coisas que labutavam e cres- ciam. Trepidava cada folha de erva em in- tensa vida propria. A folhagem regorgitava do inquieto mundo alado, nascido dos pri- meiros amores de primavera. Toda a floresta cantava em doce murmurio as secretas ale- grias da fecunda Natureza... E na planicie, FOLHA 5

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5ão SE A MOCIDADE SOUBESSE... abertamente e em tumulto, os senhores da Terra maculavam-lhe com a Morte a face en- cantadora. — Se Madame Sidonia aqui estivesse — ti- nha dicto o rabequista, olhando astuciosa- mente para o rosto do companheiro. Como não alcançou resposta, accrescentou d'alli a instantes: — Até à noite não param de despedaçar- se. Que diz ?... Não pode arrepiar o cami- nho o cavallo ruço, levando o seu dono para onde um noivo deve estar. O outro, cujo rosto livido se afogueou de repente, bradou encolerisado : — Não! Mil vezes não! Ainda me não tor- nei a coisa vilissima que ella me suppõe. O musico reprimiu um soluço e murmurou: — Que nobre sentimento é o verdadeiro or- gulho! Depois levantou a rabeca e poz-se a exa- minal-a altentamente. — Céos!... E se m'a tivesse partido ! — ex- clamou, — E” pasmoso que um homem se ar- remesse tão inconsideradamente para cima de outro, quando está entre elles um Stradi- varius! — Se não fosse a minha falta de considera- ção — replicou Estevam um tanto melindra- do — dificilmente o precioso instrumento co- nheceria de novo o contacto dos seus dedos — Amigo — disse gravemente o rabequi ta — ainda está por temperar o aço e por der- reter o chumbo que ha de atravessar este co- ração. Oh! Deus !... Que infinita amargura n'esta exclamação ! Apanhou as cordas e repuxou-as distrahida- mente. Depois encarou subitamente com Es- tevam, sorrindo de um modo singular : — Causa-lhe espanto, não é assim, a minha ingratidão ! «Ora esta ! Aqui salvei eu, conde de Waldorf-Kilmansegg, a vida d'e: i sero vagabundo, arriscando a minha nobre e preciosa existencia; aqui derramei o meu sangue azul, para não correr o turvo liquido que elle tem nas veias, e à infima creatura nem ao menos me diz: Muito obrigado !» Companheiro — proseguiu o musico, e dila- taram-se-lhe as pupilas, e o rosto assumiu uma expressão nobre e altiva— longe de mim a intenção de envergonhar-me e enver- gonhal-o dizendo-lhe a palavra «Obrigado» ! Quem não é capaz de arriscar-se para salvar a vida do seu semelhante, nem merece o no- me de homem. Estevam, realmente vexado porque se ti- nha julgado um heroe, córou outra vez e bai- xou os olhos. Ao mesmo tempo foi apanhan- do machinalmente com a mão direita, que fi- cara incolume, as violetas silvestres que cres- ciam pela encosta. O rabequista seguiu-lhe os movimentos, e de subito a vista immobi- lisou-se-lhe e o mento descahiu. E logo o rubor novamente se apagou d'aquella face e deu logar à lividez. Estevam perguntou-lhe assustado : — Está doente? Diga-me, por amor de Deus!... O musico, sem pronunciar palavra, esten- deu a mão e tirou ao outro as florinhas. Tinha nos dedos o frio da morte, Murmurou depois, em voz muito baixa ; — Violetas! Estão cheias de sangue, — E tremia convulsivamente, — Talvez todo o seu mysterio se reduza a isto apenas : é um pobre doido. Pensou-o Estevam e procurou com a vista. o sitio onde o cavallo andava a pastar. Que- ria saber se poderia montar, sem que o aju- dassem. O vagabundo tinha deitado para o collo as. violetas, olhando-as ainda com tristeza e horror ; pegou no instrumento e fez soar uma melodia absolutamente diversa de tudo o que: Estevam lhe tinha ouvido até ali, Suave e simples, era como que a branda toada ao som da qual vinham dançar, como sombras, as ale- grias do passado, tão enternecedora, que Estevam, com as lagrimas toldando-lhe a vista e um nó a apertar-lhe a garganta, pe- diu anciosamente ao companheiro que não continuasse. O artista obedeceu-lhe e voltando para elle- a transtornada physionomia, disse : — E' esta a melodia das violetas, a melo- dia que nunca está silenciosa na minha alma, quer de dia, quer de noite. Não pode suppor- tal-a? Pois então deve ouvir a minha histo- ria. N'aquelle tempo eu era moço como o sr. conde é hoje... e tambem tinha nobre or- gulho... quasi pelos mesmos motivos. Ao dizer isto, Geiger-Hans arrepanhou os. labios com um sorriso amarissimo de desdem por si proprio. Proseguiu : — Mas assim como os homens differem en- tre si, as suas paixões teem motivos diffe- rentes. De pouca importancia era para mim eu descender de uma antiga casa fidalga.. . Ah! Alegre-se por saber isto... Sempre o

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SE A MOCIDADE SOUBESSE .. 531 suspeitou, de contrario haver-me-hia repelli- do... Não faça caso, amigo, aliás córarei por sua causa. Ah ! Mas como ia dizendo... Fui orgulhoso, mas o meu orgulho era o da nobreza de intelligencia. Conheci tantos assim ! Aprendi a arranhar o inglez para e: tudar Bacon e Locke, e a mastigar o allemão para discutir Fichte e Kant. Era amigo de Holbach. Adoravamos Voltaire. A nossa di- visa era a Razão ! N'uma palavra, fui um dos chamados Encyclopedistas. Sonhavamos der- ribar todos os abusos, e substituir tudo o que então existia por outras tantas perfeições no- vinhas em folha. «Humanidade e Liberdade» eis o nosso grito de guerra. A nossa revolu- ção devia realisar-se com azeite doce e agua de rosas. Excuso dizer-lhe em que tornâmos a França e o mundo. Deitámos a rolar a pri- meira pedra ha já um quarto de seculo, e — com um sorriso tragico apontou para o valle — ainda pode ouvir o echo da sua queda re- verberando além! Prégamos liberdade, e o mundo está hoje mais escravisado que d'an- tes! Era a razão a nossa estrella polar, e o estado acha-se em poder das mais humildes intelligencias, que o governam consoante as suas ruins paixões ! Humanidade era o nosso lemma e a França foi, de um extremo ao ou- tro, encharcada em sangue, e os seus filhos levaram a carnificina e o fogo até aos confins da Europa! O sangue d'aquelle filho dos steppes que escurece a estrada acolá adean- te, a aldeia do valle coalhadã de mortos e cri- vada de balas, algumas das quaes foram sau- dar-nos ao vertice do outeiro, são tudo offe- rendas consagradas à trindade inventada por mim e pelos meus companheiros : Liberdade, Humanidade e Razão ! Oh! Era brilhante o caminho que traçámos. Não tinhamos justos motivos para nos orgulharmos ? Ficou silencioso por momentos, sem que o conde se atrevesse a falar, tão mordente era o azedume d'aquellas palavras, tão pungente a commoção escripta em cada vinco d'aquelle rosto. — Era a edade de Oiro ! — continuou o ar- tista a dizer, — Philosophavamos até nas es- cadas de Versalhes. Luiz fazia lindas fecha- duras e Maria Antonieta tosquiava ovelhinhas alvas de neve; as rosas embalsamavam o ar em Trianon... e nunca o mais sensato de to- «los nós viu nunca o abysmo a escancarar-se. Emquanto a mim... os maiores espiritos estão sujeitos ás vulgares paixões da humanidade “* — os labios esboçaram-lhe um sorriso sardo- nico — apaixonei-me como poderia acontecer ao mais boçal rapazola de aldeia. Ella — he- sitou, mas por fim deu firmeza à voz e disse n'um tom que denunciava o esforço que fazia para falar — pertencia a uma familia bretã de antiga estirpe e tinha ideias diime- tralmente oppostas às minhas. Havia, porém, uma coisa em que perfeitamente nos enten- diamos, o que era'para mim o bastante: ama- vamo-nos. Calou-se e respirou mais apressadamente. «Deus meu!» disse o artista, como se não soubesse que estava falando — «Que amor eu lhe tive!» Apanhou uma violeta de entre as que linha no collo, e passou-lhe os dedos por cima, cariciosamente. A expressão do semblante apaziguou-se. Quando tornou a falar, foi com uma suavidade que Estevam nunca lc tinha conhecido. — Se duas creaturas se amam e cada uma d'ellas julga erroneas as opiniões fundamen- taes da outra, o seu mais ardente desejo é leval-a para o caminho da verdade. Eu não tinha a menor duvida em que havia de fazer luz na sua alma; ella acariciava o pensa- mento de remir-me da perdição. Já lhe disse até onde ia o meu orgulho, tão nobre que até me envaidecia. Sendo apostolo da liberdade, nem mesmo chegava a admittir que minha mulher podesse resistir aos irrefutaveis ar- gimentos do meu espirito emancipado, que o vaso mais fragil não cedesse ao mais forte! Se não nos amassemos tanto, não levariamos tão longe o afan de conseguir que cada um de nós se tornasse digno do ideal do outro!... Em summa, tivemos discussões acerbas! A culpa foi toda minha. Porque não me conten- tei de adoral-a cheia de crenças? Bra ele- vada a sua inteligencia. Magoei-a de mil maneiras. As mulheres teem susceptibilida- des que nós, homens, grosseiros de corpo e de espirito, nem sequer suspeitamos. Ma- goamol-as até quando lhes tócamos para as acariciar. E então, se acaso se torna insup- portavel a dôr que lhes causamos e ellas em paga tambem nos ferem, o ferimento é para o mais innocente, para o mais injuriado! Oh! Quando esgotei a medida contra ella, -in- sultou-me ainda mais, se assim o quer, do. do que hoje de manhã a sua noivasita insul-s, tou a alta prosapia do sr. conde. Disse palas vras que o meu requintado orgulho não poude

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532 SE A MOCIDADE SOUBESSE... consentir. Era tal a minha nobreza de alma, que não me permittiu escolher outra resolu- ção que não fosse o deixar a mulher que eu tinha jurado proteger; ostentar energia va- ronil abandonando-a ao seu destino; per- der a creaturinha fragil e encantadora que tinha tido nos braços, confiada à minha guarda, ao meu amor! Bem sei que tomei algumas disposições generosas no tocante aos meus bens (como o sr. conde tenciona fazer para com Madame Sidonia), e que ella tinha, como tem sua mulher, pessoas com quem se fosse juntar, e que eram as mesmas de quem se apartara para vir ter comigo. Quando porém me chegou o instante de ob- servar o coração e conhecer a verdade, que vi?... Interrogue o seu e saberá o nenhum valor das razões a que obedecemos. Porque deixei a minha?, Unicamente para que sof- fresse e chorasse por mim, e para que sou- besse o valor incalculavel do thesouro que não tinha apreciado devidamente. Para me vingar, para me vingar da mulher que eu adorava ! Deixou-se descahir para o tronco do abeto que lhe ficava por traz, e encostou-se a elle, tendo cerrado as palpebras. —Deixei-a, deixei a França e a Europa e fui para a America, a nova mansão da Li- berdade, o unico paiz, em toda a terra, onde se prestava á deusa o culto conveniente. Ti- nha protestado não voltar, emquanto ella não me chamasse; reclamou-me uma voz terri- velmente differente da sua. Passaram-se tres mezes primeiro que eu tivesse noticia do de- sastre, n'aquellas remotas paragens. E vi logo que em menos de um mez não poderiá chegar ao pé d'ella ! E sabia que estava em perigo! Parece que foi quando principiei a endoidecer. .. pois é claro que estou doido. Não acha? Escancarou os olhos muito brilhantes e fitou-os em Estevam, causando-lhe um tal embaraço, que o musico não poude deixar de sorrir tristemente. — Doido, sim — repetiu elle. Estava com o olhar scintillante, e na verdade não tinha ap- parencia de ajuizado. Deixou a cabeça cahir entre as mãos e suspirou: — Se eu ao menos estivesse mais doido! Continuou depois a dizer, em voz differen- te, sem modulações : — A historia vae acabar. Quando cheguei, estavam desencadeados em França todos os poderes do inferno, que o meu espirito supe- rior negava. Danton, Marat e Robespierre eram os representantes da trilogia Liber- dade, Razão e Humanidade ! Cheias as pri- sões, em actividade constante a guilhotina... era a Edade de Oiro! Passaram-se quinze dias primeiro que soubesse onde ella estava. Já procurou debalde, por uma só hora que fosse, um ente amado? Dante, no circulo mais profundo do seu Inferno, de certo não imaginou tormento egual. A minha casa em Paris, tinha sido confiscada em proveito da nação; o castello do pae d'ella, na Lorena, fôra destruido por um incendio e comple- tamente arrasado. Na minha velha casa, em Nancy, é que afinal obtive informações. Tinha-se negado a fugir com a familia para além do Rheno, mas quando o perigo se tornou ameaçador, foi occupar o seu posto nas minhas propriedades. Como se definia bem n'isto! Prenderam a terrivel inimiga do povo e levaram-n'a para as abjectas prisões de Nancy. Foi lá que... Arrancou da cabeça o estragado chapeu, puxou com força o cabello para traz e alar- gou ainda mais o coz da camisa. — Todos a tinham abandonado, excepto uma pobre rapariga de aldeia, que habitava a nossa herdade e que pertencia a uma fami- lia de patriotas do logar... Arranjara licença para entrar na cadeia. Fui encontral-a ao pé da porta, quando as minhas desesperadas pesquizas para ali me conduziram finalmente. Reconheceu-me... Eu já estava feito um va- gabundo, um maltrapilho. Quando me viu a cara, upertou muito as mãos uma contra a outra, e desatou aos soluços. Já era tarde ! N'aquella manhã... Porque me olha assim ? Admira-se de que eu esteja ainda vivo ? Foi onde se vingou de mim o Deus que eu nega- va. Não posso morrer! Bem sei que podia matar-me... Veja, veja a decadencia a que chegou o Encyclopedista ! Não me atrevo a fazel-o, pelo receio de tornar impossivel o encontrar-me com ella novamente. Ah'!... Leio-lhe nos olhos uma grande compaixão... Aquella cabecinha delicada !... Levantava- se como uma rainha. Debaixo dos pós, eram de oiro os seus cabellos. Nem uma madeixa, nem um anel me ficou! E tantas vezes que lhe cingi com as duas mãos o pescoço !... À aldeã acompanhou-a até afinal. Esteve junto do cadafalso, para que um olhar affectuoso amparasse aquella alma sublime no instante

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mi Ati Wi) 7 ul Em LANÇOU-LHE DE REPENTE O BRAÇO EM VOLTA DO HOMBRO

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534 SE A MOCIDADE SOUBESSE... da partida. «Sorriu-se para mim» contou-me lavada em lagrimas a pobre rapariga. Os meus olhos não choravam. Tirou do seio um raminho de violetas e disse-me: «Madame les avait à son corsage»... O musico tinha apanhado as flores e es- magou-as contra a face, murmurando : — Ella gostava muito de violetas. Estas não teem cheiro... mas as suas... que aroma... — Ah! Meu amigo! — segredou-lhe Este- vam com infinita piedade no olhar. Parecia em delirio o artista quando conti- nuou a falar, ao mesmo tempo que as flores se lhe inm escapando das mãos — Havia sangue nas violetas della e meu, porque o homem, que eu então era, morreu assassinado tambem em plena mocidade. A face estava outra vez livida e os olhos brilhavam iprequietos no fundo das orbitas. —O que ainda vivia de mim, a miseravel carcassa, o velho... se lhe parece, dê-me este nome... emfim o que vê agora na sua presença, pegou nas violetas e fugiu. Não tornou a parar desde aquelle instante ! — Deu uma gargalhada, que soava a loucura — Para mim já não podia haver casa em logar nenhum, nem patria... Em França menos que em qualquer outro paiz. Mas ha bondade nos céos e nas arvores; entendem a minha dor, acolhem-n'a em seu seio e às vezes dão- me em troca a doce paz. Tambem tenho a musica .. sempre a amei. Um homem, um padre de aldeia, reconheceu que o vagabundo, a quem por esmola tinha abrigado, tocava o seu Stradivarius melhor do que elle. Olhava como um filho ao incomparavel instrumento, mas deu-m'o, porque teve compaixão de mim. Foi como nasceu o Rabequista-Hans. E o Rabequista-Hans e a sua rabeca teem vugueado desde esse dia, e hão de assim continuar, até que elle já não possa mover- se .. e então cahirá tambem na boa terra pardacenta... talvez com o rosto voltado para o céo... Apertou as flores contra o peito e incli- nou-se para deante. Com os cotovellos apoia- dos nos joelhos e os olhos oceultos entre as -- Sangue (Continia.) (Traduzido do inglez por Maximiliano de Azevedo.) mãos, ficou silencioso. Lá em baixo, no valle, tambem já havia silencio. Tinha acabado o combate, que decidiu da sorte de muitas centenas de homens e já andavam levantando os cadaveres. Amainara o vento com o cahir da tarde, e só as comas dos pinheiros baloiçavam, murmurando can- tos mal perceptiveis. A luz ia-se tornando de um amarello suave; iam-se alongando as sombras. O tordo e o melro começavam, ainda a medo, os seus cantares do entardecer, Estevam lembrou-se do ferimento. O rabequista voltou-se e falou-lhe tran- quillamente.: — Então qual é o seu caminho ? Para deante ou para traz ?... — Não sei — respondeu o outro a me'a voz. E baixou os olhos envergonhado. O rabequista estendeu-lhe a mão eajudou-o a levantar-se, com um esforço vigoroso. Lançou-lhe repentinamente o braço em volta do hombro e disse: — Aquella ereança... Sidonia... Queria tanto vel-a feliz!... Quando a sua Ima ap- parece atravez d'aquelles crystalinos olhos azues... quando meneia a linda cabeça co- roada de cabellos de oiro... E tem um en- canto nas falas, no riso... Ouço-a e julgo ouvir uma harmonia de outros tempos, os accordes de uma vida que perdi!... E o seu collo esbelto... as minhas mãos podem cin- gil-o!... Volte para ella !... Tenha eu a certeza de que é feliz, e o meu espirito in- quieto nunca mais vagueará pelos logares onde ella estiver. Ah! Julga que é muito dif- ficil? Engana-se. Não conhece o coração das mulheres. Esqueça-se de que lhe feriram o orgulho. Lembre-se de que ambos são mo- ços. Oh! Se soubessem !... A vida tem para a mocidade uma flor inestimavel, Colha-a, para que um sopro do céo lhe não extinga o perfume. E” para si unicamente. O amor da sua mocidade !... Ande! Vá colhel-o! — Volto para traz —disse Estevam, com os labios n'um tremor. Silenciosamente, o Rabequista-Hans foi buscar o cavallo, ajudou o ferido a montar e ensinou-lhe o caminho ao longo da riban- ceira. Anes E EcerTON CASTLE.

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Em grande amigo das creanças (A proposito do contista dinamarquez Andersen) Celebrou-se recentemente na Dinamarca o centenario de Hans Christiano Andersen, o mais prestigioso contista «a infancia. Nessa festa, toda a sociedade dinamarqueza tomou parte, desde o velho rei Christiano alé ao mais humilde dos seus subditos. De todo o mundo afjluiram felicitações e saudações, porque o grande escriptor é por ex- cellencia um feiticeiro para as creanças de todo o mundo. Vem pois a pello conhecer algumas particularidades in- “teressantes do caracter de Andersen, apresentadas por um distincto escriptor que intimamente o conhereu, Rigmor Bendiz. Por este curioso artigo se revelará a bondade, a paciencia, a ternura do grande amigo das ereanças. UITAS vezes se tem de- batido se acaso Hans Christiano Andersen, o mais celebrado dos auctores de contos ma- ravilhosos, tinha real- mente um grande amor ás creanças. À tal respeito posso eu falar com conhecimento de causa, visto ue desde os primordios da infancia tive occasião de o ver constantemente, ora na casa de meu bisavô, Jonas Col- lin, ora na dos filhos d'este, ora na de meus proprios paes. Andersen nunca desperdicava occa- sião de nos divertir. Contava-nos as suas lindas historias de fadas, levava- nos ao theatro, e até chegou durante um largo prazo a dar todos os dias um presente a um dos seus pequenos favo- ritos. A mais leve provocação revela- va-se n'elle o delicioso contista. Uma vez, o armazem de vinhos que ficava defronte appareceu decorado com tabo- letas novas dos lados da porta, nas quaes se viam grandes cachos de uvas e uns rechonchudos anjinhos. Apenas Andersen deu pela novidade, sentou-se ao pé da janella com uma creança ao collo, e engendrou logo alli uma histo- ria a proposito das mirabolantes pintu- ras do visinho. Nós, os pequenos, divertiamo-nos tambem immenso a ouvir-lhe contar anecdotas para edificação das pessoas grandes. Uma noite, depois do chá, estavamos todos sentados em volta da ampla meza, e Hans Andersen, que se mostrava muito bem disposto, poz-se a narrar-nos episodios do seu passado, das suas viagens, das relações que tivera com gente do commum. As

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536 UM GRANDE AMIGO DAS CREANÇAS vezes, a sua maneira de contar histo- rias tornava-se positivamente drama- tica, e era a miudo amenizada com uma ironia amavel a respeito de si proprio, da qual a maior parte da gente o não julgaria capaz. Por exemplo, quando nos falava do seu encontro com ce- lebridades extrangeiras, com quem muitas vezes estivera em contacto, confessava-nos que não sentira n'es- sas entrevistas um prazer muito cor- dial, visto que nun- ca tivera um gran- de conhe- cimen- to de lin- guas ex- tranhas. Entre outras cousas, contou- nos o seu encontro com Char- les Di- ckens em Londres. Dickens tinhamos- trado em- penho em se relacionar com elle, ti- nha-o presenteado com um exemplar de Nicholas Nickleby, onde escrevera uma dedicatoria amavel, e haviam-se disposto as cousas para uma cava- queira despretenciosa entre os dois grandes escriptores. Mas pouco tempo depois de começada a cavagueira, Di- ckens, interrompeu-a para exclamar: —E preferivel que o sr. Andersen falle em dinamarquez. Estou conven- cido que o hei de entender melhor. Um dos seus meios favoritos para se insinuar no animo dos seus ami- gos infantis era fazer para elles albuns de estampas, recortadas de quanto lhe vinha á mão — annuncios, jornaes il- lustrados, capas de livros, estampas baratas. Mas o Es sobretudo nos interessava eram as figuras que elle proprio fazia e recortava e que muitas vezes col- lava nas folhas dos livros. Tinha um talento especial para essas figuras. Nunca as desenhava, mas emquanto estava sentado a conversar comnosco, ia dobrando o papel, e, sem modelo algum por onde se guiasse, ia-o recor- tando muito satisfeito — e prompto! ap- parecia a ideia, cheia de verdade e de vida. As suas figuras favoritas consis- tiam em cysnes, bailarinos, cupidos. mas nenhu- mas eram parecidas com as ou- tras. N'es- sas figuras havia muito do espirito maravilho- so, que as tornava at- trahentes e as impri- mia na me- moria. Tambem mostrava n'outras obras a sua habilidade de compóôr. Umdosseus menores talentos era o de fazer rama- lhetes: uma florinha simples, uma es- iga de trigo, uma folha de colorido Eslhante, atados a uma mancheia de herva. Era tanto maior a sua origi- nalidade quanto a esse tempo não era geralmente conhecido o Japão. A roda d'esses ramalhetes dispunha pa- pel branco e dourado, recortado nos extremos em fórma de bailarinas e de cupidos. Entre as cousas mais divertidas que elle fez, avulta uma collecção de figu- rinhas que nos mandou uma vez para pôrmos na arvore do Natal, ahi por volta de 1850 e tantos. São os exem- plares reproduzidos n'este artigo. Eram feitos de papel de varias côres, recor- tado e collado, formando vestidos com quo diversas, ou armaduras ou ardas. E pena que a reproducção não

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UM GRANDE AMIGO DAS CREANÇAS 537 possa dar as côres; o que apparece em negro é ver- melho e ouro, e os originaes teem o dobro do tamanho das illustrações adjuntas. Hans Christiano Ander- sen nunca se esquecia dos filhos dos seus amigos. Ain- da depois de velho, lem- brou-se d'elles com interesse e ternura. Quando estava ás portas da morte, mandou recado a um dos seus ami- gos pedindo-lhe que lhe trou- xesse uma creancinha re- cemnascida, filho deste amigo. Mas morreu sem dar tempo a que o pedido fosse satisfeito. alp Acharam-se lhe na meza de trabalho uns versos es- criptos ao pequenino Svend, os quaes mostravam quanto. o preoccupava essa creanci- nha que elle nunca tinha visto. «Nunca mais jubiloso- nos correu o tempo», come- ça elle, e em seguida es- praia-se sobre os extranhos. caprichos do inverno que corria. Aquelles a quem se des- tinavam estes versos, e que se recordam da sua bondade e da sua ternura, duplamen- te veneram a perduravel me- moria do grande escriptor dinamarquez. Concurso photographico dos «Serões» — Menção honrosa PENICHE — MANHÃ DE SOL Photographia da Ex.” Sr.º D: Olympia Saturnino

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ONHO DESFEITO Ai! sahidas da missa do gallo! Ai! ceiatas da tia Gertrudes! Que petiscos! que amor! que regalo! Que priminhas! que ricas saudes! Logo a mesa apetite nos dá, C'os crystaes, porcelanas mui tricles, Bons hors-d'oeuvres:de truffas, foie-gras, Galantines, salames e pickles. E depois que a assembléa se arranja, E eu procuro logar não me falte Junto á prima Lulu, surge a canja, Fumegando em terrina de esmalte. Um silencio. Sonoros, na louça, Batem quasi a compasso as colheres, E o que espanta é que nem sequer se ouça O trivial cochichar das mulheres. Porém logo que aspectos nipponicos Vão surgindo no fundo do prato, E no hors-d'oeuvre, a pretexto de tonicos, Se começa a fazer desbarato,

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t SONHO DESFEITO 539 * Só se pensa em tirar a desforra Da calada a que a fome forçou; Jorram ditos, pilherias, e jorra Dos gargalos dourados Bordeaux. Mas eu cá, no entretanto, suspenso, Não permitto que a gula me apanhe. Como pouco, reservo-me e penso No perú regadinho a Champagne. Por mim passam pasteis de marisco, Fricandós, entremets, vol-au-vents, E eu mal provo, sonhando o petisco, Que é prenuncio da santa manhã. Toda a gente dizendo chalaças, A atiçar-me a priminha Lulu (Que é a quarta na conta das Graças), E eu cá, moita, a pensar no perú. Bem me importam risinhos de escarneo, Ora adeus! não me sahe do toutiço O peru, pelo qual deixo a carne e o Peixe, massas, té mesmo o derriço. “Surge, ó reil ergue a audaz, fulva grimpa Sobre o mar de agriões em que atufas ; Ergue a pansa auri-rubida que impa Com precioso recheio de truffas. Surge, ó rei! ao sentir o teu ventre A ranger sob a lamina viva, Não te espantes de que eu me concentre E me cresça na bocca a saliva.

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540 SONHO DESFEITO Quando, afim de evitar que me embuche A carninha que o forno dourou, Entornar no bandulho um bom duche De Champagne viuva Cliquot, Tu verás, tu verás 'té que ponto Eu afio esta lingua mordaz, E ao mais forte em loquela, n'um prompto Não dou treguas, mas dou sota e az. Mas o sonho, que enlevos me trouxe, Veio a sorte cruel, e desfez-m'o. O villão cordon bleu entortou-se E o peru transformou n'um torresmo. Porque a fome fatal me espevite, Ao dessert enguli como sete: Apanhei uma gastro-enterite Com pudins, e bonbons, e sorvete. Ri-Panço.

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PORTA FERREA Universidade de Coimbra Sexta e ultima parte om o capítulo correspondente ao 6.º numero dos Serões termina o es- tudo sobre a Universidade — es- tudo que não é nem pretendeu ser senão um esboço historico exterior do nosso mais antigo estabelecimento de ensino. A verdadeira historia duma insti- tuição, bem o sabe o auctor d'estas li- nhas, deve ser sempre: dum lado, a exposição e desenvolvimento das idéas que a vieram formando e lhe deram, de dentro — atravez das adaptações suc- cessivas impostas pela evolução dos tempos — uma determinada orientação e destino social; d'outro lado, a evo- cação reconstructiva da sua existencia como ser vivo, dos seus animados as- pectos de complexo humano. Mas não cabia nos limites duma re- vista como os Serões, nem era para a índole desta publicação, um estudo de semelhante natureza. Por isto, o artigo sobre a Universi- dade foi, como já disse— salvas as suas imperfeições — o que devia ser: um simples descriptivo e uma exposi- ção corrente de aspectos e de succes- sos vistos de fóra. Antes de o completar, terminando as indicações relativas á organização actual da Universidade — convirá fazer aqui já a correcção duns lapsos maiores na revisão do numero anterior. Na segunda columna da pagina 435, linha 10, deve a data de 1845 ser sub- stituida pela de 1844. Na ante-penul- tima linha da segunda columna, a pa- ginas 437, deverá lêr-se, em vez de: «come das janellas e tribunas actuaes», como as das janellas e tribunas actuaes. Na primeira columna da pagina 440, linha 10, o periodo que começa: «São de nomeação regia», deve começar: Os substitutos são de nomeação régia. A pa-

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MANUEL DA SILVA GAYO Actual secretario ginas 441, na 3.º linha, onde se lê: «uma vez por semana», deve lêr-se: uma vez por mês. (1) Continuando com a exposição do es- tado actual do ensino e organização da (1) Já estava em composição esta última parte do artigo sobre a Universidade, quando ás mãos do auctor chegou o n.º 1:424 da Ga- seta da Figueira, de 6 de novembro de 1505, que insere, acompanhada com palavras da mais amavel gentileza, uma correcção op- portuna, devida ao distincto collaborador daquelle jornal, o sr. Francisco Canavarro de Valladares (Ribeira de Pena). Transcrevendo essa correcção, só mostra mos a quem a fez que nos merecem sempre estima e gratidão quantos queiram auxiliar- nos e emendar qualquer lapso nosso em tra- balhos de ordem historica. Segue a rectificação: A UNIVERSIDADE DE COIMBRA Universidade de Coimbra, devo agora referir-me aos ACTOS São de três ordens ou graus: menor ou de bacharel, de licenciado e de dou- tor. A collação do grau de bacharel é feita pelo presidente do jury respectivo. A dos graus de licenciado e doutor é feita pelo Reitor da Universidade. O grau de licenciado é conferido em seguida ao respectivo acto de li- cenciatura, na Real Capella, com a as- sistencia do corpo docente da faculda- de, ornado de insignias. O grau de doutor, requerido depois da defesa de theses, é conferido na sala grande dos actos. E” a cerimonia chamada — do Capéllo — a mais solem- ne da Universidade, a recordar o ce- rimonial das antigas investiduras da cavallaria. Sería longo descrever todos os actos e passos, que a compõem. O seu ceri- monial, já compendiado, embora não esteja ainda impresso, é mais ou me- nos conhecido. A propósito : ainda ha pouco o publi- «O dr. João Pereira Ramos era irmão legi- timo e de legitimo matrimonio de D. Fran- cisco de Lemos (e não cunhado, como se diz no n.º 3 dos Serões, pag. 248, col. 2) por ambos serem filhos do capitão-mór Manuel Pereira Ramos e de sua mulher D. Helena de Andrada Souto-Maior, senhores da casa e en- genho de Marápicú, suburbios do Rio de Ja- neiro, onde por signal nasceu o futuro Bispo- Conde e Reitor reformador em 1735, O dr. João Pereira Ramos, primogénito, nascera no termo da villa de Iguassú, treze annos an- tes, em 1722, e foi quem, segundo pensamos, enveredou e protegeu os inícios da carreira publica de D. Francisco »

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A UNIVERSIDADE DE COIMBRA 543 Official-maior cou, em inglês, sobre uma nota que lhe enviei, Mr. D. J. Cunningham, — illustre professor da Universidade de Edinburgh — no seu trabalho: The evolution of the graduation ceremony. A esta cerimonia assistem todos os lentes da Universidade, com as suas insignias. É de grande apparato; depois da missa na Real Capella, o candidato, já de capello, é acompanhado pelo Pre- lado vestido de habito talar e borla, pelo decano da faculdade, que é o seu padrinho official, pela pessoa nobre que o apresenta, e por tcda a Universi- dade, á sala grande dos actos. Aqui, depois de feito o elogio do doutorando pelos dois professores mais modernos da faculdade, o Prelado confere lhe o grau por imposição das mãos. Em seguida o decano da faculdade respectiva adorna o novo doutor com as insignias doutoraes, a borla e o anel, e acompanha-o a receber o abraço de paz e fraternidade de todos os lentes, que occupam os doutoraes, revestidos. sempre das suas insignias. O cerimonial dos actos grandes e dos graus é dirigido pelo Secretário da. Universidade, na qualidade de, mestre de cerimonias. Como na cerimonia do capêllo appa- rece, além do Reitor e dos lentes, quasi todo o pessoal universitario, a quem compete revestir trajos de gala, caracteristicos e tradicionacs — a so- lemnidade offerece um curioso quadro. Além do Secretário, com o bastão de prata de mestre de cerimonias, vêr- se-ha o Guarda-mór, de vara. Virão os. bedeis sobraçando as macas, os conti- nuos, os archeiros da guarda — armados. das alabardas bru- nidas, cenvergando | as fardas azul-es- curo, agaloadas a branco. E o visitante no- vo para Coimbra, chegado por acaso, poderá ter durante alguns minutos a impressão duma pequena resurrei- cão historica, se bem que já muito prejudicada em cer- tos detalhes. Com a reforma de 1901 — vão ficar reduzidas a duas classes, em todas as faculdades, as antigas classes: de ordinarios, obriga- UM ARCHEIRO

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544 A UNIVERSIDADE DE COIMBRA Os destinados aos serviços do go- verno e administração directa do Rei- tor; Os estabelecimentos dependentes do governo scientifico das faculdades, e dirigidos respectivamente por lentes das ditas faculdades; Os estabelecimentos de serviço ge- ral da Universidade. Comprehende o 1.º grupo: 1.º À REITORIA, com a séde dos con- selhos academicos ; 2.º À SECRETARIA e suas dependencias; 3.º A Real Capella; O 2.º grupo compõe-se dos estabe- lecimentos pertencentes aos serviços das diversas faculdades. Pertencem á FACULDADE DE MEDICINA: O gabinete de anatomia normal; O GUARDA-MÓR dos, e voluntarios, que havia em ma- thematica e philosophia. Assim, serão alumnos ordinarios os que seguirem o curso geral da sua faculdade, frequen- tando as cadeiras nos annos e pela or- dem do respectivo quadro. Serão vo- Juntarios os que seguirem qualquer dos cursos especiaes annexos ás faculda- des, e os que frequentarem as cadeiras por uma ordem diversa da do quadro, guardando comtudo as dependencias necessarias. A Universidade confere diplomas dos seus diversos cursos. Entre estes diplo- mas, avultam, pelo aspecto artistico do “actual modelo, as cartas de bacharel e formatura nas diversas faculdades. * * * A Universidade tem três grupos de estabelecimentos : BEDEI. DE DIREITO

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A UNIVERSIDADE DE COIMBRA 545 O gabinete de histologia e physiologia ex- perimental; O gabinete de medicina operatória; O gabinete deanatomiapa- thológica; Ogabinete de microbiologia; O gabinete de chimica medica; O gabinete de analyses clinicas; O gabinete de hygiene. Os HOSPITAES DA UNIVERSIDADE têem actualmente administração separada, e immediatamente dependente do Gover- no; mas a faculdade de medicina tem ali á sua disposição as enfermarias de clinica de que carece. Pertence á FACULDADE DE MATHEMA- TICA: O observatorio astronomico. SELLO DA UNIVERSIDADE Á FACULDADE DE PHILOSOPHIA perten- cem: O laboratorio chimico; O gabinete e laboratorio de physica; O jardim botanico; O museu de historia natural, com- prehendendo os gabinetes de qoologia, mineralogia e anthropologia. Está dependente desta faculdade o observatorio meteorologico e magne- tico, que tem direcção e serviço sepa- rado. As faculdades de theologia e direito não têem estabelecimentos especiaes. Comprehendem o 3.º grupo: a Bi- BLIOTHECA, cujo bibliothecário é um lente nomeado pelo governo ; o ARCHI- vo, dirigido por um lente, da nomea- cão do Reitor; e a IMPRENSA, que tem uma administração independente, mas que se corresponde com o ministerio do Reino por intermédio da Reitoria da Universidade. ManveL DA SiLva GaYo. AZENHA DE VERÃO NO LEITO DO MONDEGO Ao fundo a torre do observatorio da Universidade (Cliché do sr. Mesquita de Figueiredo) SERÕES N.º O FoL. 6

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O hospede da noite de Natal RAMINDO € roncando, por cima da charneca cheia de nev: gritava o rei Vendaval: - Uhuhu! Uhuhu! Fujam de mim! Os pinheiros que formavam um bosquesinho ao pé da ca- bana de Edith, curvavam-se humildemente, à sua pa: biar com estridor nas verdes e escura rias. — Uhuhu! Quem és tu! daval, ao dar com os olhos n'um T' que estava abrigado na cavidade do tronco de uma carvalheira,— Que fazes ahi! Vae-te ou mando ao Vento Norte que te leve e te se- pulte deb; O Trasgo, da figura de um homem muito pequenino, estava vestido de verde e tinha calçados uns sapatinhos de oiro. — Pé... peço perdão a Vossa Magestade, sr. rei Vendaval, — balbuciou elle muito sustado. — Eu já me tinha ido embora se sou- besse o caminho para o reino das Fadas. — Vae-te d'ahi! Vae-te d'ahi! — berrou o Vendaval, soprando e resfolegando com mais furia. — Aqui estou eu! Vou já leval-o! — gritou o cruel Vento Norte, baralustando em volta da arvore, mugindo e uivando com pervers alegria. — Tem dó de mim! Se estou aqui, por minha culpa! — disse o Trasgo muito gem e tremiam, ouvindo-o asso- rama- - rosnou o rei Ven- sgosinho, o da neve. alllicto e de mãos postas.— Fóra d'este abrigo, o que me espera?... A ventania e a neve aca- bam-me com certeza! — Que me importa! Não tens ahi que fa- - tornou-lhe o rei neando quiz ver se arrancava: "valheira, mas a arvore tinha já resistido muitos e muitos annos e não se dei- xou vencer. — Pio! Pio! tarroxo do Pio! Pio!- meio da fol esse desgraçado até piou um Pin- gem. — Protege .º Carva- descobri meio de lhe valer, ito voou direito ao pinhal que ha- via ao pé de ur ita de turfa e de anito. Em companhia do pae, um pobre trabalhador, alli morava Edith, meiga e bo- nita rapariguinha, que tinha passado toda a vida no meio d'aquelles valles e outeiros. A deitava um fumosinho- Ide que Edith estava em ) eu voltar, si » que j E o pas ana, fe chaminé da cabana azul, o que ei casa, As aves e outros habitantes da charn e dos bosques, companheiros dos brinquedos da pequena, tanta amizade sentiam por ella, que lhe tinham en: 1a linguagem. Abriu-se o postigo mal o Pintarroxo bateu com o bico na janella. — Vem depressa! — chilreou o passaro. — Um dos nossos companheiros de charneca E contou-lhe a afllicção do- À sign nado a s está em perigo. Trasgosinho. idith embrulhou-se n'um chale, pegou n'um cestinho em que levava os ovos para o mer— cado e sahiu a correr pela porta fóra.

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O rei Vendaval bem a quiz deter, fustigan- do-lhe as faces rosades, enfunando-lhe o cha- le, desgrenhando-lhe o cabello. Edith arros- tou-o sem medo e chegou afinal ao pé do carcomido tronco, onde o pobre coitado estava encolhido com medo, debaixo de umas folhas seccas. — Dá-nos muita honra vindo para a nossa choupana — disse-lhe Edith com timidez, por- que n'aquelles logares havia muito respeito pelos Trasgos. — Dentro d'este cestinho pode ir sem perigo. Elle acceitou muito reconhecido e d'ahi a minutos estava sentado n'um grande banco de carvalho, aquecendo-se ao vivo lume que ardia na lareira da cabana. — Quebom!...— exclamou o Tr sgo, muito satisfeito. — Se não fosses tu... tremo só de o pensar... estava à estas horas nas garras do Vendaval, Fica certa de que hei de recompensar-te pela tua bondade e coragem! Edith trouxe-lhe pão e leite que elle foi saboreando, ao mesmo tempo que seguia com os olhos a pequenita nas voltas que dava pela cozinha. Por fim perguntou-lhe : — Em que mez estamos ? Desde que ando sumido, perdi a conta do tempo. — Em dezembro, na noite de Natal. — Deveras!... Ai! Quantas coisas eu tinha para fazer, se agora estivesse no paiz das Fa- das. E obrigação dos Trasgos n'esta noite dar aos bébés sonhos encantadores. Das crean- cas mais crescidas não tratamos nós. — Ah! Sim? — Pois nunca vieram trazer-te brinquedos no Natal? Talvez porque não tens meias, onde os deitassem — acerescentou elle olhando-lhe para os pés descalços. A pequena disse que nunca tinha tido ne- nhum brinquedo, a não ser um barquinho que SERÕES DOS BÉBES 547 o pae lhe fizera e que ella deitava a boiar no ribeiro. O Trasgo perguntou-lhe se queria que lhe contasse a historia de quem lhe poderia tra- zer presentes pelo Natal, porém Edith pediu- lhe que antes contasse a d'elle. —A minha conta-se depressa — tornou-lhe o Trasgo. Quando principia o bom tempo eu e os meus companheiros sahimos do reino das Fadas e vimos aos milhares para os bosques e charnecas. De dia estamos escondidos na folhagem ou no musgo, e colhemos o mel das flores doiradas do tojo e das flores pur- purinas de urze, ou andamos a brincar entre as hastes esguias do silvado... E quando as folhas cahem voltamos para o reino das Fadas. — Então porque se deixou ficar? — Bu?... A rainha tinha-me dado or- dem para não me ir embora antes de murcharem as ultimas campainhas das dedaleiras. N'uma noite de temporal, perdi-me na charneca e deitei-me a-dor- mir dentro de uma flor de tojo. Quando acordei vi, afllictissimo, que tinham nas- A MINHA HISTORIA CONTA-SE DEPRESSA — DISSE O TRASGO cido as espigas. formando uma gaiola onde fiquei detido. Só depois de ficar secca a flor é que pude sahir da prisão. Ai! Não vium só dos meus companheiros. Já tinham todos aba- lado da charneca. Desde então debalde tentei descobrir o caminho por onde hei de vol- tar para o reino das Fadas. Se m'o indicas- ses, ficar-te-hia ainda mais grato, — Por mim não posso — respondeu Edith — mas tenho muitos amigos na floresta e áma- nhã sem falta vamos consultal-os. — Deixa-me ajudar-te a cozinhar. Que tens ahi dentro ? — perguntou o Trasgo, apontando para uma panella que estava ao lume. — Batalas. — Pff!... Fraca ceia para a noite de Natal. É que tens coisa melhor no forno.

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548 SERÕES DOS BÉBES — No forno só tenho p: — Que grande peia! — disse o Trasgo, rindo e batendo as palmas. — Vae lá ver. Edith abriu a porta do forno e ficou muito pasmada vendo a assar um bello peru. Dei- tava um cheirinho que consolava ! — E vê tambem o que estará dentro da pa- nella. A pequena assim fez e achou um grande pudim, que cheirava melhor ainda que o peru. — E procura no armario — continuou o Tr: go, rindo muito satisfeito. Edith, ainda mais admirada e contente, en- controu nas prateleiras muitas maçãs e ou- tras fructas, e uma linda boneca de cera, além de varios outros brinquedos. O pae, que chegou mais tarde n'aquelle dia, por ter ido a casa de um freguez que morava longe, tambem ficou pasmado e satisfeitis- simo com a fortuna que lhe tinha entrado pela porta dentro. Depois de dar mil agradecimen- tos ao hospede, sentaram-se os tres à meza e ceiaram com a alegria propria da noite de Natal. E emquanto o camponez e o Trasgo iam conversando as estopinhas, Edith, muito abra- çada, à boneca e de bocca aberta e olhos fe- chados, sonhava que já tinha mil bonecas e que andavam todas bailando pelo ar, como bailam as moscas nos dias quentes do ve- rão. Afinal o pae acordou-a e ambos foram dei- tar-se nas suas pobres camas, e o Trasgo ani- nhou-se no macio feno que forrava o fundo do cesto. D'alli a pouco todos tres dormiam a somno solto, sem ouvir o rei Vendaval que lá fóra continuava a roncar: — Uhuhu! Uhuhu! H No dia seguinte o céo estava limpido e azul, o sol brilhava, e um matiz purpurino esbatia- se no horisonte, por entre as encostas verde- jantes dos outeiros. Já não havia neve, exce- pto em um ou outro cume, e no bosque as ar- vores sussurravam inclinando-se umas para as outras, como se estivessem a conversar a respeito da futura primavera. Mal acabou os arranjos da casa, Edith foi para o bosque em companhia do hospede da noite de Natal, a fim de consultar os seus amigos de pêlo e de pennas. — Pio! Pio! Treil Ti! Ti! — pipilaram os passaritos, correndo para ella, — Ahi vem a nossa querida Flor da Urze! — E esvoaçan- do-lhe em volta, pousaram-se-lhe na cabeça e nos hombros e foram depenicar os grãos de trigo que Edith lhes oferecia na palma da mão. — Pip! Pip! Cuí! Cuí! — chiaram os rati- nhos do campo, escarreirando atraz d'ella, tre- pando-lhe pelos pés descalços, e tasquinhando uns bocadinhos de pão que a sua amiga lhes atirava. — Honk ! Hank ! — gritaram as lebres e os coelhos, e, furando por entre a urze queimada do frio, vieram apresentar-se à dona, alguns postos em pé na ancia de a verem melhor. Quando se acabou a provisão de folhas de couve, cenouras, trigo e de outros petis- cos, sentou-se Edith n'um tronco de pinheiro derribado pelo Vendaval, e, tendo offerecido ao Trasgosinho um logar a seu lado, disse aos habitantes da floresta que se formassem na frente d'elles em semi-circulo, os passaros adeante, por serem mais pequenitos, e mais atraz os coelhos e as lebres. Cumprida a ordem promptamente, Edith fez saber aos ouvintes o motivo d'aquella visita e pediu- lhes com toda a instancia que valessem ao seu hospede. Mas nenhum, infelizmente, sabia o caminho para o reino das Fadas. — Porque não vaes consultar os Gnomos ? — perguntou, deitando a cabeça por entre duas lebres, uma Toupeira, que tinha chegado sem ser presentida.— Elles estão ao facto de todas as passagens secretas que ha por baixo do chão. Talvez alguma d'ellas vá dar ao reino das Fadas. Os Gnomos são doidos pela mu- sica. Basta, certamente, ouvirem-te a cantiga que te ensinou o rouxinol, para attenderem a quantos pedidos lhes fizeres. — Irei consultal-os, se me acompanhares até lá — respondeu a pequena à Toupeira, — Um dos meus tunneis — disse esta — vae ter á caverna dos Gnomos. Anda comigo! — Sabes o que receio? E' que o meu tama- nho não me deixe entrar pela porta — lembrou Edith, quando viu a Toupeira encaminhar-se para um monticulo de terra, que havia alli perto. — Esfrega os pés e as mãos com este un- guento magico — disse-lhe o Trasgo, dando- lhe uma bocetinha feita de uma casca de avelli— e verás como ficas logo do meu ta- manho. Arapariguita seguiu o conselho, e fez-se tão

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SERÕES DOS BEBES pequenina que já podia entrar. Foi então se- guindo a Toupeira ao longo de um extenso agulheiro, forrado de pyrilampos e de madeira phosphorescente, e chegou finalmente a uma escada, por onde se subia para a caverna dos Gnomos. Mal chegou lá soltou um grito de admiração, porque o tecto e as paredes eram de oiro e prata e deslumbravam a vista com a scintillação de infinitos brilhantes e crystaes. — N'esta sala dão os Gnomos os seus banquetes — explicou a Toupeira, quando entraram na immensa caver- na, illuminada pelas radiações de mi- lhares e milhares de pedras preciosas. Aumacom- prida meza, onde estava posto um re- pasto magni- fico, viam-se sentados os Gnomos, que eram uns corcunditas de barba até aos joelhos, vestidos de es iTS) ds 549 muita popularidade entre os Gnomos, e por isso foi escutada com a or attenção. — Podemos, com effeito, ensinar-te o cami- nho do reino das Fadas — disse-lke o rei dos Gnomos, sujeito de bom humor, adornado com um manto côr de fogo e uma corda de rubis — mas sinto muito dizer-te que não está ao EDINH ENCONTROU NAS PRATELEIRAS MUITAS FRUCTAS, UMA LINDA BONECA E OUTROS BRINQUEDOS tunica e calções encarnados. Em frente de cada um havia copos e calices de oiro en- erustados de pedrarias, pratos de oiro e prata e variados manjares. Manifestavam todos rui- dosa alegria e olharam com espanto para Edith, que a Toupeira lhe apresentou como pessoa da sua amizade e cuja pretenção ex- plicou em poucas palavras. A Toupeira tinha nosso alcance o ajudar-te a ir até lá. A porta verde por onde se entra no reino magico, é situada num outeiro relvoso erguido no meio de um pantano. As fadas escolheram aquelle logar na parte mais solitaria da charneca, a fim de não serem incommodadas pelos mor- taes. Todos os que se teem aventurado a ap- proximar-se de lá, morreram engulidos pelas

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550 SERÕES DOS BEBES aguas traiçoeiras do paul antes de chegarem ao outeiro. — Obrigada — replicou Edith. — Mas não podem ensinar-me algum modo de ir ter á ilhota? — Só te poderá ajudar a Feiticeira das Aveleiras. E" bondosa e tem muito saber. Vou dar-te uma prenda para lhe offereceres. E o rei dos Gnomos entregou a Edith um magnifico brilhante, que scintillava como as mais reluzentes estrellas. — Em paga de tanta amabilidade — disse a Toupeira — a minha amiguinha vae cantar. E logo Edith cantou com um grande mimo a canção do Rouxinol. Ficaram tão enthusiasmados os Gnomos, que lhe pediram muito que não se fosse em- bora. Prometteram-lhe os mais lindos brin- quedos de oiro e prata, e que jogariam com ella, todos os dias, às escondidas e o jogo dos quatro cantinhos. Lembraram-lhe que no seu reino situado no interior da terra, ficaria livre do rei Vendaval, do frio, da neve e da geada. Porém Edith recordou-se da encantadora luz do sol, que se gosava lá em cima, do ar livre, do lindo céo azul, das brancas nuvens, dos verdes outeiros e campinas e disse que não poderia viver em cavernas, embora des- lumbrantes como aquella. Os Gnomos, muito desgostosos, disseram- lhe adeus, e Edith, sempre acompanhada pela Toupeira e pelo Trasgo, voltou para o bosque onde os seus amigos ainda a esperavam. — Sempre deu algum resultado a visita — disse a Lebre. — Sei onde é o esconderijo da tal feiticeira, e estou prompta a ensinar-te o caminho. A Lebre, acompanhada por Edith e pelo Trasgo, foi ter junto de uma formosa aveleira, que havia no meio da floresta. Bateu-lhe na casca tres vezes, e logo sahiu da arvore uma creatura muito ligeira, quasi vaporosa, que era a feiticeira em que os Gnomos lhe tinham fa- lado. Os cabellos loiros fluctuavam-lhe em redor como um feixe de raios de sol, os olhos tinham o azul da saphira, e o vestido que lhe cingia as formas gracis, era de um tecido feito com filandras de prata. Acolheu Edith com muito agrado, e, tendo ouvido o que ella pe- dia e agradecido a offerta do brilhante, disse- lhe: — Aqui tens um trevo de quatro folhas. Guarda-o no seio com muita cautela, e elle te encaminhará de modo que atravesses o pan- tano e chegues á ilhota sem dificuldade. Ac- ceita egualmente esta varinha de condão, para te livrares de qualquer perigo que te ameace. Se as bruxas do Cume do Outeiro te virem, hão de fazer todo o possivel para te roubarem o trevo de quatro folhas. Acautela-te. Edith e o Trasgo deram muitos agradeci- mentos à linda e bondosa feiticeira, e conti- nuaram na sua peregrinação. HI Depois de caminharem durante algum tem- po, os dois foram ter finalmente a uma parte mais bravia e solitaria da charneca, cercada de carrancudos montes e de asperos des- penhadeiros, onde não se viam ovelhas nem vaccas pastando pelas encostas silenciosas, Na sua frente estendia-se, coberto de juncos e de canniços, um escuro e sombrio pantano, em cujo centro se levantava o Morro das Fa- das. Caminharam alrevidamente em direcção ao perfido atoleiro, e já tinham avançado por elle dentro boa extensão, quando sentiram um es- tridor medonho. Edith olhou aterrada em volta de si e avistou as bruxas do Cume do Outei- ro, que vinham acommettel-os, montadas em cabos de vassouras. Soltando berros e guin- chos de feroz alegria, cada vez se approxima- vam mais, de sorte que a pobre pequena poude observal-as melhor. Eram calvas e bar- budas, magras como esqueletos, corcovadas em arco, e tinham garras como os abutres e farripas soltas chicoteando o ar. Uma das bruxas trazia-uma cobra enroscada no ossudo pescoço; outra apertava com ambos os bra- ços:um enorme sapo verde-negro, e no hom- bro de uma terceira vinha empoleirado um gatarrão preto, que miava e bufava de um modo assustador. — Depressa! A varinha de aveleira ! — gri- tou o Trasgo. Edith agitou logo a varinha para o lado do esquadrão das bruxas. Desappareceram todas n'um abrir e fechar de olhos, soltando rugidos de desespero, e passados poucos minutos os dois peregrinos chegavam ao Morro das Fadas. Mãos invisiveis abriram-lhes uma porta muito larga e muito alta, e avistou-se um comprido corredor verde, tambem illuminado por myriades de vagalumes. Ao cabo d'esta passagem brilhava uma claridade, que se foi tornando mais forte à medida que Edith e o

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SERÕES DOS BEBES 551 EDITH, NUM CARRINHO DE MARFIM PUXADO POR BORBOLETAS, FOI LEVADA POR ARES E VENTOS ATÉ AO FINAL Trasgo se lhe approximaram. A” sahida viram o céo e o sol, conhecendo a pequenita, cheia de espanto, que tinham chegado em fim ao Reino das Fadas. Para todos os lados avista- vam-se moitas de um verde de esmeralda, valles atapetados de lindas flores e de fetos; pelo ar adejavam os mais deliciosos aromas, e soltavam cantos harmoniosos in- numeras avesinhas, que espannejavam ao sol as lindas plumagens. Na base de um outeiro verdejante e á beira de um crystalino lago erguiam-se rutilantes os zimborios de oiro e as torres magestosas do palacio das Fadas, cujos tectos de diaman- tes, batidos pelos raios solares, reverberavam as côres do arco-iris, Milhares de duendes e trasgos, envoltos em roupagens feitas com as petalas odoriferas das flores, esvoaçavam como um bando de es- plendidas borboletas, ou retoiçavam e dança- vam alegremente na avelludada alfombra rel- vosa, Afinal Edith avistou no ar, deslisando para ella, um gracioso carrinho de oiro e madre- perola, puxado por duas pombas alvas de neve. Dentro, reclinada em macias almofa- das de seda e debaixo de um docel de rosas, vinha uma creaturinha encantadora, vestida com um traje de finissimo brocado de oiro. Tinha na cabeça um diadema de narcizos e na mão um sceptrosinho de oiro e pedrarias, N'uma voz melodiosissima deu as boas vindas a Edith e ao Trasgo e ouviu com o maior interesse a na ão da aventurosa via- gem. Levou-os depois à sala dos festins, onde já estava servida uma delicada refeição sobre mezas feitas de cogumelos. Convidou a am- bos para se sentarem a seu lado n'um banco estofado de teias de aranha, com o acolchoado de folhas de rosa, e emquanto os duendes, que faziam de pagens, serviam deliciosos fru- ctos e doces, e orvalho com mel, os menes- treis das fadas iam executando melodias suavissimas, N'esta occasião Edith lembrou-se de que o pae estaria esperando por ella na choupana- sinha do pinhal. Levantou-se e disse que li- nha de voltar para casa. Então a rainha das Fadas, em agradecimento ao que a pequena tinha feito ao Trasgosinho seu subdito, dis- se-lhe que escolhesse, de entre tudo o que via, o que mais lhe agradasse, pois que logo lhe ficaria pertencendo, quer fosse de oiro, de prata ou de pedras preciosas. — Joias, não posso usal-as — respondeu Edith. — Cá para mim não ha nada mais lindo

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552 SERÕES DOS BEBÉS que a luz do sol, e julgar-me-hia feliz se ella nunca deixasse de allumiar a nossa cabana. — Será salisfeito o teu descjo — disse a rainha das Fadas e deu ordem a uma das suas damas para que lhe trouxesse uma roda de fiar. E apenas a rainha recebeu da sua dama a roda, offereceu-a a Edith, dizendo-lhe; «Esta roda ha de fiar unicamente raios de sol. Pos- sam elles dar-te a felicidade !» A pequenita despediu-se do Trasgosinho, subiu para um carro de marfim puxado por borboletas, e foi levada por ares e ventos até ao pinhal, que ficava ao pé da choupana do pae d'ella. Apenas saltou para o chão, reto- mou o antigo tamanho e foi ter com o pae, a quem logo contou as suas maravilhosas aven- turvas, Pareciam, na verdade, tão extraordina- rias, que o camponez julgou que a filha linha estado sonhando, emquanto não viu a roda de liar, Era a prova de que tudo era ver- dade. Desde então correu tudo ás mil maravilhas para o camponez e para a filha, No jardim havia sempre abundancia de flores; as arvo- res do pomar nunca deixavam de estar car- regadas de fructos, nem a horta de dar legu- mes e hortaliças em barda. Além d'isso as gallinhas punham ovos todos os dias e as vaccas davam leite à farta. Os annos foram correndo assim, e Edith tornou-se uma linda rapariga, com olhos de um azul mais bonito que o do myosote, e cabellos doirados como a flor do tôjo, quando chega o outomno. Um dia passou na charneca um garboso e esbelto cavalleiro, e viu alongar-se pela en- costa a esleira que marcavam os raios de sol e guiado por ella foi até junto da choupana. Viu sentada no seu jardim, ao pé da roda magica, a encantadora Edith, rodeada de pas- sarinhos, de coelhos, de lebres, de toupeiras e de todos os seus amigos da floresta, que tinham ido aquecer-se aos raios doirados do sol, que ella fiava docemente. E um d'esses raios penetrou no coração do cavalleiro e abrazou-o de amor pela formosa rapariga. O cavalleiro pediu então a Edith que fosse sua mulher, e que fiasse raios de sol e alegria para elle e para o seu povo, Ella, que tambem se tinha apaixonado logo pelo cavalleiro, casou com elle, auctorisada pelo pae, que foi viver com o genro n'um grande castello situado no alto de uma mon- tanha. Ao casamento assistiram todos os trasgos da charneca, e a antiphona foi can- tada pelos passarinhos dos bosques — Pio! Pio! — chilreou o Pintarroxo, que tinha envergado para a cerimonia o seu me- lhor collete encarnado, e que muito cheio de si, dizia com os seus botões: «Nunca isto succederia, se não fosse eu e o hospede da noite de Natal», Eva Rocers,

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its 27% EnRA CABEÇAS: q N3 » DRE DA Para scismar NA PIUGADA DOS FUGITIVOS Imaginem-se os nossos leitores transforma- dos por um momento n'um agente policial, procurando descobrir, apenas pelo exame dos vestígios representados no diagramma junto, e que foram produzidos pe- la fuga de um homem le- vando uma creança, o que aconteceu exactamente aos dois fugi- tivos. Afim de des- orientar os perseguidores, o homem mu- dou o meio de locomoção em cada um dos logares mar- cados com nu- meros no dia- gramma. O problema consiste em descobrir o modo de lo- comoção en- tre cada uma d'estas esta- ções e a se- guinte; quaes os vehículos de que o ho- mem se ser- viu; que lhe aconteceu no decurso da fugas e que fez elle á creança nas diferentes phases- da jornada. ProEZA DE RAPOSA Uma raposa bispou n'uma capoeira dez ne- dias patas Foi lá a primeira noite, e trouxe comsigo para a toca cinco patas. Voltou na segunda, e trouxe de novo outras cinco. Mas no dia se- guinte ainda estavam vito patas na capoeira, sem que ninguem as tivesse accrescentado. Como foi isto? Querem saber? Vá lá! Explico-lhes, só com receio de os fazer virar a bola com esta ari- thmetica. É que entre as cinco patas que a raposa trouxe na primeira noite contavam-se as quatro que organicamente lhe pertenciam. E na segunda, idem. De modo que das patas aladas não furtou a raposa senão duas. Fica- ram pois oito, e essas duvido que o bicho damninho lhes deite a garra. O dono já está prevenido. BANQUETE DE FAMILIA Perguntei a um velhote meu conhecido quem tinha jantado com elle no dia de Natal. Vae elle, respondeu-me : — Ah! foi um jantar de familia! Estava presente o cunhado de meu pae, o sogro de meu irmão, o cunhado de meu sogro, e o so- gro de meu cunhado. Sabidas as contas, contou-me d'alli a pouco que o homem tinha jantado sósinho, e no em- tanto não faltára à verdade nas afirmações que me fizera. Como pode isto ser?

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554 QUEBRA CABEÇAS LAByYRINTHOS Ha immensos exercicios do genero dos que apresentamos agora aos leitores. O diverti- mento consiste, como é sabido, em procurar «desde a entrada, que está na parte inferior da fig. 1, 0 caminho até ao sitio marcado com um FIG. 1 ponto de interrogação, no meio de umas lune- tas. Este labyrintho é devido á imaginação de «qualquer artista contemporaneo. O outro labyrintho que apresentamos (fig 2) FIG. 2 «existe realmente na cathedral de Lucca. Du- rante a Edade Media o seguir todas as circum- voluções de um labyrintho era exercicio reli- gioso que se considerava quasi tão efficaz como ainda hoje a peregrinação á Terra Santa. Por conseguinte, trilhando sobre o papel, os leitores dos Serões poderão porventura alcan- gar direito a algumas indulgencias. CircuLo ExQuIsITO Tens cento e um. Divide-os por cincoenta. Em seguida uma cifra lhe accrescenta. E se a fabula acaso te commove, Folgarás, por ter uma d'entre nove. COMO SE APRENDE A ESCREVER BEM OS ALGARISMOS Peça o leitor a um amigo que lhe escreva n'um pedaço de papel os algarismos desde 1 até 9, omittindo o algarismo &. Por esta for- ma: 123456709 Agora pergunte-lhe qual d'esses algarismos é que elle julga estar mais mal escripto. Qual- quer que elle mencione, multiplique-o por nove e peça-lhe a elle que multiplique o seu numero 12345679 pelo producto achado: 18, 29, 36, etc., conforme o algarismo por elle indicado. Assim supponhamos que é o 7 o algarismo que elle acha mais aleijado. O leitor obri- gal-o ha a fazer a multiplicação do tal nu- mero por 63: 37037037 74074074 777777777 — Prompto! dirá o leitor, apenas elle tenha feito a operação. — Pron pto, o quê? perguntou elle. Onde demonio está a graça d'isto? — Graça não terá nenhuma, mas é para pra- ticares a escrever o algarismo que te sae mais torto. Porque a parte curiosa d'este exerciciosinho é que, qualquer que seja o algarismo escolhi- do, o resultado ha de ser composto apenas d'esse algarismo, repetido nove vezes no pro- ducto, afóra as vezes que se escreve nas par- cellas. Jo 0 de damas — Por ausencia do sr. g José Sevder, somos forçados a omittir no presente numero esta secção do QuEBRA-CABEÇAS.

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Grandes topicos A POLITICA NO MUNDO ontiNúa à Allemanha a barafus- é tar na ancia de concentrar em suas mãos a influencia hegemo- nica da politica mundial. Ainda recentemente, e logo no discurso da corôa, para que mais retumbancia lo- grasse, Guilherme II denunciava o despeito por sen- tir que lhe escapam os pontos de apoio. E, como de costume, desafogava em ameaças mal disfarçadas e em vangloriosos protestos de força. Está-se sempre com receio de que um extemporaneo impulso des- trua o equilibrio da paz, tão laboriosamente prepa- rado sob os auspícios de Eduardo VII, de Roose- velt e de Loubet. A aguia germanica anceia por voar, e toda a Europa po- deria de um momento para o outro entenebre- cer-se, á sombra proje- ctada pelas suas gigan- tescas azas. Se ao oceidente o gallo lhes tolhe a envergadura, o enfraquecimento da aguia russa parece!dar á soffrega ave esperanças de se extender para o oriente. Nas aguas turvas do imperiomoscovita, po- der-se-ha porventura pes- car sem graves perigos. Não é com effeito extra- nho o intento de intervir nas discordias intestinas da Russia, sobre tudo na Polonia, cujas velleidades de independencia amea- çam a integridade facti- cia do reino prussiano, intento atribuido geral- mente ao Kaiser. Com effeito, a Russia continúa a debater-se nas UM QUENO ESTRAGADO COSINHEIRO EM CHEFE NICOLAU — Dos ratos ainda nos nos livramos ; o peior é esta horrivel bicharia. Caricatura do «Kladderadatsch» vascas de uma revolução sem precedentes. O conde Witte, combatido entre as aspirações democraticas e os estimulos ferozes de reacção, vê o seu prestigio abalado e a sua força impotente contra o desenca- deiar de paixões, contidas ha seculos. O oriente da Europa tende a sofirer uma remode- lação profunda. O enfermo russo poderá salvar-se com pastilhas de liberalismo, mas tem talvez de ser mutilado. Quanto ao enfermo turco, a questão de Macedonia, com a consequente intervenção das po- tencias, está-lhe apressando o anniquilamento. Do Neva ao Bosphoro renas- cerá a saude, sob o in- fluxo da democracia triumphante. Com o advento do ga- binete liberal, a Ingla- terra não mudará porcerto a politica extrangeira, que nturalmente prepon-. dera no mundo. A entente cordiale com a França, base do novo equilibrio enropeu no seculo xx, em vez de afrouxar, trans- formar-se-ha porventura n'uma alliança, em que de futuro entrem as na- ções latinas. E a intimi- dade de relações entre este concilio internacio- nal e os Estados Unidos por um lado, e o Japão por outro, assegurará & paz no Occidente e no Oriente, e estabelecerá bazes seguras para o bem estar da humanidade. Em vesperas de anno novo, são de molde os horoscopos. Eis .aquelle que, sobre a politica uni- versal, o estado do am-

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556 ACTUALIDADES A ALLIANÇA ANGLO-JAPONEZA Duas creaturas n'uma bancada só. Dois corações que batem em unisono... aos olhos da Europa Caricatura do «Ulks biente suggere aos Serões nas vesperas do anno de 1906. Concluiremos com a phrase consagrada dos alma- nachs: Deus super omnia. E quer-nos parecer que o instrumento directamente escolhido por Deus para os seus fins beneficos é n'este momento a raça an- glo-saxonica. E" ella que, nas duas margens do Atlantico, alongando os braços para o Oriente, tem porventura na sua mão a paz do mundo. AS POTENCIAS E MARROCOS Não é provavel que as ameixas cheguem para todos quando se disputar o bolo de Marrocos. Caricatura do «Der Wehre Jacobs É s pessoas que teem a fortuna de viver em paizes governados constitucionalmente, custa a comprehender o motivo por que um autocrata, como por exemplo o czar, mostra tanta repugnancia em tornar-se um monarcha mais ou menos constitucio- nal, como a maioria dos seus collegas europeus, Para o observador isento de preconceitos, o papel de um chefe de Estado à moderna deve parecer um ideal a qualquer homem, quanto mais para um caracter como o que vulgarmente se attribue a Nicolau II. «Ã LA RUSSED O DOENTE DO BOSPHORO E OS SEUS ENFERMEIROS (A Austria e a Russia) Caricatura do «Lustige Blátter»

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ACTUALIDADES SULTÃO DE Marrocos — Muito agradecido, mas não me falta logar entre as duas cadeiras, para ficar sen- tado no chão. A cadeira oferecida pela França tem o tectorado, A do Kaiser diz: Alianca defensiva. o: Pro- Caricatura de «Kikerikin Toda a responsabilidade e tremenda anciedade, que tanto deve pesar sobre dois hombros apenas, será transferida como por encanto para os hombros dos ministros, que se podem mandar passeiar no momento em que deixem de satisfazer ao serviço. Tal era o espirito philosophico com que o pae do actual rei dos belgas consi- derava o seu officio. «Eu todos os dias pergunto aos meus ministros, costumava elle dizer, se acaso teem muioria. Se a resposta é afirmativa, pego no chapeu e na bengala e vou dar o meu passeio com todo o socego de espirito. Se pelo contrario elles respondem que não, eu replico com toda a serenidade: «Muito bem. N'esse caso, tenham a bondade de pegar nos seus chapeus e nas suas bengalas, vão passeiar socegadinhos, e escusam de ter o incommodo de cá voltar». Mas talvez que um «autocrata de todas as Russias» não tenha poder sufliciente para fazer o que lhe apraz, mesmo n'um assumpto tão simples como este. Charles Greville refere-se no seu Jornal a um jantar a que as- sistiam o duque de Wellington e lord Balthurst em 1829. Já n'esse tempo se 557 suppunha estar imminente uma revolução no imperio dos czares. O duque foi de parecer que não tardaria uma revolução a rebentar na Russia e que a guerra, então travada pela Russia, tinha por objecto abrir uma valvula de segurança ás más disposições que come- cavam a pronunciar-se, Greville repetiu isto a lord Balthurst, o qual redarguiu que «tambem pensava o mesmo, mas que o imperador actual (Nicolau 1) era homem de grande energia», como se qualquer cara- cter ou auctoridade individual podesse tolher a tor- rente impulsionada por uma revolução universal de sentimento e de opinião. Acerescentava Greville que o falecido imperador (Alexandre 1) estava tão cons- cio d'isto que morreu de magua, aggravada pela re- flexão de que era elle em grande parte a causa desse estado de cousas. Quando visitou Oxford, fi- cou tão fascinado pela veneravel grandeza d'essa universidade que logo tencionou instituir uma, em regressando à Russia, e é egualmente certo ter elle aecrescentado que «queria ter opposição», Desde então tem a Russia fundado muitas univer- sidades — talvez demais, para a sua tranquilidade interna, Ha unia maxima que aflirma ser o manti- mento de um homem peçonha para outro homem. Exos, affirma o general americano Bliss, discu- tindo os importantes ele- mentos nos modernos combates em terra. Depois de dar uma lista das principaes'batalhas feridas desde a guerra dos Sete Annos até á batalha de Mukden, resume da seguinte fórma os resultados: Nas doze batalhas principaes da guerra dos Sete A GUERRA VAE SEN- DO MAIS OU ME- NOS MORTIFERA ? A CANHONEIRA «IN Ultimamente lançada às agua da subscri «Patrias ANTE D. MANUEL) do Tejo, construida com as sobras ipcão vinida do Braçil para a construcção da canhoneira

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558 Annos, as perdas foram, em média, para os ven- cedores 14 “Jy, para os vencidos 19 9/. Durante a época napo- leonica, a média de vinte e duas batalhas dá aos vencedores 12 9% de per- das, aos derrotados 19 0/g. A perda média em qua- tro batalhas principaes da guerra da Úriméa foi para os vencedores 10 9/, para os vencidos 17 9%. A média das quatro ac- ções principaes na guerra franco-austrinca de 1859 dá para os vencedores 8 e para os vencidos 8 !/ % de perdas. Em doze batalhas im- portantes, da guerra, de O HOTEL REINA CHRISTINA, ACTUALIDADES ONDE SE INSTALLARÃO OS DELEGADOS DA CONFERENCIA cia positiva para o decrescimento na percentagem das perdas em bata- lhas. Esta dimi- nuição deve attri- buir-se: à gradual eliminação do duello individual; à tendencia para. concentrar a ener- VISTA GERAL DE ALGECIRAS Successão da America, a percentagem das perdas do exercito unionista subiu a 19,7, e a dos exercitos confederados a 19,6. Seis neções principaes na guerra anstro-prussiana de 1866 dão a percentagem de perdas de 7 para os vencedores e 9 para os vencidos. A percentagem de oito acções principaes do pri- meiro periodo de guerra franco-prussiana de 1870 é para os vencedores 10, e para os vencidos 9, de per- das. No segundo periodo da mesma guerra, à percen- tagem é relativamente 2,5 e 3,5. Em quatorze batalhas da recente guerra russo- japoneza (incluindo o cerco de Porto-Arthur) as per- das médias foram para os russos 9,5 e para os ja- ponezes 4,6, o. Disto conclue o general Bliss que ha uma tenden- gia e evitar a dis- persao; maior fa- cilidade em curar os ferimentos da. menor efficacia dos tiros rapidos, a grande distancia, contra ordem extensa; grande dis- tancia dos exercitos, que diminue as perseguições. dos vencidos pelos vencedores. major Squire, do exer- cito dos Estados Uni- dos, reconheceu poderem usar-se as arvores para receber despachos de tele- graphia sem fios, substituindo os arames geralmente: suspensos n'um poste alto ou n'uma torre. Os circulos entre a arvore e o apparelho são ef- fectuados, simplesmente cravando dois pregos ordi- narios de ferro na mesma arvore —um na parte superior e outro duas ou tres pollegadas acima do chão — e ligando os fios com estes pregos. A TELEGRAPHIA SEM FIOS ATRAVEZ DAS ARVORES

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ACTUALIDADES 559 Vida na arte MR. JOSÉPH BYRON Inventor da photographia à luz artificial FE d ERA or o inglez Joseph Byron que DA PHOTOGRAPHIA em 1863 tirou primeira pho- À LUZ tographia.com relampagos de ARTIFICIAL Juz artificial. Eraum rapaz de dezeseis annos apenas, os recursos scientificos eranr então escassos, mas elle conseguiu uma esplendida prova de uma festa nocturna, na sua terra natal, Nottingham, por occasião de se celebrarem os es ponsaes do então principe de Galles. Enthusiasmado com o exito da tentativa, continuou as experiencias com a luz electrica e de gaz; mas só chegou a resultados eficazes depois da invenção do pó de magnesio, unica substancia que verdadei- ramente se presta à boa photograp! Na opinião: d'elle, esse pó, convenientemente distribuido, pro- duz chapas mais brilhantes do que a luz do dia, por isso que os efieitos de Juz e sombra se podem gra- duar à vontade do artista. Foi depois da sua ida para a America que Byron começou à applicar a sua descoberta a photographias de scenas de theatro. «Os resultados foram tão com- pletos» diz o pbotographo, «que dentro em pouco comecei a receber encommendas de todas as partes dos Estados Unidos. O trabalho cresceu rapidamen- te; os emprezarios começaram a apreciar o novo processo photographico, até que hoje em dia a pho= UMA SCENA DO DRANA «DANTE», photographia segundo os processos de J. Byron A personagem principal é o actor IRvING

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560 ACTUALIDADES tographia pelos relampagos se tornou uma necessidade absoluta para dar ao publico noticia exa- eta das peças theatraes. Actual- mente já não me embaraça uma jornada de trezentas ou quatro- centas leguas de proposito para tirar algumas chapas de impor- tancia, e, dedicando-me ha quasi meio seculo a este g trabalhos, posso gabar-me de nunca ter sofrido desastre.» Nos magazines ilustrados do mundo inteiro se encontram hoje photographias de J. Byron, e por todos os paquetes recebe dos recantos mais afastados do orbe perguntas sobre os meios porque obtem tão admiraveis effeitos. Mas, nos seus conselhos, ha uma parte secreta que elle reserva sempre. É um inventor e um artista, e todas as appli- cações mechanicas de que faz uso, incluindo as lampadas, são devidas quasi exclusivamente ao seu engenho. Á força de assistir a espe- «taculos thentraes, é de grande peso a sua opinião sobre o va- lor das peças e sobre o seu exito. Oita-se o exemplo de um actor celebre, William Collier, que fó- ra contractado como estrellu n'u- ma peça nova. Mr. Byron assis- tia ao ensaio geral, e propheti- sou um fiasco. Em vez de impri- mir todas as photographias en- commendadas, telephonou ao emprezario, dizendo-lhe que, em vista da queda mais que provavel du peça, lhe parecia nero de preferivel esperar pela sentença dos criticos. O emprezario accedeu. E no dia se- guinte a opinião de J. Byron era corroborada por todos 08 jornaes, e à peça não sobreviveu a uma se- mana. appeLLIDO de Miss May de Souza, que actualmente desempenha o papel de protagonista na pantomima Cinderella, representada no Drury Lane de Londres, parece indicar a sua origem portugueza. SERÁ COMPATRIOTA ? Americana é ella chamada em geral pelos jornaes inglezes. Provavel é que esteja apparentada com o celebre regente de orchestra Souza, que nos Estados Unidos tem grande reputação e que de uma familia portugueza descende. Mas ainda quando não tivessemos a honra de ter por compatriota esta gentil artista, o seu encantador MISS MAY DE SOUZA aspecto justifica de sobrazo nosso empenho de em- bellezarmos com o seu retrato uma das paginas dos Serões. Eil-a, a linda Gata Borralheira que actual- mente faz as delicias das creanças londrinas, e de- certo lisongeia com muito ugrado os olhos dos adul- tos k dos irn ria a vitalidade do conto infantil s Grimm, que tantos e tão variados ar- gumentos tem fornecido aos teatros de todo o mundo. Esta Cinderella do Drury Lane afasta-se bastante, nas suas linhas geraes, de todas as outras variações bordadas sobre o mesmo thema. Escusamos de nos embrenhar no compte-rendu da pantomima. Quanto à nossa presumida compatriota, afirma a critica que desempenha o seu papel de uma fórma encantadora e com grande talento, com uns modos infantis que fascinam todo o publico extraordir

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ACTUALIDADES 561 Vida na sciencia e na industria Aero-Club O LEBAUDY IT de França concedeu a grande medalha — o seu maior premio — ao constructor, ao piloto e ao machinista do novo dirigivel Lebaudy II, con- siderado o typo mais aperfei- qoado de navegação aerea. O constructor, Mr. Julliot, é realmente o inventor dos diri- giveis conhecidos pelo nome dos irmãos Lebaudy. O piloto, Geor- ge Juchmés, é um notavel aero- nauta que conta mais de 100 ascensões feitas entre os 17 e os 30 annos, que é hoje a sua edade. O machinista Rey é um velho empregado superior da casa Creusot, e notabilisa-se pelo sangue frio e pela pericia. O balão adapta-se a varios usos, principalmente para recreio e para guerra. Os melhoramentos introduzidos por Mr. Julliot teem por principal objectivo angmentar Pipa O LEBANDY II VISTO DE POPA sERÕES N.º 6 O LEBAUDY 11 — ASPECTO GERAL as qualidades fundamentaes do balão, isto é, a sua demora no ar, a extensão das viagens, e a possibi- lidade de as tentar. Para esse fim augmentou-se o diametro cubico do envolucro, o do balonete, a poten- do ventilador, o peso da carga, etc., e deu-se aerobarco meios de viajar de noite. Ao material do envolucro addicionou-se uma ca- mada interior de borracha, que lhe augmenta a impermeabilidade, preserva o algodão da acção des- truidora das impurezas contidas no gaz, e assim dá mais. duração ao balão. As valvulas primitivas do gaz foram substituidas por valvulas de mola hori- zontal, separadas do corpo do balão por um diaphra- gma de gaze, e fez-se uma disposição para que ellas possam ser concertadas ou substituidas sem despe- jar o balão. Melkoraram-se tambem as condições de descida com modificações no cabo e na collocação da an- cora. Além de apparelhos para a illuminação electrica, accrescentou-se um projector de acetylene, de um mi- lhão de lampadas de força, que habilita o aeronauta a dirigir-se convenientemente comparando a zona illuminada com o mappa, e mostrando-lhe, nas bai- xas altitudes, todos os obstaculos a evitar. O balão foi alargado á pópa, fazendo-se varios arranjos para duplicar, apezar d'isso, as suas quali- dades sob o ponto de vista da velocidade e da esta- bilidade, taes como: addicionamento de uma segunda fralda, chamada «borboleta», ligada á pópa; substi- tuição: do antigo apparelho de governo, horizontal, por dois outros mais pequenos em fórma de V, col- locados à pópa; independencia d'esses dois appare- For. 7

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562 lhos, que podem produzir o descimento ou a ascen- são sem perda de gaz. N'estas condições começaram as experiencias nos fins de 1904. N'uma d'ellas alcançou o balão a velo- cidade de 33 kilometros e 200 metros por hora, con- tra o vento, a maxima obtida até hoje, e a de 70 ki- lometros a favor do vento. Recentemente, as auctoridades militares francezas renovaram experiencias nas proximidades de Toul. O proprio ministro, Mr. Berteaux, fez uma ascensão, em que o balão executou evoluções sobre a cidade e Vida nos ampos — Acabadas as sementei- JANEMO É ras temporãs e adubações, con- tinúa n'este mez o trabalho das charruas na preparação das terras para as sementei- ras serodias a fazer em março. É tambem n'este tempo que se fazem os arrotea- mentos de preparação para as bacelladas. N'este trabalho, em que ha grandes resistencias a vencer, devido á profundidade da lavoura, 30 a 60 centimentros, emprega-se grande quantidade de gado, 4,6 e 8 juntas de bois a cada charrua, os quaes pa- chorrentamente harmonhisam entre si o seu valentis- simo esforço, ao sum dolente e fandamente caracte- ristico do cantico dos boeiros, que assim os animam no seu arduo labutar. É esta a epocha mais adequada á póda do arvo- redo por estar como que adormecida a sua vegeta- ção, é proximo o desenvolvimento du seiva vivifica- dora. Este trabalho serve para descarregar a arvore das hastes desnecessárias e atrasadoras de uma per- feita fructificação. Vinhas — Nas vinhas tambem se trata n'este tempo das pódas. A videira tende a desenvolver longos braços, os quaes abandonados, vão-se multiplicando, e tornando dificil e incompleta a sua fructificação, se os não reduzirmos e localisarmos à acção da seiva metho- dioamente em favor do fructo. É este o fim das púdas. Ha varios systemas de podar, que o viticultor de- verá estudar e escolher segundo a qualidade e estado da videira e do terreno. Chama-se póda larga, quando na vara ficam mais de quatro olhos, e póda curta quando apenas se lhe deixa dois ou tres. O systema mais usado é deixar à videira duas varas largas, com um talão, ou vara curta, em cuja extremidade se destroe a rebentação para evitar o desenvolvimento da vara. As duas varas largas são habitualmente amarradas a duas estacas dispostas no alinhamento da plantação. As varas-cortadas são em geral aproveitadas para queimar depois de seccas, e as cinzas espalhadas como adubo pela vinha. ACTUALIDADES os furtes, durante tres quartos de hora, voltando a terra no ponto de partida sem o menor damno. Re- conheceu-se a sua utilidade pratica para a observa- ção dos movimentos e para as indicações telegra- phicas, assim como pera lançar verticalmente pro- jecteis com absoluta precisão. Ficaram pois demcnstradas pelos factos as perfei- tas condições de dirigibilidade e as vantagens mili- tares do lebaudy II. Não tardará o dia em que a sciencia militar será inteiramente revolucionada com a intredueção dos dirigiveis, para fins de defeza e ataque. campos Ultimamente tem-se empregado como bella ali- mentação para todo o gado, especialmente o vãc- cum, depois de esmagadas em apparelhos especiaes movidos a braço, gado ou vapor, segundo a impor- tancia da quantidade. N'este mez tambem se faz a reproducção de vi- deiras por meio de mergulhia, que consiste em virar uma vara da videira enterrando a sua extremidade na terra até uma profundidade de 25 centimetros. A vara mergulhada destroe-se os rebentos, deixando ficar alguns apenas na extremidade enterrada, que servem para o desenvolvimento das novas raizes, as quaes, quando bem formadas, permittem a separação da vara da cepa mãe, e a sua perfeita vegetação como planta independente. Hortas — O hortelão trata este mez de dispór nos seus logares as diversas plantus de hortaliça se- mieada, onde devem desenvolver-se debaixo da sua vigilancia. Semeia favas e ervilhas, batatas, grão de bico, ete. Tambem mette na terra estacas de arvore fructi- fera, e limpa os pomares. Jardins — Pouvas são n'este mez as flures nos nos- sos jardins. No emtanto n'elles se vê o jasmim ama- rello, geraneos, magnolias roxas, e as camelias ou rosas do Japão. Esta encantadora flor foi trazida do Japão em 1739 pelo padre jesuita Camelli, a quem deu o nome por que é conhecida, alem do de rosa do Japão, pela sua origem. Exige esta planta uma terra forte misturada com terra vegetal de pinheiro. A sua reprodução faz-se por meio de semente, es- taca ou mergulhia. O mais facil porém é a es- taca. A variedade de flores n'um arbusto pode conse- guir-se facilmente por meio de enxertia na primavera. Para o perfeito desenvolvimento. de uma flor, é necessario isolal-a de outras, destruindo os botões destas para que a escolhida aproveite melhor a seiva da planta. Por esta razão tanto mais perfeita será uma camelia quantas menos houver e mais se- paradas estiverem n'um arbusto. A camelia dá-se muito melhor nas provincias do

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ACTUALIDADES 563 norte do nosso paiz. onde chega a ser espontanea a sua vegetação. É do Porto que veem para Lisboa grandes quan- tidades d'esta preciosa flor para ornamentações nos primeiros mezes do anno. ECONOMIA DOMESTICA. ana o lavrador, que desejando PD alimentar-se por completo dos productos da sua propriedade, e não queira entrar no fabrico completo da manteiga, lembramos a pequena batedeira para nata, que a nossa gravura representa, Compõe-se ella de um ou dois copos de vidro com tampa nike- lada, apertados dentro de um arco metallico que gira, suspenso em dois braços, sobre dois supportes, Separada a nata do leite, por meio do repouso em pratos de loiça, é lançada no copo de vidro, o qual depois de tapado, recebe o movimento de rotação por mejo da respectiva manivela, até que se forme dentro a manteiga, o que facilmente se pode ver atravez do vidro. Separado o soro, é lavada a man- teiga com agua, dentro do mesmo copo, e acabada de fazer n'um prato com o auxilio de uma faca, flexivel, D'este modo se obtem um producto que, se não tem todas as boas qualidades de uma manteiga su- perior, tem o de não ser falsificada, e constituir um agradavel e util passatempo, capaz de despertar o gosto e preparar o manipulador para o fabrico mais completo de uma manteiga que, alem de servir ao consumo da casa, poderá mais tarde engrossar os rendimentos da lavoura. Um cão imitador Um intelligente artista canino, que figurou ha mezes num circo de Londres, imitava, devida- mente caracterisado, varios personagens celebres. Bis a reproducção muito exacta, nas gravuras juntas, do grande dramaturgo IBSEN e do esta- dista chines LI-UNG CHANG

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À invasão de Lisboa EM MARCHA SOBRE A CAPITAL Cliche do sr. Alfredo TT, de Lemos ACAMPAMENTO DO LARGO DE S. DOMINGOS Cliche de sr. Alberto Castello Branco

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Chronica geral de Modas À VARIEDADE DA MODA ão ha duvida que a moda este inverno é muito variada, tanto em côres como em feitios, e na verdade será difficil que as se- nhoras, mesmo as mais exigentes, não encontrem, entre tanta variedade, o que desejam para satisfazer os seus gostos £ caprichos. Ha para todos os typos; assim ás bellezas serenas, ficarão perfeitamente toilettes em estylo severo, como as ro- bes princesse em velludo, emquanto que os tecidos leves e o Estylo Imperio ou Directorio adequar-se-hão melhor ás senhoras graciosas e delgadas. Presentemente a moda apresenta no- vidadzs elegantissimas. Depende do gos- to de cada senhora saber applical-as com arte. PecLes MODERNAS O grande: luxo do inverno são as pelles, chega a ser uma paixão tão en- tranhada como a das joias ou das ren- das, Ha senhoras que não resistem á ten- tação de alcançar pelles rarissimas ; re- «centemente, em Paris, uma senhora, ameaçada de ruina, vendeu uma parte FIG. 1

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94 OS SERÕES DAS SENHORAS da sua collecção de pelles e de joias, e ficou ainda com um rendimento de cerca de duzen- tos mil francos. Mas isto são objectos de luxo precioso, e ueremos agora tratar de pelles mais mo- stas, que digam com gostos e fortunas tam- bem mais modestas. A moda sempre em contradicção estabele- ceu este inverno, como dernier cri, o que o inverno passado estava fóra da moda. Assim o arminho, tão chic o inverno pas- sado, está este anno mais abandonado, limi- tam-se a usal-o nos grandes manteaux luxuo- sissimos ou como forro Ao contrario a clun- chilla é o dernier cri da estação, mas é uma pelle ainda reservada a poucas pessoas, pois só se alcança por um preço elevadissimo. A zibelina continúa a estar em voga, não é a ultima novidade, mas é ainda a pelle rica e confortavel que todas as senhoras appe- tecem e preferem. muito chic misturada com Irlande, esses dois tons casam harmonio - samente e dão uma nota bonita á toilette. Ha uma outra pelle, a marta vulgar de Fran- ça, que apesar de muito inferior á zibelina, tem um bom aspecto, e é relativamente ba- rata. é: Notamos ainda o caracul, que apparecerá bastante, e para substituir o astrakan, inteira- mente abandonado este inverno, ha um cara- cul pouco felpudo, muito brilhante e ondeado, que é muito recommendavel, pois é bonito e pratico, cremos até que será a pelle pre- ferida por todas as pessoas rasoaveis. Execu- ta-se com esta pelle o fato classico; a jaqueta comprida, ou o paletot-sac. Derivado d'este caracul, ha ainda uma outra especie que vale a pena mencionar, apesar do seu aspecto não ser muito bonito, pois é d'um tom marron arruivado e crú, é uma pelle que se presta muito a automoveis, exactamente por ser d'uma côr que não se suja tanto como o preto. CREANÇAS EM AUTOMOVEIS Ha uma pelle de cabra parecida com o ca- racul branco, que é muito apropriada a ser

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OS SERÕES DAS SENHORAS 9> usada pelas creança seios de automovel. Com essa pelle fazem se bonets, gorros, re- alos e mesmo casacos completos, os quaes evam aos lados umas pequenas aberturas por onde as mãos dos bébés enfiam e ficam ao abrigo do frio. Esta pelle, além de bonita, tem a vantagem de não se estragar com facilidade, atura mui- tas lavagens, pode mesmo limpar-se em casa, com oxido de zinco. É um pó branco com o qual se esfrega a pelle, e alli se conserva du- rante algum tempo, batendo-se em seguida a pelle com muito cuidado. principalmente em pas- SAIAS PARA MENINAS NOVAS Entre todas as novidades d'este inverno, não ha nada que fique melhor ás raparigas novas que a jupe-corselet. uma toilette commodissima, pois com uma unica saia, póde dar-se a illusão de gran- de variedade de toilettes, usando bluzas diffe- FIG. 4 rentes, tendo além d'isso a vantagem de ser uma saia extremamente elegante e moderna. Esta saia é d'um feitio difficil de assentar bem, é preciso um bom molde e corte. Como tecidos, para raparigas novas, o grande successo é o velludo inglez. Apezar d'isso, continua a usar-se o panno liso. Esta saia faz-se com forro separado; ao contrario da saia tailleur, que deve ter o forro pegado, o que é muito mais pratico. ToILETTES DE VELLUDO Para toilettes de interior estão em moda*o velludo de algodão ou belbutina; estas toi- lettes são de feitios muito simples, sómente usadas com collarinhos de gomma e gravatas formando nó. Para a tarde usam-se velludos chifjon em lindos tons, especialmente o verde claro. E a côr mais em voga. O feitio preferido para estas toilettes é a forma princesse. O feitio Imperio tambem se vê muito, prin-

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96 OS SERÕES DAS SENHORAS cipalmente em senhoras de estatura e delga- Os chapeus das, pois é um feitio pouco adequado a pes- de feltro são soas nutridas. Apezar de lindas, estas toilettes muito usados não são pro- com veus de prias para sa- — chiffon caíndo hidas á rua, atraz sobre O usam-se sómen- cabello. te em Téce- Os tons mar- pções. five- ron e verde são ó-clocks, ou as côres prefe- jantares. ridas este in- verno para a CHAPEUS MO- confecção de DERNOS chapeus. Os ; chapeus de co- Este inverno pasaltas e gran- teem appareci- des plumas de- do modelos de vem usar-se de chapeus de fór- preferencia em mas encantado- toilettes estylo ras, apesar de Imperio ou Di- um tanto extra- rectorio. vagantes. São Ha chapeus principalmente de grande ori- lindos todos os ginalidade e ex- que teem guar- travagancia, nições de chif- voltados d'um fon, o qual se lado, com plu- presta admira- mas caindo pa- velmente para ra traz sobre o draperies gra- hombro. ciosas. As guarni- ções são varia- dissimas, usam-se velludos, rendas, pelles, plumas, fivellas, emfim tudo quanto harmo- nise bem com o feitio e o tamanho do chapeu. Os nossos FIGURINOS Fig. 1— Esta toilette de recepção é verdadeiramente original e artistica. A saia é em velludo côr de vinho, em- quanto o corpo é em velludo adamascado, ou setim, n'um tom um pouco mais claro que a saia. A sua extrema elegancia depende da belleza e qualidade da renda, a qual deve ser rica e pesada, com ornatos que saiam bem sobre o fundo escuro da toilette. Fig. 2 — Casaco alta novi- dade, em panno vert bronze com capa, e boléro, guarne- cido de galão branco, e bo- tões bronzeados. N'este genero, é tudo quanto ha de mais elegante e novo, pois é o primeiro modelo que apparece com este feitio Fig. 3— Toilette Imperio, apropriada a recepções, five ó-clocks, e festas de dia. A saia é em velludo prune e ú FIG 1 FIG. 2 o boléro é em panno branco,

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OS SERÕES DAS SENHORAS 97 ou créme, guarnecido de vivos de velludo, e grande profusão de renda nas mangas, as quaes são curtas. A saia acaba por uma guar- nição de arminho, e o regalo é tambem de arminho. Esta toilette é distincta e d'um gran- de chic. Fig. 4— Encantadora toilette em velludo preto e branco, composta tambem de corpo de panno preto, enfeitado de cordões e tranca eta: A gola é em seda branca com um de- rum pequenissimo de velludo côr de cereja. É um lindo vestido para passeios á tarde. Fig. 5 — É deliciosa esta toilette em velludo gris, com jupe corselet, e boléro curto. Tanto a saia como o boléro levam uma guarnição de pelle, e o boléro assenta sobre uma bluza de chifjon em tom gris, e bordada a prata. Às mangas acabam tambem por esse mesmo chiffon. E um lindo e elegante vestido para recepçõ Fig. 6—Vestido para creança em mousseline de seda crême, guarnecido de entremeios e bor- dados finissimos, e ordens de entremeios de Valenciennes postos verticalmente. À roda da saia ieva um folho franzido, e as mangas são curtas e atadas com fitas de setim azul. O corpo tambem leva folho, com fita azul for- mando laço á frente e sobre os hombros. Fig. 7— Esta toilette de creança deve ser feita em seda leve, a qual é bordada á ma- china, como se vê na gravura. As rosetas e fitas, que dão toda a graça a esta toilette, de- vem ser d'uma côr bem forte. Emquanto á seda convem ter uma côr desmaiada. CHAPEUS Fig. 1 — Lindo chapeu em feltro branco, guarnecido de gaze, pelle branca e grande passaro tambem nco, cam azas cinzentas, acabando em pennas pretas. Este chapeu e muito chic e elegante. Fig. 2 — Pequenina togue em pelle de cas- tor, guarnecida d'um molho de rosas côr de rosa, ou encarnadas, e aigrette bem farta. Esta forma de chapeu é linda, e fica muito bem em qualquer toilette de inverno. Fig 3 e 4— Apresentamos, como novidade, dois chapeus para automovel. O primeiro é n'um tom tabac, redondo em fórma de tur- bante, com uma borda larga de velludo. Leva duas azas no mesmo tom tabac, uma de cada lado. O veu é de mousseline de seda em tom champagne; o contraste d'esta côr com a côr do chapeu produz um ensemble encantador. O outro chapeu é tambem d'uma fórma ele- gantissima. E todo n'um branco azulado, e o veu, bastante espesso, é arranjado de modo que, quando se ponha para cima, fórme uma guarnição á roda do chapeu. O véu, de mous- seline azul, é enrolado à roda do pescoço, ou póde tambem usar-se como mostra a nossa gravura. Pela parte detraz do chapeu veem duas fitas de glacê, as quaes traçam no pes- coço, terminando por dois laços que se pren- dem á frente. E uma das cousas mais neces- sarias, pois ajuda immenso a segurar o chapeu na cabeça.

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98 OS SERÕES DAS SENHORAS A NOSSA FOLHA DE MOLDES CASACO IMPERIO Este elegantissimo casaco, proprio para as sahidas de theatro, deve ser em panno vert bleu, com passementeries de côres muito mor- tas, nos hombros, e rodeando a gola e a cin- tura. - Os botões são em phantasia, e no extremo das mangas uma grande porção de rendas muito finas forma uma ruche. A outra figura apresenta o forro que deve ser em gilacé de côr, e para tornar este casaco ainda mais commodo pode-se pôr por dentro uma algibeira, como mostra a nossa figura. LiNDA MATINÉE PARA GREANÇAS Damos na nossa folha os moldes da pri- meira d'estas matinées. É deveras original com uma grande estola que a acompanha até a baixo. Póde ser feita em flanella côr de rosa ou azul clara, fazendo os pontos de phantasia em Jinha n'um tom mais escuro, é a estola em seda tambem mais escura. Os moldes dão tambem esta matinée em curto, que fica talvez ainda mais engraçada. CASACO E TOUCA DE BONECA Para que as creanças tenham tambem al- AVESSO DO CASACO IMPERIO CASACO IMPERIO PARA THEATRO guma importancia nos nossos Serões, e para que se vão costumando a fazer e cortar os vestidinhos das suas bonecas, damos os mol- des d'um casaquinho e d'uma touca. O casaco é feito em piqué branco com um borda lo franzido e pregado com um ponto espinha feito em linha encarnada. A touca é no mesmo pi- qué com uma ruche de renda e laços de fita de côr. Bastam estas explicações para que as ma- mãs possam substituir-nos, ensinando as pequenas costureiras o cortarem segundo os moldesinhos que lhes proporcionamos. SS aa tias

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OS SERÕES DAS SENHORAS 99 convenientes na espinal me- dulla e prejuizos nos nervos. “ «A maneira natural de an- dar é descançar o peso do corpo, tanto quanto possivel, na planta do pé. Não se póde fazer isto quando se usar calçado de tacões altos, visto terem a tendencia de trans- ferir o peso do corpo para sobre os calcanhares.» amos EE Passaros que cozem Parece que não foi só a raça humana que fez mono- polio da pacifica arte da cos- tura. O alegre estorninho, fre- quentador de pomares, faz o seu ninho d'uma herva muito MATINÉES PARA CREANÇAS Inconvenientes dos tacões altos É o seguinte o conselho de uma auctoridade em educação physica: «Se os tacões altos affectam ou não a vista (como alguns affirmam), eis o que não sei di- MATINÉES PARA CREANÇAS rija, e coze-a com um fio d'um grande comprimento. Mais habil é ainda um ou tro passaro que os inglezes conhecem por tailor bird, o qual não só coze, mas é elle proprio que faz o fio, juntan- zer, mas em todo o caso teem uma grande do o algodão, e fiando-o com CASACO DE BONECA porção de maus resultados. o seu bico comprido e os seus «Em primeiro logar não são commodos, e pés delgados. decerto que nem são bonitos nem vantajosos. O bico faz o effeito da agu- «Torcem a forma do pé, produzem callos e Ilha, para unir as grandes fo- joanetes, e o peior é que causam vibrações in- | lhas que formam o ninho. TOUCA DE BONECA

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PELOS O principe Carlos, elevado a rei da Noruega sob o nome de Haakon VII, é o segundo filho do principe real de Dinamarca e, para não afrouxar os laços de união entre os dois pai- zes scandinavos, de uma filha de Carlos XV da Suecia. A nova rainha da No- ruega é a princeza Maud de Inglaterra, filha segunda e predilecta de Eduardo VII. Foi um romance de amor o casamento, realizado ha cerca de dez annos; À pai- xão do principe brotou n'u- ma das frequentes vi feitas pela rainha Alexan- dra a seu velho pae, o rei Christiano da Dina- marca. Além dos parentescos já indicados, o novo rei da Noruega tem por tios o rei de Inglaterra e o rei da Gre- cia, por tias a rainha de In- glaterra, a imperatriz viuva da Russia, a rainha da Gre- cia e a princeza Maria de Orleans. Pelo lado d'esta ultima, casada com o prin- cipe Waldemar da Dina- marca e prima da rainha de Portugal, está a familia real dinamarqueza, pro funda- mente lutherana, ligada ao catholicismo. São primos de Haakon VIL o czar, o principe de Galles, o principe Jorge da Grecia, o principe Aage da Dinamarca ; seus cunhados os principes Frederico de Schaumburg-Lippe e Car- los da Suecia; e tem por irmãos o principe Chris- tiano, herdeiro presum- ptivo da Dinamarca, os principes Harald e Gustavo, e as princezas Ingeborg, Thyra e Da- gmar. A rainha da Noruega é formosa e elegante, inteiramente dedicada a seu marido, apesar de se dizer, antes do casamento, que ella se ena- morara de um membro da aristocracia ingle- za, cuja linhagem não permittia ainda assim o itas ALTOS casamento. Foi quasi exclusivamente educada na atmosphera da côrte, e pouco interesse mostra pela vida ao ar livre, que-é preferida pelo seu esposo. O filho do regio consorcio é uma creança O REL DA NORUEGA HAAKON VII, A RAINHA MAUD E O PRINCIPE REAL HARALD de dois annos, Alexandre, que será principe herdeiro da Noruega, tomando o nome de Ha- rald, por isso que está decidido que os Ha- ralds e os Haakons reinarão alternadamente na Noruega. Haakon VII foi official de marinha e tem grande amor pelas cousas nauticas, além da paixão pelo sport hippico e pela caça,

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CANDIDATAS AO. THRONO DE HESPANHA PRINCEZA WILTRUD, DA BAVIERA ARCHIDUQUEZA ISABEL, DE AUSTIRIA ARCHIDUQUEZA RENATA, DE AUSTRIA PRINCEZA EVA DE BATTENDERG A preferida PRINCEZA GABRIELLA, DELAUSTRIA! PRINCEZA HELMTRUD, DA BAVIERA ARCHIDUQUEZA HENRIQUETA, DE AÚSTRIA A MARIA ANTONIETTA, KLEMBURGO-SCHWERIN

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102 : OS SERÕES DAS SENHORAS LAVORES FEMININOS COMO SE PODE ENFEITAR UM CHAPEU DE FELTRO Como SE PODE ENFEITAR UM CHAPEU DE FELTRO Escolha-se um velludo da mesma côr do chapéu, mas n'um tom mais escuro, corte-se em tiras enviezadas e coza-se em costura na parte de cima da borda do chapeu (co- mo mostra a figuranº1), em seguida coza-se o vel- ludo á parte inferior'da aba para ficar debruada (ve- ja se a figura n.º 2). Afig.n.º3 mostra a for- made accres- centar o vel- ludo para o debrum e a figura nº 4 mostra a ma- neira como se embainha o velludo. Para o en- feite do cha- peu, franze- se um boc- DETALHES DOS ENFEITES DO CHAPEU DE FELTRO cado de velludo já embainhado em forma de leque como se vê pelas figuras 5 e 6, torce-se uma tira do mesmo velludo (figura n.º 7) e prende-se ao meio do velludo que se acabou de franzir (figura nº 8). Levante-se um pouco o chapéu do lado esquerdo, prendendo-se a aba com duas pennas sobre as quaes se coze o leque de velludo. Forma-se um laço de fita do mesmo velludo e colloca-se na parte pos- terior do chapeu. Para tornar o chapeu mais levantado atraz, prende se á parte inferior da copa um bandeau de crinoline onde se pode cozer o laço de velludo. É um modelo simples e elegante, que “qualquer senhora pode exe- cutar. BorDADO EM RELEVO O bordado em relevo, que tanto se usou no meado do seculo xvil, torna a ser moda para enfeitar vestidos e camisolas, Se por acaso alguma das nossas leitoras possuir algum vestido do tempo antigo, que já tenha o fundo estragado, póde applicar os proprios bordados d'esse vestido sobre qual- quer tecido novo. Esta applicação é muito facil de fazer; e para tornar o vestido menos pesado, fica linda- mente uma guarnição composta de Valencien- nes ou de renda de Puy. Mas como nem toda a gente possue no seu guarda-roupa estes bellos vestidos dos nossos antepassados, é preciso substituil-os, e as nossas queridas e

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CAMISOLA BORDA A À RELEVO habcis leitoras teem que executal- os por suas pro- prias mãos. Sem duvida PONTO PÉ DE FLOR nhoras sabem bordar a relevo, mas mo o bordado moderno Siro. é licei co- DAS SENHORAS 103 mente! differente do antigo, vamos dar algumas explica- ções que"ajudarão as nossas leitoras ja bordar mais facil- mente. Este novo trabalho não é PONTO DE AREIA tão delicado como o antigo, faz-se sempre com linha um pouco grossa, mesmo que seja sobre um tecido fino; não queremos dizer com isto que seja falta de perfeição, mas é simplesmente o gosto moderno. Para bordar costuma-se geralmente esticar o tecido sobre um encera do, mas nós aconselhamos de preferencia o bastidor moderno. Muitas senho- ras, que teem muita pratica, traba- lham sem bastidor, mas n'es- te caso é deveras difficil não ficar franzido. Appli- cado o tecido sobre um panno forte, e esticado no bastidor, corta-se a parte do panno por bai- xo do desenho, e começa-se a bordar. PONTO OBLIQUO

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104 OS SERÕES DAS SENHORAS ALMOFADAS PARA SOPHÁ E PARA CADEIRA Damos os modelos dos pontos que se cos mo crême e bordar as hastes que as prendem tumam empregar: o ponto pé de flôr, o ponto em vert Nil. direito, o ponto obliquo, e o ponto d'areia. A segunda executa-se em panno verde, bor- As flôres e as espigas são cheias com algo- dando a amarello torrado as partes claras, e as dão de passagens. escuras n'um tom marron. Emprega-se para à Os nossos modelos representam o desenho execução d'estes bordados a filoflosse. dos pontos em maior, para que se perce- ba bem o trabalho que se vae executar. Este bordado fica lindamente n'um vestido de panno, mas n'um vestido de verão que seja de mousseline ou linho, tem o defeito de se tornar muito pesa- do, o que se remedeia bem applicando juntamente no mesmo vestido a broderie anglaise. Esta broderie, como as nossas queridas leitoras sabem, compõe-se de abertos, feitos com ponto de ilhós. As folhas, ao contrario do bordado em relevo, são feitas em abertos, ojque pro- duz a harmonia dos dois bordados. ALMOFADAS PARA SOPHÁ E PARA CADSIRA A primeira faz-se em panno castanho escuro, com um desenho muito artistico e original. Convem escolher uns tons muito desvanecidos para bordar as flôres, ==" por exemplo —orchidee, bleu ciel, ou mes- PANNO PARA ALMOFADA

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OS SERÕES DAS SENHORAS 105 Deve empregar-se seda muito leve para a confecção do terceiro modelo, que é uma especie de saia dividida, d'um feitio muito gracioso. É guarnecida com bordado de se- da, sendo as duas tiras bordadas separadas por uma ordem de pregas perpendiculares. Os tres modelos centraes são feitos em cambraia, e guarnecidos de renda fina e tiras bordadas. A differenca d'estes tres pa- res é no feitio do cós, sendo o do lado di- reito mais adaptado para pessoas nutridas. Apresentamos um outro n.odelo lindissi- mo, representando a figura da esquerda a parte da frente, emquanto á direita vemos a parte de traz. Este par de calças é feito em cambraia finissima, batiste de côr, ou seda transparente, com enfeites de renda e bordados. O outro modelo é mais adaptado por baixo dos fatos de lã; é feito em cam- braia de qualquer côr, levando folhos e tiras PEQUENA TOALHA PARA CHÁ de mousseline branca bordada a côr. PANNO PARA ALMOFADA Completamente novo e extravagante, n'um linho ver- de amande, e com o borda- do n'um tom dourado. As folhas são a ponto real, sen- do um dos lados mais alto para formar relevo. Rodeando a bainha; leva um frizo doirado. “TOALHA ARTISTICA PARA CHÁ Feita em linho branco, e bordada a cinco tons de vieux rose e verdes palidos. As hastes são em ponto pé ae flor; emquanto ás rosas são feitas em ponto cheio e ma- tizadas com cinco tons. NoviDADES EM ROUPA BRANCA Representa a nossa gravu- ra varios modelos de calças, de completa novidade, Às primeiras devem ser fei- tas em 7éphyr, linho fino, ou alpaca, e são apropriadas pa- ra sport. O segundo modelo faz-se em cambraia, enfeita- do a renda e tiras bordadas. NOVIDADES EM ROUPA BRANCA

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A MODA É CAPRICHOSA NA ESCOLHA DA MATERIA PRIMA s artistas da Moda Nº existe moda, senão a de Paris. Os ado- radores fieis da vaidade concordam to- dos n'este ponto e voltam-se para a Rue de la Paix com tanta devoção como um Maho- metano para Mecca, embora sejam muitos os prophetas da moda, cada um d'elles com os seus sectarios leaes. Depois das francezas, affirma-se que são as americanas as mulheres que melhor se vestem, mas ha uma certa leviandade lamentavel na maneira por que as americanas encaram a toi- lette. As francezas tomam muito a serio tudo quanto diga respeito ao seu traje. Basta ape- nas lermos uma pagina de um dos melhores jornaes francezes da especialidade, para nos compenetrarmos do ponto de vista nacional. Não ha lá uma simples e rapida chronica de modas. As rhapsodias do escriptor deixam a pémer de vista todos os lyrismos dos poetas. “Tefido que descrever uma creação em taffetá vermelho, o chronista molha a penna no or- ivalho matutino de maio e invoca as Musas. Remonta-se aos ares nas azas invisiveis da poesia e entoa cânticos apaixonados de pane- gyrico, Procura allegorias em todas as regiões do Bello, inflammando-se-lhe gloriosamente os adjectivos, cita os classicos, põe a tributo a historia e a fabula, remata com uma fervida apostrophe á mulher formósa — e não ha uma só das leitoras francezas que sorria, Não teem exageros nem extravagancias n'aquelles perio- dos, O taffetá vermelho era de Paquin. Em que santuario melhor poderiam assentar aquel- las florescentes votivas? Esta attitude popular com respeito a cou sas de toilette é que tem feito de Paris o cen- tro da Moda. Em qualquer parte pode surdir engenho na arte do vestuario, mas, por maior que seja, não pode aspirar á consagração e á gloria fóra de Paris. Um temperamento ar- tistico carece de um ambiente sympathico, & só em Paris a arte da modista está catalogada entre as bellas artes. O grande Worth vivia acanhado e desconhecido nos antros impe- netraveis de Birmingham; Beer, considerado por muitos como o maior genio creador da toilette na actualidade, desperdiçava as suas. faculdades na soledade de Berlim ; as irmãs Callot, as mais careiras entre as firmas pari- sienses, são da Provença, e á terra de Tar- tarin devem a generalidade audaciosa do seu engenho; a Maison brecol, fimosa em Paris e fundadora da moda viennense, foi estabele- cida por madame Wagner, de Amsterdam. Uma vez enraizadas em Paris, estas insigni-

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OS SERÕES DAS SENHORAS 107 ta ES TREINA Unte OS ARMAZENS DE MR. BEER ficantes individualidades foram crescendo em fama e grandeza, e a sua historia é a de dois bons terços dos mais conhecidos artistas da Moda em Paris. Muitos estabelecimentos d'esta ordem exis- tem, e de ha cincoenta annos para cá tem-se assistido ao surgir meteorico, ao meteorico occaso de muitos d'esses astros. De ha pou- <os annos a esta parte que se tem visto tam- bem uma transformação sensivel no caracter dos grandes modistas, se não na qualidade do seu trabalho. Em tempo, não era descabida a phrase genio creador applicada aos chefes dos grandes estabelecimentos francezes de modas Hoje em dia, esses grandes homens não pas sam de homens de negocios, mas antigamente os homens da velha escola eram artistas, ti- nham talento creador, e sabiam cultival o. Walles, inglez de nascimento, foi um exem- plo extremo d'este modo de encarar a sua arte, embora o seu nome não seja tão conhe- cido da massa do publico como muitos ou- tros. Era um artista a valer, um genio para as combinações de linhas e de côres. Estu- dava avidamente os tons, os contornos, os va- lores, nas galerias e museus de arte; passava dias e dias nas florestas a notar as combina- <ões chromaticas das folhas de outono; inspi- rava-se na flor, na ave, no insecto, tirando resultados assombrosos; mas tinha o tempe- ramento mal equilibrado do genio, e a sua carreira foi curta. Madame Rodrigues era portugueza, e des: mentia o calumnioso aphorismo, geralmente acceite, de que não podia surdir um grande talento na arte de toilette, tanto em Portugal, como na Hespanha e na Italia. Era uma ar- tista phenomenal d'este mesmo typo, mas a faita de saude poz embargos á sua gloriosa carreira. Outros modistas, não tão extremes como es- tes dois, fizeram parte do grupo artístico, mas foi realmente Worth o ultimo dos velhos mes- tres da toilette, comquanto Rouff mantenha muitos dos caracteres da velha escola, de mis- tura com o mercantilismo de hoje em dia. Os novos são de diflerente estofa. As obras sahidas dos seus ateliers não desmerecem das dos seus predecessores, mas são produzidas por methodos differentes. O chefe do estabe- lecimento é actualmente, antes de tudo, um homem de negocios de extraordinaria habili- dade. É tambem um homem de bom gosto phenomenal — não é porém um genio crea- dor. Não tem insomnias a parafusar em ideias embryonarias respeitantes a uma manga, a DOIS DOS MODELOS DE WORTH NAS CORRIDAS DE CAVALLOS

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108 OS SERÕES DAS SENHORAS uma saia, a uma gola Não vagueia por flo- restas e campos, á cata de inspiração. Isso sim ! Arremata o cerebro da miuçalha, e lança os productos d'esse cerebro para edificação do mundo feminino e para sua propria gloria. Uma costureira do atelier tem um momen- to de inspiração. Vae ter com o patrão, e expõe-lhe a sua ideia. Se esta lhe agrada, elle compra-a, e a rapariga volta outra vez para o trabalho. Ou então, é qualquer modista obscura, com mais originalidade que reputação, que vae a assumir a direcção de um d'esses estabele- cimentos, por isso que os graus proeminen- tes são largamente recrutados na sua classe, mas entrementes, contente-se em achar mer- cado para as suas ideias. O genio do grande confeccionador actual consiste na apreciação das probabilidades de exito que offerece uma ideia. Pode elle não ser capaz de conceber um vestuario original, mas o que elle sabe por instincto é o que é bom, o que nunca o en- gana são o seu gosto e o seu juizo. De entre ESTUDANDO O EFFEITO DE UMA SAIA NUM MODELO mostrar a um homem famoso — Paquin, por exemplo — uns modelos que ella delineou. Se a cousa offerece probabilidades de exito, o negociante compra-a logo, e por bom dinheiro. Homens d'estes pagam de bom grado genero- samente as ideias; mas, uma vez compradas, o figurino fica sendo d'elles. O auctor não tem direito a repetil-o, nem a tirar d'elle gloria, por mais dinheiro e mais fama que elle traga ao comprador, entre o mundo fashionable. Injustiça? Não A modista humilde não dis- põe de recursos para lançar a sua ideia. Ga- nha mais em vendel-a a uma casa famosa do que se pretendesse exploral-a por si só. No correr dos tempos, pode ser que ella venha uma centena de modelos, elle escolhe sem hesitação o que se impõe á voga; e tendo: tido o gosto na escolha, tem a habilidade mer-. cantil para a exploração e para a venda. Foi talvez Paquin o primeiro, como é o maior, da nova escola. Ha uns treze ou qua- torze annos era elle um humilde empregado: na Bolsa. Madame Paquin — a qual, diga-se de passagem, tem scentelhas da arte divina da toilette — era uma modestissima modista absolutamente desconhecida. Casaram-se os: dois, e um protector opulento estabeleceu-os n'um bairro chic. Não houve nem clangor de trombetas, nem rufos de tambores, mas o que é certo é que

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com a abertura d'aquella lojita da Rue de la Paix, Paris estava a caminho de outra revolu- cão. Os velhos mestres haviam sido personagens temerosas, cercadas de mysterio, sequestradas da turba profana. Eram raras as freguezas que se abeiravam d'elles. Havia intermedia- rios que dirigiam as consultas, que attendiam a todos os pormenores. Só para uma cliente mais illustre, ou em attenção a alguma ordem mais instante, é que o grande homem se di- gnava sahir do seu gabinete e conceder uma OS SERÕES DAS SENHORAS 109 se mostrou tão habil quanto era amavel, as que tinham vindo uma vez voltaram, as outras. seguiram-lhes na piugada. Actualmente, sob o ponto de vista commer- cial, é o atelier de Paquin 6 mais prospero de Paris, e o seu rendimento calcula-se por alto em 400 contos por anno. Já não é feio! Não tardaram imitadores a seguir o exem- plo de Paquin, e hoje muitas das casas mais famosas teem á sua testa individuos attrahentes. Um dos mais typicos d'esse grupo é Doeuil- ler. Estabeleceu-se n'um dos palacios his- À ENTRADA DE PAQUIN — GRUPOS DE RAPARIGAS, ENTRE AS QUAES SE ESCOLHEM OS MANEQUINS conferencia pessoal. Em geral, fazia crêr que estava nos transes da creação artistica, e seria uma nefanda offensa ir perturbal-o. Tudo isto impressionava e aturava-se de boa mente, até que Paquin, arteiro juiz da natu- reza humana, diplomata de nascença, homem de negocios por excellencia, inaugurou novo regimen. Era eile um homem moço, gentil, circumspecto, mavioso. A mulher era encan- tadora. Foram ao encontro das clientes com profundo empressement, trataram-nas com o maximo acatamento. As senhoras acharam o systema eminentemente agradavel e lisonjeiro para o seu amor proprio. Satisfeitas com aquellas blandicias, desde que a nova firma toricos da Place Vendôme, onde tem a mais soberba installação de Paris. As obras que de lá saem harmonisam com o estabelecimento. A sua especialidade são confecções aprimo- radas, os seus preços são monumentaes, e a sua clientela é constituida pelas damas mais. notaveis em riqueza e extravagancia, de pre- ferencia ás que se distinguem pela finura e pelo chic. Mas quando se fala de Doeuillet a uma das suas clientes, não é sobre os figurinos que versa a resposta, mas sobre o aspecto do. grande homem. — Um Adonis, ma chêre! Que maneiras, que figura, que olhos! — Ah!

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TIO Os SERÕES DAS SENHORAS Francis é outro d'esses feiticeiros, e como elles reforça a magia com a habilidade. A sua especialidade é o genero tailleur. Armand é o neophyto na profissão, o re- cruta mais recente da nova escola. Já alguns annos ha que elle surgiu no horizonte mer- cantil, mas não lhe levou mais de um anno o trepar ao zenith da gloria. Era um negociante sem importancia. Dentro de nove mezes tor- nou-se proprietario de um famoso estabeleci- mento de modas, que occupa o antigo palacio Saye, na Place Vendôme, o palacio em que pela vez primeira se encontraram Napoleão II e Eugenia de Montijo. Mais uma combinação triumphal de geito mercantil e beaux yeux. Mas não é indispensavel a formosura para que o talento erga o moderno modista ás emi- nencias da riqueza e da fama. Ainda pondo de parte os mancebos gentis, a lista é bas- tante longa para não ter aqui cabimento por inteiro. Beer, as irmãs Callot, Laferriére, Blanche Lebouvier, Rouff, Madame Havet, Mademoi- selle Carné, tudo isto são nomes conspicuos no mundo financeiro. Worth faz um negocio de mão cheia, com a clientela seria. Procu- ram-no as viuvas da aristocracia ingleza e franceza; e Jean Worth, chefe e gerente actual «da casa, goza, mais ou menos, do prestigio de seu illustre avô, A nobre cliente acha-o um rapaz encanta- dor, e diz-lhe assim : “sieu Jean, quando vivia o seu famoso avô, fez-me uma toilette de brocado bleu ciel que me ficava a matar. Eu o que queria ei uma cousa assim pelo mesmo gosto... E M'sieu Jean repete para a edade madura o brocado bleu ciel da juventude. Cria tambem por sua conta um lindissimo brocado bleu de ciel, e leva por elle um preço que deixaria pasmado o seu famoso avô. Pertence à velha escola por hereditariedade, mas tem moder- nos instinctos commerciaes, o galante rapaz! Os preços medios da moda franceza teem subido durante o actual regimen, embora sem- pre se pagassem quantias exorbitantes por creações especialmente originaes. Realmente, não ha hoje limite para as despezas da toilette; vestuarios espectaculosos são pagos por preços espectaculosos. Mas o preço da maioria dos vestuarios vendidos pelas casas mais impor- tantes regula entre cem e quinhentos mil réis, sendo as maiores vendas entre cento e setenta e cinco e trezentos mil réis. Casas ha que MR. DOEUILLET SUPERINTENDENDO PESSOALM OS ULTIMOS TOQU se recusam a fazer a toilette mais simples por menos de cento e cincoenta mil réis e poucos vestidos fazem por preço inferior a quinhen- tos mil réis. Não é pois de extranhar que o grande confeccionador de Paris seja uma per- sonagem de importancia, pertencendo aos clubs mais chics, em evidencia por toda a parte, excepto na roda exclusiva da alta sociedade, dono de uma magnifica casa de campo na margem do Sena, uma vivenda á beira-mar na Normandia, uma villa na Riviera, com- prando—como um d'elles fez este anno—quar- teirões inteiros no bairro mais dispendioso de Paris, gastando—como fez outro do gremio— vinte contos de réis n'um só dia para obse- quiar uns poucos de amigos escolhidos, cor- rendo em automoveis de primeira ordem, guiando e montando bellos cavallos, e mi: rando de alto a torrente das modas que elle proprio pôz em movimento. Todavia, as despezas de uma grande casa de modas são consideraveis, assim como os lucros. São raros entre esses autocratas os que praticam directamente o mister. Teem que pagar a technicos capazes de pôr em execu- ção, com primor, as ideias que elles desejam explorar, e são elevados os salarios das pes- soas habeis no corte, na prova, nas feituras de mangas, de saias, etc. N'um estabeleci- mento d'estes exigem-se fazendas e guarni- ções especiaes ; nada se regateia nem se omitte que contribua para a belleza de uma toilette e mantenha a reputação da casa. O que se pro- cura é o exito, não a economia. Um estabele-

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OS SERÕES DAS SENHORAS HI cimento d'estes tem sempre um pequeno exer- cito de empregados, e é uma verdadeira colmeia de industria systematisada; mas os patrões apenas veem o exterior d'estas machi- nas, sem sequer fazerem ideia das engrenagens que lhe dão movimento. Nas relações entre as empregadas superio- res e a firma commercial, a principal figura é a encarregada das vendas, e a encarregada das vendas de uma boa casa de modas de Paris é por ventura a mais perspicaz de quan- tas mulheres de negocio existem por esse mundo, O seu conhecimento de cousas parisienses é só egualado pelo seu conhecimento da na- tureza humana, o seu modo insinuante em- parelha com a sua diplomacia. Ao lado dos seus amavios, o canto das sereias é uma ce- ga-rega insupportavel. É capaz de impingir um casaco de marta-zebelina, do valor de dez contos de réis, a um selvagem dos sertões equatoriaes—o caso é pescar ella os dez con- tos no bolso do selvagem. E isso é que ella sabe. E o que mais espan- ta, é ella saber sempre tudo; pelo menos, se não sabe, tem artes, insensiveis para o cliente, de apanhar n'um relance todas as in- formações que lhe aproveitam Nunca erra, essa creatura blandiciosa, sor- ridente, persuasiva, cuidadosamente trajada, e olhem que em Paris não faltam ensejos para errar. Não é só questão de saber a situação financeira do marido. de Madame A ou da con- dessa B. É cousa mais complicada o systema de creditos usado por uma casa de modas pa- risiense. Quando Mademoiselle Blanche, do Scala, ganhando cincoenta francos por sema- na, pára á porta do estabelecimento n'uma magnifica equipagem, com cocheiro, lacaio, aia, tudo no trinque, rebenta pelas salas den- tro e desata a falar em toilettes de cinco mil francos, a encarregada das vendas não mani- festa surpreza. Parafusa lá com os seus botões e trata de formular habilmente o seu inque- rito. O mais provavel é ella pescar immedia- tamente a explicação da boca da propria Blan- che, á força de argucias diplomaticas e de captivantes adulações. Quando isto não pega, sempre ha outros meios de descobrir a meiada, antes de se cortar a fazenda. E embora toda a gente saiba que o Grão- Duque poz á “margem a Mimi des Folies-Ber- géres, quando a Mimi entra por alli dentro toda sorrisos, a fazer encommendas exorbitantes, nem por isso deve haver precipitações. A um grão-duque pode succeder um banqueiro opu- lento. E ainda quando a conta não offerece garantia visivel, é preciso ter toda a contem- plação com a linda creaturinha. O futuro pode reservar-lhe outros grão duques. Não se podem dizer summamente moraes estes calculos, mas são eminentemente pari- sienses. E afinal de contas o negocio das mo- das em Paris tem naturalmente de se adaptar ás condições do meio. Com a fonte d'onde brota o dinheiro não tem nada o dono do es- tabelecimento commercial, o caso é que o di- nheiro vá correndo, e as demi-mondaines de Paris são as melhores clientes de artigos de toilette -e são alem disso as mulheres mais bem vestidas do mundo. Todos os interessa- dos confessam isto com a maxima franqueza, e accrescentam com egual sinceridade que, logo a seguir ás demi-mondaines francezas, são as damas americanas as suas freguezas mais importantes. «Ha francezas de boa roda que se vestem a capricho», disse um dos mais famosos mo-

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112 OS SERÕES DAS SENHORAS Vi E Ni TES COMO SE CRIA UM «COSTUMES ORIGINAL distas, «o numero porém é insignificante, com- parado com o numero de demi-mondaines que se vestem com egual primor, Se nós contas- semos apenas com a clientela respeitavel, es- tavamos entalados, a não ser que as america- nas nos accudissem. Estas vestem realmente bem, e gastam dinheiro com tanta indiffe- rença como se não pertencessem ao mundo respeitavel. Teem bom gosto, embora à ame- ricana mais bem vestida não chegue em ele- gancia á mais bem vestida franceza. Ha sem- pre uma differença, que eu não sei bem expli- car. Foi para essa diferença, creio eu, que se inventou a palavra chic». A encarregada das vendas é tão habil no tracto com Miss Millions de Chicago como com a tresloucada Mimi. Lisonjeia com tal subtileza, insinua-se com tanta manha, faz-se de tal maneira indispensavel, agarra a clien- te e não a larga, acarreta centenas de con- tos para a casa, e recebe uma commissão de todas as vendas. Ha uma—das melhores da classe—que chega a fazer 15 contos por anno d'essas commissões, e, embora isto seja ex- cepcional, todas ellas vencem grossos emo- lumentos. Os manequins ou modelos são os elemen- tos secundarios de uma casa de modas; teem comtudo pequena importancia, em compara- ção com as encarregadas da venda. D'estas não é facil substituir uma em bons termos, ao. passo que os manequins, é só pedil-os por boca. São as raparigas que vestem as toilettes que a encarregada das vendas deseja pôr em. evidencia, e o seu valor mede-se pela elegan- cia com que ellas ostentam os primores da creação artistica. É disparatadissimo muito do. que se conta a respeito dos encantos trans- cendentes dos manequins parisienses; os ro- mances sensacionaes d'essas humildes belle- zas e dos seus casamentos espectaculosos — da mão direita ou da mão esquerda — são, em regra, obras de pura imaginação. Não é facil encontrar grupo mais vulgar do que o dos manequins, quando chegam de ma- nhã á casa onde são empregadas. Nem sequer merecem segundo olhar de quem por ellas passa. Mas d'alli a meia hora, quando a Mademoi- selle, admiravelmente espartilhada, habilmente concertada na tez, nos olhos, nas sobrance- lhas, com um penteado dernier cri, as unhas e as mãos primorosamente tratadas, os pés calçados de melindrosos sapatinhos de tacão: alto, arrasta a cauda pela sala de provas, tra- jando com a tradiccional graça franceza uma toilette de apetite — então é que o manequim de Paris se mostra como quem é. Formosa não é ella, mas ninguem se lembra de lhe pe- dir formosura; o que ella é, é excessivamente chic. Boa figura e talento para trajar com ele- gancia são mais importantes para um mane- quim do que a simples formosura. Mas o que é certo é que por detraz dos balcões de Lon- dres, de Vienna ou de New-York, se encon- tram facilmente duzias de raparigas que dei- xam a perder de vista qualquer manequim da Place Vendôme. Ha umas poucas d'essas raparigas mane- quins que teem chegado a encarregadas de vendas, algumas que teem casado bem, outras. que deram em dames galantes, uma d'ellas veiu a ser camareira da Rainha Victoria e foi depois para New York, uma ou duas encon- traram situações de somenos importancia na scena franceza; mas na maioria os manequins são raparigas vulgarissimas, cuja historia é apenas a historia trivial de qualquer operaria parisiense. (Continua )

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Conversando! Minha illustre senhora: A carta de V. Ex.* interessou-me e respondi o que sentia. Contei-lhe uma historia fundada em um en- thusiasmo semelhante ao que V. Ex.º tinha com a Després e lhe provocou tal desgosto por seu marido não ter feito a assignatura. Como porém o espaço do jornal não per- mitte O inseril-a, irá no proximo numero e a seguir as outras. Luiza. RESPOSTAS Henriqueta — Lisboa. — Por emquanto não. Não posso dar a minha opinião sobreo sen- tido porque não gosto do genero Imperio. Acho muito deselegante. As contas acho engraçadas em senhoras no- vas e meninas. Prefiro ainda, apesar de muito vistas, as azues claras. AnceLa — Ponta Delgada. — Em uma casa bonita e fresca, o cabello branco é mais um attractivo | Sendo nova, como é, o meu conselho era deixal-o assim | Na minha opinião não ha pin- tura inoffensiva; todas me parece que fazem a cara envelhecida, antes de tempo! Insistin- do, porém, V. Ex.”, em esconder essa graça que talvez lhe désse á physionomia, um char- me picante de originalidade, use V. Ex." que- rendo o cabello preto, a Nigrigéne e queren- «o-o louro, a Blontigéne, que me dizem dar resultado. Creio haver aqui em Lisboa quem o possa arranjar e remetter a V. Ex.!, mas pode entender-se V. Ex.º por carta e directa- mente com a dona da perfumaria, pessoa muito habituada a fornecer todas as elegan- cias de toilette! A direcção é D. Emilia — Rocio, 101 — Perfumaria — Lisboa. Quanto á caspa, é muito facil de tirar ia- vando V. Ex.º a cabeça com dois ovos. — E passando, depois de muito bem esfregado o cabello com os ovos, a cabeça toda com agua morna até sahir a agua limpa! — É preciso, po- rém, ter depois o maior cuidado em não apa- nhar ar sem ter a cabeça e o cabello perfeita- mente enxutos. E para evitar a queda do cabello (que em geral cahe e torna a nascer a toda a gente eo melhor é não pensar nisso) para evitar pois a queda do cabello, unte V. Ex. a pelle da cabeça com oleo de ricino e oleo da matta, 15 grammas de cada oleo, n'um frasco, com uns pingos de perfume. Agita-se o frasco antes de usar e verá o bem que faz. E faça V. Ex.º a diligencia de não pensar no cabello. Não se ha de arrepender. Bisora. — O dr Anselmo da Conceição, um dos nossos mais espirituosos jornalistas, lia no futuro — Luiza trata só do presente e só se interessa pela côr do cabello e rosto das suas consulentes, quando tenha de dar, sobre qual- quer toilette, a sua opinião. O perfume que deve usar é aquelle de que mais gostar. — O que agrada a umas pessoas desagrada a outras. A toilette conforme a oc- casião a que a destina. Livros segundo o estado e a edade; já tive, em conversa, occasião de, n'esta mesma sec- ção. o dizer és minhas consulentes. Maria ANTONIETTA. — Pó para as unhas peça V. Ex* para a perfumaria que n'este mesmo consultorio recommendo a Angela. Tem tudo o que ha de melhor, de mais fino e em conta. O perfume da-moda dizem ser a Aqzuréa. Os laços no cabello ficam sempre bonitos em veludo preto. De côr e em gase, só no thea- tro e em toilette. Ou então em soiree. Para a queda do cabello veja V. Ex. a re- ceita que dei a Angela e é provada. Póde usal-a certa da sua eficacia.

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114 OS SERÕES DAS SENHORAS BrunxeTTE. — No proximo numero enviarei a resposta. Acho muito gentil a sua cartinha e fran- queza. Não se ha de arrepender. Assim é que eu gosto das pessoas, despidas de vaidades e sendo elegantes dentro da modestia dos seus meios. Tudo mais é ridiculo e é feio! ApELINA. — Para tirar a vermelhidão do rosto : Mandar ferver, em banho maria, 120 gram- mas de oignons de lys em 500 grammas d'agua até ficar reduzida a um copo. Côa-se, Banha- se o rosto e deixa-se seccar sem limpar, tendo o cuidado de pôr uma toalha fina por deante do rosto, para evitar um golpe d'ar. Ernestina. — O chapéu é da casa Machado e Ferreira — Rua Nova do Almada, 59-61. Muito estimei que V. Ex.º gostasse do preço e da escolha. Luiza deu as indicações e pelo que me diz, satisfizeram plenamente. E já V. Ex." póde, sempre que quizer, dar para lá as suas ordens. Isto sem querer desobrigar-me de ser agra- davel no que poder a V. Ex." D. AmeLia ImaGinariA. — No mez de janeiro vão os moldes que V. Ex.º pede e a resposta. Luiza. Itotas da dona de casa REMEDIO PARA AS FRIEIRAS É costume dizer-se que só o pó de maio é que pode cural-as. Pois ahi vae uma receita, que tem dado ex- cellente resultado a pessoas das nossas rela- ções que a teem applicado. O remedio produz ainda melhor resultado se se empregar como preservativo. Sabemos de uma senhora que tinha frieiras todos os invernos e que está livre d'ellas este anno, porque apenas começou o frio tratou logo de usar o medicamento, que é muito em- pregado em Hespanha. Tem um inconveniente: é deixar os dedos um pouco encardidos. Mas quem, por mais presumido que seja, não preferirá isto a pa- decer o terrivel mal das frieiras, que ás vezes produzem até deformações permanentes nas juntas das phalanges ? A receita é a seguinte e deve ser aviada em botica de confiança, para que o remedio fique bem crystallino : ] Balsamo do Perú ..... 4 grammas AI COO Levine mini mto selo O » “Acido chlorhydrico 3 » Tintura de benjoim... 4 » Esfregam-se bem os dedos com este liquido ao deitar e sempre que se lavarem as mãos. Esperamos receber muitas cartas de agrade- cimento, especialmente das nossas leitoras da Beira, Traz-os-Montes e Alemtejo. LUZ PARA QUARTOS DE DOENTES A todas as pessoas que desejam conservar uma luz mortiça no quarto de um doente aconselhamos o seguinte : Faz-se um saco de crochet no qual se mette uma tigella. Esse saco, pendura-se por um.

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OS SERÕES DAS SENHORAS 115 cordão ou fita. Arranja-se um pequeno trian- gulo de estanho e enterra-se uma pequenina rolha a cada canto, para o triangulo se con- servar boiando por cima do liquido. Faz-se um furo ao meio do triangulo d'uma largura suficiente, para que se possa lá metter uma vellasinha. Enche-se a tigella meia de agua, com uma mistura de agua de rosas ou essen- cia de violetas, em seguida enche-se a tigella até acima de azeite, e accende-se o pavio. O resultado é espalhar-se pelo quarto uma luz muito suave, e o ar fica perfumado e agrada- vel para se respirar. Para o mesmo efeito ha uma outra luz, feita d'outro modo, mas tambem facilima de se arranjar. Pega-se n'um bocado de vella, e aquece-se um preguinho de arame, o qual de- pois de quente se enterra pela vella acima. É preciso que entre mesmo pelo centro da velia para a conservar bem direita dentro da agua. Enche-se o copo meio d'agua, mette se dentro a vella, e accende-se. Quanto mais a vella arde, mais leve se tor- na, e vae-se levantando na agua á medida que vae ficando mais curta, até que arde de todo e deixa cair o prego no fundo do copo. Esta luz, apezar de não ser tão suave como a outra, é no emtanto boa para quartos de doentes. CUIDADO COM O CALÇADO Nunca se deve forçar o pé ao uso d'um sa- pato muito apertado; não ha nada mais afHli- ctivo que ter os pés doridos. Nunca se engra- xam os sapatos sem primeiro os ter limpado com uma flanela, e em seguida com vaselina Não se devem deixar nunca ao pé do lume. O melhor meio de os seccar é enchel-os de aveia depois de engraxal-os, pol-os n'um sitio. quente, e a pouco e pouco seccarão sem mu- darem de feitio Lavam-se com um panno molhado pelo me-. nos uma vez por semana, e põe-se oleo á noite para os conservar. Com sapatos novos não se devem usar galochas, e em tempo de chuva usam-se sapatos velhos mas fortes, para impe- dir que lhes entre agua. A MELHOR ALIMENTAÇÃO Todos os dias, a mulher precisa comer 75 grammas de alimentos compostos de carne, e 220 grammas dos outros alimentos, emquanto. o homem precisa para seu alimento 150 gram- mas de alimentos compostos de carne e 300. grammas de alimentos diversos. Eis uma lista dos melhores alimentos: Car- ne, leite, pão, ervilhas, lentilhas, favas e fari- nha de aveia. São principalmente os que con- teem gomma, como o arroz, tapioca, sagú, etc. Os vegetaes não sustentam senão comidos em. grandes quantidades. Entre as fructas, as peras e as maçãs são as. que alimentam mais. BACILLO DO AMOR CONJUGAL (Ampliado Soo milhões de vezes)

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110 OS SERÕES DAS SENHORAS MELÃO RECHEIADO Eis uma receita que encontramos n'um jor- mal francez, e que nos faz realmente crescer agua na bocca: Pegue-se n'um bom melão, e faç abertura circular em volta do pé. Tirem-se as pevides, tendo o cuidado de não atacar a polpa. Depois introduzam-se alternadamente no me- lão duas colheres de assucar e uma camada de morangos, até ficar cheio. Deite-se depois para dentro um pouco de vinho de Bordeus (é de suppôr que o Bucellas, por exemplo, o substi- tua sem grande desvantagem). Tape-se her- meticamente o melão com a parte que se lhe arrancou, e deixe-se marinar durante vinte e quatro horas n'um sítio bem fresco. e-lhe uma CONTRA O CARUNCHO NOS MOVEIS N'um litro d'alcool de sublimado corrosivo. Esfregam-se os mo- veis com um pincel, fazendo penetrar bem o liquido na madeira, tornando a fazer a mesma operação tantas vezes quantas fôr preciso. deita-se um gramma CUIDADO COM AS LUVAS Na compra das luvas, esse accessorio tão importante do vestuario feminino, é preciso ter sempre paciencia para escolher até acer- tar bem. É melhor systema dar a mão para medida, e mandar fazer de encommenda. Quando não se provam as luvas na loja, de- vem-se abrir em casa, antes de se usarem, com o instrumento proprio, o qual alarga os dedos um por cada vez. Tendo-se esse cuidado, quando se péem as luvas pela primeira vez, conservar-se-hão mais tempo sem perderem o feitio. Nunca se devem tirar as luvas, puxando-as pelas pontas dos dedos; a melhor maneira de se tir arem é pelo canhão, voltando-as do aves so. Depois de sacudidas e dobradas, guardam» se n'um papel apropriado, que, pelo menos lá fóra, se vende iá para Nunca se devem comprar luvas apertadas; sse fim. não é bonito vêr a mão atrophiada dentro d'uma luva pequena demais para o tamanho da mão. LUA DE MEL