Seroes Revista Mensal Ilustrada 1901 N01-08
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REVISTA MENSAL ILLUSTRADA SUMMARIO SACRA FAMILIA. — AMANHÃ. — VI- SAO DE DUENDES — MARTYRES. — DE LISBOA A MOGAMBIQUE.— RO- MANZA. — ENTRE DUAS REVOLU- ÇÕES. — PORTUGAL DO SUL. — A TOR- RE DE LONDRES. — LAMPADAS DE EN CANDECENCIA. — O PREÇO D'UM QUADRO. — MODAS. -- VARIEDADES. | VOL, " DEZEMBRO — 1901 NUM. 8 E | Administração: 7, Calçada do Cabra, Lisboa Preço 200 réis ] S
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SACRA FAMILIA. — Com 2 gravuras, copias de quadros... EEE re AMANHÃ. — 2or AneL BoreLHO. ER tn d'um livro) — Com 3 ilustrações de ROQUE GAMEIRO . ..... E TR eg E A RESETAR LP 69 VISÃO DE DUENDES. — Com ; iiadedder INGESTA LS Ar cara er 77 MARTYRES. — Erisonio DA PERSEGUIÇÃO DE DIOCLECIANO. — Por T. Lino D'Assumeção. — Capitulo IV — A pompa DE CERES. — Capitulo V— An- TIOCHIA. — Com 3 gravuras, copia de photographias ....ccenero cererers É 81 DE LISBOA A MOÇAMBIQUE. — 207 Antonto EnnEs. — Capitulo VIII. — Mo- y CAMBIQUE, A VIDA, O BATUQUE DAS FACAS. — (Continuação). — Com 2 gra- ; vuras, reproducções de photographia. ....ccuecenennenees 87 1 - ROMANZA. — Musica. — 7or Ap. BRINITA.. ......: Ep PERES 94 Dança Campestre. — Quadro de P. P. RuBens 98 ENTRE DUAS REVOLUÇÕES. — (18,8-1849). — Por BarBosa Ee — a gmento dum livro). — Com 3 retratos, copias de photographias.. «uv. ? 9%. PORTUGAL DO SUL. — Asprcros DA ciDADE DE Lacos. — Com 11 gravuras, copias de photographias sicieis ue una céu remanni can a nene : 105 + "A TORRE DE LONDRES. — Mysterios DA mistoRIA. — ab 6 aa ; mo “Tarde de inverno. — Quadro de L. E. ADAN ....cccccscesers 10, “LAMPADAS DE ENCANDECENCIA. — Com 8 ilustrações 121 O PREÇO D'UM QUADRO. — Com 1 gravura, copia d'um quadro. 12518 NODAS:="C5772-2usirações desce cria o ms pai cas É Voa alo va DO vira o 070 aq ua a falo Ceia VARIEDADES. — MEmentTO ENCYCLOPEDICO. — PHOTOGRAPHIA PRATICA. — PRO- IX BLEMAS ......cceseecs ceu. . 47 GRAVURAS CONDIÇÕES D'ASSIGNATURA Os senhores assignantes de Lisboa c do Porto podem satisfazer o preço do numero * no acto da entrega ou pagar serie adiantada de 12 numeros, tendo nºeste caso a reducção | - do preço a 2$200 réis, o que equivale a receber gratnitamente um numero da serie. Os senhores assignantes em qualquer outra terra do paiz poderão inscrever-se por 3 numeros . 500 Series de ) 6 numeros . - 18200 12 numeros 228200 “remettendo à administração dos SERÕES, em Lisboa, Calçada do Cabra, 7, a respectiva importancia directamente. O diminuto preço d'esta revista não supporta o encargo de cobrança pelo correio. Typ. e impressão dos Serões, C. do Cabra, 7 Editor. Thomaz Rodrigues Mathias
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À SANTA FAMILIA DE FRANCISCO 1. — QUADRO DE RAFFAELLO SANTI
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A Virgem E Jesus — Quanro DE PALMA VeccHIO SACRA Para aquelles que no intimo da consciencia ab; crença, este periodo do anno tem um suave encanto na r tas contaram para os simples que sabem ter, FAMILIA igam cuidadosamente as consolações da x rdação da historia que os evangelis- e, na sua imaginação, mais ou menos vibrante, reapparecem os personagens que compõem 'o divino drama desde o estabulo de Bellilem até 0 martyro do (rolgotha, e dos quaes a santa familia, como a de todos os lare sustenta todo o afecto reflectido que vence e esmaga o mais rude egoísmo. Para esses se oferecem as reproduc- (ões dºarte religi ARA memoração opportuna da época em que se vae public ando esta revista, re- produzem-se tres quadros de mestres da pintura, representando o assumpto que encima, como titulo, este artigo. Quem per- corre os museus da Europa ou consulta os catalogos das obras d'arte, reconhece desde logo a predilecção particular que o agrupa- mento da familia santa tem merecido à ins- piração artistica dos pintores christãos. São innumeros os quadros que procuram repre- sentar todos ou alguns dos membros da fa- milia que o novo testamento designa como paes, parentes ou intimos do divino Jesus. Era natural: não só a procura do genero im- pulsionava a producção dos pintores, chama- dos a decorar egrejas, capelas, claustros, ca- thedraes, mosteiros ou estabelecimentos pie- dosos, e portanto constrangidos a escolher x, sem commentarios eruditos; que, no diz «do grande poeta Guerra Junqueiro, os da voss'alma a vossa crença antiga como quem roubasse a uma meúidiga s achas que leva à noite para o lar Roubai umptos apropriados; como tambem os ideaes christãos enchiam plenamente a ima- ginativa artistica. Apenas na sua reproducção se reflete atravez dos seculos a comprehen- são diversa d'aquelles acontecimentos reli- giosos, se espelha a caracteristica feição da época em que o quadro foi produzido. Assim, cada figura dos painei , à Virgem eo pequenino Jesus, como principaes, S. José, Sant'Anna, Santa Isabel, S. João, como com- plementares, tem uma feição propria sob o ponto de vista artístico, approximando-se ou afastando-se da natureza ou da verdade en- trevista, consoante a inspiração propria do mestre pintor em lucta porfiada com a repre- sentação exacta, e nunca conseguida, do su- premo ideal divino. Transpôr para a téla as fórmas cuidadas dºuma creança, atravez de cujo olhar se des-
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68 cubra a sua divina origem, cujo sorriso sur- prehenda na graciosidade natural da inno- cencia a extranha bondade redemptora ; ou fixar pela côr e pela fórma o maravilhoso ideal, complexo, inexplicavel da Virgem, não é intuito facil de conseguir. Ha numerosos quadros onde está symbolicamente represen- tada a Mãe do Christo, na pureza e correc- ção das fórmas, na belleza impeccavel da mulher, na simplicidade do adorno ou na riqueza expressiva das vestes, na suavidade das côres; nenhum quadro ha, porém, onde se veja, apesar da mestria do pincel, da des- treza dos processos technicos e da pujança de concepção artistica, a Mãe d'um Deus. São maiores ainda as difficuldades para realisar a imagem do pequeno e dôce Je- sus. Comprehende-se que na cabeça d'um Christo a mais requintada e superior arte possa imprimir caracteres sufficientemente suggestivos para despertar toda a visão da vida excepcional do meigo revolucionario da Galilea; mas no pequeno corpo d'uma crean- ça recemnascida ou de poucos annos, o ar- tista póde attingir a suprema perfeição de verdade para uma creança, não o póde conse- guirn'uma creança predestinada a tão glorioso Serões sacrificio, separado desde o nascimento na tradicção religiosa da vida terrena. E” extre- mamente curioso o estudo das evoluções que na pintura vae soffrendo este ideal, como en- sinamento de arte, como documento dos tem- pos e dos costumes, estudo que n'este momen- to não se emprehende, porque apenas se pro- cura acompanhar as tres ilustrações propo- sitalmente escolhidas para demonstrar pro- cessos e concepções bem distinctas. O quadro do inexcedivel Raphael, deno- minado a Santa Familia de Francisco 1, foi oferecido à rainha Claudia, mulher d'aquelle rei, em 1518, pelo papa Leão x; harmonioso na composição e no colorido, apesar da bel- leza correcta dos personagens e do encanto gracioso do pequeno Jesus, não é, todavia, esta a obra prima onde a comprehensão re- ligiosa foi mais justamente revelada pelo ge- nial pincel do sublime mestre, mas é comtudo uma das mais admiradas. O quadro de Botti- celi, representando a Virgem e Jesus, attribuin- do a expressiva composição à soberba e sug- gestiva oração da Magnificat, e definindo o caracter da pintura na época, em que floresceu o bello e primitivo mestre, ainda cauto e te- mente da tradicção liturgica, remata a me- moração artistica do mez. A Maentricar. — QuaDRO DE SANDRO BOTTICELLI
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CONTECIA que Adriana nos seus matu- A tinos passeios procedia agora por forma que quasi quotidianamente havia de vêl-a o Matheus. Declinára até ao minimo ha- bitual de cada anno a extensão das manhãs; cada vêz mais tardio era o romper do sol da envaginadura hiemal dos nevoeiros; e apezar disso a patricia figura da irmã de Jorge no parque era com o seu vestido branco inva- riavel commentario aos primeiros alvores do dia. Custava-lhe isso o exforço de violentas madrugadas, que, por serem um pouco fóra da razão e do habito, D. Mafalda Meyrelles não deixava de extranhar. Mas Adriana in- sistia — que realizava assim um grande pra- zer seu, que obedecia apenas ao espontaneo calor do seu desejo; e como, ao dizel-o, to- mava a mais encantadora e convincente ex- pressão o mysterio infixavel dos seus labios, e como, além d'isso, era sempre irreprehen- sivel o seu porte, e isentas sempre taes ex- cursões de toda a leviana suspeita, as amo- raveis advertencias dos paes logo amainavam, deixando limpo e livre avoejar o capricho da mimada creança. O certo é que o Matheus raro sahia agora, de manhã, de casa em direcção à fabrica, que um momento não sentisse perto, rabe- jando pelos residuos soltos do matto, ou inundando os raleiros de arvores d'um fu- gidio clarão de alvorada, a linha já familiar Paquella grande figura branca. E a dôce frequencia destas apparições, de principio Do novo livro (edição de Lello, do Porto) que Abel Botelh na, 0: ranado, enfe sa, convencional, enredadora cont Nexiva, agora publica sob o titulo que encima esta pa, lo, onde um episodio sentimental, delicadamente fil encia da actual sociedade artifi sinceramente generos cerces de justiça ou de interes. e confiado que procura remodelar o exi es. Por elle se podem aquilatar os primores de estylo e soe mi mg ni por ABEL BOTELHO fortuitas, fazia-lhe bem, converteu-se n'um habito, n'uma das reclamações egoistas do seu querer. Tornaram-se-lhe em breves im- prescindiveis; eram a antecipada benção do seu dia, a ablução matinal da sua alma. Já perturbado as procurava com amor; já não era senhor de tomar pelo carreiro que o con- duzia à fabrica, sem que o senhoreásse o supersticioso receio de não vêr allumiando- lhe o caminho essa ephemera visão estre- mecida. . Foi por isso que, com o volver dos dias, elle agora antes de sahir, por mais mau tempo que estivésse, não se esquecia nunca de ir antes abrir a janella da sua ca- sita de entrada que defrontava com o solar do Almargem. D'ahi erguia interessadamente ao massiço quadrilongo a vista, a indagar se a janella da ultima saccada da esquerda já estaria aberta. Se estava, dava-se pressa em sahir; senão estava, aguardava religiosamente, marruaz, invisivel, que a verificação d'esse si- gnal lhe garantisse depois fóra, no parque, a correspondente collisão da sua alma com aquelle meteóro fugaz e necessario. E tam- bem, antes que sahisse, olhava-se cuidado- samente, afeiçoava em erguidas projecções o bigode algodoado, escolhia gravatas, alisava o cabello, punha, em summa, um ingenuo garridismo, um escrupuloso esmero no tra- jar, a que d'antes era por completo rebelde o seu espirito. E os seus modos para com o pessoal da fabrica haviam experimentado egualmente uma modificação sensivel; como omancista de imaginação potente e de observação re- RÕES O/ferecem aos seus leitores O PRIMEUR dum Capitu- ça à intenção geral do estudo que a obra desenvolve: o advento do moderno ideal naturalista, não destruil.o para edificar sobre novos ali- conceilo que 0 livro encerra. ente,
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7o se a piedosa tendencia do seu coração ti- vésse augmentado, e generoso quizésse re- partir com os tristes e os humildes um pouco do clarão de felicidade qne o inundava. Ora aconteceu que um dia, já passado o Natal, o contramestre sahiu de casa no mo- mento exacto em que na orla superior da pequena clareira, ali mesmo a dois passos delle, apontava resoluta e agil, talhada com um vigor de agua-forte no emmolduramento negro do arvoredo, a dominadora figura de Adriana. Nunca, depois do breve colloquio com ella na fabrica, a tornára a encontrar; nunca mais a tivéra tão proxima de si. A inesperada apparição ensopou-lhe os nervos d'uma delicia infinita, immobilisou-lhe a ex- pressão n'uma beatitude alvar. E logo lhe dava rebate na consciencia uma surda con- trariedade... Tinha de lhe fallar forçosa- mente, a menos que não quizésse ser to- mado pelo ultimo dos selvagens no conceito d'aquella creatura divina. Sim, fallar-lhe. .. E esta idea acobardava-o. O fogoso e audaz agitador, o caudilho vehemente das multi- dões, sentia toda a sua energia esbarrondar- se perante esta delicada figura de mulher. Tinha que a ir comprimentar, era forçoso ; mas uma contractura instinctiva de defêza pregava-o no mesmo logar, fazia-o de ante- mão revoltar-se contra o desempenho d'esse dever banal. Entretanto, depois d'uma hesitação, adean- tou-se, de cabeça descoberta e apertou a tre- mer a mão longa e branca que Adriana fa- miliarmente lhe estendia. Ao tempo que bal- buciava: — Folgo immenso de ter encontrado v. cx.?, para lhe dar finalmente contas da in- cumbencia que me fêz... — O que foi?. .. —interrogou distrahida- mente Adriana, espelhando nos olhos vagos um simulacro perfeito de alheamento altivo. — A sala, lá em baixo, que v. ex.º tão ju- diciosamente queria aproveitar. . . — Ab, sim... — Está prompta. — Muito obrigada ! — E agora realmente... aguardo ordens... não sei que mais dêva... — Nem mais pensei em tal... commode. Verei depois... E, dizendo e cortejando levemente, n'um movimento alto e brusco, quasi desabrido, Adriana sumiu-se entre o arvoredo, deixando vexado e aturdido o contramestre, que, na sua virginal ignorancia da tactica feminina, agora se increpava violentamente, acoiman- do-se de desastrado, convencido de que a melindrára, certo de que se excedêra, e de que fôra talvêz pela sua extemporanea dili- não se in- Serões gencia annullar para sempre aquella inno- cente embriaguez de cada dia. Oh, como dolorosamente o trabalhou, todo o dia, toda a noite, esta aguda e terrivel sus- peita! A cada hora, a cada instante, por en- tre o travamento dos negocios, no mais grave momento de suas preoccupações industriaes, o mortificante receio vinha e contra o seu querer insinuava-se-lhe no cuidado, empol- gava-o, distrahia-o, tomava-lhe conta da von- tade, era a tyrannica obsessão do seu espi- rito, fazia-lhe aflictivamente galopar no peito o coração. Que atormentados minutos, que duras e crueis alternativas de febre e des- animo, de remorso e duvida, aquella alma virgem de namorado sentiu então ballotina- rem-lhe, como um brinquedo infantil, as mais apartadas e fundas radiculas do seu ser! Ora se odiava, como um renegado confesso, na abominação consciente da sua fraqueza; ora dôce e voluptuosamente se abandonava, no alado calor da esperança, à contemplativa evocação da sua miragem, ao saborido do- minio do seu sonho. Por esta forma atropellada e incerta se lhe arrastou interminavelmente o dia. Com a morte na alma, esperou, esperou... Feliz- mente na madrugada seguinte a branca appa- rição não faltou ao programma habitual. Com uma pontualidade de astro, aos primeiros al- vores da manhã ella ahi veio riscar, serena e rutila, por deante do Matheus, a imprescin- divel trajectoria no abrazado céu do seu de- sejo. Mas sempre longe outra vêz, retrahida em meteóricas fugas, como um bolide perdi- do, vagamente accendendo apenas os inter- vallos das arvores, o saibro breve dos carrei- ros, no seu rasto ephemero, no fugídio dese- nho, sobre o carvoamento humido da manhã, da sua orbita de luz e de ternura. Até que, —n'um lindo dia de inverno, co- mo a felicidade brunido e claro, — tornou novamente o Matheus a defrontal-a perto, na pequena clareira que lhe circuitava a casa. E desta vêz a cavallo, egualmente sósinha, airosa e firme sobre um nervoso alasto mor- dicando o freio com orgulho, mais fina ainda, mais adelgaçado e ennobrecido o busto on- deante dentro do seu negro vestido de ama- zona, quasi roçagando em prégas esculptu- raes, a terra. Mal que ella sentiu apontar no limiar da porta o Matheus, saltou lésta do. cavallo, com toda a apparencia de quem o não vira, mas por forma que elle a visse mui- to bem. E, com a mão direita nas rédeas, uns instantes circumvagou o olhar em volta, in- quiritivamente, n'uma expressão que era um mixto de extranheza e de arrelia. Depois, na mais perfeita affectação de quem se suppu- nha só:
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e dá oqte Gameiro «de mãos inconchadas formando estribo, iunto aos pés de Adriana... — Francisco ! Francisco! ó Francisco! — a espaços exclamou. Continuando, contrariada, vagamente affi- cta, a rolar pela ofla da clareira os olhos sé- rios. Viu-se o contramestre fatalmente obriga- do a intervir. E vencendo a timidez, direito a Adriana, cortejando : — V. ex. precisa de alguma coisa 2 — Ah, o snr. Matheus ! estava ahi?... — correspondeu logo ella, voltando-se, com a maior naturalidade. — Não o tinha visto, des- culpe. E, muito affectuosa, para lhe estender dois dedos da mão esquerda, soltou por um mo- mento a cauda do vestido. Enardecido pelo acolhimento, o Matheus tornou: — Se em alguma coisa lhe pósso ser util... Com um sorriso cortêz, Adriana continua- va vagamente a olhar. O contramestre insis- tiu: — Mas, por Deus! o que é que a aflige? .. Mande-me no que quizér ! E — Sabe?... — disse porfim Adriana. — E que.. a manhã está um pouco fresca de mais... e este maroto muito folgado ! — Por um impulso da mão direita, que não largava
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72 o bridão, sacudiu a cabeça ao animal, que fitou as orelhas de espanto. — Extranho-o hoje, fatiga-me. E arrefecêram-me os pés .. Queria continuar o meu passeio, agitando-me toda, andando. Queria que o Francisco le- vásse o cavallo. E a unica pessõa por quem elle se deixa conduzir à mão. Mas não o vejo! — Vou chamal-o .. —Mas aonde 2... Tinha ordem de me seguir; não posso saber onde se metteu. Ora esta ! E vergastava a saia com impaciencia. Por- fim, como quem toma uma resolução, sacu- dindo os hombros : — Bem, o remedio é eu seguir com o ca- vallo. — Fêz pausa e, novamente perplexa : — Mas como heide cu aqui montar ?... O Matheus, inlevadamente, cravou n'ella, n'uma grande concentração espiritual, os olhos, que illuminou um relampago jocun- do, emquanto a mais dulcerosa emoção lhe pregava os labios, e se lhe ensopava a face n'esta pallidez de ambar que lustra os mar- mores antigos. Depois, sem ferir palavra, fi- tando-a sempre, adcantou-se, e com uma gentilêza medieval, de mãos inconchadas formando estribo, junto aos pés de Adriana, galantemente, ajoelhou. — Mas, snr. Matheus ! o que é isto? o que é que o senhor faz ?... — acudiu com viva- cidade Adriana, levemente ruborisada, no mysterio infixavel dos seus labios correndo um risinho de triumpho. — Não tem geito nenhum! E o culpado foi aquelle Francisco. Parece impossivel! E tornava a olhar impaciente o carreiro que conduzia ao solar. Mas o Matheus, sem- pre na mesma attitude, sempre sem arriscar uma palavra, alongou os braços como numa supplica, ergueu mais as mãos. A termos que finalmente Adriana, subjugada : — Pois não tenho outro recyrso senão uti- lisar-me da sua amabilidade. E um perfeito pagem de occasião ! Agora, emquanto arpoava com a mão di- reita a forquilha, confiava o pé ao carinhoso apoio das mãos do Matheus, e formava o salto apoiando-se-lhe no hombro, o seu forte riso peculiar estalidou, crystallino, triumphan- te. E, ao cahir na sella: — Muito obrigada ! Fustigou a garupa do cavallo, que partiu ás upas: ao tempo que o Matheus descia va- garoso à fabrica, preoccupado e sombrio, ver- gado a uma mordente humilhação e olhando cauteloso em volta, como se houvésse perpe- trado um crime. A lembrança, o cuidado, o amoroso respei- to de Adriana absorviam-n'o mais do que con- Serões vinha. Estava-se sahindo um piégas, quando tinha vindo para ali um revoltado. Phantasiá- ra installar-se n'aquella fabrica para dentro d'ella tenebrosamente urdir, e fazer deflagrar depois por toda a cidade, um largo e provi- dencial plano de vingança, e eis que arrelia- doras causas, alheias ao seu querer, se apos- tavam em contraminar-lhe o exforço, em bal- dar do seu ideal a febre ardente e generosa. Não tinha geito nenhum ! De principio não dé- ra elle importancia áquella diversão innocente; parecia-lhe que em nada podena tão inoffen- sivo parenthesis abrir continuidade na solidez estructural da sua obra. Mas com alvoroço re- conhecia agora o contrario ; tinha de pôr-se em guarda. Era forçoso parar. À acção entor- pecedora e deprimente d'essa preoccupação feminina reconhecia-a elle agora, quando ten- tava reagir... A gente do Almargem, n'aquelle dia, achou-o como nunca brusco e intratavel. Cor- tou de longe a entrada, para evitar os preten- dentes, atravessou rapido as salas, mudo e de sobrecenho, quasi sem fallar a ninguem. Na officina das mules o encarregado, o velho Tobias, fisgando-o com difficuldade, chaman- do-o à parte, renovou as suas queixas contra o Lourenço; — que continuava sendo um calmeirão, um indisciplinado, um ralaço, não se fazia bem delle, custava muito a aturar. O Matheus mandou-o ir ao escriptorio, e summariamente, insensivel a rogos, inabala- vel perante umas vagas nuvens de ameaça, fêz-lhe contas e despediu-o. E na fabrica nin- guem mais n'aquelle dia o viu. Encerrado muito cêdo em casa, no meio dessa atmosphera de protecção feita pela condensação estratificada do seu pensamento, a sós com a sua consciencia, junto dos seus livros, protestou furtar-se por completo ao amavioso influxo de Adriana, couraçar-se contra essa voluptuosa fraqueza por onde ten- tava talvez o amor abrir traiçoeira brecha na sua alma. Assim deu-se a evital-a, tomava cada dia por atalhos differentes, entrava, sahia de casa a horas caprichosas; e foi com uma sincera retracção de contrariedade que, passados al- guns dias, e quando à hora do descanço se dirigia a casa, no caminho elle divisou Adria- na, sentada, muito attenta ao trabalho do jardineiro junto a um canteiro de flôres. — Vestia um sóbrio vestido inteiro, de guipura, toda em entre-meios de sêda levissimamente azul, que em diagonal partiam, muito juntos e parallelos, formando angulo, da cintura aos lados; tinha aos hombros uma pequenina capa de lã de camelo, com cabeção stuart ; e a sua vigorosa cabeça, nua e altiva no ar cor- tante, desdobrava com arrogancia no espaço
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Amanhã o rôlo farto e livre do seu cabello castanho. Agachado e curvo deante d'ella, o velho jar- dineiro sachava com cuidado, a desembara- çar e limpar as violetas do enxurro das ulti- mas chuvas. — Mal que a viu, quiz o Ma- theus retroceder, furtar-se, eliminar-se; mas era tarde... O jardineiro passára n'aquelle momento das violetas a cuidar das roseiras, mais acima; e os olhos de Adriana que, acompanhando-o se erguêram, déram então com a linha rebarbativa do contramestre, a quem ella naturalmente despediu muito affa- vel, um convidativo sorriso. Não havia remedio . Muito sério, deva- gar, o Matheus aproximou-se, cortejou, tro- caram-se as saudações de habito, houve um trivial aperto de mãos. E logo Adriana, a desfrisar-lhe a hostilidade da attitude, advi- nhando-o : —Mas que é isso?... Sempre sério, ap- prehensivo, sempre avergado ao trabalho! —E? a minha obrigação... — redarguiu baixo o Matheus, de olhos à terra e sorrin- do tristemente. — Deixe um momento os negocios. Isso nem lhe faz bem. .. O proprio Deus descan- çou. A vida tambem é p'ra gosar. —Cada um gosa a seu modo, minha senho- ra — tornou com uma expressão Singular o Matheus, com um frio de aço lampejando na sombria noite das pupillas — Eu vou assim muito bem! E dispunha-se a partir. Mas Adriana interrogou-o ainda, mimada- mente, com a mais dôce expressão nos olhos e um superlativo de graça no plexo central dos labios menineiros : — Gosta de flôres? Ainda arisco e duro, com philosophico desdem, o Matheus retrucou : — Acho agradaveis Lisonjeiam-me, uma ou outra vêz, a vista — Sempre, não?... — Só quando tenho tempo para attentar nºellas. — Não tem bom gôsto. - —E' que, habitualmente, a minh'alma é insensivel ás solicitações banaes do mundo exterior. Nem dou por ellas, creia-me! E, assim mesmo, ainda às vêzes me preoccupam mais do que eu quizéra... —Não o percebo... O quê!? pois então perante um dia assoalhado, perfumado e lindo como o de hoje, n'uma hora como esta, não vê, sinceramente, não vê, não sente nada do que o rodeia? E, dizendo, Adriana erguia e cravava com amor nos olhos sombrios do Matheus a azei- tona avelludada dos seus olhos. —0O que é que eu hei-de vêr?... —sus- 73 pirou este alheadamente, já sem força para arredar-se d'alli, encolhendo os hombros. — Por exemplo, agora sei, calcúlo que aqui mesmo em volta de nós desdobra victoriosa- mente as suas harmonias pagãs a Natureza... toalhas de luz, ondas de perfumes, um ca- briolar estonteante de côres, as mais admira- veis symphonias de tons, fragrancias, canti- cos. Mas que me fazem, que me importam a mim todas essas futilidades do exterior ?.. Tudo isso é para mim como se não existisse ; não vejo, não sinto nada! — Diz isso por pose. . — Não digo, não, minha senhora. — E' uma original presumpção. — E” a pura da verdade! Adriana sentiu instinctivamente que não levava a melhor, no melindroso torneio em que se embrenhára; mas decidida a ganhar a partida, na sua querençosa altivêz estimu- lada, teve um saccudido desempeno, cheio de airosa decisão, e ergueu-se soltando este remoque de piedosa censura: — Dir-se-hia que não tem coração! — Conforme. . . — arrastou, semprena de- fensiva, o Matheus. — Não, isso é que não tem dúvida nenhu- ma! —Adriana insistiu. — Fracos são os meus conhecimentos, mas mesmo assim avalio muito bem que esta coisa da methaphysica é a região polar da phylosophia, pois não IRA — Abanava o Matheus negativamente a ca- beça. — A abstracção é para o homem o que é para a terra o gêlo. Alma que no exclusi- vismo espiritualista se perdeu, ressicou, mor- reu para a vida. . e a sua, meu caro snr. Matheus, não está n'esse caso! — Pósso ser um espiritualista e sentir viva- mente as coisas. — Tenha paciencia, isso é que não póde ser! Insensivelmente, tinham os dois agora de- satado a andar, lado a lado, vagarosamente, subindo irmãos e amigos o sinuoso declive do carreiro. E n'uma familiar insistencia, Adriana: — O sr. vae rir-se d'este meu inquerito mas é que eu sou naturalmente curiosa, ando ávida sempre de bons ensinamentos, e com os homens superiores é que é aprender. — O' D. Adriana, por amor de Deus! — atalhou o contramestre, curvando-se, con- fundido. — Bem, bem, deixemo-nos de falsas mo- destias, incompativeis com a tal sua preten- dida isenção.. objectiva, e responda-me, como quem se confessa. Quer-me então con- vencer de que, sendo um homem sensivel como é, não ama, ou nunca amou? .. — E' o caso de eu repetir: conforme. .. — tornou, sorrindo ironico, o Matheus.
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74 — Não é com taes subtilezas que me es- capa, — obtemperou com intimativa Adria- na, alongando na sua imperiosa linha recta os cilios. — E” claro que me refiro ao amor por uma mulher. — Deus me livre! — Porquê?. . —fez Adriana com deci- são, parando. — Porque o amor individual, — acudiu logo o Matheus, — é uma das fórmas do egoismo, e como tal um sentimento bastar- do e mesquinho, que degrada o homem... que é indigno de mim! E lantado, firme e austero, deante della, ' W olhavato com os seus implacaveis olhos de aço, fascinadoramente. «Matheus desenriçava o vestido de Adriana... Serões — E ainda o senhor não quer que eu apre- gõe a exactidão d'aquella minha theoria? Ve- ja bem em si mesmo aplicando el cuento. pôz-se de mal com as formas, os sons, as cô- res, e desterrou o coração para a Siberia ! — Devemos amar, sim! mas collectiva- mente, a humanidade em globo, com um fim util em mira. — Que massada que isso era! — Amar como Jesus amou... Por fórma que o amor seja não só um estheniante pra- zer para nós, mas para os outros uma fonte perenne de felicidade, um bem, um estimu- lo, Podesse eu! n — Tem pensamentos extra- nhos, sabe ? —balbuciou Adri na com carinhoso interesse. — E eu queria pedir-lhe... — O quê, minha senhora ?-— acudiu solicito o Matheus, que, com galanteria curvado, desen- riçava o vestido de Adriana d'um dos arbustos do cami — Olhe que é uma co to banal, muito comesinha tam- bem... Não se indigne ! — Versos n'um album ? -— dis- se, sorrindo, o contramestre. — Não... — E? que, se fosse .. eu não faço versos, mas tenho um ami- go capaz de desempenhar-se a primor d'essa missão catita, — E o Matheus pensava vagamen- te no lamecha e galhardo Va- lentim. — Pois não, deixemos o seu amigo em paz... não se trata de versos. Mas quasi. —E com uma suavidade insinuante Adriana, parando novamente : — Oiça. Tenho um leque, um precioso leque de varetas de sandalo e panno de sêda casta- nha... muito grande, assim... E” das coisas que mais estimo. O panno tem apenas, a gouache, a um lado, um opulento lirio rôxo, pintado pela minha maior amiga. Ha portanto um grande espaço em claro. — E rematou, n'uma carinhosa supplica : — Não o dispenso de me escrever n'elle um pensamento seu. Encantadoramente lisongeia- do, n'uma grata surpreza, o Matheus, embora attingisse bem a imminencia do amavioso Adriana, porém, derivando por seu turno laço que lhe armavam, dobrou-se n'uma hu- o bote, ria agora a perder, e com sarcasta milde reverencia e murmuro expressão, reatando o passo : — Quando v. ex.º quizer...
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Amanhã — Bem, bem, logo lh'o mando. Adeus! — E nos grandes olhos de Adriana passou um relampago victorioso, emquanto, alegre e do- nairosa,com o seu andar despachado e amplo, num instante se sumia por entre a rumorosa trama do arvoredo. A? noite recebia o Matheus, das mãos do Francisco, e cuidadosamente embrulhado em papel de seda branca, um grande leque, que numa religiosa commoção foi immediata- mente depositar, levado nas pontas dos de- dos, sobre a sua mesa de trabalho. Em se- guida accendeu o candieiro, fechou-se por dentro à chave, cerrou as portas de todas as janellas, lavou as mãos, e, sentado 4 mesa, passou a desembrulhar com mil cuidados o precioso mimo. E por um requinte de volu- ptuosidade, rolando moroso o papel que lhe estalava nos dedos, demorava proposital- mente a operação. — Era um bello artefacto de japonismo artístico, de longas varêtas lineares, afusando ligeiramente para o verti- ce, d'uma côr baça e uniforme, como a epi- derme d'uma virgem judia rôfa e ardente, e todas abertas em allucinados recortes, filigra- nadas ao infinito em tenuissimas combina- ções, em caprichosos, em miniaturados ara- bescos, em dolentes e languidas figurinhas, da mais solta e alada phantasia. Aberto, a sêda tinha a mesma esmaiada côr uniforme, radiada apenas, na direcção das varêtas, de brunas maciêzas e mordicada de reflexos de oiro. E, ao abril-o, o Matheus sentiu que lhe tomava o aposento e lhe escalava perturba- doramente o cerebro um perfume extranho e capitoso, esse divino perfume do sandalo, cálido, enebriante, que parece feito dos mais irresistiveis filtros da seducção e que era como que a fixação aromatica, n'aquelle momento, da voluptuosa embriaguez que lhe embalava a alma... Lá tinha a um lado, effectivamen- te, à esquerda, um grande lirio rôxo, desca- hindo com graça da haste longa e delicada. O resto, que era muito, que era quasi tudo, estava limpo por completo. Era n'esse trai- goeiro espaço que elle tinha de agora escre- ver alguma coisa, — e esta idéa dava-lhe ver- tigens. Contrahira voluntariamente essa obri- gação, havia de cumpril-a. Mas como descêra elle a similhante abjecção? .. Que igno- rado poder o transfigurára ? que homem era elle? quem lhe anniquilára a vontade, o livre arbitrio, o brio?. Parecia-lhe uma monstruosidade moral tudo aquillo. Pela primeira vêz na sua vida se via a braços com a complexa solução d'um problema feminino; pela primeira vêz a sua alma de anjo pros- cripto soffria o dominio de outra alma, e, em vêz de revoltar-se, sopesava o jugo com de- licia, bemdizia a sua humilhação ! ÁS) N'uma perplexidade mordente, sem achar uma solução, sem atinar com uma idéa, o Matheus esquecia-se a abrir e a fechar o le- que interminavelmente, acariciando-o entre os dedos tremulos. — Que havia de elle ali assim escrever, que fosse ao mesmo tempo austero e amoravel, galante e sério ? que nem desdissésse da decoração, nem fôsse indigno d'elle?... Nada, evidentemente não havia. Ou tinha de ser um atrevimento, ou uma ba- boseira. Estupido compromisso ! — Nºum re- pellão de impaciencia, largando o leque, le- vantou-se e abriu as portadas d'uma das ja- nellas do poente, em cuja negra quadricula se lhe figurou logo, faulando, despertando-o de longe, o peneiramento luminoso, a corda arrogante e jocunda que como uma exsuda- ção de prazer aureolava, redonda e alta pelo ar, as sete collinas da cidade, Depois, acer- cando-se mais do peitoril, descortinou tam- bem ali mais perto, à sua esquerda, esse ne- gro bairro de ignominia, a extensa e sordida collina em cujas lobregas profundêzas gemia e arfava compactamente, na promiscua po- dridão do monturo, na abominação e na tré- va, uma população, uma raça inteira. Propu- zéra-se elle trazer a luz, a prosperidade, a paz redemptora a essa infinita legião de lazaros, nivelar aquelle contraste, acabar com essas seculares infamias. Impuzéra-se tambem a si mesmo esta obrigação, a qual era anterior, à qual valia bem mais que todas... E era o que tinha a fazer. Tudo o mais eram ridicu- las futilidades, improprias do seu caracter, excentricas ao seu destino. Forte com esta resolução, tornou à mêsa, arremessou com rancor o leque para o fundo duma gavêta, afastou delle o pensamento com obstinação, com denodo. E n'esta eman- cipadora disposição adormeceu. Porêm, no dia seguinte, às primeiras no- ções nitidas do despertar, lá estava de volta com elle essa idea demoniaca. Sem poder do- minar-se, foi direito à gavêta para rehaver o leque; e, antes que o visse, denunciou-lhe a presença d'esse amulêto estremecido a mes- ma exhalação cálida e forte, como que o seu halito perfumado. Era uma estonteadora ema- nação, feita de peccado e de sonho, era a es- sencia do Amor idealisada, suggerindo a mor- bidêz sensual do Oriente, todo um mundo bi- blico de sublimados desvarios .. como se o vulto singelo e ardente d'uma nova Sulamen- se tivésse abatido ali as azas deslumbrantes, e abandonada, extatica, ungidade oleos pere- grinos, viésse n'uma fascinação embebedar- lhe os nervos e abeberar-lhe a alma de do- çura! Todo o dia andou vibrando ao dulcido es- timulo d'aquella impressão; todo o dia pro-
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76 curou com afinco, baldadamente, uma idea. Porfim, à noite, vergado ao seu avassallador imperio, espalmou deante de si o leque sobre a mêsa, e um pouco ao sabor do acaso, n'um vago desgosto de si mesmo, com a mão a tre- mer, garatujou esta coisa desconchavada e in- completa : «Amar é respeitar... Nas relações de ho- mem para mulher, as mais austeras formulas do respeito são muitas vêzes o collete de forças da alma. Na sua rigida abstenção dissimulam e condensam verdadeiros poemas, candidos, fer- ventes, de incondicional dedicação, de efjusiva ternura.» Depois leu, teve uma hesitação, datou, assignou, e n'um mais accentuado movimen- to de desgosto atirou o leque para o lado. E toda a noite foi para o torturado lyrico uma arrelia, um remorso, uma preoccupação cons- tante. Já depois de deitado, a miude se le- vantava, n'uma inquietação. . . vinha eaccen- dia a luz, retomava o leque, abria-o, lia, re- lia, mirava n'um desolado exame a sua obra. E ora tropeçava n'uma palavra, achava o pen- samento lymphatico, desenxabido, réles; ora embirrava com a disposição graphica do que escrevêra, que teria ficado melhor, mais em diagonal, symetrico com o lirio, mais ao can- to; ora era tambem a forma, o lançamento da lettra que lhe desagradava, tremula e des- egual como lhe sahira... e a tinta que não pegava n'uns pontos, n'outros empastára hor- rorosamente.— O maior dos fiascos, em todo o sentido! E sem emenda possivel! Ao amanhecer, pouco depois de abrir a jamella do seu quarto que olhava ao norte, viu em cima, na saccada do solar fronteiro, sôb os profusos ramos, ainda despidos, d'uma glycinia, o nobre vulto egypcio de Adriana, que, cortejando-o, lhe perguntou por gestos se já havia escripto. Significou-lhe o Matheus com a cabeca — que sim. D'ahi a minutos, entregava-lhe o leque. Adriana, leu; com piedosa attenção : e ao cabo, n'uma inflexão recalcada, enternecida : — Muito bem! Agradeço e comprehen- do... — E no mais carinhoso dos gestos, fechando o leque e erguendo ao Matheus uns olhos de Madona : — Agora, fica assim ! Serões Com ardilosa intenção, o contramestre ob- servou : — Ainda tem tanto espaço em branco... — Engana-se!—acudiu vivamente Adriana, olhando-o sempre. — P'ra mim está cheio... Cheio de mais! E com um d'estes sorrisos que vão direitos à alma, despedindo-se, a patricia filha dos Meyrelles afastou-se, demoradamente, com o airoso busto balanceando n'um jubilo en- vaidecido. Mas era agora tambem o Matheus que, to- mando por um ingenuo encanto de vaidade, sesuppunha sinceramente o vencedor. — Não havia duvida! Aquella creatura de excepção e privilegio, vivendo lá tão alto, d'um sentir tão contrario ao delle, pela raça e pelo ins- tincto sua inimiga, fôra ella que o procurira, que gradualmente descêra adonde a elle, que viéra com a fimbria do seu vestido branco illu- minar a voluntariosa noite do seu viver. Com que fim, por qual sentimento ? Não lhe im- portava. . Fôsse por paixão, por jogo, ou por capricho, o certo é que fôra ella a demandante, n'aquelle curioso e imprevisto pleito sentimen- tal. Limitára-se elle a deferir-lhe um pouco em seu favor; um dever trivial de cortezia, Mas nem aquelle episodio galante era de molde a perturbar a trajectoria tensa e ho- nesta da sua vida. Nem por isso a sua cons- ciencia tinha por que alarmar-se, ou que soffrer qualquer desvio deprimente a nobre orientação do seu destino. Uma candida il- lusão fazia-o sinceramente tomar por uma ephemera futilidade esse afogueante senti- mento que, traiçoeiro e breve, lhe ia manie- tando a alma. E dizia-se: — Acabára, pas- sou... Ella, sim, ella é que descêra ella é que contrahira voluntariamente bem ex- tranhaveis compromissos. Aquella patente predilecção por elle quem lh'a insinuou ? quem a obrigou a declaral-a insistentemente no mysterioso velludo dos seus olhos?... Foi uma coisa absolutamente espontanea, foi o puro voto livre da sua consciencia, da sua alma. E votos destes, assumidos na per- turbadora querença de todo o nosso ser, to- mados e sellados na telegraphia galvanica dos olhos, são sagrados tambem, obrigam para toda a vida.
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Communicação, feita pelo duque de Argyll, de algumas apparições de espectros, duendes ou phantasmas a pessoas de seu conhecimento que lhe merecem inteiro credito; narrativas dizecta- mente recebidas, sem invesligação hypothetica de causas. A curiosidade scientifica vae assim completando e palavra, nunca quizeram chamar me a servir-lhes de testemunha. Pelo menos ainda o não fizeram, e espero que não alterem este seu bom proceder. Aquelles que nunca puderam vêr espectros, ou duvídam de que outros os possam vêr, sen- tem,como eu,uma dupla curiosidade, se amigos, pessoas de confiança, lhes asseguram tel-os visto. Porém, pouco ou nenhum credito dou a historias de almas do outro mundo, se ellas não me chegam «em primeira mão», ou de al- guem em que possa confiar. Reproduzo só- mente narração, ouvida a algumas pessoas, das suas proprias entrevistas com phantasmas. Ainda assim eu não daria ouvidos a esses mes- mos amigos ou conhecidos se elles se trans- formassem em crentes espiritistas. Pessoas ha que estão sempre imaginando que vêem, vi- ram, ou podem vêr algum interessante homem- sinho ou mulhersinha n'um qualquer logar es- curo, passar e desapparecer apparentemente atravez da parede mais proxima. Conheço por exemplo uma senhora, de espirito são e de vida feliz, que se julga ainda mais feliz quando póde relatar, com declarada satisfação e cren- ça; ter visto um vulto de homem velho no seu proprio quarto de cama, sentado n'uma ca- deira de braços defronte do fogão (ha sempre um fogão n'um bom quarto de phantasmas), e desapparecer, afastando a cadeira, desconso- lado e surprehendido de a ter visto. De modo que não exerceu a menor attracção sobre o Phantasma ; e serve isto de prova que ella sin- ceramente acreditava na historia que contava; porque, se a houvera inventado, não teria o velho duende mostrado ao menos um boca- dinho de admiração por ella ? Conheço outra senhora que ouve sempre Phantasmas musicaes — phantasmas que actual- mente tocam em pianos antigos ou cravos, no mesmo logar em que antigamente tocavam, ainda que estes instrumentos tivessem ha muito O s PHANTASMAS, na verdadeira accepção da apurando o inquerito elucidativo destes mysteriosos phenomenos. já sido removidos! N'esse caso a alma penada arranjára qualidades superiores ás do phono- grapho, que repete arias antigas, exactamente como em Heron Court se podia ouvir Iêr alto na bibliotheca com o som da voz d'um velho lord Malmesbury. Lord Barrington, fallecido ha poucos annos, fez em novo uma visita a esse logar que é perto de Bournemouth ; e á noite ao recolher-se, ouviu uma recitação em voz monotona do outro lado da parede con- tra a qual estava collocada a cama. Não tendo idéa alguma de phantasmas que visitassem a casa, diligenciou dormir; mas a voz continua- va, e Barrington estava já para se levantar pa- ra protestar quando finalmente cessou a toada impertinente. No dia seguinte, ao almoço, o hospedeiro ex- pressou-lhe o desejo natural e delicado de saber que elle tivesse dormido bem. Respondeu-lhe que somente podera dormir quando cessaram as recitações d'um eloquente cavalheiro visi- nho do quarto contiguo. Lord Malmesbury fez- lhe um signal para que ficasse silencioso e disse-lhe depois o motivo por quê reprimira a narrativa dos seus aborrecimentos. Era porque ninguem podia explicar o som, que se ouvia a intervallos, desde a morte do velho lord, o qual estava acostumado a lêr pela maneira de: cripta na bibliotheca, que era a sala proxima ao quarto de dormir occupado por lord Bar- rington. Deveria ter sido um espirito bem in- commodativo, mas lord Barrington affirmava sinceramente ter ouvido a vóz. Não ha porém só casos succedidos a homens e mulheres de são juizo; tambem os ha acon- tecidos com cães, que, comquanto não possam fallar, podem lamentar-se, uivar, e tremer.Com effeito assim tem succedido, em certos quartos de determinadas casas, nas occasiões em que os seus donos ou suas donas estam preoccu- pados com as apparições. Os cães não costu- mam tremer geralmente quando escutam sons de piano tocado a distancia ; todavia por que
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Uma dama cinzenta caminhou de vagar pelo quarto dentro... motivo um cão do meu conhecimento ficava verdadeiramente afflicto n'uma casa na Escoia, onde a sua dona ouvira uma musica ? Os cães não são supersticiosos, e não pódem ser ensinados a tremer com duendes; portanto, quando manifestam grande terror inexplicavel e estão acordados, legitimamente se pode in- ferir que elles se apercebem da presença de alguem que não é cá da terra. Ao norte de Tweed, as almas do outro mundo que apparecem penando são em geral espiritos caseiros. De muitas casas corre lenda de possuirem «um phantasma escuro» —ou a sua «dama verde». São inoffensivos, mas os cães não gostam d'elles. As almas vagabundas escuras teem fama de produzir felicidade e suppõe-se que a boa fortuna de um velho castello des- appareceu pelo lado do lago, desde que o phantasma escuro se foi n'elle banhar e nunca mais foi visto. Uma mulher d'uma aldeia proxima d'uma casa feudal contou-me recentemente as recor- dações que conservava do que vira na sua mo- Serões cidade na casa grande, onde estava como governante. —Apparecia uma cara illu- minada — dizia ella. — E com que se parecia a cara? —Oh! era exactamente uma cara cheia de luz. Evi- dentemente a visão não lhe tinha produzido terror. Apresento agora duendes visitadores, bondosos e quie- tos como um que no districto de Hammermith visita a casa d'um amigo meu, o qual era sincero e descrente. Grace- jára sempre dos contos de phantasmas. Passaram-se an- nos e parecia justificar-se a sua descrença na existencia da sombra de uma mulher que dizia-se, frequentava a casa. Uma noute, porem, quando sua mulher estava sentada na sala de recepção familiar, abriu-se a porta se- renamente, uma dama cin- zenta de touca na cabeça caminhou de vagar pelo quarto dentro e depois reti- rou-se. Ainda assim o marido não quiz dar credito áquella narrativa, embora a mesma figura ainda fosse vista diffe- rentes vezes pela mulher que nenhum susto soffreu com as apparições. Ella con- siderava o passeio da sua hospede tão philo- sophicamente como se tivesse sido educada com damas verdes toda a sua vida. Passaram-se mais annos. Os filhos cresce- ram. O pae estava na sala sentado, fumando com um d'elles, quando a porta se abriu, e a cara coberta da figura descripta pela mulher espreitou para dentro do quarto, fechando em seguida a porta. Tanto o pae como o filho vi- ram-a. O primeiro, desconfiado, imaginando que uma das filhas estava divertindo-se inno- centemente com elles, abriu de repente a por- ta, seguiu pelos corredores, e assegurou-se de que nenhuma d'ellas estava fóra dos quartos de dormir. Só então, elle confessou que tam- bem tinha tido o privilegio de uma entrevista com a pobre duende errante. Conheço outro caso similar. O phantasmaera encontrado usualmente no caminho da escada, parando n'um dos patamares, e levantando as mãos como que expressando surpreza e hor- ror. Diz-se que esta attitude representava o pezar que sentira com a morte de uma creança.
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Visão de Este ultimo conto não o ouvi da propria pessoa que teve a visão; mas a fallecida miss Wemyss, que vivera n'um castello em Fife, descreveu-me muitas vezes a apparição da dama verde que assustava os moradores da sua bella casa. Nada vira de sobrenatural nos pri- meiros desesete annos da sua estada n'aquelle edificio, que, embora tenha sido modificado, conserva ainda grande parte de construcção antiga. Desesete annos é de certo nada para o tempo de vida de um phantasma, e o encontro da dona do castello com o seu mais perma- nente hospede espiritual deu-se n'uma tarde ao cabo d'aquelle tempo. A senhora fôra fallar com o seu mestre d'obras, marceneiro de offi- cio. Era tarde d'um dia de inverno, e elle esta- va trabalhando n'um aposento ao qual somente se podia chegar atravessando a sala de bilhar, onde estava um fogão acceso e não havia ou- tra luz. O carpinteiro tinha um candieiro e miss Wemyss demorou-se alguns instantes, e depois retirou-se. Quando entrou de novo no bilhar, sentiu que alli estava alguem ou algu- ma cousa extranha. Era uma curiosa, indefini- da sensação, como a que muitas pessoas sen - tem quando os olhares d'outrem se fixam so- bre ellas. Assim succedeu com esta senhora. Na outra extremidade da casa de bilhar, esta- va uma figura nebulosa, mas definida, que avançava para ella — A dama verde ! — foi aidéa que lhe veiu logo ao pensamento. Parou a ver. A figura que ca- minhava para ella mo- via-se serenamente. Em- quanto passava pela cla- ridade do fogão, bastante curiosamente, miss We- myss reparou em silencio que não se tornava aver- melhada pela luz, nem mais distincta. O cin- zento indefinido conser- vou se na mesma côr neutra e continuavaavan- çando. Depois deu a vol- ta ao canto da mesa de bilhar, e sem parar, ou mudar de passo ou atti- tude, caminhou para den- tro da parede. Na mesma semana identica figura foi vista duas vezes pelos servos do castello— uma vez n'uma passagem do andar superior e outra vez n'um quarto. Desde essa triplice apparição a dama verde, que parecia ter ultimamente preferido a côr cinzenta não mais foi vista. Duendes 79 Ainda conheço uma outra testemunha de duende, que visita determinado quarto, e a lar- gos intervallos, de maneira que, muita gente tem dormido alli excellentes noites repousa- das. Outras vezes porem a extranha apparição vem atacar o dormente, como na malaria a allucinação acompanha o tremor do accesso. O caso passou-se com um padre anglicano, muito nomeado pela sua eloquencia, bondade de coração e energia de vontade. Nada sabia da historia mysteriosa da casa; e, quando ia re- colher-se, ouviu barulho no quarto contiguo. Verificou que ninguem havia n'este, e deitou- se. Mais tarde, acordou com o mesmo barulho. Quanto tempo dormira não o soube, mas de- vera ter sido bastante; porque, quando o ba- rulho o despertou, havia já uma tenue luz da madrugada. Elle viu então uma mulher cami- nhar para os pés da cama. Surpreso, a princ) pio nem se levantou nem fallou. Depois a fi- gura descripta em cinzento, mas definida na fórma, parou. Elle tomou animo em sua natural coragem ; recuperou a voz; abjurou a appari- ão nebulosa pelo santo nome. Aquella voltou- se e dirigiu-se para a porta que se abriu e o es- pectro desappareceu por ella. O clerigo, que em circumstancias ordinarias não saltaria da cama em vestes ligeiras, não hesitou, e seguiu o silencioso duende. Fóra da porta havia uma escada, e elle viu descer pausadamente a som- bra semi-luminosa até desapparecer na pare- Viu uma mulher caminhar para os pés da cama. de, exactamente como a dama verde do cas- tello de Fife!
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8o Estes são os phantasmas silenciosos e inu- teis ; porém, a historia, indubitavelmente ver- dadeira, da apparição que se verificou no tem- po da guerra contra os francezes nas posses- Appareceu-lhe seu proprio primo morto... sões americanas mostra que o espirito vaga- bundo tambem se expressa com determinada intenção. Existia uma casa antiga no topo d'uma encosta sobre o rio Awe, que corre para o lago Etive. Inverawe descançava, depois de um dia passado na floresta, quando pancadas repetidas na porta o fizeram olhar para fóra. Um homem, offegante e cançado de caminhar, pedia guarida. Inverawe não lh'a negou e o excitado caminheiro, não satisfeito com a pousada, ainda lhe exigiu, sob juramen- to, que não o havia de expulsar. Pouco depois chegavam perseguidores, que vieram tambem bater á porta e perguntaram-lhe se tinha pas- sado por ali o assassino d'um primo de Invera- we. O rapaz ficou horrorisado, mas era homem Serões de palavra, e respondeu-lhes negativamente. Depois, reprehendendo o fugitivo, foi outra vez instado para que não o entregasse á jus- tiça, porque elle só tinha defendido a sua vida. Inverawe disse-lhe que na manhã se- guinte devia partir. N'aquella noite, po- rém, appareceu a Inverawe seu proprio primo morto, dizendo-lhe : «Inverawe, Inverawe, o meu sangue foi derrama- do. Não acoutes o assassino !» O ra- paz mandou o seu hospede refugiado dormir n'um subterraneo. Ainda outra vez lhe appareceu a vi- são e outra vez o homem escondido rogou ao generoso hospedeiro que o deixasse pernoitar ainda mais uma noi- te. N'aquella terceira noite a visão fal- lou outra vez: «Inverawe, Inverawe, o meu sangue foi derramado. Encontrar- nos-hemos de novo em Ticonderoga. Ticonderoga ? O que queria o phan- tasma dizer ? Na manhã seguinte o re- fugiado partiu. A guerra chamou Inve- rawe e seu filho á America. Embarcou, Contou aos seus camaradas esta visão. Elles muitas vezes chasqueavam Inve- rawe perguntando-lhe : — «E a respeito de Ticonderoga ?» Similhante nome po- deria ser conhecido além dos sonhos de um exaltado? Comtudo, Inverawe du- rante a campanha, perguntava sempre os nomes indios dos logares. Finalmente chegou a noite anterior ao ataque de Carillon. Os seus camaradas tinham ouvido dizer que o lugar tinha o nome indiano de Ticonderoga. Tomaram cuidado de não o dizer a Inverawe e ninguem lhe fallou em tal. Subito Inverawe disse aos camaradas: — Estamos em Ticonderoga, e eu hei de morrer úmanhã. Realisou-se o combate; elle e seu filho foram mortalmente feridos pelo fogo dos francezes. Como os seus amigos se reunissem á roda do ferido, elle disse-lhes solemnemen- te : — Quero que saibam que eu tornei a vel-o ainda outra vez. — Isto foi sabido por todos que sobreviveram ás campanhas da indepen- dencia e que estiveram formados na celebre Black Watch. Um regimento inteiro de higilan- ders podia dar testemunho da crença tão fatal- mente verificada de Campbell de Inverawe !
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Correso pe Ceres — BAIXO RELEVO DE UM TUMULO MARTYRES EPISODIO DA PERSEGUIÇÃO DE DIOCLECIANO CarrruLo IV — A pompa DE CERES A claridade que vinha do nascente já começavam a esbater-se como em fundo doirado os recortes negros do espigão do templo d'Apollo, com os antefixos em forma de palma, d'onde desciam as linhas in- clinadas dos frontões; já se desenhavam com extrema nitidez naquelle ceu roseo, em que as estrellas se iam apagando, as mais delica- das molduras dos acroterios sustentando ly- ras, cujas cordas pareciam de fogo, quando resoaram os sons vibrantes das trompas e das businas, acompanhados das notas som- brias dos cornes. A multidão, que ia correndo desordenada, offegante, sentiu um sobresalto d'espanto e medo, e instinctivamente teve um movimento de paragem. Naquellas almas, de ha tão pouco vindas do paganismo, ainda não estava de todo extincta a crença de que cada ho- mem e cada coisa tinha o seu genio, e que na obscuridade mysteriosa dos bosques, como habitação dos numens, havia o que quer que fosse de divino. Attentaram, e perceberam que era a pompa das cerealias que se approximava; era a esta- tua de Ceres, a deusa das colheitas e da agri- cultura, que, assim como a terra se refresca e nutre com o orvalho da manhã, assim ella era conduzida, ao rocio da madrugada, para as grandes festas, que se celebravam no circo, terminando com ellas, naquelle dia 19 d'abril, o cyclo das que lhe eram consagradas. Um bando de musicos, de tunica de pur- pura violeta e clamyde verde, coroados d'es- Pigas doiradas, abria o prestito, tangendo os Serões— N.º 8&— Vol. 1 instrumentos, cujos sons tinham feito paraly- sar o impeto dos christãos. Esta musica exe- cutava uma melodia de notas demoradas, desenvolvendo-se, sem modulações dentro da oitava, na sua simplicidade expressiva em forma de hymno, entrecortado de notas de accento plangente, que a espaços rythma- dos soltavam os cornes de madeira. Era a glorificação da deusa productora de inexgo- tavel fecundidade, e ao mesmo tempo uma elegia de mãe que passa a vida na etema busca de Proserpina, sua filha, raptada por Plutão. Seguiam-se, puxados por bois, carros engrinaldados com heras, e levando cada um d'elles, sobre camadas de feno perfumado pelos trevos, os animaes destinados ao sacri- ficio e ritualmente consagrados à deusa. Nos primeiros estiraçavam-se, cingidas com cintos brancos bordados a oiro, porcas cujo sangue tem especial virtude nos ritos purifi- cadores. Noutros eram mantidos pelos pés grous irriquietos, dobrando as longas pernas a qualquer salto brusco das rodas ; e por fim outro carro, sobre que poisava uma gaiola de rede doirada, onde esvoaçavam bandos de rolas. Um carneiro de tufada e fina lã deixa- va-se mansamente conduzir por duas crean- ças. Depois marchavam longas filas de matro- nas vestidas de branco, empunhando bran- dões resinosos que ardiam em chama verme- lha e fumarenta. Um coro de trinta meninas, coroadas de rosas, empunhando ramos verdes, entoa um hymno com acompanhamento de cytharas 6
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82 no modo dorico, de accento calmo e severo, que contrastava com a frescura gracil das vo- zes, e cujas strophes em quintilhas vinham terminar quasi geralmente na tonica, lem- brando, pela forma archaica, o antigo corte dos hymnos gregos. A poesia que vão cantando convida a ter- ra, rica de colheitas e de rebanhos, a pro- digalizar os seus thesoiros, para com elles se engrinaldar a fronte de Ceres, essa particula de Jupiter que penetra no solo. Pedia ás aguas salutiferas, e ao ar puro que fecundassem os germens dispersos pela terra. E quando as vozes se calavam, as cytha- ras, que as iam acompanhando, faziam ou- vir o ritornello executado a duas mãos. Por fim: a Regina sacrificula com as suas sacerdotisas, envoltas em mantos brancos da cabeça aos pés, carregando estas o andor com a deusa, cercado de pequenos carnillos, que em sua honra queimam insenso nos thuribu- los. E severa, imponente, e com um ar de tris- teza a pequena estatua chryselefantina de Ceres, evidentemente obra d'um estatuario da bella escola da antiga Grecia. Vem sen- tada num throno, e o seu rosto, trabalhado em marfim pallido, dá a impressão de quem está fatigado das longas pesquizas, mas não com a esperança perdida. Que nunca a perde a mãe que procura sua filha. A ponta da am- pla toga de prata fosca quasi que completa- mente lhe envolve a cabeça, em signal de lu- cto, deixando que se lhe escape uma trança de cabellos d'oiro. Sobre os joelhos procura conter, com a mão esquerda comprida, de dedos afilados, egualmente trabalhada em marfim, e que mal lhe sae das pregas do ves- tuario, uma paveia d'espigas de trigo, entre- meada de narcisos e dormideiras. Na volta que o manto, descendo da cabeça, e passando por debaixo do braço direito, deu para se ati- rar sobre o hombro esquerdo, deixou aquelle nu, o que lhe permitte segurar, como quem a elle se abordoa, um phanal onde scintilla uma chama feita de carbunculos. Ao mesmo tempo, a dobra, lançada ao acaso sobre o hombro, descae quanto basta para deixar adi- vinhar os seios opulentos e nutridores. E aos pés, saindo de montes de flores, de braçados d'espigas e de troncos de hera, as voltas de duas serpentes escamosas, fundidas em bronze. Fecha o prestito multidão enorme de mu- lheres, todas com as cabeças cobertas, e nas mãos ramos de loiro, murta e oliveira. Avançava grave e composta a procissão, seguindo por entre duas alas de gente de to- das as classes, que descera das varias ericas vivendas, que os romanos tinham espalhadas Serões pelo bosque. Os sacerdotes d'Apollo e dos outros deuses, os servidores dos seus templos engrossavam a multidão, e todos, elevando o braço direito, saudavam a divindade, como quem lhe envia um beijo na ponta dos de- dos. Eis que os instrumentos se calam, e um movimento de recuo se manifesta à frente do prestito, obrigando-o a suspender a marcha. Gritos desordenados chegam confusamente até junto da estatua, cujo andor pára. Os christãos, que se tinham detido aos pri- meiros sons da musica, não esperando tão extranha coisa, e ao mesmo tempo invadi- dos de invencivel terror supersticioso, reco- braram animo á voz imperiosa de Hesico, o unico que entre todos ia armado, e que bran- dia a sua espada curta e aguda. Sem pensa: rem no que lhes podia succeder, continua- ram na carreira cega, vertiginosa em que vinham. O choque inesperado V'aquella massa viva, alucinada, berrante causou tal pertur- bação na testa do cortejo, que este esteve a ponto de se desorganisar. No meio do tumulto e do alarido, os ho- mens descarregando sem dó os cajados, gri tando as mulheres, ferindo Hesico com a es- pada, iam os christãos avançando e iriam até o coração da pompa, se os carros lhes não im- pedissem a passagem franca, e os sacrificado- res que os acompanhavam, tirando facas e cu- tellos dasbainhas, não prostrassem sem vida os sacrilegos que se approximavam. Correram as matronas a refugiar-se junto da deusa, e ao mesmo tempo a formar com os seus corpos uma muralha à roda do andor, brandindo os fachos, cujas chamas tiravam reflexos myste- riosos do oiro, da prata, do bronze e do mar- fim que compunham a estatua. As mãos desta eorosto de lividos que eram passaram a ver- melhos, o que por certo se devia considerar como manifestação innegavel da colera da deusa. Os escravos dos templos correram sobre os christãos, e em pouco a pobre gente cerca- da, batida, exhausta, sem cohesão nem chefe, quasi na sua maioria composta de mulheres, cujo coração lanceava os choros, ais e gemi- dos das creanças espesinhadas e feridas e de homens sem armas, debandou em todos os sentidos, perdendo-se nas balsas e mattagaes das collinas. Ta Hesico correndo como doido, d'espada hirta, na direcção do andor, para d'elle der- rubar o idolo; mas à vista d'aquella monta- nha de fogo, d'entre a qual surgia a deusa, fulminando raios de luz diversa de toda ella, parou, e, neste momento suspenso pela mul- tidão, foi derribado, preso de pés emãos e conduzido de rastos para o ergastulo da mais proxima vivenda.
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Martyres 83 Arredados os cadaveres, cobertas de terra as nodoas e poças de sangue, tangeram de novo os instrumentos, os coros entoaram os hymnos, e a deusa serena e grave continuou na sua marcha triumphal, já francamente il- luminada pelo sol. Sumiu-se de todo a procissão na volta apertada da estrada, esvairam-se os ultimos sons dos hymnos. Passaram os carros e as liteiras conduzindo os abastados, que se dirigiam ao circo; durante duas horas a mul- tidão foi correndo apressada para a cidade, e depois a estrada fi- cou solitaria, tranquilla, como se não se tivesse alli ferido uma ba- talha. Horas de silencio ! Depois o ruido cadenciado da marcha accelerada d'uma escolta de legionarios vinda de Antio- chia. Maltratada, ferida, abraçada ao pequenino Barallah, Martha jazia sem movimento, caída à bei- ra do caminho, no fundo d'uma moita de murtas. Era já declinio do dia quando tornou em si. O filho dormia-lhe no regaço Escutou, e só ouviu o grasnar dos corvos, o chilreio dos melros e, lá no fundo do bosque, os trinos dos rouxinoes, o murmurio das quedas d'agua e o zunido das abelhas silvestres numa dança doida, na luz ainda quente do sol. Era a natureza impassivel, na expansão harmonica c tranquilla da sua primavera. Attentou mais, e pareceu-lhe ouvir gemidos. À pouco e pouco foi reconsti- tuindo na sua forte imaginação tudo quanto se passara desde a madrugada em que fôra demolida a egre- ja, até o momento em que, levada no im- pulso da turba, que se arremessou de roldão contra a pompa cerealia, vendo Hesico cor- rendo e brandindo a reluzente espada, quiz correr para o seguir, sentiu uma forte dôrna cabeça. .. e mais nada! Apalpou a testa, e sentiu o que quer que era de pegajoso. Retirou a mão e viu os de- dos sujos de sangue. Teve medo e desatou a chorar. Acordou a creança e lamentou que tinha fome. Tambem ella sentia confranger- se-lhe o estomago e doer-lhe o coração. A custo ergueu-se. Olhou, sem saber de que lado se dirigiria. As pernas entorpecidas mal se moviam. Em todo o seu corpo moído não eram senão dôres. Ao acaso, foi indo ao longo da estrada. Andava de vagar, com o filho ao collo, pensando na sorte do marido. Do lado opposto áquelle para onde se dirigia ouviu passos cadenciados. Voltou-se e divisou uma As PORTAS DE NICIA escolta. Quando se approximou d'ella, e lhe passou na frente, viu que conduzia Hesico desarmado, amarradas as mãos, sem manto, e com a cabeça descoberta. Olharam-se e nada disseram. Martha comprehendeu tudo, e o olhar que Hesico lançou d'ella para o céu, suscitou em sua alma a loucura do ideal divino do martyrio. Então, tomando uma d'essas decisões abso- lutas, irrevogaveis, que são vulgares nas mu- lheres da sua raça, olhos parados, com luz quente e sem uma lagrima a humedecer-lh'os, apressando o passo, cada um dos quaes era
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84 uma dôr lancinante em toda ella, foi seguindo a escolta. O caminhar foi longo. Entraram na cidade pela porta Daphné, e seguiram ao correr da muralha até onde ella entestava com o rio. A justiça de Galero não tivera delongas. Fôra prompta e summaria. A sentença foi de morte; mas a solennidade do dia levou-o a que não fosse sanguinaria. Assim que soube em palacio do desacato à deusa, e que um soldado das suas legiões fôra preso como sacrilego, ordenou que im- mediatamente uma escolta o conduzisse à margem do Oronte, e alli o afogasse. A cor- rente das aguas, que lhe daria a morte, ar- rastaria o cadaver para o Mediterraneo, e se- riam uns ossos de menos a conquistarem de futuro honras d'apotheose. Se a sentença foi prompta, a execução foi rapida. Hesico passou para um pequeno barco onde já o esperavam dois soldados. Ligaram- lhe os pés, e como já trazia as mãos presas, dois legionarios, levantando-o em peso, ati- Serões raram-o pela borda. O corpo, caindo a prumo, mergulhou, e veiu logo acima. Hesico sacu- dia a cabeça, abrindo a boca e os olhos aflli- ctivamente, mas logo um dos soldados deu- lhe com um remo na cabeça queo fez desappa- recer. Com o remo alçado esperou-o de novo; mas o pequeno remoinho das aguas fechou- se, e a corrente continuou seguindo seu cursc. Martha olhava, com immobilidade de es- tatua e mutismo de idiota. Ficaria eternamente, como petreficada, vendo correr as aguas do Oronte, com os olhos fitos no ponto onde Hesico tinha des- apparecido, se o pequenino Barallah, com outro gemido e puxando-lhe pelo véu, lhe não fizesse saber que tinha fome. Então, na apparencia resignada, apertando o filho ao peito, para lhe dar calor e tomar forças, subiu pelas largas ruas d'Antiochia, a caminho do bairro christão, não vendo na frente senão a sombra alongada e negra da sua figura, projectada no lagedo da calçada pelo sol no occaso. ses CarrruLo V — ANTIOCHIA RA uma manhã de maio radiante e for- mosa. O sol dominando as collinas abru- ptas e os contrafortes alcantilados dos montes Silpius, ultima convulsão do Libano, banhava de luz crua Antiochia, já disperta das orgias e sensualidades nocturnas dos seus habitantes. Dos seus pomares e jardins, onde amadurecem os fructos e se expandem as flo- res, ascendiam perfumes penetrantes, e o vento fresco do noroeste fazia oscillar, em compas- sada indolencia os frondosos platanos mais as figueiras d'ampla folhagem e as amendoei- ras € romanzeiras, cujas ramarias bracejavam para fóra dos muros, dentro nos quaes, à moda oriental, se encerrava a maioria das ha- bitações, buscando um abrigo contra os ar- dores do estio na sombra das suas arvores tradicionaes. De todas as casas, umas com as portas simplesmente abertas nos muros, outras com bellos porticos de columnas ou ornadas de avançados e sumptuosos peristylos, saía gente pressurosa, que convergia para a larga ave- nida, a mais importante, rica e monumental arteria da terceira cidade do imperio romano; pois que rivalizava com Alexandria e Roma. Com aquella na profusão dos templos, ba- nhos, basilicas, theatros, das encruzilhadas guarnecidas de estatuas, dos palacios, nauma- chias onde nos espectaculos asnymphas eram as mais formosas mulheres do Oriente na nu- dez provocante dos seus corpos torneados, nos circos onde brigavam e se refocilavam no sangue as mais terriveis feras da Asia e Africa, e innumeraveis monumentos, na construcção dos quaes já se começava a sentir a invasão crescente d'uma outra arte, que vinha do fundo do Bosphoro, nas aberrações do estylo, na riqueza amaneirada da decoração, no em- prego exagerado das côres e dos metaes, que pelo brilho e intensidade offuscavam a vista. Verdade é que para o encanto dos espiritos, educados na escola d'um bello artistico que ai passando, em muitas ruas das cidades, que se cortavam em linhas normaes, e principal- mente nos antigos bairros de Seleucus Nica- tor e d'Antiocho Epiphanio, em manifesta opposição com o nucleo moderno da ilha de Callinicus, ainda viviam triumphantemente os velhos estylos gregos. O dorico com a sua simplicidade primitiva, robusta e atrevida servia para ornar os templos das antigas di- vindades gregas; a belleza sobria e plastica do jonico tornava attrahente o forum, e a ex- huberancia d'effeitos do corynthio, onde os modernos começavam a não se contentar com a côr esculptural dos capiteis e a dar-lhe brilho, dourando-lhes a folhagem, eram em- pregados nos templos das divindades roma- nas, nos theatros e principalmente no circo. No meio d'estas linhas severas e graciosas, producto hellenico, não era raro encontrar
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a a a ÉS a ci À cad cd Martyres 85 massas pesadas, amparadas por grossos pilas- trões de capiteis de molde de vaso, abrigando as mysteriosas e por vezes sanguinarias di- vindades indigenas ou importadas do Egypto. Se na magnificencia vencia Alexandria, a propria Roma lhe era inferior na variedade da população, na incomparavel importancia do seu emporio commercial, como ponto obri- gado de tudo que vinha do Oriente asiatico, para ser distribuido por intermedio do Medi- terraneo ao resto do mundo. Desdobrava-se aquella avenida, — que, al- guns dias antes, Asclepiades tinha atravessado na altura dos tetrapyllos, para ir arrazar a ba- silica apostolica-—na extensão de mais detrin- ta estadios, por entre duas largas emagnificas galerias, nas quaes de cada um dos milhares de fustes das suas columnas avançava uma misula sustentando uma estatua de deus ou heroc, os- cillando á mercê do vento, sobre os hombros de muitas, mantos de purpura vermelha. Das in- temperies e do sol abrigavam-as tectos, onde os travejamentos de cedro apainelavam fun- dos de estuques doirados, sobre os quaes o pincel grego tinha recortado figurinhas e sce- nas mythologicas. Assim monumental e rica ia atravessando a cidade em todo o seu compri- mento, desde a porta de Bab-Bolos, que dava Saída para os pomares e hortas, até à dos Che- rubins, onde ia d'encontro aos montes, tendo atravessado um regato formado pelas infinitas cascatas d'aguas vivas, que se precipitavam dos rochedos a prumo, ou corriam das por- tellas cheias de luxuriosa vegetação. Larga e ampla ia recebendo a multidão, tanto dos que subiam das margens do rio como dos que desciam das partes montanho- sas, e até d'esse velho bairro perdido na montanha e limitado pela rua de Singono, onde quasi que especialmente vivia a popu- lação christã, na sua maioria entregue aos officios caseiros e trabalhos manuaes. Mas tambem daqui saía gente, humilde no trajar e no porte, e na qual se notava a pre- occupação de não deixar a descoberto parte alguma do corpo. Toda ella tinha apparen- cia famelica, o olhar vago, e como quem sente sobre si desencadeada uma tempestade de ira e coleras perseguidoras. Nem mesmo para se esconder já tinha co- ragem. Envergonhada da propria pusilanimi- dade, procurando evitar o encontro simulta- neo dos olhares, lá ia engrossar a onda humana que refluia para a Grande Avenida. Aqui misturavam-se na mais completa pro- miscuidade os gregos de saiote curto e clamy- de vistosa afivelada no hombro, e os romanos, onde predominavam os de toga ampla, tra- çada, deixando livre o braço direito, com os asiaticos taes como o indio cujo acobreado da tez contrasta com a alvura dos turbantes, o hebreu de barba corredia e samarra escura so- bre longas tunicas; e a massa geral dos syria- cos pallidos, febris, enfezados dentro nos seus saiotes listados de purpura e apertados na cin- tura com fachas sombrias. Da Africa viam-se os ababdekes de pelle bronzeada, velando a nudez com longos pan- nos, que caiam dos quadris até quasi os pés; o egypcio pequeno, nervoso, baço, de cabel- los crespos polvilhados de vermelho, en- volto em vistosos pannos ; os escravos semi- nús, e os bandos alegres e loquazes dos chypriotas, de cabellos compridos, presos com uma fita à maneira de diadema, de fórmas esbeltas, mal cobertos por curtos roupões franjados e tingidos de varias côres ás listas. Neste formigueiro humano, levantado no tom, erico de luz, ao qual o sol claro e quente augmentava o valor, accentuando os contras- tes e fundindo os reflexos, encontravam-se as côres de todas as raças desde o alvo ger- manico dos soldados d'além Danubio, de cu- jos capacetes chispavam raios de fogo, até o negro cafre de pelle luzidia como ebano en- vernisado. Por entre o falar d'accentuação aberta do grego, da harmonia do latim, sobre o fundo arameu da massa geral de pronuncia rapida, e onde as vogaes quasi que se somem, ou- viam-seas variadas fórmas do semitico, desde o hebreu de Jerusalem, rigido e hieratico, até os sons gutturaes do beduino arabe, que viera negociar em gados, e atravessara o deserto, incitando com gritos estridentes os dromeda- rios pachorrentos e distraídos. E toda aquella turba, formando uma tor- rente irrequieta, impetuosa, loquaz, invasora, ia como dominada por um unico pensa- mento, por um impulso irresistivel, sem atten- der a coisa alguma, mal se arredando para deixar passar os carros tirados por cavallos fogosos, e as liteiras que seguiam a custo, pelo espaço que lhes abria com violencia o esforço dos escravos, que em lotes de côres e divisões de raça, as precediam e escolta- vam, outros tantos cardumes de etyopes, nu- midas e cafres, elles com uma simples tanga sobre os rins, ellas com as gargantas, braços, pulsos e tornezellos enleados de coraes e pe- rolas, nús os seios turgidos, pequenos, redon- dos, como se tivessem sido talhados por um grego sensual, no marmore rijo e duro. A esta multidão, que avançava por ondu- lações de grandes massas, vinha d'encontro outra chegada das povoações ribeirinhas do Oronteque desembarcara de pequenosbarcos, recurvados na ré e na proa, vellas de pendão, singrando habilmente ao impulso do vento ou à força de dois remos.
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86 Esta avalanche humana, naquelle dia 27 de maio de 341, decimo nono da acclama- ção de Diocleciano, e decimo primeiro da instituição da tetrachia, com que era gover- nado o imperio, não tinha a mesma curiosi- dade varia dos dias normaes. Debalde nos bairros mais afastados do co- ração da cidade gritavam os domadores de ursos, fazendo roncar as feras; os egypcios mostradores dg macacos sabios e brincalhões perdiam o tempo obrigando os simios a da- rem as mais extraordinarias e grotescas cam- balhotas. Nem os acrobatas arabes e noma- das, nem as danças gregas das encruzilhadas detinham a multidão, que lastimava a irreve- rente audacia d'essa chusma de farçantes, bufões e mimicos que se atreviam a exhi- bir-se em dia santificado como aquelle, em que sómente eram permittidas as visitas aos amigos, à comida em commum, as reuniões intimas, e nunca ser maculado nem pelo tra- balho, nem pelos divertimentos grosseiros. Era por isso que se achavam naquelle mo- mento fechadas as pequenas officinas dos cinzeladores de joias e armas forjadas em Damasco, a dos gravadores dos vidros d'Ale- xandria ; os estabelecimentos dos negocian- tes de estofos da India e Persia, as lojas dos (Continta) Serões artistas gregos, que, com a vaidade de se- rem admirados, costumavam retocar á vis- ta do publico uns os bronzes de Coryntho, as estatuetas mythologicas, outros enver- nisar vasos de ceramica artistica, em cujo bojo, ou á roda do bocal, pretos ou vermelhos, ' fôra figurada inversamente, a vermelho ou preto, ao sabor dos temperamentos, em per- fis tão correctos como animados de movi- mento, a religião, a vida social, a critica dos costumes, e até scenas aphrodisiacas, —outros tantos estimulantes para os libertinos exte- nuados. Dos estrados dos seus carros, guiando ca- vallos ajaezados com fitas, flores e joias, de- balde as hetairas com mitras persas, procu- ram attraír olhares cupidos, suscitando appe- tites, pelos impudentes rasgões das tunicas soltas, de gaze finissimo, deixando ora vêr ora adivinhar carnes nacaradas ; e raivosas voltavam as redeas e recolhiam aos gyneceos perfumados, ou á sombra dos platanos à beira dos lagos, à espera de melhor occasião e de mais propicia hora. Galero, genro e socio de Diocleciano, ia sacrificar a Jupiter Capitolino, e todos à por- fia corriam a adorar o pae dos deuses, para não incorrerem na colera do cesar. a per persas
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! De Lisboa a Moçambique Por ANTONIO ENNES CAPITULO VIII Moçambique — A vida — O batuque das facas (Continuação) ADOPÇÃO do pancar, que exige braços A para o moverem, é facilitada pela nu- merosa creadagem que enxameia ao serviço de toda a gente que se preza. E es- tes enxames não representam tanto uma os- tentação como uma necessidade, embora uma necessidade dilatada pelos habitos de indo- lencia e do sybaritismo dos patrões. Por muito bons que sejam, tres creados negros não fazem um bom creado branco; e para serem bons precisam ser educados desde muito novos, sob a disciplina do trabalho, por quem tenha geito para isso e saiba con- ciliar o rigor com a bondade, infundir temor e inspirar affeição. As familias antigas da pro- vincia, herdeiras de antigos senhores de es- cravos, ainda hoje teem serviçaes fieis e sub- missos, que se lhes conservam adscriptos como se não fôssem livres, e entre esses se encontrarão algumas edições authenticas do typo do negro dedicado aos amos até a he- roicidade, que tanto figurou nas novellas e nos dramas do romanticismo. Mas a genera- lidade dos que perderam as tradições da su- jeição da sua raça, não cahiram em mãos que lhes dessem bom feitio, e nasceram e civili- saram-se no convivio dos brancos, constituem uma famosa cambada de ralaços e bebedos que muitas vezes accumulam essas prendas com as de gatuno. Em todas as apreciações que se façam do caracter dos negros é pre- ciso distinguir, para ser justo, os dos matos e os das cidades, e a distincção é inteira- mente desfavoravel para estes que na escola da civilização apprendem mais vicios do que bons costumes, e desenvolvem mais qualida- des ruins do que aptidões. Applicados aos serviços domesticos, os melhores d'elles são ralaços, o que fazem é por solfa, e teem a balda da divisão do trabalho. O que acarreta agua não sabe nem quer engraixar sapatos ; cozinheiro que tenha gosto em si antes cozi- nhará as batatas com casca do que descerá a descascal-as; ao que faz recados parece mal fazer camas. Cada qual encarrega-se d'uma ordem de funcções muito restricta, e o tempo que d'ellas lhe sobeja é seu direito gastal-o a tagarellar ou a dormir. E”, pois, in- dispensavel organisar largos quadros de crea- dagem com especialisação de attribuições, e reforçar esses quadros com addidos que sup- pram os impedimentos dos borrachões chro- nicos ou eventuaes. Felizmente não são exi- gentes quanto a salarios, e é barata a sua alimentação baseada no arroz cozido e nos restos da mesa, e por isso não ha europeu, por mais desafortunado, que não tenha al- gum muleque, e as casas abastadas poderiam fornecer com os seus serviçaes companhias de guerra, com quasi tantas vivandeiras como soldados. Quando as casas são antigas na provincia, as relações entre patrões e creados negros participam da natureza das que existiam en- tre senhores e escravos, sendo, porém, bene- ficamente influenciadas pelos costumes pa- triarchaes portuguezes ainda hoje vigentes n'algumas provincias, que consideram o ser- viçal como um membro de familia. O creado leva a sua data de cavallo-marinho — assim se chama em toda a nossa Africa a uma ben- gala ou chicote feito d'uma tira de couro de hippopotamo — quando a merece, mas tam- bem se olha por elle e pela familia como por pupillos a cargo do coração dos amos. Fóra d'esses lares tradicionaes, hoje raros em Mo- çambique, os servos negros são geralmente tratados como os seus camaradas brancos no reino, como extranhos a quem se pagam ser- viços emquanto conveem, attribuindo apenas os patrões mais alguma liberdade de lhes fa- zerem sentir o peso da mão ou a rijeza da bengala, o que é tão salutar que, sendo re- grado, chega a ser caridoso. Não são vulga- res as sevicias exercidas por europeus sobre domesticos ; muito mais se ameudam os ca- sos de furtos e outras malfeitorias praticadas pelos domesticos em prejuizo dos amos. Os de violencia, não. Póde-se inclusivamente desancar um muleque e adormecer ao pé delle sem o menor perigo. Ninguem corre ferrôlhos nas portas das alcôvas ; as dispen- sas e as gavetas é que precisam andar sem- pre debaixo de chave.
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88 Serões O hospede portuguez de Moçambique não encontra, pois, dentro da habitação innova- ções que lhe causem profunda extranheza : apenas acha a comida mais apimentada, applaude o pancar, repara em que os corti- nados do leito soffreram ligeiras modificações de fórma a chamarem-se mosquiteiros, observa que as dispensas e os aparadores estão bem fornecidos de bebidas alcoolicas, e precisa al- guns dias para se familiarisar com a escuri- dão dos creados, que o servem descalços, de pannos e camisola, quando não inteiramente nús da cintura para cima, e lhe deixam na alcôva um aroma que nenhum perfumista se atreveria a enfrascar com a sua etiqueta. Tambem esse hospede não tem de impôr a si proprio costumes radicalmente novos, a não ser o de se lavar a miude, se julgar essa cerimonia desnecessaria na Europa. Póde continuar a vestir-se conforme o figurino que tinha adoptado para passear nas tardes de verão em Cintra ou em Cascaes ; entretanto, a propria commodidade e o exemplo alheio aconselhal-o-ha a mandar fazer, a qualquer alfaiate indiano, andainas de fato branco, de linho ou de algodão, lavavel e engommavel, compostas apenas de calças e casacos, curtos e direitos, abotoados na frente para dispen- sarem a ausencia do collete, — superfluidade quente, — e se quizer, com gola direita, como as das fardas militares, para tambem occul- tarem a abstenção da.. camisa e gravata. Toda a gente usa esses fatos, desde o gover- nador-geral até o muleque ajanotado, e as- sim se nivelam as condições perante o calor. Custam, sendo de algodão : 28500 ou 38000 réis, fazenda e feitio, e assim podem-se ves- tir dois por dia, ainda a cheirarem a barrella. Na provincia não se fazem d'outros, a não ser na Escola d'Artes e Officios, que não póde aviar muitos freguezes, e nas lojas só se en- contram feitas umas roupas inglezas de fla- nelas claras lizas ou de riscas, que parece terem sido talhadas de proposito para não vestirem bem em corpo algum. Quem, por- tanto, quer janotar, em Moçambique, encom- menda o fato no reino ou no extrangeiro ; mas por lá não se avaliam os livros pelas en- cadernações. Sem casaca é que se não pôde passar, por causa das solemnidades officiaes, obrigadas ainda a esse uniforme que aleija e obscurece o europeu posto a par dos orien- taes, de amplas roupagens magestosas e vis- tosas, e n'essas pompas tambem os altos cha- péos de seda ousam exhibir-se em confronto com os turbantes, tão artísticos e tão com- modos em paizes de sol. Felizmente, fóra d'essas paradas de funccionalismo, os tubos lustrosos cedem as cabeças aos largos cha- péos de feltro ou de palha, e aos leves capa- cetes e champignons de cortiça encapados de branco. N'esta questão de vestuario tem voto a hygiene, para, mesmo em opposição à com- modidade, impôr a abstenção absoluta do li- nho e o uso ininterrupto da lã sobre a pelle. Abalisados doutores recommendam até que o europeu se cubra de lã desde o pescoço até os pés, e o famoso Jaeger aproveita a sen- tença para inculcar os seus productos, que até já aspiram a monopolisar a clientela dos leitos a mais da clientela dos corpos; mas essa recommendação elles que a sigam, se puderem supportar o lichen e as herpes que a roupa dos carneiros desenvolve na epiderme dos homens, em climas tropicaes. Lã envol- vendo o thorax e algodão cobrindo o resto do corpo, é a minha formula conciliadora que experimentei com bom exito, e essa mes- ma não é commoda, ainda quando se sub- stituam as flanelas e outros intoleraveis teci- dos espessos e asperos pela mais subtil e ma- cia malha. E” forçoso, porém, transigir com a negregada camisola de lã, ainda que ella se desenhe no tronco e nos braços em verme- lhidões de lichen, porque só o seu agasalho, a sua faculdade de absorver a humidade sem se arrefecer, o estimulo que o seu contacto produz na pelle, permitte que quem anda constantemente inundado em transpiração ande com a mesma constancia a procurar e a aproveitar correntes e agitações d'ar, n'um paiz onde um resfriamento é quasi sempre uma febre. Acceita-se, pois, a protecção da lã para os pulmões ao menos; em compen- sação, deitam-se fóra as camisas e os collari- nhos, os punhos que póem em contacto com a epiderme crostas de gomma de amido, que as exsudações amollecem e reduzem a mas- sas viscosas ; em todas as lojas de monhes ha bellas camisas, desafogadas no pescoço, de te- cidos leves, e nomeadamente de seda, que não precisam pedir brilho ao ferro de engom- mar e dispensam tesuras de cartão para se- rem correctas e elegantes. E como se vive em Moçambique, fóra de casa, nas horas em que os ocios pedem en- tretenimentos ? Vive-se, pouco mais ou menos, como nas pequenas cidades das provincias do conti- nente, onde não ha espectaculos nem pas- satempos publicos, nem clubs, nem bote- quins, nem saraus ou partidas em salas par- ticulares; — fala-se da vida alheia, discute-se a politica local, intriga-se, joga-se, desin- quieta-se a mulher do proximo, bebe-se, bo- ceja-se. No tempo secco, a praça de S. Paulo convida à noite, ouvintes para os concer- tos em que a banda regimental accommoda partituras europêas ao temperamento artis-
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De Lisboa a tico dos canarins e dos cafres, ou para os in- genuos desconcertos da charanga da Escola d'Artes e Officios ; mas o convite só costuma ser acceito por grupos de officiaes da divisão naval, que dão á praça aspectos e échos da famosa casa da balança, alguns paizanos que afinam melhor do que os musicos na execução de córos de má lingua, e ban- dos de negros que se sen- tam nas bordas dos pas- seios, esperando que o bombo lhes dê compasso para exercicios choreogra- phicos ao ar livre. As se- nhoras absteem-se, em ge- ral, d'estas escassas re- uniões periodicas, ou por- que entendam que a mu- sica é só para homens, como certas leituras, ou para evitarem encontros que as compromettam à suprema violencia de dize- rem mais palavras do que sim e não. Aº ponte só vão aspirar brizas ou banhar-se em luar os que gemem saudades ou os que dizem segredos, e o campo de S. Gabriel, que de noite é escuro como selva, está reservado para entrevistas eroticas. A loja dum q»o- nhé rico, o Jumá Grande, tem fóros de Casa Hava- neza da terra, no passeio que a enfrenta sentam-se em cadeiras pequenos ma- gotes em cujos enroupa- mentos brancos luzem ga- Moçambique 89 ganisada por sargentos. Festas publicas para povo ou nobreza, para europeus ou indige- nas, não se celebra uma só em toda a roda do anno, a não serem as insipidas recepções officiaes ou as pobres solemnidades de egreja, e a iniciativa particular não lhes remedeia a lões doirados, e diz-se que, quando estes magotes pa- lestram com as cabeças chegadas, avermelham-se muitas orelhas na provincia inteira e até no reino. No palacio do governo reunem-se os intimos de S. Ex.º civil, jogam barato, tro- cam-se novas do dia, beberricam gazosas e aguas mineraes, ouvem o concerto nas ja- nellas, que jorram para a praça clarões de petroleo e irradiações de gloria. Ha alguns cafés, que teem pequenos bilhares quasi en- tallados entre quatro paredes caiadas, guar- necidas de garrafaria com rotulos vistosos, mas são frequentados por arraia miuda, ar- tistas, caixeiros, inferiores da armada e do exercito. Associações de recreio não as con- sente a insociabilidade da intriga e de mal- querença ; ha dois annos, só existia uma, or- Moçamsrque — ESTRADA DO INTERIOR falta. Nºum comprido barracão visinho do mercado engenhou-se em tempo um theatro, aquese deu o nome de Serpa Pinto, como me- recido preito tributado pela arte de represen- tar ao illustre africanista, mas só de longe em longe lá vae colher louros alguma companhia improvisada a bordo dos navios de guerra. À um d'esses grupos devi eu o prazer de applau- dir uma zecita de curiosos, tanto em caracter, tanto à altura das lendas trocistas que teem celebrado esse genero de espectaculos incon- scientemente buffos, como já por cá se não gosa nenhum, nem em feira aldea: a ingenua, um grumete da altura do mastro da mezena que arrulhava ternuras no tom em que se
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9o Serões commandam manobras, era por si mesmo o disparate mais desopilante que póde imagi- nar um fazedor de farças. Tambem assisti, lá para as bandas do hospital; á commemora- ção do resgate de Angola por Salvador Cor- reia de Sá, patrioticamente solemnisada pelos angolenses domiciliados na cidade por von- tade sua ou mandado de justiça. Houve uma kermesse de estylo europeu, em que enfeita- das negras vendiam sortes brancas, e ao mes- mo tempo batuque ; celebrou-se uma sessão solemne, como na Sociedade de Geographia, pondo meias com um bufete, que vendia car- dina. O presidente da commissão promoto- ra, um ex-degredado negro que na guarnição da provincia ascendêra às grandezas de cabo de esquadra, pronunciou um discurso lardea- do de citações de Rousseau e Tito Livio, di- gressões historicas e commentarios philoso- phicos, phrases de carrilhão e palavrões de grande uniforme, que merecia ser archivado como exemplar raro de asneiras. Mas estas festanças são da plebe com aspirações a civi- lisada; a soctedade não se mette n'ellas, e tem outras de caracter publico ou privado. Tem- pos houve em que alguns governos foliões a trouxeram n'uma roda viva de saraus e pas- seios maritimos ou campestres, que opulen- taram as chronicas picarescas da terra ; mas esses tempos passaram e os costumes apaca- taram-se, Apenas algumas familias se juntam a largos intervallos, para fazerem um prc-nic na Cabaceira Grande ou no Mossuril. Um que outro caçador vae matar aves maritimas nos mangaes, ou desencantar rôlas e perdi- zes nos palmares da terra firme. Jogos gym- nasticos só teem voga entre os extrangeiros. Os inglezes do telegrapho e um commerciante portuguez representam o sport nautico, velle- jando na bahia em escaleres elegantes. Do movimento intellectual, instructivo ou recrea- tivo não ha uma vibração. Todos os livros que existem no districto, fóra das repartições publicas, não encheriam uma caixa de botijas de genebra. Na cidade publicava-se d'antes um periodico semanal, cuja typographia se installara no casco do vapor Quilimane, en- calhado na praia e ligado por uma passadeira à casa do seu proprietario ; mas esse orgão só era tocado nas notas agudas pelos mexericos locaes e nas notas graves pelo pedantismo estopante. São estas as notas principaes que ácêrca dos costumes de Moçambique pode tomar O observador que não espreita nem escuta pelas frinchas das portas das casas. O que se passa lá dentro mereceria uma descripção especial. As numerosas colonias asiaticas absorvem- se na tarefa de juntar dinheiro; a pressa de exportarem para a India, por todos os vapo- res, libras de ouro ou libras de marfim dispen- sa-os de somenos gosos. Apenas celebram fes- tasrituaes, nas mesquitas, luzindo galas e psal- modeando orações, e fóra dos templos, jun- tando-se em ágapes de arroz e hervagens e queimando ás portas das lojas panchões, a que nós chamamos estallos da China. O unico ele- mento de população vivo, expansivo, buliço- so, folgasão é o indigena. Trabalhador ou va- dio, civilisado ou inculto, o negro tem quasi tanta paixão pelo canto e pela dança, — que se associam no batuque, — como pelo mata- bicho. Os carregadores de alfandega, verga- dos sob o peso dos fardos, cantam em côro melopêas selvagens; cantam os barqueiros puxando pelos remos; os machileiros acertam “o passo pelo compasso das cantigas. A's horas de folga, agitam-se as pernas emquanto os hombros descançam. Na ilha enaterra, é rara a noite em que as aragens não espalham re- sonancias do ckoma, do tambor denunciando que n'algum quintalejo ou na propria praça publica, na clareira d'um palmar, sobre a areia da praia ou junto a um grupo de palhotas, ma”. gotes de indigenas estão gosando, sem nunca se saciarem, as fortes sensações do severo ma- rikosse, batuque em que só entram executan- tes masculinos, ou de affeminado scrirê, exclu- sivo das mulheres, ou d'um usassa ou saríssa, em que os prazeres puramente choreographi- cos se condimentavam com os attractivos da promiscuidade de sexos. Em vesperas de lua nova, lá para o interior tripudia o fzot0, que dura quatro dias, desgrenhado, phrenetico, em que os pares muitas vezes rollam no chão tontos ou extenuados, e que cohonesta o seu delirio com intenções supersticiosas : no kio/o, descobre-se quem tem o dom de adivinhar, a prova que se lhe exige é encontrar uma pa- nella de pombe escondida para essa prova pelas mhulukana-kioto. Estas folias são quasi sem- pre animadas por copiosas libações, de bebi- das indigenas ou civilisadas, e os moralistas accusam-n'as de serem occasião de torpezas, pelos cortinados das trevas e pelos biombos da vegetação. D'entre estas danças sobresae, pela sua originalidade e por ser raramente executado, o batuque das facas, cuja denominação em idioma macua inteiramente ignoro. Não o en- contro memoriado por nenhum dos viajantes que publicaram as impressões das suas visi- tas a Macuana, e por isso me detenho a des- crevel-o. OAli..... Como o vaidoso se lastimaria se eu o não apresentasse! O Ali é um rapazola macua, dotado d'um par de beiços que ao meio dia lhe abrigam do sol toda a frente do corpo. O commandante militar do Arnangua desta-
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De Lisboa a Cou-o para serviço da minha palhota quando estive na Beira penando peccados alheios, e eu nomeei-o meu mylegue, honraria a que elle, desvanecido, correspondeu com os mais atten- tos, embora às vezes os mais desastrados, des- velos pelo bem-estar do patrão. Um dia, — por exemplo, — servindo-me à mesa no pa- lacio de S. Paulo, onde estava só, o Ali, que rebolava os olhos brancos na face de azevi- che para bem observar como comia um gran- de, viu-me deitar fóra as pelles, espessas e engelhadas, d'umas uvas com que me tinham presenteado; no dia seguinte, quando fui jan- tar, encontrei entre as sobremesas, uma py- ramide de bagos, esmeradamente pellados pelos dedos d'ebano do meu previdente ne- gro. Tanto me enterneci com este rasgo cari- nhoso que tive coragem para comer as uvas, e trouxe o Ali para Lisboa ! Mas por cá estragou-se. Deu em janota. Gastava tudo em lencinhos bordados a cô- res, que entalava artisticamente no bolso do peito do fraque, com a ponta de fóra. Ga- lanteava as creadas de todas as familias das xonou-se pela Geral- dine, a quem chamava menina bonita. Furta- va-me rosas para lhe atirar à sahida da liça, Moçambique 91 co antes de se separar de mim, pediu-me que em galardão dos seus serviços e memoria das suas viagens, lhe conferisse o appellido de Gente, para assim desmentir a desrespeitosa sentença, que muita vez ouvira, de que pre- tos não são gente. Por minha mercê, chama- se hoje, pois, 4/i Gente, e para mais se nobi- litar cobriu o estigma de muleque com o bra zão de servente das obras publicas. O Ali tinha-me dito que havia na Cabaceira Grande, onde estavamos então, um batuque de arrom- ba, coisa nunca vista nas Europas, em que os dançantes, nos paroxísmos do enthu mo choreographico, golpeavam as cames com facas e cravavam punhaes no ventre, — Sior, é verdade! juro!—e, com uma convicção forte, que se accentuava em chorrilhos de palavras e sarilhos de gestos, accrescentava taes batuqueiros até cortavam cerce , tornavam a pôl-as sobre os p coços, e, prompto, podiam beber um garrafão de mata-bicho sem se lhe entornar uma gotta pelo córte! O Luiz, uma torre de carne e osso, que estava ao meu serviço como sipal, confirmava a mirifica narrativa, e ainda ia mais longe: offerecia-se denonadamente para me fazer presencear, alli mesmo, á porta do e uma noite entrou em casa ás cambalhotas, manifestação de regosijo muito sua, porque, tendo arremessado o bonnet à acrobatica diva, ella entregára-lh'o rindo-se. Na segunda via- gem deixeio-o em Africa, para não augmen- tar um vulcão à geographia da Europa. Pou- - Um BATUQUE palacio, uma d'essas sirandas de sangueira. Se eu désse 4 ou 5 rupias arranjava-se para logo o sarrabulho ! — Pois vamos a vêr isso ! consenti eu, afi- nal. Não suppuz que os pretos quizessem mys-
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92 Serões tificar-me, comquanto não désse gasto ao ca- vallo marinho; imaginei antes que alguns em- baidores figuravam as scenas cruas, que elles me descreviam, com manhas de persuadir da sua realidade os espectadores ingenuos, de si propensos a acreditar no incrivel. Dispuz- me, pois, para assistir a uma engenhada pan- tomima, e, intrigado especialmente com as degollações, projectei opulentar o boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa com uma erudita memoria sobre as origens afri- canas do Nirudy-Khan. O Luiz, o colosso, foi de manhã, esgalhan- do-se na carreira, chamar os pantomimeiros, e julgo que foi muito pela terra dentro, por- que era já noite escura e ainda não tinha voltado. À minha incredulidade chegou a sus- peitar de que o farçante fugisse, como empre- sario sem companhia; mas, evidentemente, só eu era incredulo. Em casa e nas vizinhan- ças notára-se alvoroçada expectactiva do acontecimento famoso. Os sipaes e os gen- tios degredados tinham passado o dia a pa- lestrar no quintal, acocorados ou deitados de bruços em esteiras, com effervescente mimica e prodigiosa variedade de inflexões admira- tivas; o cozinheiro deixara queimar o jan- tar; as filhas do pharoleiro vizinho ha- viam sido vistas, sentadas á torreira do sol, cardando as carapinhas, e vestiam os seus quimáus de gala, bordados a trancinha; o Ali andava azaranzado, jurando a todos que sim, que cortavam as cabeças, que logo ve- riam, que era tudo a valer! Ao entardecer começaram a juntar-se curiosos no terrado em frente do palacio : vieram pretas, derrean- do os quadris, com as crias penduradas ás costas; rapazitos pançudos, exhibindo umbi- gos do volume de nozes, mas cobrindo cas- tamente o toutiço com barretes brancos re- dondos; machileiros de camisolas listradas, trabalhadores trajando saccas de grosseria furadas no fundo e nos cantos para darem passagem à cabeça e aos braços, mouros de camisas lavadas até os pés sujos, e esta chusma palreira, hilariante, movediça, encru- zou-se na areia, abancou em troncos corta- dos de coqueiros onde os mangussos costu- mavam fazer acrobatices, em pittorescos gru- pos anciosos. E não se moveu apenas a plebe do sitio; um indio dos arredores, pessoa gra- da, fazendeiro e auctoridade, pediu-me logar nas janellas para a esposa, uma figura opada de cara amarella, espessas tranças de azevi- che a escorrerem gordura, dentes esmerada- mente tintos de preto, inverosimeis olhos bis- trados maiores que toda a cara, enfaixada até o queixo em peças de seda sem feitio. O que me custou a impedir que o Sampaio, o meu jovial secretario, risse às descancaras Paquelle manequim de bazar oriental, que elle desejava averiguar se era de roca! Grande reboliço annunciou por fim a che- gada dos farcistas, vinte ou trinta matulos de aspecto sordido, um dos quaes vinha vaque- teando em surdina no indispensavel tambor de batuque, — um cylindro ôco de madeira mal apparelhada, tapado n'uma das extremi- dades com uma rija pelle fortemente tendida e embebida em não sei que drogas. Compli- cava-se, pois, o caso; havia uns descarados que contavam embustear-me, talvez com be- xigas de sangue de cabrito e cutellos de latas de sardinhas : pois veriamos ! Mas como havia eu de vêr, afinal? O Cru- zeiro do Sul não me dava luz para differen- çar uma cabeça de preto d'uma cabeça de carneiro ; os proprios vultos que fervilhavam lá em baixo, só os distinguia ao passarem pe- las esteiras luminosas que das jancellas se ex- tendiam pelo terrado. Era certo que os sipaes estavam juntando accendalhas, e já bruxe- leavam aqui e acolá chammasinhas verme- lhas laivadas por espiraes brancas de fumo ; mas a iluminação vacillante de fogueiras não bastaria para descobrir os /rucs dos batuquei- ros, que provavelmente haviam tardado para terem a treva por comadre. Nºessa não cahi- ria eu: antes adiar para a manhã seguinte o batuque das facas! Assim o determinei. Bailassem à vontade, mas guardassem a ca- bidella para a hora do almoço, porque tam- bem o sol a queria saborear ! E fui dormir, convencido de que tinha honrado a superior argucia da raça branca ! Pela noite adeante, se me accordava fer- roada de mosquito ou voejo de barata nas pregas do mosquiteiro, ouvia o monotono tum, tum, tum, do batuque, e divisava pelas fendas das persianas clarões rubros de foguei- ras ; mas sorria-me por dentro, pensando que se os homens ainda lá estavam, recolheriam com os morcegos ao raiar da aurora. Pois não recolheram tal! Quando me levantei, já o sol ia alto, mas o batuque proseguia incançavel, gosado pelos mesmos espectadores da ves- pera, estiraçados na areia banhada pelo se- reno, junto de montões de cinzas fumegan- tes. Decididamente, os impudentes affronta- vam a luz do dia e a vista dos brancos: Ah! bom cavallo-marinho ! Installei-me na va- randa, todo eu olhos perspicazes, e mandei começar a indromina. Redobrou de sonoridade o tambor, ental- lado entre os joelhos do tangedor acocorado, e uns vinte negros, formados em circulo, mas soltos uns dos outros, principiaram a rodar lentamente, agitando os membros a com* passo. Tinham physionomias vulgares ; ape- nas notei um, ainda moço, vestido de monhe
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E De Lisboa a pobre, secco e musculoso, de esgalgado pes- coço sulcado de grossas cordoveias, em cujos olhos raiados de sangue havia um fulgor de desvairamento. Não estavam bebedos, por- que eu tinha tomado a precaução de prohi- bir que lhes déssem de beber, e não havia baiucas nas redondezas. Giraram, giraram, e a pouco e pouco accelerou-se o giro e des- ordenaram-se as gesticulações ; saltavam ora n'um ora n'outro pé, e agitavam os braços, bamboleavam os quadris, meneavam a ca- beça, careteavam, torciam o tronco, cada qual segundo a sua inspiração choreographica, mettendo os tregeitos na solfa do tambor. Quanto a facas e a punhaes, a ferimentos e decepações, nem suspeita : os bailões até se mostravam tão inoffensivos que evitavam em- bates de cabeças, não brotassem chispas que incendiassem as carapinhas ! O famoso batu- que, afinal, parecia-se com todos os outros, hypnotisantes à força de monotonia. — Sior, estão a aquecer ! observou um en- tendedor, que deu fé do meu desaponta- mento. De facto, activaram os esgares e as con- torsões, e a tresudação copiosa retingiu-lhes as negras epidermes ; agora, rodando sempre, pinchavam, desarticulavam-se, desengonça- vam o pescoço parecendo sacudir a cabeça para fóra dos hombros. Appareceu emfim a ferramenta da chacina ; facas e navalhas sa- hiram das pregas das roupas, e foram lustra- das nos pannos, afiadas em pedras, floretea- das em passes de agilidade. Para maior co- lorido de verdade, os farçantes arregaçaram as mangas até os hombros, como se lhes pa- recesse pouco todo o braço para a retalha- gem; mas, attentando-se bem, percebia-se que os gumes e os fios eram cuidadosamente desviados das carnes, e custava a crêr que tão tôsca e desastrada pyrrhica illudisse ne- gros providos de pares de olhos telescopicos, que percebem o disco lunar no dia do novi- lunio. Sem a minha gravidade official teria gritado : fóra ! Moçambique 93 Mas foi por deante o corropio, de mais e mais revolto, animou-se 0 tum, tum, tum, do tambor, os curiosos alongaram os pescoços e dilataram as pupillas, e pareceu-me vêr as facas baterem nos braços e ante-braços, nas pernas, de cutello, a golpes crebos, rijamente. Era bem fingido, illudia; comecei a descul- par a boçalidade dos indigenas! O tambor tornou-se phrenetico, os dançarinos convul- sionaram-se como epilepticos, os espectado- res explodiam em interjeições de jubiloso pasmo, e... eu cahi então do desdem incre- dulo n'uma convicção enfurecida! Era ver- dade, era a valer, era sangue, sangue humano, que avermelhava as laminas, que borbulhava dos sulcos abertos nas carnes, que pingava no chão, que salpicava as roupas! Parem, selvagens ! basta, canibaes ! gritei, barafustei, dei murros na varanda, mas o tambor ensur- decia, a grita atordoava, as facas iam cortan- do, o sangue alastrava na areia ! O cabo de cipaes teve de agarrar os desvairados pelos hombros, de fazer rolar o tambor com um pontapé, de espalhar cachações pela turba, para pôr termo ao repugnante espectaculo ! Chamei alguns dos figurantes para lhes vêr os ferimentos, e viu-os tambem um medico distincto que commigo estava, o dr. Moura Borges; tinham o braço, do pulso ao cotovêl- lo, sarjado por extensos golpes obliquos, cujos riscos vermelhos se cruzavam com as cicatri- zes negras de cortaduras antigas. Reprehen- di-os asperamente. — Sior, nós gosta ! foi a desculpa. — E agora como se curam? como vedam o sangue ? — Sior, deita terra em cima e está prom- pto! O Ali afiançou-me, com a maior serieda- de, que se eu não tivesse interrompido a festa tão extemporaneamente, os homens tambem teriam cortado as cabeças. Nenhum ethnologo deixará de reconhecer nºesta choreographia furiosa a influencia das danças famosas dos derviches.
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Seixas) (4 Maria Pereira de POR AD. BRINITA Poco andante marca Il canto e S o : + | ) | CTESO. paca E A ES AT SEIS RO (DE é O TES
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Sob o pseudonymo de AD. BRINITA occulta-se uma gentil cultora da arte musical, eximia pranista que abrilhanta os salões da nossa sociedade com os primores da sua distincção e do seu talento. Os SerÕES reconhecem-se agradecidos pela amavel colaboração da sua «Romansas, toda plena de delicado sentimento. Serões — N.º 8— Vol. E 7
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“ Dança campestre — QuaDRO DE P. P. RuBENs
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ENTRE DUAS REVOLUÇÕES o encerrar a camara,* depois de oito me- Ã zes seguidos de trabalho, a rainha con- signou o seu applauso aos legisladores pelo modo como tinham procurado cicatrizar as feridas da patria, abertas pelas luctas pas- sadas. Felicitou-se pelo socego publico, con- trastando com os acontecimentos que se ti- nham produzido na Europa. Pediu aos re- presentantes do paiz, que, durante o descanço em que iam entrar, inspirassem aos povos o amor pelas instituições vigentes, «com os sen- timentos de obediencia ás leis e às auctori- dades, não esquecendo o amor ao trabalho e à moralidade», unicas fórmas de assegurar a felicidade da nação e de levar de vencida a propaganda das ideas exaggeradas. Os progressistas, esses, despediram a ca- mara como quem despede um fardo impor- tuno. Reputavam-n'a machina de oppressão alçada sobre o paiz. «Não ficavam desafiron- tados, — diziam elles — mas ficavam com menos peso», O Períodico dos Pobres tinha por esse tempo no norte um papel popular, como o do Primeiro de Janeiro, mais tarde. Às cartas que de Lisboa lhe escrevia 0 Braz Tisana, —S. Bandeira — faziam opinião pela justeza da critica e constituiam auctoridade pela segurança da informação. Muitas occor- rencias intimas eram alli referidas, muitos fa- etos politicos eram alli noticiados, antes de terem manifestação ostensiva, em Lisboa. Nºessa occasião os Pobres, — dizia-se assim por abreviatura, como depois, pela mesma rasão, se disse o Janeiro — publicaram a cri- tica à sessão que acabava de encerrar-se. O artigo fez furor entre os elementos da oppo- « Em 18. Jornalista poli tario ironico, na citação adequada, na approxi sição ao governo. O resumo d'essa aprecia- ção, só apparentemente placida, era «de que a nação não podia estar satisfeita com os seus procuradores ao parlamento de 48». Não acreditava, tambem, nos trabalhos prometti- dos para janeiro e fundava o seu scepticismo, «na corrupção, na immoralidade e no egois- mo» que via em ordem do dia. O remate é que punha uma nota muito justa, muito ver- dadeira, sobre a incongruencia d'um parla- mento, que na camara dos pares funccionava sob a presidencia do chefe da opposição, — o duque de Palmella, — e na camara dos de- putados se resentia da «desageregação pro- duzida pelo chefe que a maioria tivera no começo !» «Mas que podia a nação esperar d'uma camara de pares cujo presidente capitaneava a opposição ao governo ! Que podia ella es- perar d'uma camara de pares atulhada de ho- mens que ainda ha pouco foram amnistiados!! Que podia a nação esperar d'uma camara de deputados, cuja maioria movel não tinha che- fes que a levassem aos combates! Cuja mi- noria, parte excentrica e parte vulcanica, se resente a cada instante da sua infeliz ori- gem!!» A” theoria acertada dos Pobres contrapu- nha o Estandarte a sua. Para este orgão do primeiro /cader da camara popular, se o par- lamento não tinha produzido o que delle se esperava é porque os ministros o esterilisa- vam, visto como em si proprios traziam vicio constitucional. Sendo a sua conservação, «um verdadeiro crime politico», elles não podiam exercer as suas funcções, sem atraiçoar as O artigo que segue é um capitulo d'um livro (edição de M. Gomes) que sob o titulo acima o notavel ico sr. Barbosa Colen vae publicar agora, reunindo às suas notas de estudo sobre uma epoca parlamen- tar bem caracteristica da sociedade portuguesa. Esta revive e resurge ao leitor na s us gestiva diseripção, no commen- ação calculada dos factos, na pintura dos caracteres e na critica dos costumes que a penná vibrante, finamente acerada' do escriptor vae gravando à bem marcados contornos em cada pas Bina da sua obra de investigação historica.
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100 regras do direito constitucional e sem pôr em conflicto os diversos interesses do Estado. E desenvolvia os motivos: «O ministro da fa- zenda é administrador da casa de Bragança, —a qual é crédora ao Estado de sommas talvez superiores a 400 contos de réis». Como havia o administrador, o fiel, o agente, deci- dir, para ser ministro recto? «O ministro das justiças é escrivão da miscricordia». A mise- ricordia é crédora do Estado, representa grandes interesses especiaes. Subordinada à acção administrativa, — como havia o seu es- crivão de harmonisar as suas funcções com as de ministro, e as de fiscal com as de fisca- fisado? «O ministro dos estrangeiros é mem- bro da commissão liquidadora do Grão-Pará e Maranhão». Como havia de prejudicar os interesses dos seus mandatarios, justificar os 6008000 réis que recebia d'elles — occupando-se com o zelo preciso dos negocios da nação? «O ministro do reino é mordomo-mór do palacio». Todos os publicis- tas estavam de accordo em sustentar, como uma das pri- meiras condições constitucio- naes, a acção livre dos mi- nistros. «Poderá ser livre a acção do ministro que é ao mesmo tempo famulo do Paço ?» Esta analyse dos motivos de incompatibilidade nas funcções do governo, que o Estandarte explanava detida- mente; esta maneira de de- José Brrsarvo DA Costa CABRAL monstrar que com taes mi tros não podia haver camaras boas, nem admi- nistração proveitosa, exasperava muito mais o governo do que os artigos de Sampaio, que eram pessoalmente aggressivos, — accusando o Falcão, da fazenda, por andar armando um palacio, no Campo de Sant'Anna e uma quinta, na Arrentella, — e denunciando o José Elias, da justiça, por levar vida milagrosa, sendo um devasso :—— «O sr. José Elias tinha alcançado estar - isento, no trato social, da maior parte das conveniencias a que um homem brioso se obriga e com sorrisos banaes e capciosos grangeou a sua vida milagrosa. Por muito tempo entenderam todos os homens publicos que elle andava na politica como andam os gaiteiros nas festas aldeàs e todos deixavam viver o pobre caturra á custa das suas maca- quices. Agora sabe-se que é um perseguidor e um devasso.» Saldanha merecia apreciação mais demo- rada e notas mais desenvolvidas. Estudava-o Serões em duas phases diversas. Na primeira era assm: —— «A primeira época da sua vida passou-a nas tergiversações e incertezas consequentes d'estas pechas. Não enganava. Mudava de posição quasi insensivelmente. A sua instabi- lidade era innocente. Entregava-se ao pri- meiro que o affagava; que fazia festas à sua ambição, mas entregava-se lealmente. Não era de partido nenhum e era de todos, por- que não sendo de si mesmo, não podia dis- pôr com segurança dos seus affectos e das suas idéas. As suas determinações eram em relação a elle verdadeiros acasos. A intelli- gencia não tinha parte n'ellas. Nos corrilhos politicos, no jogo dos partidos, é que estava a sua historia, e a rasão dos seus procedi- mentos. Era um automato tão bem arreme- dado, e com os movimentos tão concertados, que parecia gente e não o era.» Na segunda phase, o pintor desfeiava mais o retrato pri- mitivo:—— «Hoje peorou. E' ruim de condição, refalsado, violento, máu e intrigante. O seu cara- cter negativo determinou-se afinal pelas peores qualida- des. E" como um homem que passando a maior parte da vida em esturdias, se declara por grande vicioso no seu ultimo quartel. Amadureceu na maldade.» Com estes trechos fica in- dicado um dos themas favo- ritos do jornalismo da oppo- sição no intervallo dos trabalhos parlamenta- res de 1848-1849. Discutiam-se os ministros, accusavam-se e desacreditavam-se com parti- cular rancôr,—mas, como o leitor se terá aper- cebido, mesmo nas accusações mais violentas se punha cuidado na fórma litteraria do di- zer. Procuravam-se com cuidado as formulas concretas —o que dava, mesmo no uso das vulgares injurias, a impressão da cultura de quem escrevia. Era assim, por exemplo, que, no Popular, até o Pandorra, José Carlos — de todos os jornalistas da época o menos let- trado, — respondia à Revolução de Setembro «A Revolução de Setembro quando sahe da estrada do vicio, da corrupção c da calum- nia, estende-se como uma sendeira. Podia ter mais vergonha já que tem tão pouca capaci- dade.» e Desde o encerramento da camara até à reabertura dos debates, em janeiro, seguiu, activa e violenta, a polemica dos jornaes. O
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Entre duas governo, durante esse mesmo periodo, occu- pou-se em descobrir e inutilisar os trabalhos a que se entregavam os que queriam derru bal-o, por meio d'uma revolta séria. Sampaio mettia a troça essa preoccupação dos minis- tros, e explicava, «ter em seu poder duas fi- lhas d'um official influente em refens». O que se tramava não era tão pouco sério como as- sim se queria inculcar, n'estes dizeres ironi- cos, porque as buscas por vezes revelaram o esconderijo de armamentos e munições : duma vez, n'uma casa na Ajuda, encontra- ram-se 30 armas, 72 lanças, 21 bayonctas, 580 cartuchos, etc.; de outra vez, em outra casa, appareceram, II pistolas, 120 chuços, 66 espingardas, 66 bayonetas, 2 clarins, 7 es- padas, 105 massos de polvora embalada, etc. Passado pouco tempo correu que os sargen- tos de infanteria 10 tinham tentado sublevar o regimen- to. À occorrencia envolveu-se n'um certo mysterio, masapu- rou-se, pouco depois, que 4 sargentos d'aquelle regimen- to tinham sofírido baixa de posto e um tinha tido passa- gem para o batalhão naval, sendo logo expedido a bordo do brigue Douro. Pamphietos incendiarios eram distribuidos com profu. são, e proclamações convi- dando o povo e o exercito a revoltarem-se, foram por ve- zes apprehendidas. N'uma dessas, apparecia a assigna- tura de Sampaio, como se- cretario da commissão central democratica, e «encarregado de toda a correspondencia para a concentração dos esforços a empregar.» O jornalista protestou em carta dirigida ao seu editor, e publicada na gazeta. Dizia elle, que derrubaria o governo se podesse, porque en- tendia que fazia um grande serviço à patria, mas que não escrevera, nem subscreveria as proclamações que lhe eram attribuidas. E ex- Plicava assim a rasão porque não assignaria O tal papel: Para dar vivas a S. M. não me queria tornar criminoso.» Succedeu, por este tempo, quererem os realistas convocar os seus, n'uma casa da rua Direita de Santa Martha, 5. Diziam tratar-se de organisar uma commissão de beneficencia, para acudir aos correligionarios. Foi negada a licença para à reunião, — porque o marquez de Fronteira, no governo civil, alcançára a prova de que se andavam alliciando officiaes entre os rea- listas convencionados de Evora Monte. O conde de Barbacena, chefe do partido, pu- blicou uma carta, ua Nação, afastando de si AnronIo RODRIGUES SAMPAIO Revoluções IOI toda a responsabilidade n'essas manobras, «que elle não auctorisára.» Os setembristas exasperaram Accusaram a Nação de de- nuncia à policia, e abriu-se, entre os jornaes, uma furibunda polemica, que mais serviu a comprovar não serem ficticios os receios do governo, nem simples. . invento da policia as reuniões e manejos em que occultamente se andava. A União amedrontou-se tanto com as noticias assim apuradas, que pedia, com insistencia, uma lei marcial. Outros, dos affeiçoados d'esta gazeta, tomaram logo um expediente marcial, — mas fóra da lei: arre- banhando alguns soldados e cabos, atacaram, de noite, a imprensa da rua das Adellas, onde se imprimia o Rabccão, — maltrataram os que encontraram ali e atiraram com o typo do jornal pela janella fóra. Emquanto os dias se iam assim passando. assignalan- do, successivamente, novas occorrencias, o processo dos presos politicos recolhidos no Limoeiro, seguia com a mais propositada lentidão. O escri- vão requereu ao juiz que lhe marcasse praso para O tras- lado, que havia de subir à Relação. O juiz deu-lhe 35 dias. Viu-se, depois, que o processo não tinha mais de 35 meias folhas de papel, — o que accusava da parte do magistrado um grande cui- dado em poupar o escrivão às vigilias—a que o podia obrigar a copia, sendo fati- gante! Mas não ficou por aqui. Quando estava a findar este larguissimo praso, o es- crivão appareceu. . de braço ao peito. De braço ao peito, claro é, estava impossibilita- do de escrever, e, como havia segredo de jus- tiça, ninguem mais podia tirar o traslado. Foi preciso novo praso! Deve notar-se, como con- traste, que, por esse mesmo tempo, os gover- nos em França e em Hespanha estavam dan- do exemplo, frisante, da rapidez dos proces- sos, nos crimes de conspiração contra aordem publica. Em Paris, os tribunaes da segunda republica, em 4 mezes, julgaram milhares de presos. Em Hespanha ainda era mais rapido: desterravam-se todos os dias às centenas, sem processo nem sentença ! Tudo acaba, até os expedtentes dilatorios! A 6 de novembro a Relação deu provimento no aggravo aos presos e mandou-os pôr em liberdade. Vieram, pois, finalmente, para a rua, Manuel José Mendes Leite, Manoel de Jesus Coelho, Antonio José Duarte Nazareth, Joaqnim Henriques da Fonseca. Luiz Diogo
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Io2 Leite, Ricardo Borges Diniz, Francisco José Pereira e Horta, Francisco Casimiro Judice Samora e Joaquim Maximiano Madeira Pinto. O accordão reconhecia que as testemunhas ou tinham deposto falsamente ou eram con- tradictorias e singulares. Coincidindo com tudo isto, e como que a animar os que aspiravam a um movimento revolucionario, de fóra continuavam a che- gar noticias sensasionaes. O imperador da Austria abdicava; o Papa fugia para Gaeta; Luiz Napoleão era eleito, contra Cavaignac, para a presidencia da republica ; a assembléa da Prussia era dissolvida à mão armada; em espanha a revolta irradiava da Catalunha para as outras provincias. «Chegava a ser uma vergonha, — berrava-se nos cafés, — que só em Portugal se não soubesse resistir a esse Jercules de palha, que es- tava no governo apoiado pelo conde de Thomar!» O governador civil, sabendo que estas prédicas tinham como pulpito as mezas do Suisso, mandou intimar o proprietario, que era então orge Runher, para que não mais ali consentisse conver- sas politicas. O botequineiro affixou no estabelecimento um aviso, com a ordem que recebera — e por sua conta decretou a pena de expulsão immediata, que se applica- ria, irremessivelmente, aos que contraviessem estas ins- trucções. Tanto bastou para que a ferocidade d'estes fre- quentadores e palradores se accommodasse às circumstancias ! Recorreu-se então a outra ordem de ma- nifestações, que serviam como de revista ás tropas do partido e não implicavam transtor- fio de maior aos que andavam desavindos com a situação politica: aproveitaram-se, para manifestações, as festas e cerimonias. D'estas ultimas até as funebres serviam! Em S. Luiz mandou a colonia franceza celebrar exequias pelos que tinham morrido em Paris, nos ultimos dias de junho, defendendo a re- publica. Cahiram lá todos os adversarios do ministerio Saldanha — mas toparam com este. que tambem fôra, por já a esse tempo, 12 de agosto, ter reconhecido o governo que a nça escolhera. Foi uma decepção, tanto s sentida quanto os partidarios do mare- chal tinham ido mais cedo e tomado quasi todos os logares do pequeno templo, ficando na rua, à soalheira, que era de rachar, os manifestantes progressistas! As toiradas é Antonio José D'Avita Serões que tiveram muito maior exito como meio de propaganda... contra o cabralismo. Os dois lados do Tejo, Lisboa e Almada, ser- viam, successivamente, para farpear a valer os bichos e para fazer pegas, de pirraça, à policia do marquez de Fronteira. Abre-se, pois, no capitulo, um parenthesis explicati- vo... da tauromachia na politica. e A primeira d'essas toiradas memoraveis foi no Campo de Sant'Anna, no dia 13 de junho. Os bois foram gratuitamente offerecsdos pelo conde de Belmonte e barão de Almeirim, sen- do este ultimo quem presidiu ao torneio. Na previsão da concorrencia, as portas da praça abriram às 2 horas da tarde, embora a lide só devesse começar ás 5. Limpo o redondel, aguado o terreno, vieram os homens de forcado, com os caixões e as farpas, que de- pozeram no logar do estylo. Serviram, n'esta tarde, n'este cargo humilimo, João Chris- tiano Velloso da Horta, Luiz Pereira Forjaz, José Ignacio Rodrigues Teixeira Mourão, Antonio Gomes Belford, Luiz Antonio Soares, Antonio Jo- sé de Sousa e Almeida e F. M. A.eJ.M. E. — que não quizeram dar o nome por extenso para o cartaz. O neto era Antonio do Canto e Castro, que, acompanhado dos seus andarilhos, fez as cortezias e convidou a en- trar os dois cavalleiros: o conde de Vimioso e Joaquim Antonio Victo Moreira. Com estes entraram na praça os ca- pinhas: D. José de Almeida Mello e Castro, Luiz Maria Telles de Mello, Manoel Rodrigues Martins Raymundo Antonio de Bulhão Pato, Francisco Monteiro Talone, D. F. de Carva- lho, Luiz Aranha de Menezes, Antonio Au- gusto Coelho de Magalhães, Foancisco Ra- poso Espargosa, Jorge Guilherme Lobato Pires e À. M. P. Os moços do toiril eram Francisco Carneiro Zagallo e Luiz de Mello e Castro. Duas bandas regimentaes tocavam succes- sivamente. A praça toda estava angalanada. Houv eum toiro para os curiosos. Não ficou um logar vago. A cada sorte o enthusiasmo explodia, n'um brado caloroso e unanime, que parecia ronco de tempestade! Nºuma das occasiões, quando os forcados se conçavam, embalde, para apanhar um toiro, o so/ poz-se todo em pé, clamando: basta ! basta ! O gado era de pura raça. O conde de Vi-
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Entre duas mioso nunca esteve tão feliz; «excedeu a sua propria reputação». Victo Moreira picou, tambem, «com muita pericia». As pégas fo- ram magnificas, especialmente uma, de cara, de Luiz Forjaz, e outra, de cernelha, de José Horta. Os capinhas bandarilharam com ga- lhardia, e metteram grande quantidade de ferros, — porém Mello e Castro, sempre muito dextro em passar de capa, ficou ferido n'um pé, logo ao primeiro touro. N'um dos inter- vallos, D. João de Menezes e Mello e Castro, vestidos de selvagens, — montados em caval- los em osso, guiados apenas por uma fita, — farpearam com perfeição o boi para curiosos, e alcançaram grandes ovações. Para que se não possa suppôr de pura phantasia a intenção politica d'esta tourada celebre, que deve estar ainda tanto na me- moria do querido poeta da Paquita e de D. João de Menezes, — aqui reproduzimos do folhetinista liberal, Lopes de Mendonça, a prosa triumphante com que elle annotou o momentoso acontecimento: —— «Ainda não houve demonstração mais so- lemne de popularidade — manifestação mais augusta de assentimento aos principios pro- gressistas. A causa nacional triumphou mo- Talmente n'esse concurso numeroso e espon- taneo, que parecia olhar como presagio de victoria essas filas enthusiasticas que applau- diam os cavalleiros mais como representan- tes da sua fé politica, do que como os esco- lhidos pela sorte a arrostarem os perigos d'um tão aventuroso espectaculo. Podem prohibir quanto quizerem os m»ee- tings, como attentados à segurança publica, — este, excede a todos quantos se poderiam fazer, e denuncía eloquentemente até que ponto estão arreigadas na alma do povo as doutrinas qne hão de algum dia emancipal-o, a elle, e à patria, cujo seio parece estremecer á espera d'essa hora solemne e desejada !» O testemunho é completo; mas ainda ha outro a corroboral-o. Dias depois, a commis- são organisadora publicou o seu agradeci- mento, pelo successo assim alcançado a favor das «victimas dos ultimos acontecimentos». Os signatarios do agradecimento eram : ba- rão de Almeirim, presidente, Anselmo José Braamcamp, Zhesoureiro, Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, D. Alvaro Henri- ques Roma, Vital Pereira Forjaz de Lacerda, José Estevam Coelho de Magalhães, secreta- no. A creme dos progressistas! O exito d'esta tourada aconselhou outras. Para a de Al- mada, destinada para o mesmo fim, o lavra- dor Vaz Monteiro pela primeira vez consen- tiu em apartar touros. A ultima foi no Campo Grande, debutando um novo cavalleiro João Revoluções 103 Carlos, feito visconde de Almeidinha pela junta zebelde. O outro era D. João de Mene- zes, que já fizera sentir a valentia do seu pulso, não só a alguns touros, destinados a protestar a favor dos septembristas, mas tam- bem em alguns lombos .. de puros cabralis- tas. Por isso dizia d'elle, em novo folhetim, Lopes de Mendonça, como quem falla d'um correligionario reconhecido : «O sr. D. João de Menezes, rebelde tam- bem, no sentido politico, é já uma reputação feita como cavalleiro : o ultimo touro, talvez o mais esperto, foi picado com muita pericia e habilidade. » A ultima farpa mettida em cachaço tau- rino, na ultima corrida de 1848, foi posta por D. João de Menezes. Saibam isto o /osé Pam- pilho, o Santonillo, e os outros criticos de no- meada na apreciação das lides modernas. Registe tambem esta nota o Eduardo de No- ronha, para quando reeditar a sua curiosa Historia das Touradas. Quem vê o D. João de Menezes, n'este anno da graça em que estamos, aprumado e forte, parecendo ter pintado as barbas de branco para accrescentar a distincção natu- ral do seu typo, tão pronunciadamente fi- dalgo, — mal poderá acreditar na denuncia, que aqui fazemos, de ser elle o mesmo, que n'essa quadra de agitação, arrastado, como Mazeppa, por um cavallo em pêllo, se enfar- pellava de selvagem, — ou se desenfarpellava, como quizerem — para proveito dos progres- sistas, victimas da Maria da Fonte! Menos para admirar é a evolução no ou- tro «toureiro» memorado e sobrevivente. Bu- lhão Pato principiou por passar de capa—os bichos, antes de passar à vara larga — os ho- mens. Veiu do animal de duas pontas até ao animal de dois pés. Principiou pela farpa e acabou pela satyra. Os touros mugiam de dôr, mas os criticados teem rugido de raiva ! e Se ampliarmos esta revista, do fim do anno, a outras occorrencias que então preoccupa- vam a attenção, teremos de memorar, em primeiro logar, o apparecimento do gaz, — revolucionando o aspecto da cidade, à noite. Estabeleceu-se lentamente, pausadamente. Veiu até a esquina do Chiado, do lado do Rocio e até o Pote das Almas, do lado do Terreiro do Paço. Alli parou, por muito tempo —por mais convites e lôas que em sua honra entoassem poetas, literatos e jornalistas! O Marrare foi o primeiro café a reformar-se e alindar-se para receber a brilhante visita. S. Carlos foi o primeiro a illuminar, e o seu lus- tre grandioso, com vélas fingidas, sempre à mesma altura, sempre ardendo e nunca pre-
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104 cisando o córte da tradiccional espeviteira, produziu, por annos seguidos, a admiração incondicional dos provincianos, que se arro- javam a vir até esta Babylonia de perdição, sujeitando-se às seducções, mascaradas aqui, pelo diabo, em appetitosas sensualidades ! Não se imagine que esta phrase traduz qual- quer exaggero a respeito das tentações offe- recidas pela cidade aos que de outras terras do reino a visitavam. Na rua Nova do Carmo encontrava-se uma das provas irrecusaveis do poder malefico de Lucifer — resolvido a tirar a prova dos nove na somma das castas vir- tudes dos que alli sc arrojavam, movidos pela curiosidade. Era nem mais nem menos do que a exposição dum tigre-marinho, o qual tigre era uma phoca, — como gravemente foi demonstrado por alguns naturalistas, em ar- tigos solemnes, nos jornaes. A questão, po- rém, não era-do peixe era do peixão que o mostrava. Na mulher do tigre é que estava toda a peçonha de Satanaz! Não havia duas opiniões divergentes: todos os olhos, como olhos de gorazes, fugiam do monstro para a fêmea. Um peralta, sem se importar com a sorte do peixe, quiz roubar-lhe a que era le- gitimo orgulho do amphibio em viagem ! O rapto tentado foi um acontecimento — que deu quasi tanto brado como outro, succedido por esses dias e que na escala do crime, em Portugal, tem um dos primeiros logares. Perto de Santa Engracia appareceu, en- costado ao recolhimento do Desaggravo, o tronco d'um corpo de mulher. As coxas e as pernas cortadas pelas virilhas e pelos joelhos e os braços cortados pelos hombros e pelos cotovêllos, foram encontrados, quasi à mesma hora, por uma patrulha, na travessa das Mo- nicas, à Graça. Em nenhum dos sitios havia vestigios de sangue. O corpo fôra trespassado por 17 punhaladas! Os medicos declararam que a mulher teria 40 annos de edade. Ao regedor de Santa Engracia tinha-se Serões queixado, dias antes, uma mulher, de ter sido roubada pela filha, e pediu-lhe, allegando a sua miseria, para a mandar, com essa recom- mendação, para o hospital. O regedor, para aparar o caso do furto, — que era d'um cor- dão de ouro, — mandou vir a accusada e quiz depois envial-a para o Limoeiro. A mulher oppoz-se, e alcançou licença para, no dia se- guinte, vir receber a auctorisação de entrada na enfermaria. Foi a filha quem em vez della appareceu. Declarou que a mãe prescindia da entrada, com a nota de pobreza. Ora succe- deu que o regedor, quando estava junto do tronco tão horrivelmente mutilado, — e de que lhe tinham ido noticiar o apparecimento, — avistou de repente, entre as pessoas que accudindo commentavam o pavoroso caso, a rapariga de quem recebera queixa. Por uma inspiração feliz, prendeu-a immediatamente, Interrogada na administração do bairro, onde lhe perguntaram pela mãe, explicou «que ella sahira de manhã e ainda não voltára», Dé- ram busca à casa. Na cosinha, debaixo d'uns tijollos, encontrou-se... a cabeça da mãe da rapariga ! Chamava-se a criminosa Maria José, tinha 20 annos e cra debruadeira de sapatos. A mãe chamava-se Maria do Rosario da Luz. A casa era a que tinha o n.º 17 na travessa das Frei- ras. O cynismo na confissão correspondeu à ferocidade no delicto. Matára-a por ella se oppôr aos seus amores com o José Maria !— Recusou sempre dizer quem era o José Ma- ria. Em mez e meio foi o processo appare- lhado e entrou em julgamento. A sentença condemhou-a «a morte natural para sempre na forca, que se levantaria no Campo de Santa Clara, devendo a ré caminhar para aquelle patibulo, pela travessa das Monicas, travessa das Freiras e por junto das obras de Santa Engracia». Foi este «o grande e horrivel crime» d'este anno tão movimentado ! BARBOSA COLLEN.
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“Photo, de) (Dr. Pônce Lagos — VISTA GERAL FORTUGRE DO SUL ASPECTOS DA CIDADE DE LAGOS a segunda cidade do Algarve não póde S exhibir fóros de mais formosa entre to- das, póde apresentar, sem que Ih'o con- testem, fóros de cidade que tem nos fastos da nossa epopéa ultramarina um papel historico dos mais brilhantes. Na vastissima bahia de Lagos estiveram ha pouco cêrca de sessenta navios de guerra in- glezes. Os severos habitantes do Reino-Unido certamente veriam com olhos cheios de cu- riosidade o espectaculo d'um dos mais am- plos ancoradouros do mundo, descortinariam o panorama attrahente de um sol quasi tro- pical batendo inclemente nas folhas seivosas dos figueiraes alinhados com uma geometria cuidadosa e a paisagem de um céu africano, que à noite permitte distinguir milhares de estrellas quasi imperceptiveis no nosso firma- mento de Lisboa. Talvez que não só os marinheiros mas os proprios officiaes superiores d'essa esquadra formidavel, a que a nossa fez as honras da casa, ignorassem, mesmo superficialmente, a historia d'essas aguas em que os seus navios se balouçaram muitos dias. Foi d'alli que os Primeiros maritimos algarvios, criados e adhe- rentes da casa do Infante D. Henrique, par- tiram para as primeiras tentativas de circum- navegação pela costa africana. Alli mais a uns passos da costa, tinha o Infante a sua escola ou o que quer que fosse, ninho onde se ge- raram e medraram as suas emprezas que tanto assombrariam o mundo, accrescentando um novo capitulo à historia da civilisação universal, com a deslocação da civilisação do Mediterraneo para o vastissimo Atlantico. Foi alli que se esboçaram e tomaram incremento as primeiras companhias de navegação cujos associados partiram a explorar commercial- mente a África descoberta e a que seia des- cobrindo. Foi alli, n'aquella praia de areias finissimas que o Infante, a cavallo, assistiu ao desembarque e depois à partilha dos ne- gros captivados pelos compartes desses syn- dicatos de navegação commercial, N'essa ba- hia refrescou a esquadra portugueza que, sob a ferrea vontade e suggestão do duro D. Hen- rique foi tomar Ceuta ; as aguas d'esse anco- radouro ouviram os sons plangentes das 30:000 guitarras que as tropas, arrebanhadas doidamente para a louca empreza de Alcacer- Kibir, levavam na sua bagagem para celebra- rem a victoria que certamente Deus lhes não negaria. ..
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106 Deixando de parte a questão, talvez pue- ril, de apreciar a decadencia do Algarve por Photo. de) Barra DE Lagos — GRUPO DE COURAÇADOS INGLEZES effeito da expulsão dos mouros, certo é que essa provincia risonha, muito bem aproveita- dinha no ponto de vista agricola, de uma exiguidade territorial só compensada pela fer- tilidade do seu solo, dá fraquissimo contin- gente à emigração portugueza, o que equi- vale a dizer que o Algarve se dá por feliz com as suas modestas colheitas e industrias que na sua quasi totalidade são a consequen- cia dos seus principaes productos — o figo, a uva, a amendoa. E como os inglezes os apre- ciaram durante os dias em que estiveram em Lagos! Elles mesmos fizeram ex Serões as suas transacções ouvindo o sutague da falla algarvia, para elles inteiramente desconhe- cido, as suas expansões fa- vorecidas pelo grãosinho na aza — tudo isso constituiu uma nota festiva para a ci- dade que passa por ser feia, no que ha evidentemente exaggero. Vejam-na da bahia, vejam a costa algarvia desde Sagres até Faro, veja-se toda essa orla de terra, em geral argil- losa, quando tocada pelo sol nascente ou poente, vejam- lhe os figueiraes em linhas parallelas ou em quinconcios, vejam-lhe a pureza do seu céu, a serenidade de todas as linhas n'uma paisagem graciosa, leve, original, por- que a natureza, a despeito das teimas dos burocratas fazedores de leis, insiste em dizer que o Algarve é uma cousa muito diferente do Alemtejo, o Alemtejo uma região muito differente da Extremadura, a Extremadura um torrão distincto da Beira, a Beira uma cousa inconfundivel com o Minho. A natureza até hoje tem proce- dido coherentemente comsigo mesma, im- portando-se pouco ou nada com os caprichos e conveniencias do criterio politico seguido pela sciencia administrativa. Porque Alfama é feia não se segue d'ahi que Lisboa seja feia. Estar na Praça da Cons- (Dr. Ponce o preço ao figo, à uva, e aos outros fructos, deixando alli uma boa somma de contos de réis. Os inglezes constituiram o caso sensacional n'essa paca- ta cidade, alvorotando-a, for- necendo-lhe a cada passo dis- tracções e o pittoresco dos seus navios, enviando à noite as projecções dos holophotes para todas as cumieiras e si- nuosidades da terra. Nem fal- tou o pittoresco funebre — o enterro de um marinheiro, morto por accidente de ma- nobra a bordo. A população naturalmente se enlevou no espectaculo dos uniformes, da compostura e aplomb dessa gente debaixo de fórma. E a missa aos domingos para os catholicos, e os grupos dos que iam ás compras fazendo Photo. de) (Dr. Ponce O «MarsE», NAVIO HOSPITAL tituição, em Lagos, n'um dia quente de agosto, olhar a bahia que alli proximo se es-
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preguiça n'uma inde- lencia a que o clima quasi africano solicita os temperamentos al- garvios, é ter a visão d'essas paisagens exo- ticas lá para o Equa- dor, paisagens que nos lançam, contra o nosso querer, n'um mundo de sonho, n'esse vago semi - consciente do proprio ser, que é a grande poesia da vida. Bem comprehenderá o Algarve quem fôr um pouco poeta, quem tenha visto o céu dos tropicos onde a luz da manhã desdobra um scenario maravilhoso que nos deslumbra pe- las mutações imprevis- tas de côres e de li- nhas phantasticas. Uma das bellezas de Lagos, como de quasi todo o Algarve, Portugal do Sul 107 Photo. de / Dr. Ponce CORTEJO MILITAR FUNEBRE DUM MARINHEIRO DA ESQUADRA INGLEZA consiste no recorte capricoso, phantastico, são fugaz [de pittoresco, de imponente em cheio de imprevisto das suas furmas. Lis- dias de vendaval sueste, quando as ondas boa orgulha-se de ter all em Cascaes a irrompem impetuosas e espadanantes pelos decantada fura do inferno, uma furna que reconcavos d'esse antro que é apenas um Photo. de) Ourro AspECTO DO PRESTITO NA RUA DIREITA episodio rarona costa do norte. Ora no Algar- ve, quasi toda a sua costa re- presenta uma serie ininterru- pta de episo- dios, muito mais grandiosos que a lendaria fuma de Cascaes. Já as rochas, no exterior, apre- sentam uma va- riedade de pla- nos, de carrei- ros por onde só os ousados con- seguem passar sem vertigens, de anfractuosi- (Dr. Ponce dades que amesquinham a mais perspicaz visão do ro- não tem nada de extraordinario, uma furna mancista ou do pintor; lá dentro, então, é o pacata e que só nos proporciona uma impres- mysterio, o encantamento, o capricho da
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Photo. de) Lagos — RocHas Da PreDaDE — FURNA «SALA» natureza na sua pujança das convulsões que trouxeram ao globo as variadas fórmas que admiramos na serra de Cintra, na da Es- trella, ou nos reconcavos da Escocia, e de certas regiões da Allemanha. Em muitos pontos da rocha al- garvia, entra-se em- barcado e penetra- se em verdadeiras naves cathedraticas; a gruta impõe-nos um respeito quasi religioso; a sobrie- dade da luz inclina- nos ao que quer que seja de senti- mento religioso, chegando nós a imaginar que nos encontramos n'um d'esses templos das grandes | religiões exoticas; às vezes imaginamos que a luz se está coando por vitraes cujos exemplares a in- dustria | moderna mal consegue imi- tar: e vêmos uma especie de escada que, vencida ella, nos põe em contacto com a campina, recebendo em Photo de) cheio a luz crúa, intensa de um sol quasi mouresco. À furna alli adeante apresenta novos as- pectos, novos im- previstos; a que se lhe segue obedece a outros caprichos da natureza, e as- sim toda a rocha algarvia. O especta- culo, para quem te- nha imaginação e saiba lêr nos my: terios da geologia sem prejuizo da sua phantasia, não pó- de ser mais bello, mais suggestivo, mais profundamen- te emocionante ! Foi imponente o aspecto dos navios inglezes nas aguas de Lagos, mórmen- te à noite. As pro- jecções dos holo- photes, uma vez que el-rei passou no seu barco por entre as linhas dos navios, forma- vam uma abobada de luz, de um effeito curioso, phantastico até. O navio de guerra da actualidade é sobrio de linhas, é exces- (Sr. Cru e Silva (Sr. Gruge Silva Lagos — Rocras DA PrepaDe — Furna «CosiNHA» sivamente rectilineo, sem a airosidade das naus dos seculos XVI e XVII, com os seus
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Portugal do Sul castellos de prôa e pô- pa, ondu- lando ao sa- borda vaga; mas com- pensa essa quasiausen- cia do ara- besco, da curva oma- mental, até certo ponto, a illumina- ção pela luz electrica, o jogo | dos projectores e a impo- nenciaarro- sas machi- nas de guer- ra que em horas po- dem decidir Photo. de) Praça DA Consriruição — HosPITAL MILITAR TOg (DrS Ponce dos destinos de uma nação, co- mo na recente lucta entre a Hes- panha e a Republica norte-ameri- cana. Lagos, em cujos habitantes ha ainda o sangue d'esses marinhei- ros que tanto auxiliaram as em- prezas do Infante e tanto conco: reram para as audaciosas expedi- ções que ni abriram as portas do luminoso Oriente, vê com desgosto que a sua bahia não é servida por um desembarque facil, isento de perigos. O sonhado paredão ou porto artificial, tão vivamente so- licitado aos governos continúa sendo um mytho. E” uma injus- tiça praticada com uma terra que foi incontestavelmente um ele- mento preponderante nas no s portentosas navegações, graças 4 imaginação acutissima do algar cujo sangue, em parte punico, lhes communica o espirito da aven- tura, a ancia do desconhecido, o arrojo para passar por cima do perigo, quanto mais este se apre- sente com aspecto torvo. Nas ma- rinhagens que ousaram dobrar o Cabo das Tormentas iam algar- vios: é de crer que olhando de frente esse terrefico Adamastor,
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IIO Photo, de ParsaGEM NOS ARREDORUS DE [LAGOS de Rhodes extranhissimo colosso, de cabel- los crespos e dentes amarellos. que fallou aos portuguezes com voz horrenda e grossa, se rissem do monstro, teimando com o leme para que os levassem cedo á — terra de ri- queza sabundante. Lagos, séde de um regimento d'infanteria, —o n.º 15—e que em breve ficará liga- do por um ramal de via ferrea a S. Bartho- lomeu de Messines, crescerá de impor- tancia commercial, sobretudo se se levar a effeito o melhora- mento da sua bahia, ha tanto tempo re- clamado pelos laco- brigenses. O Algarve, provincia pobre mas invejavelmente reme- diada, deverá ter, num futuro não mui- to distante, as com- modidades necessa- para attrahir os viajantes, pois é certo que essa provincia é infelizmente a menos conhecida e estudada relativamente ao resto do paiz. E no em- tanto vale bem a pena de visital-a, quando Phot. de) Serões mais não seja para admirar o grandioso copu- lento panorama da serra de Monchique. O lisboeta conhe- ce agora, mercê do caminho de ferro, a pittores- ca Cintra, cujos encantos não cessa de exal- tar; mas desco- nhece quasi por exemplo a serra d'Arrabida, a dois passos da sua porta, um deslumbramen - to para os nos- sos olhos ávidos de paisagens idyllicas; acaso haverá visto o Bom Jesus do Monte, outra paisagem tão gabada de estrangeiros ou terá gosado a sensação do immenso da Cruz Alta no Bussaco, prodigio da mais extranha flora; mas raro será o que tenha visitado Monchique, o mais admiravel consorcio da paisagem quasi tropical, de aspecto magestosamente arro- gante com a paisagem simplesmente bucoli- 1 | 1Dr. Ponce (Sr. Cruz À ERMIDA DA SENHORA DA PIEDADE ca, leve, risonha, despretenciosa, convidando à reedição de idyllios a Daphenis e Chloe.
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O facto historico, cuja narração segue, minuciosamente contado e estudado nos seus por- menores, como se tem usado m'esta serie de mysterios aqui publicados, em busca d'uma explica- são plausivel que desvende o enygma, tem vivamente interessado os investigadores pacientes que procuram encadear n'um desenvolvimento logico e justificado os motivos d'um crime que não pode ser attribuido apenas á crueldade. Aqui interfere o acaso, cujas leis incomprehendidas a malhematica somente tem tentado definir, para desnudar o crime; mas para lhe determinar o mobil tem de se recorrer à analyse psychologica e ao estudo comparado das paixões que na pre- sente epoca prende sobremaneira a curiosidade dos espiritos. ros da Torre de Londres, celebre e his- torica prisão, um d'estes acontecimen- tos obscuros e extraordinarios que os historia- dores debalde teem tentado deslindar. N'aquella occasião o tenente governador da Torre era Gervasio Helwysse, pessoa muito di- gna e religiosa, cuja conducta discreta lhe me- recera o nome do douto sr. Gervasio. Sentan- do-se elle um dia á mesa para jantar, observou que, dentre os criados, um carcereiro ha pouco ao seu serviço, chamado Weston, fazia disfarçadas e furtivas diligencias para lhe al- cançar a vista e a attenção. Curioso de saber o que queria aquelle ho- mem, o tenente mandou-o approximar sob um pretexto qualquer e Weston então curvado sobre seu amo, e abaixando a voz, dirigiu-lhe esta pergunta singular: — Fal o-hei agora? e ao mesmo tempo os seus olhos percorriam d'um modo significativo as travessas que estavam sobre a mesa. —Fazer o quê? perguntou Gervasio verda- deiramente intrigado. A attitude de Weston tornou-se cada vez mais inexplicavel. Em vez de responder, re- cuou muito atrapalhado, relanceando seu amo com modo surprehendido. Não foi dado sem alguma rasão justificada o nome de douto ao sr. Gervasio, por isso in- terrompendo qualquer inquirição intempes- tiva n'aquelle momento, contentou-se em dizer serenamente: — Não, ainda não. Ao mesmo tempo deitou ao carcereiro um Nº anno de 1613 succedeu dentro dos mu- severo olhar de admoestação, e este sahiu da sala. Resolvido a profundar o mysterio, Helwysse apressou-se em acabar de jantar, e logo que finalisou, dirigiu-se para o seu quarto particu- lar e mandou chamar Weston. N'aquelle tempo a situação d'um tenente de prisão era, amiu- dadas vezes, bem perigosa. Havia duas espe- cies de prisões; as destinadas ao publico e as reservadas a personagens poderosos e presos por motivos particulares. Os prisioneiros da primeira classe davam muito pouco trabalho : simplesmente bastava vigiar que não fugissem ; mas os da segunda classe eram fonte de maio- res anciedades, e nem sempre era a fuga o principal perigo de que tinha de se precaver. Fazendo Weston aquella pergunta, demons- trára estar convencido de que o governador estava informado de algum secreto designio. Aproveitando-se o sr. Gervasio prudentemente d'este mal entendido, diligenciou e conseguiu descobrir por confissão do criado, que a tenta- tiva d'este designio era nada mais nada menos do que eliminar um prisioneiro que estava en- tão e desde alguns mezes sob a sua guarda. O prisioneiro chamava-se Thomas Overbury. Mal o sr. Helwysse se apoderou desta de- lação, deixou cahir a mascara e ameaçou Wes- ton com a Camara Estrellada (antigo tribunal de Inglaterra), e com a applicação da tortura se não desvendasse immediatamente toda a conspiração. Aterrorisado pela situação em que se achava o rufião cahiu aos seus pés e offereceu fazer-lhe inteira confissão. A sua narrativa foi breve, mas sobresaltada.
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II2 Algum tempo antes de ter entrado para a Torre, tinha sido sondado por uma mulher chamada Turner, uma das d'aquella perigosa classe que prosperavam então, e ainda hoje existem, na preparação de philtros e das mais perniciosas drogas, mulheres desvirtude, cujos proventos maiores não resultavam tanto, tal- vez, da venda d'estas mercadorias, como da posse dos mil vergonhosos segredos, confia- dos a ellas-no decorrer do seu negocio. Esta mulher, que evidentemente conhecia o seu ho- mem, incitou Weston a emprehender o assas- sinio de sir Thomas Overbury, e a entrar como carcereiro na Torre, procurando ella conseguir-lhe esta collocação com o fim de o metter dentro dos muros da prisão. O assassinio teria de ser feito por meio de tortas e gelêas envenenadas que a bruxa ha- via de preparar, sendo levadas para a Torre por um criado chamado Symonds e depois postas na mesa do prisioneiro por Weston. Afim de o animar a desempenhar-se da peri- gosa tarefa, Turner fel-o persuadir de que o tenente governador sabia do segredo, mas ao mesmo tempo prevenira Weston que só com ella se poderia referir abertamente a esta in- fame trama. Tal foi o resumo da confissão do carcereiro. O rufião cahiu-lhe aos vês... No momento decisivo falhára-lhe a coragem, e de tal modo que estava esperando um signal de sir Gervasio para executar o acto. Além da mulher Turner e seus agentes, elle affirmava Serões não conhecer o verdadeiro mandante do crime» nem o motivo. O governador Helwysse escutou com hor- ror a espantosa revelação, mal podendo con- ter a indignação de o terem designado como cumplice em tal projecto. O seu primeiro im- pulso foi de mandar entregar o assassino á Camara Estrellada com que o havia ameaçado. Infelizmente porém, como succede quasi sem- pre, prevaleceram outras deliberações mais cautas. Helwysse sabia mais do que o que Weston lhe havia contado. Atraz do carcereiro e da feiticeira Turner, elle descobria ja tenue- mente o vulto de outras personagens mais poderosas que receava affrontar. Conten- tou-se portanto em solemnemente exhortar o homem a abandonar aquelle proposito, apon- tando-lhe as consequencias n'este e n'outro mundo, imprimindo-lhe bem no espirito o pe- rigo em que se encontrava quem possuisse um segredo que tão fundamente affectava tan- tas personagens nobres. Finalmente Weston não só jurou abandonar o projecto do crime, mas agradeceu grata- mente a seu amo tel-o salvo de o commet- ter. O digno e douto tenente, satisfeito com o arrependimento do guarda, perdoou-lhe, or- denando-lhe ao mesmo tempo que todos os pratos mandados a Thomas Overbury pela Turner fossem trazidos directamente para o seu quarto. Desde esse momento sir Gervasio Helwysse guardou uma estricta vigilancia sobre o seu prisioneiro. Dias após dias os pratos levados á Torre por Symonds eram submettidos á sua analyse que consistia em os dar a comer a ga- tos e cães. Em alguns casos os animaes mor- riam instantaneamente, n'outros soffriam muito tempo, mas o fim era o mesmo. Depois de ter feito estas horriveis experiencias, Helwysse eliminava secretamente os corpos dos animaes e os restos das comidas envenenadas. Quem era que urdia tão diabolicos planos em volta de sir Thomas Overbury, e por que crime fôra elle levado preso para a Torre? A resposta a estas duas perguntas serve á pri- meira vista só para aggravar o mysterio. Over- bury era o amigo intimo e confidente de Ro- berto Carr, visconde de Rochester, e conde de Somerset, a quem uma monstruosa parciali- dade de Jayme 1 tinha elevado da condição de um homem desconhecido á de primeiro per- sonagem do reino. O crime commettido por Overbury fôra bem simples: recusára ir como embaixador para Moscow. Na verdade, pela lei de Inglaterra, ninguem podia ser obrigado a aceitar uma embaixada, mas Overbury tinha-a aceite, quando lhe foi offerecida esta commissão, e depois recusou-a, sem allegar motivo justificavel. O' conselho
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A Torre de Londres privado considerou aquelle acto como desobe- diencia a sua majestade, e internou o inso- lente cavalleiro na Torre durante todo o tempo que aprouvesse ao rei detel-o lá. Tal era 'a causa conhecida do encarcera- mento, ao qual o preso pa- recia não dar alto valor. Ti- nha recebido muitas mensa- gens e visitas do conde de Somerset, com o poderoso auxilio do qual elle contava para a sua libertação. Foi justamente depois de uma d'estas visitas que sir Ger- vasio Helwysse entrou na cella um dia a vêlo para satisfazer o desejo secreto que tinha de se informar da saude do seu prisioneiro. Overbury recebeu-o na mais bella disposição. —Não terá de cuidar de mim por muito mais tempo, sr. tenente. Lord Somerset esteve ha pouco aqui comi- go, e deu-me esperanças muito animadoras. Helwysse olhou attento para o inconsciente e confiado homem. — Não deponha as suas esperanças em prin cipes, sr. Overbury, observou tristemente. As promessas d'elles são sempre fallazes. O primeiro sorriu-se com arrogante desdem. —hHa razões que desconhece, meu caro te- nente, pelas quaes me atrevo a esperar a pro- tecção do conde. Sou muito intimo d'elle para me ser falso. Pela minha vida não creio que o seja! Demais a mais, deixou-me agora mesmo para ir receber uma ordem pela qual sahirei immediatamente daqui. Helwysse pensou nos cães e nos gatos que ha pouco tinha visto expirar e estremeceu. Outro caso sobreveio; foi a nomeação de um novo carcereiro para dentro da Torre. Chamava-se Franklin e em breve parecia vi- ver em relações de muita intimidade com Wes- ton. Sir Gervasio notou no recemvindo e vi- giou-o por algum tempo com certo desasocego. Estas nomeações não eram feitas por elle, mas pelo conde de Northampton, governador da Torre, e o tenente não tinha poder de os de- mittir sem consentimento superior. Mesmo que Helwysse se atrevesse a impôr uma decidida interferencia, era já então muito tarde. Suppri- mindo a confissão de Weston, tinha incorrido em parte na culpabilidade. Estava sentenciado a vêr a scena como impotente espectador da tragedia. Approximou-se bréve o fim. N'uma manhã cedo, trouxeram ao tenente a noticia de que sir Thomas Overbury tinha sido repent: Serões — N.º 8 -- Vol, 1 TO) mente accommettido de doença mortal. Tendo dado ordem para que se chamasse sem demora um medico, Helwysse saltou da cama e apres- sou-se a ir ao quarto do prisioneiro. Encon- trou á porta Franklin e Weston que sahiam Entrou precipitadamente para ver a victima... com as physionomias pallida P s e assustadas. ou por elles precipitadamente, para ir vêr a infeliz victima estendida no leito e já morta. O tenente ficou afflicto de vêr o resultado da sua policia timorata. O seu primeiro expe- diente foi escrever a lord Northampton, parti- cipando-lhe a morte e pedindo-lhe instrucções. A resposta que trouxe o portador foi q mais contraditoria possivel. A principio o conde autorisava o tenente a entregar o corpo aos amigos de Overbury, e mencionava o desejo de Somerset de que seu amigo fosse enterrado decentemente. Depois n'um postscriptum sug- geria duvidas sobre a legalidade d'esta ceri- monia, e lembrou que melhor seria um enterro apressado e particular. Emquanto o tenente estava embaraçado no proceder com esta carta ambigua, recebeu ou- tra que dizia assim : «Digno senhor tenente. Peço-lhe que chame Lidcote, e alguns dos seus ajudantes, se estes tambem forem precisos,para examinar 0 corpo, sé acaso ainda o não tiver feito: e logo que tenha'sido exami nado, sem esperar a vinda d'um mensageiro da côrte, veja-o enterrar em todo o caso, immedialamente, na capella, den- tro da Torre. Se já o tiverem examinado, então enterr: em demora porque houve tempo já de atender às disposições d'aquella gente que só procura meios de mover piedade e de levan- tar escândalos. Não se deixe levar por pedidos de ninguem a addiar seja por que motivo fôr, e traga-me estas cartas mais tarde quando me encontrar. Não deixe escapar um jota nºisto, se estima os seus ami- gos; nem espere um minuto depois do exame de Lidcote, mas tenha o padre prompto; e se Lidcote não estiver ahi, mande-o chamar com brevidade, pretextando que o corpo não póde esperar. Urgente ás 12 Seu muito affectuoso. » O conde propositalmente omittiu a assi- gnatura. o
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II4 Lidcote era evidentemente o encarregado official de indagar as causas das mortes repen- tinas examinando os cadaveres. Em resposta a esta urgente e aterrorisante missiva o en- terro fez-se no seguinte dia no precinto da Tor- re. E assim finalisou o caso por algum tempo. Passou-se um anno, quasi dois, e parecia que o culpado tinha escapado á penalidade de seu crime. Mas succede muitas vezes que os acon- tecimentos que parecem sepultos nas trevas do mysterio veem á luz quando aquelles que es- tão implicados n'elles contam estarem esque- cidos para sempre. Os perpetradores julgam que teem apagado os ultimos vestígios do crime; seguem o seu caminho, abraçando a dôce esperança de que se preveniram contra qualquer possibilidade de detenção; e, como o tempo vae passando, até cessam de se recor- dar do seu proprio crime. Mas depois, em meio d'aquella segurança e tranquillidade, por qualquer acaso trivial que não puderam pre- vêr, atravez de qualquer obscuro e insignifi- cante canal desprezado, a cruel verdade irrom- pe á luz e o seu crime é revelado á historia. No verão do anno de 1615 um rapaz inglez, atravessando as ruas de Bruxellas, encon- trou-se com um grupo de patrícios á porta de uma taverna. O rapaz trazia uma moxilla ás costas. Apresentava-se sujo e fatigado, e vinha Embriagaram o rapaz... com os pés dolorosamente magoados, tendo feito a pé longa jornada. Ao ouvir a lingua na- tal parou, e approximou-se do grupo. N'um paiz estrangeiro os laços de raça apertam-se com facilidade. O recemchegado foi amavel- Serões mente recebido e entraram todos juntos na taverna. Bem depressa se informaram de que o ca- minheiro era aprendiz n'uma drogaria da ci- dade de Londres, e que fugira d'alli em con- sequencia dos máus tratos recebidos do pa- trão. Aconteceu que os homens com quem elle se encontrára eram criados do representante inglez na côrte de Bruxellas e um d'elles apres- sou-se a dar ao rapaz conselhos de amigo. — Tenha cuidado que as suas façanhas não vão ter aos ouvidos do sr: Turnbull, porque elle poderá prendel-o e mandal-o de novo para o seu patrão. —Faço pouco caso d'isso; são fallatorios. Talvez que se eu contasse tudo, o meu patrão desejasse não me vêr mais. Poderia narrar contos extraordinarios, quizesse eu fazel-o, não só do meu patrão, notem bem, mas de al- guns trunfos da terra. Estas mysteriosas insinuações fizeram pro- vocar curiosidade nos ouvintes. Embriagaram o rapaz, e pouco a pouco foram-lhe extrain- do uma revelação completa que ingenuamen- te communicou. Sem darem tempo a recon- siderações arrastaram-o para caa do agente diplomatico, e n'essa mesma noite Turnbull expedia uma carta ao secretario d'Estado em Londres, pedindo-lhe licença para ir a Ingla- terra e communicar ao rei de viva voz um segredo bastante sério e perigoso para se confiar á escripta. O secretario d'Estado cujo nome era Wynwood, notou a physionomia de seu real amo emquanto lia a carta na sua pre- sença. Reparou no seu olhar de espanto, seguido de terror e depois de anciosa curiosidade. Finalmente Jayme 1 levantou a cabeça e encarou o olhar do secretario. —Ordenae ao sr. Turnbull que venha, disse no seu claro accento escocez, accres- centando em voz baixa: Não podeis dizer nada d'isto a Rabbie ! Wynwood tinha estado bastante tempo ao seu serviço para perceber o secreto intento do rei. Para um cortezão menos experiente, o proceder de sua majestade durante as semanas seguintes ter-lhe-hia parecido bem enygmatico. Elle fechou-se com Turnbull quando o enviado chegou a Londres, e o resultado da conferencia foi a prisão do droguista, de Turner, Wes- ton e Franklin. Simultaneamente Jayme 1 dispensava, como sempre, a Somerset a mesma amisade, como se inteiramente ignorasse onde deviam com certeza chegar as inquirições sobre o assassinio de Overbury. N'aquelle meio tempo começaram as averi- guações por todos os lados. O tenente da Torre fizera clara confissão da sua parte no
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A Torre de Londres crime. Um antigo criado do assassinado ins- truira directamente o chefe da justiça Coke, o famoso auctor do commentario sobre Little- ton. Finalmente no dia da sua partida para uma viagem pelo paiz, o rei intimou os juizes da cidade encontrarem-se com elle em White hall. A scena foi commovente. Jayme 1 de pé, no meio dos seus cortezãos, recebeu os juizes e dirigiu-se-lhes sobre o assumpto da gação. Depois de se ter referido ao crime de envenenamento como sendo um costume ita- liano, que havia de trazer a desgraça ao reino, continuou expressando-se n'estas palavras so- lemnes: Portanto, lords, encarrego-vos, e por isso tereis de responder no grande e terrivel dia do julgamento final, que o examincis estricta- mente, sem favor, affeição, empenho ou parcia- lidade, e se poupardes qualquer culpado deste crime, a maldição de Deus cáia sobre vós e so- bre a vossa descendencia: e se eu poupar qual- quer que seja convicto de culpado, a maldição de Deus cáia sobre mim e sobre a minha pos- teridade para todo o sempre! Uma horrivel imprecação, horrivelmente cumprida. Deve comtudo recordar-se que o homem que pronunciára estas palavras era tambem auctor d'esta outra maxima: — «Aquel- le que não souber dissimular não saberá rei- nar». Logo depois de ter despedido os juizes o rei seguiu para a sua casa em Royston, levando comsigo na propria carruagem Somerset, como senão se podesse separar d'elle por uma hora. Quando o deixou á noite para voltar para Lon- dres, Jayme 1 deitou-lhe os braços á roda do pescoço, exclamando : —Por Deus, quando vos verei outra vez! Por minha fé, não comerei nem dormirei sem que volvaes! — Na segunda feira, senhor, disse-lhe o conde, comtanto que os meus negocios este- jam então terminados. — Que farei eu ? que farei ? — repetiu o rei com outro abraço. Somerset libertou-se e desceu a escada, mas Jayme seguiu-o, insistindo em o abraçar ainda outra vez e outra. Afinal o favorito conseguiu escapar-se a tanta ternura e entrou na carrua- gem. Tão depressa as rodas começaram a fa- zer ruido sobre o cascalho, o rei voltou as costas e a expressão da sua physionomia mu- dou subitamente, ouvindo-se-lhe murmurar estas palavras: — Agora que o demonio vá comtigo ! por- que eu não mais verei a tua cara ! E assim foi. N'aquella mesma noite o conde e a condessa de Somerset foram presos por ordem do lord da suprema justiça, e encer- rados na Torre, accusados de assassinato na pessoa de sir Thomas Overbury. 115 A condessa foi a primeira levada a julga- mento. O motivo allegado contra ella foi o se- guinte. Lady Frances Howard, como se chamava primitivamente, era filha de lord de Suffolk € da mesma familia do conde de Northampton cujas cartas dirigidas a sir Gervasio Helwysse, tenente da Torre, mostravam não ser extra- nho ao caso Overbury. Casada ainda muito nova com o moço conde de Essex, ella deli- genciou annular aquelle casamento, com o apoio e a approvayão da familia, para aceitar a mão do todo-poderoso favorito. Mas levan- tara-se um obstaculo no caminho, e esse obs-, taculo era Overbury, conselheiro do favorito. Oppondo-se Overbury ao: casamento d'elle com esta má creatura, tinha sem duvida dado um bom conselho. Mas o homem que se op- põe ao casamento d'um amigo está pouco mais ou menos nas condições d'um que emprehen- de uma rebeldia. Se falha na sua tentativa fica perdido. Overbury não fóra bastante esperto para prever o resultado. Falhou na opposição ao casamento, e desde esse instante perdeu toda a sua influencia para com Somerset. Overbury continuou a fazer o caso peor ainda. Em vez de tomar a defeza serenamen- te, perdeu a paciencia e começou de abusar, repetindo publicamente todos os escandalos a respeito d'ella que elle tinha previamente apontado em particular, como argumentos contra o casamento. Desde esse momento, es- tava previsto que a condessa se resolveria a vêr-se livre d'elle. Depois veiu o negocio da embaixada da Russia. Logo que Overbury aceitou esta no- meação, começou de perceber que era uma especie de honroso exilio que lhe fóra indigi- tado para o afastar de Somerset. Um homem verdadeiramente prudente teria preferido par- tira ficar e continuar n'uma lucta sem esperan- ça. Mas Overbury mais uma vez não sopeou o seu genio despotico e quiz levar a melhor. Re- cusou abandonar a sua influencia sobre So- merset, e resignou o cargo de embaixador, como foi visto. Estava escripto o seu destino. Sobre os sub- sequentes processos não havia mysterios nem defeza possivel. A condessa tinha pedido o auxilio da Turner, que arranjou o resto com os malvados de condição inferior. No julga- mento só se conseguiu provar que lady Somer- set tinha usado de bruxaria para com o seu inimigo. Engendraram-se na córte uns bone- cos de cera, e foi chamado um astrologo para jurar que a condessa o tinha consultado sobre o assumpto. Mas tudo isto formava parte vul- gar dos julgamentos d'aquelle tempo, em que a bruxaria, o envenenamento e a astrologia
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116 Serões eram egualmente classificados como artes dia - bolicas. O unico facto inegavelmente admit- tido foi que Overbury tinha sido morto por instigação da condessa de Somerset. No seguimento d'estes processos veio á luz Abáfiaram-o com os lençoes da cama. um' horrivel pormenor. Quando a condessa reconheceu que os seus venenos não faziam effeito, — devido á interferencia de sir Gerva- sio Helwysse — mandou chamar Weston, re- prehendeu-o de a ter enganado, e tendo obti- do d'elle uma nova promessa de levar a obra ao fim, indigitou Franklin a juntar-se a elle. D'esta vez Weston teve o cuidado de escon- der do tenente os seus planos. Os dois malva- dos conseguiram ministrar o sufficiente vene- no produzindo na victima horriveis convul- sões; porém quando esperavam a todo instan- te que fosse o ultimo, com horror viram que elle principiava a dar signaes de vida. N'essa perigosa situação recorreram ao expediente desesperado de o suffocar com os lençoes da cama. Tal foi o modo como finalmente mor- reu Overbury. Pelo tempo em que se fez esta revelação, Turner e outro cumplice já tinham sido exe- cutados, por uma accusação da qual talvez não fossem inteiramente culpados. Mas o crime da condessa ficou certamente o mesmo. Ella foi condemnada á morte. Quatro pessoas foram executadas, incluindo o infeliz tenente da Torre, que foi julgado culpado de não ter denunciado, como devia, a conspiração. À quinta, que era a condessa, ficou debaixo de sentença esperando a execução. Chegava a vez de ser julgado o sexto e ultimo, o conde. O paiz inteiro agitara-se profundamen- te com estas assombrosas revelações, e aguar- dava anciosamente ver no banco dos réus o homem que por tanto tempo figurara como o querido da côrte e o primeiro ministro do es- tado. Durante todo este tempo o rei Jayme não dera a menor manifestação do seu sentir. Quaes eram porém os seus verdadeiros sen- timentos com respeito ao réu? A scena da partida em Royston fôra sem duvida simples representação. Por aquella mesma época ou antes mesmo da chegada do despacho sensa cional, expedido de Bruxellas, tinha appareci- do no horisonte um novo favorito na pessoa de Jorge Villiers, depois duque de Buchingham. A rivalidade entre os dois tinha sido azeda e homens, como o secretario Wynwood, eram bastante astutos para antever qual seria o fim provavel. E' nºeste ponto que começa o extraordinario e significativo parallelo entre os casos de So- merset e da victima de Somerset, Overbury. Como Overbury, Somerset viu-se em risco de ser supplantado na estima d'aquelle a quem elle devia toda a consideração de que usu- fruia. Como Overbury, em logar de prudente- mente se vergar ao inevitavel, resistiu e lu- ctou contra elle. Jayme 1 tinha-lhe solicitado que tomasse Villiers sob a sua protecção : elle respondeu com a ameaça de torcer o pescoço a Villiers. Estes factos foram o verdadeiro guia para o procedimento do rei, victimando, na prisão os assassinos de Overbury. Quiz vêr- se livre de Somerset, como Somerset e sua mu lher se tinham querido vêr livres de Overbury. Por que tão cautelosamente encobriu de So- merset o seu procedimento e fingiu até o ul- timo momento uma affeição que elle não sen- tia na realidade ? Seria dissimulação por sim- ples dissimulação : ou haveria atraz d'isto um mais fundo motivo ? Ver-se-ha depois. Agora repete-se o confronto com a paralle- la conducta de Somerset nas suas visitas a Overbury na Torre e nas suas promessas hy- pocritas de proxima libertação. Uma tarde chegaram á Torre noticias de que estava fixado para o dia seguinte o julga: mento do conde de Somerset. O tenente que substituira Helwysse, cujo nome era sir Jorge Moore, seguira logo para o quarto do prisio- neiro afim de o avisar. Achou o conde muito exasperado contra a prisão, e evidentemente desprevenido para similhante mensagem. — O que é que me diz, senhor tenente ? Te- nho de supportar um julgamento ? Isso é que nunca farei, e assim o poderá dizer- lhes da mi- nha parte. — Mas, senhor, não ha outro remedio, res-
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A Torre de Londres pondeu Moore delicadamente. — A camara dos lords assim decidiu e eu tenho de o con- duzir á presença d'elles ámanhã de mani — Então levar-me-ha na minha cama, retor- quiu furiosamente o prisioneiro, porque nun- ca irei lá pelos meus pés. Nem acredito que sua majestade permitta o meu processo cri- minal — Nesse ponto receio que se engane, senhor conde, respondeu o tenente pensando que o fa- vorito cahido estivesse alimentando-se de fal- sas esperanças. — Sua majestade não mostrou nenhuma disposição em interferir a seu favor na acção da justiça. Somerset vociferou e praguejou desabrida- mente. — Não esteja tão seguro, senhor Moore. Digo-lhe que o rei prometteu-me que nun- ca seria levado a julgamento, e além d'isso affirmo-lhe que elle não se atreverá a levar-me a um julgamento. Sir Jorge Moore tremia de ouvir esta lingua- gem provocante. Sentia rastejar por alguma cousa mais escura e mais perigosa de que o que já viéra á luz. Meio perturbado entre o receio de fazer pouco de mais ou de fazer muito de mais, tomou a resolução de se diri- gir directamente ao rei e repetir-lhe o que o prisioneiro acabara de dizer. Até este ponto o parrallelo entre Overbu- ry e Somerset é completo. Exactamente a mesma linguagem que Overbury empregara para Helwysse a respeito de Somerset, pe sua vez Somerset usava-a com Moore a re peito do rei. Vêr-se-ha se a ameaça deu re- sultados tão inuteis n'um caso como no outro. A córte estava então em Greenwich. O tenen- te tomou um bote no caes em escadas da Tor- re; ordenou aos barqueiros que empregassem a maior velocidade. Remaram rapidamente, rio abaixo, occultos pela noite, passando pelas embarcações silenciosas, até o celebre palacio de Elisabeth. Logo que o bote abordou á esca- da do cáes real, saltou em terra, seguiu apres- sadamente de roda para a porta de entrada nas trazeiras do palacio e começou de bater fortemente. Um criado escocez chamado Loveston, le- vantou-se e veiu á porta esfregando os olhos do somno. — Sou o tenente da Torre e vim aqui para fallar a sua majestade em negocio urgente — annunciou o visitante. = Sua majestade está recolhido — objectou O criado, ainda mal acordado, empregando a palavra escoceza para dizer dormir. = Pois é preciso acordal-o, foi a resposta de intimação decisiva. O criado, espantado, conduziu acima a visi- ta. Jayme levantou-se, assegurou-se de que A) ninguem podia escutar e fechou a porta do quarto. E então Moore, em phrase humilde, preoccupado e receioso, contou-lhe o que se passara. Com pesar e terror viu nos olhos do rei lagrimas a correr em fio. — Por minha vida, Moore, não sei o que hei de fazer, rompeu a final em tom lastimoso — Tu és um homem intelligente, ajuda-me n'esta grande collisão, e has de vêr que fazes teu amo agradecido. Moore ouviu com espanto estas phrases. Não se atreveu porém a perguntar a causa de tão abjecto medo, a qual talvez adivinhasse. Acal- mou o amo o melhor que poude, e prometteu” executar fielmente as suas ordens para o vir e retirou-se, voltando para a Torre pel tres horas da manhã. Aquella noite de tra- balho valeu depois a sir Jorge Moore mil e quinhentas libras, o que hoje equivaleria tal- vez a quinze mil Ao entrar na Torre, Moore foi direito ao quarto de Somerset e disse-lhe d'onde vinha: — Encontrei sua majestade o mais benevelo para com sua excellencia ; completa e inteira Deslisaram rio abaixo... a sua velha amizade, e resolvido a evitar que lhe succeda mal. Para satisfazer a justiça é preciso comparecer perante o tribunal mas nada será resolvido contra vós; sómente po-
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118 dereis assim vêr quem são os vossos inimigos e conhecer-lhes a astucia, comquanto não pos- sam ter poder contra vós. O prisioneiro ouviu alegremente estas affir- mações, que echoaram nas suas proprias es- Ancioso esperava junto da janella d'onde ma o rio peranças risonhas de ser restituído pelo per- dão à liberdade. Consentiu em ir a Westmins- ter Hall; e o tenente deixou-o apparentemen- te satisfeito de espirito. Para a occasião do julgamento Moore tomou uma outra precaução especial. Quando Somer- set se sentou no tribunal, para onde fôra se- guido por dois guardas da Torre, cada um com o manto no braço, estes sentaram-se tam- bem d'um e d'outro lado do prisioneiro, não o perdendo de vista e de attenção um só mo- mento. Estes dois homens tinham recebido secretas instrucções do tenente para que, se Somerset fizesse a mais ligeira allusão ao rei, lhe deitassem immediatamente as capas sobre clle e o tirassem do tribunal. Quando Somerset reconheceu que tinha sido enganado e que hia realmente ser julga- do ficou evidentemente inquieto; mas, ou porque tivesse adivinhado a intenção dos guar- das com as capas, ou rorque concluisse que nada ganharia em atac r o rei, nada tentou m'aquelle sentido, e o ju'-amento seguiu até o fim sem incidente. O processo contra elle era menos consisten te do que o da condessa, não podendo provar- se que tivesse tomado parte qualquer na exe cução do crime. Julgado segundo as regras dos processos modernos teria provavelmente Serões ficado absolvido por falta de provas. Mas n'aquelle tempo os tribunaes não eram tão melindrosos e o conde de Somerset foi julga- do culpado pelo veredicto de seus pares. Emquanto isto succedia em Westminster, Jayme 1 passava o dia na maior anciedade em Greenwich. Desde a madrugada collocara se junto d'uma janella que dominava toda a vista do rio e quando via approximar-se do palacio qualquer bote, logo mandava saber noticias do julgamento, praguejando furiosamente, se lhe falhava a informação desejada. Foi só de- pois do anoitecer que um mensageiro especial, mandado por Moore, lhe levou as boas noti- cias de que o julgamento havia acabado sem a minima referencia a elle, e de que Somerset fôra condemnado sem perigo. Somerset foi condemnado, mas nem n'elle nem na condessa assentençasforam executadas. Depois de alguns annos de prisão foram soltos por ordem do rei. Este conferiu ao seu antigo favorito a enorme pensão annual para aquella época de 5.000 libras, e trocou com elle cons- tante e affectuosa correspondencia até a sua propria morte. A condessa de Somerset morreu pouco tem- po depois da sua libertação, mas o conde vi veu ainda muitos annos e tomou ainda parte nas desordens politicas do reinado seguinte, movido sem duvida pelo odio ao seu antigo rival Buckingham. Mas a mancha do seu pas sado enodoava-o todo e os leaders do Parla- mento desprezaram a acção e o auxilio d'um lord que fôra réu. Para a historia publica d'este extraordina- rio acontecimento é tudo quanto ha. Nada mais foi nunca possivel enunciar. A theoria de que tão altos personagens conspiraram jun- tos para assassinar um insignificante cavallei- ro, meramente porque se oppozera ao casa- mento de dois d'elles, e porque divulgára casos diffamatorios sobre uma grande dama, foi aceita pelos tribunaes que assentaram julga- mento do caso e passada para a historia popu- lar dos livros. +-m si propria parece improvavel. Examinando no conjuncto a sobresaltada lin- guagem pronunciada primeiro pela infeliz victi- ma e depois por Somerset, e ainda mais o es- pantoso procedimento do reiJayme, similhante theoria é totalmente absurda. Qual será pois o segredo, o horrivel segredo cujo conhecimento poude arremessar com tanta affouteza prisioneiros para os carceres da Torre, e cujo medo de divulgação fez tre- mer um poderoso soberano e verter lagrimas como o mais fraco dos homens? Debaixo desta tragedia de sir Thomas Overbury é po- sitivo andar occulta outra bem maior, é de ca- racter a fazer tremer o proprio throno. No anno de 1612, justamente doze meze
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A Torre de Londres antes do assassínio na Torre, morreu alli Hen - rique, principe de Galles, filho mais velho de Jayme 1, e o mais esperançoso de todos os principes da casa Stuart. Foi classificada d febre maligna a sua doença; fez-se a autopsia do corpo e o relatorio dos medicos, o qual foi conservado como reservado, provou para sa- tisfação dos que crêem na incorruptibilidade dos medicos da côrte, que o principe morrera de morte natural. Aquelles que teem conversado até mesmo com um official de justiça de aldêa nos seus momentos de confidencia, melhor poderão s ber o que é a natureza humana, e como são peores ainda os documentos officiaes. Era co- nhecido quanto o principe Henrique despr zava seu pae e detestava o seu favorito Carr, em quem elle uma vez publicamente bateu com a raqueta do tennis. Elle era, além d'isso, rival deCarr em amores, estando secretamente ligado com a condessa de Essex, que só casou com Carr, depois da morte do principe O rei Jayme pelo seu lado odiava e temia seu filho, cujas qualidades superiores o distinguiam e avantajavam. N'uma occasião, em Newmarket Heath, o perverso Jayme chorou de raiva ao vêr os grandes da córte abandonal-o para seguir seu filho. Estes factos congraçam-se extranha- mente com o boato, que se tornou predomi- nante no tempo da prematura morte de Hen- rique, de que elle fôra envenenado, boato não confirmado para o publico, mas sustentado então pelos embaixadores e secretarios de estado nos seus despachos confidenciaes. Admittindo esta hypothese, torna-se bem claro o seguimento da inteira historia. Não se póde, sem inutil insinuação, deduzir que o rei, de espirito fraco, fosse parte activa no assas- sinio de seu filho. A sua culpa, como foi de- pois a de sir Gervasio Helwysse, consistiu em ter fechado os olhos ao crime que elle sabia estava para ser perpetrado. Demasiadamente cobarde para elle proprio planear um assassi- nio, foi tambem demasiadamente cobarde para conter o atrevido e ainda mais vingativo Carr. Por este perdão que o tornava cumplice col- locou-se debaixo do poder do seu favorito. A expressão que empregára Somerset na noite anterior ao seu julgamento denuncia em extremo a cumplicidade de Jayme. A promessa com que contava Somerset, uma promessa de que nunca havia de ser levado a um julga- mento, não era uma simples garantia dada em relação á morte de Overbury ; era evidente- mente uma segurança a que se houvera obri- gado o rei, com respeito a um acontecimento muito mais sério e a qual não ousaria que- brar. Duas ordens de motivos pódem explicar o TIO proceder de Carr contra o principe. Henrique não era sómente o amante de sua futura mu- lher, ecra tambem o successor da corõa. Em- quanto elle vivesse, a fortuna do favorito esta- ria arriscada. Teria podido talvez persuadir o estonteado rei, poderia elle proprio estar con- vencido, de que o principe conspirava para se apoderar do throno na vida do pae. Na ver- dade uma tentativa sem esperança de exito ; comtudo as opiniões dos contemporaneos mais bem informados estabelecem esta hypothese. A ella alludiu muito discreta, porém claramen- te, o procurador geral Bacon no seu discurso no julgamento de Somerset. Sir Eduardo Coke, um habil advogado mas um grosseiro cortezão, durante as primeiras phases d'estes processos, pronunciou no tri bunal de justiça estas palavras : «Deus sabe o que foi feito d'aquella dôce creança, o prin- cipe Henrique ! Eu sei alguma cousa». Annos depois, quando já tinha esquecido a morte de Overbury, o rei Carlos 1 convictamente decla- rou na presença de uma testemunha, a qual repetiu a declaração ao bispo Burnet, que seu irmão Henrique fôra envenenado pelo visconde de Rochester, depois conde de Somerset. Mas Carr não commetteu sem duvida o crime sem ajudas. Não o podia commetter tão cautelosamente a ponto de escapar aos olhos dos seus intimos amigos e mais proximos con- selheiros. Ora, o que apenas suspeitavam os outros cortezãos devia sabel-o sir Thomas Overbury. D'aqui as mysteriosas ameaças pro- feridas a Helwysse, d'aqui a presumpçosa ar- rogancia com que elle rejeitou a embaixada da Russia; e tão resolutamente arrostou com a inimisade da mulher de Somerset. E' finalmente para esta mulher que con- verge a attenta investigação d'este mysterioso caso. E” ella, e não o marido, quem apparece como agente activo na tragedia. O favorito, seguro da protecção de seu amo, podia ter desprezado a maliciosa opposição do seu an- tigo confidente.Todavia a morte de Overbury, repare-se bem, foi no processo obra de Fran- ces Howart. E' dificil suppór que o tribunal que a julgou e o publico que a condemnou por este terrivel crime podessem ter ingenuamente acreditado que elle fosse suggerido por singular desaven- ça ou vingança de se ter opposto Overbury ao seu casamento e de ter usado de algumas ex- pressões injuriosas contra o caracter della. O motivo pareceria insuficiente para o tempo e era-o claramente assim no caso de Somerset. Se a sua intervenção no crime foi proveniente do receio em que estava das revelações que Overbury poderia fazer, este mesmo receio poderia tambem ter-se communicado de So- merset para sua mulher. Não obstante tudo
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I20 quanto procure explicar ter ella tomado parte na conspiração, não explica o ter tomado a principal. Porque é que a condessa de Somerset, em vez de se apresentar como cumplice do ma- rido, mantém-se firme no processo, quasi como a unica autora do assassinio ? A condessa de Somerset era uma mulher perversa; era, talvez, a mais depravada mu- lher do seu tempo. Mas ainda mesmo no co- ração da peor mulher ha alguma coisa de bom, pelo menos na ternura pelo homem que ama. O principe morto amára Frances Howard; é licito suppôr que ella lhe tivesse egualmen- te algum afecto Se assim foi, a subsequente união com Carr — uma união na qual havia, pelo menos, tanto de ambição como de amor Serões — não podia ter apagado completamente a imagem do novo e formoso principe que, du- rante longos tempos, conquistára o seu cora- ção. Quem sabe se esta mulher, dentro da sua propria malvadez, foi movida de verdadei- ro sentimento de vingar o cruel destino do moço que ella amára ? Quem sabe se, com a logica de mulher, tivesse passado a culpa da morte d'elle dos hombros do marido para os do mais velho e mais experimentado conse- lheiro deste e que era, além de tudo, seu atroz inimigo ? Quem sabe se assim foi levada a exercer aquella vingança que, pelas suas muito proximas consequencias, annunciou a longa tragedia da queda dos Stuarts do throno de Inglaterra? TARDE DE INVERNO
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| | LAMPADAS DE INCANDESCENCIA candescente marcou um notavel pro- gresso na evolução ininterrupta da sciencia applicada. E' reputada uma das mais importantes invenções do seculo x1x. Poucos conhecem as multiplices operações A DESCOBERTA da lampada electrica in- Soprando tubos de Rôentgen. que exige o seu fabrico, e como é delicada e cuidadosamente conduzida a manufactura duma lampada. E” com effeito interessante € instructiva a visita a qualquer oficina onde as lampadas sejam construidas nas suas nu- merosas e distinctas variedades. Não seria pequena a lista onde se enume- rassem as differentes applicações que tem re- cebido este processo de illuminação, tornado não só geral, mas necessario e indispensavel em muitos e diversos casos. O seu principal uso é, por certo, o da iluminação publica ; porém em muitos outros serviços de natureza puramente commercial é empregado. Quasi todas as artes e sciencias teem recebido o beneficio d'este especial meio de iluminar, e com o seu auxilio a cirurgia encontrou recur- sos novos de investigação e de acção que sem elle não poderia alcançar em prol da huma- nidade, Sabe-se que as correntes electricas, pas- sando atravez de qualquer conductor, lhe ele- vam a temperatura. Se se fizer passar uma corrente por um fio de ferro, por exemplo, a temperatura do metal augmenta—e au- gmenta tanto mais quanto maior fôr a inten- sidade da corrente que passa atravez do ferro, de sorte que se mais e mais corrente fôr man- dada pelo fio, este ficará vermelho, incandes- cente, attingirá o rubro, passará ao branco vivo e finalmente fundir-se-ha. Pela mesma fórma se póde conseguir egual incandescencia, usando d'uma delicada vari- nha ou d'um filamento de carbone, obtido pela carbonisação cuidadosa e ao abrigo do ar d'um fio de cellulose. Quando uma corrente , suficientemente intensa passa atravez do fio de carbone para o fazer tomar a côr verme- lha e depois branca, muita luz se perde pro- duzida pela incandescencia das particulas de carbone. O carvão ardente desapparece de- pressa, gasta-se, porque o carbone n'aquella alta temperatura combina-se rapidamente com o oxigeneo do ar, como quando se queima nas grelhas d'uma fornalha. Pelos annos de 1840 occorreu pela vez pri- meira ao dr. Moleyns a feliz idea de fazer a experiencia de collocar um fio de platina in- candescente dentro d'uma capsula de vidro fechada e à qual se tivesse cuidadosamente extrahido o ar. Outros inventores aperfeiçoa- ram a idea do dr. Moleyns, substituindo pelo carbone e depois pelo fio pergaminhado a platina, de preço elevado; até que finalmen- te as investigações simultaneas de Edison é de Swan deram em resultado a lampada in- candescente que hoje vemos geralmente usa- das. Passando agora à rapida descripção dos Fazendo ampolas de vidro para lampadas ordinarias processos de fabrico, notemos que em mui- tos elles se empregam raparigas.
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122 Serões A phase mais interessante do fabrico das lampadas é talvez o soprar dos globos de vi- dro. Uma grande parte d'este trabalho é feito por operarios allemães que são em geral muito habeis em soprar o vidro, operação que não Tirando os filamentos do cadinho apos carbonisação póde ser feita apressadamente, porque dei- xando-o aquecer ou esfriar demais póde ra- char e estragar-se. Emprega-se de preferen- cia uma qualidade especial de vidro chama- do crystal, cujo coefficiente de dilatação se harmonisa com o da platina e da qual de- pende muito o exito da manufactura. Um desenho das ilustrações que acompanham este artigo apresenta um homem fazendo o tubo de raios de luz Roentgen, que requer ainda mais delicadeza e habilidade do que a lampada ordinana, Em outra illustração um soprador de globos, que está fazendo lam- padas incandescentes ordinarias, arranjou algumas ampolas n'uma mesinha, mostrando o tubo de vidro nas extremidades do qual os operarios podem segurar emquanto ap- plicam o outro tubo de soprar. As formas das ampolas tornaram-se varia- dissimas, consoante as condições impostas pelo seu destino especial ou a phantasia dos clientes. Alem do modelo normal, ordinario, em forma de pera, ha-as tambem esphericas ou cylindricas, lisas ou lavradas em saliencias prismaticas, no genero das pinhas, ou ondula- das para conseguir chammas torsas. O proprio crystal empregado é muitas vezes colorido em tons que vão desde o azul claro ou mari- nho até o amarello topasio, passando pelo côr de rosa pallido ou pelo verde d'opala, obten- do-se assim colorações que attenuam o bri- lhante excessivo da luz, suavisando-o nos seus effeitos sobre a vista. Depois do globo de vidro, segue-se nova phase de fabrico das lampadas, que é a de preparar a porção de filamento d'onde irra- diará a luz, o que exige muita delicadeza no trabalho, sendo o filamento mui sugeito a es- tragar-se durante a sua producção. Tem a similhança d'um pedaço de arame arqueado; porém, como se disse, é na realida- de uma fôrma muito fragil de carbone, mol- dada e feita de fios de algodão, ou de lã per- gaminhada e preparada chimicamente, ou de cellulose, conforme as materias primas prefe- ridas e diversas, segundo os fabricantes, Esta ultima, agora a mais empregada, é reduzida a uma pasta glutinosa que se força a passar atravez d'uma fieira de vidro. Produz-se assim um fio de egual grossura, a que o alcool dá consistencia. O fio ou o fi- lamento é então submettido a banhos chimi- cos, e depois lavado e enrolado num cylin- dro para seccar. Em seguida é cortado em pedaços dos comprimentos exigidos e collo- cado em volta de moldes, que se mettem dentro d'um cadinho, o qual é aquecido gra- dualmente. O filamento endurece, contrahe-se e conserva permanentemente o feitio das fôr- mas onde foi enrolado. E” preciso muito cui- dado para o tirar da fôrma por ser muito quebradiço. Uma das illustrações mostra os filamentos, apoz terem sido cuidadosamente carbonisados, mas como são similhantes a cabellos é difficil poderem vêr-se distincta- mente. Precisam ser guardados n'um logar muito secco ou em caixas de ar comprimido, Soldando os filamentos em pontas de platina. aliás ficariam rapidamente estragados, porque poderiam absorver humidade, o que affecta- ria as operações subsequentes. Destas segue-se logo a do engaste; quer di-
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Lampadas de incandescencia 123 zer, O filamento tem de ser unido a fios de platina que o sustentem e conduzam a cor- rente electrica atravez do vidro da ampola. Às juntas são feitas de platina, porque é o unico metal que póde ser perfeitamente sel- lado ao vidro, e que ao mesmo tempo póde supportar sem se fundir elevadas temperatu- ras, emquanto se estão fixando dentro da ampola de vidro. Os fios de platina depois de terem sido primeiramente ligados a um pequeno pedaço de vidro apropriado, para os manter em posição, são depois unidos ao filamento e immersos em benzina, fazendo-se passar atravez d'aquella, que faz a juncção, uma corrente electrica, levando-os ao rubro e depositando-se o carbone da benzina, for- mando assim uma soldadura. As raparigas que se encarregam d'este tra- balho teem de ser excessivamente cuidado- sas e teem de lhe dedicar toda a attenção, porque da falta de cuidado, emquanto passa a corrente electrica, póde resultar ignição da benzina. é Depois de ter sido examinado o filamento, é levado para uma outra officina para lhe avaliar a resistencia electrica. Chama-se a este processo relampago, por meio do qual se deposita carbone no filamento até se obter a resistencia desejada. Isto faz-se collocando O filamento n'um cabo, que é depois adapta- do ao receptor de uma machina pneumatica. Extrae-se 0 ar do receptor e enche-se depois de vapores d'um hydro-carboneto. Em segui- da passa-se atravez do filamento uma cor- Procedendo à calibragem rente electrica que o leva a forte incandes- cencia e deposita-se n'elle 6 carbone que provém da decomposição. Chama-se tam- bem esta operação calibragem ou alimentação, a qual, como se vê, se destina a obter a uni- formidade e a regular expessura do filamento. Este deposito de carbone sobre o filamento varia em quantidade conforme a força da cor- rente que tem de conduzir : se fôr destinado Inserindo os filamentos compostos dentro do globo a luz de muita corrente precisa-se de um de- posito muito mais grosso do que um que te- nha pequena corrente. Os instrumentos chamados amperemetros são usados para determinar a quantidade to- tal de energia electrica que se lhe deve for- necer. Applicando-se para as lampadas maior energia do que a que ellas precisam, escu- rece o globo e estraga-se o filamento, com- quanto a luz à primeira vista pareça muito brilhante. Depois da operação do relampago vem a de sellar ou inserir o filamento na ampola de vidro. Ha raparigas que fazem este trabalho com muita dextreza. Uma das extremidades da ampola que é deixada de proposito para agora servir de cabo, é aquecida primeira- mente na chamma do maçarico e tirada para fóra, fazendo-se-lhe uma abertura para se metter o filamento. As lampadas são depois collocadas em estante com uma tampa, de maneira que o filamento possa esfriar gradual e lentamente porque tornarse-hia quebradiço se fosse arrefecido muito depressa. N'esta altura do fabrico, as lampadas apre- sentam-se sobre a fórma d'uma ampola de vidro, fechada com uma tampa tambem de vidro, atravessada pelas pontas de fio de pla- tina, os quaes se prolongam exteriormente por extremidades de cobre, como tambem muitas vezes interiormente se terminam em nickel, com o fim de reduzir ao minimo o emprego da platina, da qual um kilo custa duzentos e setenta mil réis.
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124 Assim preparada a lampada, tem de ser es- gotada do ar. E” hermeticamente fechada n'um receptaculo de vidro ao qual está ligado uma bomba de mercurio que aspira o ar, Aferindo as lampadas Emquanto se procede ao esgotamento, vê-se para cima e para baixo no tubo de mercurio bambaleando-se umas bolinhas d'ar, e em quanto estas não desapparecem não está com- pleto o esgotamento, isto é, conseguido o va- cuo. A corrente electrica não poderia até en- tão passar, aliás queimar-se-hia o filamento em logar de simplesmente o fazer incandes- cente. Depois de se ter procedido a outras expe- riencias afim de verificar se ha qualquer de- feito nos filamentos, nas juncturas, nos globos, etc, são levadas ao gabinete photometrico, onde são classificadas pelo seu poder de luz, e onde se certifica se as lampadas teem o mesmo brilhantismo e na mesma proporção. Todas são experimentadas e a sua voltagem e poder de luz são marcados no globo de vi- dro. Passam. finalmente para uma officina de montagem e de acabamento onde são ada- ptadas a differentes cabos. Este trabalho é confiado ás aprendizas que usam aventaes para se resguardar do gêsso, com o qual ellas fixam a gola da lampada aos cabos ou sup- portes de cobre. A luz da lampada electrica é a mais bene- Serões fica e hygienica de que se possa fazer uso, com excepção, já se vê, da luz do sol; por- que de modo algum vicia a pureza do ar e assim póde gosar-se do duplo beneficio de uma boa luz e de uma atmosphera pura. Tem ainda outra vantagem: em casa onde se use a luz electrica tudo se conserva mais brilhante e mais fresco do que n'aquellas onde não ha esta iluminação; a prata não se deslustra nem escurece promptamente, e nem os teci- dos desmerecem tão depressa, como tambem se gosa da grande vantagem de poder con- servar por muito mais tempo nos quartos flô- res e plantas do que com qualquer outra luz. Sob o ponto de vista da segurança decerto que ha muito menos risco do que com qual- quer outra especie de illuminação. A duração das lampadas electricas de in- candescencia não excede mil a mil e duzen- tas horas; prefere-se mesmo deixal-as viver metade d'este tempo, attendendo à diminui- ção de preço do custo que os aperfeiçoamen- tos no fabrico teem conseguido obter. A in- tensidade luminosa enfraquece naturalmente com o uso, sobretudo pelo deposito de car- vão que vae obscurecendo a limpidez do en- volucro de vidro, bem como com o gasto do filamento que adelgaçado dá menos quanti- dade de luz, consumindo comtudo a mesma energia electrica. Ganha-se, portanto, mais em substituil-as antes de completo uso, por- Acabamentos que a compensação resulta do melhor apro- veitamento da corrente. O seu consumo cresce de anno para anno; só em França se conso- mem annualmente mais de tres milhões de lampadas. Saad bi CI a
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O PREÇO D'UM QUADRO todos os annos, se realisam importan- berana n'este campo, pondo em evidencia tes transacções sobre objectos d'arte, um genero para desprezar outro, tomando como pinturas, livros, estatuas, desenhos, ta- predilecção por um dado artista em detri- peçarias, cuja acquisição não é somente para mento d'outros, por vezes dignos de melhor muitos uma satisfação de vaidade ou de gosto e de mais justa sorte. N'um periodo, a pin- artistico, mas tambem repre- senta uma calculada collocação de capital. São avultadas as sommas que gyram neste me- rcado especial; e, como em to- dos os outros, annos ha em que a cotação das vendas corre animada, bem provida de ma- terias primas, estimulando os concorrentes, e periodos ha tambem em que escasseam os objectos dignos de profiada disputa, apresentando abatida feição e desamparada assisten- cia os leilões usuaes dos me- lhores byic-à-bracs e das mais afamadas galerias. São nume- rosas as causas, e de origens diversissimas, que influem n'es- te variado aspecto do mercado de arte, onde se dá tambem, como em todos, a inevitavel lei das oscilações. Claro está que os acontecimentos da po- litica, as guerras, as crises fi- nanceiras, a fortuna varia das grandes especulações commer- ciaes, a mortalidade inesperada por causas accidentaes, como peste, revoluções e combates, mil outros accidentes da vida social têem naturalmente uma acção directa sobre a activi- dade e sobre os resultados do Conpessa pe Dysar? anno artístico. A volubilidade Quanro DE HOPPNER — SeounDo UMA GRAVURA DE CarLOs Turner Ni grandes centros da vida civilisada, caprichosa da moda impera egualmente so-
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126 tura congrega todas as attenções; n'outro são as estatuas que fascinam os colleciona- dores; hoje procuram-se mobiliarios; áma- nha recolhem-se todas as tapeçarias que ap- parecem; por vezes, sem explicação plausivel ha objectos que attingem preços fabulosos. Deu-se este anno um caso d'estes. Um qua- dro de Hoppner, pintor que a critica ingleza classifica de terceira ordem, foi vendido em 27 de junho, em casa dos srs. Robinson e Fisher, pela enorme somma de 14:050 gui- neos, o que corresponde aproximadamente a 97 contos de réis. Representa, sobre um fundo de paizagem e em trajo de camponeza, Lady Luiza Man- ners que foi depois a condessa de Dysart. Este retrato, cuja tela mede 51 por 41 polle- gadas, foi sempre considerado como um so- berbo trabalho do pintor retratista e tornou- se muito conhecido pela vulgarisação que lhe deu a gravura de Turner publicada no prin- cipio do seculo findo. Affirma-se que esta consegue apenas dar uma pallida idea da bel- leza opulenta e triumphante da filha do quarto conde de Dysart. A illustração que acompa- nha esta pagina é feita sobre reprodução da gravura, portanto bastante enfraquecida, dando, porém, ainda indicação suficiente do quadro. Cousa curiosa ; esta mesma gravura de Turner rarêa tanto que dois dias depois da venda do quadro, um exemplar d'ella foi vendido por duzentas libras. A condessa de Dysart nasceu em 1745 € viveu até 1840, tendo, portanto, attingido a avançada edade de 95 annos. Do pintor Hoppner é muito mais fallada e apreciada a celebre Miranda; e accrescente-se ainda, para se apreciar bem a caprichosa sorte que fez encarecer a venda recente, a duvida que ha sobre se aquelle quadro agora vendido é o original ou uma repetição do que existe na collecção de Lord Dysart em Ham House. Nos registos das vendas d'arte, desde 1827 a 1880, apenas figuram de Hoppner onze tra- balhos com preços dignos de ser menciona- Serões dos, notando-se que d'estes apenas cinco são composições de tres figuras. Todavia, o preço do retrato da formosa condessa attingiu uma somma appetecivel, sendo certo que a inten- sidade da procura se dirige actualmente de preferencia para retratos; como tambem agora os pintores, que se dedicam com amora trans- portar para a tela as bellezas femininas, teem sempre ininterruptas encommendas. Como um facto interessante da venda an- nual de Londres, ainda se recorda que o sr. Agnew pagou por 2:150 guinéos, ou sejam cerca de 13 contos, um estudo do celebre pintor Gainsborough, representando Izaac Henrique Sequeira, medico do então princi- pe regente de Portugal, sentado n'uma ca- deira de braços, segurando um livro e em vestuario azul da côrte, tela de 50 por 40 pollegadas de dimensão. Para justificar em numeros, segundo o uso da época, a asserção dos capitaes avultados que annualmente absorvem as vendas d'arte, basta citar a importancia total, colhida em onze leilões, 272.093 libras, ou seja cerca de 1.700 contos, somente no mercado inglez e empregada em quadros, desenhos, pratas, porcelanas e outros variados objectos que constituem a decoração das salas e dos apo- sentos ricos. Para muitas obras d'arte, prin- cipalmente quadros, nota-se que o preço attingido em successivos leilões cresce na ra- zão do juro pelo tempo decorrido entre duas vendas consecutivas; d'aqui dizer-se que a compra d'elles representa por vezes um sim- ples emprego de capital. Infelizmente esta re- gra não é geral e de quando em quando ci cumstancias accidentaes produzem deprecia ções n'estes valores de parede, como nas bolsas soffrem os outros valores de carteira. A especulação, representada pelos grandes bric-à-bracs, espreita estas occasiões, apro- veita d'ellas, e realisa assim avultadas fortu- nas, quando o bom gosto e o conhecimento technico se alliam ao arrojo na compra op- portuna.
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METROS MO RENDA continúa a ter preferencia nos al enfeites e applica-se mesmo nos ves- tidos mais fortes. Para tozlettes de noi- te é a grande moda. As rendas feitas em tamboril, que tanto usaram nossas avós, tem agora grande voga: porém utilisam-se, de todos os generos. Não é de certo a verda- deira renda uma feita com uma especie de gancho de crochet so- bre uma rede entesada n'um bastidor; porém não sãe tão cara como se fosse a renda feita agulha. Os desenhos trabalhados sobre a rede apresentam lindo aspecto e são effecti- vamente aproveitados porque são já execu- tados com os moldes das saias, de modo que se ajustam perfeita- mente onde devem. Uma outra renda mui- to usada para o mesmo fim é a de Luxeuil: esta tambem não é tão cara como a renda feita d'agulha; é com- posta na maior parte de trança unida jun- tamente com pontos de renda e formando applicações com ponto agulha tambem: é comtudo um tanto mais cara do que os traba- lhos de tamboril, mas não se approxima na excellencia ou no pre- ço de qualquer producto que seja completa- mente feito á não. Mesmo o crochet irlan- dez longe de ser tão custoso como a renda Rea ES Ag: à mão, é comparativamente dispendioso. Fre- quentes vezes é vendida como renda impro- priamente. A verdadeira renda é o producto da agulha ou de bilro, e comquanto o cabo de crochet seja manejado com muita habili- dade pelas rendeiras irlandezas e os seus productos sejam symetricamente contorna- dos, tão perfeitos nas minudencias como se fossem a ponto d'agu- lha, sempre é, no fim de tudo uma cousa bem differente da ver- dadeira renda. Os mo- delos de crochet irlan- dez são muito bons, sendo copiados do ponto de rosa do ve- lho veneziano ao qual se assimilha. Ha com- tudo grande differença para quem saiba vêr e apreciar. Alem dos vestidos inteiramente compos- tos de renda, e collo- cados sobre seda, setim ou cambraia, ha mil maneiras de entremear a renda e bordados. A mistura de rêde branca e de rendas pretas é muito actual. Umarêde preta, semeada de fo- lhas de renda branca, produz excellente ef- feito, e n'estas compo- sições se esmeram as grandes fazedoras de modas. Sendo o vestido preto um tanto vulgar, torna-se elegante quando é abundantemente enfeitado com tiras de renda preta com meda- lhões de renda branca, salpicado de sequims.
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128 Nos estylos não se nota differença essen- cial áquella que anteriormente aqui se tem consignado: o estylo imperio, mais ou menos modificado, com maiores ou menores recor- dações da arte grega ou romana, o estylo Luiz XV modificado, em transformações ha- bilmente pensadas, de sorte a darem agora modelos graciosos que entram mais na cate- goria de arte nova do que na resurreição do velho genero amancei- rado, são os mais usa- dos. Em todo o caso, para o uso corrente e generalisado, aqui da- mos modelos que se destinam a fazer co- nhecer o gosto preferi- do e que se affasta dos exaggeros de foilettes theatraes,onde a moda foi durante annos pro- curar inspiração ou confirmação; porem onde hoje se fornece menos de ideaes para modelos. Todavia di- zem aquelles que tem frequentado este anno os salões luxuosos do alto mundanismo, que em (oileites de jantar ou de sozree, com o uso e abuso das rendas, se tem notado uma certa ousadia no desvendar de formas que os mais escrupulosos averbam de exaggero, embora mereçam a intima approvação pelas gracio- sidades appettitosas que revelam ou pelas opulencias exuberantes que desnudam. Para abrigar tanta formosura, em acon- chegado ninho, sómente se apropriam as bellas capas de pelles macias, dos tons avel- ludados da lontra da Russia, ou na côr fulva das martas, ou dos argenteos reflexos da ra- posa da America. Durante a estação tem ha- vido, com o annuncio metereologico de que Serões seria rigorosa, uma grande procura de pelles estimadas, alcançando preços fabulosos. Fe- lizmente, a industria das imitações encarre- ga-se de prover de succedaneos de excellente apparencia aquelles a quem os recursos não deixariam abrigar-se em agasalhos defenso- res da intemperie. De sorte que os mais esti- mulantes contrastes resultam da emergen- cia d'uma toilette vapo- a, idealmente com- a de rendas custo- sas sob tecidos leves e transparentes, de dentro d'uma pesada e fulva pelliça; como se harmonisam tam- bem, em extranha symphonia de perfu- mes, as essencias de violetas e de iris com o acre odor das pelles que lembram as flores- tas sombrias e frias; como se emolduram na maciesa dos arminhos as aveludadas carna- duras aquecidas na do- - “ce temperatura dos fo- gões de sala. A nossa ilustração apresenta um casaco de uma nova pelle — a de toupeira. O casaco é guarnecido com ban- das de suede ricamente bordadas a oiro e cordão cinzento. O chapéo é de velludo com plumas e fivela de brilhantes. A outra illustração representa um vestido de velludo preto para visitas, enfeitado com umã variedade de renda espessa bordada com froco e posta sobre setim. Este material simples é apropriado para a severidade e sim- plicidade de estylo adoptado. O cinto e o laço de setim, tendo no centro uma fivela de bri- lhantes, auxilia e completa o efeito. O cha- péo é feito com os mesmos materiaes, e re- matado com uma pluma d'ave do Paraiso.
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dota E VI LDO, O it trt Ur turu Ham no
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PRESENTO-VOS primeiramente a Her PA pinheira que desdobra em roseta « suas largas folhas molles e envernisa- das. Do meio d'esta roseta elevam-se duas hastes rectas e finas, coroada de flôres vio- laceas. Ella é uma bonita planta, e compara-se a esses caçadores furtivos hypocritas que sob a apparencia mais encantadora oceultam os mais perversos instinctos. Não tomemos conta da flôr e observemos as folhas. São a arm dilha perfida onde se prende a caça temeraria. Seja qual fôr a seccura da terra e o ardor do sol, o rebordo d'estas folhas, engenho ii resistivel, está sempre humido e brilhante, cobero d'um liquido unctuoso que a propria planta segrega. Se observarmos attentamente estas folhas, descobriremos n'ellas, aqui e alli, despojos informes, restos dispersos e minusculos de patas, de azas, de couraças de insecto: rios. E" a caça da Herva. Como se passou a carnificina? A planta caçadora acabou de s suas proezas cynegeticas e como ella dispensa a licença, mereceria ser tg se as plantas podessem ser levadas à pol correccional. Em face das provas e peças justificativas podemos reconstituir o drama. O pobre in- secto que se atreveu descuidoso sobre as fo- lhas viscosas e brilhantes da planta foi logo apanhado; e faz immediatamente corpo com a folha que vae transformar-se em seu sepul- cro. Muito docemente, a folha recurva-se sobre a sua preza que se acha logo envol- vida no liquido unctuoso. Como poderá fu- gir? A folha recurva-se ainda mais, como se mão invisivel a enrolasse entre dedos pode- rosos. Nada se vê já. A victima da planta fica encarcerada n'esta especie de cartucho que a folha impassivel formou. No fim d'algumas PLANTAS CAÇADORAS E PESCADORAS horas, novo prodigio se opéra. Poucc a folha desenrola-se, e desdobra-se vi À e brilhante. Olhae: o insecto desappareceu, apenas se vêem alguns restos informes des- presa »s pela astuta H rva. À pls anta devorou a pouco, imentar da terra. Planta carnivora das mais c uriosas, banqueteou-se, porém, não se saciou; caça- dora infati; rma de novo o laço de su folhas viscosas a outros insectos que virão nºelle morrere desapparecer. A Herva-pinhei- ra não caça por amor d'arte ; mata e come a caça, vive da sua victima. i agora uma outra planta caçador ney getic teem alguma coi Nepanthes. Como des- é Z soberana que pa- rece provir dos j ul de Tasso ou dos ale- s magicos das «Mil ? e uma noites ?» Divide com a Victoria régia o sceptro dos tropicos. E” a opulenta rainha da India e do Ceylão. Derrama tambem os explendores sin- gulares da sua incomparavel originalidade, em certas regiões de Madagascar, nas solidões de o yrnéo enas flor estas mysteriosas de Java. A Nepanthes é a mais admiravel de todas as plantas carnivoras e caçadoras. Ao seu appetite real são necesarias hecatombes d'in- sectos de azas irisadas e de corpos dourados. Dir-se-hia que ella se alimenta de pedr: preciosas, de turquezas animadas, de esme- raldas vivas. E estes insectos brilhantes que se succedem n'um eterno festim são-lhe ser- vidos pela natureza em taças de nectar e de perfume. A espiga de flôres que esta planta maravilhosa ostenta no cume, é sem duvida magnifica, mas a suprema originalidade da Nepanthes reside nas suas folhas, as mais ex- traordinarias do mundo vegetal. A Nepanthes é o inverosimil tornado planta, o paradoxo transformado em folhas.
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10 Estas folhas, poderoso laço ou armadilha de caça, elevam-se, estendem-se, recurvam-se com surprehendente graciosidade. Largas e brilhantes, estas folhas terminam por um del- gado e solido filamento, especie de gavinha ligeira que apesar da sua apparente fragili- dade supporta na sua extremidade uma urna ou vaso vegetal, completo, irreprehensivel, enfeitado de guilloches encantadores, de ga- lões adebruados, de ornatos delicados que parecem cinzelados pelo buril d'uma fada. A fada foi a natureza. Nada falta a estas urnas, nem mesmo a tampa, obra admiravel que girando sobre charneira reabre aos primeiros raios do sol e se fecha com o entardecer. De noite, estas umas prodigiosas, seguras delicadamente pela extremidade da gavinha enchem-se d'agua limpida e docemente per- fumada que a propria planta segrega. De manhã, quando a urna, sob a acção dos raios do sol levanta a tampa, está cheia e nºestas bacias de frescura e de perfume caem multidões de insectos que alli se afogam como a lenda pretende que se afogou o duque de Clarence n'um tonel de Malvasia. Estes cadaveres attrahidos e mortos por surpreza n'um tumulo attrahente são dissol- vidos pelo liquido e a Nepanthes devora-os, comendo lauto banquete em todos os pratos ao mesmo tempo. Se para o insecto, a uma da Nepanthes é um tumulo ; para o homem é, ao que parece, uma taça de vida, um calice refrescante, aben- çoado e sempre pleno. Não é uma planta é uma fonte — e uma: fonte maravilhosa que não rebenta d'uma pedra, mas brota d'uma folha. Gosto muito, sem duvida, da caça e das flôres, mas gosto tambem dos insectos, e as plantas caçadoras que são tambem plantas carnivoras inspi- ram-me simultaneamente uma admiração rara e uma especie de terror confuso. Parece-me que para estes graciosos seres, feitos de bri- lho e de perfume, deveriam bastar-lhes oar, o orvalho e o sol. Comtudo, muito lhe deve ser perdoado, a Nepanthes attesta a sua habilidade assom- brosa coma caçador de insectos que ella attrahe no laço, tão gracioso como perfido, da sua taça fatal. Que se lhe perdõe tudo pelo fresco copo d'agua perfumada que sob um céu de fogo ella offerece no extremo dos seus ramos ao viajante sequioso. Poderia ainda citar-vos entre os mais ha- beis caçadores do mundo vegetal, a Rossolis (herva da gota) ou a Dionêa (papa-môscas), mas passo a apresentar-vos a Utricular, planta que pesca, planta de pallidas florinhas ama- rellas de ramusculos delicados, aquatica, sub- Serões mersa, de raiz fluctuante e solta, errante no seio das aguas, visitando alternadamente ais superficie e o fundo dos paues. , As suas folhas são guarnecidas de nume- rosas bexigas ou pequeninos ôdres, Ponde — lhe vem o nome de Utricular. Segundo al- guns botanicos, estes Ôdres seriam appare- lhos de natação, enchendo-se de ar ou de agua. De agua para lustrar a planta e guial-a ao fundo das aguas, de ar para a aligeirar e impellir sobre a superficie dos tanques. Des- tinados exclusivamente a este uso, estes ma- ravilhosos ôdres classificariam a Utricularna. primeira classe das plantas extranhas. Estas. bexigas que se enchem e se despejam de agua ou dear para fazer subir ou descer esta planta. y errante, teem já de si proprias alguma cousa | de admiravel. Mas outros ilustres botanicos estão hoje de accordo que os ôdres da Ui cular são não sómente apparelhos de nata- ção, mas tambem perfeitos engenhos de. pesca. Está hoje reconhecido, admittido que delgada e delicada Utricular é ao C tempo um vegetal carnivoro e pescador, planta piscivora que se nutre de inse aquaticos e de pequenos peixes que co gue prender nos seus ôdres. N'uma pala a Utricular pesca como a Nepanthes ea D nêa caçam. Nas bexigas da Utricular acha-se um p queno orifício, guamecido de péêllos que parecem defender-lhe a entrada, por d traz dos quaes existe uma valvula queseab de fóra para dentro, ratocira engenhosa. perfida, livre para a entrada, inexoravel p a sahida. Ai do imprudente que impilla a f tal valvula e entre na bexiga, seu tumulo Placavel, como a porta do inferno de D onde é preciso deixar toda a esperança ! | Primeiramente o insecto aquatico nadi com voluptuosidade dentro da bexiga, de agua que lhe parecerá um mundo. Mas em breve a planta segrega um liquido virt lento que-o mata, decompõe e absorve, b Utricular jantou. Finalmente, os sabios descobriram q planta não se restringe aos insectos, é decidida predileção culinaria pelos p recemnascidos. N'estes ultimos tempos, mr. Simms, d'O ford, trouxe ao eminente professor Mosel um vaso de vidro contendo uma Utricul alguns peixes do genero cyprino, extre; mente pequenos, os quaes foram apanhado pelas valvulas dos utriculos, penetraram n glutonas bexigas, ali morreram, decompo ram-se e pouco a pouco desappa À absorvidos pela planta piscivora ou melh icthyophaga. Que prazer teria experimenta:
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Variedades 11 Darwin se lhe fosse dado assistir ao fabuloso repasto da Utricular, elle que fôra o primeiro a signalar os terriveis instinctos cynegeticos e culinarios da extranha planta! Moseley viu ainda uma vez um pequeno cyprino preso por dois utriculos ao mesmo tempo. Emfim, Madame Treat, de New-York, confirmou por experiencias irrefutaveis os appetites car- niceiros da magra e delicada Utricular — unica planta conhecida até o presente que se entrega ás doçuras da pesca e que mistura num nen4 bem comprehendido a succulen- cia dos tenros peixes ao sabor aperitivo dos insectos. E foi assim que, apropriando os gostos da Utricular ao meio em que ella vive, a complacente natureza prodigalisa a esta sua filha das aguas as frituras e as caldeira- das. MEMENTO ENCYCLOPEDICO Ourusro 26 — Chili — Considera-se termi- nado em Valparaiso o incidente argentino- chileno. — França — O syndicato dos opera- rios metallurgistas de Saint-Etienne vota que se faça gréve geral da sua classe ao mesmo tempo da dos mineiros. — Venezuela — As tro- pas do presidente Castro são derrotadas perto de Mathurin, sendo grandes as perdas de um e outro lado. 27 Portugal —O Diario do Governo pu- blica um decreto sobre as reformas da arte dramatica e musical. — Lançamento ao rio da canhoneira-torpedeira Tejo. — Inglaterra — Repetem-se em Londres as manifestações hos- tis ao generalissimo Roberts. — França — O iptor Lourenço Tailhade acha-se refugia- do em Bruxellas em consequencia da sua con- demnação que o expulsa de Paris. 28 Inglaterra " lançado á agua em Bar- row o cruzador King Alfred, o maior e o mais rapido do mundo. 29 Estados-Unidos — E' executado em Au- burn pelo systema da electrocução o assassino Golgosz. — Portugal — O Diario do Governo publica a reorganisação da magistratura do ministerio publico. — Italia — O rei Victor Manuel acceita a arbitragem que lhe offerece- ram a Inglaterra e o Brazil para a delimitação das fronteiras da Guyana, tendo nomeado de- legado o ex-ministro sr. Venosta. — França— A commissão do Aero Club decide conceder ao sr. Santos Dumont o premio Deutsch de 100:000 francos. — Filippinas — O cabecilha Malvar é proclamado capitão-general. Declara que reorganisará o exercito filippino. 30 Inglaterra — A Inglaterra approva o tratado anglo-americano relativo ao canal do isthmo de Panamá. 81 Portugal —O Diario do Governo publica as reformas de obras publicas. — Tanger — O ministro Torres entrega ao embaixador de Hespanha 30:000 duros como indemnisação pelo sequestro de uns rapazes hespanhoes e 9:000 pesetas para as familias dos captivos da Kabyla de Argila. — Hespanha — O congresso approva um projecto de lei prohibindo a cu- nhagem da prata. — Abyssinia — Detormi- nam-se de fórma satisfatoria os limites do Su- dan inglez com a Abyssmnia. O imperador Menelik auctorisa um syndicato anglo-belga a explorar as minas de ouro nas provincias equa- toriaes do Sudan. Novemsro 1 — Inglaterra — Estabelece-se em Trieston a primeira escola de telegraphia sem fios. — Filippinas — A commissão ameri- cana redige um decreto contra os crimes de traição e sedição. 2 Estados-Unidos — E' encerrada official- mente a exposição de Buffalo, cujos prejuizos sóbem a à EeilhõEs de dollars. — Nicaragua — A Republica do Nicaragua denuncia os tra- tados que concedem aos Estados-Unidos o di- reito de construir um canal interoceanico atra- vez do seu territorio. — Russia — Desenca- deia-se uma violenta tempestade sobre o lago Baikal, causando 170 mortes. 8 Portugal — Realisam-se em todo o paiz, á excepção de Lisboa, as eleições municipaes. — China — Um individuo armado de um c uço tenta assassinar a imperatriz que ia para Huan-Fu, matando sómente um RE creados. — França — Os trabalhores do porto de Brest, reunidos em numero de 3:500, votam uma mo- ção decidindo preconisar a gréve geral como meio de obter satisfação ás suas reclamações. — Belgica — Nasce o principe Leopoldo, filho da princeza Isabel da Belgica. Hespanha — O senado vota uma mensa- gem de gratidão e sympathia ás republicas americanas que se representaram no con- gresso medico. — Turquia — Chega a Mitylene a esquadra franceza sob o commando dh al- mirante Caillard, com ordem de tomar tres portos d'aquella ilha e tomar posse das alfan- degas. 5 Italia — O rei marca o praso de 16 mezes para se dictar a sentença relativa á arbitragem entre a Inglaterra e o Brazil, na questão das fronteiras da Guyana. — Inglaterra — O rei Eduardo vrí assigna a proclamação relativa aos seus novos titulos, que são: «Eduardo vm pela graca de Deus, rei do reino unido da Grã-Bretanha e Irlanda, e dos dominios bri- tannicos d'além dos mares, defensor da fé, e imperador da India». — Estados-Unidos — O sr. Bow é eleito mayor de New-York contra o sr. Sheparo, candidato de Tanamamy Hall
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ta 6 Estados-Unidos — O embaixador inglez notifica ao governo de Inglaterra que acceita a proposta americana ácerca do tratado Cay- ton-Bulwer. — Italia — E' lançado á agua em Napoles o couraçado Benedetto Brime. 7 Allemanha — É ordenado que se estabe- leça a pele saphia sem fios pelo systema Mar- coni a bordo das esquadras allemãs. 8 Turquia — A Turquia dá completa satis- fação á França, accedendo ás reclamações impostas por esta. — Austria — O presidente do conselho de ministros propõe-se iniciar uma politica francamente liberal. — Hespa- nha -— Termina no senado o debate sobre a uestão religiosa levantada pelos prelados, — Inglaterra — O duque de Cornwall é nomea- do principe de Galles e conde de Chester. — Estados ENE O sr. Duke organisa em Cincinatti o trust do tabaco com o capital .de doze milhões de dollars. — China — Um edito imperial nomeia o alto mandarim Yuan-Chi- Kae, ministro plenipotenciario em substitui- ção do vice-rei Li-Hung-Chang, e confere-lhe o titulo de marquez. — Persia — O shah da Persia regeita a offerta da Russia de lhe man- dar mil cossacos para reforçar a guarda do seu palacio. Ú 10 Allemanha — São presos muitos estu- dantes polacos por pertencerem a sociedades secretas. — Hespanha — Verifica se nas pro- vincias a eleição do renovamento de metade das municipalidades. — França — Uns Goo mi- neiros, reunidos na Bolsa do Trabalho em Saint-Etienne, resolvem adiar a greve geral. W Prussia — Dá-se um desmoronamento m'um dos poços da mina de Stassfurt, ficando sepultados no entulho 7o mineiros. ' 12 Russia — O czar nomeia uma commissão presidida pelo ea duque Michelowitch afim de estudar o plano para a completa renova- ção das fortificações de Sebastopol. — Tur- quia — A Sublime Porta dá completa satisfa- ção a quatorze reclamações que lhe tinham sido dirigidas pela Austria. — Grecia — As po- tencias insistem junto do principe Jorge da Grecia para que acceite a renovação do man- dato de governador geral da ilha de Creta que expira no fim do anno corrente. 14 Portugal — É assignado o decreto da reorganisação da Academia de Bellas Artes de Lisboa e do Museu Nacional. — Turquia — O sultão consente na proxima annexação de Creta á Grecia. — Inglaterra — A Ingla- terra notifica que está decidida a abandonar o protectorado das costas de Mosquitos, que ficará desde esta data pertencendo á Nicara- ua. — Estados Unidos —. Constitue-se em ova Orléans uma sociedade de construcções novas, com o capital de cinco milhões de dol- lars. — Africa — As delegações financeiras dos colonos da Argelia approvam o projecto do governo que propõe contractar um empresti- mo de cem milhões de francos. 15 Brazil — 12.º anniversario da proclama- ção da republica dos Estados Unidos do Bra- zil. — Inglaterra — Os mineiros inglezes recu- sam-se a apoiar os seus camaradas francezes para a gréve geral. — Africa — A Russia e a hs Rad ass «é ra ii Ro a Serões França concordam em converter em rival de Aden o porto francez de Tadjurah situado no golpho de Aden. | 16 Portugal —É publicado no Diario do Governo o decreto que reorganisa a força pu- blica nas provincias ultramarinas. — Allema - nha — Encontram-se sem trabalho em Berlim 90:000 operarios. — (Jidade do Cabo — 20:000 descarregadores indigenas declaram-se em eve. 17 Abyssinia— O imperador da Abyssinia péde protecção á Grecia para os abyssinios que se encontram na Europa, e para quarenta dos seus jovens subditos que pretendam estu- dar n'aquelle paiz. — Turquia — O ex-gran-vi sir Said-Pachá é de novo nomeado gran-visir. — Estados Unidos — Lord Pauncefote, em- baixador da Gran-Bretanha recebe ordem de assignar o tratado relativo ao canal isthmico. 18 Portugal — São publicados no Diario do Governo tres decretos que se referem á pas- sagem para o ministerio da guerra dos torpe- dos fixos, á creação das direcções geraes de cavalaria e infantaria e ao campo entrinchei- rado de Lisboa. — Estados Unidos — A immi- gração nos Estados Unidos, desde o primeiro de janeiro até esta data é de 487.918 pessoas, contando os italianos n'este numero pela quarta parte. — Italia — O governo resolve abolir o imposto de consumo sobre o pão e as farinhas e outros artigos de primeira ne- cessidade. — Hespanha — O governo demitte o reitor da universidade de Barcelona, que se manifestou hostilmente ao exercito e á uni- dade da patria. — Estados Unidos — É assi- gnado o tratado isthmico anglo-americano pao sr. Hay, secretario de estado e por lord auncefote embaixador da Gran-Bretanha. — A commissão que estudou os projectos do c nal inter-oceanico, inclina-se, por maiori para que se realise o projecto do-canal de Ni- caragua em vez do de Panamá. — Africa — A assembléa dos delegados financeiros da Arge- lia adia por 30 votos contra 15, o rojecto des- tinado a declarar Argel porto franco. — Co- lumbia — Os liberaes columbianos assignam um armistício com o governo da Columbia. 19 Estados Unidos — A commissão das re- lações externas do senado nomeia presidente Colmar em logar de Davis. — França — Os grévistas da parte norte de Licoin votam a continuação da gréve. — França — A reunião dos mineiros de Denain vota a gréve. 20 Jerusalem — O patriarcha de Jerusalem consulta os embaixadores da Russia, França e Constantinopla ácerca de um accordo ami- gavel para sanar as questões existentes entre os monges do Santo Sepulchro. — Allemanha — O imperador Guilherme II prohibe que as associações de antigos militares realisem ma- nifestações contra Chamberlain, como pro- jectavam e algumas teem feito. — França 200 mineiros de Lens repellem a gréve, ne- gando-se outros a voltar ao trabalho e Soo d'Avion decidem continuar na gréve. — Esta- dos Unidos — Com a assistencia de 200 dele- gados celebra-se a primeira sessão da nova liga nacional Recyproty. O presidente declara
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! Ê Variedades : 13 impossivel dominar as correntes proteccionis- tas. — Italia — Celebram-se em Roma, Milão, Florença e outras cidades, reuniões favora- veis ás leis do divorcio. — Hollanda — O tri- bunal da arbitragem decide declarar-se incom- pstato afim de satisfazer o requerimento dos oers para a sua intervenção na guerra da Africa Austral. — Estados Unidos — Os car- regadores do caminho de ferro de New-York- New Haven-Hartford, declaram-se em gréve seguindo este movimento mais de 5:000 em- pregados. — Hespanha — Os estudantes de S. Thiago de Compostella manifestam-se tu- multuosamente contra os jogos prohibidos, havendo muitos ferimentos. 21 França — O conselho do syndicato do Pas-de-Calais dirige um manifesto aos minei- ros aconselhando-os a que não façam gréve — Em consequencia da paralysação do mercado de vinhos, 8:000 proprietários ruraes do de- partamento dos Baixos Pyreneus negam-se a pagar as contribuições. — Athenas—Em frente da columnata do templo de Jupiter Olympico, realisa-se um comício a que assistem 20:000 essoas, decidindo-se pedir com instancia ao anto Synodo a ex-communhão dos sectarios da traducção da Biblia em grego moderno. Produzem-se varios confiictos, ficando mortos 7 individuos e feridos uns 30, entre os quaes o prefeito de policia. 22 Inglaterra — As auctoridades de Brigh- ton prohibem os meetings liberaes contra a politica do governo na Africa do Sul. — Esta- dos-Unidos—O engenheiro Whitehead, obtem de um syndicado yankee o capital necessario para a construcção de 200 navios aereos. Co- meçarão, na proxima primavera, o serviço en- tre New-York e Otawa e entre Chicago e New-York. — França— A Academia Franceza adjudica o primeiro premio annual de poesia ao sr. Harancourt. — Considera-se completamente abortado o movimento dos mineiros a favor da gréve geral por causa de desaccordos entre os révistas. — O senado approva a proposta de ei que tem por fim fazer estudar os meios de combater a despopulação da França. — Aus- tria— O imperador ameaça dissolver o reichs- rath, se os tcheques se -recusarem a votar o orçamento. — Suecia — A Academia Real de Stokolmo concede o Priaio de 300:000 fran- cos ao poeta francez Mistral, da Provença. — Turquia — O governo turco resolve fortificar os postos de Durago e Valbone, com o receio de qualquer aggressão da Italia ou da Gre- cia. 24 França — Celebrou-se na Sourbonne o jubileu do grande sabio Benthelot. — Inaugu- ra-se no cemiterio de Montmartre o monu- mento em Lorna de Henri Heine. — Portugal — Sae do Tejo em direcção aos estaleiros da casa Orlando em Leorne o couraçado Vasco da Gama para ser transformado. 25 Portugal -O Diario do Governo publica o regulamento do Conservatorio Real de Lis- boa. — Turquia — As potencias oppõem-se á applicação da nova pauta aduaneira por com- por augmento de direitos. — Italia — O tri- unal criminal condemna a prisão por toda a vida o réu Luiz Pranotti, como cumplice de Bresci no assassinio do rei Humberto. 0... THEATROS Primeiras representações de originaes portuguezes e traducções durante o mez de Outubro e Novembro Ourusro — 30 EstTUDANTES E COSTUREIRAS, opereta franceza traduzida pelos srs. Salvador arques e Bruno de Miranda, musica do maestro Filippe Duarte (Theatro da Avenida). 31 — João Das VELHAS, peça original dos srs. Schwalbach e D. João da Camara com musica do maestro Nicolino Milano (Theatro do Principe Real do Porto). Novempro — 5 O MoreTE, peça em 1 acto imitada do hespanhol pelo sr. Carlos Trilho (Theatro do Gymnasio). 7— O Az ve Paus, drama de Pierre Decour- celle traducção dos srs. Maximiliano de Aze- vedo e Salvador Marques (Theatro do Prin- cipe Real). 8 — O microsio no Amor, peca de Brisson traduzida pelo sr. Jayme Bramão (Rua dos Condes). 9—A Sorte! comedia de Alfred Capus traduzida pelo sr. Accacio de Paiva (Theatro de S. João do Porto). 19— O sr. TENENTE, comedia allemã de Von Mozer, traduzida pelo sr. Freitas Branco (Th. do Gymnasio). 24 — As Duas IRÃs, drama, traducção do sr. Eduardo Garrido (Theatro do Principe Real). ce NECROLOGIA Novemepro 1 — BERNARDO GALLIGAN, O cele- bre Monge de Caparica, 49 annos,em Caparica. 1— O mandarim Hsu-CHean-Panç, vice-pre- sidente do Tsong-li-Yamen, na China. 1 — Madame Ausurc, famosa philantropa, com 108 annos, em Londres. 6- O general principe Li-Huno-CHanc, annos, em Pekin, auctor das ultimas negoci ções da paz. 9— O crãÃo visir DA Turquia, em Constan- tinopla. 22 — Permano Gamagzo, chefe do partido li- beral dissidente de Hespanha, em Madrid. 22— O conde HarzreLor WiILDENRURG, an- tigo embaixador da Allemanha em Lon- dres. 22 — ARGYRIADÉS, escriptor socialista, em Paris.
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14 Dada a vulgarisação sempre crescente da arte photographica entre amador Jazem agradavel entretenimento, daremos com a regularidade possivel nesta sec, processos, formulas, machinas ou inventos, que possam ser praticamente utilisaveis. Noticia historica sobre as tres côres Em 1722, as tres córes tinham já servido de base para as impressões das gravuras. Jacques Christophe Le Blon, pintor e gravador, que foi o primeiro a applical-as, nasceu em Franc- fort-sur-Mein, em 1667. Tendo estado em Roma, passou depois a Amsterdan onde, seguindo a doutrina de Newton, resolveu fazer a gravura com a so- breposição das sete côres: o vermelho, o ala- ranjado, o amarello, o verde, o azul, o indigo e a violeta. Mas este methodo necessitava um trabalho muito difflcil para a sua execução; as- sim procurou reduzir o numero das chapas de impressão, e das suas pesquisas nasceu para elle a convicção de poder obter todos os tons e todas as córes com as tres fundamentaes: a vermelha a amarella e a azul. Em seguida di- rigiu-se para Londres onde, em 1722, publicou o seu methodo em brochura intitulado IL Co- LoRITTO Or the harmony of colouring in pain- ting reduced to mechanical precept and infail- lible rules (a harmonia das côres na pintura reduzida a um methodo mechanico einfallivel). No seu perfacio lê-se : Painting can repre- sent all visible objects with three colours: yel- low, red and blue (a pintura póde representar todas os objectos visiveis com tres côres, a vermelha, a amarella e a azul). Esta publica- ção feita n'um estylo desordenado teve pouco exito. Só mais tarde, em 1737, Le Blon se fixou em Paris, onde encontrou numerosos disci- pulos e um publico que se interessou viva- mente nos seus trabalhos. Em 1740, O rei conferiu-lhe um privilegio sob a condição de gravar em aguatinta e de imprimir as suas chapas perante uma Com- missão e de tornar conhecido o seu segredo. Le Blon morreu um anno depois (maio de 1841) na edade de 74 annos. Toda a sua vida foi consagrada á invenção das impressôss a tres córes. As chapas de Le Blon são executadas pela forma negra, muito favoravel ás tintas con- tinuas. Era mestre na escolha das chapas e possuia no mais alto grau o sentimento das tres córes. É Ro Foi sempre superior aos seus discipulos que nunca conseguiram dispensar a quarta chapa, a chapa do negro. O melhor d'entre elles, Jac- ques Gauthier, publicou estampas muito no- taveis em tres e quatro córes. Um contemporaneo de Le Blon, Ch. F. du Fay (1698-1739), publicou nas memorias da Academia, um artigo em que diz: « Viram se em França, quadros feitos por Le Blon, im- pressos sobre papel, executados por meio de tres chapas de cobre gravadas, tendo cada uma, uma da tres córes ; o vermelho, o ama- Serões PHOTOGRAPHIA PRATICA ão, noticia de rello, o azul, do conjuncto das quaes resultava todas as côres e todos os tons da natureza.» (Reproduzido do «Photographisches) Um unico revelador para todos os casos São bem conhecidos osinconvenientes de ter no laboratorio reveladores diversos feitos por processos differentes e cuja applicação varia tambem segundo o caso em que elles devem ser empregados, sendo o principal inconveniente a - accumulação de frascos o que é facil reduzir, seguindo os conselhos de M. Ch. E. Manierre na Camera Notes, que seguudo a sua formula podem reduzir-se todos a um só revelador tanto para o seu Rotas nos negativos como nos diapositivos e ainda nas provas ao brometo, limitando-se ao uso de dois saes, o métol e o hydroquinone. O métol dá um negativo deli- cado e muitas vezes sem intensidade, o hy- droquinone ao contrario dá um negativo duro cujos detalhes não apparecem senão quando as partes mais illuminadas estão completa- mente negras. Estes dois saes reunidos dão em resultado o poder obter-se um cliché suave e de facil impressão. O unico inconveniente consiste em que o métol é um pouco toxico, e portanto atacar a pelle. Para a preparação do banho, dissolve-se em primeiro logar o sulfito de soda anhydro em agua bastante quente. O sulfito de soda que se encontra no com- mercio é geralmente muito alcalino e para o neutralisar torna-se necessario junctar-lhe um pouco de acido citrico. Dissolve-se em seguida o métol, depois o hydroquinone e por ultimo o brometo de potassa. As formulas recommendadas são as seguin- tes: A. — Sulfito de soda anhydro.. 12 gr. IMETOL doi mole imo dão 2» Hydroquinone ..... 4» Acido citrico (até á neutralisa- e dO A FNAS Brometo de potassa. ' 1» (ou 30 gottas de uma solu- ção a 25 0%). Agua, quantidade necessaria para perfazer.............. 500 Ce B. — Carbonato de potassa. 5 gr. Sulfito de soda anhydro o» Agua, até perfazer..... 500 cc, Para revelar os clichés. empreguem-se da: Solução A. 35 ce. » 1 45» Agua...... 35 »
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Variedades Quanta mais agua se addicionar tanto mais suave será o cliché. Para os papeis de brometo, junctar metade de agua. Para os Velox as soluções normaes. Para os diapositivos, junctar-se-ha por cada 100 cc. de revelador: e 15 Para os tons castanhos, brometo de potassa a 25 9h, 125 cc. Para os tons purpura, brometo de potassa a 25 04, 25 cc. Para os tons vermelhos, brometo de potassa a 25 ºjy, 35 ce. e augmentando proporcional- mente o tempo de exposição. se UM PARADOXO clara, uma justeza bem nitida de obser- vação e um juizo recto. A loucura é a visão obscura, a observação apagada, o juizo falso, O homem cujo espirito fosse perfeita- mente são, nunca se deveria enganar; seria irreprehensivel e comtudo seria senão nocivo pelo menos inutil, porque é a loucura com todos os seus terrores que faz mover o mundo das idéas. Ninguem ha que tenha o espirito absolu- tamente normal. O cerebro ou é muito grande ou muito pequeno. As circumvoluções onde se enroscam os pensamentos teem raramente uma conformação perfeita. Os loucos que são encerrados em casas de saude destinguem-se por vezes de nós outros apenas por uma pe- quena dóse de exageração. E' tudo uma ques- tão de graduação, uma simples differença de intensidade de expressão. E ninguem se sup- ponha isento. Vê-se mais facilmente um agreiro no olho do visinho do que uma tranca no proprio. Aquelle que pretende ser absolu- tamente são de espirito, tem uma opinião exaggerada do seu merito e uma doença ce- rebral incuravel. As tinetas são loucuras muito leves, mas são loucuras. Um collecciona borboletas; ou- tro procura avidamente as primeiras edições dos livros; este segue todos os matchs de cri- ckets: aquelle faz politica ou qualquer outra coisa incomprehensivel para muitos. Nenhum confessa a sua mania. Cada qual occulta cui- dadosamente as manifestações d'ella; e vae chasqueando das do proximo; envergonha-se da sua propria tineta, e sem rasão, porque uma mania bem desenvolvida e esmerada- mente cultivada tem todo o direito ao nosso respeito. Quantos pela sua mania se teem salvo da prostração nervosa e das idéas ne- gras. Todo o grande homem tem tido a sua ma- nia. Quando se trata de grandes personagens, consideram-se as taras intellectuaes como marca de genio; quando se trata do vulgo emprega-se então um termo menos polido. As manias são uma valvula de segurança; temperam a tensão do espirito. Este leve de- senvolvimento da loucura impede-o de tomar U: espirito são possue uma visão bem fórma mais violenta. E um virus anodino que serve de vaccina contra uma erupção mais vi- rulenta. O primeiro dever de todo aquelle que tem uma vida muito occupada seria criar-se uma mania e desenvolvel-a com amor; era como quem tirasse patente de vida longa e feliz. Diz-se que a loucura é causada pela ru- ptura de cellulas infinitamente pequenas do cerebro. E” possivel; mas é certo que os pro- gressos se não realisam sem esforço e sem attritos. Póde pois dizer-se com toda a appa- rencia de razão que a loucura, que existe como base de todo o progresso, d'elle proprio provém; porque foi a loucura que produziu os grandes acontecimentos do mundo. Todos os reformadores podem serem con- siderados como atacados d'um começo da terrivel e benefica doença mental. O nome que lhes cabe é de doido; porque é fóra de duvida que nunca um homem são de espirito se arrojaria às empresas tentadas por aquelles reformadores e revolucionarios. Encontrar- se-hia satisfeito com o estado actual. Elle é conservador de sua propria natureza; sômen- te um doido póde pensar em tudo demolir e destruir para novamente edificar. Tem-se considerado o amor como uma es- pecie de loucura; com effeito perturba a ca- beça do homem e coração da mulher. O homem apaixonado deixa de ser senhor das suas faculdades. O amor altera a consciencia, obscurece o discernimento ; e, comtudo, opera os milagres mais extraordinarios e sob o seu influxo teem sido commettidos os actos mais insensatos e de maior alcance ou consequen- cias. O genio é uma loucura. Os grandes homens teem em geral um cerebro anormalmente de- senvolvido. Prodigiosos sobre um determi- nado aspecto, são d'uma mediocridade inau- dita n'outros assumptos. Abundam os exem- plos Recordae porém tudo quanto pela huma- nidade e em favor della os doidos d'amor e de genio teem feito e reconhecereis os bene- ficios da loucura. Toda a grande instituição ostenta o timbre dum homem, e a quantos loucos d'um desin- .
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teresse anormal se devem os progressos rea- lisados para melhorar a sorte da humanidade, e a quantos allucinados divinos se devem os actos de maior heroismo e abnegação. O des- interesse é pois tambem uma fórma rara da loucura, e ao qual o homem são de espirito não se submette facilmente. Sem enthusiasmo nenhum progresso se realiza : foram enthusiastas os reformadores sociaes, os crentes em delirio, os espiritos q CONHECIMENTOS UTEIS Conservação d'uvas para oinverno.— Entre Outros processos este que segue é aquelle que é mais geralmente adoptado para conservar du- rante longos mezes os cachos de uvas, escolhi- dos meticulosamente, limpos de folhas, e de todos os bagos que apresentem macula na pelle, Toma-se um barrilete, cobre-se o fundo d'uma camada de serradura de cortiça bem fina; sobre esta camada dispoem se os primei- ros cachos de forma que se não toquem; dei- ta-se lhes por cima a serradura cuidadosa- mente, afim de prehencher os intresticios, e de os recobrir inteiramente e até certa altura para collocar uma camada de cachos e assim até a bocca da barrica que depois é fechada. Por este meio na Russia, chegam a conservar- se longos mezes magnificos cachos de uvas que no momento de usar basta mergulhar ra- pidamente em agua para lhes tirar todo o pó de cortiça que lhes tenha adherido. iii a 2 E PROBLEMAS Resoluções do numero anterior Nº15— 295 e ag N.º 16— 14cm,556. N.º 17— Xadrez: BRANCOS 1. B para 8 B 2. Xeque e mate. PRETOS 1. Qualquer Num. 48 Dois tanques de forma cubica conteem am- bos 1853 litros de agua. A somma das alturas destes tanques é de 1",7. Quanto mede o lado de cada um d'elles ? Num. 19 Um pae tinha 24 annos quando nasceu seu primeiro filho. Se se multiplicarem as edades que teem actualmente o pae e o filho, encon- tra-se um numero egual a tres vezes o qua- druplo da edade do filho. Qual é a edade actual de cada um d'elles ? Serões , torvados de ideal que dirigiram a impulsão dos movimentos populares. E comtndo o en- thusiasmo é uma aberração momentanea do espirito e do coração, uma entoxicação men- tal, moral e espiritual que perturba o cere-. bro. Assim, paradoxalmente, se póde dizer que a loucura tem um lado bom e util, como todas as grandes enobres acções do espirito humano teem um togne de loucura. Contra as frieiras.— Evitam-se friccionando as mãos, depois de cada lavagem, com a pasta de amendoas misturado com um quinto do seu peso de glycerina. Se desagradarem os corpos gordos, pode utilisar-se para fricções a mis- tura seguinte: —vinagre de vinho branco, 30 gr.; alcool, 15; agua de rosas, 15; sumo de limão, 20: Esta mistura é applicavel tambem contra a vermilhão das mãos. Como preservativo e mesmo como abortivo no principio do mal, applicar tres vezes por dia, em pinceladas so bre a frieira nascente o liquido seguinte:— gly- cerina, 30 gr.; tintura de iodo, 1; tintura de opio, 1. Ainda outra receita mais caseira. Mis- tura de 30 gr. de toucinho ou banha fundida com 2 gr. de creosote. Outra receita mais nova e mais sabia: —tintura de digitalis, 6 gr.; thy- mol cristallisado 28r,40; alcool rectificado, 180; glycerina, 180. Emfim não esquecer tambem o infallivel pó de maio, recolhido no proprio mez. XADREZ Pretos (4 peças) Brancos (10 peças) Os brancos jogam e dão mate em dois lanços dead =) DER o DECIDI EM cm