# T2 - Episódio 5 - Ayahuasca

An episode of [Axé das Plantas - Cura do Corpo e da Alma](https://invisiblenetwork.ai/podcast/1849155267), 5 Sep 2025, 54 min.

Audio: https://anchor.fm/s/f81c3d6c/podcast/play/107861474/https%3A%2F%2Fd3ctxlq1ktw2nl.cloudfront.net%2Fstaging%2F2025-8-5%2Fe6b445b3-3272-5bce-7a0b-2ec4d8a43354.mp3

Chegamos ao quinto e último episódio da 2ª temporada trazendo a ayhuasca, uma bebida de povos indígenas doocidente da Amazônia muito poderosa. É uma mistura de duas plantas, um cipó e ma folha, e que realmente é muito eficaz para lidar com transtornos de humor, para lidar com a ansiedade, depressão, uso problemático de substâncias, com efeitos que são fisiológicos e que são psicológicos, e também efeitos espirituais.

## Transcript

[0:00] Nós temos a floresta como como a mãe, né, uma mãe que que guarda
[0:06] e protege, que ensina. A gente tem a floresta, assim
[0:11] como um espírito também muito sagrado, né?
[0:13] Também a gente não vê. É negócio acima da floresta, né?
[0:20] A gente não desmata floresta, porque sem a floresta a gente
[0:24] não tem nada, né? Sem a floresta você não tem
[0:27] respiração, sem a floresta você não tem Terra.
[0:29] Sem a floresta assim não tem água, né?
[0:31] Sem a floresta você não tem na vida.
[0:40] Essa voz que abre episódio é do pajé emanaxa nenauá, vocês vão
[0:45] conhecerem melhor ao longo deste episódio, porque hoje o axé das
[0:50] plantas vai mergulhar nos mistérios da floresta e dos
[0:53] povos originários. Isso mesmo, Wagner.
[0:56] Vamos falar de uma medicina utilizada há milhares de anos
[1:00] pelos povos indígenas da Amazônia e que tem efeitos
[1:04] terapêuticos e espirituais. É uma bebida feita com a mistura
[1:09] de 2 plantas, o Cipó e uma folha ayahuasca.
[1:14] Esse é um conhecimento ancestral que cada vez mais chega para
[1:17] nós, povos não indígenas, através de religiões como o
[1:21] Santo daime, a união do vegetal e a barquinha.
[1:25] E a ciência Moderna também vem desenvolvendo pesquisas sobre os
[1:29] benefícios da ayahuasca, mas os verdadeiros detentores desse
[1:33] saber são mesmo os povos indígenas.
[1:37] E pra começar, vamos ouvir o pacarin, uma reza sagrada que
[1:42] pajeman Nation de nauá entoou. Pra gente, baixa, baixa, baixa,
[1:52] baixa, baixa, baixa, baixa, baixa, baixa, baixa, baixa,
[1:54] baixa. Olá, eu sou o doutor Victor
[2:52] diorgini Silva. E você está ouvindo o podcast
[2:55] axé das plantas, cura do corpo e da alma, uma produção da
[3:00] Universidade Federal da Bahia em parceria com o podcast viagem
[3:04] gastronômica com o doutor dendê. Este projeto tem o apoio do
[3:09] instituto Serra pileira. Aqui vamos unir os estudos do
[3:14] laboratório de neurofarmacologia.
[3:16] Aos saberes de comunidades tradicionais sobre as Plantas
[3:20] medicinais do Brasil. E para me acompanhar nessa
[3:23] jornada, eu conto com uma pessoa muito especial.
[3:27] Chega mais doutor dendê. Oi, minha gente.
[3:30] É um prazer estar com vocês em mais uma temporada.
[3:33] Eu sou Wagner rocha, do podcast viagem gastronômica com doutor
[3:37] dendê. Ei, Victor, vamos levar vocês
[3:40] numa viagem pelo mundo Encantado das Plantas medicinais e dos
[3:44] povos tradicionais. Porque sem folha não tem sonho,
[3:48] sem folha não tem vida, sem folha não tem nada.
[4:00] Esse é o quinto e último episódio dessa temporada do
[4:03] nosso podcast e hoje vamos falar de 2 plantas, a chacrona e o
[4:09] mariri. Há milhares de anos que os povos
[4:12] indígenas da Amazônia. Misturam essas 2 plantas e
[4:16] preparam uma bebida conhecida como ayahuasca.
[4:19] Essa é uma sabedoria ancestral de vários povos indígenas da
[4:22] Amazônia, não só do Brasil, mas também de outros países, como
[4:26] Peru, Bolívia, Venezuela, Colômbia e Equador.
[4:31] A palavra ayahuasca vem da língua quixua.
[4:35] Aya quer dizer pessoa morta, alma ou espírito.
[4:39] Ayahuasca significa corda ou Cipó, em português.
[4:43] Ayahuasca pode ser traduzida como corda dos mortos lembrem
[4:47] que uma das plantas do preparo da ayahuasca é um Cipó.
[4:51] Para além das comunidades tradicionais, o consumo dessa
[4:54] bebida se popularizou nos anos 1970 com a criação de algumas
[4:58] religiões. Nós conversamos com indígenas de
[5:01] 2 etnias para conhecer mais sobre esse universo, sobre os
[5:04] rituais e os benefícios da ayahuasca.
[5:06] E aqui é importante fazer uma distinção ao longo desse
[5:11] episódio. Vamos falar bastante sobre
[5:14] medicina, especialmente sob a ótica dos povos indígenas.
[5:18] Para eles, medicina não está associada a hospitais, exames ou
[5:22] remédios industrializados. Medicina, para os povos
[5:26] originários, é um conhecimento profundo e espiritual
[5:30] transmitido por gerações que envolve o uso de plantas
[5:33] sagradas, rituais de cura e conexões com forças da natureza.
[5:38] É um cuidado integral que trata não só o corpo físico, mas
[5:42] também o espírito e as emoções. Mas antes de falar das plantas
[5:46] propriamente e dos rituais, eu queria que nossos ouvintes
[5:49] conhecessem o mito de origem da medicina.
[5:52] Une que é como o povo chanenaua chama a ayahuasca.
[5:56] Quem nos conta é pajé emaná. Todas as coisas tem o
[6:03] surgimento, tem uma história, então a medicina.
[6:08] É pra nossa história. Ela surgiu de de um corpo, de um
[6:12] pajé. O nosso mais velho fala, né?
[6:17] E que essa medicina não era desse universo, mas o pajé
[6:21] conseguiu. É viver esse Encanto debaixo da
[6:25] água, de um universo Encantado pelo uma, pelo um espírito da
[6:29] floresta, né? Esse pajé, ele viveu essa
[6:34] experiência e após ele ter vivido essa experiência.
[6:38] Ele queria voltar pra casa dele, mas ele não sabia como voltar.
[6:43] E as pessoas tinham que matar ele, porque lá onde ele tava,
[6:45] porque ele não podia trazer conhecimento pra cima, pra fora.
[6:49] Porque se ele viesse, ele IA trazer conhecimento.
[6:52] Porque essa medicina também é sabedoria.
[6:54] Ele conseguiu, ele conseguiu fugir desse lugar.
[7:04] Bonito esse mito de origem do povo chanenaua, né?
[7:07] Victor, um pajé que viveu no universo Encantado, foi
[7:11] perseguido e engolido por uma cobra e mesmo assim conseguiu
[7:16] trazer pra Terra a medicina da euasca e compartilhar com seu
[7:20] povo. É muita sabedoria, viu?
[7:23] Nós conversamos com pajemaná numa noite tranquila na fundação
[7:27] Terra mirim, uma comunidade ecológica e espiritual
[7:30] localizada em Simões Filho. Município da região
[7:33] metropolitana de Salvador, o Terra mirim é uma reserva da
[7:38] Biosfera da mata Atlântica. Por isso que vocês estão ouvindo
[7:41] esses Sons da natureza ao fundo. O povo chanenauá é do estado do
[7:45] Acre e vive hoje no município de Feijó.
[7:49] A palavra chanenauá quer dizer povo do pássaro azul.
[7:53] A língua chanenauá é da família pano e é falada sobre tudo pelos
[7:58] mais velhos. Ela chegou a ser proibida na
[8:01] época em que os indígenas trabalharam nos seringás, no
[8:04] começo do século 20, mas hoje muitos jovens falam sua língua
[8:09] de origem para manter as tradições de seu povo.
[8:12] A história do chanenauá é parecida com a de outros povos
[8:15] indígenas, que precisam resistir para manter seu território e sua
[8:19] cultura. A gente veio migrando de um
[8:24] lugar para outro, de um lugar para outro, até poder também é
[8:28] ter a nossa Terra, né? E a gente tem uma longa
[8:31] história, né? Por tarde, tudo isso pelos
[8:34] massacres, pelas correria que as pessoas falavam, né?
[8:37] E a gente conseguiu resistir. E hoje a gente 1980, a gente
[8:43] conseguiu desmarcar nossa Terra indígena.
[8:46] Então, após 525 anos nos massacres, agora aqui a gente
[8:52] vem tendo. A ao poder da voz de falar sobre
[8:59] as medicina, de falar sobre os conhecimentos pajéricos, né?
[9:06] Nos últimos 4 anos, pajemaná tem viajado Brasil e outros países,
[9:11] como Estados Unidos, Costa Rica e Peru, levando a medicina une,
[9:17] ou seja, ayahuasca, para outros lugares.
[9:20] Assim como pajemaná chanenauá. A jovem chankhani runikuin
[9:25] também viaja pelo Brasil e por outros países levando a medicina
[9:29] indígena. O significado da palavra
[9:31] runikuin é povo verdadeiro. Os runikuin são do estado do
[9:36] Acre e utilizam a yuasca há milhares de anos.
[9:44] É aí. Eu acho que ela tem toda a
[9:45] espiritualidade, né? Né?
[9:47] Ali também a gente vê os nossos antepassados, né, que são o
[9:50] espírito. Mesmo do Cipó, o espírito também
[9:53] da chacrona, os espíritos também, que são nossos
[9:56] antepassados, nossos avós, que estão ali também trabalhando
[9:59] junto com a gente, né? Tem tudo isso, né?
[10:02] Espiritualidade às vezes você vê o espírito também dos animais,
[10:06] né, se conecta com a floresta, com a Terra, com os animais, né,
[10:11] como as pessoas dizem, né, com a com a Formiga, com uma cobra,
[10:14] né, com com um pássaro, tudo tem a conexão também dentro da da
[10:19] ioasca. Essa filosofia indígena é muito
[10:25] linda mesmo. A ideia de renovação, né?
[10:29] Sean koni tem 22 anos e consagra ayahuasca desde os 6.
[10:34] Para o povo huni kwin, ayahuasca é chamada de nishipane.
[10:38] Eles consagram essa medicina 2 ou 3 vezes por mês em momentos
[10:43] ritualísticos e coletivos. Para os huni kwin, ayahuasca não
[10:47] é usada como remédio para doenças específicas.
[10:50] Quando alguém está doente, eles utilizam outras Plantas
[10:53] medicinais da floresta para fazer chás, banhos e preparados
[10:58] ayahuasca para eles é uma medicina sagrada e.
[11:01] Espiritual? Verdade.
[11:03] Wagner pajemaná deixou isso bem claro pra gente.
[11:08] Desde criança, ele vinha aprendendo com os pajés mais
[11:11] velhos, as práticas ancestrais e a cura com as medicinas da
[11:15] floresta. E da mesma forma que nas
[11:18] comunidades de terreiro, os povos indígenas não separam a
[11:22] cura do corpo, a cura da alma e a cura do espírito.
[11:26] Tudo está interligado. Tem gente buscando vocês para
[11:38] tratar problemas mentais como insônia, depressão, transtorno
[11:43] de ansiedade. É.
[11:47] Tem várias pessoas, né? Muitas pessoas procurando a
[11:52] gente e a gente consegue ajudar a solucionar aquela aquele que é
[11:56] do nosso alcance, né? A gente sabe quando é uma doença
[12:00] que é do médico. A gente sabe quando é a doença
[12:02] que não é do médico, né? A gente, doença que nasce na
[12:07] carne, que vem da carne, o médico consegue ajudar.
[12:14] Doença que vem do espírito, que vem do vento.
[12:20] Médico nenhum consegue ajudar porque ele não estudou, ele
[12:25] estudou cientificamente, ele não estudou espiritualmente.
[12:28] São 2 coisas diferentes. Então é o que é espiritualmente.
[12:38] Depressão em sonha mal encosto. Mal olhado, pesadelo, tudo o que
[12:49] você sente, você só sente, mas você não pega, não dói.
[12:57] Você tá saudável essa matéria. O que tá doente é o seu
[13:01] espírito, o seu psicológico, o psicológico é o que é o
[13:06] espírito. Então os trabalhos dos pajerem,
[13:09] ele vem pra poder somar junto com os doutores, com os médicos.
[13:14] Porque ele não sabe de tudo, a natureza tem muitas coisas que
[13:18] eles precisam ouvir, precisa aprender para que ele possa
[13:22] ajudar o ser humano ou a sociedade.
[13:31] Já há algum tempo, pesquisadores têm estudado ayahuasca para
[13:35] conhecer os efeitos terapêuticos de seus compostos.
[13:39] Nós conversamos com o Dr. Cidata Ribeiro.
[13:42] Neurocientista, biólogo, escritor e um dos fundadores do
[13:46] instituto do cérebro da Universidade Federal do Rio
[13:49] Grande do Norte, onde ele desenvolve pesquisas sobre sono,
[13:54] memória e psicodélicos. Aí eu acho que é uma bebida
[14:02] muito poderosa, é uma medicina realmente muito eficaz para
[14:07] lidar com transtorno de humor. Para lidar com ansiedade,
[14:10] depressão, uso problemático de substâncias, ela é poderosa, é
[14:15] EEE, são. E a gente tá falando aqui de
[14:19] efeitos que são fisiológicos e que são psicológicos e para quem
[14:22] tem essa interpretação, essa metafísica também, efeitos
[14:26] espirituais. A elasca é uma bebida de povos
[14:30] indígenas, da do ocidente, da Amazônia, né?
[14:33] Que em geral, a receita envolve essas 2 plantas principais, né?
[14:37] É uma que contém ODMTONNDMT, que é uma molécula semelhante a
[14:43] serotonina a uma molécula de efeito psicodélico poderosa,
[14:46] extremamente terapêutica essa. Planta citada por sidarta
[14:55] Ribeiro, que possui ODMT é a chacrona, também conhecida como
[15:00] chacruna, kauá rainha ou folha da rainha.
[15:05] O seu nome científico é psicotria viridis, uma espécie
[15:09] tropical da Amazônia e da América central que cresce em
[15:13] florestas planas e úmidas até a região central da América do sul
[15:18] apesar de também ocorrer naturalmente na região
[15:21] amazônica, ao norte do Brasil, Colômbia e Equador, ela é mais
[15:26] comum na Amazônia peruana e boliviana.
[15:29] Por outro lado, a chacrona pode ser encontrada em cultivos na
[15:33] mata Atlântica. No sudeste do Brasil e até aqui
[15:37] no nordeste, que é raro de se ver, mas encontramos com
[15:41] surpresa no terreiro de tatamutaime, lembra Vagner.
[15:46] Lembro Vitor quando mostramos as fotos das plantas da euasca para
[15:51] a tatamutaime. Ele nos surpreendeu dizendo que
[15:54] havia as 2 no seu terreiro e logo levantou para nos mostrar.
[15:58] E se você quiser saber mais sobre tatamutaimet, escute os
[16:01] outros episódios desta temporada.
[16:04] Mas continue, Vítor. Pois é, vimos pessoalmente o
[16:08] quanto ela é bonita, um arbusto que pode crescer em média 3 m de
[16:12] altura de 12 a 15 cm de comprimento e 5 cm de largura.
[16:19] A psicotria virides pertence à família botânica rubiácia, uma
[16:24] imensa família com 13000 membros.
[16:26] Por isso ocupa o quarto lugar em diversidade entre as
[16:30] angiospermas. Aquelas que possuem sementes
[16:34] guardadas em frutos e também possuem flores.
[16:38] Um dos membros mais conhecidos da família Rubiácea é a confia
[16:41] arábica, usada para preparar uma bebida com ação psicoativa
[16:46] bastante consumida em todo o mundo, o café.
[16:51] Este mesmo que você tá pensando rico no alcaloide cafeína?
[16:55] Hum. Eu lembrei agora de episódio do
[16:58] viagem gastronômica condutor dendê.
[17:00] Entrevistamos um barista que falou para a gente sobre as
[17:03] variedades de espécies de café e dentre elas, o café arábica,
[17:08] natural do continente africano. Mas voltemos a psicotria veredes
[17:12] Vitor. Tô dando umas voltas para não
[17:15] acabar essa temporada. Bem, vamos lá.
[17:19] As folhas da chacrona são as partes da planta mais estudadas
[17:23] por concentrarem o nn timetiltriptamina, mais
[17:28] conhecido como dmt. Principal composto psicoativo da
[17:32] planta, o dmt corresponde a uma alcaloide do grupo indol.
[17:38] Ele está presente em mais de 50 espécies de plantas e também é
[17:43] produzido naturalmente pelo corpo humano e por outros
[17:46] animais. Não se sabe exatamente porque
[17:49] ele é encontrado em nosso cérebro, mas já está claro que
[17:53] ele atua em receptores de serotonina, um neurotransmissor
[17:57] que desempenha diversas funções cruciais.
[18:00] Na regulação do humor, sono, apetite, memória e temperatura
[18:05] corporal, bastante conhecido como hormônio da Felicidade.
[18:10] Além do dmt, as folhas também tem outras substâncias como
[18:15] tríterpenos esteroides, ésteres de glicerol, hidrocarbonetos de
[18:20] cadeia longa, aldeído, ácidos graxos de cadeia longa.
[18:25] Ecter metil e outro alcaloide endólico chamado n
[18:29] metiltriptamina. Aff, Victor, só entendi até a
[18:33] parte do psicoativo, viu? Mas já deu pra sacar que essa é
[18:37] uma planta muito poderosa. Vamos seguir com sidarta e a
[18:41] outra planta com que se prepara ayahuasca, o mariri.
[18:50] Uma outra planta, que é o Cipó, é que contém é.
[18:56] Várias substâncias, na verdade, não uma apenas a mina, a malina
[19:00] e outras que são e que tem várias funções também, mas a
[19:03] principal é a de proteger ODMT da degradação.
[19:07] Elas são inibidoras de uma enzima que degrada ODMT.
[19:11] Então, quando você toma essas 2 plantas juntas, ODMT pode agir
[19:14] por muito mais tempo. Agora, essas outras substâncias
[19:18] que protegem ODMT elas também tem seus próprios efeitos.
[19:22] Alguns deles é até semelhantes aos efeitos dos antidepressivos
[19:25] tipo prozade. O mariri é um Cipó que também é
[19:32] conhecido como jagobi Liana iage, o caap.
[19:37] O nome científico do Cipó, mariri, é banestereop, escape
[19:41] originário da América Latina da região amazônica do Brasil,
[19:46] Peru, Colômbia e Bolívia e uma curiosidade, Wagner.
[19:51] O mariri é da mesma família botânica da acerola.
[19:55] Ah, eu adoro saber mais sobre as plantas usadas no preparo de
[19:59] bebidas por aqui. A primeira é da família do café
[20:02] e a segunda é da mesma família da acerola que eu adoro o suco.
[20:07] Mas continue, Victor, que o doutor dendê está adorando sua
[20:10] explicação. Os principais componentes
[20:13] químicos do Cipó mariri são também alcalóides endólicos do
[20:17] tipo beta carbolinas. Dentre eles, armina,
[20:21] tetraídoarmina e armalina, presentes em diversas partes da
[20:26] planta e que exercem a função de inibidoras da enzima
[20:30] amonominoxidasear, que degradaria o dmt no trato
[20:35] gastrointestinal. Com a inibição dessa enzima, as
[20:39] beta carbolinas permitem que o dmt chegue ao sangue e depois ao
[20:43] cérebro. É tudo isso aí junto.
[20:46] Que ajuda a evitar a degradação rápida da substância psicoativa
[20:50] que vem da chacrona. No preparo da yuasca,
[20:53] praticamente todas as partes podem ser utilizadas, mas as
[20:58] mais importantes são as cascas do caule, ramos e galhos.
[21:04] Eu fico aqui só imaginando como foi que os nossos ancestrais
[21:08] indígenas chegaram a conclusão que unindo essas 2 plantas
[21:12] dentre a imensa diversidade que existe na Amazônia.
[21:16] Justamente essas 2 gerariam efeito sinérgico.
[21:20] Só pode ter sido experimentação. E isso é ciência, minha gente.
[21:25] Vamos aproveitar e saber como é feito o preparo da ayahuasca.
[21:29] Quem conta para gente é chanconier runikwin.
[21:36] A gente escolhe o Cipó e colhe AA chacrona, né?
[21:41] E no nosso huntchakunen é runi e kauá.
[21:45] Então a gente colhe, né, faz toda a colheita, depois vai
[21:50] lavar, né, lavar a chacrona quanto o Cipó, né, a gente faz
[21:55] toda a lavagem, depois a gente vai preparar para bater, né?
[21:59] Bate ela todinha, bagaça ela todinha, né, depois que bagaçou,
[22:03] junta ali e coloca dentro de uma panela para fazer a fervura, né?
[22:07] Coloca o Cipó e depois coloca a chacrona, né?
[22:11] Então a gente coloca tudo. E coloca no fogo, coloca água e
[22:15] ela vai começar a ferver, né? Ela vai ter apuração, né?
[22:20] Depois de um tempo, né. A gente espera ali um pouquinho
[22:24] e vamos tirar do fogo, né? E colocar em outro vaso.
[22:28] Então a gente coloca mais, né? Mais mais água também pra poder
[22:32] ferver depois que ele tiver a fervura bem, bem apurado.
[22:38] Esse primeiro que a gente tirou, a gente coloca novamente pra
[22:41] poder ela trazer toda a apuração.
[22:46] Tudo isso é feito coletivamente. Victor, as pessoas que
[22:50] participam do ritual ajudam a bater o mariri.
[22:54] Chegam a ficar com calo na mão de tanto bater.
[22:56] Mas vamos falar das possibilidades da yuasca no
[22:59] tratamento de doenças como depressão e ansiedade.
[23:03] Victor, como anda esses estudos? Wagner, pesquisas com ratos de
[23:08] laboratório mostram que o dmt, da chacrona, tem efeitos
[23:12] parecidos com o de antidepressivos.
[23:15] Ainda ajuda a reduzir o medo, melhora a memória e, além disso,
[23:20] faz o cérebro criar novos neurônios.
[23:23] Ele também torna o cérebro mais flexível e capaz de fazer novas
[23:28] conexões. É o que a gente chama de
[23:30] neuroplasticidade. Estudos mostram também que o dmt
[23:36] apresenta potencial para proteger o cérebro em casos de
[23:39] AVC e Alzheimer. Aqui no Brasil, pesquisadores da
[23:44] Universidade Federal do Rio Grande do Norte fizeram um
[23:47] estudo com saguis expostos a estresse crônico por isolamento
[23:51] social, que receberam uma dose da ayahuasca com compostos da
[23:56] chacrona e do Cipó mariri. Eles descobriram que os
[24:00] neurônios de uma área do cérebro importante para o controle
[24:04] motor, regulação do humor e da motivação se mantiveram
[24:08] preservados. Isso indica que ayahuasca pode
[24:13] ajudar a proteger o cérebro quanto os efeitos negativos do
[24:16] estresse. Um estudo desenvolvido durante o
[24:28] doutoramento de Pedro laurea em farmácia na ufba foi publicado
[24:32] na Journal of etnofarmacola. Por pesquisadores daqui de
[24:37] Salvador e de João Pessoa, dentre eles 2 ouvintes assíduas
[24:42] do nosso podcast, as professoras Cristiane Vila real e Rejane
[24:47] Santana. Nessa pesquisa foi demonstrado
[24:51] em camundongos com dor neuropática induzida, que a
[24:54] yuasca, administrada por via oral, promoveu efeitos
[24:58] antinoceptivos contra a dor aguda e crônica.
[25:02] Os pesquisadores realizaram testes com antagonistas
[25:04] farmacológicos e revelaram que o efeito contra a dor está
[25:08] relacionado não só a ação dos compostos da yuasca e receptores
[25:13] de serotonina, mas também de outro neurotransmissor, o gaba.
[25:18] Eu morro de orgulho da nossa universidade.
[25:21] Também existem testes clínicos em humanos pesquisadores da
[25:26] universidade do Novo México, nos Estados Unidos.
[25:29] Investigaram os efeitos do dmt, administrado na veia em
[25:34] diferentes dosagens. As doses mais altas com efeito
[25:38] alucinógeno geraram experiências visuais intensas e de rápida
[25:42] movimentação. Os participantes relataram
[25:46] também uma sensação de onda energética e emoções intensas,
[25:51] como medo, ansiedade, euforia ou tranquilidade.
[25:56] Que podiam ocorrer alternadamente ou ao mesmo
[25:59] tempo, além de percepções de uma realidade alterada.
[26:03] Já as doses mais baixas não causaram alucinações.
[26:07] A dose de 0,1 miligrama por quilo provocou um estado
[26:11] disfórico acentuado. Já a dose de 0,051, concentração
[26:14] menor, gerou efeitos leves de relaxamento e euforia.
[26:22] Estudos realizados por pesquisadores do instituto do
[26:25] cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o mesmo
[26:29] onde atua Dr. Cidarta Ribeiro, dentre eles a doutora Fernanda
[26:34] Palhano e o doutor dráulio Araújo, demonstraram o efeito
[26:38] antidepressivo de uma única dose da yuasca em pacientes com
[26:42] depressão refratária, ou seja, quando o paciente não responde a
[26:47] tratamentos com antidepressivos convencionais.
[26:50] Neste estudo, os pacientes receberam doses de ayahuasca
[26:54] relativas ao consumo de 0,36 miligramas por quilo tudmt.
[27:01] Victor explica para os nossos ouvintes, por favor, que é um
[27:04] estado disfórico. É o contrário do estado eufórico
[27:08] Wagner, um estado emocional de desconforto ou insatisfação com
[27:12] a própria vida. Pode se manifestar como
[27:15] tristeza, irritabilidade, ansiedade ou mesmo um sentimento
[27:20] geral de mal estar. Pois é, Victor, eu já ouvi muita
[27:24] gente dizer que, quando bebe ayahuasca, tem essas
[27:27] experiências visuais bem Fortes. Dizem que é uma jornada
[27:30] profunda, com sensações difíceis de explicar.
[27:34] Parece uma espécie de mergulho em outra realidade, né?
[27:37] Mas continue. Outras pesquisas em humanos,
[27:41] usando aparelhos que medem a atividade do cérebro, mostram
[27:44] que ayahuasca diminui a atividade cerebral em áreas
[27:48] ligadas às emoções e a memória. Isso quer dizer que certas
[27:52] partes do sistema nervoso que normalmente ficam ativadas
[27:57] quando a gente sente ou lembra de algo ficaram mais tranquilas.
[28:01] Outro estudo com imagens do cérebro mostrou que, depois de
[28:05] tomar yuasca, houve aumento do fluxo de sangue.
[28:08] Em regiões responsáveis pela perceção do corpo, por emoções e
[28:13] pelos sentimentos mais profundos, isso indica que a
[28:17] bebida parece acender áreas que nos fazem sentir mais conectados
[28:22] com nós mesmos. Muitas possibilidades, Hein,
[28:25] Victor? Vamos ouvir mais um pouquinho da
[28:27] entrevista de sidarta Ribeiro. Existe a possibilidade do DMT se
[28:37] tornar um canabidiol? EE ser aplicado Na Na terapia,
[28:42] na clínica, isoladamente ou em associação com outro composto
[28:48] com uma medicação, ou é algo que deve se pensar como uma terapia
[28:52] da yauasca, da aplicação da yawasca com bebida terapêutica?
[28:57] Acho que são as 2 coisas são já já são realidade.
[29:01] Né? Porque existem as as medicinas
[29:03] indígenas, com produtos naturais de origem vegetal ou ou animais
[29:08] ou fungos. E existe a química da ciência
[29:11] acadêmica universitária, química, que faz síntese química
[29:14] desde o início do século 20, está sintetizando substâncias
[29:17] psicodélicas. Então hoje tem gente, por
[29:19] exemplo, o dráulio. O professor dráulio Araújo, que
[29:21] estudou ayahuasca para depressão, mostrou no ensaio que
[29:24] foi o primeiro ensaio clínico bem controlado para uso de
[29:28] psicodélico em depressão. Foi feito no Brasil pela
[29:30] Fernanda Palhano no doutorado dela, com orientação do dráulio
[29:33] e toda a equipe é um artigo de muito impacto, que continua
[29:36] tendo muito impacto todo ano tem muitas citações.
[29:39] Muito importante esse artigo na sacológico Medicine é, mas ele
[29:44] hoje em dia está focando do DMT inalado.
[29:47] É no ambiente hospitalar? É.
[29:49] Então hoje em dia eu vejo que tem esse movimento muito claro
[29:52] de falar, não vamos fazer a terapêutica da molécula.
[29:55] Nesse caso específico, não querem o efeito comitivo, a
[29:57] mistura de moléculas, querem um efeito pontual, 15 minutos, a
[30:01] pessoa entra e sai em em 2 horas, ela ela tem todo todo o
[30:05] tratamento ali. Agora, é claro, isso também
[30:07] envolve outras aspectos do tratamento, que são a terapia,
[30:11] psicoterapia. É muito perigoso fazer.
[30:15] Experiências psicodélicas, sem as contenções adequadas, pessoas
[30:21] adequadas acompanhando com integração adequada e, de
[30:24] preferência, terapia. Antes e depois os riscos dos
[30:27] psicodélicos. Eles, em geral, eles não são
[30:29] fisiológicos. Não é que a pessoa pode ter 11
[30:32] overdose porque o coração acelerou demais ou teve 111?
[30:37] Desfibrilou alguma coisa do gênero?
[30:39] Não, isso não, não vai acontecer.
[30:41] Mas a pessoa pode entrar em pânico.
[30:43] Tem uma bad trip EE, se não tiver assistida fazer algum tipo
[30:46] de de atividade perigosa para si mesmo, pode?
[30:50] Claro que pode. Por isso que ela tem que ser
[30:52] assistida, tem que ser treinada. Esse é um cuidado indispensável
[31:01] para quem vai beber ayahuasca é preciso, caso seja necessário.
[31:06] Ter sempre a mediação de quem conhece os efeitos da bebida
[31:10] para ajudar para fins terapêuticos.
[31:13] A yuasca é contraindicada para quem tem bipolaridade,
[31:18] esquizofrenia, transtorno de personalidade e histórico de
[31:22] surtos psicóticos ou ansiedade Extrema, como síndrome do
[31:26] pânico. Também não é recomendada para
[31:29] pessoas com doenças cardíacas, hipertensão ou outras condições
[31:34] patológicas. Que possam ser agravadas pelos
[31:37] efeitos intensos da bebida. Conversando com champanhe, ela
[31:42] disse que na medicina indígena runny e Queen não existe
[31:45] restrição para beber ayahuasca, porque, como ayahuasca é
[31:48] considerado uma planta de poder, um espírito de cura e sabedoria,
[31:53] se uso é ritualístico e orientado por pajés experientes.
[31:57] Na tradição deles, o foco não está em diagnósticos clínicos,
[32:01] como na medicina ocidental. Mas sim na relação entre o
[32:04] indivíduo, a comunidade e os espíritos da floresta.
[32:08] Eles acreditam que a ayahuasca atua diretamente na alma e que
[32:12] os desequilíbrios físicos, mentais ou espirituais podem ser
[32:16] tratados por meio da conexão com os conhecimentos ancestrais e a
[32:20] força da natureza. Vamos ouvir chanconi.
[32:26] Tem alguma restrição é do da pra algum grupo específico no
[32:30] sentido de. Alguém que tem alguma doença
[32:32] preexistente, alguma questão de saúde mental, aí não é
[32:37] recomendada. Tem alguma questão?
[32:39] A mulher que está grávida? A gestante tem algum às.
[32:42] Vezes a pessoa tem um problema, né?
[32:43] De às vezes tem um problema mental, que é muita gente.
[32:47] Não dá uma quantidade grande, né?
[32:48] A gente dá um fio de luz, né, pra pra pessoa poder se
[32:51] conectar. Né?
[32:52] Porque a medicina também. Ela mexe muito com nossos
[32:55] pensamentos, né? Se a gente não está ali atento
[32:58] com nossos pensamentos, ela vai mexendo, né?
[33:00] Os nossos pensamentos. Então a gente tem muito cuidado
[33:02] com isso. Bonito isso que chanconi diz,
[33:09] né? Fios de luz?
[33:11] Ela contou pra gente que não tem restrição para grávidas nem para
[33:15] crianças. Beberam elasca.
[33:17] É só mesmo dar uma dose menor, como ela mesma diz, um fio de
[33:21] luz. Ah, ela também falou para evitar
[33:24] comer carne vermelha e pajemaná orientou que não se deve ingerir
[33:28] álcool nem doce antes da cerimônia, mas que não tem
[33:32] nenhuma restrição. Para usar medicina, é preciso só
[33:36] ter cuidado com a dosagem, mas que a bebida é para todo mundo.
[33:45] A medicina unir ela não é só, é para pessoas doentes, não é só
[33:50] para as pessoas que estão precisando de cura.
[33:52] É para todas, é para todas as pessoas, é para todas as pessoas
[33:56] que estão buscando se conectar com seu ser, com seu espírito,
[34:04] com a natureza. A medicina é é o espírito da
[34:10] floresta, né? Se você tiver algo pra curar,
[34:14] ela vai curar. Joga pra fora, né?
[34:17] Certa enfermidade, joga pra fora.
[34:20] Se não tiver nada para curar, ela vai te ensinar.
[34:25] Ela vai te vai te mostrar, coisas que tá referindo o seu
[34:30] dia a dia, coisas que tá você tá deixando para trás, coisas que
[34:33] você tem que rever, coisas que sabe machuca você.
[34:37] Ou seja, tem que quando você chega para aplicar medicina em
[34:41] alguém, você não sabe o que ela está precisando ou se você não
[34:45] sabe o que tem por trás dela, então a medicina traz tudo isso.
[34:50] E na hora que a medicina bate, manifesta, que tem algo para
[34:53] limpar, ela se manifesta e mostra mesmo que tem dentro, né?
[34:56] Então já vi, passei por muitas pessoas que achava que não IA
[35:03] voltar mais, né? Força tão forte e só o coração
[35:07] batendo e pessoas desesperadas. Tranquilo, né?
[35:12] E a pessoa volta, vai e volta. Já vi muita pessoa também que.
[35:19] Toma medicina também por curiosidade, às vezes também
[35:23] passa por uma dificuldade também muito profundo e às vezes,
[35:28] muitas vezes ela não consegue se controlar.
[35:30] Aí você tem que ter muita paciência para conversar, para
[35:33] dialogar, para poder ter cabo, né?
[35:39] É Wagner. São visões de mundo e práticas
[35:42] medicinais diferentes. E que precisam ser respeitadas.
[35:47] Na medicina ocidental, os critérios são baseados em
[35:50] evidências científicas e protocolos de segurança, como os
[35:54] efeitos da ayahuasca podem ser intensos e imprevisíveis,
[35:57] especialmente em pessoas com transtornos psiquiátricos ou
[36:02] condições cardíacas. Há contraindicações para quem
[36:06] usa medicamentos como antidepressivos, estabilizadores
[36:10] de humor e psicoestimulantes, como a fluoxetina.
[36:14] Sertralina, lítio e a ritalina. Já a medicina indígena confia na
[36:20] força do ritual e na sabedoria dos ancestrais para guiar o
[36:24] processo de cura. É uma medicina que exige
[36:28] respeito, preparo e entrega, e os povos originários têm
[36:33] desenvolvido formas eficazes de garantir isso dentro de suas
[36:38] tradições. Wagner como a gente falou lá no
[36:48] começo, a ayahuasca ultrapassou Fronteiras dos territórios
[36:53] indígenas para ser utilizada em novas religiões, inclusive com
[36:58] seguidores até em outros países. As mais conhecidas são o Santo
[37:03] daime, a união do vegetal e a barquinha.
[37:06] Isso mesmo, Victor. São as chamadas religiões
[37:09] ayahuasqueiras, que usam a bebida como Sacramento principal
[37:13] em seus rituais. Normalmente são religiões
[37:16] formadas por pessoas não indígenas e que misturam
[37:19] elementos de tradições cristãs, afro, brasileiras e indígenas.
[37:23] O Santo daime foi fundado no Acre, no começo do século xx,
[37:28] por Raimundo Irineu Serra, neto de escravizados que era do
[37:32] Maranhão e ficou conhecido como mestre Irineu.
[37:35] Contam que ele recebeu uma revelação que daria origem a uma
[37:38] religião que misturava tradições católicas, espíritas,
[37:42] esotéricas, cabocas e indígenas. Essa doutrina, centrada no uso
[37:48] do chá da euasca, foi batizada por ele como Santo daime.
[37:52] Muitos seringueiros nordestinos se juntaram à igreja do Santo
[37:55] daime de mestre Irineu. Nos rituais, as pessoas cantam,
[37:59] dançam e têm mirações. Que são visões espirituais que
[38:03] levam autoconhecimento e a cura. Nos anos seguintes, esse
[38:07] movimento se espalhou por todo o país.
[38:10] A união do vegetal, o dever foi fundada por José Gabriel Costa,
[38:15] conhecido como mestre Gabriel. Ela é doutrina cristã e
[38:19] reencarnacionista com a influência do espiritismo
[38:21] kardecista ayahuasca, chamada de vegetal, é usada em sessões como
[38:26] instrumento de elevação e autoconhecimento na união do
[38:30] vegetal. Os participantes buscam
[38:32] compreender o propósito da existência ouvindo os
[38:35] ensinamentos dados nas sessões. Já a barquinha é a mais eclética
[38:41] das 3 religiões devasqueiras mais conhecidas.
[38:44] Ela Foi fundada por Daniel Pereira de Matos e mistura
[38:47] catolicismo popular, umbanda, espiritismo e xamanismo.
[38:52] Os rituais da barquinha tem um simbolismo muito forte e
[38:55] práticas de cura espiritual através da fé.
[38:58] A imagem da barca deixada por frei Daniel simboliza a viagem
[39:03] de cada um pela vida, por isso seus adeptos são tidos como
[39:07] marinheiros do mar sagrado. Na conversa com sidarta Ribeiro,
[39:11] ele falou sobre o perfil das pessoas que vinha utilizando
[39:14] ayahuasca nas cidades fora das comunidades indígenas.
[39:24] Hoje, o acesso a terapêutica jayahuasca.
[39:28] Fora das comunidades tradicionais, ele é sobretudo um
[39:32] acesso de classe média a um custo elevado.
[39:36] A gente está falando de retiros em que as pessoas vão
[39:40] desembolsar 300 BRL 500 BRL 1000 BRL 3000 BRL para tomar a
[39:44] euasca. Agora, as igrejas fazem dão
[39:48] acesso. As igrejas dão acesso, inclusive
[39:50] de graça, mas aí tem que entrar no sistema de crença da igreja.
[39:54] Que às vezes, né, pra pra muitas pessoas é.
[39:56] É patriarcal demais? É, tem.
[39:59] Enfim, tem uma série de idiossincrasias.
[40:01] Ali, a relação dos povos indígenas com as religiões
[40:09] ayahuasqueiras ainda é motivo para debates e reflexões.
[40:13] Várias lideranças indígenas estão preocupadas com o que
[40:16] consideram apropriação cultural para essas lideranças.
[40:21] O uso da euasca por grupos religiosos urbanos
[40:24] descontextualiza a prática espiritual ancestral e pode
[40:28] acabar transformando a bebida em mercadoria.
[40:31] Por outro lado, vozes como a de chanconi renikin reconhecem
[40:35] aspectos positivos desse compartilhamento, como, por
[40:38] exemplo, que a medicina alcance mais pessoas.
[40:42] Mas chanconi faz um alerta, é preciso preservar o cuidado com
[40:46] as plantas, os rituais e saberes dessa medicina sagrada.
[40:55] Muitas pessoas estão tendo acesso a essa medicina, né, mas
[40:59] muitas né, estão trabalhando. É pra pra levar a cura, né?
[41:03] Pro mundo, né, pro planeta, pra humanidade.
[41:07] Mas muitas não estão levando a medicina, né, como uma medicina
[41:12] sagrada, como pra levar uma a cura também para as irmandade.
[41:16] Muitos também estão levando, estão consagrando por consagrar,
[41:20] né? Não sabe de onde está vindo, né?
[41:23] Não sabe como que é preparado, né?
[41:26] Muitos estão levando só pensando no dinheiro, né?
[41:30] Então a gente tem muito cuidado com isso também, né?
[41:33] É na no nossos rituais, né? Na nossa condução, a gente
[41:39] começa a consagrar umas 9 horas e vai até às 6 da manhã, né?
[41:45] Então, dura a noite toda dentro dessa consagração, dessa
[41:49] condução dentro. Né, que passa essa noite toda,
[41:53] né? Primeiro vem a consagração da
[41:55] medicina, né, a gente aí após a gente consagra a medicina, a
[42:00] gente dá um tempo, né, 10 minutos de silêncio, né, ali pra
[42:04] pessoa se conectar, né, receber ela também de uma forma mais,
[42:09] né, clara também. E a gente faz também no espaço
[42:13] aberto, né? Depois também a gente faz uma
[42:16] fogueira mesmo no meio, né, bem no meio.
[42:20] De onde todo mundo está sentado, né?
[42:21] Também, porque a fogueira ali ela nos traz, né?
[42:24] Também é uma forma também dela estar ali, porque a fogueira
[42:27] também é um espírito, né? Então a gente faz a fogueira
[42:31] depois dá esse tempo, né? Quando consagra a medicina,
[42:36] meia-noite, né, que é a gente 12 horas da noite, a gente faz a
[42:40] consagração do rapé, que vem é o rapé e a sananga, né?
[42:44] E a gente faz as defumações também, que é para antes de
[42:48] consagrar a pessoa, estar limpo, né?
[42:49] Ali também. Então, Victor deixa eu explicar
[42:57] sobre o rapé e a sananga 2 medicinas que seanconi falou que
[43:01] são utilizadas no ritual do nishipan.
[43:04] O rapé é uma medicina para ser usada nas vias nasais.
[43:08] É um pó feito de tabaco e cinzas de cascas de árvores como
[43:12] Cumaru, Murici. Pau Pereira, canela de velho,
[43:16] cacau, oricuri e mulateiro. O rapé pode ser usado
[43:21] individualmente por meio de um instrumento chamado curipe ou
[43:24] assoprado por uma pessoa em outra.
[43:26] Com um tepi. É preciso aplicar nas 2 narinas
[43:30] uma de cada vez. Segundo sonicun, o rapé
[43:34] limpamente de maus pensamentos traz foco e ajuda a acalmar os
[43:39] pensamentos e a equilibrar as energias.
[43:42] Já sananga é um colírio natural feito da √(1) planta amazônica
[43:46] chamada tabernae Montana assananho.
[43:49] Ela é aplicada nos olhos e arde muito no começo, mas isso faz
[43:54] parte do processo de limpeza. Segundo o conhecimento
[43:57] tradicional indígena, a sananga pode curar problemas nos olhos e
[44:01] dor de cabeça. Ela também purifica a visão
[44:04] tanto física quanto espiritual. É como se ela limpasse os olhos
[44:09] para a gente enxergar com mais clareza, não só o exterior, mas
[44:13] também o nosso interior. Essas 2 medicinas ajudam a
[44:17] fortalecer a conexão com o ritual da euasca.
[44:20] Agora, Vitor, muita gente que bebe euasca.
[44:24] Relata que passa mal e vomita. Wagner sidarta Ribeiro tem uma
[44:28] explicação para esses efeitos. O desconforto gastrointestinal é
[44:36] muito frequente com a ayahuasca, porque tem muito receptor de
[44:40] serotonina no sistema gastrointestinal.
[44:42] Então, assim é muita gente começa a sentir os efeitos pela
[44:46] barriga, é apesar disso, tem gente que não sente.
[44:51] Tem gente que sente, mas não vomita, tem gente que é, tem de
[44:56] tudo. Porque na nossa concepção
[44:59] ocidental, você ter o vômito ou ter um acesso de diarreia no
[45:04] meio de uma sessão com maior asca é um enorme desconforto.
[45:09] É um constrangimento e é considerado um efeito adverso
[45:14] como desfecho clínico na concepção de muitos povos
[45:20] indígenas. É limpeza e tem a ver com você
[45:26] ter coisas pra pulgar no campo psicológico e espiritual.
[45:29] Existe um acoplamento então entre uma pulga, que é
[45:32] biológica, digestiva, de uma pulga espiritual.
[45:36] E quando você tá passando mal, você tá querendo vomitar, mas
[45:40] não, não quer vomitar, mas tá querendo, mas precisa, mas não
[45:43] quer resistindo e aquilo, vai evocando.
[45:47] Remorsos pecados, coisas que você não queria ter feito é
[45:50] coisas que te incomodam, então você fica naquele sofrimento,
[45:53] que é biológico e psicológico. Quando você vai pro pra pulga, a
[45:58] sensação é de é uma delícia, é uma sensação de de epifania
[46:02] mesmo. Ufa, libertação.
[46:04] E aí isso casa muito legal com a mitologia cristã, então a pessoa
[46:09] se sente renascida no final da cerimônia.
[46:12] E essa coisa da do renascimento, ela tem uma.
[46:15] Isso tem uma interpretação neurobiológica, porque se você
[46:18] está adicionando novas conexões entre neurônios e novos
[46:20] neurônios, você está literalmente criando uma pessoa
[46:23] nova com com com neurônios que não tem memórias pré formadas,
[46:26] neurônios disponíveis para o futuro, digamos assim.
[46:32] Victor, você lembra o que pajé Mana falou quando contou o mito
[46:36] de origem da ayahuasca, que a medicina mostra passado,
[46:40] presente e futuro? Incrível isso.
[46:44] Wagner, eu tô lembrando aqui que janconi falou uma coisa bem
[46:47] parecida. É uma medicina que ela nos traz,
[46:54] né? O nosso passado, o nosso
[46:56] presente e o nosso futuro, né? Então, para isso a gente tem que
[47:00] estar preparado. Para a gente entender a dimensão
[47:08] cultural e religiosa da ayahuasca.
[47:10] Destacar que, em 2008, as 3 principais religiões
[47:14] ayahuasqueiras Santo, daime, união do vegetal e barquinha
[47:18] encaminharam ao instituto do patrimônio histórico e artístico
[47:21] nacional, o iphan, um pedido formal para o reconhecimento do
[47:25] uso ritualístico da bebida como patrimônio cultural e material
[47:29] do Brasil. Outro aspeto interessante é que,
[47:32] mesmo contendo substâncias psicoativas, a yuasca não é
[47:37] classificada como droga ilícita. Como acontece com a maconha
[47:41] desde 2004, o uso religioso é legalmente permitido no país.
[47:47] Uma portaria publicada no diário oficial da união pelo conselho
[47:51] nacional antidrogas conad retirou a bebida da lista de
[47:55] substâncias alucinógenas. Cada país tem uma legislação
[47:59] diferente em relação a awasca, justamente por conta da presença
[48:03] do dmt, que é considerado na substância controlada.
[48:07] Já que ele é listado na convenção de drogas da ONU.
[48:10] No Peru, por exemplo, a yuasca é considerada patrimônio cultural.
[48:15] Nos Estados Unidos e na Holanda, decisões judiciais protegeram o
[48:18] uso ritual, alegando direito à Liberdade religiosa.
[48:22] Mas na França, a yuasca é proibida porque lá o dmit é
[48:27] classificado com uma droga ilegal.
[48:41] É Victor. Estamos chegando ao final do
[48:44] último episódio da segunda temporada do axé das plantas.
[48:48] E que jornada bonita, Hein? Não vou mentir que já estou com
[48:52] saudade. Nem me fale, Wagner.
[48:55] Foram tantos aprendizados, tantas histórias bonitas, tantos
[48:59] conselhos importantes. Também vou ficar com muita
[49:04] saudade. Ah, pois a gente espera que o
[49:08] axé das plantas inspire nossos ouvintes a desacelerar um pouco,
[49:12] né Victor? Um chazinho antes de dormir pode
[49:16] ajudar quando a ansiedade apertar.
[49:19] É sempre bom lembrar que a água de elevante é a planta que
[49:23] desfaz o medo. E sem som de abater, é só fazer
[49:27] um chá de mungu para ter uma noite de sono tranquila.
[49:31] E que os preconceitos não impeçam os avanços das pesquisas
[49:35] com a cannabis, que seu uso medicinal chegue a todos que
[49:39] precisam. Ah, e se lembrem da Guiné.
[49:42] Ela é uma planta muito boa pra se ter em casa e afastar das
[49:46] energias ruins e que a oasca, a Estrela desse episódio seja
[49:51] utilizada com respeito. E a sabedoria dos povos da
[49:55] floresta é. Fundamental, entre elas, aos
[49:58] conhecimentos da ciência Moderna.
[50:00] Com os saberes ancestrais dos povos de terreiro, quilombolas,
[50:04] ribeirinhos, povos indígenas, ouvir essas vozes da sabedoria
[50:10] popular é essencial para construir um mundo mais justo,
[50:14] mais saudável e mais conectado. Verdade, Victor, quando se
[50:19] saberes se encontram, o científico e o ancestral nasce
[50:23] uma força transformadora. Aprendemos demais com essas
[50:27] vozes que carregam cura, memória e resistência.
[50:32] Vamos nos reconectar com a natureza porque, afinal, a gente
[50:35] também é natureza. Um cheiro meu povo.
[50:39] Obrigado pela audiência, um beijo e até a próxima.
[50:48] Ei, você já está seguindo a gente no Instagram?
[50:51] Se não, bota lá. Arroba axé das plantas.
[50:57] Aproveita e ativa o sininho do Spotify no YouTube para não
[51:01] perder nenhum episódio. Axé das plantas, cura do corpo e
[51:07] da alma é uma produção da Universidade Federal da Bahia em
[51:11] parceria com o podcast viagem gastronômica com o doutor dendê
[51:16] e tem o apoio do instituto Serra pileira.
[51:19] Os 5 episódios dessa segunda temporada são apresentados por
[51:23] mim. Victor georgini Silva e por
[51:26] doutor Wagner rocha. Queremos deixar um agradecimento
[51:30] especial a todas as pessoas que ajudaram a dar vida a esse
[51:34] podcast, nossas entrevistadas e entrevistados é quedissinha do
[51:39] terreiro da Casa Branca, mãe Índia, do terreiro do bogum, mãe
[51:44] lelle e a khe de Laís, do terreiro iléa chumomire
[51:49] tatamutaime, do terreiro mutalambo EE cayongo.
[51:53] Mestra Japira pataxó, pajé manache, né nauá chanconi
[51:59] ronicui, sacerdote Santos Izidro, Oviedo torre, o
[52:04] neurocientista sidarta Ribeiro, o músico Sidney rocha, a médica
[52:11] Mariane Ventura e a professora em farmacêutica Maiara de
[52:15] Queiroz na apresentação, Victor Diógenes Silva e eu, Wagner
[52:22] rocha. Na direção, Silvana Moura, no
[52:26] roteiro, Maiara Cristina na edição, Danielle Freire na
[52:32] produção e assessoria de imprensa.
[52:34] Jean Cardoso, nosso social media editor de vídeo é romeram
[52:39] Ribeiro. Os mobilizadores das redes
[52:42] sociais são, raimê Alves, Lucas Oliveira e João Antônio Lima.
[52:47] No design, identidade visual, Davi Barreto, na captação de
[52:52] áudio externo. O mibo Lu na captação de áudio
[52:55] em estúdio, André te a trilha sonora é de André sapoti Rafael
[53:00] calunga, com a participação de Átila Marques.
[53:04] Na assessoria científica e Humanidades, Rafael Fontes.
[53:08] Na assessoria científica, em biológicas e saúde, aimé Alves,
[53:13] Clarissa esquitini, daise Villas boas, lenise Guedes, Lucas
[53:19] Oliveira, Márcia Silva. Rafael short, Ravenna do
[53:25] nascimento, Susana Braga, Ivo Jessé e Victor diorgene e Silva.
[53:31] Neste episódio, contamos com a assessoria de estudantes da
[53:35] Universidade Federal da Bahia, Caroline nascimento, Cíntia
[53:39] Cristina, João Antônio Lima e Tiago Conceição Santos.
[53:44] Queremos fazer um agradecimento especial para a fundação Terra
[53:47] mirim. Quem quiser conhecer mais, é só
[53:50] acessar o perfil deles lá no Instagram, arroba Terra mirim.
[53:54] Nosso agradecimento também ao mentor terroprest e ao nosso
[53:58] podcast parceiro viagem gastronômica com o doutor dendê.
[54:02] Os episódios foram gravados no estúdio t financiamento
[54:06] instituto Serra pilheira até a próxima temporada.

Shows are listed from Apple Podcasts' charts and directory, and Podcast Index where it is used. Every show and episode belongs to its publisher and plays from the publisher's own feed; this site hosts none of them.
