# T1 - Episódio 2 - Quioiô

An episode of [Axé das Plantas - Cura do Corpo e da Alma](https://invisiblenetwork.ai/podcast/1849155267), 18 Jul 2024, 51 min.

Audio: https://anchor.fm/s/f81c3d6c/podcast/play/89313097/https%3A%2F%2Fd3ctxlq1ktw2nl.cloudfront.net%2Fstaging%2F2024-6-17%2F91523ce5-c81c-47f2-3941-3e5dc8b4b156.mp3

A erva Ocimum gratissimum, a quioiô, tioiô, alfavacão, alfavaca-cravo ou, simplesmente, alfavaca, originária do continente asiático, mas que se deu muito bem em solo brasileiro. Pai Pote (Santo Amaro), Dr. Ygor Jessé (Salvador), Dona Dalva (Cachoeira) e Dona Judite (Remanso, Chapada) trazem relatos de como essa planta é importantíssima para a cura de determinados males nas suas comunidades, desde verme, passando por infecções intestinais, até desinflamar dentes e furúnculos. Com certeza, muitos dos ouvintes já foram tratados pelos familiares com banhos, infusões e chás, práticas comuns nas casas brasileiras, principalmente, nas regiões onde a saúde pública não chegava ou ainda não chega.

## Transcript

[0:14] Mas conhecido por ser o autor deste marco da música
[0:18] brasileira, o Maranhêsse João Duvali é responsável
[0:21] por um cancionero digno de respeito e reverência. Se
[0:25] carcará, marco início do voo da intérprete Maria
[0:28] Betânia para todos os palcos possíveis e
[0:30] impossíveis, outras canções desde poeta do povo nos
[0:34] chamam a atenção para os saberes próprios das
[0:36] comunidades tradicionais. Em Oricuri, ele escreveu.
[0:40] Catinguera Fulora vai chover, Andorinha
[0:44] voou, vai ter verão, Gavião se cantar, é estiada, vai
[0:49] haver boa safra no sertão. Na
[1:02] voz da saudosa Clara Nunes, João Duvali, que nos deixou
[1:06] em 1996, tenta nos lembrar que a observação e respeita
[1:10] natureza são aspectos estruturantes dos povos
[1:13] tradicionais. Nesse trecho, os reinos animal,
[1:17] vegetal e mineral atuem a aliança, desvelando um tipo
[1:21] de sabedoria que nasce da compreensão integral e
[1:24] resomática do ambiente onde vivem. A
[1:27] planta indica a chegada da chuva, o canto do pássaro
[1:30] indica a estiada e assim a terra da assinaz que
[1:33] brotará infartura para o povo, ou não. No
[1:38] texto Subjetivação Radical do Mundo, o antropólogo
[1:41] Eduardo Viveiro de Castro faz um apontamento que
[1:44] julgamos importante para este segundo episódio do
[1:47] Ache das Plantas, cura do corpo e da alma. Aciência
[1:52] indígena, no sentido mais geral da palavra ciência, é
[1:56] um saber que tende a considerar o mundo antes de
[1:59] um ponto de vista político e não exclusivamente físico.
[2:02] As relações com os demais
[2:03] viventes, com o ambiente em geral, isto é, com o que
[2:07] chamamos de natureza, não se distingue radicalmente,
[2:11] antologicamente, das relações inter -humanas. Isto
[2:15] é, relações ético -políticas. No
[2:18] caso dos povos indígenas, é possível dizer que todas as
[2:22] relações significativas são políticas, o que não se
[2:25] consegue pensar e agir sobre, agir com, interagir,
[2:30] como a relação política passa a ser, de uma certa
[2:33] maneira, insignificante. Para nós, é o oposto. A
[2:37] ciência, a física matemática e seus derivados é o
[2:40] padrão ouro do conhecimento. Portanto,
[2:43] aquilo que não consigo traduzir em uma equação ou
[2:47] em uma interação entre partículas e forças não é
[2:50] realmente científico. Vamos, por enquanto, fechar essas
[2:55] aspas. Mas adianto que o episódio de
[2:58] hoje está quente, cheio de reflexões e descobertas. E
[3:03] olha que esse episódio foi pensado apenas para a
[3:06] tratada d 'Erva Keoiô. Sim, Vitor, em pensar que tudo
[3:09] começou com a Erva Keoiô, como a chamamos Aquem e
[3:12] Salvador. E por esse Brasil afora, ela
[3:15] tem outros nomes, alfavacão, alfavaca de galinha,
[3:19] manjericão dos cozinheiros, alfavaca de caboclo,
[3:22] alfavaca cravo, mas ósimo, gratíssimo, é o seu nome
[3:27] científico. Mousa já se perguntou por que
[3:30] uma Erva tem um nome científico e um nome
[3:31] popular? E quais foram as pessoas que
[3:34] determinaram lá atrás, como elas seriam chamadas
[3:36] cientificamente? E em que momento da história
[3:40] isso começou a acontecer? Nomeá
[3:42] -las em latim, uma língua morta? Roder,
[3:46] roder, roder para, enfim, perguntar de que ciência
[3:49] estamos falando? Existem métodos científicos dentro
[3:52] das comunidades tradicionais de terreiro, nos quilombos,
[3:55] nos territórios indígenas? E onde? Onde,
[3:58] mesmo neste mundo vasto mundo, começamos a ser
[4:01] cientistas? Sejam bem -vindas, bem -vindos e
[4:11] bem -vindes ao Achea das Plantas, cura do Corpo e
[4:14] da Alma, uma produção da Universidade Federal da
[4:16] Bahia em parceria com o podcast, viagem gastronômica
[4:20] com o doutor Dendei. Esta jornada em sotapezóide é
[4:24] apoiada pelo Instituto Serra Pileira. Vamos
[4:26] nessa? Olá, eu sou o doutor Victor
[4:39] Georgi Nisilva e esse é o podcast Achea das Plantas,
[4:43] cura do Corpo e da Alma, da bancada do laboratório
[4:47] do neurofarmacologia, eu me une às comunidades
[4:49] tradicionais da Bahia para dialogar sobre plantas
[4:52] medicinais e não estou só. Eu,
[4:57] Wagner Rocha, do podcast Viagem Gastronômica com o
[5:00] doutor Dendei, estarei junto com o doutor Victor e com
[5:03] você, nessa viagem entre mundos, que até parecem
[5:06] distantes, mas lá no fundo, quando a folha vira. No
[5:14] episódio de hoje, vamos conhecer melhor a erva
[5:17] ósimo gratíssimo, a Kiyoyo, Tiyoyo, alfavacão,
[5:21] alfavacacravo, ou simplesmente alfavaca. Muitos
[5:25] são os nomes que ela recebe em outros lugares,
[5:27] uma dica, Regiões de Temperaturas Tropicais e
[5:30] Quentes, mas me chamou atenção o nome que ela
[5:33] recebe no quenya, Makuri. Porém,
[5:37] Victor, você prometeu estar na hora de cumprir. Como
[5:40] os nomes científicos das plantas surgem? Os
[5:42] termos botânicos, os nomes científicos, são escritos em
[5:46] latim, uma língua inalterada. Para
[5:49] que se evitem as mudanças ortográficas, mantendo as
[5:52] nomenclaturas consistentes ao longo de anos. Além
[5:55] disso, os nomes botânicos refletem diretamente às
[5:59] características individuais de cada planta. O
[6:01] sistema primordial de classificação das plantas
[6:04] foi concebido no século XVIII por Linneo, um
[6:07] botânico sueco. Este sistema permanece e envigou
[6:11] até os dias de hoje. Ele foi pioneiro no uso dos
[6:15] conceitos de espécies e gêneros, como fundamento de
[6:18] nomes científicos atribuídos às ervas, estabelecendo um
[6:22] formato binário que emprega apenas duas palavras,
[6:26] geralmente em latim ou latinizadas. Que
[6:30] interessante, Vitor! Então vou dar logo outra dica.
[6:33] Aliás, hoje eu sou o senhor das
[6:35] dicas. No nosso Instagram, a rouba a
[6:38] xé das plantas, você pode visualizar a erva que será
[6:41] estrela deste episódio. Passa
[6:43] lá e confera as fotos. Talvez
[6:44] você já tenha cruzado com ela no quintal, no terraço
[6:47] da vizinha, na sua rua, porque o Kiyo se deu muito
[6:51] bem em solo brasileiro. Ela é com a planta originária
[6:54] do continente asiático. Vamos
[6:56] começar a conhecê -la melhor? Por
[6:58] enquanto, eu descrevo aqui como é avejo. É
[7:01] uma planta com cálula e bem ramificado, que atinge
[7:04] até uns 90 cm de altura, com folhas opostas, ovais
[7:08] assim, sabe, de cor verde. As
[7:10] flores são brancas, pequenas, agrupadas em
[7:13] espécie de 10 a 15 cm de comprimento, localizadas na
[7:17] extremidade dos ramos. Eu e o doutor Nde, vamos
[7:21] conversar com o doutor Iko Gesserramus, uma especialista
[7:25] em étnomo, farmacologia e fitoquímica da óssemo
[7:27] gratíssimo. O professor e pesquisador da
[7:30] faculdade de farmácia da UFIB, ele está à frente do
[7:33] laboratório farmácia da terra e do laboratório de
[7:36] pesquisas de produtos naturais. Iko,
[7:39] como ele gosta muito de se apresentar, é um quilombola
[7:42] do Reconcavubaiano. Primeiro vou falar de memória
[7:51] afetiva enquanto criança. Quando
[7:57] a gente tem consciência enquanto jovem, dentro de
[8:01] comunidade, a gente consegue perceber os bans que a
[8:04] gente toma. Se a gente já teve sarams, se
[8:06] a gente tiver um sarampo já, todo mundo já teve um
[8:08] sarampo um dia. Catapora também, aquelas coisas
[8:13] catapora. Eu me lembro do que minha avó
[8:16] preparou um banho. Com essa plantinha me deu esse
[8:19] panco, essa plantinha. Eu me lembro que a gente não
[8:21] passava álcool, passava essa plantinha. Só
[8:23] era isso que eu usava, não tinha mais nada. Não
[8:25] tinha muito que fazer, né? E
[8:27] aí passava essa plantinha para a gente não ficar com
[8:29] cicatriz, porque ficava com a cicatriz da pele. Então
[8:34] ela passava essa plantinha. Essa
[8:36] plantinha aqui lá no meu interior também é chamada
[8:37] de Kyo -Yo. Essa planta, cientificamente, ela
[8:41] tem um nome assim ósimo gratíssimo. E
[8:44] é muito engraçado que ela tem um ósimo gratíssimo, de
[8:47] gratidão. Olha a coisa do latim. E
[8:51] de fato é porque quem descobriu ela, descobriu
[8:55] que... Quem descobriu ela pela primeira
[8:57] vez, a planta, colocou o gratíssimo, de fato, para
[9:01] trazer a gratidão que ela era ofertada. Porque
[9:04] dentro das comunidades que é uma planta bem
[9:07] distribuída, ela não é brasileira, ela é
[9:10] distribuída. É uma planta introduzida no
[9:13] nosso país. Ela é introduzida em toda parte
[9:15] do nosso país. Ela foi trazida para cá. Como
[9:18] é que uma planta que foi trazida aqui acabou se
[9:20] naturalizando com tanta facilidade, né? Porque
[9:23] ela está inserida em vários contextos, políticos e
[9:26] toalísticos. Por conta dessa última frase de
[9:32] professor Igor, que ela está inserida em vários
[9:36] contextos políticos e toalísticos, fecha aspas, eu
[9:40] queria botar um quiabo nesse cara, Urú. No
[9:42] artigo Pós -Verdade Para Quem, Fatos produzidos por
[9:46] uma ciência racista, as pesquisadoras Kate Marie
[9:50] Rosa e Barbara Carim e o pesquisador Alan Alves Brito
[9:54] discutem magistralmente abri aspas. A
[9:59] construção do sistema de verdades, no qual se
[10:01] fundamenta a ciência moderna e contemporânea, e mais
[10:04] especificamente como ensino de ciências, que sempre foi
[10:08] pautado numa lógica científica branca, que nega
[10:11] o conhecimento produzido por corpos negros, posiciona -se
[10:14] nessa discussão negacionista do outro. Fecha
[10:18] aspas. Mas antes de abrir de novas
[10:21] aspas para estes três grandes cientistas negros de
[10:24] nosso tempo, se não conhecem, corrom para
[10:27] conhecer, viu? Eu convido vocês ao vestir
[10:30] depoimento de Pai Pote, de Santa Mário da Purificação,
[10:33] sobre a erva Kiyoyo. Prestem
[10:35] bastante atenção. Kiyoyo é importantíssimo. Você
[10:43] vê, a gente não tinha remédio para verme. Toma,
[10:46] ele mata verme. Até essa verme braba, chama -me,
[10:49] não dera, mas sistozoma, se você tomar sete dias, ele
[10:52] mata, você faz o exame, já tinha o prazer de fazer. O
[10:56] Kiyoyo. Tá com dor de barriga? Toma
[10:58] Kiyoyo. Com meu azeite demais, com meu
[11:00] multa, o fermar carajé fermal, do intestino, o
[11:03] Kiyoyo é importantíssimo para a saúde. E
[11:06] isso antes do candombré. Entendeu?
[11:08] Dentro do candombré não se usa muito nos fundamentos
[11:10] da religião. Depois que você usa, dentro da
[11:15] nossa família, o Kiyoyo para emagrecer, para
[11:19] infecção intestinal, tudo isso, que a gente aprende
[11:23] uma família nossa, e é do povo negro do pé, no chão,
[11:27] da senzala, da asa de taispa, do capim, do
[11:31] colchão do capim, que a gente nasceu das do colchão
[11:33] do capim, a gente vem de asa de taispa, vem do
[11:36] canavião, vem da azuzina. Então,
[11:38] o Kiyoyo, se tem um ador, Kiyoyo, colhe intestinal,
[11:42] até o médico, não tinha médico? Aí
[11:44] passa, aí morreu. Muita dor, um dia doença, eu não
[11:47] tinha médico. Mas o Kiyoyo acalma, tanto é
[11:49] que nos livros tem, que ele faz muito bem também,
[11:52] entendeu? Scientificamente. Agora quem vai dar dica,
[11:58] sou eu. Pai Pote de Ogum está à frente
[12:02] do Bem -Bé do Mercado, a ação potente que reúne mais
[12:06] de 60 comunidades tradicionais de terreiro e
[12:08] comunidades quilombolas do Reconcavo Baiano. O
[12:11] Bem -Bé do Mercado já é reconhecido como patrimônio
[12:14] material da Bahia, desde 2012, patrimônio cultural
[12:18] nacional desde 2019, e há cinco anos tramita um
[12:23] processo na sede da UNESCO, visando o seu reconhecimento
[12:27] como patrimônio da humanidade. Neste
[12:30] ano, o Bem -Bé do Mercado completou 135 anos, e eu
[12:35] estive lá, e pude sentir novamente a energia vibrante
[12:39] de Pai Pote, na condução de tudo. Eu
[12:42] estou aqui pensando como Pai Pote descreve muito bem
[12:46] de onde o conhecimento sobre as ervas dele vem,
[12:49] que foi tirado do quilombo, terreiro, Reconcavo, da
[12:55] senzala, da casa de Taipa, do Cana Vial, do
[12:59] trabalhador das usinas. Enquanto
[13:01] você segue pensando, eu vou abrir novamente as aspas
[13:04] para Katemari Rosa, Barbara Karen e Alain Alves -Brito,
[13:08] para trazer um conceito de ciência que eles
[13:10] apresentaram no artigo que mencionei a pouco. Olha
[13:13] as aspas. Entendemos ciência como construção
[13:17] humana, historicamente localizada no tempo e no
[13:19] espaço, que foge ao escopo de uma única disciplina,
[13:23] cuja verdade transitoria não é inquestionável. Fecha
[13:28] as aspas e abre -se a questão. De
[13:31] que ciência nós estamos falando nesse podcast?
[13:45] Eu, Wagner Rocha, o doutor
[13:47] Dende falado. Sou doutor em estudos étnicos e
[13:50] africanos pela Universidade Federal da Bahia, mestre em
[13:53] cultura e sociedade, especialista em gestão
[13:55] cultural e graduada em produção cultural, cientista.
[14:00] E na minha trajetória fui
[14:01] entendendo que ciência é a busca constante por
[14:04] respostas para uma série de questões que despertam
[14:06] preocupação, curiosidade ou chamam a atenção do ser
[14:10] humano. É a construção de saberes a
[14:13] partir da observação, da investigação e da
[14:16] experimentação. Na verdade, seria mais correto
[14:19] falar em ciências, no plural, porque existem
[14:22] diversas áreas, diferentes técnicas e vários caminhos
[14:25] de produzir conhecimento. E você, Vitor, como você
[14:29] define ciência? Eu, Victor de Ógden e Silva,
[14:34] doutor em ciência animal nostrópicos pela Universidade
[14:36] Federal da Bahia, atuando hoje na neurofarmacologia
[14:40] para encontrar compostos de plantas que sejam capazes
[14:43] de curar doenças do sistema nervoso humano. Defina
[14:46] o ciência como conhecimento gerado de forma sistemática,
[14:50] utilizando metodologia específica com finalidade
[14:54] para comprovar ou anular hipóteses, que por sua vez
[14:58] são levantadas dentro de uma problemática pré
[15:01] -existente. Além de nossas compreensões sobre
[15:04] ciência, que se vocês perceberam tem lá suas
[15:06] diferenças, nós ouvimos 13 pessoas para construirmos os
[15:10] cinco episódios dessa primeira temporada. Dessas,
[15:14] 11 são pessoas negras, 4 declaradamente quilombolas, 3
[15:18] que se reconhecem como indígenas, um deles aldeado,
[15:22] Otto Payayá, 6 mulheres, 7 homens, apenas 1 pessoa
[15:27] branca. Escolhemos, e é importante reforçar
[15:30] isso aqui, falar de ciência a partir das experiências
[15:33] interreiros, territórios indígenas e comunidades
[15:36] quilombolas. Topamos esse desafio, fazer um
[15:39] podcast que justa apõe as diferentes visões de
[15:42] ciência, ou diferentes ciências, porque estamos
[15:45] lidando com culturas assentadas numa cósmica
[15:48] percepção que reconhece a natureza como expressão do
[15:51] sagrado. E aí, se não fosse assim, a
[15:54] natureza se tornou uma ferramenta sagrada de
[15:56] resistência e sobrevivência para salvar a vida daqueles
[15:59] que, de longe, têm assistência médica à saúde.
[16:03] E chamou muita atenção,
[16:05] durante as missões de campo do projeto de pesquisa que
[16:08] coordena na UFBA, que moradores da zona rural não
[16:12] citavam a atenção médica como prática, além do uso
[16:15] das plantas para tratar doenças do sistema nervoso.
[16:20] Por outro lado, a atenção
[16:21] médica foi citada frequentemente por
[16:23] entrevistados da zona urbana, que faziam o uso
[16:27] de plantas medicinais interreiros. Eu
[16:31] e o filho nunca levei para rua ninguém. Não.
[16:36] Doicia e eu cuidava com os meus remédios do mato e
[16:38] sarulha e tal, tudo pai de neto, quase tudo, já é pai
[16:41] de neto. Porque minha família toda, pai de
[16:44] mãe era assim. Porque minha família era assim,
[16:46] metade de índio, metade de africano. Era
[16:49] misturada assim. Então, tem essa influência também
[16:52] indígena muito forte na família da senhora, né?
[16:55] Essa influência indígena também
[16:57] muito forte. Quem é que vem da parte
[17:00] indígena da família da senhora? Quem
[17:02] vem da parte dos índios da família da senhora? Todos
[17:06] os dois partos. Da parte de minha mãe era da
[17:10] parte do pai dela, que a mãe dele, a avó dele foi
[17:14] pegada braba no mato, que era a Índia. Que
[17:17] era a avó do meu avô, que era a minha atleta, era a
[17:19] avó. E da parte de meu pai, era
[17:22] a parte do pai dele, que era... Minha
[17:24] avó já era africana. E meu avô era a família de
[17:30] índio também, da parte de pai. Todas
[17:32] as duas partes de pai de mãe tinha. Metade
[17:35] de um, metade... Tendo que nas famílias misturadas
[17:37] tem uns negão, tem uns que vão ser de esquinais,
[17:39] parentes, de sua cor, meu tio e irmã que era bem de
[17:42] sua qualidade. Chamava Maria, ela morreu com uns
[17:46] sete anos. Dona Judite, uma sábia de 90
[17:53] anos de idade. Um pilar do quilombo remanso,
[17:57] lá na Chapada Diamantina. Em
[17:59] meio a um diálogo sobre como eles curam casos de
[18:02] furúnculo no quilombo, muitas informações
[18:04] importantes brotam e a gente quer aprofundar nesse
[18:08] momento. Primeiro, atentem para os meneios da
[18:11] oralidade, as curvas da memória presente no
[18:14] depoimento de Dona Judite, que em menos de dois
[18:17] minutos, desenham tanto de violência sofrida pelos
[18:20] povos originários e pelas comunidades quilombolas, suas
[18:24] origens. Uma tataravó indígena retirada a
[18:27] força da aldeum de vivia e uma sabedoria nascida da
[18:31] relação com o meio ambiente onde vivem, de onde ela
[18:33] tira, como ela mesma chama, os remédios do mato, para
[18:37] si e para o seu povo. Hoje,
[18:41] em 2024, o Poço de Saúde mais próximo do quilombo
[18:45] remanso, onde vive a Dona Judite, fica a 21 km de
[18:49] distância na cidade de Lensóis, Chapada Diamantina.
[18:54] Já ao hospital mais perto,
[18:56] para onde a comunidade precisa se deslocar em
[18:59] casos mais graves, fica a 83 km, na cidade de
[19:04] Ceabra. Imagine uma hora e meia de
[19:07] carro... Nisaricórdio, viu? Uma
[19:09] pesquisa rápida no Google Vito, instalar informação. O
[19:13] Hospital Região Nó da Chapada, a primeira unidade
[19:16] de alta complexidade da região, exatamente na cidade
[19:19] de Ceabra, foi inaugurada em 1º de dezembro de 2017,
[19:23] apenas 7 anos atrás. Vamos fazer as contas. Dona
[19:28] Judite tem 90 anos, nasceu em 1934. Ao
[19:32] longo de 84 anos, até que o primeiro hospital da
[19:36] região fosse inaugurado, ela conduziu sua vida e a
[19:40] criação de seus 8 filhos, 48 netos, 41 bisnetos e 6
[19:44] tataranetos, a partir de alguns princípios que a
[19:47] permitiram chegar aos 90 anos e bem. Estivemos
[19:50] com ela no quilombo remanso, com a manhã
[19:52] inteira de gravação e ótimas isadas. E
[19:55] Dona Judite não parece, nem de longe, uma mulher
[19:58] doente. Muito pelo contrário, viu? Dona
[20:01] Judite isala a vida. Como reforço, trago aqui dados
[20:05] do Censo de 2022, que revelam que a Bahia é o
[20:08] Estado brasileiro com maior número de pessoas
[20:10] centenares. E o IBGE aponta na região de
[20:14] Moron, Dona Judite, Getúlio e Alto Paiaya, e são as
[20:18] cidades com maiores taxas de envelhecimento. Nessa
[20:21] região da Bahia, são mais de 80 comunidades
[20:24] quilombolas, a maioria certificadas pela Fundação
[20:27] Cultural Palmares. Territórios
[20:29] indígenas são três, Paiaya, Tapuia e Kiriri. Reconhecida
[20:34] pelas suas belezas naturais, rios, cachoeiras, montanhas,
[20:38] grutas, clima frio, a Chapada Diamantina é uma
[20:41] região de serras, situada no centro da Bahia, e está
[20:45] inserida no bioma da Catinga, abrigando fauna e
[20:48] flora únicas e exuberantes. Nossa
[20:51] equipe esteve lá por três dias e não queria mais
[20:54] sair. Os banhos de cachoeira e a
[20:56] conversa com Dona Judite segue impactando nossas
[20:59] memórias. O cariro até hoje é frango,
[21:07] é verdura, é tudo e hoje está bom pra mim, porque
[21:11] os netos com as turmas me ajudam. É
[21:14] isso que é perguntar, Sara, que a Sara falou que dá
[21:16] cariro há 70 anos, mas o cariro não é só o cariro,
[21:20] né, o cortado de queabos. O
[21:22] cariro é frango, é verdura, verdura abóbora, folha, o
[21:31] feijão é feijão pra mim, que dá. Do
[21:39] meu caruru todo ano, um não, dois carurus, e rodem
[21:43] muitos carurus aqui em Salvador, e posso reforçar
[21:45] o que diz Dona Judite. Da caruru é muito trabalho
[21:49] mesmo, viu gente? Nem me fale. Ai
[21:53] do meu, se não fossem minhas tias que viram a
[21:55] noite preparando. Mas vou te contar, no final
[21:58] vale muito a pena, porque ficou uma delícia. Oh
[22:01] se vale! Pra quem não conhece, caruru é
[22:04] uma palavra banto, gente, vendo que congo, que bundo,
[22:07] que se refere a comida preparada com queabos ou
[22:09] folhas. Prato típico da culinária
[22:11] frubiana, a receita do caruru que se popularizou
[22:14] em Salvador e no Reconca Vubiano, é feito com
[22:17] queabos cortados, temperados com cebola, camarão
[22:19] deformado e azeite de dendê. Hum.
[22:23] E dar caruru é uma celebração em torno da
[22:26] comida, oportunidade de reunir pessoas em torno da
[22:29] comida. Explicando melhor, dar caruru é só
[22:32] uma maneira de falar, porque o prato servido nos
[22:34] carurus de promessa costuma ter. Além
[22:37] do caruru propriamente dito, vatapá, feijão fradinho, um
[22:41] arroz, xixi de galinha, feijão preto, farofa de
[22:44] dendê, banana da terra frita, abará, acarajé, hum.
[22:49] É na verdade um banquete
[22:51] regado azeite de dendê, uma combinação que sintetiza bem
[22:54] a culinária afro -diaspórica no Brasil. Comer
[22:58] para as comunidades tradicionais é celebrar a
[23:00] natureza e a comunalidade. Comer
[23:03] com muita gente perto de muita gente tem essa de
[23:06] fast food comer sozinho não. E
[23:09] eu quero, nesse momento, Wagner, atentar para o que
[23:12] disse PipePote agora pouco. Muitos
[23:15] conhecimentos experimentados nessas comunidades
[23:18] tradicionais vão para os livros, se tornam literatura
[23:22] científica. E esse podcast se reconhece
[23:25] nessa encruzilhada de saberes e sempre fará uma
[23:28] defesa para que essas populações recebam atenção
[23:32] especial das diversas redes de saúde pública. Inclusive,
[23:36] posserem territórios historicamente excluídos de
[23:39] vários direitos básicos. Não custa lembrar que muitas
[23:44] dessas pessoas têm perdido suas vidas pelo
[23:48] reconhecimento de suas terras, falando dessa coisa
[23:51] básica, que é o direito à terra, que é o direito à
[23:55] vida. E nesses territórios, métodos
[23:59] científicos são experienciados desde sempre.
[24:02] As comunidades tradicionais têm
[24:05] suas lavouras, constroem suas habitações, recebem
[24:08] seus descendentes pelas mãos de parteiras de dentro das
[24:12] suas comunidades. E evidentemente, passam de
[24:16] geração em geração seus saberes sobre ervas,
[24:19] plantas, estações do ano. E estes saberes, como o Ben
[24:24] Demarca PipePote, estão para além do uso das plantas
[24:27] nas religiões de matriz africana. É,
[24:30] se alinhentamos saberes próprios de quem se
[24:33] reconhece como natureza e a respeita.
[24:59] pode também fazer o chá do
[25:01] teorê, comida formal também, o chá do teorê é um santo
[25:04] remédio. E ele também dentro da...
[25:08] Ouuu, para tomar banho. Ele
[25:10] é... E usa tudo, usa essa cozinha
[25:12] também dele, a sua folha? Olha,
[25:15] eu conselho assim, as sementizinhas. Se
[25:19] você tem um lugar para você, se não você quer
[25:21] para plantar, você é bom, porque tem quando nada, mas
[25:26] ele aqui é bom misturado também para qualquer coisa,
[25:31] você bota na boca. Tudo isso aqui é salvaguarda,
[25:35] gente. Tudo isso aqui é um remédio, as
[25:39] folhas é a cora da gente, é a diversidade da gente é
[25:44] a folha. É quem nos levanta, é a
[25:47] folha. A gente diz assim que nada.
[25:52] Nada. O teorô, aqui eu já tenho
[25:57] um nome, teorô, teorô. Tem a favaca também, que é
[26:01] irmã dele, é muito bom também, até para comida.
[26:05] Você fez qualquer comida, você
[26:08] sentiu mal, teve uma folha de teorô e o pessoal chá
[26:13] fica na sua. Essa voz que nos chega a
[26:19] mancinha tem 97 anos de história. É,
[26:24] gente, da Alva da Amiana de Freitas, nascida em 27
[26:28] de setembro de 1927, na cidade de Cachoeira, no
[26:33] Reconcavo Baiano. O seu segundo nome já diz
[26:36] tudo, uma devota de São Cosmção da Amião, que assim
[26:40] como eu, Vítor Dona Judite, da Caruru todo ano. Dona
[26:44] Alva dispensaria a presentações se este fosse
[26:47] um país que dá as personalidades negras o
[26:49] mesmo valor e projeção que das personalidades brancas.
[26:53] Em Cachoeira você vai encontrar
[26:55] a Casa do Samba de Roda de Dona Alva. Ela,
[26:58] doutora do Samba de Roda, reconhecida pela Universidade
[27:01] Federal do Reconcavo da Bahia. Sim,
[27:04] estamos falando de um dos pilares dessa importante
[27:06] expressão cultural do Reconcavo, o Samba de Roda.
[27:09] Essa matriar que a ativista
[27:11] cultural integra ainda, a Irmandade Nossa Senhora da
[27:15] Boa Morte confraria religiosa afro -católica
[27:18] criada desde 1820 para, dentre outros objetivos,
[27:22] lutar pela alforria de negros e negras em situação
[27:24] de escravidão. Vem como garantir dignidade para
[27:28] os ritos de morte dessas pessoas, algo tão
[27:30] fundamental para as culturas africanas. A
[27:33] Irmandade da Boa Morte é um grupo composto unicamente
[27:36] por mulheres negras e Dona Alva é uma de suas
[27:39] integrantes mais antigas. Lembra
[27:42] daquela manhã insolarada de domingo? Após,
[27:45] Dona Alva nos deu essas informações sobre o Q -Y -O
[27:48] e juntou assim sua voz às outras vozes entrevistadas
[27:51] que téssemos saberes tradicionais em torno dessa
[27:54] erva. São muitos os estudos que
[27:56] apontam seus benefícios. E agora, vamos recorrer aos
[28:00] estudos realizados na Faculdade de Farmácia pelo
[28:03] doutor Iguo Gessei. O professor Iguo tem estudo
[28:07] publicado sobre mudanças nas concentrações de compostos
[28:10] presentes no óleo essencial do Q -Y -O, que podem ser
[28:14] frequentemente afetadas por diversos fatores como
[28:18] temperatura, intensidade luminosa, estresse hídrico,
[28:22] nutrientes do solo, dentre outros, o que se conecta
[28:25] muito com saberes trazidos por outros entrevistados.
[28:30] Por exemplo, quando muitos nos
[28:32] disseram que há um horário ideal para a coleta das
[28:36] plantas. Você lembra? Sim,
[28:39] sim, eu lembro. A maioria de nossas
[28:41] entrevistades relatou que as primeiras horas da manhã
[28:44] era o melhor horário para buscar as folhas no mato.
[28:47] E o professor Iguo também tem
[28:49] feito pesquisa sobre a plasticidade fenotípica do Q
[28:52] -Y -O, que na prática é um estudo para avaliar as
[28:56] modificações morfológicas da planta, que podem ocorrer a
[28:59] depender da característica do solo, por exemplo. Além
[29:02] disso, ele conhece muito bem as propriedades
[29:05] medicinais dessa planta. O Q -Y -O geralmente a gente
[29:12] tem dois tipos químicos bem conhecidos na Bahia. Um
[29:15] é o Q -Y -O, que a gente chama Q -Y -O Cravo, e o
[29:18] outro é o Q -Y -O comum. Esse
[29:21] Q -Y -O comum geralmente vai ter o Timol, Timol na
[29:25] substância química bem conhecida com uma atividade
[29:28] hemicobiana, com a propriedade de matar micro
[29:32] -organismos, que são patogênicos. Geralmente
[29:35] eles são utilizados principalmente no tratamento
[29:37] dentários, de problemas dentários, mas também com
[29:41] uma afecção de pélis. Além disso, para as mulheres,
[29:47] principalmente quilombolas, pesqueiras, elas utilizam
[29:50] bastante para fazer ban de assento, porque muito tempo
[29:53] no chão trabalhando, pegando marisco, elas acabam tendo
[29:56] infecções recorrentes por cândida, é desequilíbrio da
[30:00] cândida. E aí acaba levando a
[30:02] necessidade de utilizar esse Q -Y -O. Vitor,
[30:09] você lembra que Pai Pot falou algo muito parecido
[30:12] quando nos recebeu no seu terreiro lá em Santa Mara,
[30:14] da purificação? Para você tomar um banho para
[30:19] lavar a vagina da mulher, lavar o pênis, tomar os
[30:22] jejum para matar as cobras, as vermes, as maquitérias,
[30:26] desenframadentes e os extraiu, o que Q -Y -O é
[30:28] importante, isso em muito e mais coisas. Achepe.
[30:35] Achepe, Pai Pot, sim, Wagner, há ósimo gratíssimo,
[30:41] a ameclatura botânica da Q -Y -O é da família Lamiácia,
[30:44] e muitas são as ervas e irmãs agrupadas nessa
[30:48] família, Alecrim, Oregano, Menta, Hortelã, Sálvia, é
[30:54] característico dessa família serem bastante aromáticas. A
[30:57] Q -Y -O, por exemplo, tem um perfume inconfundível,
[31:01] provocado pelo componente químico eugenol, um dos
[31:05] principais compostos orgânicos presentes no óleo
[31:08] essencial das suas partes aéreas. O
[31:10] outro composto, que já foi citado pelo professor Iguo,
[31:14] é o Timol, um potente agente antimicrobiano. Nas
[31:18] folhas, também se encontram outros compostos orgânicos,
[31:22] do tipo triterpenóides e flavanoides, velhos
[31:26] conhecidos da minha trajetória de pesquisa sobre
[31:28] a ação neuroprotetora de substâncias naturais, como
[31:32] os flavanoides rutina e a pigenina, que se destacam
[31:36] por suas atividades antiinflamatórias dos estudos
[31:39] pré -clínicos que realizávamos por anos do
[31:42] Laboratório de Neuroquímica e Bologia Cellulada -Ufiba.
[31:45] A maioria dos estudos pré
[31:47] -clínicos, digo, que utilizam cultura de células ou
[31:51] ânimas de laboratório, sugerem que as principais
[31:54] atividades farmacológicas da óssemo gratíssimo da Q -Y -O
[31:58] estejam relacionadas às ações antioxidantes,
[32:02] antiparasitárias, antibacterianas, antifúngicas
[32:05] e antiinflamatórias. Que oiú. E
[32:13] o que oiú é bom pra quê? É
[32:15] bom pra tudo, é bom pra gripe, é bom pra febre,
[32:19] você tá, tá, é bom pra comer também que você, na
[32:22] comida, precisa preparar um peixe ou a carne presta,
[32:25] frango, tudo era bom, na comida. É
[32:28] bom pra garganta, você, da garganta o chá, é bom
[32:31] também, pra dona garganta, é bom também. Pra
[32:34] verme? É, até pra verme ele é bom.
[32:40] Estivemos em quatro macroregiões da
[32:43] Bahia e tentamos, nas escolhas das entrevistadas e
[32:45] entrevistados, garantir diversidade, equidade de
[32:49] gênero e sobretudo, que os saberes tradicionais fossem
[32:52] trazidos ao centro da encruzilhada e a partir
[32:55] deles nos ampliarmos. E também você, oiú, para os
[32:59] sete caminhos possíveis próprios das encruzilhadas,
[33:03] os quatro visíveis e os três que basta a gente
[33:05] saber que eles existem para passar a enxergá -los. Os
[33:08] quatro visíveis seriam norte, sul, laixo, aeste,
[33:11] doutor Dendê. Correto, doutor Victor. Mas
[33:14] os outros três, você não é o homem das dicas, então
[33:17] diga logo. Tudo bem, eu vou dar essa dica
[33:22] valiosa. Além desses quatro que você
[33:25] citou, tem a direção para baixo, para o alto e a
[33:29] outra que é superdifícil de se fazer, mas é essencial
[33:33] em todas as jornadas, a parar dentro de nós mesmos.
[33:37] E dentro de cada entrevistado,
[33:39] temos sua história, sua genealogia, suas memórias.
[33:43] Vejam bem, professor Igor nos
[33:45] revela de que forma o kioyou, a alfavaca, chegou
[33:49] pelas bandas de cá trazida do continente africano.
[33:52] Vamos ouvir? Ele
[33:56] não é uma planta que nasceu aqui, que a gente
[33:58] chama de nativa, que é própria do nosso país. Ele
[34:01] foi introduzido e aí a gente remete uma história
[34:04] que eu falei, eu acho que um pouco mais anterior no
[34:08] podcast, são as bolsas de mandinga. As
[34:13] bolsas de mandinga tem uma professora antropóloga que
[34:16] hoje está no Universidade Porto do Porto, Brasília
[34:18] Brasileira. Ela trabalhou bastante com isso.
[34:21] Alguns negros que foram retirados
[34:24] à força do seu país, trazidos para o Brasil,
[34:27] traziam consigo umas bolsas. Dentro
[34:29] dessas bolsas possuíam várias sementes de coisas,
[34:32] tinham formas de profeciar sua fé, tinha também
[34:36] escrituras para lembrar das suas origens. E
[34:41] dentro dessas bolsas de mandinga, que inclusive está
[34:43] hoje ainda, essas bolsas de mandinga já as aprendidas
[34:47] na polícia civil lá do Rio de Janeiro, tinham sementes
[34:51] de que? De óssemo. E
[34:52] a gente já conta a história, já remonta a
[34:55] história de como foi que esse óssemo veio de África
[34:57] para cá, que não foi uma introdução onde o acemente
[35:01] caiu no maio e veio parar aqui como foi a questão do
[35:04] coco que a gente tem aqui. O
[35:07] óssemo veio por conta da necessidade dessa ligação
[35:10] com o lado espiritual, por ser uma semente de fácil
[35:13] condução, podia ser trazida nos cabelos ou também
[35:17] dentro das bolsas de mandinga. É
[35:19] interessantíssimo isso, né? Gratíssimo,
[35:22] doutor Dendeir. Mas que bela história da
[35:24] chegada da que eu oune esse solo brasileiro. Uma
[35:28] planta assim, em raíza, em culturas diversas. Tem
[35:31] história, tem família, tem temperamento. E
[35:35] assim, compreendê -las, nos obriga a conectar a muitas
[35:38] áreas do conhecimento a esta bancada do laboratório.
[35:42] Isso expande e se alimenta de
[35:44] tantas outras inteligências. As
[35:48] bolsas de mandinga, também conhecidas como patuais, são
[35:51] objetos de proteção presentes em diversas
[35:54] culturas do continente africano. Vamos
[35:56] ressaltar aqui, olha o bairri, sabe? Seu
[35:59] uso entre os negros eslamizados, os maleis, que
[36:02] organizaram e colocaram em prática um importante
[36:04] levante de pretos e pretos na cidade de São Salvador
[36:07] em 1835. A rebelião que ficou conhecida
[36:11] como a Revolta dos Maleis. As
[36:13] bolsas, assim como muitas ervas, se aclimataram ao
[36:17] Brasil e passaram a receber na sua constituição, dentro
[36:20] e fora, além de elementos das diversas etnias
[36:23] africanas que aportaram no nosso país com infame e
[36:26] tráfico, elementos cristãos. Mas
[36:28] notem, a palavra patua tem origem tupi e significa
[36:32] sexta, baú, na qual se colocam ingredientes de
[36:35] proteção. Trase das juntas ao corpo, como
[36:39] colar no pescoço, atar do corpo como algebeira, ao
[36:43] redor da cintura ou como brasilete, dentro de
[36:46] diversos elementos que servem a proteção daquele
[36:49] corpo, foram encontradas nos patuais sementes de Kyo -Yô,
[36:54] da Óximo Gratíssimo. E o professor Higo continua a
[36:58] sua aula. É uma planta simbólica na
[37:03] Bahia, não porque eu trabalho com a planta, mas
[37:06] sim por conta do simbolismo que ela traz consigo. Eu
[37:12] não sei ao certo porque o nome Kyo -Yô, mas é uma
[37:18] coisa que eu vou buscar para a Titi agora, porque
[37:21] eu realmente não sei. Eu sei porque é gratíssimo. É
[37:26] gratíssimo de fato, porque a espécie era dada de fato
[37:30] como um simbolismo de nobreza para as pessoas que
[37:34] fizessem algum feito. Aí, como isso era bem comum em
[37:38] comunidades africanas e a pessoa que identificou essa
[37:42] espécie que foi ali nos viu pela primeira vez esse
[37:44] símbolo de nobreza sendo entregue, porque não tinha
[37:47] oliveira, porque lá na região da Grécia, entregava
[37:50] oliveiras, mas na África entregava outras plantas,
[37:53] entregava óximo gratíssimo como símbolo de nobreza e
[37:57] aí você entregava gratidão. Então
[37:59] aí virou gratíssimo do latim com uma espécie que
[38:03] tivesse recebido óximo gratíssimo. Óximo
[38:05] por causa do gênero que não tem o que concorrer,
[38:07] porque vai ter o óximo da espécie, óximo pela formação
[38:10] mesmo das flores características que formam o
[38:14] símbolo. Aí a gente recebe o nome
[38:16] óximo, que é uma lamiássia da família Lamiássia. É
[38:21] incrível, incrível. Em 2002, pesquisadores da
[38:28] Universidade do Benin, em Engéria, publicaram em uma
[38:31] carta para o editor do periódico, International
[38:34] Journal of Infectious Disease, o relato de
[38:38] sucesso no tratamento tópico de micoz, em couro cabeludo
[38:42] e nas mãos de crianças de 3 a 8 anos. Os
[38:45] anofolias da óximo gratíssimo, na carta, os
[38:49] pesquisadores relatam que este é um problema comum
[38:51] em crianças de escola primária das zonas rorais
[38:54] da Nurgéria. E existem muitas outras
[38:57] pesquisas que enfatizam o poder antimicrobiano da
[39:01] óximo gratíssimo. Aqui no Nordeste, cientistas da
[39:05] Universidade de Fortaleza, realizaram um estudo clínico
[39:08] de fase 2 sobre a eficácia do uso da óximo gratíssimo
[39:12] na garantia da saúde bucal de pacientes. Os
[39:16] resultados deste estudo foram publicados no
[39:18] periódico científico, The Journal of Contemporary
[39:22] Dental Practicing, no ano 2011. Para
[39:26] sua realização, os pesquisadores e pesquisadoras
[39:30] dividiram 30 pacientes em 3 grupos experimentais, um
[39:34] grupo que não recebeu tratamento, o segundo grupo
[39:38] que recebeu tratamento, o terceiro que recebeu um
[39:39] enxaguante bucal, contendo o óximo gratíssimo e o
[39:42] terceiro que recebeu de gluconato de clorexidina, um
[39:47] potente agente antimicrobiano disponível comercialmente. Os
[39:51] resultados deste estudo mostraram o efeito do
[39:54] enxaguante com óximo gratíssimo como um potente
[39:58] agente antimicrobiano, reduzindo placas dentárias e
[40:02] gênges de vítia. Toda
[40:14] esta história me fez lembrar do território onde
[40:17] nasceram as primeiras universidades do mundo,
[40:19] sabe? A Organização das Nações
[40:22] Unidas para a Educação, a Ciência, a Cultura, a
[40:25] UNESCO reconhece que as duas universidades mais
[40:28] antigas do mundo estão em território africano. Uma
[40:32] na cidade fez Marrocos, norte da África, conhecida
[40:35] como Al -Karawouni e a outra no Mali, África
[40:39] Ocidental, a Universidade Timbuqto. Importante
[40:43] falar das primeiras universidades é falar também
[40:46] das Madraças. A Madraça Islâmica, de onde
[40:50] as primeiras universidades surgiram, é uma instituição
[40:53] educacional tradicional do mundo muçulmano e desempear
[40:56] um papel fundamental na elaboração e disseminação de
[40:59] diversas disciplinas acadêmicas. Para
[41:02] citar só algumas, matemática, astronomia,
[41:05] medicina, filosofia, literatura. É
[41:08] gente, começou na Europa não, tá bom? Começou
[41:11] na África, onde começamos todos nós, berço de toda a
[41:14] civilização. E aqui estamos falando de um
[41:16] elemento das culturas africanas, as Bolsas de
[41:19] Mandinga e sua relação com essa mente de óssemo
[41:22] gratis. Sim,
[41:44] estamos tratando de outra compreensão acerca do
[41:47] conhecimento tradicional. Lembremos
[41:49] Pai Pote, ela é anterior à institucionalização do
[41:53] próprio Kandomblei, desse grande guarda -chuva, e se
[41:57] resolveu chamar religião. Por
[41:59] isso, reconhecemos que este é um cruzo possível. E
[42:02] estamos aqui falando de ciência. Por
[42:06] isso é possível hoje, ouvido na Dalva, 97 anos,
[42:11] dizendo isso aqui. E
[42:44] aí, eu quero ver você desfilar o amor cantando
[42:48] esta machacação. Aí eu digo assim, o Dalva que
[43:00] ensinou, eu não sei, acho que foi estelito que estava
[43:04] cantando e eu aprendi e eu cantei e ele está me
[43:10] saindo no terno da gente mesmo, mas o porra não
[43:14] estava mais na minha vida, na minha vista não, porque
[43:17] disse que eu aprendi a tudo. E
[43:19] aí eu continuo a minha diversidade e até hoje eu
[43:22] tenho muita gente que estão acreditando que a alegria é
[43:28] vida, porque a gente não podia viver só subaterna, a
[43:32] escravizão, tinha a hora de chorar, tinha a hora de
[43:36] tudo, porque a gente até para merendar, quando ia
[43:39] merendar ia para o sanitário, para ficar lá,
[43:42] para merendar escondida. Aí eu alegria felicidade na
[43:50] Linguia Urbá, alegria como resistência ao poder da
[43:53] morte, como resistência ao controle dos corpos negros.
[43:58] Aí eu satisfação, aí eu
[44:01] compromisso ancestral, aí eu masque o riso um pouco
[44:05] menos que o sol, aí eu a feira, o mercado, a
[44:09] bancada, o tabuleiro, aí eu a roda, o círculo, a
[44:14] palma, o chinelo levantando de quase nada o universo
[44:17] recheado de galáxias, aí eu essa poeira sorrateira e
[44:21] cósmica que nasce e se amplia a partir dos
[44:25] sorrisos de dona Dalva. E dona Dalva aponta
[44:27] científicamente, muita gente hoje já está acreditando
[44:31] que a alegria é vida. Quantos
[44:33] e quantos cientistas modernos vem pesquisando e
[44:36] corroborando para a construção dessa verdade?
[44:39] Antes de ir, eu queria te
[44:41] perguntar uma coisa sobre essas invenções científico
[44:44] -tecnológicas aqui. Abra bem os ouvidos, viu?
[44:49] Calendário, cerveja, a vacina Covid -19
[44:52] da Pfizer, a escrita, o teste de gravidez,
[44:55] cosméticos, escova de dentes, o arado,
[44:59] instrumentos cirúrgicos, telegra, fulâmpada, cura da
[45:02] rancenias e marcapácio cardíaco. Alisté
[45:06] Grande, vou dar uma paradinha aqui. A
[45:08] pergunta é, você sabia que essas foram invenções de
[45:11] pessoas negras? Quer saber demais? A
[45:15] obra História preta das coisas, 50 invenções
[45:18] científico -tecnológicas de pessoas negras da professora
[45:21] escritora Barbara Carim e Suárez Piero, é uma obra
[45:24] fundamental para saber mais sobre essas invenções, as
[45:28] pessoas negras que as inventaram e sobre como o
[45:30] racismo tenta deixar essa história encapsulada,
[45:33] invisibilizada, escondida, esquecida. Que
[45:37] bom que a foavaca Cravo, a Kiyo -Yô, a ósimo
[45:41] gratíssimo, está nos dando a oportunidade de fazermos
[45:43] essa viagem enegrecida. É, Dr. Wagner,
[45:47] as comunidades tradicionais de Terreiro, os quilombos,
[45:50] os territórios indígenas, as favelas, mantem esses
[45:53] saberes ativos, esse grande fluxo de começo meio
[45:57] -comesso, como diz o saudoso negobismo, esse fluxo nunca
[46:01] acessou, não obstante o racismo praticado e
[46:04] alimentado diariamente contra essas populações, no esforço
[46:08] diário de não nos fazer respirar. Muitas
[46:11] são as vozes dizendo há 524 anos, que não foi
[46:15] descoberta, que foi invasão, ilhagem, roubo, exploração,
[46:22] extermínio, genocídio. E assim começou o caso de
[46:26] muitos saberes, porque se destroem florestas, destroem
[46:30] ciências contidas nelas. Mas calma, esse é um podcast
[46:34] para vocalizar esses saberes. Assim
[46:37] como nós estamos fazendo, muitas são as ações que
[46:39] não estão permitindo que este joelho branco sufoque
[46:43] o nosso pescoço. E em pensar que todas essas
[46:56] histórias que compuseram nosso programa de hoje
[46:58] começaram com uma erva, Kiyo, que nunca será só
[47:01] uma simples erva, não sei se você reparou. É,
[47:05] Dr. Vito. Sim, Wagner, neste episódio
[47:09] falamos sobre uma erva potente para o cuidado com
[47:11] a saúde. E se você quiser saber mais
[47:14] sobre as propriedades medicinais da Kiyo, leia a
[47:17] monografia da espécie Ósimo Gratíssimo, publicada pelo
[47:22] Ministério da Saúde em 2015, que contou com a
[47:25] contribuição do professor Igor Gesser, para a sua
[47:29] elaboração. A gente te aguarda para o
[47:34] terceiro episódio. A erva, da vez, é um burana
[47:37] searense, um um burana de cheiro. Você
[47:40] também vai conhecer melhor a experiência da farmácia
[47:43] da terra e debater conosco sobre alguns aspectos de
[47:47] saúde pública no nosso país, do que tange as
[47:49] questões dos fitoterápicos. Achei
[47:54] das plantas, Cura do Corpo e da Alma, é uma produção
[47:57] da Universidade Federal da Bahia, em parceria com o
[48:00] podcast Viagem Gastronômica com o Dr. Dende.
[48:03] Esta jornada, em si que é episódio, é apoiada pelo
[48:05] Instituto Serra Apilheira, e apresentada por mim, Wagner
[48:08] Rocha, e por Dr. Victor Giorgi Inicilova. Bom,
[48:13] agora nós queremos agradecer a todas as pessoas que
[48:15] construíram o podcast junto com a gente. Nossas
[48:19] entrevistades, Dona Dalva Damiana, Dona Judith e seu
[48:23] neto Getúlio do quilombo -remanso, Vovos Sisi
[48:26] Diochala, a hipótese do Ileaché Ojunire, do terreiro
[48:31] Guarani Diochossi, Mãe Márcia, Mama e pai
[48:35] Carlinhos, a bala -cheva Omi Rocha, do Ileaché Lajo -Omi,
[48:39] Mãe Rosana do templo Tular, Oto Payayá e os professores
[48:44] Eu Desveloso e Igor Gessé. Na
[48:47] direção, Jazz da Sio. Assino
[48:51] o roteiro do episódio de hoje, Marcone Bisso. Na
[48:55] edição, Daniela E. Freire, na produção e assessoria de
[48:59] imprensa, Giancar Doso. Trilha
[49:02] sonora e tan para que o sangue nos permita ver os
[49:05] mistérios das folhas, na voz que é de Sino. Parte
[49:09] do projeto, na seiva da voz. Nosso
[49:12] social mídia editor de vídeo é Romeran Ribeiro, no
[49:16] design e na identidade visual, David Barrero. Na
[49:20] captação de áudio, Leo Conceição, Omi Bulu, Tainan
[49:24] Pacheco, Vilami Dejanda. Na assessoria científica, Daisy
[49:28] Villas -Boas, Márcia Silva, Ravena Nascimento, Clarice
[49:32] Schittini, Susana Braga, Rafael Short, Flores Valdo
[49:36] Ramos, Lucas Oliveira, Mariana Pepe e Victor
[49:39] Diogini Silva. Na locução das citações do
[49:42] episódio de hoje, Jesse da Silva e Romeran Ribeiro.
[49:45] Nossos agradecimentos também aos
[49:47] mentores, Sara Zaubel e Thel Rupres, e ao nosso
[49:50] podcast parceiro, e à agenda astronômica com o
[49:53] doutor Dendê. Os episódios foram gravados no
[49:55] estúdio Argumento 3 com o técnico de som, Adson
[49:58] Santos, e a sonoplastia do freestyle .org. Financiamento,
[50:03] Instituto Serra Piliheira. Um
[50:05] cheiro e até a próxima. Ei,
[50:08] volta aqui. Alunos saíram da sala de aula
[50:10] antes da aula acabar. A gente não pode fechar esse
[50:13] episódio antes de ver a Kiyoyo no quintal de Dona
[50:16] Judite e de seu neto Getúlio. O
[50:19] que é de cão? Ah, é uma joia que é séria,
[50:21] gente. Dá uma fofaca, o cheiro. Você
[50:23] bota na comida no piche. Ah,
[50:25] é uma fofaca. Aqui é a evacidreira. Agora
[50:27] você sabia que tem gente que chama a Kiyoyo e
[50:30] também é uma fofaca? É, é da minha família. Mas
[50:33] não sabe que a fofaca é aquela branca dele. Fazer
[50:37] a comida também? Sim, é boa para botar em. O
[50:39] cheiro dela é diferente. É diferente mesmo. Um
[50:45] pelo cheiro já dá para ver. Aqui
[50:46] é o que eu vou. Pode botar na gala. Aqui
[50:47] é o que eu joguei. Aqui é o que carregou. Aqui
[50:49] é a sepulginha. Aqui é o que eu ouvi. Aqui
[50:52] é o que eu ouvi. Aqui é o que eu ouvi. Olha
[50:53] o que é o dia da semente dele. Olha
[50:55] o dia da semente. Aqui é o que eu ouvi. Aqui
[50:57] é o arca -lão. Aliás, a Bezata está assim também.

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