# T1 - Episódio 5 - Folha da Costa

An episode of [Axé das Plantas - Cura do Corpo e da Alma](https://invisiblenetwork.ai/podcast/1849155267), 29 Aug 2024, 1 h 05 min.

Audio: https://anchor.fm/s/f81c3d6c/podcast/play/91019076/https%3A%2F%2Fd3ctxlq1ktw2nl.cloudfront.net%2Fstaging%2F2024-7-29%2Fcf571157-9445-9754-ea95-3ec6b8aa79fb.mp3

Odundun ou Folha da Costa é uma erva amplamente empregada no cotidiano das casas de axé, seja por seus efeitos no equilíbrio psicofísico ou na saúde global. Na cultura popular, é conhecida como: folha da costa; coerama; coerana; coirama; erva da costa; folha-grossa; orelha-de-monge; oirama branca; e Saião. Nesse episódio, firmamos compromisso de reconhecer as contribuições e saberes das mulheres na sabedoria sobre as folhas, nas práticas curativas e restaurativas, na pesquisa, sistematização e produção de conhecimento. Não são tantos os estudos que realizaram experimentos de atividade farmacológica com a Folha da Costa, um deles sugere que a planta possa ser usada para tratamento de infecções intestinais, visto que extrato de suas folhas demonstrou ação antibacteriana in vitro contra salmonela e também ação antioxidante. Em outro estudo, a sua ação antioxidante foi demonstrada juntamente com a ação anti-inflamatória e ambas atribuídas a ação dos flavonoides presentes em suas folhas, que através destas ações conseguiram proteger o estômago de ratos de laboratório contra gastrite induzida por etanol.

## Transcript

[0:00] Agô! Pedimos licença para entrar em
[0:03] sua casa. Este é o quinto episódio da
[0:06] série Axé das Plantas, cura do corpo e da alma.
[0:10] Para abrirmos os trabalhos e conversas deste novo capítulo,
[0:14] vamos lembrar um pouco sobre Ossãe, orixá do qual falamos
[0:18] bastante no quarto episódio. Ossãe recebe as atribuições de
[0:22] médico pelas curas que promove, e botânico também.
[0:27] Ele é quem domina todo o conhecimento das folhas.
[0:30] Do seu saber, dependem os outros orixás.
[0:34] E falamos de Ossain no masculino.
[0:37] Mas durante as pesquisas para este episódio, chegamos até uma
[0:40] obra. Ossain, os segredos e mistérios
[0:43] das folhas sagradas, de Alzenide Freitas Tomás, Odomiro Oxodum.
[0:50] Fruto de estudo, o livro reúne depoimentos de mães de santo das
[0:54] margens do rio São Francisco. E para algumas das Yalorixás
[0:58] citadas na obra, Ossãe é a senhora das flores.
[1:03] Em seu depoimento, uma enterezinha do terreiro Centro
[1:06] de Ogum conta que Ossãe possui um arquétipo feminino justamente
[1:10] porque é quem cura e cuida. E sua energia se dá em
[1:14] equilíbrio entre masculino e feminino.
[1:24] Este é o último episódio da primeira série do podcast Axé
[1:27] das Plantas, que vai compartilhar as contribuições e
[1:30] reflexões sobre a Odumdum, uma planta considerada feminina
[1:35] pelas religiões de matriz africana, que é mais
[1:38] popularmente conhecida como Folha da Costa.
[1:42] Mas também vamos abordar o feminino de forma mais ampla,
[1:45] trazendo ialorixais, as líderes quilombolas, as griotes e
[1:50] rezadeiras. Também participam do episódio
[1:55] mulheres negras cientistas e empreendedoras.
[2:02] Eu sou muito apaixonada, porque ela é uma planta que está em
[2:04] todos os lugares. Então, a gente vai estar falando
[2:08] do sagrado feminino, porque é uma planta feminina.
[2:12] É uma planta de herói, é uma planta calma, é uma planta de
[2:16] tranquilidade. E essa tranquilidade, essa paz é
[2:20] que me constitui, enquanto uma mulher negra, periférica, vinda
[2:24] de uma família matriarcal, Antes de apresentar essa nossa
[2:33] entrevistada, é oportuno falar um pouco de Oxum, conhecida por
[2:38] ser uma grande mãe, uma iabá. Mas Oxum é mãe que não abre mão
[2:43] de ser mulher, nem do cuidado consigo própria.
[2:47] Oxum sabe que para cuidar do outro, é preciso estar bem.
[2:52] Oxum carrega seu espelho, seu ABB, não como um símbolo de
[2:57] beleza, como o Ocidente interpretou, mas o espelho nos
[3:01] permite ver, conhecer a si e ver além.
[3:07] Gente, a gente só pode dar o que a gente tem.
[3:09] Se eu tenho beleza, eu vou ofertar beleza.
[3:11] Se eu tenho autocuidado, eu vou ofertar cuidado.
[3:14] Então, é uma analogia, uma metáfora incrível, porque as
[3:19] pessoas têm uma dificuldade de se perceber, de se olhar.
[3:23] E entender como é que ela se processa nos espaços.
[3:27] É sempre apontando para o outro e botando na mão do outro a
[3:30] responsabilidade que é sua. Então, esses questionamentos de
[3:34] que ela não cuida dos filhos porque fica cuidando de si, etc.
[3:38] Ou ainda beirando o egoísmo. Não.
[3:41] É auto-amor, é auto-cuidado. É o que nós estamos precisando.
[3:46] Isso está no contexto de saúde. Se eu me percebo, se eu sei quem
[3:51] eu sou, fica muito mais fácil para lidar com a diversidade da
[3:54] vida. Fica muito mais fácil para
[3:56] reconhecer no outro ou na outra as potencialidades da
[3:59] diversidade. Porque lidar com o outro é mais
[4:01] sobre mim do que sobre o outro. E a gente precisa ter isso
[4:04] claro. para poder seguir nessa diversidade, porque senão as
[4:08] coisas não funcionam. E as plantas trazem esse lugar,
[4:12] elas cuidam. Então, quando eu estou TPM,
[4:17] etc., eu sei que eu posso contar com manjericão, eu sei que eu
[4:20] posso contar com tomilho, eu sei que eu posso contar com orégano,
[4:23] porque ele vai me ajudar a manter a tranquilidade.
[4:26] Eu não vou ter o desconforto da cólica menstrual, o fluxo vai
[4:29] sair tranquilamente. E eu vou estar mais tranquila,
[4:32] mais hipoativa, porque ele vai promover uma vasodilatação no
[4:36] meu corpo, no útero. Então, vai ficar tudo suave.
[4:38] Porque o que é que promove a cólica?
[4:40] A retenção. Então, eu fico travada.
[4:43] Então, eu vou ter que botar compressa de água quente para
[4:45] poder relaxar toda a região do útero, para poder fazer o fluxo
[4:50] fluir. A beleza de Oxum é sobre poder
[4:55] também, sobre inteligência, estratégia, elegância,
[5:00] diplomacia. Oxum é senhora de todos esses
[5:03] territórios, tanto quanto a doutora Sueli Conceição, uma
[5:07] mulher preta, eleita deusa do ébano do Ilê em mil novecentos e
[5:12] noventa e nove, bióloga, fitoterapeuta e enfatizo,
[5:17] empreendedora através dos seus conhecimentos sobre as plantas.
[5:20] como Seou, da Yaomi Cosmética Natural, marca de fitocosméticos
[5:26] e idealizadora do projeto Boticarol.
[5:29] Para quem está nos ouvindo e não sabe o que é uma deusa do ébano,
[5:33] vale a pena explicar um pouquinho aqui.
[5:36] Em meados dos anos setenta, nasceu o primeiro bloco afro, o
[5:39] Ileaie, que por dentro do carnaval denunciou o racismo
[5:44] existente naquela festa. E mais que denunciar, celebrou a
[5:48] existência das pessoas negras, E celebrou também a beleza das
[5:53] mulheres negras, num concurso que é absolutamente político.
[5:58] E a cada ano, escolhe uma deusa, a deusa do ébano.
[6:12] E assim, a minha missão, a minha função de mundo, o meu propósito
[6:16] é esse o caminho. É o caminho das ervas, lidar e
[6:19] fazer essa conexão com o sagrado, com o físico, com o
[6:25] energético. Como é que as pessoas podem se
[6:28] irmanar nessa função, nessa ação com as plantas.
[6:33] Então, eu fico muito emocionada, de fato, de estar falando da...
[6:38] das plantas, porque faz parte de mim.
[6:42] Então, hoje, principalmente, para falar sobre a folha da
[6:45] costa, que é uma folha que eu sou muito apaixonada.
[7:00] Sejam bem-vindas, bem-vindos e bem-vindes ao Axé das Plantas,
[7:04] cura do corpo e da alma. Uma produção da Universidade
[7:07] Federal da Bahia, em parceria com o podcast Viagem
[7:10] Gastronômica com o Dr. Dendê. Essa jornada em cinco episódios
[7:15] é apoiada pelo Instituto Serra Pilheira.
[7:17] Vamos nessa? Olá, eu sou o Dr. Victor Jorge
[7:22] Nisilva e esse é o podcast Axé das Plantas, cura do corpo e da
[7:27] alma. Da bancada do Laboratório de
[7:29] Neurofarmacologia, eu me uno às comunidades tradicionais da
[7:33] Bahia para dialogar sobre plantas medicinais.
[7:37] E não estou só. Eu, Wagner Rocha, do podcast
[7:41] Viagem Gastronômica com o Dr. Dendê, estarei junto com o Dr.
[7:45] Victor e com você nessa viagem entre mundos que até parecem
[7:48] distantes, mas lá no fundo, quando a folha vira...
[8:01] Este é o último episódio da nossa primeira temporada.
[8:05] E ao longo desse episódio, vamos trançar as vozes das mulheres
[8:08] que ouvimos, seus conhecimentos, seja no laboratório, seja nos
[8:13] terreiros, seja no cuidado da saúde, seja no cuidado do
[8:16] espírito. A sabedoria que se dá na labuta
[8:19] diária com as folhas, tendo nelas fonte de equilíbrio, de
[8:23] tratamento e fortalecimento. Neste episódio, firmamos
[8:28] compromisso de reconhecer as contribuições e saberes das
[8:31] mulheres negras, na sabedoria sobre as folhas, nas práticas
[8:35] curativas e restaurativas, na pesquisa, sistematização e
[8:39] produção do conhecimento. Teremos uma discussão de fôlego,
[8:44] a partir do pensamento de mulheres potentes, mas antes, é
[8:48] hora de conhecermos mais sobre a Folha da Costa, tema central
[8:52] dessa edição. A odundum é uma erva amplamente
[8:56] empregada no cotidiano das casas de Axé, seja por seus efeitos no
[9:00] equilíbrio psicofísico ou na saúde global.
[9:05] É a folha da costa, que é ligada ao xalufã.
[9:14] A natureza deles são diferentes. Essa folha aqui, a maioria das
[9:20] vezes, se usa nessa situação aqui para a dor de cabeça.
[9:29] Se pega um pano branco, se cobre a cabeça com ela, a parte da
[9:34] fronte se cobre e se deita. Essa folha aqui.
[9:40] Ela fica completamente seca. E ela entra, quando se vai fazer
[9:46] a água de Oxalá, ela entra para lavar os axés de Oxalá.
[9:53] E para as pessoas especialmente de Oxalá.
[9:59] Porém, ela pega para os outros orixás para acalmar a natureza.
[10:07] Essa voz você já ouviu em nossos episódios anteriores.
[10:11] É vovó Sissi de Oxalá. É bôme do terreiro Ileaxéu
[10:15] Poaganjú e contadora de histórias afro-brasileiras.
[10:20] Ela nos contou um pouco do que sabia da Folha da Costa e seus
[10:23] usos. Na cultura popular, é conhecida
[10:27] como folha da costa, coerama, coerana, coirama, erva da costa,
[10:33] folha grossa, orelha de monge, oerama branca e saião.
[10:39] Já o seu nome científico é Calanchoe brasiliense scambes.
[10:43] Muito cuidado para não a confundir com outra planta do
[10:46] gênero Calanchoe, que aqui no Brasil alguns também chamam de
[10:50] saião ou até mesmo da folha da costa. mas que é mais famosa
[10:56] pelo seu nome Folha da Fortuna. E tem nome científico Calanchoe
[11:00] pinata. Eu particularmente não acho ela
[11:04] muito parecida com a Calanchoe brasilienses.
[11:08] A pinata tem folhas maiores e bordas com desenhos marrons, que
[11:13] não encontramos na Folha da Costa.
[11:15] Se quiserem ver a diferença entre elas, dá um pulinho lá nas
[11:19] nossas redes sociais. Deixamos fotos comparativas para
[11:22] vocês. O gênero Kalanchoe tem cento e
[11:26] trinta e três nomes de espécies aceitos, mas apenas dezenove
[11:30] espécies tiveram o uso popular descrito na literatura.
[11:34] A Kalanchoe pinata também apresenta propriedades
[11:37] medicinais. Em geral, as espécies do gênero
[11:41] Kalanchoe são muito usadas na medicina popular para tratar
[11:45] feridas, câncer, diabetes, infecções e inflamações.
[11:51] Hum, pelo nome da Calanchoe brasiliense, já dá pra prever
[11:55] que se trata de uma planta originária do Brasil, certo?
[11:57] Exato, doutor Dendê. Enquanto a Calanchoe pinata é
[12:01] nativa do Madagascar. Eba!
[12:04] Eu adoro essa parte. É a parte que eu mais gosto
[12:06] quando você começa a explicar as propriedades medicinais.
[12:09] Eu aposto que é a hora que a galera anota no caderninho ou no
[12:11] bloco de notas do celular. Então vamos lá.
[12:14] Peguem o caderno e tomem nota. Ambas as espécies têm um uso
[12:19] popular bem parecido. Até porque, como eu disse, há
[12:23] uma confusão entre o reconhecimento delas.
[12:26] Mas já vou alertando. Existem estudos comparativos que
[12:29] mostram que a composição química de suas folhas não é igual.
[12:33] Inclusive teve um estudo que demonstrou que a Brasiliensis
[12:36] apresenta flavonoides glicosilados derivados da
[12:39] patoletina e opafolina. Enquanto que a Pinata apresenta
[12:44] patoletina, opafolina, quercetina e campiferol.
[12:48] Ô, você tá me xingando, né? Para ser mais didático, vou
[12:52] manter minha fala explicando apenas sobre a versão
[12:55] brasileira, que afinal de contas foi a que levamos para o
[12:58] reconhecimento por nossos entrevistados.
[13:01] Não são tantos os estudos que realizaram experimentos de
[13:04] atividade farmacológica com a folha da costa, mas podemos
[13:08] citar alguns testes pré-clínicos com resultados muito
[13:11] interessantes aqui. Um deles sugere que a planta
[13:16] possa ser usada para o tratamento de infecções
[13:18] intestinais, visto que o extrato de suas folhas demonstrou a ação
[13:23] antibacteriana in vitro contra a salmonela e também uma ação
[13:27] antioxidante. Em outro estudo, a ação
[13:31] antioxidante foi demonstrada juntamente com a ação
[13:33] anti-inflamatória. e ambas atribuídas à ação dos
[13:37] flavonoides, aqueles presentes em suas folhas, que através
[13:41] dessas ações conseguiram proteger o estômago de ratos de
[13:44] laboratório contra a gastrite induzida por etanol.
[13:48] Hum, já que a folha da costa protegeu o estômago dos ratinhos
[13:52] contra o etanol, será que ela é boa também para curar ressaca?
[13:55] Olha, te garanto que é excelente para a desidratação.
[13:59] Além disso, a descoberta da ação anti-inflamatória contribui para
[14:03] a compreensão do seu benéfico uso no tratamento de ferida
[14:06] pelos populares, uma vez que também foi demonstrado o seu
[14:11] envolvimento no controle de edema de patas induzido em
[14:14] camundongos de laboratório. É nossa folha que não pode
[14:20] faltar em nossas feituras, em tudo.
[14:23] Então, a folha é a folha que casa nenhuma pode ficar sem.
[14:30] Todas as casas têm que ter essa folha.
[14:33] É a folha que passa por tudo. Tudo, da comida do orixá, a
[14:40] feitura, a tudo. Então, são as folhas essenciais
[14:44] para nós. Você está sentindo muita dor de
[14:46] cabeça? Você acha que vai sair louco,
[14:49] não sei, está com a mente muito...
[14:52] Pega a folha dessa aqui. eu coloquei lá na testa ou aqui
[15:02] onde você achar que tá então essa é uma folha que é ouro
[15:12] Aprendemos no terreiro Guarani de Oxóssi, lá em Cachoeira, com
[15:16] mãe Márcia, pai Carlinhos e macota Mama, uma nova forma de
[15:20] chamar esta planta, folha do ouro.
[15:23] Nossa, eu fiquei curioso, viu, para saber como é que essa
[15:26] planta é capaz de curar dor de cabeça.
[15:29] Olha, Wagner, essa folha é bem fria e o seu contato com a pele
[15:34] traz uma sensação agradável de estar colocando uma compressa no
[15:37] local. Agora, pensando nas propriedades
[15:40] farmacológicas de seus metabólitos secundários,
[15:43] buscamos bastante na literatura, mas te digo que vai ser difícil
[15:48] trazer uma explicação por completo aqui.
[15:50] Até porque existem muitos tipos de dor de cabeça, que variam em
[15:55] função da sua causa primária, assim como o seu tratamento.
[15:59] De forma geral, analgésicos são utilizados para o controle da
[16:03] dor. Nesse sentido, encontramos um
[16:06] estudo com o extrato da folha da planta rico em flavonoides, que
[16:10] demonstrou o efeito antinociceptivo, ou seja, no
[16:15] controle da dor. Neste estudo, o estrado foi
[16:19] testado em zebrafish, uma espécie de peixe muito usada
[16:23] como animais de laboratório. Respira, doutor Vito, bebe uma
[16:27] aguinha, porque eu já vi que a lista de propriedades medicinais
[16:30] da Folha da Costa é grande, né? Obrigado.
[16:33] Olha, gente, vocês estão vendo aqui o meu parceiro experiente
[16:37] em apresentação, preocupado com minha voz.
[16:40] Bebi um gole d'água aqui para falar o restante da lista.
[16:43] Neste momento, preciso destacar a atividade antibacteriana in
[16:47] vitro da folha da costa, que tem surpreendido os cientistas,
[16:51] porque tem sido capaz de inibir o crescimento de
[16:53] micro-organismos com diferentes perfis de resistência a
[16:56] antibióticos. E, novamente, se destacando pelo
[16:59] potencial para o tratamento de salmoneloses.
[17:02] Como sempre lembramos, essas potenciais indicações
[17:06] terapêuticas foram levantadas pela nossa equipe técnica, pois
[17:09] estudos em células ou em animais de laboratório já constam na
[17:13] literatura da farmacologia. Mas não encontramos nenhum teste
[17:17] clínico, ou seja, realizado em pessoas, e ressaltamos que
[17:21] qualquer uso de plantas medicinais merece orientação.
[17:25] seja por meio da medicina tradicional ou medicina
[17:27] integrativa, bem como junto aos saberes tradicionais e todo
[17:31] acúmulo que as medicinas dos terreiros e medicinas indígenas
[17:34] guardam sobre nossas ervas. Dona Judite é uma rezadeira e
[17:48] raizeira, praticante do jarê, religião de matriz
[17:51] afro-brasileira presente na Chapada Diamantina.
[17:55] Escutamos sua voz em episódios anteriores, na visita que
[17:59] fizemos em sua casa, lá no quilombo do Remanso, em Lençóis.
[18:03] Dona Judite transmitiu seus saberes de cura pelas ervas para
[18:07] filhas e netos. Levamos a Folha da Costa para
[18:10] ela nos contar um pouco sobre seu conhecimento.
[18:17] Ah, agora que eu lembrei, é mesmo, é verdade.
[18:20] É Folha da Costa mesmo, é boa para tudo quanto é coisa essa
[18:24] folha. É boa pra quê?
[18:27] É pra tudo que você sentir, que é a folha da costa.
[18:30] Mas, moço, quantos anos que eu não vejo.
[18:34] Eu vi ela em lençóis lá no quintal da senhora lá.
[18:38] Eu fui lá, mas as meninas cheguei no quintal e eu vi.
[18:41] Tem muitos anos que eu não vejo. Ou seja, não é tão fácil
[18:45] encontrar a folha da costa aqui na região, é?
[18:48] É fácil encontrar? Não.
[18:52] Na mata não? Não, na mata não.
[18:53] É de quintal. Dona Judite reconheceu a planta
[19:02] e seu neto Getúlio até nos falou sobre empregar a fúria da costa
[19:06] no tratamento de pessoas com estresse e confusão mental.
[19:10] Victor, como é possível entender o mecanismo dessas ações do
[19:13] sistema nervoso citadas por Getúlio?
[19:16] Vou aproveitar a sua pergunta, Wagner. para dar uma dica aqui
[19:19] para os colaboradores que buscam novos fármacos para o tratamento
[19:22] da doença de Alzheimer. Porque a inibição da enzima
[19:25] acetilcolinesterase ainda é uma das principais estratégias
[19:28] usadas para reduzir sintomas relacionados, como a confusão
[19:32] mental. E um estudo demonstrou que o
[19:34] extrato da folha da costa é capaz de inibir essa enzima.
[19:53] Sueli revela para a gente a potência dos da Folha da Costa,
[19:57] tanto nos processos psicofísicos quanto na dimensão da saúde do
[20:01] corpo. E para nós do Canoblé, era
[20:04] ótimo. Herói é aquela planta que
[20:07] acalma, que é hipotensora, que relaxa, que faz com que você
[20:11] durma. Então, é importante,
[20:14] principalmente nos processos iniciáticos, que a gente tem que
[20:17] estar bem tranquilo. Todos nós precisamos estar
[20:20] tranquilos para poder usar. E é uma planta usada muito na
[20:23] cabeça, que é uma planta muito direcionada ao xalá.
[20:26] Então, o xalá é que acalma tudo, que abranda tudo para poder a
[20:30] gente fazer. Do ponto de vista físico, ela
[20:34] pode ser utilizada para problemas de pele.
[20:38] Ela é muito comum utilizada em problemas de pele.
[20:44] Furúnculo eu já usei muito. E também pode fazer lambedor
[20:49] para pessoas que têm coqueluche. para quem está com aquele monte
[20:53] de muco, a função das tosses, gripes muito fortes, problemas
[20:57] respiratórios, porque ela tem um potencial anti-inflamatório bem
[21:00] grande. Então, ela é utilizada nesse
[21:03] contexto também. Então, é uma planta que merece
[21:06] todos os meus respeitos, não que as outras não mereçam, mas a
[21:09] depender do contexto. Aí as pessoas perguntam, ah, mas
[21:13] você pega várias plantas e elas têm os mesmos princípios ativos.
[21:15] Eu falo assim, sim, cada uma tem, mas uns mais, outros menos,
[21:20] e por isso que a gente trabalha muito também com a
[21:22] biocompatibilidade, o que é que pode fortalecer dentro daquela
[21:26] necessidade daquele corpo. Por isso que, inclusive, a
[21:28] análise da fitoterapia que a gente faz, a anamnese, é
[21:32] entender como é que funciona aquele corpo para ver exatamente
[21:35] quais são as senhoras que vão atuar ali, operando nos
[21:38] processos. Então, A Odumdum é muito firme,
[21:46] ela é muito forte nesse cenário. Vale trazer um dado interessante
[21:56] de um estudo publicado na Revista Brasileira de
[21:58] Farmacognosia. Se trata de um estudo realizado
[22:01] por pesquisadores de João Pessoa, no Hospital Infantil
[22:05] Arlinda Marques, no início dos anos dois mil.
[22:08] Se observou que vinte e sete vírgula três por cento dos pais
[22:13] trataram suas crianças com plantas medicinais antes de
[22:16] darem entrada no hospital. E quarenta e um vírgula sete por
[22:20] cento dos pais associaram o uso das plantas medicinais com
[22:23] alguma medicação alopática. Essa observação reitera a
[22:28] relação intrínseca entre a utilização da fitoterapia de
[22:32] maneira popular e acessível. Mas o estudo também chama a
[22:36] atenção para o fato de que é muito importante ter cuidado com
[22:39] essa combinação, a fim de evitar intoxicação.
[22:43] Esse é um ponto de muito cuidado.
[22:46] Riscos de intoxicação por conta de uma combinação.
[22:49] Esse estudo também demonstrou que a imensa maioria dos pais
[22:53] não informam aos profissionais de saúde sobre o uso das
[22:55] plantas. Isso dificulta muito que os
[22:58] profissionais possam prevenir riscos da interação entre
[23:00] medicamentos naturais e alopáticos.
[23:03] E por outro lado, essa falta de informação faz com que os
[23:06] profissionais não possam reconhecer os efeitos benéficos
[23:09] dessas associações. Mas um dado interessante dessa
[23:12] pesquisa é que entre as folhas empregadas pelos pais para
[23:15] sintomas de pneumonia, lá estava a folha da costa.
[23:19] E em suas respostas, os pais relataram melhora dos sintomas.
[23:23] Como dissemos, a folha da costa tem ação anti-inflamatória,
[23:27] analgésica e atividade antibacteriana e antifúngica.
[23:31] Mas o sintoma da tosse persistiu, de acordo com o
[23:35] relato dos pais. Então, fica a reflexão sobre os
[23:39] benefícios que a erva tem e a importância de conhecer mais e
[23:43] informar os profissionais de saúde sobre esses usos.
[23:48] Vamos em frente! Em um artigo, a professora
[23:54] doutora Bárbara Carini refletiu sobre como mulheres negras ainda
[23:58] estão à margem nas universidades brasileiras, especialmente nos
[24:02] cursos de ciências naturais. Ela chama atenção para o fato de
[24:06] que a primeira doutora em física no Brasil, Sônia Guimarães,
[24:10] obteve seu título em mil novecentos e oitenta e nove, há
[24:14] apenas trinta e cinco anos. Ainda no seu artigo, a
[24:18] professora Bárbara Carini reflete sobre alguns dados
[24:21] recentes. De acordo com o IBGE, Instituto
[24:25] Brasileiro de Geografia e Estatística, apenas dez vírgula
[24:29] quatro por cento das mulheres negras com idade de vinte e
[24:32] cinco a quarenta e quatro anos concluem ensino superior.
[24:36] Outro dado é que apenas três por cento de docentes em curso de
[24:40] pós-graduação são negras. Já em levantamento da Unesco foi
[24:44] identificado que apenas trinta e cinco por cento das estudantes
[24:47] das ciências exatas e biológicas são mulheres, percentual que cai
[24:52] ainda mais para três por cento quando se faz o recorte para a
[24:56] ciência da informação e cinco por cento para matemática e
[25:00] estatística. Eu sou uma mulher negra, de pele
[25:07] clara, estou aqui com os cabelos cacheados, barra-crespos, tenho
[25:12] olhos pequenos, esticadinhos, uma boca grande, negroide, estou
[25:17] com vestido rosa goiabe, um colar e sou professora do
[25:22] Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal da
[25:24] Bahia, Departamento de Biomorfologia e sou membra da
[25:28] Rede Brasileira de Mulheres Cientistas.
[25:35] Esta é a professora doutora Deise Vilas Boas, professora
[25:38] associada do Departamento de Biomorfologia do Instituto de
[25:42] Ciências da Saúde da UFBA e membra da equipe de assessoria
[25:45] científica do nosso podcast. Como o Vitor relatou no quarto
[25:49] episódio da nossa série... Ao longo do processo de
[25:52] construção dos nossos roteiros, nossa equipe de assessoria
[25:55] científica, formada por pesquisadores e pesquisadoras da
[25:58] UFBA, alimentava uma ficha catalográfica sobre as espécies
[26:02] de plantas que trouxemos ao longo desta primeira temporada.
[26:06] A professora doutora Deise, juntamente com a professora
[26:09] doutora Clarice Schettini, foram as responsáveis por alimentar as
[26:13] informações sobre a Folha da Costa.
[26:15] Aproveitamos que a querida Deise é um profissional com
[26:17] conhecimentos notórios transdisciplinares e a
[26:20] convidamos para gravar entrevista com ela, para
[26:23] refletir sobre o status da mulher negra na ciência.
[26:28] Eu queria bonecas dentistas desde pequenininha, pedia para
[26:33] minha mãe, que foi a carreira que eu fiz, eu sou cirurgiã
[26:36] dentista, e da mesma forma como foi inevitável me tornar
[26:39] professora, que aí foi esse retorno ao começo, que apesar de
[26:45] eu ter cursado a graduação em odontologia, eu acabei me
[26:49] tornando professora de universidade pública, inspirada
[26:53] pela minha mãe, que sempre foi professora de crianças.
[27:00] Perguntamos à professora Deise Vilas Boas como ela enxerga o
[27:03] contexto da desigualdade entre mulheres e homens na ciência,
[27:07] especialmente quando acrescentamos a dimensão racial,
[27:11] que por tanto tempo interditou o acesso de pessoas negras ao
[27:15] ensino superior e à carreira acadêmica e na pesquisa.
[27:21] A gente tem um processo de conquista de direitos das
[27:24] mulheres que é muito, assim, relativamente recente, né?
[27:28] Então, se a gente for parar para pensar que somente em mil
[27:32] novecentos e trinta e dois as mulheres podiam votar, puderam
[27:36] votar, quer dizer, votar com a autorização do marido, né?
[27:39] Só em mil novecentos e trinta e quatro que elas puderam, que nós
[27:42] mulheres pudemos votar. sem autorização do marido e outras
[27:47] informações também bastante drásticas até em mil novecentos
[27:51] e sessenta e dois as mulheres não podiam abrir conta em banco
[27:55] e nem escolher uma carreira e enfim estudar sem autorização do
[28:00] marido Deise fez o exercício de relembrar o percurso da
[28:09] construção de direitos das mulheres no Brasil, mas agregou
[28:13] esse exercício à noção de interseccionalidade.
[28:17] Interseccionalidade nos permite compreender que alguns grupos ou
[28:20] categorias sofrem maiores desafios na medida em que se
[28:23] entrecruzam. Se mulheres têm uma desvantagem
[28:27] salarial histórica com relação aos homens, mulheres negras
[28:31] lidam com os desafios impostos de gênero e raça.
[28:34] Ainda hoje, mulheres trans enfrentam estigma e
[28:37] marginalização. Até não muito tempo atrás, era
[28:41] praticamente impossível vê-las inseridas no mercado de
[28:44] trabalho. Somente em dois mil e dois, a
[28:47] ausência de virgindade deixou de ser crime no Brasil, das
[28:51] mulheres, né? Somente a partir de dois mil e
[28:53] dois, o marido pode deixar de solicitar a anulação de um
[29:01] casamento, alegando que a mulher não era mais virgem, né?
[29:04] E se a gente for parar, porque eu acho que um dos dados mais
[29:07] chocantes é que até dois mil e quinze, outro dia, uma mãe não
[29:13] tinha o direito de registrar sozinha o seu próprio filho, sua
[29:17] própria filha, sem autorização do pai.
[29:20] Nos primeiros quinze dias de vida, então, dessa criança.
[29:24] Então, assim, o processo de construção de direitos de
[29:27] mulheres no Brasil é um processo que tem sido longo, Agora, para
[29:34] a gente tratar da inserção de mulheres nas ciências, a gente
[29:38] precisa falar de um conceito mais amplo de mulheres, que
[29:43] engloba quem são essas mulheres. Porque a gente fala simplesmente
[29:50] de uma questão de disparidade, de desigualdade de gênero, que
[29:54] ela é grande no Brasil e em diversas regiões do mundo
[29:57] também. Mas quando a gente fala de
[30:00] determinadas mulheres, de determinadas sobreposições de
[30:04] condições, de existências, de outros segmentos que a gente
[30:09] chama hoje de interseccionalidades, mas se a
[30:12] gente pensar que existem desigualdades e abismos de
[30:17] parâmetros dentro da carreira científica, desde a graduação
[30:21] até os outros espaços de decisões políticas entre
[30:24] mulheres e homens, então o que pensar quando essa mulher é uma
[30:27] mulher negra, por exemplo? ou quando ela é uma mulher
[30:32] dentro de um contexto de gênero e diversidade sobreposto por
[30:36] exemplo quando ela é uma mulher lésbica ou quando ela é uma
[30:41] mulher transgênero sequer temos dados para avaliar no Brasil por
[30:47] exemplo atualmente a inserção de mulheres transgênero nem números
[30:53] existem para a gente dimensionar a gente sabe que é muito pouco
[30:58] mas a gente não tem E eu queria também chamar a atenção das
[31:04] mulheres PCDs. Então, a gente vai trazendo
[31:08] essas existências, todos esses corpos, que a gente prefere até
[31:13] chamar de corpas, essas corpas. E à medida que a gente vai
[31:18] adicionando cada um desses pertencimentos a essas mulheres,
[31:24] a gente tem comentários distintos a serem feitos.
[31:31] A construção dos direitos é lenta e, por isso, uma tarefa
[31:35] permanente. A conquista dos direitos não
[31:38] representa um lugar absolutamente seguro, mas um
[31:41] lugar que precisa ser assegurado e garantido pela luta de toda a
[31:45] sociedade, não exclusivamente das mulheres.
[31:58] Ao longo dos episódios do Axé das Plantas, falamos sobre o
[32:01] quanto a ciência não é neutra. Falamos sobre racismo
[32:05] científico, falamos sobre epistemicídio, ao mesmo tempo
[32:08] que falamos sobre ramos recentes da biologia e da farmacologia
[32:13] que consideram as dimensões étnicas, como a
[32:15] etno-farmacologia e todo o conhecimento sistematizado em
[32:19] diálogo com os povos tradicionais.
[32:23] Neste episódio, queremos também mostrar empreendimento feminino
[32:27] através do poder das folhas e o cuidar da saúde através do
[32:31] autocuidado. Sueli é cientista e
[32:35] empreendedora em cosmetologia natural, desenvolvendo produtos
[32:40] que empregam o dendê e outros materiais orgânicos muito
[32:43] tradicionais na África e diáspora.
[32:46] Mas seu olhar técnico e profissional também é
[32:49] atravessado pela sua condição de alorixá, compreendendo dimensões
[32:53] psicofísicas para as folhas e ervas.
[32:57] Seus comentários se dão nessa encruzilhada epistêmica que
[33:00] modula todos os nossos episódios.
[33:05] Minha avó deu certo, eu dei certo.
[33:07] Estou aqui para honrar... o seu legado, suas preocupações.
[33:12] Então, eu estou sendo gente nessa representatividade.
[33:16] Então, ver minha avó lavar roupa, inclusive eu vou até
[33:19] fazer umas crônicas da vovó Camila, porque ela tem umas
[33:22] tiradas, tem uns digitados, umas cantigas que ela fazia na época
[33:25] que lavava roupa. Era incrível porque ela usava a
[33:28] pachulí para aromatizar a roupa dos clientes.
[33:31] Ela fazia sabão. com as cinzas, porque tem toda a tecnologia
[33:35] própria de lavar roupa, de tirar, dar o primeiro enxágue, e
[33:39] depois botar para ferver, botar para aquarar e usar anil.
[33:42] Então, tem muita informação que hoje as pessoas não vivem mais
[33:46] por diversos motivos. E um deles, por conta da
[33:48] especulação imobiliária, que acabou com todas as áreas verdes
[33:50] em torno das nossas casas que estavam nos nossos bairros.
[33:53] Antigamente, toda casa que se preservava tinha um jardimzinho
[33:55] na frente, mas não era qualquer jardim ornamental.
[33:59] Era jardim de pitanga, era jardim de acerola, era jardim de
[34:02] hortelã grosso, de quioiô, era jardim de oriri, era jardim de
[34:07] queba-pedra. Então, eram essas plantas que
[34:11] compunham os jardins. E hoje você tem alguns jardins
[34:15] mas com plantas ornamentais, que não têm essa reflexão do
[34:20] contexto da saúde, do bem-estar, que a gente pode se curar.
[34:25] Então, diante desse contexto, eu sempre vi a minha avó, por
[34:28] exemplo, curando todos nós da doença do tempo com aquelas
[34:32] ervas. E tinha sarampo, então pegava
[34:34] sabugueiro, ficava gripado e pegava maria preta e fazia todas
[34:38] as misturas das plantas. Utilizava a folha da costa, por
[34:42] exemplo, para poder tirar os mucos dos catarros para
[34:44] espectorar. Então tinha aquela história dos
[34:47] furúnculos, aí pegava a folha da costa, que aquecia junto com
[34:51] óleo de amêndoa, óleo de coco, colocava em cima para poder
[34:53] puxar a drenagem do furúnculo. E, assim, é essa memória, esse
[35:00] fazer, que a gente via que dava certo, que eu venho constituindo
[35:03] até hoje. E quando a gente percebe, né, e
[35:05] vendo para o campo acadêmico, esses princípios ativos que
[35:08] estão ali compostos e que ele reflete muito nesse cuidado
[35:12] físico, então, os saberes tradicionais com os saberes
[35:16] científicos, eles se complementam.
[35:19] Sueli Conceição observou que muitos dos princípios do cuidado
[35:23] e do respeito à natureza estavam se perdendo por conta da lógica
[35:26] de produtividade capitalista. Em alguns dos nossos episódios,
[35:31] nossas fontes falaram bastante sobre esse respeito no modo de
[35:34] extrair as folhas, o pedido de licença na entrada nas matas e
[35:38] florestas, que diz totalmente respeito à necessidade de
[35:42] compreender as dimensões dos ciclos da própria natureza.
[35:46] A bióloga observou que para aumentar a produtividade de
[35:49] determinadas plantas, elas eram submetidas à exaustão e ao
[35:53] sofrimento. E esse tipo de lógica contrasta
[35:56] com a busca de equilíbrio das religiões de matriz africana.
[35:59] E foi aí que a cientista percebeu um caminho fértil para
[36:02] empreender, que traçou um projeto para o desenvolvimento
[36:06] de produtos em cosmetologia natural dentro dessa lógica de
[36:10] cuidado e respeito. empregando materiais cultivados dentro dos
[36:14] terreiros de candomblé da Bahia. E foi assim que nasceu a
[36:18] Boticarol, iniciativa contemplada por um edital
[36:21] público de afroempreendedorismo, da Fundação de Amparo à Pesquisa
[36:25] do Estado da Bahia, FAPESB. Ossã é o orixá que guarda todo o
[36:41] conhecimento das folhas. E no começo, era só ele quem
[36:45] podia manipular as ervas, destiná-las para os cuidados.
[36:50] Os outros orixás tinham que lhe pedir licença, orientação.
[36:55] Tinham certa dependência. E ver tanto poder nas mãos de um
[37:00] único orixá não agradou a Xangô. Ele chamou Yansã para uma
[37:05] conversa e pediu que ela provocasse muitas ventanias para
[37:09] abalar o sangue e tomar seu reino.
[37:12] Yansã, parceira de amor, ímpeto e ousadia de Xangô, aceitou a
[37:18] bravada e trouxe tempestades de vento.
[37:22] Derrubou folhas, quebrou galhos, levou os telhados das casas,
[37:26] envergou árvores. As folhas se espalharam tanto,
[37:30] mas tanto, que foram chegando para perto dos outros orixás.
[37:35] Uma cabaça, que ficava guardada no topo da árvore, caiu.
[37:42] Nesse momento, todos os orixás se tornaram donos das folhas que
[37:47] eles procuraram pelo vento. Yansan cumpriu sua missão.
[37:52] Espalhou conhecimento. Não destronou a sangue, que
[37:56] seguiu guardando o maior poder sobre as ervas.
[37:59] Mas compartilhou o poder, que até então estava concentrado.
[38:05] Uau! Esse Itam é poderoso, hein?
[38:07] Brinca com minha mãe, rapaz. Epa, relóiá!
[38:11] E Ansan movimentou o conhecimento concentrado.
[38:14] Um jeito interessante de ver ações desencadeadas por mulheres
[38:18] diante de estruturas tão consolidadas.
[38:20] Este Itam me fez lembrar a história da minha formação como
[38:24] neurocientista. E aproveito este momento para
[38:27] deixar publicamente a minha imensa gratidão a Silvia Lima
[38:31] Costa. que foi a minha orientadora na UFBA, durante
[38:35] iniciação científica, mestrado e doutorado.
[38:38] Tenho certeza que Silvia está nos ouvindo agora e muito
[38:42] orgulhosa e feliz pelo sucesso do nosso projeto.
[38:45] E na nossa universidade, são muitos exemplos de mulheres
[38:49] genuinamente educadoras. Em nosso terceiro episódio,
[38:52] falamos um pouco sobre a saudosa professora doutora Marazella de
[38:55] Almeida, em memória. professora da Faculdade de Farmácia da
[39:00] UFBA, sobre quem desejamos voltar a falar neste episódio.
[39:04] Nos agradecimentos em seu livro Plantas Medicinais, lançado pela
[39:08] Universidade Federal da Bahia, a professora Mara Azélia escreveu
[39:12] assim, abre aspas, As minhas bisavós, Anitta, Sena e Amélia.
[39:19] As avós Rosa e Zélia. A minha adorada mãe Cida. todas
[39:25] as portadoras de herança cultural etnomédica e ancestral,
[39:29] mulheres mestiças, grandes curandeiras urbanas, matriarcas
[39:34] que me ensinaram a importância da mulher na arte de curar os
[39:37] males do corpo e da alma. Professora Marazella foi uma
[39:43] importante pesquisadora com contribuições fundamentais na
[39:47] etnofarmacologia e na fundação da Farmácia da Terra, iniciativa
[39:52] que há décadas produz informação sobre esse tema.
[39:55] Foi uma mulher do seu tempo que uniu saberes e fazeres
[39:58] ancestrais ao método científico. com dedicação e contribuição
[40:04] direta na formação de centenas de pessoas e atuação direta em
[40:08] perspectivas mais sustentáveis ambientalmente.
[40:11] Uma cientista, uma ativista, alguém que acreditou nas
[40:16] construções coletivas e seu trabalho foi fundamental para o
[40:20] desenvolvimento de uma política nacional de plantas medicinais e
[40:23] fitoterápicos, sob a coordenação do Ministério da Saúde inserida
[40:28] na política de assistência farmacêutica.
[40:34] Ficou a conhecer a professora Marazella?
[40:36] Sim, eu a conheci, inclusive trabalhamos juntas por um
[40:40] período. Infelizmente, há um ano ela nos
[40:43] deixou. Inclusive, no dia que ela voltou
[40:47] para o Orum, estava sendo lançado um projeto chamado
[40:51] Catender Folhas Sagradas. Quem estava à frente foi Lidia
[40:54] Nova de Paula. E convidou-me para poder estar
[40:58] fazendo esse processo de comunicação junto aos terreiros.
[41:01] Foi um trabalho muito incrível, muito interessante.
[41:04] Inclusive, as orientações para instituir o Projeto Rol, porque
[41:08] o Projeto Rol funciona exatamente onde funcionava a
[41:10] Farmácia da Terra. Que foi um projeto que ela fez
[41:15] na década de noventa, junto com o Mosteiro de São Bento.
[41:19] Então, nós estamos no mesmo prédio.
[41:21] No mesmo prédio e fazendo as mesmas coisas.
[41:24] Inclusive, mantivemos o mesmo layout, o balcão, toda aquela
[41:28] visão retrô que ela construiu dentro desse projeto permanece,
[41:33] que é uma forma de trazer. E com o projeto Rol nós tivemos
[41:36] um contato muito próximo, porque assim, todo o processo, por
[41:39] exemplo, centro de beneficiamento, porque a
[41:41] proposta era as plantas que saiam dos terreiros, elas têm
[41:43] que ser transformadas, inclusive para retomar aquela coisa do
[41:49] remédio tradicional. Porque muita gente para de fazer
[41:53] esses remédios e fica focado nesses contextos farmacêuticos.
[41:57] Não estou dizendo que está errado, mas a gente não pode
[41:59] deixar a tradição morrer. Então, uma dessas propostas era
[42:02] fazer esse processo de desidratação, fazer a
[42:04] manipulação, para retomar os xaropes, os lambedores, as
[42:08] garrafadas, que fazem parte da nossa identidade cultural.
[42:13] E ela me apresentou uma relação de como montar esse laboratório,
[42:20] porque, na verdade, eu aproveitei o que estava lá já,
[42:23] que ela tinha um espaço todo estruturado, e só foi fazer a
[42:26] reforma, fazer alguns ajustes, seguindo a legislação, para a
[42:30] gente seguir em frente com esse processo.
[42:33] Então, inclusive, nós tivemos um trabalho incrível em Cachoeira.
[42:38] Eu a convidei, ela fez um diálogo muito franco, A conversa
[42:44] com a doutora Sueli Conceição nos provoca a pensar em
[42:48] diferentes dimensões da valorização dos saberes e
[42:51] práticas daquelas pessoas que vieram antes de nós, abrindo
[42:55] caminho no legado da família, no contexto profissional e da
[42:59] produção intelectual. Os pés apontam para frente, mas
[43:03] é importante que os olhos reconheçam o caminho trilhado e
[43:06] a nossa história. Outra coisa que fica evidente
[43:09] após a conversa com tantas mulheres negras potentes é
[43:13] reconhecer que a presença delas nos lugares de saber promove
[43:17] ventanias e mudanças de perspectivas, mudanças
[43:20] necessárias e urgentes para afetar estruturas.
[43:24] As professoras contemporâneas seguem enfrentando os desafios
[43:27] desse tempo e é disso que Deise Vilas Boas nos fala.
[43:34] Os desafios são mais ligados à permanência dessas mulheres
[43:41] negras, indígenas, quilombolas, das ciganagens também,
[43:46] imigrantes. Aqui a gente cita todas as
[43:48] minorias, as PCDs. E aqui também, lembrando que
[43:52] quando a gente fala de PCDs, a gente não está falando só das
[43:55] deficiências físicas. A gente está falando também das
[43:58] neurodiversidades, incluindo o autismo.
[44:01] Mas o racismo, especialmente, a sua pergunta foi sobre racismo
[44:07] científico, como o racismo é estrutural, estruturado e
[44:14] estruturante, ele está em toda parte.
[44:16] Então, ele vem desde uma estudante de graduação, por
[44:24] exemplo, aqui já que a gente está falando de mulheres, que
[44:29] dentro de um curso, vamos falar do curso mais elitista da área
[44:33] de ciências biológicas e da saúde, que são geralmente
[44:37] pensadas juntas, que é o curso de medicina, onde essa
[44:42] estudante, ela em geral é compreendida, especialmente
[44:49] dentro do, muitas vezes pelo próprio corpo docente mesmo,
[44:55] branco, e muitas vezes por seus pares mesmo, por seus colegas
[45:01] discentes, como menos capacitada, dentro de uma
[45:05] informação que é muito antiga, que é desde que essa pessoa
[45:11] branca, enfim, foi constituída como ser humano dentro de sua
[45:16] subjetividade, dentro de sua família e dentro da escola
[45:19] privada onde ela estudou, né? Então passa por isso, por essas
[45:24] tratativas, passa por episódios reais declarados de racismo
[45:29] mesmo, com discriminações verbais e outras mais
[45:38] implícitas. E passa por processos seletivos
[45:43] mesmo, e eu acho que aí entra a importância dos editais
[45:49] específicos que as universidades dispõem, porque depois que essas
[45:56] estudantes entram por cotas ou não, elas encontram dentro das
[46:06] universidades públicas editais específicos para desenvolver
[46:12] projetos de ensino, de pesquisa e de contato com a comunidade
[46:16] que a gente chama de extensão universitária.
[46:29] Mãe Rosana, do Templo Tular, teve um percurso interessante.
[46:34] Ela se dedicou à fisioterapia, cuidando diretamente de inúmeros
[46:38] pacientes, mas também se dedicou à pesquisa e vida acadêmica.
[46:42] Paralelamente, foi se preparando para a vida espiritual, com as
[46:46] responsabilidades que começavam a se anunciar e a crescente
[46:50] demanda de criar sua própria casa de Umbanda.
[46:56] Porque eu vi a minha mãe de santo, ela também é da área
[47:00] acadêmica, professora, e eu vi a luta dela de manter o terreiro e
[47:07] de ter que trabalhar, estudar, fazer mestrado.
[47:10] Agora que ela conseguiu, está terminando o doutorado dela.
[47:15] E eu falava assim, não, acho que eu não dou conta disso.
[47:19] Então, eu fiquei na casa dela por nove anos, terminando toda
[47:25] essa minha vontade de realizar toda essa área.
[47:31] Mas, ao mesmo tempo, isso me faz falta também.
[47:34] Então, abrir o terreiro e poder associar o religioso com a
[47:42] pesquisa também me fascina. Então, eu vou ter sempre aberto
[47:48] a novas buscas, ao novo crescimento e entendimento
[47:53] também disso. Esse relato de Mãe Rosana fala
[47:59] de um percurso interessante, tanto de um olhar para as
[48:03] tradições e ritualísticas com reflexão, quanto de olhar para
[48:07] saberes institucionalizados de maneira crítica e ativa.
[48:12] É com essa perspectiva crítica, sem perder o aspecto próprio da
[48:16] fé e da religiosidade, mas também de modo atento às
[48:20] demandas desse tempo que a Mãe Rosana fundou o seu templo
[48:24] urbandista. A gente tem uma característica
[48:32] que eu acho peculiar. Nós somos noventa e nove por
[48:38] cento de mulheres. Temos muita diversidade de
[48:45] gênero. é, noventa por cento de LBTQIA+.
[48:51] E entender isso, porque que o Tular, ele se transformou nisso.
[48:57] Porque no início ele era tudo. E aí depois foi tendo um filtro,
[49:02] sabe, foi filtrando, filtrando, e eu fui observando os homens
[49:05] saindo, as pessoas mais héteros saindo, e foi se configurando
[49:13] nesse papel. Eu acho que é bem importante
[49:18] reconhecer o papel acolhedor e agregador que muitas mulheres
[49:21] ocupam nas comunidades indígenas, nas comunidades de
[49:24] Axé, nos terreiros e quilombos. É o poder de agregar, aquilombar
[49:29] e fortalecer que permite a superação dos desafios e as
[49:33] doloridas marcas históricas. Os velhos discursos que
[49:37] estimulam a ideia de competição feminina são abalados quando
[49:40] reconhecemos feitos históricos do quanto as mulheres negras
[49:44] tiveram um papel estratégico na compra das liberdades de pessoas
[49:47] escravizadas durante os séculos XVIII e XIX.
[49:51] Reconhecer o quanto foram fundamentais na fundação das
[49:54] casas de Axé, nesse mesmo período, debaixo das barbas, o
[49:58] poder da velha cidade de Salvador.
[50:01] Antes de se falar em empreendedorismo, as mulheres
[50:04] negras comercializavam seus quitutes nas ruas, movimentavam
[50:07] a economia. Quando para as mulheres brancas,
[50:10] trabalhar era ainda fora de questão.
[50:12] As mães de santo gestaram elementos fundamentais da
[50:15] cultura, da história e da resistência das pessoas negras
[50:19] no Brasil. Sua sabedoria permite
[50:21] preservação dos territórios e modos de fazer com a terra.
[50:25] Dão proteção aos seus filhos e filhas, especialmente às pessoas
[50:29] com maiores condições de vulnerabilidade.
[50:31] Dedicam sua vida aos cuidados afetivos, espirituais e de saúde
[50:36] das pessoas. É isso.
[50:38] É sobre cuidado, minha gente. Mas a maioria das queixas, eu
[50:44] posso dizer assim, mais de noventa por cento do nosso
[50:48] público é muito no psicoemocional e mental, muito.
[50:55] Que eu acredito que seja por essa característica da
[50:58] população, que é muito nessa idade, são poucos os idosos que
[51:09] às vezes estão mais danificados, vamos dizer assim, em termos
[51:13] físicos, por conta do quê? Dessa falta de consciência,
[51:17] dessa falta de cuidado e de uma história nossa de cuidar da
[51:21] doença. A nossa medicina, ela não cura.
[51:29] A nossa medicina tradicional, ela cuida.
[51:34] Então, Talvez, e é isso que está me chegando aqui agora, essa
[51:42] característica do Tula é cuidar desse povo novo para que a gente
[51:46] tenha pessoas mais saudáveis no futuro, que sejam idosos, mais
[51:55] sadios, né? Que não precise chegar no corpo
[51:58] físico, né? e traz essa consciência mesmo de
[52:04] que eu sou o meu próprio curador e que eu posso, com
[52:09] conhecimento, me cuidar com essas terapêuticas, com a força
[52:18] do reino mineral, com a força do reino vegetal, com a força da
[52:23] frequência e da vibração das cores.
[52:25] Acho que é isso. Tocamos num ponto que ainda não
[52:32] havia sido tocado, Medicina Preventiva, da irmã Rosana.
[52:39] Lá atrás, quando partilhamos a interpretação das mães de santo
[52:42] do Rio São Francisco sobre o Ossã ser um arquétipo feminino
[52:46] por conta do cuidado, há uma percepção muito profunda que o
[52:50] cuidado é tarefa das mulheres, especialmente das mulheres
[52:53] negras. E daí ela começou a frequentar,
[52:58] e aí o Chelsea chegou lá, o Chelsea, o caboclo, e chegou e
[53:05] se manifestava, e começou a ter festa lá, e começou a ganhar
[53:09] roupa. Ele ganhou a primeira roupa dele
[53:12] de pena, que é aquela que está na foto ali, tem uma foto dele
[53:16] que ele tem aí, de um estilista que ia para lá.
[53:20] E meu pai começou a trabalhar nessa casa de Umbanda, entendeu?
[53:24] E chegou um certo momento de que Oxóssi disse para ela que ela ia
[53:29] ter um buraco que ela ia fazer o trabalho.
[53:33] E daí, realmente, foi acontecendo.
[53:35] Ela teve esse primeiro buraco que foi lá.
[53:37] Buraco, eu falo na forma do escabouco, viu?
[53:40] Que é uma casa. Então, ela foi...
[53:43] Começou a trabalhar dentro desse, como a gente falou, né?
[53:48] Começou em casa, mas daí foi fazendo sessões dentro desse
[53:52] estabelecimento. Então, eu acompanhava a minha
[53:54] mãe em tudo que era canto. E aí, quando chegou no momento
[53:58] que ela teve que fazer essa iniciação, essa feitura para ela
[54:04] receber o DECA, eu fui junto. Então, foi eu junto com minha
[54:08] filha. Então, foram três cabeças de
[54:11] fogo dentro do quarto. A minha experiência no Canoblé,
[54:20] porque a gente é o que a gente vê dos nossos pais, os exemplos
[54:25] dos nossos pais, e eu sou aquilo que eu vi do exemplo de minha
[54:30] mãe, de Amometo, de Inquiste, de Mãe Madalena, o que ela fazia,
[54:35] como ela lidava com as pessoas, como ela trabalhava.
[54:38] Então, isso foi uma experiência... foi vivenciando
[54:42] aquilo ali junto com ela. Não somente eu, como Márcia e
[54:46] Algan, eles estão aqui de prova. O que a gente já vivenciou
[54:49] dentro desse terreiro foram histórias espetaculares, que até
[54:54] eu mesmo não acreditava que essas pessoas, quando chegassem
[54:58] aqui, do jeito que chegavam, ia sair boa.
[55:00] Eu mesma ficava assim. Acabamos de ouvir Macota Mama,
[55:05] filha biológica da saudosa mãe Madalena do terreiro Guarani de
[55:08] Oxóssi, situado na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.
[55:13] Na tarde que passamos com Macota Mama, mãe Márcia e pai
[55:17] Carlinhos, eles compartilharam várias histórias de como o
[55:20] caboclo Guarani de mãe Madalena tinha o costume de praticar
[55:24] ações de cuidado com a saúde do corpo e da alma de toda a
[55:27] comunidade. E quem será que cuidava da mãe
[55:30] Madalena? Ah, pois...
[55:33] Essa percepção tão profunda, por vezes, resulta em sobrecarga de
[55:37] trabalho, duplas jornadas e falta de suporte.
[55:41] E foi por isso mesmo que perguntamos à dona Judite,
[55:43] curandeira, quem cuida dela. E o seu?
[55:50] Para a senhora. Para quem cuida da senhora?
[55:51] A senhora cuida de muita gente, que eu já entendi.
[55:54] Faz chá, faz xarope, faz reza. E quem cuida da senhora?
[55:57] Só aquele lá de cima. E a senhora mesmo faz seus chás,
[56:01] faz seus banhos? Meu chá eu faço, quando eu quero
[56:04] tomar um banho, que eu sou lenda para mim, eu faço para os
[56:06] outros, mas para mim é difícil. E então eu faço um banho e tomo
[56:10] meu banho eu mesmo. Eu não gosto que todo mundo me
[56:14] reza, não. Tem alguém que reza a senhora
[56:16] aqui? Não.
[56:18] Tinha antigamente, que tinha minha mãe e tem minha filha
[56:21] também. A mãe dele é curadeira de
[56:25] verdade, que ela faz tratamento, ela trata de dojo, ela trata de
[56:29] muitas pessoas. Ela tratou de muitas pessoas e
[56:33] todo mundo já ficou bom, que é a mãe dele.
[56:35] Tem como ficar bom do corpo, estando ruim do espírito?
[56:43] O sustento dele é reza, é um banho, você tomar um banho bem
[56:48] forte, aí fortalece ele. Mas não dá para cuidar só do
[56:52] corpo e não cuidar da cabeça. É, tem que cuidar de tudo.
[56:54] Se não cuidar da cabeça, cadê o corpo?
[56:56] Se a cabeça sair, cadê o corpo? O corpo não tem nada.
[57:00] O corpo é mandado pela cabeça. né?
[57:03] Você tem, agora, como ela falou aí, de vez em quando tem que
[57:07] tomar um banho de remédio, tem que fazer alguma coisa para as
[57:11] pessoas também, que cuida. Agora eu cuido, assim, agora
[57:14] não, que eu deixei, que já estou vendo, né?
[57:16] É difícil, eu não quero mais saber disso, não.
[57:19] Mas, para mim, quando eu vizia muita gente, já vejo que eu
[57:22] ficava abatida. Aí eu tinha que viziar um banho
[57:26] de remédio e tomar. E tomava.
[57:29] Também não era para tomar aquele banho, acabou.
[57:32] Pelo pouquinho que eu sei e aprendi também, que eu rezo um
[57:35] pouco criança. Ele também reza, criança.
[57:38] Mas eu rezava muita gente. É por isso que eu ficava assim.
[57:41] É uma junção dos dois. E assim, você tem que estar bem
[57:44] o corpo para viver e o espírito, porque nosso corpo é nosso
[57:47] templo, é nossa casa, que recebe o espírito.
[57:49] Então, para que o espírito reposa e está bem, a gente tem
[57:53] que estar sem mácula, sem pensamento negativo, a gente tem
[57:56] que estar com o corpo fechado, não está fazendo coisas para
[57:59] ficar com o corpo aberto, não tem que estar com o corpo chupo,
[58:00] não está fazendo essas coisas. Tem vezes que você tem que se
[58:02] resguardar, não ter relação, não comer carne por certos dias.
[58:09] Além de ouvir a minha voz, a de Dona Judite e Sr.
[58:12] Getúlio, também participou dessa conversa a nossa diretora, Jazz
[58:16] da Silva. Essa visita foi toda povoada por
[58:19] um contexto muito familiar e desses saberes que são
[58:22] transmitidos oralmente e na vivência, ali, sabe, no
[58:25] cotidiano. tem uma coisa na fala de d judite que faz a gente
[58:30] pensar sobre essa posição de cuidar tanto da outra pessoa e
[58:34] não confiar tanto que outras possam cuidar da gente ela segue
[58:38] independente mesmo aos noventa e tantos anos bem pontuado vitor é
[58:43] uma fala que nos faz pensar numa condição muito comum enraizada
[58:47] até Na potência disso, mas também do quanto a existência de
[58:51] uma sólida economia do cuidado permitiria mais equilíbrio entre
[58:54] as posições. De quem cuida, saber também que
[58:57] pode ser cuidada e que essas posições não são fixas, mas se
[59:02] movem e se renovam. Vocês ouvem nossas vozes, duas
[59:13] vozes masculinas conduzindo esse programa.
[59:16] Mas quem fica até o final e escuta a nossa ficha técnica se
[59:20] dá conta da grande equipe que torna possível cada episódio
[59:23] acontecer. Na direção, no roteiro, na
[59:26] edição e montagem, na assessoria técnica, mulheres, em sua
[59:31] maioria, mulheres negras, se somam a nós na realização desse
[59:35] podcast, que é construído numa perspectiva transdisciplinar.
[59:39] Essa construção se dá envolvendo diferentes profissionais, com
[59:43] diferentes acúmulos de conhecimento e trajetória.
[59:46] Diversidade que também se dá na perspectiva do gênero.
[59:51] E esse episódio se encaminha para seu fim, que coincide com o
[59:55] fim desse ciclo aqui do Axé das Plantas.
[59:58] Foram meses entre a submissão do projeto, formação, construção do
[1:00:03] formato, pesquisa, idas a campo, entrevistas, criação do texto,
[1:00:08] gravação, montagem, ufa! Agora, minha gente, nossas
[1:00:14] plantas geraram tantas boas conversas, tantas trocas e
[1:00:17] compartilhamentos com vocês. Agradeço a escuta atenta.
[1:00:22] E se você quiser saber mais sobre o uso medicinal e
[1:00:25] ritualístico da folha da costa, leia o livro Plantas Medicinais,
[1:00:30] de autoria da professora doutora Marazella de Almeida.
[1:00:34] Pegando a deixa de Victor, quero indicar também a leitura do
[1:00:37] livro Descolonizando Saberes, Mulheres Negras na Ciência, da
[1:00:42] maravilhosa professora doutora Bárbara Carini.
[1:00:46] Então é isso, minha gente. Se você gostou da nossa série
[1:00:49] podcast, espalhe essas folhas assim como fez Yansan.
[1:00:53] Faça esses episódios chegarem a mais pessoas.
[1:00:55] Agradecemos a vocês que vieram até aqui conosco e a todas as
[1:00:59] pessoas que contribuíram com a Xé das Plantas.
[1:01:14] Axé das Plantas, cura do corpo e da alma, é uma produção da
[1:01:17] Universidade Federal da Bahia em parceria com o podcast Viagem
[1:01:21] Gastronômica com o Dr. Dendê. Esta jornada em cinco episódios
[1:01:25] é apoiada pelo Instituto Serra Pilheira e apresentada por mim,
[1:01:29] Wagner Rocha, o seu Dr. Dendê e Victor Diógenes Silva.
[1:01:34] Bom, agora nós queremos agradecer a todas as pessoas que
[1:01:37] construíram o podcast junto com a gente.
[1:01:40] Nossas entrevistadas e entrevistados.
[1:01:57] Babalaxé Valmi Rocha, Ileaxé Lajomi, Mãe Rosana do Templo
[1:02:02] Tular, Otto Paiayá, os professores doutores Eudes
[1:02:06] Veloso e Igor Jessé Ramos, a professora doutora Deise Vilas
[1:02:11] Boas e a doutora fitoterapeuta Ia Lorixá Sueli Conceição.
[1:02:17] Na apresentação, Victor Diógenes Silva e Wagner Rocha.
[1:02:22] Na direção, Jazz da Silva. Assim no roteiro do episódio de
[1:02:26] hoje, Mônica Santana. Na edição, Daniele Freire.
[1:02:31] Na produção e assessoria de imprensa, Jean Cardoso.
[1:02:35] Nosso social mídia e editor de vídeo é Romeran Ribeiro.
[1:02:39] No design e identidade visual, Davi Barreto.
[1:02:44] Trilha sonora, tampara que o ação nos permita ver os
[1:02:47] mistérios das folhas. A voz de Equedicinha, parte do
[1:02:51] projeto A Ceiva da Voz. Assessoria Científica, Deise
[1:02:56] Vilas Boas, Márcia Silva. A Vena Nascimento, Clarice
[1:03:02] Esquitinho, Suzana Braga, Rafael Short, Floresvaldo Ramos, Lucas
[1:03:08] Oliveira, Mariana Pepe, Aimee Alves e eu, Victor Diógenes
[1:03:13] Silva. Nossos agradecimentos também aos
[1:03:16] mentores Sara Zoubel e Théo Ruprecht.
[1:03:19] E ao nosso podcast parceiro, Viagem Gastronômica com Dr.
[1:03:22] Dendê. Os episódios foram gravados no
[1:03:25] estúdio Argumento III com o técnico de som Adson Santos e a
[1:03:30] sonoplastia do freesound.org. Financiamento Instituto
[1:03:35] Serrapilheira através do programa Campo Serrapilheira.
[1:03:41] Valeu, meu povo! Muito obrigado pelo carinho da
[1:03:44] audiência de cada um, a cada um de vocês.
[1:03:46] Até breve, meu povo! Modo Pé!
[1:03:56] Então a minha vida chegou a esse momento e hoje em dia eu estou
[1:04:01] estabelecida por ter esse grau de doutora honoris causa, com
[1:04:09] muito pouca aprendizada, porque quando me levaram para eu
[1:04:14] participar desse ato, eu fiquei, meu Deus, meu Deus, eu vou falar
[1:04:18] o quê? Não tenho anel, não tenho nada.
[1:04:22] Não estudei para ser doutora. Como é que eu posso ser, meu
[1:04:25] Deus? Mas o direito assiste, né?
[1:04:29] A luz que me deu foi Deus. E eu consegui.
[1:04:33] Hoje em dia, atualmente, sou acreditada para Deus, para todos
[1:04:38] vocês que chegam. Meu sistema é esse mesmo, viu,
[1:04:43] gente? Eu falo minhas besteiras, mas
[1:04:47] não levem a mal, não. Meu sistema é esse mesmo, minha
[1:04:50] igreja é essa mesmo. Não tenho como contar a
[1:04:53] grandeza. Nasci pequenininha, cresci,
[1:04:57] estou aqui vivendo e agradecendo a Deus os minutos e as horas, os
[1:05:02] instantes e os dias que eu ainda tenho para vencer aí pela
[1:05:05] frente.

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