# A invenção da adolescência #169

An episode of [Aprenda](https://invisiblenetwork.ai/podcast/1650468691), 22 Sep 2025, 10 min.

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Você sabia que há cerca de cem anos não existiam adolescentes? Bom, não do modo como a gente entende essa fase da vida nos dias de hoje. Claro, as pessoas sempre atravessaram essa fase entre a infância e a vida adulta. Sempre fizeram treze, catorze... Todas as idades. Óbvio. Mas essa figura de um "pequeno adulto" apareceu apenas por causa de uma série de fatores que vão da vida escolar à inserção da tecnologia das pessoas. Nesse episódio a gente vai entender junto como se deu a mudança do cenário em que a transição da vida de criança para a de marmanjo deixou de ser abrupta. ============================ APRENDA EM 5 MINUTOS é o podcast sobre coisas que você nem sabia que queria saber. Os episódios são roteirizados e apresentados por Alvaro Leme. Jornalista, mestre e doutorando em Ciências da Comunicação na ECA-USP e criador de conteúdo há vinte anos, ele traz episódios sobre curiosidades dos mais variados tipos. São episódios curtos, quase sempre com 5 minutos — mas alguns passam disso, porque tem tema que precisa mesmo de mais um tempinho. Edição dos episódios em vídeo: André Glasner http://instagram.com/andreglasner Direção de arte: Dorien Barretto https://www.instagram.com/dorienbarretto66/ Fotografia: Daniela Toviansky https://www.instagram.com/dtoviansky/ Siga o APRENDA no Instagram: http://instagram.com/aprendapodcast http://instagram.com/alvaroleme Comercial e parcerias: contato@alvaroleme.com.br ========================= Quer saber mais? Aqui estão a fonte que consultei para o roteiro deste episódio - Livro Hitmakers – Como Nascem as Tendências de Derek Thompson - A Brief History of Teenagers Derek Thompson, The Saturday Evening Post - A History of Compulsory Education Laws Michael S. Katz, Education Resources Information Center

## Transcript

[0:00] Se eu falar que 100 anos atrás não existia um adolescente, você
[0:03] vai achar que eu perdi o juízo certo.
[0:05] Porque se não existia adolescente, como que as pessoas
[0:09] passavam da infância pra vida adulta?
[0:12] Calma que eu explico. Vem comigo nessa.
[0:16] Tem coisas que você nem sabia que precisava saber e é delas
[0:20] que a gente fala aqui no aprenda.
[0:22] Eu sou o Álvaro Leme, jornalista, professor, curioso,
[0:26] profissional. E aqui qualquer assunto pode
[0:29] virar aprendizado. E aí, aprendiz.
[0:35] E cheguei com mais coisas que vocês nem sabiam que precisavam
[0:39] saber. Hoje, com uma conversa
[0:42] instigante sobre a invenção da adolescência.
[0:45] Eu pensei nesse episódio enquanto lia um livro bem legal
[0:48] chamado hitmakers como nascem as tendências, do jornalista
[0:52] estadunidense Derek Thompson. Então, muita coisa do nosso
[0:57] roteiro vem do trabalho dele, tanto no livro quanto em outra
[1:00] reportagem que ele escreveu sobre o assunto.
[1:03] Vamos começar esclarecendo o que eu falei no começo do episódio.
[1:06] Claro que no começo do século 20.
[1:09] Aliás, em toda a história da humanidade, as pessoas faziam aí
[1:12] 13, 1415 anos, certo? Agora, a ideia de adolescência,
[1:17] como a gente entende hoje essa aí, realmente o pessoal não
[1:21] tinha, aliás, muitos hábitos e comportamentos que hoje são
[1:25] normais pra gente. Não existiam 100 anos atrás.
[1:28] Em muitas sociedades, a criança passava direto da infância pra
[1:32] vida adulta, tipo 23 e 59 criança.
[1:36] Meia-noite adulto, sem meio termo, o que a gente chama hoje
[1:40] de adolescência é um conceito relativamente novo, moldado por
[1:44] uma série de transformações sociais e econômicas que rolaram
[1:48] nos Estados Unidos ao longo do século 20 e depois se espalharam
[1:52] para os outros lugares do mundo, inclusive o nosso brasilzão.
[1:55] Aqui, ao longo da história humana, em diversas culturas, os
[1:58] mais velhos eram o centro da sociedade.
[2:01] Civilizações como a chinesa, a japonesa e até mesmo a romana,
[2:05] por exemplo, valorizavam. A sabedoria e a autoridade dos
[2:08] idosos, os mais jovens, existiam para aprender o que tinha que
[2:12] ser regra até hoje, né? Porque é a fase da vida em que a
[2:15] gente acha que sabe as coisas, mas não sabe tanto assim não.
[2:20] E, por outro lado, também é a fase em que a gente aprende as
[2:23] coisas com mais facilidade, com mais rapidez.
[2:26] Então a pirraiada na antiguidade tava ali pra aprender, ficar
[2:30] quieta e seguir o que já estava estabelecido pelos mais velhos.
[2:35] Essa ideia de um grupo de pré adultos com opiniões próprias,
[2:39] quarto cheio de poster e poder de compra, era uma coisa
[2:42] completamente impensável, ou seja, a sua vida Como Ela É
[2:47] hoje. Se você tá me ouvindo em um
[2:48] adolescente, ela era impossível de existir do jeito que ela
[2:51] existe 100 anos atrás, sacou? Mas antes que vocês falem assim,
[2:55] beleza, tio, a gente já entendeu.
[2:58] Deixa então eu contar como foi a invenção da adolescência.
[3:02] Vamos lá, o Derek Thompson aponta 3 fatores principais para
[3:06] o surgimento da adolescência, o primeiro tem a ver com o habitat
[3:10] natural dos adolescentes, que é a escola.
[3:13] No fim do século 19, começo do século 20, os norte americanos
[3:17] passaram a obrigar que pessoas com até determinada idade
[3:21] frequentassem a escola. A ideia de ensino médio que eles
[3:25] chamam de high School, você sabe, existia já havia há muito
[3:29] mais tempo. Só que foi nesse momento que
[3:32] virou obrigação frequentar. eSIM, eu sei que os mais jovens
[3:36] estão pensando assim, quer dizer então que não era obrigado a ir
[3:39] pra escola? É, não era.
[3:41] Mas ainda bem que passou a ser, né?
[3:43] Porque educação abre portas e educação leva a gente muito mais
[3:46] longe. Nunca se esqueçam disso.
[3:48] Mas voltando aqui, até então, muitos jovens trabalhavam nas
[3:53] indústrias. Falei pra vocês que era melhor
[3:55] ser obrigado a ir pra escola melhor do que você ficar na
[3:57] indústria trabalhando, tá? E essa mudança aí ela tirou as
[4:01] crianças do trabalho. Pela primeira vez na história,
[4:04] milhões de jovens da mesma faixa etária passaram a ficar ali
[4:08] reunidos diariamente, por horas e horas no mesmo lugar, sem os
[4:12] pais olhando, sem o chefe, mandando.
[4:15] Claro, você tinha ali as figuras de autoridade da escola, mas
[4:18] eram relações diferentes. E nesse ambiente aí foi se
[4:22] moldando uma cultura própria, um jeito de vestir, próprio de
[4:26] falar, né? Gírias, gostos e costumes.
[4:29] Daqueles grupos de jovens. Quer dizer, foi se consolidando
[4:34] uma identidade coletiva desses jovens.
[4:37] Agora, isso só foi possível porque outros fatores se
[4:40] juntaram. Como eu falei, eu falei que eram
[4:42] 3 fatores, certo? A gente viu o primeiro, que foi
[4:45] à escola obrigatória. O segundo foi a economia, porque
[4:49] nos Estados Unidos, pós guerra, a galera viveu uma época de
[4:52] muita prosperidade e a nova geração de estudantes contava
[4:56] com algo que tinha faltado pra maioria.
[4:59] Das gerações anteriores, dinheiro.
[5:02] Seja porque eles ganhavam mesada, seja porque trabalhavam
[5:05] ali empregos de meio período e tinham o seu salário.
[5:08] O fato é que esses jovens tinham poder de compra.
[5:11] E a gente sabe que no mundo capitalista, se tem alguém com
[5:15] dinheiro para gastar, vai ter sempre vários alguém dispostos a
[5:20] vender produtos e serviços, certo?
[5:23] Certo? O ciclo da vida.
[5:25] Então, a cultura adolescente que vinha se formando nos últimos 20
[5:29] e tantos anos encontrou o mercado.
[5:32] Foi nesse momento aí que o povo do marketing percebeu que tinha
[5:35] ali pela frente um nicho novo, uma galinha dos ovos de ouro.
[5:40] Foi quando, então, começaram a aparecer mais e mais e mais
[5:43] coisas focadas nos adolescentes. Aliás, pera aí que eu preciso
[5:47] falar da palavra adolescente, né?
[5:49] Em inglês, você pode usar 2 palavras para falar adolescente.
[5:54] A primeira é. Adolecent que existe na língua
[5:57] desde o século 14 e começou a ser usada por influência dos
[6:02] franceses, ou seja, tem relação com o latim, que também deu
[6:06] origem a nossa língua. Por isso que adolecent é
[6:09] parecido com o jeito como a gente fala aqui, né,
[6:11] adolescente? A outra palavra, que é teenager,
[6:15] só se consolidou nessa época aí anos 1940, justamente quando a
[6:19] publicidade descobriu o potencial de consumo dos mais
[6:22] jovens. E ela vem porque é aquela idade
[6:25] que todos os números terminam com Tim, né?
[6:28] Firthim até o Nine Tim é o momento que eles consideram que
[6:32] é você é um adolescente. O terceiro fator que o Derek
[6:36] Thompson aponta como fundamental para o surgimento da
[6:39] adolescência foi a tecnologia em primeiro lugar.
[6:43] Proliferação dos carros porque com os carros, os adolescentes
[6:46] ganharam Independência e mobilidade.
[6:50] Então, em vez de marcar um encontro com uma pretendente, ir
[6:53] na casa conhecer os pais, eles podiam ir pra onde desce na
[6:56] Telha e fazer, sabe Deus o quê? Conforme usavam os carros.
[7:01] E é nesse momento aqui que entram também as mídias,
[7:03] revistas, rádio, televisão, o cinema.
[7:07] Em 1944, surgiu a avó Americana da revista capricho, uma revista
[7:11] chamada seventeen. Tô falando da avó porque me deu
[7:15] na Telha, tá? Porque não tem nenhuma relação
[7:17] entre essas 2 revistas. Só tem em comum mesmo o fato de
[7:20] terem sido criadas para falar com gente jovem e nas páginas,
[7:23] mais do que estampar anúncio, essas revistas foram.
[7:29] Consolidando aquele estilo de vida adolescente que começou
[7:32] décadas atrás, décadas antes a surgir nas escolas, e a gente
[7:37] sabe, ou pelo menos deveria saber, que a partir da segunda
[7:40] metade do século 20. Esse estilo de vida dos Estados
[7:44] Unidos foi se disseminando pelo mundo com muita força.
[7:47] Por que é que hoje, por exemplo, tantos brasileiros falam inglês?
[7:50] Por que que a gente fez tanta série, filme, desenho criado nos
[7:53] Estados Unidos? Por que os produtos culturais?
[7:56] Eles são uma forma de moldar o mundo?
[7:59] Eu tô falando isso, mas eu vejo essas coisas também, tá?
[8:02] Porque assim como vocês, eu também cresci sendo formado
[8:05] dessa maneira. Então por que que eu tô falando
[8:08] disso? Porque a cultura Americana
[8:10] impulsionada pelo cinema de Hollywood.
[8:12] Pela música, pelas marcas, exportou a figura do adolescente
[8:17] para o resto do planeta. O que, como eu falei lá no
[8:20] começo do episódio, claro que vai incluir o Brasil primeiro.
[8:23] Isso aconteceu com ícones de dos boomers, né?
[8:27] Elvis Presley, James, Jim e, bem mais tarde, com Michael Jackson,
[8:32] Madonna, AMTV inteira. Por que que chamam a gente de
[8:35] geração MTVE? Quando eu digo a gente, claro
[8:39] que eu não tô falando dos adolescentes, né?
[8:42] Mas vamos falar um pouco mais do Brasil por aqui.
[8:45] Esse processo que nos Estados Unidos rolou nos anos 40,
[8:48] aconteceu um pouco mais tarde. Essa coisa da cultura jovem, tá?
[8:52] Ela aconteceu aqui a partir dos anos 1960, que foi quando surgiu
[8:55] a jovem guarda, que tinha Roberto Carlos, Erasmo Carlos e
[8:59] vanderléia. Esse aí foi o nosso primeiro
[9:02] grande movimento musical feito pelos jovens para os jovens.
[9:08] Anos depois, lá, já nos anos 1980, o mercado brasileiro tava
[9:11] totalmente adaptado. AMTV, como eu falei, chegou por
[9:14] aqui. As novelas foram criando
[9:15] protagonistas jovens e as lojas de departamentos passaram a
[9:19] vender roupas e produtos específicos para o público.
[9:22] Tim com mais e mais intensidade. De lá para cá, essa palavra
[9:26] virou. Mais corriqueira.
[9:31] Não sei se você reparou em algum momento.
[9:33] E assim a gente chegou na época da internet, das redes sociais e
[9:37] da digitalização da vida. Nesse momento, a experiência de
[9:40] ser adolescente ela passou a ser mais universal.
[9:43] Então não é um espanto hoje em dia que adolescente do Japão, da
[9:47] Nigéria, da Malásia, do Brasil conheçam os mesmos produtos,
[9:52] artistas e gírias. Só que hoje todo mundo
[9:55] influencia e todo mundo é influenciado por todo mundo.
[9:59] Agora a questão é a responsabilidade dos adultos, da
[10:02] gente aqui, de conduzir essa galera pra que a influência
[10:06] entre eles seja positiva. Se você gosta do meu trabalho,
[10:10] não deixa de seguir o aprenda nas redes sociais, no Instagram
[10:13] eu tô no arroba, aprenda podcast e no arroba Álvaro Leme.
[10:17] No TikTok eu tô como Álvaro Leme.
[10:20] Eu volto a qualquer momento com mais coisas que você nem sabia
[10:23] que precisava saber.

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