# Episódio 27 - Bode Inspiratório com Ana Margarida de Carvalho

An episode of [Ponto Final, Parágrafo](https://invisiblenetwork.ai/podcast/1446064267), 20 Apr 2020, 18 min.

Audio: https://anchor.fm/s/80a352c/podcast/play/12666175/https%3A%2F%2Fd3ctxlq1ktw2nl.cloudfront.net%2Fproduction%2F2020-3-20%2F66058087-44100-2-ef5fce4904095.mp3

O Bode Inspiratório começou com a escrita Ana Margarida de Carvalho ao telefone com os colegas ficcionistas e poetas. É a própria que nos dá conta de tudo. Depressa o folhetim à antiga cresceu: são meia centena de escritores, de todas as idades, a dar continuidade à história que Mário de Carvalho começou. A iniciativa tem várias frentes (Facebook, Instagram, o site Entre Vistas e RTP Play) e já conta com a participação de dezenas de artistas plásticos que dão outra pinta às páginas. Se estás a treinar outra língua, fica a saber que traduções tem o Bode Inspiratório. Que desfecho terá a história? Não sabemos. A única certeza é que será Luísa Costa Gomes a colocar o ponto final. Quem vai ilustrar o episódio és tu. Manda a tua interpretação sobre o Bode Inspiratório para pontofinaparagrafo.fm@gmail.com até à manhã de dia 22 de abril ou para as redes sociais. Instagram - @pontofinalparagrafo Facebook - Ponto Final, Parágrafo Twitter - @ParagrafoFinal Autora: Magda Cruz Design: Ana Costa Genérico: Nuno Viegas Música: Dirty Mac - Endless Love; Tuath Dé Dunsany - Jesse Gallagher

## Transcript

[0:10] ponto final parágrafo olá o meu nome é magda cruz e
[0:26] sei bem vindo ao vigésimo sétimo episódio do ponto final
[0:29] parágrafo se foi a primeira vez que clicaste play neste podcast
[0:33] fica a saber que esta o programa deste cfm em parceria com a
[0:37] comunidade cultura e arte em que tratamos os livros por tu e lhe
[0:41] tiramos o pó de cima durante este período de isolamento trato
[0:45] mais leitura com os ouvidos com o reforço do dizer o pode cast
[0:50] diário do pedro freitas que sou poeta da cidade e nos próximos
[0:53] tempos o dizer vai juntar-se ao podcast ponto final parágrafo um
[0:57] programa da rádio e desde já um pedido de desculpas não estamos
[1:00] no habitual estúdio topo de gama dez que se f m por isso o som
[1:04] que sai da minha boca não é o melhor mas este este é muito bom
[1:09] os meus três romances nesse que falou dos contos os pequenos
[1:13] delírios domésticos chama-se assim justamente porque todos os
[1:16] espaços são em regime doméstico em regime fechado em regime de
[1:20] confinamento tinha sexta boas e escritura ana margarida de
[1:24] carvalho vamos conhecer a iniciativa bode inspiratório que
[1:28] ana margarida criou e com o projeto conhecemos também um
[1:30] pouco mais da escritora depois de algumas trocas e baldrocas
[1:35] com o telefone lá conseguimos falar sobre o projeto bode
[1:39] inspiratório que nasceu com isolamento a a conseguimos
[1:43] finalmente a meio de março apareceu uma página no facebook
[1:47] que me chamou a atenção de inspiratório filhotinho não é
[1:52] começa com mário de carvalho acabem luísa costa gomes um olá
[1:56] o meu nome é magda cruz tal e tal gostava de saber o que é o
[2:00] bode inspiratório estou no fundo um desafio a escritores os acho
[2:05] que estavam mais à mão aos depois os escritores falavam uns
[2:08] com os outros queremos uma rede e de um grupo de vinte saiu um
[2:14] grupo de quarenta e agora já estamos para aí em cinquenta
[2:17] cinquenta escritores criamos esta plataforma que a magda já
[2:21] viu esta esta página chamada bode inspiratório e que cada dia
[2:26] um de nós vai assegurar um capítulo bastante acaba dia
[2:30] vinte e oito de abril começa com os escritor mário de carvalho
[2:33] acaba com a escritora luísa costa gomes bode inspiratório
[2:37] capítulo um raiox e coriscos por mário de carvalho chame o
[2:44] ricardo o professor se quiseres mas isso de rico é que não tenha
[2:48] lá paciência pesados os papéis no tampo da mesa o professor
[2:53] olhava teresa bem de frente em suspenso durante os instantes
[2:57] marcando a diferença da história já passou pelas mãos de mais de
[3:00] vinte e oito ficcionistas e poetas de várias gerações o
[3:04] isolamento que no início deste cadáver esquisito não era
[3:08] obrigatório inspirou e de onde é que surgiu a ideia sim foi uma
[3:12] ideia que partiu um bocadinho desta destes tempos em que
[3:16] vivemos desta clausura forçada desta período de quarentena e do
[3:23] facto de parecer que nós escritores também podíamos enfim
[3:29] contribuir com alguma coisa para as outras pessoas que estão
[3:31] enclausuradas como como nós estamos é e o que nós sabemos
[3:36] fazer escrever portanto acho que poderia ser uma uma ideia
[3:40] interessante também porque quando estamos isolados fazer
[3:44] coisas coletivas é é um é bom estamos a viver um facto tão
[3:49] único e e tão diferente de toda a história portanto não toda a
[3:54] história não digo não é porque já tive e já houve casos
[3:57] dramáticos de de de grandes e pandemias mas nesta época em que
[4:01] temos as tecnologias ao nosso dispor que nos aproximam é bom
[4:05] que as possamos utilizar para para nos para para para fazermos
[4:11] aquilo que pudermos dar no nosso caso é escrever mas não só de
[4:15] escritores se faz o bode inspiratório além das dez
[4:18] escritores que eu falei também vão passar a participar a
[4:23] artistas plásticos que se associaram a nós desde os mais
[4:26] consagrados até aos mais novos que vão preencher aquela página
[4:31] de aquela foto de dudu moral e com e imagens com com pinturas
[4:39] com a instalações com fotografias uma uma uma vez por
[4:45] dia também cristina terra da mota coordena os artistas
[4:48] plásticos e como a curadora desta exposição digital podes
[4:52] encontrar o bode inspiratório no facebook no instagram com edito
[4:56] queiroz encarregada dos vídeos e na plataforma entre espaço
[5:00] vistas tens acesso a narração dos textos feita pela paula
[5:04] perfeito e mais recentemente até na rtp play a cada dia um
[5:11] capítulo adensa a história está pensada uma compilação em em
[5:15] livro depois no final quando diz de tudo deste pesadelo de
[5:19] terminar os que há de terminar talvez quem sabe possamos
[5:23] eventualmente transformar isto num livro e voltarmos a ao nosso
[5:27] suporte convencional que ainda continua a ser o papel e também
[5:31] e também está previsto uma uma exposição com com as com as
[5:36] obras em que os artistas em confinamento também vão produzir
[5:40] especificamente para para a página e a ana margarida também
[5:43] vai escrever não eu não vou em princípio quer dizer princípio
[5:47] não vou porque porque não acho justo porque há muita gente a a
[5:53] gostar de participar portanto vou dar o meu lugar a outras e
[5:57] vou ficar no numa posição mais de de bastidores e de e de e de
[6:02] organização não é de fazer escalonamento de colocar as
[6:05] coisas na paz na falar com com as pessoas de ver cumprimento
[6:09] das entregas e das remessas e de dos rios do dos capítulos para
[6:13] cada um portanto em princípio em princípio só entrarei em casa de
[6:18] emergência se se houver alguma falha até agora não teve de
[6:22] escrever ninguém falhou as entregas a história adensa se e
[6:26] tem havido por aí como no título de um dos seus livros pequenos
[6:30] delírios doméstico pois é é para casa essa essa expressão é
[6:36] interessante porque agora estamos todos os domésticos e
[6:39] está tudo um bocadinho delirante só que os delírios são grandes
[6:43] não é às vezes é há grandes grandes de ler as que podem
[6:47] acontecer é neste nesta clausura nesta espécie de de prisão que é
[6:55] protetora mas não deixa de ser encarceramento então é mas é
[6:59] engraçado como os títulos dos livros de ana margarida encaixam
[7:02] perfeitamente nesta situação por exemplo o seu mais recente o
[7:07] gesto que fazemos para proteger a cabeça é mesmo isto que temos
[7:10] tentado fazer não é mesmo isto sim é embora agora as índicas
[7:14] achas não tocarmos na na na nossa na nossa cara mas é não
[7:20] digo os títulos mas talvez antes as temáticas que é que eu me
[7:25] dediquei tem muito a ver com lógicas de muito próximo de de
[7:30] limites de fim do mundo e de capacidades de adaptação a
[7:36] condições difíceis condições difíceis do exterior do espaço
[7:40] do ambiente como condições difíceis causadas pelos pelos
[7:44] outros pelas outras pessoas uma pequena biografia de ana
[7:47] margarida de carvalho jornalista e escritora e cérebro das
[7:51] operações do bode inspiratório estreou se no romance com o
[7:55] livro que importa a fúria do mar que lhe valeu o prémio da
[7:58] associação portuguesa de escritores em dois mil e treze
[8:01] prêmio esse que o pai mário de carvalho ganhou em mil
[8:04] novecentos e noventa e quatro com o livro um deus passeando
[8:07] pela brisa da tarde autora tem ainda livros de reportagem
[8:11] contos e um livro infantil mas quem melhor que a própria ana
[8:15] margarida para falar dos livros nesse que falou dos contos os
[8:19] pequenos delírios domésticos chama-se assim justamente porque
[8:23] todos os espaços são em regime doméstico em regime fechado em
[8:27] regime de confinamento que é um tema que me interessa mas que me
[8:32] e perturba muito e portanto esta altura é particularmente
[8:36] perturbadora não porque eu não gosto de estar em casa estar em
[8:38] casa é para mim normal mas porque a sensação de sufoco da
[8:43] perto de estar fechada é algo que que me deixa inquieto sim
[8:48] acho que sim da deixa-me inquieta e cegueira por isso que
[8:51] eu escrevo sobre sobre isso agora a a ficção está está a
[8:56] tornar-se realidade isso é que é o mais assustador é mesmo e
[8:59] acaba por ser uma iniciativa para entreter a cabeça tanto dos
[9:03] leitores como dos escritores exatamente é essa não é agora
[9:07] que até até ministros apelam à leitura não é dizer leiam e
[9:13] entretenham se com a leitura vi eu não acho que a leitura seja
[9:16] um entretenimento acho que a leitura a literatura é um pouco
[9:19] mais do que do que isso acho que a literatura e estamos a falar
[9:22] de arte porque estamos a outro nível mas o que se quer o que
[9:25] nós vamos fazer e é também a um ritmo em que não não podemos
[9:30] pensar muito em que não podemos refletir muito em que não
[9:32] podemos escolher muitas palavras também não não se não se vai
[9:35] esperar uma grande obra mas penso que estamos a pensar numa
[9:40] lógica de comunicação com o leitor e de oferecer algo a quem
[9:45] está fechado como nós e que a oferta entre a meia centena de
[9:49] escritores que participam estão adélia carvalho tiago salazar
[9:52] ricardo fonseca mota inês pedrosa cada um tem vinte e
[9:56] quatro horas para dar continuidade ao que foi escrito
[9:59] têm de escrever contra o relógio lá está afonso reis cabral e
[10:03] afonso cruz nossos conhecidos podcast já escreveram e afonso
[10:07] cruz até leu capítulo dez e sensibilidade ao paraíso há três
[10:12] anos que a vida voltar ao normal teresa já não se lembrava do
[10:15] maravilha mento com que a população mundial saiu à rua
[10:19] como se encheram as cidades de canções e de riso primeiro de
[10:22] bobs e violência depois até a normalidade se impor a
[10:26] normalidade tem vencido todas as guerras e os teus amigos
[10:29] estrangeiros vão querer saber que agora os textos são
[10:32] traduzidos para inglês francês castelhano holandês e a partir
[10:38] deus para italiano também podes aproveitar para aprender as
[10:42] línguas se quiseres para resumir e baralhar se ainda não
[10:45] estiveres rendido vai ser um trabalho que já começou com
[10:48] escritores já está associado a artistas plásticos e e está em
[10:52] crescimento e teve uma adesão enorme e isso foi muito bom
[10:59] muito esperado não é porque nestas alturas eu acho que as
[11:01] pessoas deixam muito as pequenas as coisas as pequenas de
[11:06] importâncias não é como dizia o manoel de barros para para trás
[11:09] e e focam se no que é importante e se calhar é importante e é
[11:14] estarmos juntos e manifestarmos e de alguma forma o que é estar
[11:18] junto lembro de nos só da data de encerramento da iniciativa
[11:21] casas no dia vinte e oito em princípio bem com vou tentando
[11:25] encaixar as coisas como consegui de forma a que mais escritores
[11:28] escrevam mas a o a data prevista de encerramento no dia vinte e
[11:31] oito de abril esperemos que acabemos primeiro que a pandemia
[11:35] não sei era boa não é na era ana margarida muito obrigada pelo
[11:40] trabalho e pela partilha obrigada é a hora comunicado à
[11:50] comunidade se tiveres uma iniciativa que queiras que todos
[11:53] conheçam contactem me manda um email para ponto final parágrafo
[11:57] ponto f m arroba gmail ponto com uma mensagem para as redes
[12:01] sociais instagram arroba ponto final parágrafo no facebook
[12:06] ponto final parágrafo e no twitter parágrafo final podes
[12:09] vir até estar no pode cast aproveita e subscreve o podcast
[12:13] para receberes todos os episódios a pergunta que ana
[12:17] margarida de carvalho fez aos escritores artistas plásticos e
[12:21] tradutores fica bem colocá-la a ti porque não ceder à vontade
[12:26] que o vírus tem manter-nos quietos mas manter as ideias a
[12:30] mexer e eu dou-te já uma ideia todos os episódios a uma imagem
[12:34] que te é mostrada no fim de de do facebook do instagram do
[12:38] twitter e desta vez és tu que vais ilustrar o episódio
[12:42] portanto procura na tua imaginação como é que este
[12:46] projeto de toca e faz papel para o computador podes até arranjar
[12:51] uma maneira de fotografar essa tua interpretação manda para nós
[12:54] e nós partilharemos tens a pouco tempo quarta-feira é para ser
[12:58] publicado portanto dois dias força até para a semana mantei
[13:02] te muito atento ou atenta ao instagram do podcast no dia
[13:06] mundial do livro vamos dar-te um mim fica com a leitura do
[13:10] primeiro capítulo do bode inspiratório escrito por mário
[13:13] de carvalho e lido por paulo perfeito chama-se raios e
[13:17] coriscos bode inspiratório capítulo um raiox e coriscos por
[13:24] mário de carvalho chame o ricardo o professor se quiseres
[13:29] mas isso de rico e que não tenham lá paciência pesados os
[13:33] papéis no tampo da mesa o professor olhava teresa banho de
[13:37] frente em suspenso durante uns instantes marcando a diferença
[13:41] de gestos em relação à turbamulta rápida e despachada
[13:45] dos últimos dias a rapariga descaiu se numas desculpas
[13:49] tímidas sumidas o professor voltou a mergulhar e a azáfama
[13:54] continuou teresa era nova na equipa não sabia que com aquele
[13:58] chefe não se brincava seria uma centena uma centena e meia de
[14:04] cientistas a trabalhar naquele exíguo espaço tinha um alteado
[14:08] solo enrugado da caverna com espetos de pau e construído
[14:13] mostrado sobre que se erguiam os gabinetes delimitados por placas
[14:17] de vidro ou pela presença dos conforme das grandes máquinas
[14:21] que impunham a sua dimensão ao fundo no lugar mais distante da
[14:26] caverna onde ela derivava para outras aberturas e câmaras
[14:30] escondidas ensinava se o gabinete do professor breve como
[14:35] os demais tendo ao lado uma pequena sala de reuniões com
[14:39] mesa corrida e quadro electrónico toda aquela extensão
[14:44] fervilhava de gente de bata branca papéis e tabletes na mão
[14:48] deslizando pelos corredores concentrando-se em frente dos
[14:52] múltiplos monitores confrontando dados com rapidez e empenho
[14:57] lúcia dedilhando no teclado não resistiu à urgência de um
[15:03] comentário pessoal praticamente três anos juntos e o tipo é me
[15:07] vendo é como se não conhecesse a colega estava ao par da história
[15:12] e sabia como ela se sentia magoada bem vê emergência as
[15:18] coisas depois de volta ao normal se dizer por dizer espontânea
[15:21] solidariedade na verdade não haveria ocasião de aprofundares
[15:26] a jovem teresa pelo corredor fora procurava esconder as
[15:29] lágrimas no gabinete contíguo à entrada os da equipa mais jovem
[15:34] tentaram consolada o professor e mesmo assim nada de pessoal
[15:39] ainda pior desde que a cacilda o deixou como assim foi uma fita
[15:43] lá na faculdade raios e coriscos não ficou uma cadeira inteira
[15:49] hora em falar no diabo a professora cacilda entrava
[15:52] lentamente pelo corredor no seu trajo de estrada prateado
[15:57] carregada com o capacete de mota e diversos sacos atrás dela um
[16:01] pobre-diabo manifestamente admirado por se encontrar ali
[16:05] transportava em esforço uma grande caixa cacilda atirou o
[16:09] capacete e uns sacos para dentro do seu gabinete ao passar por
[16:13] ele e disse ao homem que continuasse até ao fundo é
[16:17] preciso ajuda perguntaram-lhe obrigada respondeu ela
[16:21] cortesmente isto vai todos esperavam que o encontro entre
[16:25] cacilda e o professor ricardo pudesse resultar em contenda num
[16:30] estremeção que aliviasse a monotonia daquelas tarefas mas
[16:34] não o professor levantou-se recebeu a cortesmente ajudou o
[16:39] homem a colocar o pacote sobre a mesa e disse apenas em voz baixa
[16:43] e indiferente obrigado professora por favor fique não
[16:48] tardou a convocar todos os chefes de equipa ao seu espaço
[16:51] de reuniões querem saber as potencialidades deste aparelho
[16:55] começou apontando para o embrulho sobre a mesa
[17:58] envie ama

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