# Episódio 80 - Ana Bárbara Pedrosa: «Em Viagens com o Mehdi, o capítulo da Islândia terá de ser sobre a paisagem, mas o da Palestina tem de ser político»

An episode of [Ponto Final, Parágrafo](https://invisiblenetwork.ai/podcast/1446064267), 13 Jan 2025, 42 min.

Audio: https://anchor.fm/s/80a352c/podcast/play/96874788/https%3A%2F%2Fd3ctxlq1ktw2nl.cloudfront.net%2Fstaging%2F2025-0-10%2F4ffc1cd9-20f9-d5e9-bba2-e9ec0b84df70.mp3

Depois de três romances, o quarto livro de Ana Bárbara Pedrosa, publicado pela Bertrand, é um livro de Literatura de Viagens. «Viagens com o Mehdi» é o resultado das memórias de viagens pelo mundo: São Paulo, Nova Iorque, passando por Reiquiavique e Tromso até Jericó. Neste episódio do podcast «Ponto Final, Parágrafo», Magda Cruz conversa com a escritora sobre esta ode à amizade e à viagem. É feito também o convite à crítica literária e cronista para explorar as especificidades dos géneros literários, as várias formas como a leitura influencia a escrita, e os hábitos que Ana Bárbara tem enquanto leitora - tais como anotar os livros.

## Transcript

[0:10] ponto final, parágrafo. Olá, o meu nome é Magda Cruz e
[0:26] seja bem-vinda ou bem-vindo ao Ponto Final Parágrafo.
[0:28] Ana Bárbara Pedrosa aprendeu a vida a ler, escreve que não há
[0:32] momento em que esteja viva que não obceque com a escrita.
[0:35] Têm sido anos prolíficos para Ana Bárbara, é autora de Lisboa,
[0:39] Estão Sagrado, publicado em dois mil e dezenove, Palavra do
[0:43] Senhor, de dois mil e vinte e um, Amor Estragado, editado em
[0:46] dois mil e vinte e três e mais recentemente, este ano, dois mil
[0:49] e vinte e quatro, Viagens com o Medi, todos com a marca Bertrand
[0:53] Editora. Paralelamente à publicação de
[0:55] livros, escreve em vários órgãos de comunicação, assina crónicas
[0:59] no jornal Mensagem de Lisboa e na revista Sábado e faz crítica
[1:03] literária no Observador. Vamos ainda ao currículo.
[1:07] É doutorada em Ciências Humanas, mestre em Estudos Portugueses,
[1:11] pós-graduada em Linguística e Economia e Políticas Públicas e
[1:15] licenciada também em Línguas Aplicadas.
[1:18] Viveu e estudou em Portugal, no Brasil, nos Estados Unidos, nos
[1:22] tempos livres. Estuda línguas, faz jiu-jitsu e
[1:26] scuba diving e, como vamos perceber neste episódio, também
[1:29] viaja muito. Ana Bárbara gosta de estar
[1:32] sozinha e fugir ao teatro da vida em grupo, mas desengana-se
[1:35] quem acha que Ana Bárbara nunca sentiu solidão.
[1:38] Estar parada aflige-a, bem como não evoluir, acredita que
[1:42] nenhuma atividade é melhor do que escrever e que nenhum
[1:45] sossego é maior do que o poder de ser escritora.
[1:47] É uma das conclusões que teremos do seu novo livro, Viagens com o
[1:50] Mehdi. Neste livro conta a sua história
[1:53] e de Mehdi Nadif, duas pessoas que vieram de pontos opostos do
[1:57] mundo, mas que nunca mais se largaram.
[1:59] O objetivo do livro é cristalizar Mehdi nas páginas do
[2:03] livro. Bem-vinda.
[2:04] Olá, obrigada. Obrigada pelo convite.
[2:07] Eu queria começar com a primeira frase do livro, do Viagens com o
[2:11] Medi, que é Passei a vida sem sair do mesmo sítio.
[2:15] Quando e como é que chegaste a esta frase, a esta conclusão?
[2:19] Quase nem é uma conclusão, acho que é mais uma introdução,
[2:22] porque vem realmente de uma experiência literal.
[2:26] A vida, no caso, é a vida até a chegada à idade adulta.
[2:30] Eu, o pai, até aos dezoito anos nunca tinha saído da minha zona
[2:34] de Vizela, da minha casa. Tinha ido a Santiago Compostela,
[2:39] acho que tinha vindo a Lisboa duas vezes.
[2:43] De resto uma outra praia E tudo muito ali na zona do Minho Ou à
[2:48] volta do Porto Mas nunca tinha ido para lugares longe E é por
[2:52] causa disso Porque depois o livro Apresenta outra coisa
[2:57] Outros lugares que estão muito longe Mais à frente escreves.
[3:00] A escrita abre tantos mundos que é fácil perguntar.
[3:03] Para que é uma estrada quando há livros?
[3:05] Mas de vez em quando uma mulher também quer estrada.
[3:08] E eu, que tanto aproveito as viagens para escrever, nunca
[3:10] aproveito para escrever sobre viagens.
[3:13] É deste contexto e desta premissa que surge a vontade de
[3:16] escrever este livro? Talvez.
[3:18] O livro veio meio no seguimento de um desafio e de um artigo que
[3:22] eu tinha feito para a revista ler.
[3:24] Pensei na altura que podia ampliá-lo, que houve histórias
[3:27] que não ficaram ali contadas. E ao mesmo tempo interessava-me
[3:31] pegar nas rédeas de alguns destes lugares, porque me
[3:35] interessou ao fazer o livro a questão subjetiva da relação de
[3:39] amizade e usar a relação de amizade como o eixo comum do
[3:44] livro e como o que guia a narrativa, mas ao mesmo tempo
[3:48] poder dar mundo através de sítios muito diferentes e
[3:51] portanto os capítulos são também muito diferentes.
[3:54] Porque a vida nos lugares é radicalmente diferente e a
[3:57] viagem por causa disso também é. Ou seja, o capítulo da Islândia
[4:01] terá forçosamente de ser sobre a paisagem e sobre o embate de
[4:06] uma, no caso de duas pessoas, num carro contra a paisagem, uma
[4:09] estrada aberta. Houve uma altura que nós
[4:10] estivemos para aí dois dias e meio sem ver ninguém e
[4:13] fizemos... centenas de quilómetros, acho eu mas o
[4:17] capítulo da Palestina tem de ser um capítulo inerentemente
[4:20] político, não dá para fazer isso de outra maneira, o capítulo do
[4:23] Rio de Janeiro tem de ser social e por aí fora, e também me
[4:27] interessou adaptar a escrita ao tipo de viagem portanto ter um
[4:32] tipo de narrativa diferente consoante a viagem, ao mesmo
[4:35] tempo me interessava muito esta ideia de relação, que também
[4:40] acaba por, acho eu, humanizar cada viagem, porque a verdade é
[4:45] que num momento em que o Google está ao alcance de toda a gente,
[4:49] os lugares também estão ao alcance de toda a gente, ou
[4:51] seja, nós não precisamos que nos contem como é o Big Ben de
[4:56] Londres ou qualquer coisa, porque nós temos acesso a essas
[4:58] imagens, mesmo quando cheguei a Nova Iorque ou ao Rio de
[5:00] Janeiro, eu tinha a sensação, pela primeira vez, tinha a
[5:03] sensação de estar a voltar lá, porque eram lugares que já me
[5:06] eram muito conhecidos. E a outra coisa que eu tinha
[5:09] para dar, além da experiência destas viagens, era uma relação
[5:14] que se faz exclusivamente através das viagens e que é uma
[5:19] relação singular, acho eu, acho que é muito incomum duas pessoas
[5:22] de países diferentes... terem uma amizade durante tantos anos
[5:26] e que não é uma amizade que se alimenta do cotidiano é uma
[5:29] amizade de situação em viagem de exceções em viagem, exatamente e
[5:33] interessou-me ir contando essa história essa evolução e
[5:37] sobretudo a viagem como ideia de redoma porque é uma redoma em
[5:42] termos de espaço em termos de língua muitas vezes E no caso,
[5:47] em termos de relação também. Há pouco dizia que escrevias
[5:50] para que é uma estrada quando há livros, por isso, quando é que
[5:53] os livros deixaram de ser suficientes e é preciso a
[5:55] estrada? Acho que não foi uma questão de
[5:58] suficiência, acho que também foi uma questão de circunstâncias da
[6:01] vida, ter ficado adulta, ter tido mais capacidade económica
[6:05] e... E de ter conhecido Essa
[6:10] possibilidade Que até então não era uma possibilidade Ir aos
[6:13] sítios, os sítios existiam Mas não havia como chegar lá Lias
[6:17] apenas sobre eles Até há uma Há uma parte Em que, deixa ver se
[6:25] eu encontro Que eu apontei-a Sobre Londres dizias, Inglaterra
[6:30] com Dickens, Colin Doyle e Orwell, um país...
[6:35] Ou seja, quando escreves que chegas a Londres, por exemplo,
[6:39] dizes que estavas entre pares, ou seja, até vou citar, os que
[6:43] me tinham dado Londres antes de eu a ver.
[6:46] Ou seja, já tinhas uma... Até porque tinhas o hábito de
[6:50] ler sobre o país antes de ir também.
[6:52] Sim, sim, claro, logo essa... essa ideia do lugar porque já se
[6:57] esteve lá de outras formas muitas vezes é uma forma que
[7:01] demora várias centenas de páginas mas que nos põe no lugar
[7:05] também me aconteceu muito isso no norte da Noruega por causa do
[7:08] Knausgård Mas eu por acaso já tinha ido lá uma vez Depois é
[7:13] que li o Krausgård Mas quando voltei ao norte da Noruega pela
[7:16] segunda vez Já tinha lido aquilo Nem é só a questão dos outros
[7:20] olhos É de sentir Que estou num cenário real E ao mesmo tempo
[7:25] num cenário de ficção Em que parece Que o lugar se abre Para
[7:31] outra dimensão também Isso é muito giro, essa ideia.
[7:35] No livro, quando o Ana Bárbara conhece o Mehdi, é pintada uma
[7:40] imagem muito bonita que é ambos estão a ler e ambos estão a ler
[7:43] coisas diferentes e na sua própria língua.
[7:46] Ou seja, é uma imagem muito bonita sobre incompreensão, mas
[7:50] também sobre tolerância. Afinal, cada um tinha a sua
[7:53] comida, o seu inverno, a sua falta de vitamina D, cada um
[7:57] tinha. Eu não, ele é que tem.
[7:59] Ele é que tem. Ou seja, tudo era diferente.
[8:01] Era uma sensação que querias passar, essa tolerância também?
[8:06] Não necessariamente. Ou seja, não tinha um objetivo,
[8:10] mas é uma questão evidente e que ajuda àquela ideia de redoma.
[8:14] O facto de nós falarmos línguas diferentes e de ele viver na
[8:17] Dinamarca ou em Portugal implica que nós tínhamos vidas
[8:20] cotidianas diferentes. Os horários de trabalho, as
[8:24] relações laborais, os direitos laborais, o poder económico
[8:28] também é diferente. E depois a língua, claro.
[8:31] E o facto de nós falarmos línguas diferentes faz com que
[8:34] não estejamos abertos muitas vezes às mesmas realidades.
[8:39] Por exemplo, o Bolsonaro, que para nós é uma figura evidente,
[8:43] conhecida, que nos entra pelo telejornal e pelo computador,
[8:47] era-lhe desconhecido até há pouco tempo.
[8:49] Mesmo que a língua era portuguesa e entrava-nos pela
[8:51] televisão. Exatamente, e das referências.
[8:54] E ele naturalmente é muito mais conhecedor da vida da
[8:57] Escandinávia, mesmo dos outros países.
[9:01] E isso é ótimo porque nos leva a outros lugares e muitas vezes
[9:07] porque nos leva a entender que o que nos parece o único assunto
[9:11] dominante do mundo, na verdade pertence a uma fação, no caso a
[9:16] fação linguística. Acho que era mais por causa
[9:19] disso E depois, claro, os hábitos são diferentes Isso é
[9:22] muito engraçado quando se tem intimidade com alguém Porque é
[9:26] como a literatura Permite-nos ver outra vida e ser outra vida
[9:30] também E depois ainda se adiciona o facto de ele ser
[9:34] vegetariano E as refeições serem muito diferentes entre um e o
[9:37] outro Sim, isso não é assim tão diferente Mas é um detalhe É, e
[9:40] não é assim tão diferente Eu também como vegetariano às vezes
[9:43] Sim, sim, sim mas as pessoas que são carnívoras ou omnívoras
[9:48] facilmente comem um pouco de tudo e também é engraçada a
[9:51] vossa relação ao longo do livro com a alimentação porque quando
[9:55] eram mais jovens duas bolachas e um pacote de sumo valia-vos como
[10:01] almoço e a partir de certa altura já não ele também é uma
[10:04] pessoa com muita fome eu acho que sim mas ele também é muito
[10:08] alto sim É mais comida por centímetro quadrado.
[10:12] Sim, eu acho que a ideia da alimentação é mais ou menos
[10:16] comum. Eu acho que quando se é mais
[10:19] novo se tem mais resistência física e portanto não se sente
[10:22] tanta falta de nutrientes, por exemplo.
[10:24] À medida que fomos envelhecendo acho que começamos a precisar de
[10:27] nutrientes. Falaste dos direitos laborais e
[10:30] do salário, por exemplo. é engraçado quando tu chegas ou
[10:35] quando a Ana Bárbara chega ao Rio diz que tem um salário
[10:39] português no Rio e que isso lhe dá algumas vantagens mas o médio
[10:45] ainda sobrepõe isso tem um salário dinamarquês essa relação
[10:51] do dinheiro com o consumo também é interessante e é explorada nas
[10:55] entrelinhas do livro porque é uma coisa inerente a viagem
[10:59] também implica gastos claro No início notava-se mais, o meu
[11:04] rendimento era muito inferior, ou seja, antes do doutoramento.
[11:08] E, enfim, nas viagens notava-se bem a diferença de poder de
[11:12] compra. Nós resolvemos o assunto de uma
[11:15] maneira quase ditatorial. Passei a ser eu a decidir os
[11:18] sítios. Os sítios, estou a falar de
[11:21] restaurantes ou o que fosse. Ele oferecia-se para pagar, eu
[11:24] não queria. Mas, claro, nota-se
[11:27] perfeitamente a diferença entre a Europa do Sul e a Europa do
[11:30] Norte. Era pá, e quatro, cinco vezes
[11:32] mais o rendimento mensal que eu tinha aqui.
[11:34] Pois. E depois com a bolsa as coisas
[11:36] também já se nivelaram um pouco mais.
[11:38] Sim, sim, depois nivelaram-se. Quando descreves a viagem a Nova
[11:41] Iorque, há uma parte com a qual me identifiquei muito, apesar de
[11:44] ainda não ter ido a Nova Iorque, mas é algo que todos devem
[11:47] identificar em viagem, que é querer ir ver as igrejas, embora
[11:52] não sejamos católicos. Isso tem piada porque as igrejas
[11:55] são sítios ótimos para refrescar, para descansar, para
[11:58] aquecer, pelo contrário. E é engraçado porque...
[12:02] Eu vou dizer Ana Bárbara porque quero chegar lá e não dizer tu.
[12:06] Quero chegar ainda a esse passo. Mas Ana Bárbara tinha uma
[12:09] ligação às igrejas, ao seu passado cristão e religioso, mas
[12:13] o Médio, pelo contrário, via ali uma construção.
[12:17] É apenas uma igreja. Isso é muito interessante.
[12:20] Via ali... Um resguardo e não um passado
[12:26] cristão ou religioso naquele edifício.
[12:28] Sim, eu tive educação católica, andei nove anos na catequese,
[12:32] sou ateia, o que não implica que esse passado cultural e que essa
[12:37] visão cultural me esteja intrínseca.
[12:40] Eu revejo-me isso, igualmente. Catequese, escuteira e sou
[12:44] ateia. Ah, também fui escuteira.
[12:46] Não devia ter dito isto no podcast.
[12:48] Ninguém vai dizer mal. Sim, e implica uma série de
[12:52] referências culturais e isto nota-se principalmente na
[12:56] Palestina eu sentia que estava na Bíblia quando estava na
[13:00] Palestina, tudo é bíblico eu quando era pequena tinha umas
[13:03] cassetes da Bíblia em desenhos animados e parecia que estava
[13:08] nesses sítios lá está, outra vez a mesma relação com a ficção,
[13:12] com os livros de sentir que estou em cenários que só vi na
[13:16] literatura Enfim, para alguém que não tem isso, é tudo muito
[13:21] mais distante. E para alguém que não teve
[13:24] qualquer educação religiosa, ouvir as explicações em adulto
[13:29] de coisas religiosas é um bocado absurdo.
[13:32] E até esse absurdo tem graça. Tem graça como?
[13:35] Tem graça porque... Se alguém nunca ouviu falar de
[13:39] Moisés, e eu estou a explicar a história da divisão dos mares, é
[13:43] estranho, porque é evidente... É ter parolo, não?
[13:48] Não sei dizer, porque nunca tive essa experiência a partir de
[13:52] adulta. Eu fiz a coisa ao contrário,
[13:55] houve a crença e depois a descrença.
[13:57] Agora, se sempre houve descrença em adulto ao ouvir falar da
[14:00] crença, é uma coisa que é sempre recebida com muita estranheza.
[14:03] Será mais difícil em adulto largar a descrença e passar a
[14:08] ser crente? Eu imagino que sim, porque se
[14:11] tem ao longo de muito tempo uma visão objetiva sobre a vida...
[14:16] E implica suspender a lógica para aceitar uma versão de uma
[14:21] coisa que é uma coisa e que podia ser outra completamente
[14:25] diferente. E implica escolher um dogma
[14:28] entre vários dogmas. E são vários, tem muito para
[14:31] onde escolher. Queria ainda explorar a relação
[14:33] da escrita com a viagem. No livro escreves, escrita e
[14:36] viagem são dois amantes viciados ali às portas do pérfido.
[14:40] Consegues-me explicar o que querias dizer com isto?
[14:43] Sim, que no meu caso específico Eu aproveito muito as viagens
[14:48] para escrever O que não significa que eu esteja a
[14:51] escrever sobre as viagens Isso nunca aconteceu Porque eu
[14:53] aproveito a sensação de redoma E de estar fora da minha vida Para
[14:57] poder estar dentro da vida que estou a criar E eu adoro essa
[15:01] estranheza de estar num lugar em que as pessoas são diferentes de
[15:04] mim, em que falam outra língua, em que ninguém faz a mínima
[15:07] ideia do que é que se passa no governo do meu país, em que
[15:11] ninguém sabe quem eu sou, em que não temos uma única referência
[15:13] em comum. Isso também ajuda muito a eu
[15:16] poder fugir para aquele sítio que só existe dentro de mim, no
[15:21] caso o romance, e que... E que está ali protegido de
[15:27] olhares externos E também de influências externas em
[15:30] permanência Se em viagem não tiras apontamentos sobre a
[15:33] viagem Foi toda uma viagem Voltar a estas memórias Ou seja,
[15:41] este livro é todo escrito A partir das memórias e sensações
[15:46] que retiraste dos locais Sim, é a memória e a recriação de
[15:49] memória Isso também me interessou fazer Até porque eu
[15:52] na escrita não tenho um grande interesse em escrever a
[15:56] realidade, ou seja, em pegar no que já existe e pô-lo noutro
[16:00] formato. A escrita interessa-me como
[16:03] outra coisa, poder dar-me o que eu não tenho na minha vida, o
[16:06] que não significa que sejam coisas boas, pode ser violência,
[16:09] pode ser incompreensão, mas não me interessa muito a reprodução
[16:14] de uma coisa, não me interessa fotografar uma coisa,
[16:17] interessa-me criar outra realidade. e aqui interessou-me
[16:23] esse jogo que também é ficcional de recriar uma memória e de
[16:28] recriar uma relação e portanto fui tratando tanto a narradora
[16:33] como o médio também como personagens de vez em quando e
[16:37] tentando fazer algum exercício de alteridade enquanto escrevia
[16:40] o livro tanto que a descrição das paisagens dizes que é o mais
[16:44] difícil para ti não se nota nada, são descrições belíssimas
[16:48] Há quem diga, porquê que eu vou descrever esta montanha, se
[16:51] tanto já descreveram montanhas e planícies, ainda melhor, é só
[16:55] copiar dos outros. Mas falo-lhe muito bem, mas tens
[16:59] alguma dificuldade em chegar lá, é isso?
[17:07] Não, não, nem digo que seja difícil para mim, é que à
[17:11] partida, nesta altura da vida, a literatura de viagens tem esse
[17:16] problema até perante a aceitação dos leitores, ou seja, quando a
[17:19] literatura de viagens era uma coisa relevante no panorama das
[17:22] publicações, era porque as pessoas não tinham a
[17:26] possibilidade de ver os sítios e agora isso já existe e o que eu
[17:31] quero dizer é que à partida em literatura de viagens não me
[17:35] interessa muito estar a descrever a Torre Eiffel ou o
[17:38] que seja porque dá pouco ao leitor o leitor já tem a imagem,
[17:42] não é? exatamente, a imagem já existe e
[17:45] portanto interessa-me é usar isso como eixo que permita outra
[17:48] coisa usar o lugar como eixo que permita outra coisa Eu senti que
[17:52] havia muita verdade neste livro. Achas que por isso não se pode
[17:57] chamar-lhe romance? Ou podemos continuar a
[18:00] chamar-lhe autoficção ou literatura de viagens?
[18:04] Não é autoficção. Eu acho que o mais evidente é
[18:08] catalogá-lo como literatura de viagens, sim.
[18:11] Não é romance, não é autoficção, é o que comumente se chama
[18:15] literatura de viagens. Muito bem.
[18:18] Ficamos com essa catalogação para os livreiros e os
[18:24] bibliotecários saberem onde pôr este Viagens com o Média.
[18:28] Paralelamente com esta leitura que eu estava a fazer de Viagens
[18:30] com o Média, estava a ler o novo livro do Miyakoto, A Cegueira do
[18:34] Rio. E cada capítulo começa com um
[18:37] provérbio. E um deles era, não há viajante
[18:40] solitário, os caminhos são feitos de gente.
[18:44] Isto comunicou com o teu livro Eram leituras que eu estava a
[18:48] fazer ao mesmo tempo E comunicou Esta também pode ser uma das
[18:50] conclusões que podemos tirar do teu livro Ou seja, os caminhos
[18:54] são feitos de gente E por gente, vocês eram dois a viajar Eu acho
[18:58] que em geral sim Embora a minha experiência de viagens Tenda a
[19:02] ser outra Principalmente quando vou sozinha Porque eu não tenho
[19:05] o hábito de falar De ter conversa Porque eu gosto dessa
[19:08] ideia de solidão absoluta E a viagem permite-me essa solidão
[19:12] absoluta Estar em casa não me permite isso, porque tenho o
[19:15] quotidiano e gente conhecida. Mas essa é a experiência mais
[19:19] típica da literatura de viagens e da viagem em si.
[19:24] Enfim, aqui eu tenho este exemplo de uma relação que ia
[19:28] desenvolvendo ao longo da leitura.
[19:32] E há uma parte do livro em que eu até falo de um amigo, que é o
[19:36] Paulo Moura, que viaja muito. Foi o meu professor.
[19:39] Foi? E ele estava sempre a dizer...
[19:42] Porque eu estava a falar das viagens dele e da experiência
[19:45] como jornalista e ele dizia, ah, mas fala com as pessoas.
[19:48] Mas o que é que eu vou dizer às pessoas?
[19:50] Eu não vou meter conversa com as pessoas.
[19:52] E eu também usei essa ideia de silêncio e de redoma, eu acho
[19:56] que redoma é a palavra principal, quase como fio
[19:59] condutor do livro. No caso, esta redoma inclui
[20:04] outra pessoa que tem o mesmo espírito em viagens e a mesma
[20:07] necessidade de solidão e de não falar.
[20:10] E consegue conviver com a solidão da mesma forma que tu
[20:13] Conseguem estar lado a lado Calados a ler um livro Mas é só
[20:16] por isso que este livro existe E que esta realidade existe Porque
[20:20] isto é uma história de amizade Que tinha tudo para dar errado
[20:24] São dois miúdos que se conhecem Um com dezenove anos, outro com
[20:27] dezoito Nos Estados Unidos, num programa que dura um verão e
[20:31] estava tudo feito para nunca mais se verem aliás nós éramos
[20:34] vinte e quatro não mantemos relação com as outras pessoas
[20:37] sendo que algumas dessas pessoas vivem na mesma cidade que ele,
[20:40] por exemplo mas foi o fato de nós sermos quase diametralmente
[20:46] diferentes em muita coisa e depois exatamente iguais no
[20:49] resto que fez com que isto funcionasse e às vezes nem tem
[20:53] só que ver com a intensidade da amizade porque eu acho que a
[20:57] viagem pode arruinar uma amizade muito forte porque estar
[21:00] permanentemente com alguém vinte e quatro horas por dia com mil
[21:04] stress que surgem entretanto Requer dois feitios Muito
[21:09] compatíveis E que é o que existe aqui Mas o stress também pode
[21:13] fortalecer E era o que acontecia, não é?
[21:17] Com caminhonetas perdidas Ou avariadas Acho que há uma altura
[21:21] em que ficam Num barco avariado, ficam numa ilha Ficamos Isso é
[21:27] tudo fortalecido Eu acho que sim, mas é porque por algum
[21:32] motivo existe esta compatibilidade.
[21:35] Eu acho que qualquer pessoa com quem fizesse estas viagens teria
[21:37] cortado relações ao fim de algum tempo.
[21:40] Quando nós fizemos a viagem que incluía esse dia do barco, nós
[21:44] sentamos no primeiro dia em São Paulo e dissemos ok, nós temos
[21:48] dois meses e pouco à frente em vários países, eu acho que o
[21:51] nosso objetivo deve ser ficarmos amigos no final.
[21:55] E não havendo esta transparência, acho que teria
[21:58] sido muito difícil, porque nós estamos a falar de duas pessoas
[22:01] que dormem juntas, comem juntas, viajam juntas, vão a museus e
[22:06] passear e não sei o que juntas, às vezes fazem exercício físico
[22:09] juntas, isto pode saturar e pode queimar a possibilidade da
[22:14] relação continuar. portanto nós tínhamos esta transparência
[22:17] temos os dois muita necessidade de ler durante o dia, de não
[22:21] falar durante o dia isso nunca é visto como um stress se um quer
[22:24] fazer uma coisa e outro quer fazer outra também não há
[22:28] problema sendo que como não há essa pressão ou essa
[22:31] possibilidade de haver problema na verdade nós acabamos por
[22:34] fazer na mesma as coisas quase sempre juntos e o respeito pelo
[22:38] silêncio acho que tem sido o motor de uma relação de...
[22:42] quinze anos quinze anos, é verdade, quinze anos Ao ler o
[22:45] livro também me surgiu uma curiosidade, que é uma pergunta
[22:51] sobre como é que lês. Gostas de ler na língua original
[22:55] do escritor ou confias na tradução?
[22:58] Confio na tradução. Eu costumo dizer que para um
[23:00] escritor português ou outra língua qualquer, ler literatura
[23:05] noutra língua é como para um atleta beber uma Coca-Cola.
[23:10] Eu percebo que ler... Sirva para fortalecer essas
[23:13] línguas e eu acho que olhar para a leitura dessa forma
[23:17] instrumental é benéfica, mas acho que a partir do momento em
[23:20] que substituímos a leitura na nossa língua por uma leitura
[23:26] noutra língua, estamos também a perder ferramentas enquanto
[23:29] escritores, porque o treino de um escritor é escrever, claro, e
[23:32] é desafiar a própria escrita, Mas é também ler.
[23:36] A leitura é o ginásio de um escritor.
[23:38] E se passamos demasiado tempo a ler noutra língua, não há como
[23:43] evitar que essa língua macule e polua a forma como escrevemos em
[23:49] português. Depois aos falsos amigos, quando
[23:51] se lê muito em inglês, depois para...
[23:52] Também, mas eu acho que o problema é principalmente a
[23:55] sintase, o tamanho das frases, portanto passamos a habituar-nos
[23:59] a outra cadência e se estivermos a fazê-lo vamos transportar isto
[24:04] forçosamente para o português. Portanto eu tento sempre, e eu
[24:07] adoro línguas estrangeiras e adoro estudá-las, Mas tento
[24:12] sempre que não poluam o meu português e a minha maneira de
[24:16] pensar em português, de sentir em português e de estruturar as
[24:20] frases, os parágrafos e as narrativas em português, que são
[24:22] coisas diferentes. E quando escreves também lês ou
[24:26] tens que te... vou aproveitar a tua expressão da redoma, ou
[24:29] seja, enquanto escreves não lês outros livros e não lês sequer
[24:34] em inglês nem sequer em português?
[24:35] Sempre. Eu leio sempre porque eu escrevo
[24:37] sempre Portanto se tivesse de me fechar à leitura Não lia Ou
[24:41] seja, não é uma coisa compartimental Não é fecho-me em
[24:45] casa durante três meses E escrevo um livro É uma coisa que
[24:48] faz parte do meu cotidiano E portanto vou sempre lendo Lendo
[24:51] por prazer, lendo por trabalho também E que livros é que leste
[24:55] durante a escrita de Viagens com o Medi?
[24:58] Muita literatura de viagens ou nem por isso?
[25:00] Não, não, não. Ou seja, não tenho
[25:02] necessariamente a ideia de instrumentalizar as leituras
[25:06] para a escrita. Às vezes posso precisar mais nos
[25:10] romances do que neste. Neste serviu a ideia de estar
[25:15] fechada no livro. Não sei exatamente o que é que
[25:17] li na altura, eu faço crítica literária no Observador
[25:20] Portanto, muitas das minhas leituras são as leituras que
[25:23] faço para isso Não são leituras de livros, de coisas que me
[25:28] apeteçam ler Não te surge nenhum título de quando escrevias este
[25:33] livro? Não me lembro, não sei É
[25:35] difícil, não é? É difícil situar, porque como eu
[25:39] tenho tantas pequenas tarefas diárias Quando começo uma meio
[25:44] fecho a cabeça à outra Se estou a escrever romance ou o que seja
[25:49] Paro e leio um livro para fazer uma crítica Ou paro a crítica,
[25:53] fecho o documento e faço uma crónica Tenho de mudar o botão
[25:58] muitas vezes Isso é interessante seres hábil em tantos géneros
[26:04] literários Crítica, romance, literatura de viagem, crónica
[26:11] são várias partes do teu cérebro ou todas ou seja, tens de
[26:14] decidir o que é que cabe naquele género sim, tenho de decidir o
[26:19] que é que cabe mas tudo ajuda a complementar ou seja, o facto de
[26:23] eu fazer crítica no observador ajuda muito como escritora
[26:25] porque quando eu estou a ler eu tenho de ter um olhar
[26:28] permanentemente crítico sobre a mecânica de um livro o ritmo das
[26:32] personagens do desenvolvimento das personagens, o ritmo da
[26:35] narrativa se há palha se não há palha O que me obriga depois a
[26:40] ter essa exigência em relação aos meus textos.
[26:43] Tudo isso me está na cabeça quando escrevo e depois quando
[26:47] questiono o que escrevo. Quando tenho uma primeira versão
[26:51] e depois encaro a estrutura do livro.
[26:54] Como eu já vou tendo essa experiência e já vou pensando
[26:59] nisso diariamente, quase, ou pelo menos semanalmente, também
[27:02] me ajuda a... A fazer isso As crónicas também
[27:06] me ajudam a fazer uma coisa Que nesta altura não era tão
[27:08] problemática Mas quando eu era mais nova era mais problemática
[27:11] E isto ainda antes de publicar O Lisboa São Sagrado Eu ia fazendo
[27:15] algumas experiências de romance E o que acontecia E acho que
[27:19] isto é muito comum quando sei novo é ficar-se preso a uma
[27:24] frase bonita ou a uma ideia bonita.
[27:27] E a narrativa pode não ter nada a ver com aquilo, mas é muito
[27:30] fácil ceder-se à tentação de querer meter aquilo ao pontapé.
[27:34] Há uma história engraçada, estou a escrever um livro, deixa-me
[27:36] arranjar a maneira de meter aquilo.
[27:39] Com as crónicas da mensagem de Lisboa, Isto deixa logo de ser
[27:43] um problema. Primeiro porque eu tenho que ter
[27:44] matéria para as crónicas, portanto qualquer pequena
[27:47] história acaba nessas crónicas. E depois porque me ajuda a
[27:50] limpar o território do romance que já passa a ser mais seco e a
[27:55] ter só o que interessa. E depois há outras crónicas que
[27:59] são as que eu estava a fazer mais na sábado, que já não são
[28:02] crónicas propriamente literárias, são mais de...
[28:05] Comentário da atualidade, o que não significa comentário
[28:08] político, mas são a crónica mais típica das que temos visto nos
[28:12] jornais, as mensagens são mais crónica quanto.
[28:14] Isso é super interessante. Voltando aqui às viagens com o
[28:18] Mehdi, neste livro há um antes e um depois de Mehdi, porque tudo
[28:26] se desenvolve por ser uma viagem a dois.
[28:30] Sim, mas o antes e o depois também é questão das viagens,
[28:33] porque o antes do Mehdi não viajava.
[28:36] O médico quer ali representar também o teu início de viagem
[28:42] Sim, mas também pelas condições de vida Ele não terá essa visão
[28:45] Porque quando nós nos conhecemos ele já tinha ido a uma série de
[28:48] países E eu não sei quantos continentes Aliás, ele é de dois
[28:51] continentes Da África e da Europa Sim, portanto a viagem
[28:55] para ele já era uma coisa cotidiana Eu só tinha ido a
[28:59] Londres quando nos conhecemos e conhecemos nos Estados Unidos.
[29:03] E tinha ido à Galiza, mas eu sou minhota, portanto a Galiza não
[29:06] conta. É lá de casa.
[29:10] Portanto, isso bateu certo com o início das viagens.
[29:14] Quando estão na Bolívia, o Média encoraja a Ana Bárbara, ou neste
[29:18] caso encoraja-te, a escrever sobre o que estão a viver.
[29:21] Ao que ela responde? Não me interessa descrever
[29:24] cenas, gosto de inventar, de criar um problema e de o
[29:27] resolver a seguir. Depois desta conversa e chegados
[29:30] a este momento, é sobretudo assim que descendes.
[29:33] Em que sentido? Se prefiro...
[29:36] Não te interessa descrever cenas Mas no romance Há um problema,
[29:41] tu crias um problema Por exemplo, Manel ser Alcoólico e
[29:45] depois Aparece um problema que é A relação com a Ema E a
[29:52] resolução Do problema, se calhar mete-se ali O irmão Zé diz
[29:55] qualquer coisa Sim, a ficção é uma coisa muito mais livre e dá
[30:00] muita mais vida interior acho que não tem comparação desse
[30:04] ponto de vista com a não ficção é muito mais estimulante é
[30:07] emocionalmente desgastante e apaixonante ao mesmo tempo O meu
[30:11] território de eleição é, sem dúvida, o romance.
[30:15] E com os desafios que isso acarreta.
[30:17] Eu, na maior parte do tempo, parece que não sei bem se vou
[30:19] conseguir calibrar aquilo tudo. Só quando chega ao fim, acho eu,
[30:24] é que tenho a certeza de que conseguiria fazer o romance.
[30:29] E sim, não me interessa muito a ideia de chapar a realidade.
[30:34] Interessa-me fazer uma realidade nova.
[30:36] Aqui, a realidade nova que eu tinha para fazer era... forma de
[30:41] dosear esta relação em sítios diferentes e ao mesmo tempo,
[30:45] claro, usar a informação dos sítios em que estava e
[30:49] sobretudo, acho eu usar a ideia de que os sítios são
[30:54] radicalmente diferentes uns dos outros o que não implica que não
[30:58] haja a mesma massa subjetiva nas pessoas de todo lado Num
[31:03] capítulo estamos a escorrer suor como desalmados e a precisar de
[31:07] água fresca, noutro estamos em vinte graus negativos do círculo
[31:10] polar ártico. E eu acho que é fascinante e é
[31:13] uma coisa que o nosso tempo nos permite, esta forma que nós
[31:16] temos de acordarmos num sítio e horas depois estarmos numa
[31:20] paisagem completamente diferente.
[31:22] Digo o nosso tempo pela questão dos aviões e pela questão de uma
[31:26] certa democratização no acesso à viagem. as reinas da vida vieram
[31:31] mudar um pouco o paradigma, não é?
[31:32] Claro que sim. Imagina o meu pai, por exemplo,
[31:37] a viajar pela Europa com o mapa da Europa Michelin e hoje em dia
[31:42] não preciso de mais nada que não o telemóvel.
[31:45] Pois, pois, claro. E quando cheguei lá já vi tudo
[31:48] na internet. Pois, é isso.
[31:51] Dá-me a ideia de que vocês, Ana Bárbara e Mehdi, partiam, liam
[31:56] sobre o país, mas que partiam um pouco à descoberta, assim,
[31:59] aterramos e logo vemos para onde é que vamos.
[32:01] Sim, sim. Em certos países acontecia isso.
[32:03] Opa, em geral sim, até porque nós estávamos em países
[32:06] diferentes e não há para chorra para estarmos no Skype ou o que
[32:11] seja, a fazer um plano de viagens.
[32:13] Ou seja, estruturávamos mais ou menos, no caso das viagens
[32:17] longas... Até para não acontecer de
[32:19] estarem na Islândia e passarem por algo importante e
[32:23] continuarem a conduzir a esse problema também descrito.
[32:26] Sim, isso de certeza que aconteceu em vários sítios.
[32:30] Não, mas temos coisas como, olha, chegamos a Tromso amanhã e
[32:33] ainda não temos onde dormir. Ou então, na América Latina,
[32:37] acontecia muito de nós chegarmos aos sítios e termos de procurar
[32:40] sítio para dormir, porque online só apareciam os hotéis muito
[32:43] caros. E, portanto, nós tivemos de
[32:45] conviver com a ideia de... Chegamos lá e safámos-nos. e
[32:51] também porque somos muito pouco dramáticos e esse é um dos
[32:53] motivos que faz com que a relação funcione a maior parte
[32:56] das pessoas é mais ou menos impensável chegar a um sítio
[33:00] onde estão vinte graus negativos e não saber onde é que vão
[33:03] dormir procurar na altura também exige uma certa um certo
[33:08] despreendimento era o que eu ia dizer, um certo despreendimento
[33:11] mas também um certo otimismo de que vamos arranjar alguma coisa
[33:14] é evidente que não vamos acabar a dormir na rua Um livro da
[33:19] nossa biblioteca pode ter várias origens e tu escreves e fez-me
[33:22] lembrar isto. Ali juntava os livros que iam
[33:25] pingando do meu pai, do meu avô, os que surripiava da livraria da
[33:29] família, os que ali tinham pausa breve antes de os devolver à
[33:32] biblioteca. Ou seja, podemos receber livros
[33:35] como prenda, comprá-los ou neste caso roubá-los à biblioteca de
[33:38] Soutos. Ou pedi-los emprestados na
[33:41] biblioteca. Qual é a tua forma preferida de
[33:43] ler? Gostas de comprar todos os
[33:45] livros que lês? Gosto e preciso, porque eu
[33:49] preciso de sublinhar. Eu se não tiver caneta nem
[33:53] começo a ler. É condição para eu começar a ler
[33:57] um livro. Faz-se uma leitura totalmente
[33:58] diferente com uma caneta na mão, não é?
[34:00] Sim, e eu já tenho, eu já levo para a escrita o olhar de
[34:03] crítica e o de escritora, portanto eu preciso de ir
[34:06] sublinhando partes boas, preciso de ir rasurando partes más,
[34:11] preciso de ir fazer comentários ao lado, eu tenho amigos que se
[34:15] recusam a ler livros meus depois de eu os ter lido, porque já
[34:17] influencio demasiado e sou intrusiva na leitura deles com
[34:21] os comentários que vou deixando. Mas sim, eu preciso mesmo de
[34:26] fazer isso Se não tiver caneta, não comece a ler Posso queimar
[34:29] uma viagem de comboio De três, quatro horas, mas sem caneta não
[34:32] comece a ler Engraçado porque O Amor Estragado Eu li da
[34:37] biblioteca E foi uma leitura mais difícil Porque eu não podia
[34:40] sublinhar nada E este aqui, se fores reparar Está cheio de De
[34:46] anotações E de sublinhados E há aqui uma passagem que diz Humor
[34:53] natureza. Pois, eu acho que a caneta ajuda
[34:56] a ter-se uma leitura ativa e interventiva.
[34:59] E pode-se voltar àqueles pedaços que foram sublinhados.
[35:01] Sim, faço isso muitas vezes também.
[35:03] Às vezes pergunto-me mas por que raio é que eu sublinho isto?
[35:06] Também tem piada, porque registra uma evolução na forma
[35:09] de ler. Não no sentido hierárquico, mas
[35:13] registra leituras diferentes e, portanto, leitoras diferentes,
[35:16] mesmo que a mesma pessoa Às vezes dá-se o caso de, na
[35:20] biblioteca, nos darem um livro que foi, de facto, sublinhado E
[35:23] estamos a ler a visão do outro leitor também Sim, eu aí fico
[35:26] indignada Ah, claro, não podem fazer uma coisa dessas Por
[35:30] favor, não sublinhem os livros da biblioteca Mas se
[35:34] requisitares um livro da biblioteca Se houver esse caso E
[35:37] se gostares muito dele, vais comprá-lo Olha, eu já não
[35:39] requisito um livro da biblioteca Não sei Há mais de dez anos,
[35:44] seguramente Sim, eu compro os livros Eu recebo muitos livros
[35:49] porque faço crítica no Observador E neste momento A
[35:54] maior parte das minhas leituras São leituras que são usadas para
[35:57] críticas literárias O que faz com que eu às vezes esteja presa
[36:03] às publicações contemporâneas e que não esteja a ler coisas que
[36:07] iria ler de outra maneira. Portanto, o que acontece muitas
[36:10] vezes é que nesses intervalos eu volto à minha biblioteca e volto
[36:15] a ler coisas que já li até várias vezes ou então livros que
[36:19] tenho lá guardados e que acabei por nunca ler.
[36:21] Livros é que lês várias vezes. Agora menos.
[36:26] Houve alguns livros que eu li algumas vezes.
[36:29] Os clássicos do Steinbeck li algumas vezes.
[36:31] O Viver para Contá-la do Garcia Marques também li algumas vezes.
[36:35] A Única História do Barnes também li algumas vezes.
[36:39] Estamos na época de Natal e eu leio o Harry Potter sempre no
[36:42] Natal, todos os anos. A sério?
[36:43] Tudo? Sim.
[36:45] E que empreendimento. Isto é feito de nascidos na
[36:48] década de noventa. Sim.
[36:51] Sim, mas é uma tradição de Natal para mim e lê-se muito
[36:54] facilmente e depois há outra coisa que é, eu leio estes
[36:58] livros há uns vinte e cinco anos, todos os anos e na altura,
[37:02] quando era miúda, lia-os duas vezes por ano.
[37:04] Portanto, eu acho que se passar cinquenta páginas à frente nem
[37:07] noto, porque já sei os livros de cor.
[37:10] Enfim... O Steinbeck acho que já
[37:14] mencionei Acho que é por aí Muito bem, são boas leituras Eu
[37:17] ando para ler Harry Potter há tanto tempo Nunca leste?
[37:20] Vi os filmes várias vezes Só que eu tenho algum problema Com as
[37:26] edições que há em Portugal Acho que são todas muito infantis Da
[37:29] capa Para ter todos seguidinhos Queria ter uma edição Mais
[37:36] cuidada Agora foi feita pela Presença, penso eu Uma edição
[37:43] nova Mas é muito infantil para mim E daí?
[37:47] Também me posso largar essa ideia Vou pensar, minha prenda
[37:50] de Natal para mim própria Eu tenho as coleções em várias
[37:53] línguas São sete livros São sete livros São muitos.
[37:57] Tens várias línguas de colecionas, então?
[37:58] Várias línguas. Opa, acho giro, sim.
[38:00] Tenho aquele norueguês, que acho que nunca lirei, mas que fica
[38:03] bonito, não está? Eu faço isso com Saramago.
[38:05] Faz isso com Saramago. Italiano, espanhol, francês,
[38:10] português do Brasil, português europeu.
[38:13] Há quem faça muito com o príncipezinho.
[38:15] Eu odeio o príncipezinho. Como assim?
[38:17] O príncipezinho não fará. Acho que é dos livros que mais
[38:20] me irritam. Aquele herói indeciso.
[38:23] Detesto o príncipezinho. É um livro que não me aquece nem
[38:26] arrefece Mas para aí é odiá-lo Eu acho que é porque não me
[38:29] arrefece que o odeio Acho que é isso Mas toda a gente gosta
[38:33] tanto dele É verdade, daí que seja muito mal visto Quando
[38:37] alguém diz que odeia o Príncipezinho Porque o
[38:39] comentário geral é Ah, isso é porque não percebeste o livro
[38:42] Não é assim tão complexo A tua família tem Ou tinha de facto
[38:48] uma livraria Já no teu romance Amor Estragado Havia Sim, tinha
[38:51] uma livraria O pai do Zé e do Manel Também geria a livraria em
[38:56] Vizela Tem mesmo de facto uma livraria Sim, é uma mistura
[39:00] entre papelaria e livraria Era mais papelaria do que livraria
[39:03] Mas também havia umas estantes com livros E nós usávamos a
[39:07] palavra livraria Muito bem. Engraçado sempre viver com...
[39:11] Sim, ajuda muito o ambiente. Até escreves.
[39:14] Como foi lá que me fiz leitora, a maior parte para o mundo foi
[39:17] em Vizela. Sim, e eram as duas coisas.
[39:20] Era em casa, que eu tinha alguns livros em casa, e na própria
[39:23] livraria o meu tio também montou um cantinho para eu estar lá a
[39:27] ler livros. Possegada, devia ser para não
[39:29] chatear enquanto estava a trabalhar.
[39:32] Porquê que acreditas que nenhuma atividade é melhor do que
[39:34] escrever e que não se seja maior do que poder ser escritora?
[39:38] Tínhamos isto no início, na introdução.
[39:40] Eu acho que todos os escritores devem achar isso.
[39:42] As pessoas que escolheram outros caminhos profissionais dirão
[39:46] isso desses caminhos profissionais.
[39:47] Acho que os cantores dirão que nenhuma atividade é melhor do
[39:51] que cantar. Claro que tudo o que aí está é
[39:54] inteiramente subjetivo. Para mim é o melhor trabalho
[39:58] possível porque se coaduna perfeitamente com a minha
[40:00] maneira de ser. Eu gosto de estar sozinha a
[40:02] maior parte do tempo, gosto do ambiente da biblioteca e gosto
[40:07] de sentir que cada hora de trabalho é uma hora útil, que
[40:12] serve para criar alguma coisa, que serve para me ensinar alguma
[40:15] coisa. A escrita implica muito a
[40:17] leitura, portanto eu através da leitura aprendo muito, vou a
[40:21] muitos lugares, conheço outras vidas, conheço outras cabeças,
[40:24] desenvolvo relações de empatia e ao escrever isso acontece tudo
[40:29] também, principalmente a questão da empatia elevada a um limite
[40:32] máximo, que às vezes implica mesmo não só ser as outras
[40:36] cabeças, mas criar as outras cabeças e criar linhas de
[40:39] raciocínio que funcionem até ao fim.
[40:43] E o nenhum sossego Já não me lembro exatamente como é que
[40:47] está Queres que te diga? Como é que está?
[40:53] Nenhuma atividade é melhor do que escrever E que nenhum
[40:56] sossego é maior Do que o de poder ser escritora Pois, é isso
[40:59] Porque a verdade é que Nem sempre é fácil poder ser
[41:05] escritor no sentido em que nem sempre estão reunidas as
[41:08] condições materiais para isso. Ou seja, se uma pessoa estiver a
[41:11] trabalhar num full-time noutra coisa qualquer e depois tiver um
[41:15] part-time noutra coisa qualquer, sobra muito tempo para a
[41:17] escrita. Aqui o sossego é nesse sentido.
[41:21] É o de chegar a um ponto em que se estabilizou a vida, também
[41:25] profissional, de forma a garantir que há umas horas do
[41:29] dia que são dedicadas à escrita. Que é difícil de conseguir,
[41:32] claro. Queria terminar com duas frases
[41:35] do teu livro e vou lê-las. Irrita-me sempre só poder ser
[41:39] uma de cada vez. Ainda bem que há literatura para
[41:43] eu ser quem quiser viver todas as vidas, escarafunchar tudo o
[41:47] que é recante. Obrigada por estas frases e
[41:51] obrigada por este tempo. Ok, obrigada eu.
[41:53] Obrigada por teres ouvido até o fim.
[41:55] Eu sou a Magda Cruz, este episódio foi produzido,
[41:58] conduzido e editado por mim. Estou nas redes sociais em Magda
[42:02] Nunes Cruz e também encontras o ponto final de parágrafo no
[42:05] Instagram, Twitter e Facebook. Se ainda não fazes parte da
[42:09] nossa comunidade, considera fazer uma contribuição mensal no
[42:12] Patreon. Vai a patreon.com.br para
[42:16] descobrir todas as vantagens. O link está na descrição ou
[42:20] também podes ver todos os livros que foram sugeridos neste
[42:23] episódio. Até o próximo episódio, que é
[42:26] finalmente às segundas-feiras.

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