# Episódio 34 - João Tordo

An episode of [Ponto Final, Parágrafo](https://invisiblenetwork.ai/podcast/1446064267), 22 Jun 2020, 1 h 19 min.

Audio: https://anchor.fm/s/80a352c/podcast/play/15560180/https%3A%2F%2Fd3ctxlq1ktw2nl.cloudfront.net%2Fproduction%2F2020-5-22%2F84448944-44100-2-f16576a02384.mp3

No penúltimo episódio desta temporada, o convidado é João Tordo. E avisamos já: se esta fosse só mais uma entrevista, seria uma entrevista a mais. O autor no novo livro Manual de Sobrevivência de um Escritor fala de tudo um pouco: como sobrevive um escritor profissional, questões da vida editorial, pormenores da escrita tordiana… isto tudo à medida a que falamos de três dos livros que mais o marcaram. A seleção inclui Herman Melville, Roberto Bolaño e Saramago.

## Transcript

[0:10] ponto final parágrafo olá sejam bem vindos ao
[0:26] trigésimo quarto episódio do ponto final parágrafo o programa
[0:30] dez que se f m feito em parceria com a comunidade cultura e arte
[0:33] sobre a literatura e a vida os livros são eles que quem nos
[0:38] acompanha acompanhamos todos os dias de me dizer assim mesmo
[0:41] quem ainda não tenho gosto por ler v pelo menos um livro por
[0:45] dia nalgum sítio seja uma estante ou perdido algures e e
[0:50] no início de um dos livros de que vamos falar hoje a este
[0:53] livro chama-se o ano da morte de ricardo reis podemos ler a frase
[0:57] ainda há quem duvide de que a arte possa melhorar os homens
[1:01] neste que é o penúltimo episódio da segunda temporada temos
[1:04] connosco alguém que já melhorou a vida de alguns leitores temos
[1:07] conosco joão tordo obrigada por ter aceitado o convite jó nada
[1:11] obrigado meu bem eu queria dar a conhecer um pouco melhor o nosso
[1:14] convidado não é mas acho que desta vez não fiz uma descrição
[1:18] fiz um perfil e está aqui está tão grande que é um perfil vamos
[1:22] ver se nos aguentamos até ao fim então comecemos por alguns
[1:25] números quarenta e quatro anos quinze livros doze deles
[1:30] romances no outono soma-se mais um romance tem ainda um thriller
[1:35] que acho que não não encaixa no romance o encaixa na na neste
[1:39] número sim pode encaixar no número de romances sim não posso
[1:43] então está dentro dos doze e é o décimo terceiro sim é então são
[1:48] treze treze romances acrescentamos mais um número em
[1:51] cima e um novo livro sobre a escrita e prémios e distinções
[1:56] tem pelo menos nove incluindo o prémio josé saramago com uma
[1:59] história que que se passa entre santiago do cacém e lisboa mete
[2:03] funambulista chi arquivos secretos falo de as três vidas
[2:07] este livro passa-se também numa das cidades onde joão viveu nova
[2:11] iorque e também eu também chegou a viver em londres trabalhou em
[2:15] cafés restaurantes estudou jornalismo chegou a trabalhar
[2:18] como jornalista mas é na ficção que se dá melhor agora até
[2:23] porque aliás chegou a guinar alguns algumas séries de
[2:26] televisão entre eles pai a força que curiosamente chegou a ter um
[2:31] episódio não tenho bem a palavra português mas crossover com
[2:34] outro programa que era liberdade vinte e um que também ajudou a
[2:37] escrever e é licenciado em filosofia o que deve ter ajudado
[2:42] acho eu a ganhar alguma bagagem para a escrita e poucos sabem de
[2:46] duas coisas pelo menos eu não sabia disto primeiro que toca
[2:50] contrabaixo e em segundo que o livro com que se exterior foi
[2:55] inicialmente ignorado por mais uma mais de uma dezena de
[2:58] escrita de editores e não é algo acho que não é algo estranho
[3:03] para um para um escritor no início e antes pelo contrário e
[3:08] com apoio de josé luís peixoto conseguiu o que queria que era
[3:11] ter a escrita como uma pedra basilar na vida nesta casa de
[3:15] joão do ligeira já escritores já agora e se ainda tivermos
[3:19] ouvidos ouvir esta parte que é um bocado o perfil e foi a
[3:23] criadora da série de livros de livros detective maravilhas que
[3:27] lançou joão um escritor que agora as escreve como quem vai
[3:31] morrer amanhã que é o contrário daquele escreve como se não
[3:34] houvesse amanhã e é o contrário parecia um uma vontade de
[3:39] escrever escrever para terminar e olhando lá para fora para fora
[3:43] de portugal tem livros traduzidos em em países onde o
[3:46] português está bem representado falamos de brasil frança
[3:49] alemanha ou itália mas também onde pouco se conhece portugal e
[3:53] a língua de camões neste caso podemos destacar sérvia polónia
[3:58] ou talvez a hungria é queria destacar alguns pontos fortes
[4:02] deste escritor a pontaria serem a construção de enredos
[4:06] complicados ou conseguir que criar personagens fortes com que
[4:10] criamos empatia temos simpatia com elas e ainda a facilidade de
[4:14] criar boas personagens femininas e deixá-las falar não sendo joão
[4:18] uma mulher daí ser para mim um ponto a destacar este escritor
[4:23] por fim está a apresentar ao mundo o seu novo livro que não é
[4:27] um romance falaremos do manual de sobrevivência de um escritor
[4:30] mais à frente neste episódio é um livro que até já está nos
[4:34] tops das livrarias com isto tudo joão que já foi metade do
[4:38] episódio a falar também para já ter cia ter sido tornado
[4:43] escritor se soubesse que a cada livro que publica tem de dar a
[4:47] uma dezena ou mais de entrevistas face fosse se fosse
[4:51] só uma dezena era bom não eu olha eu já fazer parte obrigado
[4:56] pelo não também se não centenas mas são mas é mais do que uma
[4:59] dezena é depende chá livros que atraem mais atenção ali os que
[5:02] atraem menos por acaso este este este último livro o manual de
[5:05] sobrevivência dos escritores têm atraído muita atenção porque
[5:09] para já porque é uma saída do que do que aquilo que eu costumo
[5:12] fazer não é questão de escrever ficção e este é um livro de
[5:15] não-ficção não tem ficção nenhuma e embora fala de ficção
[5:18] não é e a questão é que por causa disso também atraiu muita
[5:23] atenção ou mais a atenção do que os outros e também por calma
[5:27] porque depois eu só percebi quando quando o livro saiu e e
[5:32] depende de mim eu percebi que que enfim eu já sabia que
[5:34] existia porque porque eu dou aulas de escrita literária há
[5:37] muitos anos é e sabia que havia muita gente interessada em
[5:41] escrever não sabia que havia tanta a e portanto de repente
[5:46] recebi mensagens de todos os dias no primeiro por facebook
[5:50] por de pessoas que leram o livro e que têm opiniões diversas etc
[5:53] e e e e dez nesse sentido é um livro muito mais a de feedback
[5:59] muito mais rápido que os outros é isso isso é um bocadinho ou a
[6:04] quase bem recompensador claro mas mas também é estranho para
[6:07] mim porque normalmente eu publico um livro e passa-se
[6:10] muitas semanas até que as pessoas o leiam e dirigir
[6:14] exigiram e não sei quê e este não existe uma questão dos dias
[6:16] comecei a receber mensagens e não paro de receber mensagens e
[6:20] eu já me sinto bem como é que eu vou responder a todas porque não
[6:22] tenho muito muito tempo neste momento mas deixe sempre uma
[6:25] palavra para as pessoas que escrevem sei que é pelo cariz de
[6:27] diferenciador do do livro porque tínhamos o caso de mário de
[6:31] carvalho tem um livro parecido não é a mesma coisa e digo isto
[6:35] apesar de não ter lido o seu novo livro foi pois eu acho que
[6:39] pois é pois eu acho que devia talvez ter ter olhado melhor
[6:42] para o exemplo do mário porque o mário carvalho quando publicou
[6:45] esse livro também teve muita gente se não me engano foi dos
[6:48] livros do mário carvalho que mais vendeu e que pronto e eu
[6:51] não sabia que isso ia acontecer também mas mas de facto há um
[6:54] público muito grande interessado não só pela escrita mas pelo
[6:58] menos mas por tudo o que rodeia a escrita não é enfim eu acho
[7:02] que não mas os bastidores das dores eu no fundo do escreveu um
[7:05] livro um bocadinho em resposta às perguntas que me fazendo ao
[7:07] longo dos anos e as perguntas eram quase muito parecidas todas
[7:10] eram sempre porque porque é que escreve como é que se ganha a
[7:13] vida a escrever a onda com os leitores a buscar as ideias etc
[7:18] o livro é uma resposta a essas perguntas todas que eu nunca
[7:20] soube responder adequadamente e no livro se calhar não estou bom
[7:24] não não respondidas mas são adequadamente a endereçadas para
[7:29] ser exato sim falamos um pouco mais do livro à frente até
[7:33] porque não falar de outros três livros que o marcaram que
[7:35] marcaram a vida do joão e um deles o o que é escrito por um
[7:39] português e tem muitos mais livros lá dentro se é que faz
[7:43] sentido há referências a outros ligando amor de ricardo reis sim
[7:46] exatamente sim onde eu moro ricardo reis aliás a começa logo
[7:50] com uma referência que nem toda a gente apanha porque nem toda a
[7:53] gente conhece a obra de borges mas é o ricardo reis vem volta
[7:58] do brasil a ler um a com um livro chamado o deus do o deus
[8:04] do labirinto de código do cliente que é um que é um livro
[8:08] é que o borges inventou isso é uma personagem chamada chamada
[8:12] queen só que ele não faz a referência ao borges então só
[8:15] que só quem pense o borja que percebe que logo ali no
[8:17] princípio já está uma referência meta literária até porque o
[8:20] livro o amor dos reis passa santos de barros de escrito esse
[8:23] livro então a é uma referência engraçada exato do hair bitcoin
[8:29] é um um e depois há uma série de referências primeira fase não é
[8:33] mesmo a primeira frase do ano da morte de ricardo reis que já é
[8:36] uma uma brincadeira com com os lusíadas com os lusíadas claro
[8:40] porque assim aqui o mar acaba e a terra principia sim exatamente
[8:44] e agora dando um salto já que falamos de saltos de temporais e
[8:49] chegou já chegou a dizer quando era pequeno que passava muito
[8:52] tempo em casa sem seja a escrever seja desenhar numa numa
[8:56] atitude de introspecção e disse é e cito talvez devesses ter
[9:01] brincado mais escrever o ato de escrever ainda o diverte daquele
[9:06] que o diverte mais na vida ou é algo que que eu sei que lhe traz
[9:11] alegria e sabemos que escrever ou a noite em que o verão acabou
[9:15] o divertiu muitíssimo ainda ou diverte bastante e eu acho que
[9:20] me divirto mais com as restritas para ser sincero as reescritas
[9:24] são mais divertidas porque já não tenho tanto medo não é tanto
[9:27] tanto medo de quê medo de que o projeto não resulte não chegar
[9:31] ao fim do livro de daquilo enfim aquilo aquilo é um escrever um
[9:35] romance é uma é é uma espécie de espécie de ato ato de
[9:41] equilibrismo não é uma pessoa tem tem uns que tem os pratos
[9:43] todos a rodar ao mesmo tempo não é e tenta segurá-lo estou mesmo
[9:46] tempo o que são os pratos mas várias linhas narrativas as
[9:49] personagens tudo que está ali dentro e que tem e que precisa
[9:52] de ser levado até ao final sem deixar cair não é e esse ato de
[9:57] malabarismo é muito complicado porque mas já é normalmente um
[10:00] malabarista a tipo a tua durante durante alguns minutos um
[10:04] romancista atua durante meses às vezes anos a fio numa só não não
[10:09] só livro não é é e portanto esse primeira essa primeira escrita é
[10:14] sempre difícil eu acho que é brincando eu acho eu acho que o
[10:17] lado mais divertido e na reescrita quando já tenho já tem
[10:20] quando já fiz um malabarismo e depois vou afinar aquilo e esse
[10:24] é a parte que que me diverte embora o o policial tenha sido
[10:28] muito divertido escrever porque eu escrevi o sem sem grandes
[10:31] pretensões e um é não tinha não tinha que não se não me senti
[10:36] obrigado a ser muito literário não não me se não sentia
[10:39] obrigado a ser a ser muito profundo queria mesmo escrever
[10:43] uma história uma história que que pegasse e que fosse e que
[10:46] fosse imediatamente atraente para o leitor é bom de ver esse
[10:52] sim eu sei o investigador não é o tipo de investigador é dito
[10:57] não é normal mas o os estereótipos não é um jogador é
[11:01] um professor de ginástica não isso não é no policial não é
[11:06] esse deus eu já estava a brilhar com o com o seguinte mas estás a
[11:10] brilhar com com livros que ainda não saiu exato foi meio de uma
[11:14] entrevista que deu já já estava a brilhar as coisas sim mas
[11:17] pronto já ficamos com a ideia de que a próxima personagem também
[11:20] vai ter ali moldes e não são expectáveis mas também se
[11:25] tivermos nós à espera que um escritor escreve algo expectável
[11:28] estamos muito mal estamos muito mal na vida não há quer dizer às
[11:33] vezes há escritores que conseguem sempre o mesmo modelo
[11:35] não é que e que escrevem coisas que o público já está à espera e
[11:38] o público aliás gosta disso gosta de saber com com o que
[11:44] conta não é neste caso não porque o policial foi foi uma
[11:49] foi uma coisa fora do baralho que eu não sei se vou repetir ou
[11:51] não mas mas a mas eu acho que tem que tem um que as
[11:56] características desse livro são muito peculiares no sentido em
[12:01] que é um livro sem é um livro que tenta que que que tenta ser
[12:06] o mais simples possível para contar a melhor história
[12:09] possível a ou seja a pergunta por onde eu eu queria elevar
[12:13] isto era se quando se deixar de divertir se pára de escrever se
[12:19] é aí que decide e aparece uma pergunta esquisita sendo que é
[12:23] um é um escritor frutífero na escrita e para que profissão é
[12:28] que se viraria a não eu acho que acho que não seria não seria
[12:33] possível eu parar de escrever nesta altura até porque junto
[12:37] com a escrita vem vem associada à sobrevivência não é um um
[12:40] escritor vive vive do que escreve e vive dos livros que
[12:43] vende e neste caso pronto ok é o meu caso este ano vai ser um ano
[12:47] complicado porque as deverias tentar fechadas e e e tem sido
[12:51] muito pouco mas a pronto vai ser um ano mais difícil mas espera
[12:55] que as coisas voltem ao normal e que as pessoas voltem a
[12:56] frequentar as livrarias sem medo e os livres não vem com vírus a
[13:01] ninguém é ou se pegam as e augusto também pegam e as couves
[13:06] e fim mas a mas eu acho que esse lado da sobrevivência que está
[13:11] associada à escrita para mim é muito interessante porque eu
[13:14] sempre quis fazer disto profissão e e tenho e tem e tem
[13:17] eu tenho conseguido não é tenho conseguido viver daquilo que
[13:21] escreve e do público graças a deus e por isso eu dou os
[13:25] lustres e estou muito grato por isso gostar dos meus livros há
[13:28] um certo público está dos meus livros ir comprando e eu ir
[13:31] podendo escrever mais porque o porque o público comprou
[13:34] anterior eu eu posso escrever o seguinte não é portanto a
[13:38] diversão às vezes é a diversão a se sim acontece às vezes não é
[13:45] mas mas grande parte disto é trabalho e e às vezes o trabalho
[13:49] é chato como qualquer pessoa sabe mesmo porque em novembro de
[13:52] dois mil e dezanove portanto o ano passado publicou o tal
[13:55] tributo que falávamos e em maio deste ano surge este novo livro
[13:59] e preciso de ter tão pouca distancia entre livros para para
[14:02] ser então financeiramente possível viver da escrita ou foi
[14:06] um acaso quer dizer como convêm publicar com alguma regularidade
[14:10] se eu tenho publicado mais do que o do que o normal para já
[14:14] porque não tenho não tenho grandes problemas com isso e
[14:18] depois porque é eu eu eu trabalho com cerca de dois anos
[14:23] de distância daquilo que estou a publicar portanto o livro que eu
[14:26] estou que eu estou agora a escrever se é ou é um romance
[14:30] para o final de dois mil e vinte e dois português o tempo
[14:33] distancia o li os livros para dois mil e vinte e um já estão
[14:36] escritos quer dizer já estão escritos em em rascunho portanto
[14:41] eu trabalho com algum tempo de antecedência para não para não
[14:44] criar essa situação e que de repente não tenho nada para
[14:48] publicar ou não tenho nada para e porque também sei que tem um
[14:52] público leitor bastante bastante bastante grandes coisas tenho em
[14:56] conta o número de leitores que temos em portugal e isso é muito
[14:59] e isso é muito é é muito bom porque há pessoas que já leram
[15:04] um livro que vou comprar próximo a pessoas que ainda não leram o
[15:06] último espera mais um bocado mas pronto vão vai vendo este este
[15:10] intercâmbio entre entre leitor escritor e os livros i e vai-se
[15:17] e até agora não não houve quer dizer já houve chato mas claro
[15:21] já já já já públicas livros tiveram mais sucesso que outros
[15:24] e os que vendem mais eu descrevi menos mas não houve nenhum que
[15:28] não tivesse vendido e eu acho que eu acho que é que é grande
[15:33] característica de um escritor é que faz disto vida não é para
[15:39] não dizer profissão a é que a a construção do seu público é uma
[15:47] coisa muito muito lenta mas também segura no sentido em que
[15:53] se o escritor continuar a trabalhar com com inspiração e
[16:00] com graça graça não no sentido de piada mas graça no sentido da
[16:06] a inspiração divina a dele silva não não não não tiveram grande
[16:10] termos de ideias e sim graça não elegância isto que eu quero
[16:14] dizer e publicar apenas aquilo que acha que está que está mesmo
[16:18] em condições de ser publicado o público leitor a que continua a
[16:24] confiar em nós e essa relação de confiança é muito importante
[16:27] porque eu também eu também dou conta que compra os livros
[16:30] tendencialmente dos escritores que nos nos quais eu tenho
[16:33] confiança e e portanto construir uma relação de confiança com os
[16:38] leitores não é muito diferente de construir uma relação de
[16:41] confiança quando quando pá quando tens outra coisa qualquer
[16:45] para venderes que parecem dizer e que tem qualidade seja sempre
[16:51] que tenho tempo para para escrever coisas que sabe que não
[16:56] que a partida saiba que vão falhar mas escrever por escrever
[16:59] e mesmo mesmo sabendo que pode ir para a gaveta tem esse tempo
[17:02] para falhar ou porque era uma coisa que não sabia que existia
[17:05] antes de de se se informar que os escritores também falhavam
[17:10] tenho aula sim às vezes escrevo coisas só para mim e depois
[17:13] acabo por usá-las às vezes em livros noutras vezes ficam ficam
[17:16] só no computador a às vezes começo coisas depois não acabo e
[17:22] e tenho muito muitos muitos livros inacabados também tenho
[17:26] uma pasta aqui alguns dos livros e livros por acabar que nunca
[17:29] vou acabar mas pronto tenho experiências frustradas tenho
[17:33] romances inteiros que escrevi que nunca vou publicar porque
[17:36] não não são interessantes aliás houve ou houve uma vez em que
[17:40] uma editora me disse que que o livro que eu tinha escrito
[17:43] quando quando que quando fiz uma residência nos estados unidos em
[17:46] dois mil e nove a dois mil e dez dois mil e nove um aquilo que o
[17:51] livro que eu tinha escrito lá eram não era mau mas era uma
[17:53] espécie de hitchcock apresenta não se era uma série que passava
[17:58] na televisão nos anos nos anos sessenta cá passou nos anos
[18:01] oitenta em que o hitchcock apresentava histórias feitas por
[18:06] outros e eram e eram histórias mais ou menos mas não tinham a
[18:10] qualidade que tinham antes cock nos filmes dele e portanto é e
[18:14] portanto a editora nessa altura rosário pedreira que tu já
[18:17] falaste disse bom isto e isto e isto parece o disco apresente e
[18:21] eu percebi que tinha escrito um livro com menos qualidade do que
[18:24] o habitual e portanto esse livro nunca nunca foi publicado às
[18:27] vezes aconteça tem essa esse filtro para perceber eu isto é
[18:32] joão tordo isto não está ao nível publicação joão tordo tem
[18:37] eu não tenho nenhuma das editoras estranhos ai eu não tem
[18:40] eu percebi que tinha sido os jovens fazer não não foi não
[18:45] gosto isto não foi rosário que me disse a editora na altura mas
[18:49] mas também há eu não eu não eu não tinha esse filtro que dizer
[18:52] já agora já começo mais ou menos a perceber o que é que funciona
[18:55] melhor e o que é que funciona pior mas mas ainda assim ainda
[18:58] depende bastante ou em parte da minha editora atual não é a
[19:02] clara para me dizer às vezes se outras coisas nos livros não
[19:05] funcionam que certas passagens não são boas certa personagem
[19:08] não está bem trabalhado etc etc portanto há muito trabalho a
[19:11] fazer o trabalho que vai num livro antes dele chegar a chegar
[19:15] às livrarias é às vezes nem sei como é que é como é que se vai
[19:18] ver livres porque é tanta coisa desde do primeiro rascunho até
[19:22] ao momento em que aquilo vai para a gráfica bom enfim é um
[19:26] trabalho é um trabalho longo e e e muitas pessoas que só pra não
[19:32] não não não muitas mãos mas só para dar um exemplo o livro que
[19:36] vai sair neste outono que já falaste aí brevemente que se
[19:40] chama felicidade eu escrevi o em hino entre o final entre o
[19:45] outono de dois mil e dezoito é a primavera dois mil e dezanove já
[19:49] estamos em dois mil já estamos no verão dois mil e vinte o
[19:52] livro só sai no outono de dois mil e vinte é entretanto já
[19:55] fechou a chaves já entreguei a clara o livro vai estar nas mãos
[20:01] dela durante algum tempo agora volta para mim daqui um mês
[20:04] depois volta para clara depois volta para mim outra vez depois
[20:07] vai para clara que a outra vez depois que anda volta por mim
[20:09] novo depois vai para a revisão depois e a produção também olha
[20:13] para ver se encontra coisas depois volta para mim de novo
[20:16] para uma última vistoria é bom sim é um processo que tem que
[20:20] tem muitas camadas e que e às vezes aquilo que nós escrevemos
[20:24] é é radicalmente diferente daquilo que é publicado e isso é
[20:27] normal porque pobre do escritor que acha que tudo que sai do seu
[20:31] computador é um diamante sim então diamante o que pode ser
[20:36] publicado assim não pode quer dizer precisa todas as versões
[20:40] iniciais são são que tendencialmente uma pequena
[20:44] amostra daquilo que pode ser a versão final e e no meu caso com
[20:48] com com o tempo e com a maturidade a minha a minha
[20:51] tendência é cortar e não só seguir os conselhos da editora
[20:58] mas também os meus próprios conselhos de de olhar para para
[21:02] o material que tenho escrito com alguma distância e por isso eu
[21:05] escrevo com algum tempo não é para ter esse tempo para depois
[21:08] olhar para as coisas com alguma distância e como eu já escrevi
[21:11] este livro há mais de um ano agora vou olhar para ele com
[21:15] outros olhos e vou poder riscas vê-lo e vou poder fazer os
[21:19] últimos retoques antes dele sair no outono essa distância é
[21:22] sempre importante porque senão ainda se aborreça com alguma
[21:25] passagem que se calhar até era melhor antes mas que agora à luz
[21:30] do que do que cresceu a densidade de um ano pode não lhe
[21:34] parecer é sempre um jogo é sempre aqui uma uma tentativa e
[21:38] erro até até encontrar o produto final vamos mais ou menos sim é
[21:42] um jogo é um risco não é porque porque eu acho que eu acho que
[21:47] se não que se não tivesse boas editoras e se isso não fosse um
[21:50] tipo paciente com isto da escrita acho acho que o meu
[21:53] trabalho ficaria aquém é porque é porque assim é também também
[21:57] deveria rever sim sozinha mas difícil uma pessoa não muito
[22:03] dificilmente consegue consegue ter outro a distância suficiente
[22:06] em relação aquilo que escreve para para para poder fazer isto
[22:08] sozinho e embora claro as histórias são são minhas os
[22:12] livros são meus não sou eu que escrevo mas de facto o o
[22:16] trabalho editorial que vem a seguir é muito importante para
[22:19] para que a coisa se torne porque a coisa suba de nível ainda
[22:23] sobre o programa e no duas palavras suas de sobre a escrita
[22:26] quando estamos quando estamos a ler os seus livros encontramos
[22:29] imensas referências a a teatro a música e até a outros livros e a
[22:36] minha pergunta aqui s para cada livro há uma uma imersão que vem
[22:41] com pesquisa profunda do que do que são estas artes ou já tem
[22:45] esse gosto essa cultura entranhada e sobre estas artes
[22:49] que da forma que quando está escrever-lhe natural inserindo
[22:54] essas essas piscadelas de olho essas referências para para o
[22:57] leitor a não eu nunca eu nunca vou à procura de referências só
[23:01] pelas referências normalmente eu já as tenho não é ou são coisas
[23:04] que eu fui tomando nota longo do tempo algumas referências nos
[23:08] meus livros até são referências a outros livros meus e e às
[23:11] vezes é o mesmo estranho porque por exemplo na mulher correu
[23:16] atrás do vento a história dele agora e da beatriz um que agora
[23:22] já me parece um romance distante mas no fundo sei saiu saiu há um
[23:25] ano e meio para aí um ano não menos de um ano e meio mas mas
[23:28] já mas já me parece uma coisa muito distante porque eu escrevi
[23:31] o em dois mil e dezassete portanto estás a ver o tempo que
[23:36] entretanto passou é esse tem bastante da música não é a barra
[23:40] amosa assim músicas que não mas beethoven mas sim creio que sim
[23:45] a não me lembro bem mas a sei que sei que no final do livro há
[23:49] uma referência a um tipo chamado joão tordo que escreveu um livro
[23:52] chamado chamado involuntária dos amantes onde aparece uma
[23:57] personagem chamada jaime toledo que é inspirada no já no toledo
[24:01] que é personagem no na mulher correu atrás do vento então
[24:04] estás a ver as às tantas quando tu começas quando chegares
[24:07] muitos livros e camadas sobre camadas e isto é giro porque é
[24:11] um diálogo com o leitor não é com o leitor atento e com aquele
[24:14] que segue a nossa aquilo que nós fazemos e eu acho eu acho esse
[24:17] jogo muito giro muito dos livros um sim os livros são essas essas
[24:22] referências todas existem exteriores mas também as
[24:24] referências interiores dentro da do próprio do próprio desenho de
[24:29] uma de uma obra mais do que um duque um só livro é já agora
[24:33] falando dessas referências e podemos saltar para para o livro
[24:37] para um dos livros é que o joão trouxe acho que consegue
[24:41] adivinhar qual é é por qual é que vamos começar se eu disser
[24:44] que tem seis edições destes destes a deste livro duas em
[24:49] português acho que é uma bike é o meu médico é fácil não é sim e
[24:55] não que não que se tenha tenha fixado esse livro de uma maneira
[25:00] não sei como um ídolo é um clássico não é neste livro
[25:05] fiquei a saber eu não li o livro tem pronto o livro em si já é
[25:10] uma baleia não é tem-se setecentas páginas como joão já
[25:14] disse uma vez aí está ele um calhamaço há uma personagem que
[25:18] se chama elias não é a willy assim é um sim é um profeta que
[25:24] que anda nas de um perfeito é um é um bêbado que anda nas docas é
[25:28] de nantucket hiashi acha que é um profeta então quer dizer e o
[25:32] mel ele fazia inspirar na bíblia no profeta elías não é eu e o
[25:36] elias que tem uma conversa com ismael não logo no princípio e
[25:40] em que o dias e as horta que não vá para o mar porque porque
[25:45] porque esperam coisas coisas difíceis não é desventuras e o
[25:49] ismael claro que vai não é senão não elias sim estava aqui à
[25:54] procura do elias não sei se consigo encontrar vai perguntar
[25:57] se esse elias do do moby dick e inspirou elias dos livros do
[26:01] joão da trilogia dos lugares sem nome ai se elias não não
[26:06] exatamente eu eu nesse eu eu quando eu eu quando escrevi o
[26:10] primeiro dos livros da trilogia nem sequer sabia que ia escrever
[26:12] uma trilogia a gente estava só escrever estava só escrever e
[26:17] depois conforme fui escrevendo um livro e pensei bom mas isto
[26:20] tem aqui alguma coisa que é continuava é que não é continua
[26:26] não sei se era continuavam no sentido de narrativa porque eu
[26:28] não queria escrever uma trilogia em que as coisas encrenca
[26:30] narrativa fosse sequencial eu queria era era desenhar um
[26:35] desenhar um mundo que não fosse exatamente este mas mas mas que
[26:38] fosse muito parecido e e desenhar o mundo através da
[26:42] perspectiva de de daquelas daquelas personagem sim daquelas
[26:46] personagens e e portanto os livros são os livros são
[26:51] totalmente independentes ainda quem leia os três depois tem um
[26:55] bónus de porque aquilo que está no fundo as as tem que desligar
[26:59] uma rede sim é uma rede que não faz muito sentido mas é uma rede
[27:04] é e o elias foi o foi o nome que me surgiu quando estava a
[27:07] escrever o primeiro romance estava numa está a escrever numa
[27:13] numa residência na suíça em dois mil e quatorze e quando volta a
[27:18] escrever esse livro e não tinha título ainda é eu e houve uma
[27:24] uma e houve uma manhã em que acordei e senti meu computador e
[27:28] de repente sem saber porque quer dizer já tinha já sabia que o
[27:32] livro ia ser easy a chamar-se o luto de mas não tinha um título
[27:37] um nome para personagem a in s i na noite anterior eu e outros e
[27:44] outros colegas lá da residências tínhamos estado a ver um
[27:48] programa de televisão um documentário de pessoas animais
[27:53] e e às tantas havia um animal que eu já conhecia mas que nunca
[27:57] tinha visto explicado que é o grou que é uma espécie de não
[28:01] sei não sei ave parece um flamingo mas com as pernas muito
[28:05] grandes o panda do confuso da disney acho eu e e depois dei
[28:09] uma pronto parece um salaminho só que tem umas pernas assim e
[28:15] foi aí que fui buscar não e depois no dia seguinte pensei
[28:19] que a minha personagem tinha artístico características muito
[28:22] parecidas era um padre e tinha assim um tem umas pernas longas
[28:26] era um tipo que andava assim meio curvado e pensei olha que
[28:30] olha olha que giro então este tipo pode chamar gro mas tirei o
[28:34] o e então ficou elias gro não sei porquê ficou este este livro
[28:39] é o moby dick das tais setecentas páginas e é fácil
[28:44] para si definir o que é que este livro porque sabemos que lá pelo
[28:48] meio tem uma uma enciclopédia de baleias mas é muito mais do que
[28:52] isso não é é difícil para o dedo no que é sim é um livro difícil
[28:58] de explicar a há uma a uma parte inteira que estava aqui a ver
[29:03] agora tenho um livro aqui na mão em que em que se em que se em
[29:07] que se fala da então um ri glórias à pesca à baleia e e o e
[29:14] o mel ele faz uma descrição dos vários tipos de baleias e
[29:17] cachalotes e etc é mas no fundo é um romance de aventuras não é
[29:21] mas eu o que eu gosto mais no moby dick nem sequer esta
[29:26] confusão de pontos de vista não é e de ir à até uma parte numa
[29:31] bica em que ele escreve como se como se como se fosse uma
[29:33] espécie de de peça teatro é é em que em que os marinheiros falam
[29:44] uns com os outros e mesmo graficamente está escrito como
[29:47] se fosse uma peça de teatro e e até ao marinheiro açoriano para
[29:51] lá no meio e os velhos marinheiros falam uns com os
[29:55] outros açoriano com siciliano com com o de long island é bom
[29:59] enfim é um livro que tem de tudo e é eu eu acho que o mel vila
[30:04] deu uma cacetada forte no género com este livro que só tinha sido
[30:09] feita antes disto conservantes não cervantes no dom quixote dá
[30:12] uma cacetada enorme na narração porquê porque é a primeira vez
[30:15] que um que um escritor embora o não quixote seja um livro de
[30:20] narrativas ativo romanescas de um fidalgo de la mancha que está
[30:26] que está em louco ser o que já estava louco sido é há uma certa
[30:31] parte do quixote no começo bom se fosse só isso hã mas mas o
[30:36] mas no começo da segunda parte é o servant as vai assim há
[30:41] grandes extremos para nos convencer que ele não escreveu
[30:44] um livro e quem escreveu o livro foi um tipo chamado sido hammett
[30:47] bringel imediatamente mas acho que este que eram que é um
[30:51] muçulmano que tinha que tinha que tinha ido para o sul de
[30:53] espanha bom mas o que interessa é que o é que o cervantes em mil
[30:59] e seiscentos está a fazer meta literatura ou seja está tentar
[31:03] convencer-nos de que de que a sua narrativa não é a sua
[31:06] narrativa e eu acho isto muito interessante porque caramba foi
[31:09] a do quatrocentos e vinte anos não é é e nessa altura não ser o
[31:16] primeiro a fazê-lo já era para fazer e depois o melville faz
[31:21] isso de novo portanto passam se duzentos e uma bifa publicado em
[31:24] mil oitocentos e cinquenta ocorreu passaram-se duzentos e
[31:27] cinquenta anos até que o descritor que de repente
[31:30] resolveu subverter por completas a a os trâmites da ficção que é
[31:36] que à época era uma coisa realista e e muito e muito
[31:40] simples nosso querido é isso pessimamente sim sim porque ele
[31:44] porque ele começa o livro que a apresentar o o seu narrador
[31:48] ismael que até ao final do livro nós nunca sabemos quem é e os
[31:51] maiores está constantemente a esconder a sua identidade e a
[31:54] contradizer-se ia sendo que a primeira frase parece muito
[31:58] convidativa não é o tratem me por e-mail ou chama mesma ela
[32:02] sim mas ela alguma frase enganador não é por que tratem
[32:05] por esmael não é o mesmo que chamo-me ismael e trata-me por
[32:09] este a trata-me assim porque eu não quero revelar o meu nome não
[32:14] é e este estes condimento do narrador ou ou esta ilusão que o
[32:20] narrador a produz sobre si próprio é uma coisa altamente
[32:24] contemporâneo e portanto o livro do mel depois ainda por cima
[32:28] começa por ser um livro de aventuras mas depois passa pelos
[32:31] trâmites de uma é uma coisa de inspiração religiosa e depois de
[32:34] repente entra uma parte da peça de teatro e depois entre a
[32:37] compra de baleias depois entram coisas que para mim não tem nada
[32:40] a ver com a narrativa principal é e coloque um livro destes em
[32:42] mil oitocentos e cinquenta não não não ia correr bem e portanto
[32:46] foi foi um livro que trouxe grandes amarguras ao melville
[32:49] que viu a sua carreira seriamente limitada porque
[32:52] convive muito pouco na altura e o joão veio a baleia como uma
[32:56] baleia um animal ou é daqueles que vêem nela a o desenho de
[33:01] deus ou a inspiração da força ou ou seja é uma metáfora ou é uma
[33:06] baleia mesmo eu acho que é um bocado sim eu acho que eu acho
[33:10] que é uma baleia mas depois a interpretação é do capitão ahab
[33:13] não é que que que a quem a baleia comeu comeu uma das
[33:18] pernas não me lembro qual é se é esquerda ou direita mas o
[33:20] capitão a passeio com com um osso de baleia no lugar da perna
[33:25] e o desejo dele de vingança é evidentemente um desejo de
[33:28] controlo um desejo de domínio não é da natureza não se já quer
[33:34] sim mas é um desejo de domínio muito parecido com com uma com
[33:38] uma espécie de a tentativa de ser deus não é de de cerda de
[33:44] replicar a o controle o controle universal que não nos pertence
[33:50] não é e uma bike acaba por ser uma espécie de atestado da
[33:56] incompetência humana para se colocar nessa posição e como é
[33:59] que este livro se tornou um um clássico com o que é que é
[34:02] preciso para um livro com pronto já disse mais de duzentos anos
[34:07] ainda se manter a nana cultura e literária mundial porque está
[34:13] traduzido para para imensas línguas e também para o
[34:16] português acho que a que está a que não está esgotada a edição
[34:19] que não está esgotada não estou a conseguir ver que de quem é
[34:23] que é mas aqui uma azulita a da da guerra olha eu eu tenho uma a
[34:29] portuguesa que foi publicada pela europa américa e a tradução
[34:33] é boa é bom sim é bastante boa é que eu eu às vezes antes de
[34:39] começar momento aqui os as edições que que que já ainda
[34:42] estão disponíveis por exemplo a da é da relógio d'água já não
[34:45] está pelo menos neste neste site mas e aí procurando até porque
[34:48] se pode encontrar uma uma edição a bonitona sim numa feira do
[34:53] livros quando quando quando pudermos sair daqui até porque a
[34:57] feira do livro de lisboa pelo menos fica em pé e com isto tudo
[35:00] estávamos vai ser em agosto como é que se tornam um clássico
[35:04] exato como é que não sabe a categoria a nem quis assim acho
[35:10] que acho que tem mais a ver com com a acho que acho que isso
[35:15] isso está mais relacionado com não com o número de pessoas que
[35:18] leem esse livro mas mas mais com a crítica especializada em torno
[35:22] de um romance e e os e os académicos e muita academia a
[35:29] influenciar as leituras não é isso acontece muito quando
[35:31] quando a academia de repente se decide ou por unanimidade quase
[35:36] há um consenso em torno de um certo autor de uma certa obra e
[35:40] chamando lhe um clássico e portanto entra para ok não e
[35:43] quando entra procon começa a ser obrigatório nos nas escolas nas
[35:47] faculdades etc e o mel é obrigatório na faculdade
[35:51] americana obviamente como nós temos o pessoa e o camões etc é
[35:55] e agora o saramago ainda bem é mas não tem tanto a ver com o
[35:59] número de pessoas que aprecia a obra mas muito mais com aquilo
[36:02] que a obra representou são e aquilo que a obra representou no
[36:06] seu tempo não é eu acho que é mais isso porque o porque hoje
[36:09] em dia não há muita gente que eu conheço sei que eu gosto de que
[36:14] gosto muito do moby dick as pessoas realmente lêem acham
[36:16] estranho ou eu tipo identificam-se pouco é um livro
[36:20] é um livro de em algumas coisas de a a e já datado mas se eu mas
[36:27] este tipo de livros tem que ser visto já a luz do seu tempo não
[36:30] é e que leram moby dick pensando no tempo e que ele foi escrito e
[36:35] como foi escrito e as circunstâncias em que foi
[36:37] escrito torna um livro muito muito muito mais interessante e
[36:40] obviamente pois é conhecendo conhecendo o passado ficamos com
[36:44] outra ideia a pouco estávamos a falar da das a nas fases
[36:49] iniciais neste caso a do a do moby dick o trata-me por esmael
[36:54] e queria fazer a pergunta direcionada para si ou seja é
[36:59] tenho aqui uns quantos inícios de de livros por exemplo no seu
[37:03] primeiro livro é o livro dos homens sem luz não é isto é a
[37:08] rádio parece esquisito que quero que os leitores fiquem com com o
[37:11] título como deve ser e não é homens sem luz e li o livro dos
[37:15] homens sem luz porque dito de seguido parece não vemos as pois
[37:19] sim sim claro esse livro começa com a quando fiz trinta e cinco
[37:24] anos nada tinha que pudesse chamar meu no livro que lhe
[37:27] valeu o prémio josé saramago escreveu neste caso eu não não
[37:32] escrevi na no meu guião porque ainda é ainda maiorzinho já é
[37:37] uma evolução já é diferente e neste caso falamos do as três
[37:41] vidas e diz assim ainda hoje sempre que o mundo se apresenta
[37:46] como um espetáculo enfadonho e miserável sou incapaz de
[37:49] resistir à tentação de relembrar o tempo em que por força da
[37:53] necessidade se fui obrigado a aprender a arte a difícil arte
[37:57] do funambulismo portanto já é uma já é maiorzinha já agora já
[38:01] que estamos nesta brincadeira mais um neste caso o de elias
[38:05] gro que até agora eu dizia grupo porque nunca tinha ouvido
[38:08] ninguém aliás o de cecília eu digo falasse isso é que se
[38:12] calhar é flo flo se pois é lá não era nenhuma é é como são
[38:18] nomes inventados portanto é como tu quiseres que seja até até o
[38:21] joão de dizer agora em que é que foi inspirado não meu eu
[38:24] imaginava grupos pronto a a frase que que principia o livro
[38:29] é o paraíso deve consistir a deve consistir no cessar da dor
[38:33] disse elias gro quando o fim se aproximava com estudo a pergunta
[38:38] é se se lhe é particularmente difícil ou não descobrir como é
[38:43] que vai iniciar uma frase um livro e ou se quando encontra a
[38:48] a frase não mexe mais que se está a escrever e olha comecei
[38:51] assim fica assim é como é que é o processo de desta desta
[38:55] primeira frase que estampa um livro nesse caso é depende há
[39:00] vezes em que há a frase fiquei mesmo assim como por exemplo as
[39:05] três vidas a frase com que comecei depois foi a frase com
[39:08] que acabei essa primeira frase nunca foi alterada no caso que
[39:15] outra que tu lês a no caso do livro dos homens sem luz não a
[39:19] tive foram precisos a algumas reescritas do primeiro parágrafo
[39:24] para depois chegar essa frase no caso do elias gro a não me
[39:28] lembro por acaso mas mas é mas acho que o primeiro parágrafo
[39:32] era mais ou menos aquilo que que estava lá já na primeira sim mas
[39:39] depende não há nenhuma fórmula ney oi acho que conforme
[39:42] conforme o tempo passa vou mais percebendo que não há mesmo
[39:45] forma a simplesmente alturas em que um parágrafo sai muito bem e
[39:49] nós sabemos estamos exatamente que é aquilo com que vamos ficar
[39:53] e outras alturas em que às vezes olhamos para trás e pensamos eh
[39:55] pá não eu vou começar mais à frente e então corte as quartas
[39:58] a primeira página por exemplo o cortasse primeiro parágrafo
[40:01] começa se no segundo é eu acho que grande parte do do segredo
[40:05] da escrita é abandonar o perfeccionismo não seja
[40:10] abandonar esta ideia de que fazemos as coisas bem a primeira
[40:14] que está muito entranhado em nós não é porque é porque a escrita
[40:16] é um processo ao mesmo tempo muito íntimo mas também muito
[40:18] técnico é e favorito nós queremos ser é fabricado e nós
[40:23] queremos sempre achar que a gostávamos deixar que a arte se
[40:29] sobreponha ao resto não é se sobreponha à aprendizagem do
[40:32] ofício etc pois mas infelizmente não é assim infelizmente é é
[40:37] como é como qualquer outra forma de expressão artística tão leve
[40:40] ao seu tempo um pintor também não não fica normalmente com a
[40:45] primeira coisa que põe na tela põe sucessivas camadas depois
[40:49] tira depois põe um músico também não não compõe nada a primeira
[40:53] não é vai trabalhando a composição e portanto um
[40:56] escritor é exatamente a mesma coisa vai trabalhando de camadas
[41:00] por cima de camadas e e e muitas vezes os primeiros parágrafos
[41:04] nem sequer são as pessoas parágrafos eu sei que tem uma
[41:07] grande uma grande afeição vamos dizer assim puro por todos estes
[41:10] livros que que trouxe e eu queria destacar o foi foi há
[41:15] três anos que que isto se deu há três anos foi ao outro podcast
[41:18] que não tem mal nenhum destacar também o trabalho de destes
[41:22] destes dois autores é que foi burro biblioteca de bolso em que
[41:26] levou os mesmos livros ou seja engraçado ver que são três
[41:31] livros a que o marcaram de tal forma que se perpetuam e não não
[41:37] encontrou nada que lhe fizesse e que tivesse o mesmo o mesmo
[41:42] impacto na na na escrita não sei se tem nesse caso agora estava
[41:46] aqui a dar um salto de que fazem tem impacto na escrita mas que
[41:50] tenham impactado de tal forma que passavam para o seu top de
[41:54] de livros isto não é uma caixa encontro pergunta é eu sei sei
[41:59] sim encontrei mas a questão é que se eu escolhi esses tem que
[42:02] tirar estes não é tu pediste-me três se eu escolho os os os que
[42:07] me impactaram nos últimos dez anos com a todos estou a tirar
[42:11] aqueles que me impactaram nessa altura e estes três de facto são
[42:15] livros que são são os três livros que eu quando a quando
[42:19] acabei de ler pensei que queria escrevê-los queria tê-los
[42:22] escrito e é sempre raro não é os detetives selvagens é um desses
[42:28] é um quem me dera ter escrito isto não é é já já eu já acordar
[42:32] umas reside sim eu acho que dos três é o mais é é o mais a é o
[42:39] mais selvagem mesmo eu acho que é assim também está não
[42:42] invejável eu acho não acho acho que o mais invejável para mim é
[42:46] o de saramago a agora o gustativos selvagens é um livro
[42:51] que queremos no selvagem no sentido em que eu nunca li
[42:55] nenhuma descrição tão tão sincera e tão e tão verdadeira
[42:59] do que é crescer e do que é tanto estorno mesmo dentro dos
[43:06] livros do belém nunca nunca li uma coisa tão tão avassaladora
[43:11] sobre o que é que é perder a inocência e e perder a juventude
[43:18] não é e é um livro absolutamente incrível nesse sentido e é um
[43:21] dos livros que eu quando cheguei ao final fiquei quase com falta
[43:24] de ar porque aquilo é demais e e pronto eu acho que o balanço
[43:29] teve a sua epifania aqui as pessoas normalmente vão para o
[43:32] dois seis seis seis que é um livro mais conhecido também um
[43:35] livro com mil páginas que tive foi um grande sucesso quando foi
[43:38] publicado cá eu não gosto tanto de doadores às seis eu acho que
[43:41] a grande obra dele para mim esta é este este livro estativos
[43:46] selvagens que é um livro muito mais íntimo há muito mais sobre
[43:50] a juventude o próprio o homem e sobre a a e sobre é é um livro é
[43:57] um livro é um livro é um livro é um livro sobre a melancolia como
[44:01] como é o amostras de reis isso esse é um tema que eu gosto é
[44:06] isso sei sei que sim e e e tal coisa que que o joão tem vindo a
[44:10] repetir que é a gostar de coisas melancólicas até solitárias é
[44:15] uma coisa muito portuguesa e e nesse caso ler sobre solidão e
[44:20] sentir-se só também dá bem dá bem uma com outra que é a que
[44:25] acaba acaba-se por ter ali uma uma boa experiência de leitura e
[44:30] neste caso eu que não li este livro como é que me não diria
[44:34] vendo como venderia não diria isso mas em que é que consiste
[44:38] mais ou menos para ficarmos talvez com um pouco do enredo na
[44:42] cabeça qual deles desculpa o o do do banho porque eu só
[44:47] conhecia a literatura na agenda da nas américas áfrica e nas
[44:50] américas nas américas sim não tem nada a ver os teus selvagens
[44:54] é a história de um rapaz de dezassete anos ou juan garcía
[44:59] madero que vive na cidade do méxico nos anos setenta e e que
[45:04] por porque é um miúdo a porque é um miúdo ao mesmo tempo
[45:09] engraçado onírico mas muito muito tímido e um bocadinho
[45:14] deprimido e tem uns características muito engraçadas
[45:18] e acaba por se envolver com um com um grupo de poetas bastante
[45:23] se bastante loucos o ulisses ulisses bela no e u a desculpa
[45:28] alice lima e o artur delano é que são dois tipos que andam
[45:35] para ali pela cidade do méxico a escrever poesia e me darem cia e
[45:38] a e a fazerem das tripas coração para se dizer também durante
[45:43] este momento inicial passamos pelas primeiras experiências
[45:46] sexuais do do próprio tu próprio tu próprio protagonista e de
[45:52] repente há um momento em que em que em que por uma série de
[45:55] circunstâncias que envolvem umas irmãs que que se são as irmãs
[46:00] fonte o o protagonista e os poetas têm que fugir da cidade
[46:04] porque tenho que ter um tempo atrás deles e e fogem para o
[46:07] deserto e de repente o livro interrompe aí a página cento e
[46:11] tal ou ou não sei sim cento e tal é perto da estação três
[46:16] partes nome se não me engano não é sim e de repente esta
[46:20] narrativa interrompesse ai passamos para uma parte em que
[46:23] são cartas e as cartas vão de novecentos e setenta e pouco até
[46:26] mil novecentos e noventa e tal que a história de de não só do
[46:30] dos dos poetas viscerais como eles chamam não é um grupo de
[46:36] poetas e como a a história de várias personagens que rodeiam
[46:41] este mundo não é e não só no méxico mas mas em várias cidades
[46:45] europeias nos estados unidos etc é uma espécie de puzzle
[46:49] emocional te décadas e e depois na terceira parte voltamos à
[46:56] história do do garcía madero dos idos pode gerar viscerais no
[47:03] deserto de sonora mil novecentos e setenta e acho que em
[47:05] novecentos e setenta e três é mas está acompanhado do joão com
[47:09] a verdade até até o o último número do ano vai vai setenta e
[47:14] cinco desculpa setenta e cinco e e a e a terceira parte são são
[47:19] os últimos dias deles no deserto de sonora eh pá e um pronto é um
[47:23] livro que não têm uma uma narrativa muito obrigado nada
[47:27] linear mas que eu acho acho absolutamente fascinante então
[47:31] então o que eu estou a perceber é que a terceira vai volta para
[47:35] a primeira terceira parte liga que a primeira é isso liga como
[47:39] se não tivesse interrompido não costuma costuma ter fazer ou não
[47:44] nos seus livros não diretamente capitu às vezes eu também às
[47:48] vezes já aconteceu sim sim sim e agora não não estou que sim mas
[47:54] mas aprendemos muito além uau foi houve exato acho que mais
[47:58] umas três vidas faz mais sentido exato acho que não aprendi no
[48:02] sentido em que não não não se não se aprende muito bem essas
[48:05] coisas é um bocado vai se faz lento e vai se se adquirir
[48:10] sentindo sinto caindo a essas essas ferramentas para fechar as
[48:16] narrativas e para lhes dar uma conclusão satisfatória mas não
[48:19] não não posso dizer que tenha aprendido posso dizer que enfim
[48:23] que é um final para mim surpreendente porque porque é um
[48:26] é um é um é um final que deixa deixa tudo em aberto e prontinho
[48:31] naquela altura quando eu li o livro o roberto paulinho é tinha
[48:36] entrado para o cano não é dos dias os grandes escritores
[48:40] sul-americanos e para mim foi foi uma descoberta este livro
[48:45] pois é e outros dele que não gostei tanto a mas para mim os
[48:51] ativos selvagens e é o melhor ficou ficou fixado nele e teve
[48:56] por algum tempo sim parece me parece uma boa sugestão de de
[49:00] leitura e eu enquanto estava a aprender posso dizer assim
[49:05] aprender sobre si porque eu acho não tenho a certeza de que só
[49:10] comecei a ler os seus livros e comecei pela trilogia e há três
[49:15] anos portanto no início da licenciatura em jornalismo
[49:18] portanto foi uma sugestão de um professor aliás acho que caminho
[49:22] até até pode surgir um pouco na conversa mas um professor
[49:26] chamado jorge trindade que que disse já leram joão tordo tem
[49:30] aqui este este este título e foi por aí pronto na na investigação
[49:36] e encontrei um título não de um seu livro mas de uma música de
[49:40] do seu pai que me fez aqui pensar ou seja o seu pai o
[49:44] músico fernando tordo escreveu uma música já há alguns anos
[49:49] obviamente é que se chama como se faz uma canção que o joão que
[49:53] o próprio joão acompanhou com contrabaixo e que naturalmente
[49:56] não é é tudo menos baixo é uma é um instrumento alto e isto em
[50:02] dois mil e quatorze não sei se recorda no espectacular e ari
[50:05] rima com lisboa a ok já lembrava disso sim pronto em que o seu
[50:09] pai estava é na guitarra e cantar e o joão estava em pé sim
[50:13] sim quando o contrabaixo no sítio já me lembro sim sim eu
[50:16] estou a ver a sua cara sim por onde é que ela quer ir eu não
[50:18] estou mesmo a perceber não estava a perceber e ou seja o
[50:22] seu pai escreve e canta esta tal música como se faz uma canção e
[50:27] em dois mil e vinte depois de seis anos a juntar a textos ou o
[50:32] joão é pública então o manual de sobrevivência de um escritor ou
[50:37] o pouco que sei sobre aquilo que faço então podemos dizer que
[50:40] isto é um com como é que se escreve um livro se fossemos pôr
[50:43] ou o título do seu pai e o e o seu lado a lado ou é muito mais
[50:47] do do que isso é olha não não não porque esse essa canção tem
[50:53] muito tempo tem muito tem tem muitas décadas não é eu acho eu
[50:57] acho que essa música e talvez de eu não sei quando é que assim é
[51:00] é santos setenta e acho que é escrita pelo ar e dos santos até
[51:04] não é escrita para sim acho que ele é vários santos foi quase um
[51:08] tributo pois e essa letra é eduardo dos santos portanto se
[51:11] eu tivesse a e se tivesse a replicar alguma coisa seria mais
[51:15] a mais a letra do lar e não é agora não eu achava que tinha
[51:18] sido escrito em conjunto com com o seu pai mas eu não não tenho
[51:22] nada a ver não eu sou só que fui eu só devo te não sei que não
[51:27] sei como é que aparece isso não não faço ideia mas é lembro-me
[51:31] desse conceder-se concerto sim eu eu eu fui lá acompanhar mas
[51:36] eu já não toco contrabaixo há quase três anos e entretanto
[51:40] antes havia centro com com a quantidade de livros que escrevo
[51:43] e a vida muito ocupada deixei de deixei de ter tempo mas a mas
[51:48] não não porque o meu livro não é uma um embora se chame manual
[51:54] que é o nome enganador não é um manual não é uma que não é mas
[51:58] não há instruções para chegar pois não há instruções eu acho
[52:01] que esses títulos são sempre irónicos não é como se faz uma
[52:04] canção ou como é que escreve um livro é sempre irónico ninguém
[52:06] sabe ninguém sabe explicar eu posso quando muito tentar de
[52:11] passar a minha experiência que foi que foi que eu tentei fazer
[52:14] neste neste livro é e também responder àquelas perguntas que
[52:17] falávamos no início não é que os leitores até mesmo pessoas que
[52:21] não não estão interessadas em ser escritora escrever fazem e
[52:25] são curiosas acerca dessas perguntas e também porque me
[52:28] parecia que no mercado português não há não há muito estes anos
[52:31] de tradição não a este género de livros de pensar irmos muito
[52:35] longe sim há livros muito bons do paa do stephen king a um
[52:39] incrível que se chama que se chama on lightning que é
[52:42] absolutamente genial sobre o processo de escrita há outro da
[52:46] anulam ate que também é fantástico chamado bird bird há
[52:50] outros uol tem um ensaio sobre o homem sim mas é muito pequenino
[52:54] são são dez páginas livro escreve cola macon também é o
[53:01] que cola mccann também tem um livro muito giro chamado
[53:03] cartelas de cartas a um jovem escritor enfim uma a uma a toda
[53:06] uma tradição que é o que é mais anglo-saxônica de de contar
[53:11] sobre o processo e este contar não é necessariamente um não são
[53:15] não são não são estes não são instruções não há instruções
[53:18] algumas coisas podem ser sugestões podem sim mas mas a
[53:21] ideia nunca foi explicar nada a ninguém nem nem se explica
[53:24] porque eu não consigo explicar o que eu posso fazer é é dizer
[53:28] olha quando quando estava a passar por isto que sentido
[53:31] desta maneira e a minha resposta pode ir foi esta eu acho que foi
[53:35] a resposta certa ou acho que foi a resposta errada e e vou
[53:39] contando a minha experiência porque há muitas coisas que
[53:41] rodeiam a escrita que muitas vezes nem sequer são nem sequer
[53:45] são faladas não é o enfim que se que aquela questão das editoras
[53:50] onde é que se publica a questão da crítica a questão da inveja a
[53:54] questão de da edição a questão de a a questão do sucesso papo
[54:02] gostoso fracasso essas coisas todas isto porque das quais
[54:06] normalmente nós não queremos falar porque são porque são
[54:09] questões incómodas não é não são não são fáceis de falar mas acho
[54:13] que o joão tem tem vindo a falar sobre essas essas coisas até até
[54:17] que não seja na na apresentação do livro mesmo com a editora
[54:21] falar um pouco e da necessidade não ele se sim magda mas uma
[54:26] hora eu falo agora foi sempre um bocado sozinho pessoas porque
[54:30] nos na nas duas dezenas ou três descritores profissionais em
[54:34] portugal acaba por ser ninguém fala disto não não há quase
[54:38] nenhuma tradição de falar sobre o processo de escrita nem como
[54:41] se sente em relação à escrita nem como nem não há portanto
[54:44] talvez o mário carvalho tenha tentado fazer mas mas de um modo
[54:47] mais um bocadinho mais técnico do que o meu livro e no livro
[54:52] dele a mas pronto às vezes sinto um bocadinho ir um bocadinho
[54:55] sozinho nesta nesta conversa com os leitores e com os putativos
[55:00] escritores etc mas pronto acho que acho que com o tempo se
[55:02] calhar vão aparecendo coisas novas eu estava estava me aqui
[55:05] lembrar de um de um livro do de ricardo nespereira agora não me
[55:09] estou a lembrar do nome mas é mas que fala das teorias não é
[55:11] bem das teorias de amor mas como é que se constrói a sim não mas
[55:15] é da chama-se eh eh pá eu tenho um livro aí é um é um livro
[55:20] pequenino que tem umas caveiras na capa exatamente é doença o
[55:24] sofrimento e a morte entram num bar uma espécie de manual de
[55:28] escrita turística sim pronto sim isto porque às vezes acha se há
[55:33] outros construir uma piada não se faz isso não se constrói uma
[55:36] piada porque a estraga mas isto fazendo a ponte para a escrita é
[55:42] a ao desconstruir um truque de magia ou uma piada que se
[55:48] acabamos por nos interessar mais por ai então é assim que se
[55:51] chega a esta narrativa é assim que se faz um romance acaba por
[55:55] ser uma uma torre de coisas que nos dão mais interesse em em em
[56:00] ler tanto aquele autor como como mais literatura acaba se
[56:04] perceber não sei se concorda com esta linha de pensamento a sim
[56:10] acho que acho que pode ter um lado esse lado positivo também
[56:12] para um escritor pode ser chato é desconstruir eso sua própria
[56:17] experiência porque muitas vezes isso isso e isso afasta nos da
[56:21] experiência não é um bocado aquela coisa quanto mais pensa
[56:23] mais espera daquilo que se pensa não é não sou quando está a
[56:26] dançar e se põe a pensar em em dançar vai acabar por pisar os
[56:31] pés do pareceu não sentir pois pois portanto às vezes às vezes
[56:35] tem esse lado mas mas eu como não posso evitá-lo porque dou
[56:38] aulas não é e como dou aulas os meus alunos eu gosto de
[56:43] partilhar a minha experiência com eles acaba por enfim por
[56:46] fazer naturalmente essa desconstrução é mas pronto é um
[56:52] mas é engraçado que eu imagino joão no final de dez dessas
[56:56] aulas apegar não é totalmente na brincadeira mas a pegar nos
[57:00] power points e virá assim esta me boa ideia para o meu livro é
[57:04] este ponto daqui que eu falei da construção dos personagens eu
[57:07] nunca usei um powerpoint da minha vida não sei o que é se
[57:09] queres é mais não não é mais é da palavra mas ao realidade e
[57:14] vão vão apontando isso pode contactar por isso eu não fui
[57:18] sim é um quadro não é sim eu não vou se eu não uso nada disso eu
[57:23] eu que o que faço é para já durante as sessões vamos vamos
[57:28] lendo muito que eu acho que é muito interessante para quem
[57:30] para quem assiste é vamos vamos falando de vários autores que eu
[57:34] acho que são interessantes para dentro da minha tradição
[57:37] literária e às vezes também os os os formandos sugerem sugerem
[57:43] coisas mas longe de mim de estar é que estar a querer criar as
[57:46] estruturas ou mexer nas personagens deles ou não acho
[57:50] que isso é acho que isso não faz nenhum sentido até porque até
[57:54] porque a escrita tem um lado muito muito pessoal e muito
[57:58] muito só nosso que no qual ninguém pode mexer isso é isso é
[58:03] isso tem a ver com a construção de uma voz própria que só eles é
[58:05] que podem fazer é não é não eu máximo que posso fazer é
[58:08] partilhar minha experiência as vezes dizer alguma coisa olha se
[58:11] calhar esse caminho estás a ir podes pensar melhor nisso ou se
[58:15] calhar havia outros outro outras hipóteses ou se calhar essa
[58:17] personagem pode ser um bocadinho mais trabalhada mas mas não faço
[58:20] muito mais do que isso não não vou estar a mexer no trabalho
[58:23] alheio dessa maneira nem nem a dar e muito menos a dar fórmulas
[58:28] e e powerpoint xii regras porque isso não existe e sem escrita
[58:33] não existe no seguimento de uma pergunta da da a pouco fiquei
[58:37] aqui a pensar se como tenho um livros que não distam muito uns
[58:43] dos outros é se se se acha que as pessoas que isso é bom para
[58:48] os leitores a terem os escrever um eles já estão a ler outro é e
[58:53] vem e a este andamento ou se por algum ou se não tem algum medo
[58:57] de que não consigam acompanhar o ritmo de publicação de alguma
[59:02] maneira e não é um bocado provocação mas eu percebo sim
[59:07] mas não há até agora tem sempre conseguido acompanhar e eu vou
[59:11] misturando as coisas portanto não sei num ano em que sai um
[59:14] romance literário não sai dois não é sai sai um romance
[59:18] literário se calhar sai um livro um livro de um livro de ensaios
[59:21] ou pronto portanto eu vou tentando mostrar-se o ano
[59:24] passado saiu um romance literário e um policial que os
[59:26] públicos não cruzam se mas mas não são os mesmos há muita gente
[59:31] que então a qualidade diga dia não e os o público dos policiais
[59:36] e dos thrillers muitas vezes e embora se cruzou com o do
[59:40] romance literário não é exatamente o mesmo portanto vai
[59:44] apanhar uma franja de público não está eu e e depois o público
[59:47] do gosta de ler ensaios também não não se cruza sempre com o
[59:50] público que lei que leu o resto e portanto eu vou tentando vamos
[59:54] tentando não é coisa variar agora não eu acho que eu acho
[59:57] que há sempre gente que que que está à espera do próximo romance
[1:00:01] claro e depois e depois também há pessoas que se interessam
[1:00:04] mais por um romance tu que outro pelo pelo tema narrativas estou
[1:00:07] a história de certa portanto não não acho muito que haja esse
[1:00:10] perigo claro coisas não não vou publicar livros todos os meses
[1:00:15] nem todos os mestres não é mas há neste momento estou com estou
[1:00:20] com a produção mais tenho tenho tenho várias coisas na gaveta e
[1:00:27] e estou a escrever bastante e portanto não vais porque não há
[1:00:31] aproveitar estes anos em que tenho mais mais embalo por assim
[1:00:35] dizer se calhar daqui a dez anos estou a escrever um livro a cada
[1:00:40] dois anos imagina não sei não sei mas neste momento é
[1:00:43] aproveitar que tenho este embalo e pronto e já e já com o público
[1:00:47] já que os leitores estão parecem estar interessados pelos meus
[1:00:50] livros ótimo fico muito contente engraçado como como joão pinta o
[1:00:54] cenário de ter um livro novo a cada dois anos como como mau e é
[1:00:59] engraçado essa é nossa medicação a não apareceu é um ritmo mais
[1:01:04] mais não sei não e não é de tudo acho pelo menos acho que não
[1:01:09] quem sou eu para achar coisas mas é pronto continuo a achar
[1:01:12] que eu me perceba quer dizer para mim é um ritmo lento mas se
[1:01:17] tu pensares que um livro muitas vezes mas de leitores de ler um
[1:01:20] livro meu numa semana ou em quatro dias ou em cinco dias
[1:01:24] quer dizer se sair um por ano e parece-me pouco até não é quer
[1:01:30] dizer não não parece assim muito parece-me que que quer dizer se
[1:01:35] se um um escritor de quem eu gosto muito se essa pessoa
[1:01:39] publicar todos os anos eu fui ou fico feliz não é portanto acho
[1:01:43] bom entretanto também se podem ir entretendo com com
[1:01:47] entrevistas que o joão dako é e meia acaba por ser ler de outra
[1:01:52] maneira então não se preocupa com ou seja se se nós pudermos
[1:01:57] todos os seus livros à à nossa frente em linha se calhar
[1:02:00] cronológica e com com concordará mais ou menos de uma forma ou de
[1:02:06] outra que um tem uma qualidade de ter outra mais ou menos e
[1:02:10] isso faz uma qualidade média isto porque fiquei a pensar numa
[1:02:14] numa entrevista que vi o que eu vi ontem do tal professor jorge
[1:02:17] trindade não sei se lembra de eu ter andado pouco de falar dele
[1:02:21] foi um professor meu da que me dava a língua expressão de
[1:02:25] português e entretanto outra cadeira olha até onde escrevi um
[1:02:28] conto inspirado num nulo tílias gru é nada nada que tenha tenha
[1:02:35] que ver aqui com ele a nossa conversa mas eu só sim é numa
[1:02:39] entrevista que o que o top senhor deu a o podcast humor à
[1:02:43] primeira vista que é um podcast do expresso ele ele tem uma ele
[1:02:47] tem uma uma formação em literatura vai digamos assim e
[1:02:51] ele falou de de eça de queiroz e de de camilo castelo branco na
[1:02:54] sobre isto na da qualidade da média ele dizia claro que é eça
[1:03:00] de queirós ter uma qualidade média superior a camilo castelo
[1:03:02] branco porque um tem meia centena de livros e o eça
[1:03:06] escreveu menos portanto a esta balança não é preocupar-se com
[1:03:11] este tipo de quem é que tem meia centena de livros e que penso
[1:03:14] que queiram camilo castelo branco tenho eu tenho pra mim
[1:03:16] meia centena de duzentos e tal talvez mais eu vi uma lista
[1:03:22] assim estão aqui uns setenta mas não quer estar daqui a são são
[1:03:26] mais de duzentos pronto lá está mais me ajuda não é acaba por
[1:03:29] ser engraçado também mas que já perguntavas isso por quê se se
[1:03:34] tem alguma preocupação com isto de da qualidade média ou se não
[1:03:39] é uma preocupação para não para agora porque eu tenho muitas
[1:03:41] ideias depende porque eu não claro eu eu acho que sempre que
[1:03:46] quanto quanto quanto mais tempo tu puderes dedicaram a um
[1:03:50] projeto não é melhor ele sai mas não é mas não é todo o tempo
[1:03:56] possível imaginar e se quiser se me dessem liberdade eu se calhar
[1:03:59] estava a escrever os livros a até ao final da vida não é
[1:04:03] classe mas ainda bem que tem que tem que os publicar porque é que
[1:04:06] há prazos sim e porque tira umas coisas das mãos e eu finalmente
[1:04:11] consigo libertar-me delas não é e pronto não há não há livros
[1:04:15] perfeitos não há isso não existe não é pá isso não existe e
[1:04:19] portanto não não não me parece que haja muito esse risco no
[1:04:22] sentido em que eu também tenho tenho tenho consciência tenho
[1:04:27] uma editora e tenho pessoas que me vão conciliando e que me vão
[1:04:30] dando dicas e portanto se eu chegar a uma altura em que tem
[1:04:33] que estou a publicar é só publicar e a quilos e quilos e
[1:04:37] não me diz nada aí não é aí não vale a pena publicar eu sou eu
[1:04:40] desde desde no diria que nos últimos seis ou sete anos de
[1:04:44] facto acelerei muito o ritmo de publicação porque o meu ritmo de
[1:04:48] escrita acelerou muito ou seja a comecei a escrever com outra
[1:04:54] ganhei outra disponibilidade para a escrita também fruto de
[1:04:58] ter entrado numa nova fase em que fiz um em que fiz um acordo
[1:05:02] também bastante bastante mais é proveitoso com a editora com que
[1:05:08] publica agora pinguim e portanto desde derme condições para poder
[1:05:12] escrever ter tempo para escrever e portanto quando dão condições
[1:05:16] para isso eu eu eu faço mas só escrevo quando quando ou seja só
[1:05:22] só começa um livro quando sinto mesmo que tenho que tenho alguma
[1:05:25] coisa ali para contar depois o resto é papo de trabalho não é
[1:05:31] agora não se se eu começar a perder a perder a qualidade aí
[1:05:36] tem que parar e tem que rir comissionar e mas acho que isso
[1:05:39] não vai acontecer porque não ao fim de tantos livros eu já tenho
[1:05:43] mais ou menos a consciência do que é que posso fazer do que
[1:05:46] estou a fazer melhor do que estou a fazer pior e e não e não
[1:05:49] parece que isso seja um perigo agradeço-lhe calma e com que
[1:05:53] respondeu a a pergunta que era que aqui um um um pique não é é
[1:06:00] e acaba por ser engraçado é que isto já caiu aqui estava a dizer
[1:06:06] que não há livros perfeitos mas este o ano da morte de ricardo
[1:06:09] reis de josé saramago já se encaixa um pouco nessa nessa
[1:06:13] nessa categoria para si sim eu acho que eu acho que o onde uma
[1:06:18] reis e está lá perto não é não é perfeito como como os lusíadas
[1:06:23] não são perfeitos que ou como como ulisses de james joyce não
[1:06:27] é perfeito pronto agora para mim está está muito perto daquilo
[1:06:32] que eu acho que é um livro é para já ter um rasgo de génio
[1:06:36] que tem a ver com a ideia não é que a premissa da história
[1:06:38] também tem esse raio de génio depois tem uma investigação
[1:06:41] histórica é também bastante bastante apurada que o saramago
[1:06:45] e eintracht s ali naquela história com com muita
[1:06:48] habilidade através do do através dos jornais e das noticias que o
[1:06:54] ricardo reis vai lendo a época não é e portanto de anos de todo
[1:06:58] o retrato de uma época de novecentos e trinta e seis idade
[1:07:01] da ascensão dos regimes fascistas por toda a europa etc
[1:07:04] e e é um detalhe era foi uma foi uma época por exemplo choveu
[1:07:09] muito e ele retrata isso até porque ele já era já era vivo
[1:07:12] entre e acho que já tinha catorze anos nessa altura tinha
[1:07:16] catorze anos sim porque já estava assim que eu pensei que
[1:07:18] já estava aqui a baralhar sim é e ao retrato de uma época em
[1:07:22] lisboa também numa cidade que já não existe não é e que e também
[1:07:27] de um de um enorme um uma paixão muito grande pelo pessoa ai pelo
[1:07:33] isso está tudo misturado no livro e portanto eu acho que ele
[1:07:38] viverá uma acho que é mesmo daqueles livros que ainda bem
[1:07:41] que que no pnl por exemplo no plano nacional de leitura o
[1:07:46] livro passou a ser o livro do saramago que se lêem antes era o
[1:07:50] memorial do convento sim pois que eu acho porque ele morre de
[1:07:53] raiva é muito é já um romance do qual eu gosto muito mais e e
[1:07:57] depois para para um miúdo de quinze parte dezasseis anos
[1:08:02] também é um livro bastante mais interessante e retrata uma uma
[1:08:05] época mais recente não é não é assim não é o século dezoito era
[1:08:10] já já é o vinte e e essa mistura estava me falar de de coisas
[1:08:15] fique da ficção em coisas reais misturado da história e ficção
[1:08:18] porque neste caso é um heterónimo do do que estamos a
[1:08:21] falar não é ricardo razão entre o nome de fernando pessoa é essa
[1:08:24] mistura que que eu a rebata é uma palavra péssima para para
[1:08:29] aonde o não é pra rádio a rebata mas mas relatar arrebatar é sim
[1:08:35] essa mistura entre ficção e realidade é muito interessante
[1:08:38] porque bom a ficção tem tem sempre uma origem mais ou menos
[1:08:44] aqui não é a questão é que é que a começar a olhar para a
[1:08:50] realidade como um escritor tem várias implicações uma é deixar
[1:08:55] de se conseguir viver deixar-se conseguir por vezes viver a
[1:08:58] realidade como com alguma normalidade um escritor que
[1:09:03] acontece assim sim acontece me às vezes é tendo-a como como
[1:09:08] como como estou constantemente efabular às vezes parece que
[1:09:13] estou distanciado das coisas não é e estou a ver as coisas de um
[1:09:17] de um sítio mais remoto ou estou a ver as coisas de cima não sei
[1:09:21] não no sentido de transcendência da senhora alucinar não é isso é
[1:09:28] mais longe mas sim através de um prisma se calhar eu percebo a
[1:09:33] imagem de si mas que se percebem mas não é um prisma acho que é
[1:09:36] mais é mais olhar para a realidade não quero não quero
[1:09:41] não quero estar a dizer isto porque parece muito forte mas
[1:09:44] como se como se nós tivéssemos cá como se tivéssemos mortos não
[1:09:46] é e portanto estamos a olhar para para as coisas com com com
[1:09:51] um distanciamento é que nos permite a nos permite observar o
[1:09:56] mundo de uma maneira um bocadinho diferente é isso esse
[1:10:01] esse esse ponto de vista do escritor e demora algum tempo
[1:10:04] até chegar não é vamos vamos treinando praticando começando a
[1:10:09] usar pedaços da realidade nos livros que foi que foi o que eu
[1:10:12] fiz durante os primeiros anos e depois às tantas conforme a
[1:10:16] cabeça se começa a ficar ginasticada nesse sentido e o
[1:10:18] cérebro é um órgão infinitamente maleável e portanto nós vamos
[1:10:22] vamo lo condicionando com com com enfim com com o modo como
[1:10:28] nós existimos e e eu como escrito enquanto escritor que
[1:10:32] estou passa grande parte do ano e fabular e portanto o meu
[1:10:36] cérebro está muito condicionado pela necessidade de e fabulação
[1:10:41] logo muitas vezes grande parte da realidade para mim não é não
[1:10:45] é exatamente o que está lá mas o que podia estar era isto que eu
[1:10:48] queria dizer e por isso isso às vezes queria uma grande um
[1:10:52] grande vazio entre aquilo que de facto a e aquilo que de facto
[1:10:55] existe e e eu e o modo como como isso como existe na página e
[1:11:02] estas também queria confusão não foram poucos os escritores que
[1:11:06] perderam o juízo por causa disto não é a imaginação é uma
[1:11:10] faculdade favoritíssima e se não isso não for se não for usada
[1:11:14] com contenção como qualquer outra faculdade e pode tomar
[1:11:19] conta não é e acho que foi exato foi assim uma das palavras que
[1:11:24] que josé saramago usou para descrever a escrita do joão a
[1:11:28] capacidade enorme de e fabulação que não se encontra facilmente
[1:11:32] lembrei-me agora que está aqui na badana do das três vidas é e
[1:11:38] então neste caso o o joão ficou ficou atraído por este livro
[1:11:43] pela pela capacidade de fabulação do de saramago depois
[1:11:46] para para escrever o ano da morte de ricardo reis é porque
[1:11:49] tem tem fantasmas que não são bem fantasmas pelo que ele
[1:11:53] escreve tem um fantasma do pessoa não é se bem que o
[1:11:57] ricardo reis é ele a própria um fantasma porque é um fantasma de
[1:12:01] uma pessoa que nunca existiu não é o que é duplamente sinistro
[1:12:05] por assim dizer a mas sim eu acho que o que me fascina nesse
[1:12:10] livro foi foi bom mas também a escrita a linguagem não é dizer
[1:12:15] linguagem também também é muito importante nesse romance claro e
[1:12:18] a maneira como nos vai ali anos não é vamos vamos levando numa
[1:12:21] numa num ritmo quase canta quase encantatório não é nós vamos
[1:12:25] andando por ali naquela maneira muito muito delicada e mas no
[1:12:30] tempo muito muito poderosa que o saramago tem de contar e
[1:12:34] portanto nós somos aliados com facilidade tal como ricardo reis
[1:12:37] deambula pela cidade nós temos pela história isso exato já ouvi
[1:12:42] já ouvi falar do já ouviu o joão falar de de ricardo reis como
[1:12:46] uma pessoa que como nós sabemos que é muito atraída para a
[1:12:49] solidão ele passa muito tempo sozinho e ele queixa-se de de
[1:12:53] estar sozinho até mesmo quando tem não vou dizer opção de duas
[1:12:57] mulheres mas tenho duas mulheres neste livro é lídia que que
[1:13:02] acaba por ser é o tropeça com ela no no no hotel e e
[1:13:09] entretanto a hummer senda não o contrário se mas o menos as duas
[1:13:13] estavam mais ou menos no mesmo sítio é o o joão recente se
[1:13:18] parecido com ricardo reis de alguma maneira a boa pergunta
[1:13:25] esquisita eu sei esquisito assim às vezes sim às vezes acho que
[1:13:29] acho que acho que toda acho que há um lado do ricardo reis que é
[1:13:33] o saramago não é ela é um lado e eu ia todo um lado muito forte
[1:13:37] do saramago que é o que é um escritor que eu ou seja ou seja
[1:13:42] o fabulador o mentiroso não é é e eu identifico me com isso e
[1:13:48] portanto para mim assim acho que de facto há um lado sinto mais
[1:13:51] vezes o ricardo reis sinto uma personagem a sinto alguém que
[1:13:57] que é o duplo de qualquer outra de qualquer coisa não é isso é
[1:14:00] isso é interessante para porque não conheço nenhum escritor que
[1:14:04] não tenha que não tenha de certa maneira essa característica de
[1:14:07] ser de ser um duplo não é ser uma está a replicar a vida
[1:14:13] noutro lado qualquer que não aqui é e dessa ser a sua
[1:14:18] verdadeira vida isso às vezes é assustador não é quando quando
[1:14:21] quando eu por exemplo estou estou escrever e estou muito
[1:14:25] envergonhado num livro e de repente aquilo é a minha
[1:14:28] verdadeira vida e é mais poderoso do que a minha vida
[1:14:31] real isso e esse é o grande fascínio e é de facto aí que que
[1:14:37] uma pessoa percebe que é para já que leva leva este e leva a vida
[1:14:44] que está deste lado demasiado a sério isto depois e depois que a
[1:14:48] vida e depois que a vida que está do outro lado do que está
[1:14:52] na página que está que está na imaginação que está no gostaria
[1:14:56] fabulação é é tão mais poderosa do que esta que está aqui não é
[1:15:02] por acaso que não vemos força é é porque é aquela coisa não
[1:15:07] grande parte da nossa vida imaginada não é ou seja nós
[1:15:11] passamos os dias é imaginar uma vida que está a acontecer
[1:15:15] algures mas não exatamente aqui não estamos sempre para
[1:15:17] projectar que amanhã vamos estar com não sei quem vai acontecer
[1:15:20] isso vai acontecer aquilo depois pá semana que vem voltar não sei
[1:15:22] aonde e a nossa vida é uma constante projeção da imaginação
[1:15:27] num futuro que ainda não aconteceu e num passado que
[1:15:29] nunca se mais vai repetir e portanto a não sei acho que isto
[1:15:35] é é ficção é uma é uma espécie de fixação na no no tempo de uma
[1:15:45] de uma história não é e de uma história bastante mais bastante
[1:15:49] mais a consistente do que a nossa própria é agora agora para
[1:15:54] para começarmos a a fechar então o episódio é mas espero que não
[1:15:59] tenha estado tão a entranhado na na ficção para não acho que deve
[1:16:05] ter notado que se falou muito de de estátuas e da de deitar
[1:16:10] abaixo algumas é que mesmo agora na atualidade com com exemplo o
[1:16:16] padre antónio vieira que que que andaram a pintar e por aí porque
[1:16:20] acabam por ser valores do passado e que ainda estão em pé
[1:16:25] e isto para lhe perguntar se de alguma maneira e faria faria uma
[1:16:30] estátua a saramago não seja nem que seja por este livro e e não
[1:16:35] sei bem se eu se eu gostaria de termos pois também não sei se
[1:16:38] ele gostaria mas se eu fizesse se calhar ou se tivesse que
[1:16:42] fazer se calhar seria uma estátua dele assim num numa esse
[1:16:47] não é assim em bronze ou em basalto daquele escuro e até
[1:16:52] porque ele faz faz dez anos que que que faleceu ainda há uns
[1:16:56] dias foi detido foi cem dias outros e faria uma estátua dele
[1:17:01] a sentado num banco do parque ali em frente à casa dos bicos
[1:17:05] mas não mas não faria uma estátua dele daquelas daquelas
[1:17:08] que se olha lá para cima porque acho que isso que acho que a
[1:17:10] prova será mago não gostaria disso faria uma estátua um
[1:17:13] bocadinho mais tipo pessoa na brasileira sentado não sei se
[1:17:19] calhar com um livro sim uma coisa mais simples é isso que
[1:17:23] ele fala uma coisa mais simples que seria escrever e estava me
[1:17:27] lembrar que por exemplo a pegando aqui saramago escreveu
[1:17:31] um livro pegando em ricardo reis fez dele uma personagem próprio
[1:17:35] fernando pessoa tinha escrito na mensagem um poema sobre bandarra
[1:17:40] o joão já alguma vez pensou em fazer a mesma coisa com saramago
[1:17:43] ou seja trazê-lo para para o mundo da ficção fazer dele uma
[1:17:45] personagem ou é algo muito fora da caixa quer fora da caixa eu
[1:17:50] não mas o eu não me espero agora mas isso agora recentemente sim
[1:17:57] no no livro no último no último romance dele ou autobiografia eu
[1:18:01] não por acaso nunca pensei nisso e não sei se não sei se teria se
[1:18:05] teria interesse nisso a no sentido em que a esse tipo de
[1:18:11] metaficção a é muito característico de alguns
[1:18:16] escritores eu não eu não e eu às vezes faço isso mas mas faço com
[1:18:20] referências dentro dentro do meu próprio universo não fora dele e
[1:18:23] não acho que acho que não acho que não não me ocorreria por
[1:18:27] enquanto fazer isso vamos ver se daqui a uns anos muda da da
[1:18:32] opinião se eu fizer eu eu chego ao pé de si que pode ser que já
[1:18:37] já possamos fazer e dou-lhe um um um passou bem como se costuma
[1:18:41] dizer eu joão quero agradecer agradecer a a a grande
[1:18:45] disponibilidade porque lhe tirem bastante tempo claro obrigado eu
[1:18:48] não tenho para amanhã e já agora fica a nota de que em setembro
[1:18:51] vai sair o o filme o ano da morte de ricardo reis e do
[1:18:54] realizador joão botelho do joão pessoa de cera de ser engraçado
[1:18:58] joão obrigada as sérvia ma

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